MARDJIOLAINE EBERHART FIGUR
O ESTATUTO DO IDOSO E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
Ijuí (RS) 2014
MARDJIOLAINE EBERHART FIGUR
O ESTATUTO DO IDOSO E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais
Orientadora: Dra. Fabiana Marion Spengler
Ijuí (RS) 2014
Dedico esse trabalho, acima de tudo a Deus, por me dar forças para nos momentos mais difíceis e insistir em prosseguir na minha vida acadêmica.
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais que sempre estiveram do meu lado meu auxiliando no que fosse possível;
Ao meu namorado que mesmo longe me auxiliou na construção desse trabalho e nos momentos de desanimo me ajudou a prosseguir com os meus objetivos;
E especialmente a minha orientadora, pela disponibilidade e atenção para sanar as minhas dúvidas e me ajudar a desenvolver esse trabalho.
“Todos os homens nascem livres e iguais em direitos e dignidade” (Bedin)
RESUMO
O presente trabalho de pesquisa monográfica tem por objetivo principal abordar a importância da proteção da dignidade da pessoa humana dos idosos, e mostrar como certos direitos conferidos aos anciões não violam o direito da liberdade, igualdade, e a dignidade, mas sim são formas de efetivar esses princípios, para isso faz-se uma análise dos princípios supracitados, falando um pouco de sua trajetória histórica, e conceituação. No segundo capítulo inserem-se esses princípios no âmbito do estatuto do idoso e fala-se de certos direitos especiais conferidos a esse segmento da população e que são ferramentas para a efetivação dos princípios supramencionados. Os direitos abordados são: o direito ao transporte coletivo urbano e semiurbano; o direito ao transporte público interestadual; direito ao transporte intermunicipal; reserva de vagas nos estacionamentos; prioridade nos procedimentos de embarque e desembarque; e por fim, a tramitação preferencial nos processos que envolvam os idosos. A justificativa desse trabalho é o aumento do número de sexagenários, e para desenvolvê-lo utiliza-se a pesquisa do tipo exploratória. Usando-se no seu delineamento a coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores
ABSTRACT
This work of monographic research is primarily aimed at addressing the importance of protecting human dignity of the elderly, and show how certain rights of elders does not violate the right to freedom, equality and dignity, but are ways of effecting these principles, for it makes an analysis of the above principles, saying some of its historical trajectory, and conceptualization. In the second chapter are part of these principles in the context of the status of the elderly and speaks of certain special rights granted to that segment of the population and which are tools for the realization of these principles. The rights covered are: the right to urban and semi-urban public transport; the right to interstate public transportation; right to interstate transportation; reserve places in parking lots; priority in boarding and disembarking procedures; and finally, the preferred procedure in cases involving the elderly. The rationale of this work is to increase the number of sexagenarian, and to develop it uses to exploratory research. If using in design to collect data in literature sources available on physical media and computer network.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 8
1 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA ... 11
1.1 Direitos individuais elencados na Constituição Federal ... 11
1.2 Direito à igualdade ... 13
1.3 Direito à liberdade ... 16
1.4 Dignidade da pessoa humana ... 19
2 O ESTATUTO DO IDOSO E OS DIREITOS ASSEGURADOS CONSTITUCIONALMENTE A ESSE SEGMENTO DA POPULAÇÃO... 24
2.1 O que é o idoso? ... 26
2.2 Direitos garantidos aos idosos ... 26
2.3 Direito ao transporte público... 27
2.3.1 Direito ao transporte coletivo urbano e semiurbano...27
2.3.2 Direito ao transporte público interestadual ...31
2.3.3 Direito ao transporte público intermunicipal ...34
2.3.4 Prioridade no procedimento de embarque e desembarque aos idosos ...35
2.4 Reserva de vagas nos estacionamentos ... 36
2.5 Tramitação preferencial ... 36
2.6 A efetivação dos princípios constitucionais... 39
CONCLUSÃO... 41
INTRODUÇÃO
O presente trabalho aborda a temática da dignidade da pessoa humana e sua relação com o Estatuto do Idoso, pois o Estatuto do Idoso e a Constituição Federal de 1988 garantem vários direitos, os quais, na prática, são violados pela sociedade.
O principal objetivo é abordar a importância da proteção da dignidade da pessoa humana dos idosos, e mostrar como certos direitos conferidos aos idosos não violam o direito da liberdade, igualdade, e a dignidade, mas são formas de efetivar esses princípios. Quanto aos objetivos específicos, busca-se: a) estabelecer o conceito de dignidade da pessoa humana no que concerne ao idoso, para compreender que qualquer forma de desrespeito aos seus direitos é falta de efetivação desse princípio supremo; b) conceituar idoso e falar sobre a lei destinada a proteger esses sujeitos; c) abordar os direitos e garantias estatuídas no referido Estatuto, principalmente os direitos que envolvem o transporte, reservas de vagas em estacionamentos, prioridade nos procedimentos de embarque e desembarque dos transportes coletivos, e a tramitação preferencial.
A justificativa para a realização desse trabalho é o envelhecimento da população brasileira, pois a população idosa totaliza, hoje, cerca de 15 milhões de brasileiros, três vezes mais do que em 1970. Na última década, o número de pessoas com mais de 60 anos cresceu três vezes mais que a população total. Projeções demográficas indicam que o número da população idosa irá dobrar nos próximos 25 anos.
Para desenvolver essa monografia, utilizou-se de pesquisa do tipo exploratória, usando, para o seu delineamento, a coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores.
Os idosos são segmentos mais fragilizados da sociedade. Com o passar do tempo, as pessoas vão perdendo a vitaliciedade, e não conseguem produzir da mesma forma que anteriormente. Devido a isso, a sociedade capitalista discrimina esse segmento da população, todavia, vive-se em um país em que a igualdade, a liberdade e a dignidade estão dispostos na ordem constitucional, e a sociedade tem que respeitar esses princípios.
A pesquisa foi estruturada em dois capítulos. No primeiro capítulo dessa pesquisa, explica-se o que são esses princípios e também um pouco de sua trajetória histórica. Nesse sentido, resumidamente, considera-se a igualdade como tratamento igual a situações iguais e a tratamento desigual a situações desiguais; a liberdade diz respeito a várias coisas: liberdade de ir e vir, de manifestação de pensamento, crença, entre outros, sendo que o ser humano é livre por natureza, mas, para viver em sociedade, precisa abrir mão da liberdade total; dignidade diz respeito ao ser humano ser visto como tal diante dos outros, e ter garantidos o mínimo de direitos para que possam viver dignamente.
O capítulo dois trata do Estatuto do Idoso e os direitos assegurados na Constituição Federal de 1988 aos idosos. Nesse sentido, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 reservou um capítulo para falar do idoso, e de sua proteção. Todavia, isso não foi o suficiente, tendo sido sancionada uma Lei própria para proteger esse segmento da sociedade, especialmente porque a qualidade e a expectativa de vida desses cidadãos têm aumentado, e a tendência é crescer cada vez mais.
O Estatuto do Idoso foi criado pela Lei nº 10.741/03, na qual foram conferidas uma série de direitos aos anciões, para efetivar as garantias constitucionais. Trata-se de uma coletânea de normas das mais diferentes espécies legislativas, uma fusão de princípios buscados na Constituição Federal de 1988 e em Códigos, Leis Ordinárias, Decretos, Regulamentos e Normas Técnicas.
No capítulo dois ainda são abordados os direitos relativos ao transporte e à tramitação preferencial dos processos que envolvam pessoas idosas.
O direito ao transporte público urbano gratuito é uma previsão Constitucional, mas o Estatuto do Idoso também tratou e estabeleceu condições para que esse pudesse ser exercido.
A tramitação preferencial dos processos que envolvam sexagenários foi prevista também no Código de Processo Civil, bem como na Lei 10.741/03. Os outros direitos que são objetos de Estudo são inovações trazidas pelo referido Estatuto. Por fim, abordam-se como esses direitos são importantes para as garantias dos princípios constitucionais estudados.
1 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
A Constituição Federal de 1988 (CF/88) é a mais ampla em termos de direitos e garantias fundamentais já vigentes no Brasil. Conhecida como a Constituição cidadã, eleva a dignidade da pessoa humana como fundamento do Estado Democrático Brasileiro, em seu artigo 1º, inciso III.
Nas palavras de Silva (2006),
É fundamento é porque se constitui num valor supremo, num valor fundante da República, da Federação, do País, da Democracia e do Direito. Portanto, não é apenas um princípio da ordem jurídica, mas o é também da ordem política, social, econômica e cultural. Daí sua natureza de valor supremo, porque está na base de toda a vida nacional.
Do exposto, percebe-se que os fundamentos constituem-se em valores supremos que orientam toda a vida nacional e devem ser usados na interpretação do ordenamento jurídico.
1.1 Direitos individuais elencados na Constituição Federal
A Carta Magna de 1988 é considerada a Constituição mais completa já vigente no país em termos de direitos e garantias aos indivíduos, como já citado, é conhecida como a constituição cidadã.
Cabe ressaltar aqui a distinção entre direitos e garantias. Nas palavras de Silva (2009), direitos são bens e vantagens conferidos pela norma, enquanto as garantias são os meios destinados a fazer valer esses direitos, são instrumentos pelos quais se asseguram o exercício e o gozo daqueles bens e vantagens.
O artigo 60 da CF/88 declarou os direitos e garantias individuais cláusulas pétreas, ou seja, intocáveis, não podendo haver emendas constitucionais para extinguir esses direitos. Nesse sentido,
Artigo 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:
§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma federativa de Estado;
III - a separação dos Poderes;
IV - os direitos e garantias individuais. (BRASIL, 1988, grifo nosso).
A Constituição é completa, pois engloba direitos de primeira, segunda e terceira geração. São considerados direitos de primeira geração os direitos que abrangem as liberdades negativas do Estado. Nas palavras de Bobbio (apud BEDIN, 2002, p. 43), são “todos os direitos que tendem a limitar o poder do Estado e a reservar para o indivíduo, ou para os grupos particulares, uma esfera de liberdade em relação ao Estado.”
No entendimento de Bedin (2002), direitos de primeira geração são os que compreendem as liberdades físicas, as liberdades de expressão, a liberdade de consciência, o direito de propriedade privada, os direitos da pessoa acusada, as garantias dos direitos. Já os direitos de segunda a geração são os direitos políticos ou liberdades políticas, os que oportunizam ao indivíduo o direito de participar do Estado. São os direitos que envolvem o voto universal, direito de constituir partidos políticos, direito de plebiscito, de referendo e de iniciativa popular. Quanto aos direitos de terceira geração, surgiram no início do presente século, no decorrer da segunda década, podendo ser chamados de direitos econômicos e sociais; são um legado do socialismo. Essa terceira geração de direitos compreende os chamados direitos de crédito, ou seja, os direitos que tornam o Estado devedor dos indivíduos, particularmente dos indivíduos trabalhadores e dos indivíduos marginalizados, no que se refere à obrigação de realizar ações concretas, visando garantir-lhes um mínimo de igualdade e bem-estar social. Portanto, direitos garantidos “através ou por meio do Estado.” (BEDIN, 2002, p. 62).
De acordo com Bonavides (2010), outros direitos podem ser considerados de terceira geração, como a proteção ao consumidor, à infância, e à juventude, ao idoso, ao deficiente físico, à saúde e à educação púbica.
Os direitos da terceira geração são direitos “transindividuais que transcendem os interesses do indivíduo e passam a se preocupar com a proteção do gênero humano, com altíssimo teor de humanismo e universalidade.” (LENZA, 2011, p. 862).
Bonavides (2010) ainda classifica os direitos em outras duas gerações. Os direitos de quarta geração, que são o direito à democracia, à informação e ao pluralismo. Deles depende a
concretização da sociedade aberta do futuro. O direito de quinta geração consiste no direito à paz, pois o autor não concorda que a paz seja um direito de terceira geração.
A Constituição Federal de 1988 foi a primeira da história do Brasil a tratar sobre os direitos de terceira geração.
Nesse trabalho, debruçar-se-á sobre os direitos individuais da liberdade, da igualdade e da dignidade, no âmbito do estatuto do idoso. Esses direitos são princípios que formam toda a estrutura do ordenamento jurídico brasileiro.
Nas palavras de Silva (2009), direitos individuais são os direitos fundamentais do homem – indivíduo, ou seja, aqueles que reconhecem autonomia aos particulares, garantindo a iniciativa e a independência dos indivíduos diante dos demais membros da sociedade e do próprio Estado.
1.2 Direito à igualdade
A ideia de igualdade é bem antiga, desde os tempos mais remotos já se falava em igualdade entre os homens, mas sob um prisma diferente. Para Platão (apud BEDIN, 2002, p. 25),
[...] cidadão [...] sois todos irmãos, porém os deuses vos formaram de maneira diversa. Alguns de vós têm o poder de mando, e em sua composição fizeram eles entrar outro, motivo pelo qual valem mais do que ninguém; a outros fizeram de prata, para serem auxiliares; outros ainda, que se destinam a serem lavradores e artesões, foram compostos de ferro e bronze.
No fragmento citado acima, verifica-se que se fala em desigualdade à igualdade, e essa suposta “igualdade” foi usada para justificar a ordem vigente, como uma forma de explicar a desigualdade material. Sob esse prisma também se destaca o pensamento de Aristóteles (apud NICZ, 2010), pois aos seus olhos nem todos os homens eram considerados cidadãos, uma vez que muitos nem possuíam ou exerciam direitos. Assim, enquanto de um lado era dada aos cidadãos a possibilidade de participação, de outro, os demais eram vistos como seres inferiores, que formavam um contingente de escravos e, portanto, não gozavam da possibilidade de ocuparem cargos ou receberem bens do Estado.
O princípio da igualdade explicava porque alguns homens eram escravos e porque os outros tinham o poder de mando, mantendo a ordem na Idade Antiga.
Durante toda a Idade Média, a igualdade foi usada para justificar o sistema feudal. Nas palavras de Bedin (2002), o papa Gregório defendia, no final do século VI, que a própria ordem celeste era desigual, possuindo superiores e inferiores. Dessa forma, a comunidade não poderia subsistir se não houvesse a desigualdade. Entretanto, no século XVII e XVIII, a ideia de igualdade mudou, tornando-se a igualdade fundamento para a constituição da sociedade.
Segundo Hobbes (apud BEDIN 2002, p. 27),
[...] a natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades de corpo e de espírito que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de Espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto, em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa também aspirar, como ele.
Da ideia elencada, percebe-se que, embora os indivíduos possam ser desiguais fisicamente, essa desigualdade não justifica a discriminação, menos ainda a concessão de benefícios. Esse juízo de igualdade foi o que prevaleceu no mundo moderno, tanto que foi expresso na Declaração de Direitos de 1789 e 1948, no artigo 1º de cada uma das Declarações, prescrevendo, que: “Todos os homens nascem livres e iguais em direitos e dignidade” (BEDIN, 2002, p. 28). Contudo, a igualdade do Estado Moderno foi responsável por gerar as desigualdades econômicas, porque fundada “[...] numa visão individualista do homem, membro de uma sociedade liberal relativamente homogênea.” (SILVA, 2000, p. 217).
Partindo do princípio que todos os homens eram iguais, nada justificava a concessão de benefícios aos mais fracos, só se falava em igualdade formal, devido ao fato que, sendo todos os homens livres e iguais, presumia-se que todos deviam ter a mesma oportunidade, e o sucesso de uns e o insucesso de outros se justificava pelo esforço.
De forma alguma se imaginava ser possível a participação do Estado como instrumento de concessão de benefícios para fins de proporcionar uma maior igualdade. Essa
forma de igualdade ainda prevalece enraizada no pensamento de muitas pessoas, mas pode provocar uma enorme desigualdade material.
No mundo contemporâneo novamente a igualdade mudou de paradigma, passando a ser compreendida como:
[...] Igualdade não significa adotar normas idênticas e invariáveis para todos, com pretensão de validade para além do tempo e do espaço e das pessoas histórica e concretamente consideradas, pois não existem princípios absolutos, mesmo porque absolutizá-los implicaria a negação mesma do direito. (QUEIROZ, 2014).
Nesse sentido pode-se dizer que igualdade é tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, buscando-se uma igualdade material.
Ratificando o enunciado, o artigo 5º da CF/88 vaticina em seu caput que: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...].” (BRASIL, 1988).
Cabe destacar que a igualdade sem distinção de qualquer natureza perante a lei diz respeito, na lição de Silva (2009), a tratamento igual a situações iguais e a tratamento desigual a situações desiguais. Ainda, ressaltando essa igualdade, o artigo 3º da CF/88 prescreve, dentro dos objetivos da República Federativa do Brasil, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade, estado civil ou posse e deficiência (BRASIL, 1988).
Segundo Lenza (2009, grifo do autor), deve-se, contudo, buscar não somente essa aparente igualdade formal, a qual foi referida acima (consagrada no liberalismo clássico), mas, principalmente, a igualdade material, na medida que a lei deverá tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.
A CF/88 dispõe de diversos artigos para garantir a igualdade substancial, como por exemplo, art. 3 º, I, III e IV; art. 4 º, VIII; art. 5, º I, XXXVII, XLI e XLII; art. 14, caput; art. 19, III, entre outros. Desse modo, proporcionar garantias a uns indivíduos, devido ao fato de
serem menos favorecidos que os outros, não significa violar o princípio da igualdade, mas sim efetivá-lo.
Verifica-se que a ideia de igualdade teve uma mudança significativa da Idade Moderna para a Contemporânea, pois na Idade Moderna o Estado não tinha comprometimento com a sociedade de lhe assegurar direitos materiais de igualdade. Agora, o Estado proporciona várias políticas públicas e formas de inclusão social para proporiconar um “mínimo” de igualdade material à sociedade.
Para efetivar esse princípio, a CF/88 concedeu vários benefícios aos menos favorecidos, como as cotas para negros e deficientes para terem acesso à Universidade, cotas para concursos públicos, transporte coletivo gratuito ao idoso etc.
Na subseção seguinte, abordam-se os benefícios garantidos aos idosos para efetivar a igualdade material.
1.3 Direito à liberdade
Na lição de Ruiz (2006), a liberdade é inerente ao homem; ela é anterior à sociedade, ao Direito e ao Estado, concebida ao homem desde a sua formação. A liberdade é imanente à natureza humana. O Estado a reconhece, a regula e restringe seu uso pelo homem. Portanto, o homem em si é livre e nasce assim, mas, o convívio em sociedade faz com que essa liberdade seja restringida, pois se todos os homens fossem livres, impossível seria o convívio de todos na sociedade. Cada um faria o que tem vontade e a hora que desejasse.
Ratificando o afirmado por Rosseau (apud RUIZ, 2006, p. 44), o homem, ao optar por viver em uma sociedade politicamente organizada, teve a necessidade de aprender a conciliar a sua liberdade individual à regulamentação da liberdade, sustentando esta conciliação através do pacto social de forma a que “cada um de nós coloca em comum a sua pessoa e todo o seu poder sobre a suprema direção da vontade geral, e nós recebemos em corpo cada membro como parte indivisível do todo.”
Quando o homem resolveu viver em sociedade, foi celebrado o pacto social, onde cada um abriu mão de sua total liberdade para viver em sociedade. Mesmo assim, a liberdade não
deixou de ser um dos principais direitos do cidadão, tanto que a pior pena existente no país é a privativa de liberdade, por esta ser considerada um direito fundamental do cidadão. Tanto que o Habeas Corpus é um remédio constitucionalmente previsto, que visa a coibir a ameaça ao direito de liberdade. Todavia, não é somente a liberdade de locomoção que é garantida. Vários significados são reservados à palavra liberdade. Alguns definem como oposição ao autoritarismo, ausência de coação. Outros conceituam em razão do seu exercício, fazer aquilo que lhe satisfaz. Também pode ser expressa pelo antagonismo de cativeiro ou a participação no exercício do poder, entre outros (RUIZ, 2006).
O direito à liberdade, nas palavras de Silva (2009, p. 233), “[...] consiste na possibilidade de coordenação consciente dos meios necessários à realização da felicidade pessoal”. Nesse sentido, a liberdade não é somente o direito de resistência a qualquer opressão e coação injusta. A liberdade deve ser compreendida como ser livre para buscar suas realizações pessoais, sendo que este direito compreende todas as formas de liberdade como livre manifestação de pensamento, liberdade de associação, bem como é um princípio do Estado Democrático de Direito. Nesse sentido, importante destacar que, no Brasil, no período de Ditadura Militar, a liberdade de expressão e manifestação de pensamento foi fortemente restringida.
A CF/88 tem diversos dispositivos para assegurar a liberdade em todos os sentidos, sendo garantidas:
a) a liberdade da manifestação de pensamento (artigo 5º, inciso IV e V), uma vez que é vedado o anonimato;
b) a liberdade de consciência, crença e culto (artigo 5º, inciso VI a VIII), sendo que ninguém será privado de direitos por motivos de crenças religiosas, bem como, é assegurado o livre exercício de cultos religiosos, liberdade de consciência e crença;
c) a liberdade da atividade intelectual, artística, cientifica, ou de comunicação e indenização em caso de dano (artigo 5º, IX e X), sendo vedada qualquer tipo de censura de natureza política, ideológica, artística;
d) o sigilo de correspondência e comunicações (artigo 5º, XII), é inviolável o sigilo de correspondência e das comunicações telegráficas, de dados, e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou de instrução processual penal;
e) liberdade de profissão (artigo 5º, XIII), pois é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer. Trata-se, portanto, de norma constitucional de eficácia contida, podendo a lei infraconstitucional limitar o seu alcance, fixando condições ou requisitos para o pelo exercício da profissão;
f) liberdade de informação (artigo 5º, XIV e XXXIII), aqui fala-se sobre o direito de informar e de ser informado, uma vez que é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional;
g) liberdade de locomoção (artigo 5º, XV e LXI), a locomoção no território nacional em tempo de paz é livre, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens. Esse direito poderá ser restringido na vigência do estado de defesa, e de sítio;
h) direito de reunião (artigo 5º, XVI), garante-se o direito de reunião, de forma pacifica, em armas em locais abertos ao público, não se necessitando de previa autorização do poder público;
i) direito de associação (artigo 5º, XVII, XVIII, XIX, XX e XXI) é permitida a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a associação de caráter paramilitar. Ninguém poderá sem compelido de se associar, e uma vez associado, será livre também, para decidir se permanece associado ou não (LENZA, 2008).
Do supramencionado, percebe-se, que numa sociedade a liberdade pode ser restringida, pois dos direitos garantidos acima, praticamente nenhum é absoluto, existindo ressalvas quando à sua aplicação. Mesmo, existindo vários dispositivos para assegurar a liberdade, várias classes sociais, incluindo o idoso, têm o direito de liberdade muitas vezes tolhido, pois, devido ao desrespeito da sociedade, muitos não podem manifestar seus pensamentos e opções, por serem considerados antiquados demais ou irrelevantes.
Ainda, muitas vezes, o próprio poder público não respeita a liberdade desse segmento da população, criando obstáculos no seu direito de ir e vir, por não implantar os meios adequados de acessibilidade e não garantir o transporte público gratuito, direito social previsto na Constituição Federal.
1.4 Dignidade da pessoa humana
O princípio da dignidade da pessoa humana é fundamento da República Democrática Brasileira, inserido no artigo 1º, inciso III desta Carta. Na CF/88, o homem é concebido como o centro do direito. Todo poder é emanado do próprio homem e serve para tutelar a dignidade deste. Nesse contexto, colaciona-se um fragmento do artigo 1º da CF/88:
Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania; II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. (BRASIL,
1988, grifo nosso).
A dignidade da pessoa humana tem hierarquia supraconstitucional, pois integram e formam todo o conteúdo de argumentação e fundamentação das normas que fazem parte do sistema jurídico normativo, sendo que esse princípio deve prevalecer quando em conflito com outro direito.
Para a compreensão desse princípio, é preciso retornar ao tempo e verificar o que se entendia por dignidade no pensamento ocidental, pois, segundo Bittar (apud SARLET, 2012, p. 34), “A ideia de dignidade da pessoa humana hoje, resulta, de certo modo, da convergência de diversas doutrinas e concepções de mundo que vêm sendo construídas desde longa data na cultura ocidental.”
Segundo Sarlet (2012, p. 34),
[...] no pensamento filosófico e político da antiguidade clássica, verifica-se que a dignidade (dignitas) da pessoa humana dizia, em regra, como a posição social ocupada pelo indivíduo e o seu grau de reconhecimento pelos demais membros da comunidade. Daí poder falar-se em uma quantificação e modulação da dignidade, no sentido de se admitir a existência de pessoa mais dignas e menos dignas.
Nesse sentido, dignidade é como o indivíduo era visto diante dos membros da sociedade, sendo que quem atribui o valor a dignidade não é a própria pessoa, e sim como esta é vista perante a sociedade, ou seja, é a comunidade quem atribui dignidade a pessoa.
No pensamento estóico, a dignidade era tida como a qualidade que, por ser inerente ao ser humano, o distinguia das demais criaturas, no sentido de que todos os seres humanos são dotados da mesma dignidade.
Apenas em Roma, após as formulações de Cícero que a dignidade passou a ser desvinculada do cargo ou posição social, sendo possível reconhecer uma coexistência de um sentido moral (seja no que diz respeito às virtudes pessoais do mérito, integridade, lealdade, entre outras, seja na acepção estóica referida) e sociopolítico da dignidade (aqui no sentido da posição social e política ocupada pelo individuo (SARLET, 2012).
Do narrado, sinala-se que em Roma havia duas espécies de dignidade: uma no sentido moral e outra no sentido sociopolítico, de posição social ocupada pelos indivíduos, semelhante aos pensamentos de dignidade citados acima.
Na primeira fase do Cristianismo, destaca-se o pensamento do Papa São Leão Magno, o qual sustenta que:
[...] os seres humanos possuem dignidade pelo que Deus criou à sua imagem e semelhança, e que, ao tornar-se homem, dignificou a natureza humana, além de revigorar a relação entre o Homem e Deus, mediante a voluntária crucificação de Jesus Cristo. (SARLET, 2012, p. 37).
Nesse caso, o homem era digno, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus, sendo que Deus dignificou a natureza humana. Posteriormente, no período inicial da Idade Média, Anicio Manilio Serverno Boécio,
[...] cujo pensamento foi (em parte) posteriormente retomado por São Tomás de Aquino, formulou, para a época, um novo conceito de pessoa e acabou por influenciar a noção contemporânea de dignidade da pessoa humana ao definir a pessoa como substância individual de natureza racional. (SARLET, 2012, p. 37)
O ser humano tem possibilidade de construir, de forma livre e independente, a sua própria existência e destino, pois, mesmo sendo construído à imagem e semelhança de Deus, o ser humano é livre e racional para construir sua dignidade.
Segundo Sarlet (2012, p. 38), apenas nos “séculos XVII e XVIII a concepção da dignidade da pessoa humana, assim como a ideia do direito natural em si, passou por um processo de racionalização e laicização, mantendo-se, todavia, a noção fundamental de igualdade de todos os homens em dignidade e liberdade.”
No entendimento de Samuel Pufendorf (apud SARLET, 2012 p. 38), é possível
[...] constatar um passo efetivo em termos de ruptura com a tradição anterior e a elaboração do que se pode considerar uma primeira formulação tipicamente secular e racional da dignidade da pessoa humana, como fundamento na liberdade moral, como característica distintiva do ser humano.
Do exposto, pode-se dizer que, para Samuel (apud SARLET, 2012), a dignidade da pessoa humana é a liberdade de este optar de acordo com a sua razão e agir conforme o seu entendimento. No mesmo sentido, Kant (apud SARLET, 2012) diz que a autonomia de vontade, entendida como a faculdade de determinar-se a si mesmo e agir de conformidade com a representação de certas leis, é um atributo apenas encontrado nos seres racionais, sendo este fundamento da dignidade da pessoa humana. Os dois pensadores acreditam que a liberdade humana e a autonomia de vontade são fundamentos da dignidade da pessoa humana.
Kant (apud SARLET, 2012) ainda menciona que a dignidade não possui preço, e que quando uma coisa está acima de todo o preço, e, portanto, não permite um equivalente, então ela tem dignidade. Dessa forma, percebe-se que a dignidade não pode ser colocada em confronto com qualquer coisa, e que esta é um valor supremo. Ainda, no pensamento de Kant, que a doutrina jurídica mais expressiva - nacional e estrangeira - encontra as bases para uma justificação do conceito de dignidade da pessoa humana, sendo importante salientar que somente a pessoa humana possui dignidade.
Do exposto, percebe-se que primeiramente o conceito de dignidade era ligado a Deuses e à religião, para só, posteriormente, ser relacionado ao homem, à sua liberdade e à racionalidade.
No entendimento de Michael Sachs (apud SARLET, 2012, p. 50),
[...] reside no fato de que no caso da dignidade da pessoa humana, diversamente do que ocorre com as demais normas jusfundamentais, não se cuida de aspectos mais ou menos específicos da existência humana (integridade física, intimidade, vida, propriedade etc.), mas, sim, de uma qualidade tida como inerente ou, como preferem outros, atribuída a todo e qualquer ser humano, de tal sorte que a dignidade – como já restou evidenciado –, passou a ser habitualmente definida como constituindo o valor próprio que identifica o ser humano como tal.
O autor entende que a dignidade é o atributo que identifica o ser humano como tal, uma vez que todo o ser humano é dotado de dignidade.
No sentido jurídico-constitucional, a doutrina e jurisprudência costumam apontar que a dignidade da pessoa humana (por tratar-se a evidência – e nisto não diverge de outros valores e princípios jurídicos – de categoria axiológica aberta) não pode ser conceituada de maneira fixista, ainda mais quando se verifica que uma definição desta natureza não harmoniza com o pluralismo e a diversidade de valores que se manifestam nas sociedades democráticas contemporâneas, razão pela qual é correto afirmar que (também aqui) é um conceito em permanente processo de construção e desenvolvimento (SARLET, 2012).
Nesse viés, compreende-se que a dignidade no sentido jurídico constitucional é um conceito que está sempre em construção, pois as sociedades democráticas contemporâneas pluralistas evoluem constantemente, tendo, dessa forma, que acompanhar essa evolução. Portanto, a dignidade no sentido jurídico serve para coibir violações de outros direitos.
O Tribunal Constitucional da Espanha define dignidade como “[...] um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da própria vida e que leva consigo a pretensão ao respeito por parte dos demais” (SARLET, 2012 p. 55). Portanto, dignidade tem muito a ver com o respeito que os cidadãos têm em relação aos outros.
Segundo Mattar (2010), a dignidade da pessoa humana deriva do Latim dignitate e significa honradez, honra, nobreza, decência, estando ligada ao ser humano por uma abstração intelectual representativa de um estado de espírito, respeito a si mesmo, amor próprio, brio.
Nas palavras de Silva (2009, p. 105),
A dignidade da pessoa humana é um valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida. ‘concebido como referência constitucional unificadora de todos os direitos fundamentais [...], o conceito de dignidade da pessoa humana obriga a uma densificação valorativa que tenha em conta o seu amplo sentido normativo constitucional e não uma qualquer idéia apriorística do homem, não podendo reduzir-se o sentido de dignidade à defesa dos direitos pessoais tradicionais, esquecendo-a nos casos de direitos sociais, ou invocá-las para construir ‘teoria do núcleo da personalidade’ individual, ignorando-a quando se trate de garantir as bases da existência humana. Daí decorre que a ordem econômica há de ter por fim assegurar a todos existência digna (art.170), a ordem social visará à realização da justiça social (art. 193), a educação, o desenvolvimento da pessoa e o seu preparo para o exercício da cidadania (art. 205) etc., não como meros enunciados formais, mas como indicadores do conteúdo normativo eficaz da dignidade da pessoa humana.
Da definição acima se infere que a dignidade da pessoa humana é um conceito extremamente amplo, sendo que somente se consegue ter uma existência digna quando todos os direitos garantidos pela Constituição Federal sejam efetivados, e também quando o ser humano for respeitado por parte do Estado e da sociedade. Nesse sentido, a dignidade também pode ser entendida como respeitabilidade, na medida em que a parte é merecedora de consideração e respeito por seus semelhantes (MATTAR, 2010).
De acordo com Mattar (2010), o indivíduo, para ter a dignidade, precisa viver de acordo com os seus valores, desde que estejam adequados à preservação de direitos alheios. Prossegue o autor, ao dizer que o princípio da dignidade da pessoa humana é dotado de universalidade, devendo ser preservado em todo o mundo. Todos os Estados soberanos devem garantir a dignidade a todas as pessoas. A dignidade da pessoa humana não é uma criação da Constituição Federal, mas sim um dado pré-existente a toda experiência especulativa, tal como a pessoa humana.
Por fim, pode-se perceber que para o indivíduo ter uma existência digna todos os direitos e garantias elencados na CF/88 devem ser respeitados, e todos os direitos devem ser interpretados em relação ao princípio da dignidade da pessoa humana.
2 O ESTATUTO DO IDOSO E OS DIREITOS ASSEGURADOS CONSTITUCIONALMENTE A ESSE SEGMENTO DA POPULAÇÃO
A CF/88, em seu artigo 230, vaticina que:
A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.
§ 1º - Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares [...]. (BRASIL, 1988).
Nesse sentido, no entender de Indalêncio (2007):
Tal característica diz com a citada doutrina da proteção integral, devendo as carências do idoso serem supridas pela família, pela sociedade e pelo Estado, como forma de garantir a isonomia constitucional e de resguardar-lhe a dignidade, fornecendo meios para garantia da própria sobrevivência.
Portanto, toda a sociedade, iniciando-se pela família, tem o dever de amparar as pessoas idosas, assegurar a participação destas na comunidade e todos os demais direitos previstos constitucionalmente, a fim de garantir respeitabilidade, na medida em que o idoso é merecedor de consideração e respeito, e deve ser reconhecido como pessoa humana, sendo assim, efetivada a sua dignidade.
Todos os direitos previstos constitucionalmente são garantidos também as pessoas idosas, pois, segundo o artigo 3º da Constituição Federal, todos são iguais perante a lei, devendo assim ser tratados, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade, estado civil ou posse e deficiência, como já explicitado (BRASIL, 1988, grifo nosso).
Mesmo com a Constituição Federal assegurando os direitos das pessoas com mais de 60 (sessenta) anos, a sociedade tem violado constantemente o direito dos idosos, por preconceito, uma vez que os anciões são pessoas mais vulneráveis, pois, com o envelhecimento, não conseguem mais fazer tudo sozinhas, não possuem mais a mesma mobilidade e raciocínio, e acabam ficando mais dependente de outras pessoas.
O envelhecimento caracteriza-se por uma série de modificações da estatura e do volume do corpo. Há uma diminuição das células ativas ou nobres e de um aumento dos tecidos de apoio chamados intersticiais. As células e as fibras nervosas condutoras do influxo diminuem consideravelmente no cérebro. Compreende-se,
então que cada uma de nossas funções regride com o envelhecimento, uma vez que cada uma de nossas células é afetada por ele. (BOAS, 2014, p. 4).
A sociedade, no geral, não consegue ver as pessoas com mais de 60 (sessenta) anos como uma pessoa que já produziu e deu muito de si, mas apenas como um peso para a família e para a comunidade, principalmente no sistema capitalista o idoso é visto como um ser inútil. Corroborando com o enunciado, segundo Venturi e Bokany (2009, p. 27),
Os mais jovens veriam os idosos como incapazes ou inúteis (opinião espontânea de 31% dos idosos e de 37% dos não idosos), como ultrapassados (9% e 15%, respectivamente) e desinformados (10% e 5%); com desprezo (29% e 16%), desrespeito (24% e 16%), como passíveis de discriminação ou maus tratos (13% e 7%).
Nesse viés, é possível compreender os preconceitos e discriminação que existe por parte da sociedade em relação aos idosos.
Nas palavras de Neri (2009, p. 36), “muitos preconceitos e estereótipos resultam de falsas crenças a respeito da competência e da produtividade dos idosos. Seu resultado é a discriminação social por critério de idade, fundamentalmente motivada por razões econômicas”. Todavia, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS apud NERI, 2009), com os avanços na área da saúde e o aumento da expectativa de vida, até o ano de 2025 o Brasil será o sexto país com maior número de população de idosos.
Na atualidade, conforme destaca Oliveira (2013),a população idosa representa mais de 21 milhões de pessoas, ou seja, cerca de 11% da população brasileira.
Do exposto, viu-se a necessidade de criar um Estatuto do Idoso devido às constantes violações dos direitos desse segmento da população, para que a sociedade entenda o quão necessário é a sociedade amparar essas pessoas e respeitá-las. Então, foi aprovada a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, uma inovação na ordem jurídica, pois, segundo Boas (2014, s.p.), “ao criar o Estatuto do Idoso, na verdade, deu vida a uma coletânea de normas variadas das mais diferentes espécies legislativas. Houve, por assim dizer, uma fusão de princípios buscados na Constituição Federal e em Códigos, Leis Ordinárias, Decretos, Regulamentos e Normas Técnicas”. Portanto, o Estatuto do Idoso foi criado para garantir uma maior eficácia
aos sistemas normativos que falavam sobre os direitos e garantias dos idosos e agrupar todas as normas em um único documento.
2.1 O que é o idoso
O significado do termo “idoso” é explicitado por Boas (2014, p. 1):
O vocábulo idoso tem origem latina no substantivo aetas, aetatis, de cujo caso acusativo aetatem (caso lexiogênico de onde nasceu a maioria das palavras num grande número de línguas modernas) deu-se existência a palavra ‘idade’. ‘Idoso’ é o vocábulo de duas componentes: ‘idade’ mais o sufixo ‘oso’ que, no léxico, denota ‘abundância ou qualificação acentuosa’. Portanto, o vocábulo ‘idoso’ pode significar: cheio de idade, abundante em idade etc.
Diante disso, verifica-se que idoso é a pessoa que tem idade acentuada, e, por isso, mais experiências.
Para evitar discussão a respeito de que cidadãos são considerados idosos, ou que idade se pode considerar que uma pessoa é idosa, o Estatuto do Idoso, em seu artigo 1º, estatuiu que: “É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados as pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.” (BRASIL, 2003).
Pouco importa a condição do sujeito, pois se sabe que com a senilidade há um incidente biológico que implica na diminuição da capacidade físico-mental, todavia, considera-se idoso o sexagenário, e pouco importa sua condição de vitalidade, esteja ele em pleno vigor físico ou nos anos de decrepitude (BOAS, 2014). Porém, é importante destacar que na grande parte dos países idoso é considerada a pessoa com mais de 65 (sessenta e cinco) anos de idade. Também nos países europeus o idoso é extremamente respeitado, por ser considerado uma pessoa com mais experiência de vida.
2.2 Direitos garantidos aos idosos
A Constituição Federal assim como o Estatuto do Idoso garantem uma série de direitos a esse segmento da população. Nesse sentido, o artigo 2º da Lei nº 10.741/03:
O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. (BRASIL, 2003).
Como já salientado, não precisaria que o Estatuto propiciasse ao sexagenário a garantia contra qualquer tipo de discriminação, e lhe outorgasse direitos fundamentais. Se todos são iguais perante a lei, qualquer classe de pessoas já se vê acobertada pelos direitos previstos constitucionalmente (BOAS, 2014).
A proteção integral que trata essa lei, segundo Abreu Filho (2010), refere que as instituições públicas ou privadas do bem-estar social, tribunais, autoridades, administrações ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior do idoso, assegurando e facultando-lhe o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.
Do narrado, sintetiza-se que a proteção integral é garantir atendimento primordial ao idoso, sendo que todas as instituições públicas ou privadas têm esse dever, para assegurar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social do idoso.
Dois direitos são objetos de aprofundamento nesse trabalho: as medidas de proteção do idoso em relação ao transporte e a preferência na tramitação dos processos judiciais. Com isso, pretende-se mostrar por que as benesses (transporte público urbano e semi-urbano gratuito, vagas para idosos, tramitação preferencial de processos etc.), conferidas aos anciões, não violam o princípio da igualdade, mas sim, são circunstâncias criadas para efetivar o princípio da igualdade material, da dignidade da pessoa humana e da liberdade.
2.3 Direito ao transporte público
O transporte é direito garantido na CF/88 e também no Estatuto do Idoso às pessoas maiores de sessenta e cinco anos.
2.3.1 Direito ao transporte coletivo urbano e semiurbano
A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.
[...].
§ 2º - Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos (BRASIL, 1988, grifo nosso).
Segundo Lenza (2009, p. 874), “A regra do art. 230, § 2º, que assegura aos maiores de 65 anos a gratuidade dos transportes coletivos urbanos, em nosso entender, trata-se de norma de eficácia plena, que, portanto, independe de complementação infraconstitucional”. Para o autor, o Estatuto do Idoso não precisaria se reportar a esse tema, todavia, o artigo 39 do Estatuto do Idoso dispõe que:
Aos maiores de 65 (sessenta e cinco) anos fica assegurada a gratuidade dos transportes coletivos públicos urbanos e semi-urbanos, exceto nos serviços seletivos e especiais, quando prestados paralelamente aos serviços regulares.
§ 1º Para ter acesso à gratuidade, basta que o idoso apresente qualquer documento pessoal que faça prova de sua idade.
§ 2º Nos veículos de transporte coletivo de que trata este artigo, serão reservados 10% (dez por cento) dos assentos para os idosos, devidamente identificados com a placa de reservado preferencialmente para idosos.
§ 3º No caso das pessoas compreendidas na faixa etária entre 60 (sessenta) e 65 (sessenta e cinco) anos, ficará a critério da legislação local dispor sobre as condições para exercício da gratuidade nos meios de transporte previstos no caput deste artigo. (BRASIL, 2003).
O caput desse artigo é uma reprodução limitativa do artigo 230, § 2º, citado acima. Percebe-se o que o Estatuto retirou a possibilidade de o idoso optar por usar o transporte especial ou seletivo quando prestado paralelamente aos regulares, o que não parece ser constitucional, pois a Lei Maior não limitou, apenas afirmou que deve ser garantido aos idosos maiores de 65 (sessenta e cinco) anos transporte público coletivo urbano. Nesse sentido,
Se a lei ordinária, como é o Estatuto do Idoso, navegou no texto básico da Lei Maior, que é o caso, não poderia diminuir seu conteúdo. O que fez o Estatuto foi, via indireta, desconsiderar possíveis efeitos da Lei Maior, aniquilando-os em grande parte. (BOAS, 2014, p. 76).
Do citado, entende-se que Boas (2014) também considera inconstitucional a lei ordinária retirar a possibilidade de os idosos utilizarem-se de transporte seletivo e especial, pois entende o autor que a lei infraconstitucional não poderia retirar as benesses conferidas pela Carta Magna, uma vez que o Estatuto somente deveria aumentar o nível de abrangência, e nunca diminuir.
O Supremo Tribunal Federal,por meio da ADI 3.786, declarou constitucional o artigo 39 do Estatuto do Idoso e a limitação quanto ao uso de transportes seletivos e especiais, quando prestados paralelamente aos regulares (LENZA, 2009). Na prática, os idosos somente têm direito ao transporte urbano regular gratuito, o que não é justo, devido à condição de maior fragilidade do longevo. Eles deveriam ter direito ao transporte público seletivo e especial.
O direito ao transporte público gratuito é de extrema importância, porquanto, nas palavras de Pinheiro (apud INDALÊNCIO, 2007):
O transporte coletivo, nos dias de hoje, principalmente nos grandes centros urbanos, reveste-se de importância conjuntural, por ser o meio pelo qual a maior parte da população pode se locomover, vencendo as grandes distâncias existentes para obter os diversos serviços, constituindo-se, pois, em instrumento fundamental para o cumprimento das funções sociais e econômicas do Estado, e dele depende a população para que os direitos sociais elencados na Constituição Federal possam ser exercidos e efetivados.
Desse modo, verifica-se que o transporte coletivo urbano não é somente um direito garantido ao idoso, mas uma forma para que ele possa alcançar outros direitos, para que ele possa ir ao hospital consultar, ir a uma biblioteca, exercer o direito de liberdade, entre outros direitos sociais e individuais.
Conforme já salientado, esses direitos não violam o direto de igualdade estabelecida na CF/88, mas sim, são um meio de garanti-la, devido à hipossuficiência e à condição especial que a idade avançada impõe. O idoso merece proteção especial e benefícios para que seja alcançada a igualdade material e a dignidade da pessoa humana.
Ratificando o enunciado, conforme destaca Pinheiro (apud INDALÊNCIO, 2007):
É compreensível, no atual contexto, o espírito do legislador em dar atenção especial a uma camada da população que por razões de idade, de saúde ou hipossuficiência, deve ser tratada de forma diferenciada pela lei, recebendo a proteção especial que sua condição etária lhe impõe, conferindo ao idoso um envelhecimento saudável e em condições de dignidade. Diante disso, não visou a norma conceder ao idoso um privilégio, mas a proteção necessária que garanta a compensação das desigualdades existentes, de forma que assegurasse o necessário equilíbrio entre os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana.
Verifica-se que o Estatuto confere gratuidade para o idoso que apresentar qualquer documento pessoal de identificação, que venha demonstrar a idade exigida. Outro requisito que é importante destacar é que 10% por centro das vagas dos transportes públicos urbanos são reservadas aos idosos, ou seja, se um ônibus possuir trinta lugares, três vagas serão reservadas aos idosos. Todavia, há mais uma incongruência. Se em um ponto de ônibus estiverem 4 idosos e o ônibus somente possuir 2 vagas para idosos, na prática ocorre que os outros dois idosos devem ficar esperando até que venha o próximo ônibus, para que possam usufruir desse direito, pois não há disposição na lei sobre tal fato. Novamente, se pergunta sobre a constitucionalidade deste dispositivo que limita o número de vagas por veículo, pois a Constituição nada dispôs nesse sentido.
A jurisprudência afirma que é direito do idoso usufruir do transporte público coletivo sem nenhuma condição. Ratificando o enunciado,
[...] O Estatuto do Idoso reconhece como direito fundamental o acesso gratuito dos maiores de 65 anos a transportes coletivos urbanos, independentemente de
qualquer condição (art. 39 da Lei n. 10.741/2003). Portanto, tal dispositivo, com
assento constitucional no art. 230, § 2º, da CF/1988, concede aos idosos, de forma direta, a possibilidade de usufruírem do transporte coletivo sem qualquer ônus financeiro. Reconhece, ainda, que esse direito pode ser estendido às pessoas com faixa etária entre 60 e 65 anos, a critério do que dispuser a legislação local, tal como se deu no caso (Decreto Municipal n. 3.111/2004). Contudo, vale ressaltar que o Estatuto do Idoso não impôs a criação da fonte de custeio e, ainda, afastou a exigência de tal fonte. Diante disso, a Turma conheceu, em parte, do recurso, mas lhe negou provimento. (RIO DE JANEIRO, 2008, grifo do autor).
Do disposto, percebe-se que não deveria existir nenhuma outra condição para que o idoso pudesse exercer seu direito, e que o número de reserva de 10% é inconstitucional, mas, isso ainda não foi levado para pauta do Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto isso, vários anciões, muitos fragilizados fisicamente, têm que ficar esperando mais de horas para conseguirem usufruir do transporte público.
O parágrafo terceiro do artigo 39 do Estatuto do Idoso, também já citado na jurisprudência acima colacionada, diz que cada município poderá dispor sobre a gratuidade do transporte coletivo urbano, previsto no caput desse artigo, para pessoas com idade superior a 60 anos. Nesse sentido, pode a lei municipal aumentar a abrangência do dispositivo constitucional, garantido também gratuidade no uso de transporte público coletivo para pessoas com mais de 60 anos.
Há algum tempo havia a discussão de que quando esses transportes urbanos eram prestados por meio de concessão ou permissão, o idoso perdia o direito ao transporte urbano gratuito, mais uma forma de tentar privar o longevo de seu direito, constitucionalmente assegurado, somente por não existir forma de custeio nos contratos de concessão e permissão desses bilhetes. Ou seja, as associações nacionais de transportes urbanos acharam mais fácil dizer que esse direito é inconstitucional do que ajuizar uma ação para estabelecer formas de custeios desses bilhetes. Essa questão foi objeto de Ação Direta Inconstitucionalidade (ADI) 3768 perante o STF, que questionava a constitucionalidade do artigo 39, caput, da Lei nº 10.74111/03. Todavia, o STF foi quase unânime, declarando improcedente a ação. Nas palavras da Ministra Carmem Lúcia (2007 apud STF..., 2007):
O artigo 39 da Lei 10.741 /03 e o artigo 230 da Constituição asseguram o direito de uma dignidade humana mínima no sentido da integração social do idoso. Ela lembrou que o transporte coletivo urbano é usado justamente pelas camadas mais desfavorecidas da população e que ambas as normas se inserem nos direitos e garantias fundamentais da dignidade da pessoa humana, por seu turno frutos de prolongadas lutas sociais.
Percebe-se a falta de respeitabilidade das pessoas em relação aos idosos, pois as Associações que propuseram a ação tinham intenção de retirar esse direito dos idosos. No entanto, esse serviço precisa continuar sendo prestado para que se preserve a dignidade da pessoa humana, pois, além de permitir esse direito ao idoso, permite também sua integração social.
Por fim, a Constituição Federal e o Estatuto do Idoso garantem o direito ao transporte público urbano gratuito, porém várias são as tentativas de limitar esses direitos, até mesmo o legislador ordinário assim o fez. Mas, não se discute a importância desse direito para garantir a igualdade material, liberdade e dignidade da pessoa humana.
2.3.2 Direito ao transporte público interestadual
Nos termos do artigo 40 da Lei nº 10.741/03,
Art. 40. No sistema de transporte coletivo interestadual observar-se-á, nos termos da legislação específica:
I – a reserva de 2 (duas) vagas gratuitas por veículo para idosos com renda igual ou inferior a 2 (dois) salários-mínimos;
II – desconto de 50% (cinqüenta por cento), no mínimo, no valor das passagens, para os idosos que excederem as vagas gratuitas, com renda igual ou inferior a 2 (dois) salários-mínimos.
Parágrafo único. Caberá aos órgãos competentes definir os mecanismos e os critérios para o exercício dos direitos previstos nos incisos I e II. (BRASIL, 2003).
Verifica-se que o idoso hipossuficiente, que tenha renda inferior a dois salários mínimos, tem direito ao transporte interestadual gratuito. Ocorre que o número que vagas é limitada, sendo gratuitas somente duas vagas. O número excedente de idosos hipossuficientes têm direito ao desconto de 50% (cinquenta por cento), no mínimo, no valor das passagens.
Foi editado um Decreto nº 5.934/06, que estabeleceu mecanismos e critérios a serem adotados para o exercício do direito previsto no artigo supracitado. Para garantir esse direito, no ato de solicitação do Bilhete de Viagem do Idoso, o interessado deve apresentar documento com foto de prove sua idade e a renda mensal igual ou inferior a dois salários-mínimos, nos termos do artigo 6º do Decreto-lei nº 5.934/06.
Nas palavras de Boas (2014, p. 78), a comprovação de renda é feita mediante a apresentação dos seguintes documentos:
. Carteira de Trabalho e Previdência Social com anotações atualizadas; . Contracheque de pagamento ou documento expedido pelo empregador; . Carnê de contribuição para o Instituto Nacional do Seguro Social - INSS;
. Extrato de pagamento de benefício ou de declaração fornecida pelo INSS ou outro regime de previdência social público ou privado;
. Documento ou carteira emitida pelas Secretarias Estaduais ou Municipais de Assistência Social ou congêneres.
Segundo o artigo 3º, § 2º, do Decreto n° 5.934/06,
Art. 3º. Na forma definida no art. 40 da Lei nº 10.741, de 2003, ao idoso com renda igual ou inferior a dois salários-mínimos serão reservadas duas vagas gratuitas em cada veículo, comboio ferroviário ou embarcação do serviço convencional de transporte interestadual de passageiros.
[...].
§ 2º. O idoso, para fazer uso da reserva prevista no caput deste artigo, deverá solicitar um único ‘Bilhete de Viagem do Idoso’, nos pontos de venda próprios da transportadora, com antecedência de, pelo menos, três horas em relação ao
horário de partida do ponto inicial da linha do serviço de transporte, podendo
solicitar a emissão do bilhete de viagem de retorno, respeitados os procedimentos da venda de bilhete de passagem, no que couber (BRASIL, 2006, grifo nosso).
Do disposto, verifica-se que o ancião precisa adquirir o bilhete com antecedência mínima de três horas antes do horário de partida do transporte, todavia, há exceções para os bilhetes com desconto de 50% (cinquenta por cento):
Art. 4º [...].
Parágrafo único. Para fazer jus ao desconto previsto no caput deste artigo, o idoso deverá adquirir o bilhete de passagem obedecendo aos seguintes prazos:
I - para viagens com distância até 500 km, com, no máximo, seis horas de antecedência; e
II - para viagens com distância acima de 500 km, com, no máximo, doze horas de antecedência. (BRASIL, 2006).
Na prática, o idoso perde o benefício ao desconto por não ter conhecimento dos requisitos necessários para que se adquira o bilhete.
Giza-se que, o direito ao transporte público interestadual gratuito ou com valor reduzido é reservado aos idosos em transportes convencionais, mas é preciso saber o que são transportes convencionais. Conforme o Decreto-lei n° 5.934/06, em seu art. 3º, que regula o artigo 40 do Estatuto do Idoso:
Art. 3º Na forma definida no art. 40 da Lei nº 10.741, de 2003, ao idoso com renda igual ou inferior a dois salários-mínimos serão reservadas duas vagas gratuitas em cada veículo, comboio ferroviário ou embarcação do serviço convencional de transporte interestadual de passageiros.
[...].
Para fins do disposto no caput, incluem-se na condição de serviço convencional: I - os serviços de transporte rodoviário interestadual convencional de passageiros, prestado com veículo de características básicas, com ou sem sanitários, em linhas regulares;
II - os serviços de transporte ferroviário interestadual de passageiros, em linhas regulares; e
III - os serviços de transporte aquaviário interestadual, abertos ao público, realizados nos rios, lagos, lagoas e baías, que operam linhas regulares, inclusive travessias [...]. (BRASIL, 2006, grifo nosso).
Outra regra muito importante que o Decreto-lei nº 5.934/2006 estabelece é que o bilhete de viagem é intransferível, nos termos do § 6, do artigo 3º. Nos termos do Decreto, o idoso, para usufruir de seu benefício, deve comparecer meia hora antes do horário de viagem sob pena de perder o direito.
Percebe-se que na lei está tudo explicado para que o idoso consiga usufruir desse direito, mas na prática não é bem assim. Muitos idosos não têm acesso a essas informações, e
as empresas que vendem bilhetes, muitas vezes, percebendo que a pessoa é idosa, não oferecem o bilhete gratuito ou com desconto.
Nascimento (2012) exemplifica uma situação que mostra o argumento utilizado por uma empresa para sonegar direitos aos idosos:
‘Preciso ir para Delfinópolis, em Minas Gerais, para ver minha irmã de 90 anos que está doente. Só queria que o Estatuto do Idoso fosse cumprido, mas não consigo’. A fala é do aposentado Alfeu Antônio da Silva, de 83 anos, que tem dificuldades para comprar passagem com valor reduzido toda vez que vai viajar.
Por volta das 10 horas de ontem, ele foi à Rodoviária de Araraquara com o cunhado Rones Anísio da Silva, 51, e procurou empresas que passam por Delfinópolis. O único ônibus que seguiria para a cidade no dia tinha saída marcada para as 20 horas, ou seja, 12 horas depois do horário em que o aposentado tentou comprar o bilhete. Mas os funcionários disseram aos clientes que poderiam vender as passagens apenas no horário da partida. ‘Eu entendo que a lei diz que o prazo máximo para a venda de passagem é de até 12 horas de antecedência, ou seja, se eu quiser comprar com 30 horas de antecedência, eu posso; mas na hora não. Mas lei cada um entende do jeito que quer’, diz Rones.
Depois da recusa, Alfeu e Rones fizeram um boletim de ocorrência contra as empresas e foram orientados a procurar a Promotoria Pública para fazer uma denúncia por descumprimento o Estatuto do Idoso [...].
No caso exposto, percebe-se que a empresa usou de artifícios para não vender o bilhete ao idoso. Isso ocorre muitas vezes, e as pessoas que não têm informação acabam acreditando no “papo” dos vendedores de passagens, e indo para casa sem o seu direito.
2.3.3 Direito ao transporte público intermunicipal
A Constituição Federal de 1988 e o Estatuto do Idoso são omissos nesse quesito. Para Boas (2014, p. 78), “Estamos assistindo a maior das incongruências no Estatuto quando ele próprio não deferiu, aos seus idosos, o direito de acesso aos transportes coletivos intermunicipais. Seu silêncio criou um embaraço interpretativo”. Nesse sentido é o entendimento da Segunda Câmara Cível, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIREITO ADMINISTRATIVO. IDOSO. GRATUIDADE NO TRANSPORTE PÚBLICO COLETIVO INTERMUNICIPAL. A Constituição Federal e a Estadual, bem como o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741 /2003) não possuem previsão de fornecimento de transporte gratuito intermunicipal aos idosos [...]. (RIO GRANDE DO SUL, 2014).
Para Boas (2014, p. 79),
Com todo o aparato legal, a gratuidade pode se estender a viagens longas atravessar todo o País, mas não pode ser usada para alguns quilômetros curtos, entre uma cidade e outra. Ao município compete regular, dentro de suas fronteiras, assuntos de transporte, mas não pode invadir a área do outro.
Pelo exposto, percebe-se que o município não tem poder de legislar sobre essa matéria, e o que tem ocorrido, na prática, é que cada Estado está tratando de forma diferente o direito ao transporte intermunicipal. Alguns concedem descontos, outros duas vagas gratuitas e infelizmente outros não concedem direito a esse transporte, devido à CF/88 e o Estatuto do Idoso serem omissos a esse respeito. Novamente a sociedade está a negar direito aos idosos pelo simples motivo de a lei não conceder esse direito expressamente.
2.3.4 Prioridade no procedimento de embarque e desembarque aos idosos
O artigo 42 do Estatuto do Idoso vaticina o seguinte: “São asseguradas a prioridade e a segurança do idoso nos procedimentos de embarque e desembarque nos veículos do sistema de transporte coletivo.” (BRASIL, 2003).
No entendimento de Boas (2014), essa garantia é para qualquer tipo de transporte coletivo, seja municipal, intermunicipal ou interestadual. Se o Estatuto do Idoso não distinguiu a ninguém, é licito distinguir. Esse artigo foi alterado pela Lei nº 12.899, de 18 dezembro de 2013, que adicionou ao artigo a palavra segurança, com o fim de garantir aos idosos a integridade física e moral no contato com o público, devido a maior fragilidade do idoso.
A inovação foi muito importante, pois é um requisito para a preservação da dignidade do idoso, pois se sabe que na correria do dia-a-dia a descida e o embarque em transportes coletivos, muitas vezes, é um risco para as pessoas no geral. Para as pessoas com idade elevada e que são mais frágeis, os riscos são bem maiores.
Importante também destacar que esse direito de prioridade e a segurança no embarque e desembarque nos veículos do sistema de transporte coletivo é assegurado a todos os idosos,