Narciso Gomes
Departamento Ciˆencia & Tecnologia, Uni-CV, Campus de Palmarejo, Cabo Verde
Janeiro 2011
1
Fun¸
c˜
oes impl´ıcitas
1.1
Exemplos
No estudo de fun¸c˜oes reais de vari´aveis reais, encontram-se exemplos de fun¸c˜oes que s˜ao definidas implicitamente atrav´es de solu¸c˜oes de equa¸c˜oes em que intervˆem duas. Exemplo 1.1
A equa¸c˜ao y − x2+ 1 = 0 define a fun¸c˜ao y = x2− 1(Ver Figura 1).
Figura 1: Par´abola da fun¸c˜ao y = x2− 1
Observe-se que
y − x2 + 1 = 0 ⇔ y = x2− 1,
e assim, a mesma par´abola pode ser descrita de duas formas diferentes:
(i) Como o conjunto de n´ıvel zero da fun¸c˜ao F : R2 → R definida por F (x, y) =
y − x2+ 1, ou seja, o subconjunto de R2 em que F (x, y) = 0.
(ii) Como o gr´afico da fun¸c˜ao f : R → R dada por f (x) = x2 − 1, ou seja, como
o subconjunto de R2 em que y = f (x). Por outro lado, podemos afirmar que a equa¸c˜ao F (x, y) = 0 define uma das vari´aveis como fun¸c˜ao da outra y = f (x).
Exemplo 1.2
A equa¸c˜ao x2+ y2 = 4 n˜ao define uma fun¸c˜ao j´a que dela resulta(Ver Figura 2):
(i) y =√4 − x2 para −2 < x < 2 e y ≥ 0, ou
(ii) y = −√4 − x2 para −2 < x < 2 e y ≤ 0.
Figura 2: Circunferˆencia resultante da equa¸c˜ao x2+ y2 = 4.
No entanto x2+ y2 = 4 e y ≤ 0 j´a definem implicitamente uma equa¸c˜ao. Qual?
Para cada uma das fun¸c˜oes pode ser descrita de duas formas diferentes. Por exemplo, para o caso y ≥ 0 :
(i) Como o conjunto de n´ıvel zero da fun¸c˜ao F : R2 → R definida por F (x, y) =
x2+ y2− 4, ou seja, o subconjunto de R2 em que F (x, y) = 0.
(ii) Como o gr´afico da fun¸c˜ao f :] − 2, 2[→ R dada por f (x) =√4 − x2, ou seja, como
o subconjunto de R2 em que y = f (x).
Para y ≥ 0, a equa¸c˜ao F (x, y) = 0 define uma das vari´aveis como fun¸c˜ao da outra y = f (x). Portanto, se verifica localmente, em torno de cada um dos pontos, a equivalˆencia
F (x, y) = 0 ⇔ y = f (x).
1.2
Condi¸
c˜
oes para fun¸
c˜
oes do tipo F (x, y) definidas
implici-tamente
Seja F (x, y) = 0 uma fun¸c˜ao nas vari´aveis x e y e (x0, y0) um elemento pertencente ao
dom´ınio de F , tal que:
(i) F (x0, y0) = 0;
(ii) F possui derivadas parciais cont´ınuas numa vizinhan¸ca do ponto (x0, y0);
Ent˜ao, F (x, y) = 0 define implicitamente y como fun¸c˜ao de x numa vizinhan¸ca do ponto (x0, y0). Al´em disso, a derivada da fun¸c˜ao y de x no ponto x0 ´e dada por:
dy dx(x0) = − ∂F ∂x(x0, y0) ∂F ∂y(x0, y0) .
Exemplo 1.3 Considere a equa¸c˜ao 1 + y = x2− ln y.
(a) Mostre que a equa¸c˜ao dada define y como fun¸c˜ao impl´ıcita de x numa vizinhan¸ca do ponto P = (√2, 1).
(b) Calcule dydx(√2) e ddx2y2(
√ 2).
1.3
Exerc´ıcios Propostos
Exercicios Propostos 1.4 Determine dydx e ddx2y2 das fun¸c˜oes dadas implicitamente
pelas equa¸c˜oes:
(a) x2y2+ x − 2y3 = 0.
(b) x2− yx + y2 = 1.
1.4
Condi¸
c˜
oes para fun¸
c˜
oes do tipo F (x, y, z) definidas
implici-tamente
Considere agora a equa¸c˜ao
F (x, y, z) = 0 (1) uma fun¸c˜ao nas vari´aveis x, y e z e (x0, y0, z0) um elemento pertencente ao dom´ınio
de F . A equa¸c˜ao (1) define implicitamente z como fun¸c˜ao de x e y, z = f (x, y) numa vizinhan¸ca de um ponto (x0, y0, z0) pertencente ao dom´ınio de F nas mesmas condi¸c˜oes
anteriores, ou seja:
(i) F (x0, y0, z0) = 0;
(ii) F possui derivadas parciais cont´ınuas numa vizinhan¸ca do ponto (x0, y0, z0);
(iii) ∂F∂z(x0, y0, z0) 6= 0.
Assim, as derivadas parciais da fun¸c˜ao z em ordem a x e y, respectivamente, s˜ao dadas por: ∂z ∂x(x0, y0) = − ∂F ∂x(x0, y0, z0) ∂F ∂z(x0, y0, z0) e ∂z ∂y(x0, y0) = − ∂F ∂y(x0, y0, z0) ∂F ∂z(x0, y0, z0)
Assim, ser´a de forma an´aloga para F (x1, x2, . . . , xn, yx) = 0, pondo f (x1, x2, . . . , xn) =
yx, com f de classe C1. Desta forma,
∂f ∂xi (x1, . . . , xn) = − ∂F ∂xi(x1, . . . , xn, f (x)) ∂F ∂y(x1, . . . , xn, f (x)) .
Exemplo 1.5 Mostre que as seguintes equa¸c˜oes definem z como fun¸c˜ao impl´ıcita de x e y numa vizinhan¸ca dos pontos mencionados. Calcule ∂z∂x e ∂y∂z nesses pontos.
(a) − cos(x + 2y + z) = 2x + y − 3z − 1 na vizinhan¸ca de (0, 0, 0). (b) x + y + z = sin(xyz) na vizinhan¸ca de (0, 0, 0).
Observa¸c˜ao 1.6 Seja F : R2 → R uma fun¸c˜ao de classe C1 e (x0, y0) um ponto tal
que F (x0, y0) = 0. Suponhamos que, em alguma bola centrada no ponto (x0, y0) se tem
F (x, y) = 0 ⇔ y = f (x),
sendo f uma fun¸c˜ao real de vari´avel real de classe C1 e definida em algum intervalo contendo o ponto x0. Assim, teremos F (x, f (x)) = 0 e derivando obtemos
∂F ∂x(x0, y0) + ∂F ∂y(x0, y0)f 0 (x0) = 0. Assim, f0(x0) = − ∂F ∂x(x0, y0) ∂F ∂y(x0, y0) , com ∂F ∂y(x0, y0) 6= 0.
Conclui-se ent˜ao que, em certas condi¸c˜oes, ´e poss´ıvel calcular a derivada f0(x0) mesmo
n˜ao sendo poss´ıvel determinar f a partir da equa¸c˜ao F (x, y) = 0.
Teorema 1.7 (Fun¸c˜ao Impl´ıcita em R2) Seja F : R2 → R uma fun¸c˜ao de classe
C1 e (x
0, y0) um ponto tal que
F (x0, y0) = 0;
∂F
∂y(x0, y0) 6= 0.
Ent˜ao existe uma fun¸c˜ao f , de classe C1, tal que, localmente em torno de (x
0, y0), se
tem
F (x, y) = 0 ⇔ y = f (x).
Por um processo inteiramente an´alogo tratar-se-´a de algo mais geral do teorema das fun¸c˜oes impl´ıcitas:
Teorema 1.8 (Fun¸c˜ao Impl´ıcita em Rn+1) Seja D um aberto de Rn+1, (x0, y0) =
(x0
1, . . . , x0n, y0) ∈ D, F ∈ C1, F (x0, y0) = 0 e ∂F
∂y 6= 0; ent˜ao:
1. existem α > 0 e β > 0 tais que a cada x = (x1, . . . , xn) ∈ I =]x01 − α, x01 +
α[× · · · ×]x0
n− α, x0n+ α[ corresponde um e um s´o yx ∈ J =]y0− β, y0 + β[ por
forma que se tenha F (x, yx) = F (x1, . . . , xn, yx) = 0;
2. pondo f (x) = f (x1, . . . , xn) = yx para cada x ∈ I, a fun¸c˜ao f ´e de classe C1 e
tem-se, para cada x ∈ I e cada i ∈ 1, . . . , n:
∂f ∂xi (x1, . . . , xn) = − ∂F ∂xi(x1, . . . , xn, f (x)) ∂F ∂y(x1, . . . , xn, f (x)) .
Nota 1.9 ´E de real¸car tamb´em que o n˜ao anulamento da derivada ∂F∂y no ponto (x0, y0)
n˜ao ´e condi¸c˜ao necess´aria para a existˆencia de uma fun¸c˜ao y = f (x) univocamente definida, nalguma vizinhan¸ca deste ponto, pela equa¸c˜ao F (x, y) = 0. Por exemplo, sendo F (x, y) = x − y3, tem-se ∂F
∂y(0, 0) = 0, embora a equa¸c˜ao defina - at´e
global-mente, em todo o conjunto R - a fun¸c˜ao y = √3x (pode notar-se que esta fun¸c˜ao n˜ao
´
e diferenci´avel no ponto 0, mas basta considerar o caso da fun¸c˜ao F (x, y) = x3 − y3
para se reconhecer que o anulamento de ∂F∂y(0, 0) n˜ao ´e incompat´ıvel com o facto de a fun¸c˜ao definida pela equa¸c˜ao F (x, y) = 0 ser diferenci´avel no ponto considerado).
Uma aplica¸c˜ao simples do teorema das fun¸c˜oes impl´ıcitas permite obter outro teorema importante, habitualmente designado por teorema da fun¸c˜ao inversa.
1.5
Exerc´ıcios Propostos
Exercicios Propostos 1.10 Considere a igualdade z cos x2+ ex = 2zy. Mostre que
esta igualdade define z como fun¸c˜ao impl´ıcita de x e y numa vizinhan¸ca de (0, 1, c). Calcule ∂z∂x(0, 1) e ∂z∂y(0, 1)
Exercicios Propostos 1.11 Considere a equa¸c˜ao x + 2yx + 3z2+ x2z = 1.
(a) Diga para que valores de k esta equa¸c˜ao define z implicitamente como fun¸c˜ao de x e y na vizinhan¸ca do ponto (1, 0, k).
(b) Calcule as derivadas parciais da fun¸c˜ao impl´ıcita nos pontos referidos. (c) Calcule ainda ∂x∂y∂z nos pontos considerados.
1.6
Teorema de fun¸
c˜
oes impl´ıcitas: caso geral
Na formula¸c˜ao mais geral do teorema das fun¸c˜oes impl´ıcitas que estudaremos na sequˆencia tratar-se-a de determinar condi¸c˜oes para que um sistema de m equa¸c˜oes da forma: F1(x1, . . . , xn, y1, . . . , ym) = 0 · · · Fm(x1, . . . , xn, y1, . . . , ym) = 0
onde F1, . . . , Fm s˜ao fun¸c˜oes definidas num aberto D de Rm+n, possa ser resolvido
em ordem `as m vari´aveis y1, . . . , ym, por forma que cada uma destas fique expressa
(localmente) como fun¸c˜ao das restantes vari´aveis, x1, . . . , xn.
Teorema 1.12 (Teorema de fun¸c˜oes impl´ıcitas: caso geral) Sejam A ⊂ Rm, B ⊂ Rn conjuntos abertos e f : A × B → Rn, uma transforma¸c˜ao de classe C1. Seja
x = (x1, . . . , xm) ∈ A e y = (y1, . . . , yn) ∈ B. Suponha que exista (x0, y0) ∈ A × B tal
que F (x0, y0) = 0 e que o jacobiano
∂(F1, . . . , Fn) ∂(y1, . . . , yn) = det ∂F1 ∂y1 · · · ∂F1 ∂yn · · · . .. · · · ∂Fn ∂y1 · · · ∂Fn ∂yn n×n 6= 0 em (x0, y0) ∈ A × B.
Ent˜ao, existem um conjunto aberto A0 ⊂ A contendo x0 e uma transforma¸c˜ao de classe
C1 G : A0
→ Rn tal que F (x, G(x)) = 0 para todo x ∈ A0.
Para esse efeito, tratar-se-´a do caso em D ⊆ Rn+2 como t´ıtulo de exemplo. Assim, derivem-se em ordem a xi ambos os membros de cada uma das equa¸c˜oes
F (x1, . . . , xn, f (x), g(x)) = 0 e G(x1, . . . , xn, f (x), g(x)) = 0
o que conduz ao sistema:
( ∂F ∂xi + ∂F ∂y ∂f ∂xi + ∂F ∂z ∂g ∂xi = 0 ∂G ∂xi + ∂G ∂y ∂f ∂xi + ∂G ∂z ∂g ∂xi = 0.
Bastar´a resolver este sistema pela regra de Cramer (considerando como inc´ognitas ∂x∂f
i
e ∂x∂g
i) para se obterem os resultados pretendidos.
Exemplo 1.13 As fun¸c˜oes diferenci´aveis y = y(x), z = z(x), definidas no intervalo aberto I s˜ao dadas implicitamente por
F (x, y, z) = 0 G(x, y, z) = 0,
onde F e G s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis em um aberto do R3. Determine dy dx e
dz
dx em
Solu¸c˜ao: Sendo
F (x, y(x), z(x)) = 0 G(x, y(x), z(x)) = 0
significa que a curva γ(x) = (x, y(x), z(x)) est´a contida na intersec¸c˜ao das superf´ıcies F (x, y, z) = 0 e G(x, y, z) = 0.
Para obter dxdy e dzdx derivamos o sistema anterior em rela¸c˜ao a x ( ∂F ∂x + ∂F ∂y dy dx+ ∂F ∂z dz dx = 0 ∂G ∂x + ∂G ∂y dy dx+ ∂G ∂z dz dx = 0 isto ´e ( −∂F ∂x = ∂F ∂y dy dx+ ∂F ∂z dz dx −∂G ∂x = ∂G ∂y dy dx + ∂G ∂z dz dx.
Assim, para todo x ∈ I, com
∆ = ∂F ∂y ∂F ∂z ∂G ∂y ∂G ∂z 6= 0 em (x, y(x), z(x)). Temos dy dx = ∂F ∂x ∂F ∂z ∂G ∂x ∂G ∂z ∆ e dz dx = ∂F ∂y ∂F ∂x ∂G ∂y ∂G ∂x ∆ .
Nota¸c˜oes: ∂(F,G)∂(y,z) ´e usado para indicar o Jacobiano de F e G em rela¸c˜ao a y e z.
∂(F, G) ∂(y, z) = ∂F ∂y ∂F ∂z ∂G ∂y ∂G ∂z Portanto, dy dx = − ∂(F,G) ∂(x,z) ∂(F,G) ∂(y,z) e dz dx = − ∂(F,G) ∂(y,x) ∂(F,G) ∂(y,z) .