UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUI - CAMPUS IJUI
CURSO DE PEDAGOGIA
TALITA MARCHIORO ZENI
A CONSTRUÇÃO DE LIMITES ATRAVÉS DOS
VÍNCULOS AFETIVOS
IJUI 2012
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUI - CAMPUS IJUI
CURSO DE PEDAGOGIA
TALITA MARCHIORO ZENI
A CONSTRUÇÃO DE LIMITES ATRAVÉS DOS
VÍNCULOS AFETIVOS
Orientadora:
Profa. Dra. Armgard Lutz
Monografia de conclusão do Curso da Graduação em Pedagogia
IJUI 2012
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUI - CAMPUS IJUI
CURSO DE PEDAGOGIA
TALITA MARCHIORO ZENI
A CONSTRUÇÃO DE LIMITES ATRAVÉS DOS
VÍNCULOS AFETIVOS
Monografia apresentada à banca do curso de Graduação em Pedagogia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI – pra obtenção do título de licenciada em pedagogia, em julho de 2012, sob orientação da profa. Dra. Armgard Lutz
IJUI Julho, 2012
TALITA MARCHIORO ZENI
Aprovada em ____/____/_____
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________________ Profa. Dra. Armgard Lutz
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
_________________________________________________
Profa. Msc. Iselda Teresinha Sausen Feil
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
AGRADECIMENTOS Ao concluir este trabalho, gostaria de agradecer...
Agradeço em primeiro lugar a meus pais, Flavio e Maira que me ensinaram valores e princípios os quais segui e seguirei na minha vida pessoal e profissional e que durante estes anos sempre me incentivaram a prosseguir e a não desistir para que eu chegasse até a conclusão deste curso. Agradeço também a minha irmã Flávia que de uma forma ou outra sempre esteve ao meu lado. Ao meu namorado Tiago, pelo incentivo, apoio e pela alegria que sempre me transmitiu nos momentos mais complicados da graduação. Agradeço também a minha colega e principalmente amiga Tainan, que em muitos momentos dividiu comigo as angustias dos trabalhos e especialmente do TCC, e que sempre deu um jeito de ajudar; não poderia faltar aqui o agradecimento a minha orientadora Armgard que sempre me ajudou nessa maratona louca que é o TCC, trocando emails, dando idéias, emprestando materiais e mostrando o caminho, e também a todo o corpo docente do curso de pedagogia da UNIJUI, que, entre outras coisas, possibilitaram minha formação profissional, além da formação moral, que transmitiram ao longo de todos estes anos de convívio.
Agradeço também, e muito, a todas as crianças que foram meus alunos nestes anos, pois sem dúvidas elas são a grande inspiração para seguir nesta profissão, a estas crianças que sempre com palavras afetuosas e sorrisos sinceros mostraram o quanto vale à pena ser pedagoga, pois foi através delas, do convívio diário com as crianças que obtemos força e vontade para seguir em frente, mesmo com tantas dificuldades que se apresentam frente à educação atualmente.
E finalmente agradeço a Deus, que durante todos os anos de minha vida, esteve sempre ao meu lado, amparando, encorajando e fazendo com que eu sempre seguisse em frente, e seguisse pelo caminho certo.
Enfim, agradeço a todos aqueles que de algum modo, nos momentos mais serenos e também nos apreensivos, de longe ou de perto fizeram ou fazem parte de minha vida, a todos o meu muito obrigado, de coração.
RESUMO
Esta monografia intitulada A Construção de limites através dos vínculos afetivos, trata do tema limites, especialmente na educação infantil, bem como a relação que este tema tem com os vínculos afetivos, sua construção na escola, em casa e juntamente com as crianças. Este estudo tem por objetivo analisar e refletir sobre a importância de construir limites com as crianças, uma vez que tal construção é fundamental para que a criança desenvolva noções importantes e essenciais para uma boa vida em sociedade, e também para que saiba ir além de suas próprias possibilidades, testando o novo, derrubando seus medos para assim caminhar rumo ao pleno desenvolvimento, motor, cognitivo e social.
O estudo apresenta uma revisão bibliográfica apoiando-se nos estudos de Yves de La Taille sobre dois tipos de limites e como construi-los, aqueles que devem ser transpostos e aqueles que proíbem e auxiliam a sociabilidade da criança, e também em Rheta DeVries e Betty Zan, quando falam mais especificamente na moral infantil, a contrução dessa moral e sua importância.
Justifica-se este estudo pelas constantes vivencias em sala de aula, quando havia crianças sem limites com as quais tornava-se mais complexo e conflituoso o trabalho, percebendo que a falta dos limites e também o medo de transpor alguns deles dificultava o aprendizado, o relacionamento da criança com os demais, a sociabilidade e a parte cognitiva da criança.
Os resultados alcançados nos levam a conclusão de que é fundamental estabelecer limites, mas o que faz a diferença é o modo como construímos os mesmos com as crianças, levando a acreditar que o afeto, os vínculos afetivos são a melhor e mais efetiva maneira de trabalhar este tema com as crianças, visando sempre o bem estar e o pleno desenvolvimento das crianças.
Palavras-chave: educação infantil, limites, obediência, vínculos, afetividade, autonomia, maturidade.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ...8
PARTE I ...10
1.1 – Os vínculos afetivos e a educação...10
1.2 - Vínculos na família ...14
1.3 – Relação família e escola ...14
PARTE II ...18
2.1 – A construção de limites ...18
2.2 – Limites a serem transpostos: aqueles que libertam...19
2.3 – Limites comportamentais: o permitido e o proibido...22
2.4 – A moral segundo Piaget...27
2.5 – Construindo limites na família...30
2.6 – Construindo limites na escola...39
PARTE III ...45
3.1 – A relação entre os vínculos e os limites...45
3.2 – Relatos e reflexões de experiências vividas...48
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...52
8 INTRODUÇÃO
Atualmente estamos vivendo uma situação que é extremamente preocupante, a questão de educar com ou sem limites e a construção ou não dos mesmos juntamente com crianças em idade escolar. Nos últimos dez anos muito se fala e muito se reclama da falta de limites, já que para a grande maioria das pessoas a necessidade dos mesmos é evidente, uma vez que eles “ensinam” as crianças a ter comportamentos adequados, são preventivos das situações de risco e são nos limites que estão embutidas noções básicas para a vida em sociedade.
Analisando o contexto social geral, percebemos que esta grande preocupação inicia no fato de que duas das instancias educativas fundamentais estão em profunda crise, a escola e a família. Pais e professores vivenciam esta crise com grande desorientação, angustias inquietações e o que se percebe é que cada vez mais as coisas tomam os rumos menos desejados, causando grandes preocupações principalmente no que diz respeito à educação moral das crianças.
Sabemos que a educação, discute-se e não é de hoje, parece ser o meio mais propicio para a construção da civilização, da boa vida em sociedade, porém, é notável que nos últimos tempos a escola passou a assumir praticamente sozinha um papel que, em princípio, não deveria ser só seu: educar os alunos para a cidadania. A sociedade mudou muito, e sabemos, continua em constante mudança, valores éticos se transformaram, e muitos pais diante de tal transformação se sentem inseguros em relação à formação dos filhos, delegando este papel exclusivamente para a escola. Do outro lado vemos professores amedrontados, por estarem assumindo tamanha responsabilidade sozinhos, e assim podemos claramente perceber um pouco do centro dessa crise que a escola vem enfrentando.
Mas, se os pais não colocam limites, não ensinam valores para os filhos, como a escola irá sozinha conseguir? Por isso, se fala tanto em parceria entre a família e a escola, parceria essa capaz mexer nessa crise e derrubá-la. As duas instituições, trabalhando juntas, se complementando, gerarão um efeito muito maior do que se ficarem se culpando e empurrando responsabilidades uma para outra.
9 Mas, falando em tudo isso, em construção de limites, outro ponto fica bastante evidente quando paramos para analisar como tal construção pode ser feita. Através de repressões? Ou então adotando um sistema altamente autoritário? Enfim, existem varias possibilidades, mas a que vem se destacando é a construção de limites através do vínculo, aquele que aproxima, relaciona o que ensina e o que aprende. Assim, devemos lembrar que o desenvolvimento humano se inaugura no afeto e não na razão e desde cedo devemos saber que ao trabalhar com educação para crianças, esta é um ser - humano que está sendo educado, um ser que tem uma dignidade, que não pode ser tratado como coisa, pensando assim, fica claro que a construção de limites sem a criação de vínculos carece de sentido, não possui um efeito educativo e acaba levando para o caminho do autoritarismo e não da liberdade com responsabilidade.
E é justamente sobre este tema que o presente trabalho vai informar: a construção de limites, tendo como recorte a criação de vínculos para que esta construção aconteça de forma plena e significativa no processo de desenvolvimento da criança. O objetivo é entender como os limites são produzidos, acontecem e qual a forma mais natural de inseri-los na vida das crianças, e ainda analisaremos porque os vínculos afetivos são tão importantes para esta construção, são tão importantes para que a criança aprenda a refletir sobre os limites, a aceitá-los e a vivê-los de forma refletida, podendo assim ter uma vida socialmente e moralmente correta.
10
PARTE I
1.1 - OS VÍNCULOS AFETIVOS E A EDUCAÇÃO
Segundo o dicionário, vínculo é tudo aquilo que liga que estabelece uma relação, é o que ata, é um laço, um nó, e existem diversos tipos de vínculos, mas vamos nos
concentrar nos vínculos afetivos, laços tão importantes nas relações entre as pessoas. E exatamente sobre este nó, este laço vincular afetivo que pretendo refletir neste primeiro capítulo, o que é uma relação vincular, como ela pode ser estabelecida, como ela pode ser desfeita, ela tem alguma relação com a educação?
O que é um vínculo afetivo? Talvez esse conceito esteja um tanto corrompido hoje em dia, afinal um vínculo real não pode se dar de forma vaga, como algo breve, ele exige tempo, doação e muitas vezes traz consigo muitas dificuldades, e também conflitos que sempre poderão ocorrer, mas tudo isso é um caminho para um progresso, para uma evolução. Infelizmente como citado no inicio do parágrafo, o que podemos observar hoje em dia é que as pessoas não criam mais um vínculo real uns com os outros, elas simplesmente descartam as coisas, as possibilidades quando algo não dá certo, ou se mostra difícil, não há mais doação, e muito menos tempo para a criação deste laço, e assim o ser humano acaba se tornando objeto dentro de suas próprias relações.
É fato, que o vinculo faz parte de nós enquanto seres humanos desde o momento em que somos concebidos, já no útero da mãe começa nossa relação com o mundo externo e com as pessoas que farão parte do nosso meio, nesse sentido começamos a estabelecer vínculos, e talvez o primeiro deles que podemos citar é a voz daquela que nos carrega. Assim percebemos a importância que o vínculo estabelece na nossa vida, evidenciando o quanto este será fundamental e determinante ao longo desta. Podemos ter uma vida saudável e equilibrada ou desequilibrada e insensata dependendo de como lidamos com os vínculos que nos rodeiam.
Percebemos então que falar de vínculo implica falar de interação, ou seja, de uma relação dialética entre o mundo interno e o mundo externo e entre sujeito e objeto, estabelecendo entre estes um diálogo e uma modificação permanente de um e de outro, através do processo de comunicação e aprendizagem. Nessa concepção podemos
11 entender o vínculo como facilitador de transformações no sujeito, possibilitando-lhe que, efetivamente, se manifeste como um indivíduo que vem a ser a cada instante, numa construção contínua a partir do seu processo de aprendizagem.
A relação dialética, nada mais é do que um método de diálogo cujo foco é a contraposição e contradição de ideias, o que acaba por levar a outras ideias, é um método de aproximação entre as ideias particulares e as ideias universais, é a técnica de perguntar, responder e contradizer. Poderíamos explicar a relação dialética do seguinte modo: tendo como elementos básicos do método dialético a tese (uma afirmação), a antítese (uma oposição a tese) e a síntese (uma nova afirmação) percebemos que a primeira é uma situação inicialmente dada, é uma afirmação, a segunda por sua vez vai ser uma oposição a esta afirmação e entre a afirmação e a oposição vai surgir uma discussão que conseqüentemente vai levar a uma nova tese. Falando de uma forma mais simples, em uma relação dialética ocorre o seguinte, uma pessoa, afirma algo, algo que seja universal, a outra com pensamentos diferentes, vai ir contra, vai se opor e vai iniciar um diálogo entre ambas, uma defendendo a afirmação dada e a outra defendendo seu ponto de vista, deste dialogo então vai surgir uma nova afirmação baseada no consenso em que se chegou entre as partes. Por isso, ao falar em vínculos, falamos também na relação dialética, entre o mundo externo que seriam as concepções existentes e o mundo interno, que é o pensamento individual de cada um, pois é o dialogo entre estes que permite novas teses, novas afirmações e novas possibilidades, de mudanças nas pessoas, e o vinculo tema central deste capitulo, é na verdade um grande método para provocar e auxiliar tais mudanças que podem vir a ocorrer na relação dialética entre os sujeitos, pois onde há vinculo há uma possibilidade maior de entendimento e de aceitação das idéias de ambas as partes, resultando em uma bela nova tese sobre os mais diversos assuntos que rodeiam o ser humano, que rodeiam as crianças e seus limites – foco central deste trabalho.
Então, chegamos ao entendimento de que o tema “vínculos” é desafiador porque nos incita a uma situação especial de realização de uma tarefa: descobrir a presença das pessoas que nos rodeiam e o que isso nos propicia (medo, angústia, temor, ansiedade, prazer, alegria, cumplicidade, cooperação, competição, inveja, etc.). Assim, o ato de relacionar-se, ou criar vínculos implica na presença de obstáculos e de uma tarefa implícita e explícita que temos que cuidar e estar permanentemente atentos.
Como já citado acima, desde o ventre de nossas mães já começamos a criar vínculos com o mundo exterior, e após o nascimento esta tarefa irá se intensificar cada
12 vez mais, sempre que conhecemos uma pessoa, poderemos com ela criar um vínculo, que poderá ser tanto positivo quanto negativo. Um vínculo positivo pode ser criado com base no afeto, na simpatia, no amor..., enquanto que um vínculo negativo pode ser criado através do ciúme, da inveja, da raiva, enfim, de certa forma o primeiro contato que tivermos com o outro, poderá ser o fator determinante na construção de vínculos.
Mas, como queremos aqui falar do vínculo enquanto facilitador do processo de aprendizagem, e, além disso, do processo da construção de limites, os restritivos, e os que devem ser transpostos, vamos começar analisando o vínculo em relação à educação, o que ambos tem em comum? Partindo do pressuposto de que educar não significa apenas repassar informações ou mostrar um caminho a seguir, podemos dizer que educar vai muito além, educar é ajudar o educando a tomar consciência de si mesmo, dos outros e da sociedade em que vive, bem como do seu papel dentro dela. É ajudar a criança aprender a aceitar-se como pessoa e principalmente aceitar ao outro com seus defeitos e qualidades. É, também, oferecer diversas ferramentas para que pessoa possa escolher o seu caminho, entre muitos, para que ela possa determinar aquele que for compatível com seus valores, sua visão de mundo e com circunstâncias adversas que cada um irá encontrar.
Assim, tanto família quanto educadores são sem dúvidas, peças fundamentais nesse processo de educar verdadeiramente, mas para que haja esse processo educativo verdadeiro é necessário que algo mais permeie essa relação da criança com a família e com a escola. É esse algo a mais que falta em diversas famílias e instituições de ensino, e este algo a mais a que me refiro, é a afetividade, que pode proporcionar uma relação mais estreita entre as crianças e aqueles que fazem parte do seu meio educativo. Muitos têm comentado que a educação afetiva deveria ser dentre tantas outras a primeira preocupação dos educadores e das famílias, pois é justamente esta afetividade que vai condicionar o comportamento, o caráter e a atividade cognitiva da criança, sem esquecer que a preparação da criança para a vida escolar e posteriormente para a vida em sociedade, passa pelo desenvolvimento de competências emocionais, como a confiança, curiosidade, intencionalidade, autocontrole, capacidades de relacionamento, de comunicação e de cooperação, e tudo isso se torna muito mais simples quando se estabelece um vinculo entre a criança e a família e ainda o educador.
Vamos fazer uma breve consideração sobre a questão da afetividade na escola, para depois falarmos dela na família, e então analisar como podemos estabelecer
13 vínculos afetivos em casa e na escola com nossas crianças. Hoje em dia, a afetividade tem ganhado um olhar especial no processo de ensino e aprendizagem, pois se acredita que a interação afetiva auxilia mais na compreensão e na modificação das pessoas, do que um brilhante raciocínio repassado mecanicamente. Concordo com este pensamento, afinal tudo que é repassado de forma mecânica e as vezes até grosseira, não vai fazer muito sentido no entendimento da criança, ela vai escutar, vai concordar, mas logo em seguida poderá esquecer da grande e perfeita explicação que a professora deu sobre determinado acontecimento, uma briga com um colega, por exemplo. Porem, se a professora intervir de forma afetuosa, conversando e através da afetividade, da reflexão afetiva fizer a criança entender que o que fez não é certo, e não pode ser repetido, a criança de alguma forma, no seu interior vai perceber que o que a professora fala é para o seu bem, e assim, vai ficar muito mais fácil o entendimento das coisas.
Sabemos que muitas crianças não vivenciam este afeto dentro de suas casas, e assim acabam chegando na escola agressivas, fechadas para as relações, o educador então não pode julgá-la por seus modos agressivos, ele deve sim tentar entender o que se passa no ambiente familiar, deve tentar encontrar o porque da agressividade, afinal a criança não é assim porque que ela quer, sempre haverá um motivo para cada atitude, e se a criança não tem felicidade em casa, devemos ter em mente que a escola é o melhor lugar para mostrar a ela que a felicidade existe para quem acredita nela. Se ela não tem afeto e carinho, porque não mostrarmos à criança o quanto é bom um afeto? Infelizmente, o que podemos perceber é que na maioria das instituições escolares a afetividade também não existe, ou é bastante rara, pois o aluno é visto como mero objeto de aprendizado, ou seja, um „lugar‟ onde o conteúdo deve ser depositado, por isso precisamos quebrar certos padrões e pensar na criança como um todo, um todo que é formado de emoções, sensações e amor. Por isso é necessário que deixemos um pouco de passar apenas os conteúdos e passemos a pensar na criança e no seu bem estar, psicológico, físico e cognitivo, pois isso certamente vai afetar de forma positiva o desempenho, o desenvolvimento da criança. Defendo que em lugar dos professores se manifestarem sobre suas turmas como uma turma agitada, se manifestem vendo sua turma como seres humanos sedentos de vida, de experiências e de saberes.
14 1.2 - VÍNCULOS NA FAMÍLIA
Sabendo disso, vamos agora pensar um pouco na importância da família, e na necessidade da existência dos vínculos familiares para a criança. A família é a base de tudo na vida do ser humano, isso é fato, e é na família que aprendemos as primeiras noções da vida em sociedade, os primeiros conceitos de cultura, de afeto, de carinho, de exemplos. Assim a afetividade exerce um papel decisivo na vida das pessoas e forma um elo fundamental na relação Pais-Filhos, as crianças precisam sentir-se amadas pelos pais, pela família, pois o amor lhes dá segurança, e essa segurança faz com que as crianças tenham mais vontade de participar e explorar o mundo que as cerca. É fácil perceber que quando os pais se fazem presentes, mostrando que se interessam pelos filhos, pelo que estão aprendendo, pela escola, enfim por tudo que fazem e também pelo que deixam de fazer, os progressos, as necessidades, as crianças ao se sentirem importantes, ao verem que os pais se preocupam pelo que se passa com elas, se sentem muito mais motivadas para aprender, pois quando os pais se orgulham do que elas fazem, elas se orgulham também, pois de que valeria qualquer feito, se os pais não se sentissem orgulhosos, para a criança perderia o valor.
1.3 – RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA
Depois dessa breve reflexão sobre o vinculo na escola e na família, podemos citar aqui outro fator determinante no desenvolvimento das crianças, o laço escola-família, que se faz mais do que necessário, pois é através dele que muitas vezes conseguimos vencer obstáculos no transcorrer da vida escolar da criança. Por isso, se insiste tanto em mostrar que é de extrema importância criar um elo de comunicação entre a família e a escola, afinal ambas se necessitam, elas tem trabalhos diferentes, mas que se complementam, sendo que nem uma e nem outra podem suprir todas as necessidades infantis sozinhas, é preciso haver uma parceria, e é de extrema importância ressaltar que o sucesso ou o fracasso no desenvolvimento escolar da criança é influenciado por diversos fatores, sendo o envolvimento da família com essas crianças o fator principal.
Dessa forma, podemos concluir que a afetividade deve permear o nosso trabalho, visto que só se aprende com prazer, quando é ensinado com amor. Tudo o que é
15 imposto, é apenas assimilado, mas não desfrutado, realmente entendido. Ou seja, só ocorre o aprendizado verdadeiramente quando a criança torna-se parte do contexto e não é apenas um objeto no processo, e essa afetividade só é estimulada através da vivência, na qual o educador pode e deve estabelecer um vínculo de afeto com o educando. A criança precisa de estabilidade emocional para se envolver com a aprendizagem, e o afeto pode ser uma maneira eficaz de se chegar perto do educando.
Todo ser humano precisa de limites sim, é preciso aprender o que é certo, o que é errado, mas também é preciso receber carinho e amor. Um educando aprende o que é respeito e passa respeitar o outro a partir do momento em que vê o educador como um amigo que tem e espera respeito, como alguém que se preocupa de verdade com ele e que lhe mostra os caminhos.
Como podemos perceber a partir de tudo que foi dito anteriormente, criar vínculos é um exercício muito importante e fundamental tanto na relação professor e aluno, quanto na relação pais e filhos, afinal o vinculo é o primeiro laço que vai dar a segurança, o impulso para todas as etapas do desenvolvimento da criança. A primeira infância, como muito se fala é referenciada como tempo de cuidado e de educação, o que significa que trabalhar com os pequenos requer ações de cuidar e educar de forma integrada, simultaneamente, e qual o melhor caminho para chegar na criança senão o vinculo, senão a afetividade, que pode ser demonstrada através de um sorriso, de um abraço, de um carinho, ou de um simples “oi” afetuoso, é assim, nestes pequenos detalhes que começamos a criar o laço com as crianças, que começamos a fazê-las perceber que estamos ali para auxiliá-las, para aprender junto com elas, para cuidá-las, assim antes de mais nada elas nos verão como amigas, e poderão confiar, se sentir seguras, e assim pode ser o começo de uma boa relação professor e alunos. Já com os pais, não é exatamente assim, já que desde os primeiros momentos de vida, a criança já possui uma relação vincular com os mesmos, porem estes detalhes que citei acima devem sempre fazer parte da relação entre pais e filhos, para que o vinculo não se rompa, e para que as crianças não deixem de sentir-se seguras e amadas pelos pais, fato que é decisivo e muito importante no processo de desenvolvimento das crianças como também já foi citado em momentos anteriores deste capitulo.
Nessa perspectiva, pode se pressupor que a pratica docente na educação infantil deve ter como ponto de partida a concepção de criança como um ser histórico-social,
16 que é ativo no processo de construção do conhecimento, deve ter o entendimento de que a criança é um cidadão que possui direitos, e que a educação é uma pratica social humana que esta inserida em uma sociedade notadamente contraditória, constituída de ideologias, valores e atitudes. Por isso o grande objetivo da educação infantil é justamente o desenvolvimento integral das crianças, as quais tem a necessidade e também o direito de serem cuidadas e educadas como um todo, lembrando que não podemos esquecer que neste todo estão presentes não só o desenvolvimento cognitivo, mas também o motor e afetivo, bem como os cuidados com o seu corpo, sua alimentação, saúde e crescimento, ou seja, qualquer atividade que tenha como foco a criança, tanto na família como na escola é multireferencial e implica em ações educativas e de cuidado.
Cabe ainda neste capitulo falar que as emoções são formas privilegiadas de comunicação da criança, e as professoras devem compreender e ler estas expressões, assim como devem saber administrar essas diversas emoções que se apresentam no interior dos espaços pedagógicos infantis. As formas de comunicação entre as crianças e o adulto cuidador são múltiplas e diferenciadas, as quais estão cheias de sentimentos, de emoções e, sobretudo, de subjetividade, de formação da auto-estima e de constituição da identidade da criança. E, mais uma vez, tudo isso também implica em atos de cuidado e educação, e o modo como a professora percebe e trabalha com isso, com as manifestações infantis, com as interações entre as crianças, entre as crianças e os adultos, com as mediações que resultam das atividades de higiene, alimentação, musica leitura e outras tantas atividades desenvolvidas nas escolas de educação infantil, esta totalmente relacionadas, e através dos vínculos afetivos são ressignificadas e interiorizadas de forma muito mais definitiva. Em outras palavras, este processo de cuidado e de educação das crianças pequenas vai se tornar mais efetivo e também mais prazeroso para ambas as partes quando existir o envolvimento real, e uma sintonia entre quem cuida e quem é cuidado, por meio da qual a professora poderá conseguir ler de forma mais eficaz as múltiplas expressões das crianças, e suas formas diferenciadas de comunicação e ação podendo intervir no sentido de acolher e de envolver a criança no espaço educativo, contribuindo assim para o desenvolvimento integral da mesma, reforçando o quando cuidado e educação são ações indissociáveis, que se complementam e que são fundamentais para o desenvolvimento pleno da criança.
17 Percebemos então que criar vínculos não é uma tarefa tão complexa assim, apenas demanda tempo, cuidado, vontade, e uma vez estabelecidos tudo vai ocorrer mais naturalmente no desenvolvimento das crianças, mas, cuidado, pois mais fácil do que estabelecê-los, é quebrá-los, e isso pode acontecer ate de forma inconsciente, e a partir do momento que a criança perceber que o adulto não se importa mais tanto, que o adulto não olha mais para ela com o mesmo carinho e atenção, ela também vai se retrair, não ouvindo mais, não acreditando, deixando de confiar plenamente naquele que outrora era seu ponto de segurança. Ao quebrarem-se os vínculos, varias conseqüências desagradáveis podem vir a se apresentar, a criança poderá regredir no seu desenvolvimento, ou parar onde esta, não voltar, mas também não avançar, o que é certamente desmotivador tanto para a criança quando para o adulto, por isso que é tão importante alem de estabelecer os vínculos cuidar para que os mesmos não sejam rompidos, zelar por eles, e fazer que eles apenas se intensifiquem a cada dia na relação criança e adulto, sendo esse adulto tanto os pais quanto os professores.
Ao chegarmos ao final deste capitulo podemos afirmar que é durante as primeiras etapas de nossas vidas que construímos uma série de comportamentos que serão a base para futuras vivências, e levando em consideração que não somos constituídos apenas pelo corpo e pelos seus movimentos, mas também pela inteligência, pela linguagem e principalmente pelo afeto, pelas relações, emoções e pelo contato, devemos perceber e evidenciar a afetividade como parte de fundamental importância em nossa constituição enquanto sujeitos. Dessa forma podemos aqui afirmar que a escola, assim como a família são “chaves” para a exploração do campo das emoções e das relações entre os sujeitos, uma vez que não nascemos prontos, e que nosso eu subjetivo vai se desenvolver justamente no contato e nas trocas que vamos estabelecer tanto no espaço escolar quanto no espaço familiar.
A afetividade então é o caminho para construirmos o vinculo, importante aliado durante o desenvolvimento afetivo e também cognitivo da criança, e ainda para a construção dos limites, assunto ao qual farei importantes observações no próximo capitulo. Os limites que falo, são tanto os comportamentais que seriam em outras palavras a noção do proibido e do permitido, e também os limites que devemos estimular a serem transpostos. Então, após entendermos o que são vínculos e qual sua importância no processo de desenvolvimento das crianças, vamos procurar também entender os limites, o que eles representam como podem ser trabalhados, estimulados,
18 construídos, em casa, na escola, numa parceria constante para o pleno desenvolvimento cognitivo, afetivo e social, para que a criança consiga se relacionar e ter uma “boa vida” nesta sociedade que tanto exige e que constantemente sofre grandes mudanças.
PARTE II
2.1 - A CONSTRUÇÃO DE LIMITES
“Limite” é uma palavra que vem ganhando crescente espaço nas rodas de discussões de professores e é empregada geralmente como uma queixa de algo ou alguém: “Essas crianças não têm limites, é preciso impor isso a elas”. A obediência, o respeito, a disciplina, a construção moral, a cidadania, o vínculo, a ética, as boas relações interpessoais em sociedade, enfim, muitas coisas parecem estar associadas a tal assunto.
Mas, o que realmente significa a palavra limite, do que estamos falando quando nos referimos a ele, sua falta, sua necessidade de ser imposto? Segundo Yves de La Taille em seu livro “Limites, Três Dimensões Educacionais”, limite nos remete à idéia de uma fronteira, uma linha que separa territórios, e se existe um limite, é porque há pelo menos dois lados, podendo ser ou concretos, ou abstratos, separados por essa fronteira, lados esses que cito aqui como o lado proibido, que é o negativo e o lado permitido, que é o positivo separados então pela fronteira dos limites.
Porém, essa é apenas uma idéia que pode vir a definir tal palavra, pois limite não pode ser pensado apenas como o fim, como a limitação de algo, limite significa também aquilo que pode, ou melhor, que deve ser transposto para o desenvolvimento da autonomia, para o amadurecimento da criança. O problema está em saber se o limite é um convite para que se passe para o outro lado ou uma ordem, uma proibição, para que se permaneça onde se está.
Neste capítulo que segue, faremos uma analise explicativa, sobre estes dois lados que podem explicitar a palavra limites lados estes fundamentais para o desenvolvimento da criança, afinal, ela precisa saber respeitar regras, respeitar limites, mas também necessita ter autonomia para ir além deles quando possível, quando for preciso, pois ir
19 além neste assunto, significa crescer, tornar-se madura, responsável, sabendo arcar com as conseqüências de seus atos, e também, sabendo avançar diante de suas limitações, e ainda falar de suas implicações na família e na escola.
2.2
LIMITES A SEREM TRANSPOSTOS: AQUELES QUE LIBERTAM“Passamos toda a infância procurando esquecer a criança que éramos na véspera. O crescimento é isto. E a criança não deseja nada além do que não ser mais criança” (Alain, 1948; In: LA TAILLE, Ives: Limites Três Dimensões Educacionais, 2001, pg.13).
Nesta pequena citação percebemos uma máxima da infância, as crianças passam o tempo todo apenas querendo não ser mais crianças, querendo crescer, fazer coisas de adultos. Esta é a grande motivação da criança na infância, sair dela, crescer. Sobre isso existem exemplos claros que marcam todas as fases do desenvolvimento das crianças, citarei aqui apenas um: Quando uma criança começa tentar andar, ela ainda não consegue ficar em pé totalmente sozinha, então busca ajuda, tanto de um adulto, como de possíveis móveis que podem estar pela casa, assim, ela tenta ficar em pé, tenta mover-se, não consegue, cai, fica brava, mas levanta e tenta novamente, esses são os seus limites, e depois de tanto tentar, ela vai conseguir ultrapassá-los, e sua grande vitória será conseguir caminhar sozinha. Esse é apenas um exemplo, mas durante toda a infância poderemos assistir cenas semelhantes a essa quando a criança vai se dedicar para conseguir coisas difíceis que deseja alcançar em função das limitações de sua idade, em outras palavras, ela sempre vai tentar transpor os seus limites.
Os medos também podem ser aqui citados como limites: medo de escuro, medo de bicho papão, de monstros imaginários, medo de ficar sozinho. São barreiras que precisam ser transpostas pela criança e é através do incentivo, conversa dos pais e também professores que a criança vai entendendo que tudo é fruto da imaginação, para assim quebrar esse limite, esse medo que a impede de dormir sozinha, de ficar no escuro, de ficar sozinha na escola enquanto os pais trabalham, enfim, aquele medo que de certa forma a impede de crescer.
A partir destas observações podemos aqui chamar o limite de fronteiras subjetivas, as quais devemos respeitar em nossas múltiplas relações, dentro e fora da
20 escola. Eles podem sim, ser repensados, modificados, transpostos, mas jamais ignorados. Assim, neste capitulo, vamos tratar dos limites que devem ser transpostos, aqueles que vão libertar as crianças, podemos dizer que estes podem servir como uma espécie de trampolim, que impulsiona o desenvolvimento e a aprendizagem bem como permite o conhecimento do mundo.
Para reforçar o que acabou de ser dito, usaremos a teoria piagetiana, onde Piaget nos fala que não é a pura maturação biológica que explica o desenvolvimento, mas sim as múltiplas interações da criança com o meio físico e social, em outras palavras, é agindo sobre os objetos que a criança os assimila e conjuntamente constrói estruturas cada vez mais complexas de assimilação.
Com base nisso, podemos dizer que crescer é desenvolver-se, é superar limites, sim, de fato é, porém chamo aqui a atenção para algo que comumente podemos observar em certas crianças, o medo que elas têm de crescer, isso mesmo, enquanto umas possuem grande ansiedade em não ser mais crianças, outras são dominadas pelo medo de crescer, regredindo a fases anteriores de desenvolvimento ou simplesmente permanecendo certo tempo em uma mesma etapa. Sabendo disso, não podemos afirmar que o desejo de crescer é harmonioso, igual em todas as crianças, e que o desenvolvimento é uma tranqüila etapa a ser atravessada. Vejam que interessante, dizem que o que move o individuo é o interesse, sem ele nada acontece, e se o limite de fato representa um marco, uma fronteira entre dois territórios, é porque tais territórios são distintos, e aquilo que esta além da fronteira é desejável, desperta um interesse, mas ao mesmo tempo é desconhecido e por isso um tanto assustador, por isso esse medo de crescer é perfeitamente aceitável e deve ser compreendido, lembrando que ao educar uma criança, devemos ter consciência que tal ato esta longe de apenas impor limites, antes de tudo, é necessário ajudá-la cognitiva e emocionalmente a transpô-los.
Infelizmente, o que é verificado atualmente é que muitas vezes, tanto na família quanto na escola, a educação ao invés de ajudar a criança a transpor limites, a mantêm no seu estado infantil. Podemos notar tal situação, por exemplo, quando uma criança ingressa na escola, um dos primeiros pontos visíveis é a insegurança, o que é perfeitamente normal, afinal, ela sai de casa para ficar sozinha em um ambiente novo onde não conhece ninguém, os pais a deixam, e isso gera uma pequena confusão no entendimento da mesma. Dessa forma, visualizamos o quanto ela vai se tornando
21 dependente das professoras, para comer, ir ao banheiro, se vestir, fazer as atividades propostas, enfim, pequenos acontecimentos que tornam a criança dependente e insegura, e se a profissional não intervir para mudar tal fato, e se acomodar por ser mais fácil fazer tudo pelos alunos, a criança não vai ter vontade de ir alem de tais limites . Outro fator que podemos aqui citar é que alguns pais fazem tudo por seus filhos, como se aos cinco anos de idade ainda fossem bebes que precisassem de cuidados extremos, e não pudessem fazer nada sozinhos. Isso é um grande equivoco e certamente prejudicial à criança, afinal ela precisa se tornar independente, ela precisa saber se virar, se posicionar, pois assim é que ela vai construindo a sua maturidade, os pais ao entregarem ou fazem tudo no lugar dos filhos estão dispensando o esforço dos mesmos, esforço este que é a chave para o desenvolvimento e a formação do caráter, o prazer imediato, por mais que seja num primeiro momento mais desejado, acaba logo, perde a graça, e na verdade é busca por este prazer, o esforço para se conseguir algo que tem valor, que se mostra gratificante ao final, e que contribui positivamente para o amadurecimento da criança.
Porém, um grande problema é que não é fácil convencer boa parte dos adultos de que é importante estimular as crianças a transpor os limites, isolando-as no seu “mundo”, sem fazer com que procurem ir alem de suas possibilidades, ir alem de suas limitações, como um dia escreveu Hannah Arendt:
“[...] com o pretexto de respeitar a independência da criança, excluimo-la do mundo dos adultos para mantê-la artificialmente no dela, se é que pode ser chamado de mundo. Essa maneira de manter a criança afastada é artificial, porque quebra as relações naturais entre as crianças e adultos, relações estas que, entre outras coisas, consistem em ensinar e aprender, e porque vai contra o fato de que a criança é um ser em plena formação e a infância é apenas uma fase transitória, uma preparação para a idade adulta” (1972; In: LA TAILLE, Ives: Limites Três Dimensões Educacionais, 2001, pg.31).
Em outras palavras, a infância é por natureza uma fase marcada pela transitoriedade, pelo caminhar rumo à idade adulta, e tal caminhada implica um incessante transpor limites. E, como o ser humano é um ser social, a educação é condição desse crescimento, ela deve ajudar a criança a identificar os limites, motivando-a para superá-los, a educação deve auxiliá-la na busca da excelência, mas o que significa isso? Caminhar em busca da excelência? Isso, nada mais é do que procurar ir além de si mesmo, mas cuidado, não é ser melhor do que os outros, a excelência é sim
22 uma competição, mas uma competição consigo mesmo, onde se tenta tornar-se melhor do que se é, ou seja, ela é importante para transpor limites, alias, ela mesma é um “ir além”, no caminho da maturidade, e essa busca de superação de si mesmo é a primeira razão do crescer e do viver humanos, mas atenção a excelência deve ser entendida não como um nível a ser atingido, mas sim como um ideal que move, sempre na busca do melhor, e como certamente ninguém é perfeito, essa busca sempre vai existir, pois sempre podemos ser e fazer melhor.
E por que a excelência é importante? Por que devemos ser movidos por ela? Acho interessante essa pequena observação, uma vez que a excelência contribui para que as sociedades se mantenham abertas e capazes de mudanças, ela fornece inovações, oferecendo um senso de direção, contribuindo para o enriquecimento das oportunidades de vida de todos.
Após ver o que é a excelência, porque ela é importante, podemos observar que é interessante que ela seja um dos objetivos da educação, tanto familiar quando escolar, da criança, ela deve ser estimulada, procurar a expansão do eu, a superação das dificuldades, é naturalmente uma tendência do ser humano, porém para que este potencial torne-se realidade, a criança deve encontrar alimento, terreno fértil, estímulo. E, uma boa educação sempre deve dar esse estimulo, deve incentivar a transpor limites, sejam os próprios da idade infantil, sejam os de seu desempenho, para aperfeiçoá-los e dar sempre o melhor de si. Falando de uma forma bem sucinta e objetiva, toda criança precisa de um adulto, que com carinho e sinceridade lhe diga: “Você Pode!”, lembrando que aquele que procura superar-se, fazer melhor, ir alem de seus próprios limites, costuma viver melhor consigo mesmo, e conseqüentemente com outros, pois ele se sente capaz, e não diminuído e inferior em relação aos demais.
2.3 - LIMITES COMPORTAMENTAIS: O PERMITIDO E O PROIBIDO
Acabamos de falar em limites no sentido de transpor, de ir alem de suas limitações, agora é a hora de refletirmos sobre outra face da palavra limites, encarando-os pelo seu sentido restritivo, como a demarcação de um domínio que não deve ser invadido, que é o sentido mais conhecido, e do qual existem tantas queixas, de crianças que não possuem limites.
23 O sentido restritivo da palavra limite nos coloca de frente com um grande tema humano, a liberdade. Os limites físicos, não encontram muitos problemas de aceitação, por exemplo, um homem não tem asas, portanto não pode voar, estes são limites concretos, objetivos, e por isso mais fáceis de serem compreendidos. Porém, os limites restritivos que levantam sérias questões éticas, morais, existenciais, são os normativos, aqueles que a sociedade resolve criar e impor, podemos dizer então que os limites físicos remetem à dimensão do impossível, enquanto que os normativos remetem ao proibido e são muitas vezes vividos de uma forma um tanto penosa.
Neste sub-capitulo, vamos nos restringir a falar dos limites normativos, aqueles que provocam grandes discussões, dúvidas e preocupações no que diz respeito ao desenvolvimento infantil. Freud escreveu que, se há proibições, é porque existe o desejo, e de fato, se não há o desejo, alguma coisa que chame a atenção, uma tendência a agir, porque haveria a proibição, os limites? Vejam outra citação do famoso educador, chamado de pai da psicanálise:
“O homem é tentado a satisfazer sua necessidade de agressão contra seu próximo, de explorar seu trabalho, de usá-lo sexualmente, de apropriar-se de seus bens, de humilhá-lo, de lhe causar sofrimentos, de martirizá-lo e de matá-lo. O homem é o lobo do homem; quem teria a coragem, face a todos os ensinamentos da vida e da história, de negar o valor desse adágio?” (FREUD, Sigmund, 1971; In: LA TAILLE, Limites Três Dimensões Educacionais, 2001, pgs. 52 – 53).
Podemos dizer que tal pensamento é um tanto radical, sim, mas remete exatamente a um desejo talvez até inconsciente do ser humano, mas um desejo de ir contra o seu próximo, o que lembra outra expressão muito usada por Freud, “mal-estar na civilização”, devido ao desconforto sentido por toda pessoa que vive em sociedade, afinal, civilizar-se exige a repressão de instintos anti-sociais básicos, ou seja, exige que se pague o preço da liberdade, não há, portanto, civilização sem repressão, sem sérias restrições, sem limites.
Assim, a colocação de limites, no sentido restritivo do termo, assim como o transpor limites faz parte da educação, do processo civilizador, e a ausência total desta prática pode gerar uma crise de valores, podemos até dizer uma volta a um estado selvagem, onde prevalece a lei do mais forte. Yves de La Taille, em seu livro “Limites: Três Dimensões Educacionais” deixa bem clara sua posição sobre construir limites
24 restritivos: “Em primeiro lugar, creio que devem ser pensados em função do bem estar e do desenvolvimento dos indivíduos. Em segundo lugar, devem ser pensados em função do bem estar dos outros membros da sociedade.” ( 2001, pg.57).
Percebe-se ai, a clara opinião sobre a importância dos limites restritivos, mas de forma educativa, sem ser arbitrário, agindo sempre como uma autoridade seca, intransigente, muito pelo contrário, Yves defende a imposição de limites pensando na criança, no bem estar e bom desenvolvimento dela, e conseqüentemente no bem estar daqueles que a rodeiam. Podemos dizer então que a existência de alguns limites restritivos faz parte da “vida boa”, mais ainda são necessários para que se alcance essa vida, e, cabe a educação ajudar as crianças a construir e a valorizar estes limites.
Bem, se cabe a educação ajudar as crianças a construir estes limites, surge uma pergunta bastante pertinente: Devemos ou não impor limites a realização dos desejos das crianças? Se pensarmos nos desejos que vão contra o bem estar físico da criança, como não tomar remédio, não tomar banho, prontamente a resposta será afirmativa, mas e quando fala-se em outros desejos como assistir vários programas de televisão, ficar usando o computador até tarde, mudar de escola... Muitos pais e educadores podem ter medo, de, ao impedir as crianças de realizar determinadas vontades, estarem contrariando boas opções, os adultos de hoje já não possuem tanta certeza se realmente sabem o que é ou não melhor para os seus filhos, portanto colocam menos limites, o que, na opinião de muitos é um erro, afinal uma criança por mais sabia que seja, ainda não possui maturidade total para assumir determinados riscos e lidar com certas conseqüências, portanto precisam que alguém as oriente para que saibam qual caminho seguir, para que saibam ate onde elas podem ir, e quais limites elas devem respeitar, e por mais que talvez não demonstrem elas querem isso também, elas querem essa mao amiga, afetuosa que as ajude a caminhar, e quando os pais em determinadas ocasiões deixam-nas livre demais, permitindo tudo ou quase tudo, tal postura pode ser vista como descaso, descompromisso, como se não estivessem preocupados com os filhos, o que na maioria das vezes é sentido e refletido de alguma forma pelas crianças.
O dilema está justamente no que foi dito acima, como dar liberdade aos filhos, aos alunos, sem ser ausente? Como podemos poupá-los de inúmeras e incessantes limitações sem abandonar o papel de adulto, de guia? Como definir limites sem ser injusto? Eis uma das maiores duvidas educacionais dos últimos tempos. É fato que
25 estamos lidando com uma geração mais questionadora, mais agitada, mais exigente e que perdeu um pouco os referenciais de respeito, mas onde esta o centro deste problema, onde que esses referenciais de respeito passaram a se perder, e porque isso aconteceu? Quem ainda não admite, precisa admitir que atualmente as crianças são mais reconhecidas do que em épocas passadas, tudo que elas, falam, pensam, fazem, tem um sentido e uma atenção bem maior, elas são vistas como seres-humanos capazes sim de interferir na cultura, por isso as idéias e vontades infantis tornam-se digamos mais difíceis de ser contrariadas, uma vez que elas possuem forte argumentação quando querem alguma coisa.
Outro ponto importante, é que o mundo de antigamente não sofria transformações tão bruscas e rápidas como hoje, os pais e os professores, conseguiam tranquilamente prever em que mundo as crianças viveriam, e assim ficava fácil prepará-las para essa vida, hoje, muito pelo contrário, os adultos sabem que o amanha pode reservar muitas surpresas e ter poucas semelhanças com o momento que se vive, e por mais sábios que sejam sabem que tal sabedoria pode ter pouco ou nenhum valor para as gerações mais novas, assim acabam concluindo que as crianças o mais cedo possível devem aprender a encontrar seus próprios caminhos nesta sociedade em constante mutação.
Essa forma de ver e entender os limites, não é totalmente errada, porém o que acaba acontecendo é que a partir dela se deduz que deve-se optar por uma pedagogia permissiva ao extremo, que não exige nada, e aqui mais uma vez cito a importância do adulto como guia, como uma mão que conduz a criança ao caminho certo, sem ser extremamente limitada em tudo, mas sabendo que existem limites e “regras”a serem respeitadas, pois caso não se imponha o limite, a liberdade dada corre um sério risco de vir a se tornar um grande fardo a ser carregado no futuro, e não é difícil encontrar jovens que amargam no fracasso, e no fundo, culpam pais ou professores por não terem sido mais firmes.
Mais uma vez volta a duvida inquietante, como fazer? Simplesmente impor limites como antigamente? Ou então “liberar geral?”, e se déssemos a liberdade mas juntamente com ela a responsabilidade? Um exemplo bem simples que demonstra isto é a mesada que alguns pais dão aos filhos, ao dar certa quantia de dinheiro mensalmente, os pais estão dando a liberdade de gastar o dinheiro como quiserem, mas dentro de
26 certos limites e com responsabilidade, pois o filho terá que administrar este dinheiro para que dure até o final do mês, ou seja administrar seus desejos e seus recursos.
O que se nota é que muitos pais deixam seus filhos fazerem praticamente tudo o que querem, sem lhes dar a mínima responsabilidade e esse tipo de ausência de limites dá as crianças e jovens uma falsa concepção de liberdade e conseqüentemente uma grande dependência em relação àqueles que realmente detém o poder, não se trata de negar liberdade, mas de ensinar a usufruí-la, em outras palavras marcar os limites, explicando o porquê deles, e junto á criança, em relações do dia a dia construir estes limites essenciais para o desenvolvimento.
Desenvolvimento este do qual deve fazer parte a moral, a ética, que quando faltam pode vir a ocasionar distúrbios comportamentais, e ai entro em uma questão muito importante quando não se impõe os limites restritivos as crianças, estou falando em viver e deixar o outro viver, o que muitas crianças definitivamente não sabem fazer, e a todo momento acabam ultrapassando limites e acabando com a tranqüilidade e paz alheias, das mais diversas formas.
Alguns desses limites são claramente inspirados por esta moral, como não matar, enquanto outros como fazer fila, permanecer em silencio, acabam nos remetendo a essa moral, já que também são inspirados por esse imperativo do respeito pela pessoa humana, enfim, exemplos não faltam de infrações que vão contra o viver bem de uma pessoa, e por isso boa parte da educação de uma criança deve ser reservada ao ensino de tais limites que não devem ser ultrapassados. Torna-se visível então que para tratar estas questões o melhor caminho seria passar pela educação moral, já que como pode se observar as varias formas de transpor os limites restritivos podem sempre levar a algum tipo de agressão.
Toda a moral nos leva, inevitavelmente a determinadas proibições, proibições estas que podem referir-se a ações ou a sentimentos. Proibir uma ação pode ser algo bastante objetivo e de simples controle, enquanto que proibir sentimentos é tarefa bem mais complexa, assim como obrigar as pessoas a senti-los. A educação pode ajudar muito a criança nessa empreitada, ensinando-a a pensar sobre os seus sentimentos, e também sobre os sentimentos dos outros, porém, quanto aos comportamentos que dizem respeito a vida de outras pessoas os limites a serem colocados devem incidir exclusivamente sobre as ações. Por isso os limites morais restritivos são tão
27 importantes, um sentimento nos levaria a fazer algum tipo de mal, mas o limite moral tem a função de nos impedir de agir, assim como a disciplina que regula condutas, prescreve ações, se a criança por natureza, não é capaz de dominar seus próprios desejos, cabe à educação propor uma disciplina, hábitos de conduta capazes de represar, canalizar, conter esses desejos, quando não são apropriados. Essa disciplina traz consigo uma estratégia pedagógica que a complementa, as punições, ou então os famosos castigos, alertando para o fato de que ao falar em castigo não se esta pensando necessariamente em dor física, muito pelo contrario, deve se pensar em dor moral, aquela crítica severa, que faz com que a criança perceba que ao violar uma regra ela profanou o que é sagrado, e se não houver castigo para tal ato, a regra deixa de parecer inviolável e perde, aos olhos de quem a transgrediu todo o seu valor, por isso que o adulto, pai ou professor deve sim censurar o ato cometido, reprovando-o energicamente, e fazendo a criança entender o valor que ela acabou de deixar para traz ao infringir uma regra.
2.4 - A MORAL SEGUNDO PIAGET
Ainda falando na moral, ao longo de seus estudos Piaget nos coloca de frente com dois tipos de moralidades no que diz respeito ao relacionamento adulto e crianças, uma que promove o desenvolvimento infantil e outra que o retarda. O primeiro tipo é a moralidade de obediência, ou como diria Piaget, moralidade heterônoma. A palavra heterônoma vem de raízes que significam seguir regras feitas por outros, baseando-se assim no respeito único a uma só pessoa, uma autoridade absoluta, então podemos dizer que na moralidade heterônoma o individuo se conforma com as regras dadas e simplesmente as aceita e as segue sem questionamento algum. Já o segundo tipo de moralidade é a autônoma. A palavra autônoma vem de raízes significando auto-regulação, o que quer dizer que o individuo autonomamente moral, segue regras morais próprias, sendo que tais regras são princípios construídos pela própria pessoa, e elas só são possíveis quando o respeito for mútuo, se eu respeito devo ser respeitado, e vice-versa. O que Piaget descobriu nestes estudos, é que a criança entra no mundo da moral através da heteronomia. Suas pesquisas mostram que crianças de quatro a sete anos sempre interpretam a moral em referencia a autoridade de alguém mais velho, geralmente os pais e demais educadores. Por esse motivo o primeiro tipo de
28 relacionamento entre adultos e crianças é o de coerção, ou controle, no qual o adulto diz o que a criança deve fazer oferecendo regras prontas e instruções para o seu comportamento. Nesta relação o respeito é algo unilateral, ou seja, a criança deve respeitar o adulto, e este usa a autoridade para socializar e instruir a criança, controlando o comportamento da mesma. Porém, nesse contexto a razão para a criança se comportar esta fora de seu próprio raciocínio e sistema de valores e interesses pessoais, afinal na maioria das vezes as criança não compreendem as razoes para a maior parte das regras as quais devem se submeter, uma vez que a necessidade de cumprir estas determinações não é sentida como tendo origem dentro delas, e por isso algumas crianças podem reagir com um sentimento de derrota e aceitação passiva do direito de outra pessoa ser o “chefe”, em especial se este é tão afetivo quanto exigente, enquanto que outras crianças podem reagir com raiva ou secreta rebeldia da dissimulação inteligente, ou seja, apenas obedecem quando são vigiadas, reforçando é claro que muitas vezes a heteronomia apropriada e algumas vezes até inevitável, isto é, por razoes de saúde e segurança, os pais e professores precisam regular ou controlar as crianças de muitas maneiras.
Com tudo isso, por um lado a criança vê os adultos como superiores, e com poderes ainda inatingíveis para ela, e por outro lado ela esta submetida as suas ordens, vontades, punições e é essa mistura de admiração, medo, dependência que explica o nascimento de outro tipo de sentimento, o respeito. E, quando uma criança respeita os pais, os professores, claramente fica mais fácil de impor limites, e por mais que a criança mesmo respeitando vai tentar ir alem do proibido, vai desejar descobrir o que não pode, pelo menos o mínimo ela já tem, o respeito, que vai acabar levando-a a não transgredir, a respeitar mesmo as regras impostas em casa, na escola e na sociedade.
Vale, no entanto chamar atenção para um ponto bastante importante quando se constrói limites com as crianças, sabemos que algum controle das crianças nas salas de aula e mesmo em casa é naturalmente inevitável. Entretanto quando as crianças são continuamente governadas pelos valores, crenças e idéias de outros, elas acabam por desenvolver uma submissão que pode levar ao conformismo, em outras palavras enquanto os adultos mantiverem as crianças ocupadas em aprender o que os adultos desejam que elas façam e em obedecer às regras deles, elas não serão motivadas a questionar, analisar ou examinar suas próprias convicções, tornando-se indivíduos capazes apenas de seguir a vontade dos outros.
29 Por isso o método pelo qual o relacionamento autônomo opera é tão interessante e construtivo, a cooperação. Cooperar significa lutar para alcançar um objetivo comum enquanto coordenam-se os sentimentos e perspectivas próprias com os dos outros. O professor então deve considerar o ponto de vista da criança e encorajá-la a considerar o ponto de vista dos outros. Sabe-se que nem sempre é possível cooperar com as crianças, contudo quando a repressão se faz necessária é importante o modo como ao adulto aborda a criança, por exemplo, com uma atitude solidária e com explicações, uma espécie de resposta ao motivo pelo qual está mandando. A diferença entre apelar para a obediência e para a cooperação, é que em uma relação cooperativa o professor pede ao invés de dizer, sugere ao invés de exigir e persuade ao invés de controlar. As crianças, portanto tem a possibilidade de decidir como responder e os conflitos pelo poder serão evitados.
Já foi falado aqui, mais de uma vez que construir limites é função da educação (escolar e familiar), e outro objetivo é função dessa educação que é também uma conseqüência da construção de limites, é a construção da autonomia. Já vimos que a heteronomia, por privilegiar a submissão a determinada autoridade, leva a uma moral de identidade, o que significa que todos devem pensar e agir de forma igual, e se alguém faz diferente esta desobedecendo. A autonomia por sua vez é uma moral de reciprocidade, onde se prega que as pessoas podem sim ter idéias diferentes, valores e regras que são só seus, porem são capazes dialogar e conviver, respeitando as diferenças que existem entre o todo. Essa autonomia pressupõe um efetivo trabalho da razão sobre a escolha de valores e regras de conduta, fazendo com que o autônomo não se contenha apenas com a “voz da autoridade”, e vá em busca da compreensão da regra, do valor moral que reside nela, apropriando-se deste valor , entendendo o porque da proibição, e aceitando-a de forma mais natural.
No que remete ao respeito, a autonomia, mais uma vez diferenciando-se da heteronomia, depende do respeito mútuo, onde as pessoas devem agir de forma a merecer o respeito dos outros, e assim exigir desse outro a mesma coisa, não se trata, portanto de aceitar qualquer coisa, qualquer valor, qualquer conduta, mas sim construir uma relação que implique o respeito entre as pessoas, sendo essa a garantia para que o convívio entre pessoas diferentes não acabem nem em violência, nem em descaso, mas sim, em respeito pelo próximo.
30 Com base em tudo que foi dito, podemos concluir que os primeiros passos do desenvolvimento moral acontecem no contato da criança com alguma forma de autoridade, autoridade esta que naturalmente, deve colocar limites e fazer com que a criança respeite-os, nos próximos sub-capitulos que seguem vou discorrer sobre duas entidades onde se detectam tais autoridades, a família e a escola, reconhecendo as autoridades de tais locais respectivamente os pais e os professores, e ainda refletir como podem ser construídos os limites restritivos, e como podem ser transpostos limites juntamente com a figura da autoridade.
2.5 – CONSTRUINDO LIMITES NA FAMÍLIA
Nos tópicos anteriores procurei explicitar um pouco a respeito das duas mais comentadas formas de limites, transpor e impor, o que são eles, qual sua importância na vida dos seres humanos, agora, pretendo refletir sobre as duas entidades principais onde podem se trabalhar com estes limites, a família, e a escola, lugares estes privilegiados para que se construam limites e para que se oriente a transpor limites. Vamos começar pela família, muitas vezes julgada e considerada culpada pela falta de limites e pela insegurança de algumas crianças.
Primeiramente apresento uma breve retrospectiva através dos anos, para observar algumas mudanças que aconteceram na entidade família: Nos anos 50, o pai era o chefe da família, ao qual todos deveriam obedecer, a palavra do pai não se contestava, e os filhos eram criados num regime severo e sem mudanças.
A década de 60 foi uma época de mudanças, onde não era fácil educar as crianças dentro da moral, que já não era tão absoluta, porem os pais ainda procuravam educar seus filhos nesta linha de pensamento.
Aos anos 70, víamos chegar os tempos de pais desquitados, e da entrada da mulher no mercado de trabalho, época onde se pensava mais em ser amigo do filho, entrar na onda, deixar acontecer, mas ainda com uma réstia lembrança do autoritarismo dos anos 50.
Quando chegaram os anos 80, nos deparamos com pais separados, casados novamente, e que pensavam que educar os filhos não poderia ser uma tarefa difícil,
31 afinal se for mais fácil todos são felizes, assim, se a criança perturbasse muito, demonstrasse resistência a certas coisas, os pais simplesmente cediam pelo fato de descomplicar.
Enfim, nos anos 90/2010, onde os pais vivem correndo, trabalhando sem tempo, infelizmente podemos observar uma inversão de papéis, onde agora quem obedece são pais, cedendo aos caprichos dos filhos, isso mesmo, os pais obedecem aos filhos, e quando não agüentam mais vão pedir ajuda.
Como podemos observar, as mudanças são realmente muitas, e infelizmente preocupantes, encontramos nesta retrospectiva um movimento de desconstrução de uma sociedade autoritária e hipócrita. Muitos adultos recordam, com saudades do tempo em que bastava o pai dar uma olhada que o filho já entendia, enquanto que hoje o pai tenta conversar e o filho o deixa falando sozinho. É preciso lembrar, todavia que esta mesma autoridade do pai era quem decidia toda a vida do filho, e assim, tendo esse fato como um dos motivos, foi preciso quebrar limites, só que nesse processo, essa necessidade de libertar foi manipulada, e acabou se caindo no lado oposto, o do “liberou geral” onde tudo pode.
Este “liberou geral” é o que vemos atualmente na relação de pais e filhos, as crianças sabem exatamente como conseguirem o que desejam, e os pais para descomplicar, não “se incomodar”, ou mesmo para suprir alguma falta que acham que existem, acabam sempre cedendo, fazendo com que os filhos, pensem e acreditem que tudo é fácil, que basta um choro, uma “manha” uma chantagem e assim tudo o que desejam será lhes dado.
Lamentavelmente grande parte dos problemas de limites e de disciplina que observamos em nossas crianças reflete problemas que nós, como adultos, criamos na forma de modelos de comportamentos. Hoje em dia, inúmeras questões contribuem para a chamada falta de limites, entre elas podemos citar a correria cotidiana das famílias, onde as mães já não ficam em casa cuidando dos filhos e saem para trabalhar, sentindo-se culpadas por “abandonar a cria”, por passar pouco tempo em casa, convivendo, interagindo com os filhos, criando assim situações de compensação, onde tenta suprir essa falta através de pequenos presentes, permissões em todos os momentos, falta de punição para atos errados, ou seja, passa a permitir tudo, na hora, momento, local, se a criança quer então ela terá, e no momento, em que a mãe tentar impor alguma coisa,
32 uma regra, um não, a criança vai se voltar contra, vai fazer birra, vai chorar, e assim para evitar constrangimentos e “não fazer sofrer o filho”, mais uma vez lhe será dado o que deseja.
Outra situação bastante comum nas ultimas décadas, é a dos pais divorciados, a mãe, geralmente com a guarda, acaba ficando com a maior responsabilidade da educação, e o pai, por estar longe e ver a criança eventualmente, acaba ocupando o tempo com o filho para cativar o amor do mesmo, e assim acaba por realizar todos os desejos da criança.
Nestes dois casos citados, muitas pessoas acreditam que a família (pai e mãe), assume uma postura incorreta, pois amar não é permitir tudo, mas sim ensinar o melhor, o correto, mesmo que para a criança isso pareça ruim, mais tarde ela poderá compreender o valor das ações tomadas pelos pais. A criança precisa de amor, carinho, cuidado, atenção, mas ela também precisa ouvir o não, pois nem tudo na vida é possível, e se a criança cresce achando que vai conseguir tudo o que quiser de forma fácil, certamente ela vai, falando de modo bem popular “apanhar muito na vida”. Para amadurecer é preciso saber que o não faz parte, e que muitas vezes devemos merecer e correr atrás para conseguirmos o que queremos.
Voltando aos casos citados anteriormente, podemos observar que em tais situações esta presente o “Mito do Trauma”, que se apresenta quando os pais ficam na dúvida se a frustração causada pela proibição, pelos limites restritivos, realmente não traumatiza, e se as crianças vai conseguir sobreviver a ela. Muitos afirmam que sim, e acredito realmente nisso, afinal os limites são indispensáveis ao crescimento harmonioso, para o desenvolvimento da autodisciplina e controle da impulsividade, e uma criança criada se limites, pode desenvolver conseqüências preocupantes mais tarde, como a falta de controle da impulsividade (quando a criança cresce pensando que os adultos devem sempre satisfazer seus desejos de imediato e aceitá-la do jeito que ela é), dificuldade de controlar a raiva, pouca tolerância à frustração, incapacidade de esperar para conseguir o que quer, tirania, egocentrismo, dificuldade de perceber que os outros também tem direitos, e tudo isso resulta em vários distúrbios de conduta, e também na sensação de vazio e insatisfação.
Porém, é fato que conforme vão crescendo as crianças aprendem que atacar, rejeitar, contestar, fazem parte do processo de conquista, sendo assim, é absolutamente