2.3 Direito ao transporte público
2.3.2 Direito ao transporte público interestadual
Nos termos do artigo 40 da Lei nº 10.741/03,
Art. 40. No sistema de transporte coletivo interestadual observar-se-á, nos termos da legislação específica:
I – a reserva de 2 (duas) vagas gratuitas por veículo para idosos com renda igual ou inferior a 2 (dois) salários-mínimos;
II – desconto de 50% (cinqüenta por cento), no mínimo, no valor das passagens, para os idosos que excederem as vagas gratuitas, com renda igual ou inferior a 2 (dois) salários-mínimos.
Parágrafo único. Caberá aos órgãos competentes definir os mecanismos e os critérios para o exercício dos direitos previstos nos incisos I e II. (BRASIL, 2003).
Verifica-se que o idoso hipossuficiente, que tenha renda inferior a dois salários mínimos, tem direito ao transporte interestadual gratuito. Ocorre que o número que vagas é limitada, sendo gratuitas somente duas vagas. O número excedente de idosos hipossuficientes têm direito ao desconto de 50% (cinquenta por cento), no mínimo, no valor das passagens.
Foi editado um Decreto nº 5.934/06, que estabeleceu mecanismos e critérios a serem adotados para o exercício do direito previsto no artigo supracitado. Para garantir esse direito, no ato de solicitação do Bilhete de Viagem do Idoso, o interessado deve apresentar documento com foto de prove sua idade e a renda mensal igual ou inferior a dois salários- mínimos, nos termos do artigo 6º do Decreto-lei nº 5.934/06.
Nas palavras de Boas (2014, p. 78), a comprovação de renda é feita mediante a apresentação dos seguintes documentos:
. Carteira de Trabalho e Previdência Social com anotações atualizadas; . Contracheque de pagamento ou documento expedido pelo empregador; . Carnê de contribuição para o Instituto Nacional do Seguro Social - INSS;
. Extrato de pagamento de benefício ou de declaração fornecida pelo INSS ou outro regime de previdência social público ou privado;
. Documento ou carteira emitida pelas Secretarias Estaduais ou Municipais de Assistência Social ou congêneres.
Segundo o artigo 3º, § 2º, do Decreto n° 5.934/06,
Art. 3º. Na forma definida no art. 40 da Lei nº 10.741, de 2003, ao idoso com renda igual ou inferior a dois salários-mínimos serão reservadas duas vagas gratuitas em cada veículo, comboio ferroviário ou embarcação do serviço convencional de transporte interestadual de passageiros.
[...].
§ 2º. O idoso, para fazer uso da reserva prevista no caput deste artigo, deverá solicitar um único ‘Bilhete de Viagem do Idoso’, nos pontos de venda próprios da transportadora, com antecedência de, pelo menos, três horas em relação ao
horário de partida do ponto inicial da linha do serviço de transporte, podendo
solicitar a emissão do bilhete de viagem de retorno, respeitados os procedimentos da venda de bilhete de passagem, no que couber (BRASIL, 2006, grifo nosso).
Do disposto, verifica-se que o ancião precisa adquirir o bilhete com antecedência mínima de três horas antes do horário de partida do transporte, todavia, há exceções para os bilhetes com desconto de 50% (cinquenta por cento):
Art. 4º [...].
Parágrafo único. Para fazer jus ao desconto previsto no caput deste artigo, o idoso deverá adquirir o bilhete de passagem obedecendo aos seguintes prazos:
I - para viagens com distância até 500 km, com, no máximo, seis horas de antecedência; e
II - para viagens com distância acima de 500 km, com, no máximo, doze horas de antecedência. (BRASIL, 2006).
Na prática, o idoso perde o benefício ao desconto por não ter conhecimento dos requisitos necessários para que se adquira o bilhete.
Giza-se que, o direito ao transporte público interestadual gratuito ou com valor reduzido é reservado aos idosos em transportes convencionais, mas é preciso saber o que são transportes convencionais. Conforme o Decreto-lei n° 5.934/06, em seu art. 3º, que regula o artigo 40 do Estatuto do Idoso:
Art. 3º Na forma definida no art. 40 da Lei nº 10.741, de 2003, ao idoso com renda igual ou inferior a dois salários-mínimos serão reservadas duas vagas gratuitas em cada veículo, comboio ferroviário ou embarcação do serviço convencional de transporte interestadual de passageiros.
[...].
Para fins do disposto no caput, incluem-se na condição de serviço convencional: I - os serviços de transporte rodoviário interestadual convencional de passageiros, prestado com veículo de características básicas, com ou sem sanitários, em linhas regulares;
II - os serviços de transporte ferroviário interestadual de passageiros, em linhas regulares; e
III - os serviços de transporte aquaviário interestadual, abertos ao público, realizados nos rios, lagos, lagoas e baías, que operam linhas regulares, inclusive travessias [...]. (BRASIL, 2006, grifo nosso).
Outra regra muito importante que o Decreto-lei nº 5.934/2006 estabelece é que o bilhete de viagem é intransferível, nos termos do § 6, do artigo 3º. Nos termos do Decreto, o idoso, para usufruir de seu benefício, deve comparecer meia hora antes do horário de viagem sob pena de perder o direito.
Percebe-se que na lei está tudo explicado para que o idoso consiga usufruir desse direito, mas na prática não é bem assim. Muitos idosos não têm acesso a essas informações, e
as empresas que vendem bilhetes, muitas vezes, percebendo que a pessoa é idosa, não oferecem o bilhete gratuito ou com desconto.
Nascimento (2012) exemplifica uma situação que mostra o argumento utilizado por uma empresa para sonegar direitos aos idosos:
‘Preciso ir para Delfinópolis, em Minas Gerais, para ver minha irmã de 90 anos que está doente. Só queria que o Estatuto do Idoso fosse cumprido, mas não consigo’. A fala é do aposentado Alfeu Antônio da Silva, de 83 anos, que tem dificuldades para comprar passagem com valor reduzido toda vez que vai viajar.
Por volta das 10 horas de ontem, ele foi à Rodoviária de Araraquara com o cunhado Rones Anísio da Silva, 51, e procurou empresas que passam por Delfinópolis. O único ônibus que seguiria para a cidade no dia tinha saída marcada para as 20 horas, ou seja, 12 horas depois do horário em que o aposentado tentou comprar o bilhete. Mas os funcionários disseram aos clientes que poderiam vender as passagens apenas no horário da partida. ‘Eu entendo que a lei diz que o prazo máximo para a venda de passagem é de até 12 horas de antecedência, ou seja, se eu quiser comprar com 30 horas de antecedência, eu posso; mas na hora não. Mas lei cada um entende do jeito que quer’, diz Rones.
Depois da recusa, Alfeu e Rones fizeram um boletim de ocorrência contra as empresas e foram orientados a procurar a Promotoria Pública para fazer uma denúncia por descumprimento o Estatuto do Idoso [...].
No caso exposto, percebe-se que a empresa usou de artifícios para não vender o bilhete ao idoso. Isso ocorre muitas vezes, e as pessoas que não têm informação acabam acreditando no “papo” dos vendedores de passagens, e indo para casa sem o seu direito.