UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO
CURSO DE PSICOLOGIA
ADOÇÃO: A FAMÍLIA NO PROCESSO ADOTIVO
CRISTINA REGHELIN TABORDA
Ijuí – RS 2014
CRISTINA REGHELIN TABORDA
ADOÇÃO: A FAMÍLIA NO PROCESSO ADOTIVO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de formação de Psicólogo.
Orientadora: Ana Maria de Souza Dias
Ijuí – RS 2014
CRISTINA REGHELIN TABORDA
ADOÇÃO: A FAMÍLIA NO PROCESSO ADOTIVO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de formação de Psicólogo.
Banca Examinadora:
___________________________________ Ana Maria de Souza Dias
___________________________________ Angela Maria Shneider Drugg
ADOÇÃO: A FAMÍLIA NO PROCESSO ADOTIVO
Cristina Reghelin Taborda Orientadora: Ana Maria de Souza Dias
RESUMO
A pesquisa realizada é de cunho bibliográfico, elaborada a partir de material já publicado, constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e materiais disponibilizados na internet. A adoção é uma escolha por meio de um processo jurídico, a partir da qual uma criança ou adolescente não concebido biologicamente pelo adotante torna-se irrevogavelmente filho deste. O presente TCC propõe realizar um estudo acerca da adoção, abordando seus aspectos históricos e legais; a família e sua função na adoção e também contempla o exame do artigo “A avaliação psicossocial no contexto da Adoção: Vivências das famílias adotantes”, para assim, buscar uma maior compreensão dos aspectos que tangem ao processo adotivo.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 5 1 ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGAIS SOBRE A ADOÇÃO ... 7 2 A FAMÍLIA E AS REPERCUSSÕES DO PROCESSO DE ADOÇÃO ... 13
3 AS VIVÊNCIAS DAS FAMÍLIAS ADOTANTES: A AVALIAÇÃO
PSICOSSOCIAL NO CONTEXTO DA ADOÇÃO ... 21 CONCLUSÃO ... 29 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 31
INTRODUÇÃO
Esse trabalho busca esclarecer algumas questões, do ponto de vista psicológico, sobre a família e a sua função na adoção. Através deste estudo se objetiva ter uma visão mais clara sobre o processo de adoção. Além de proporcionar aprendizado e conhecimentos necessários para a formação do psicólogo, também busca constituir um estudo auxiliar, de certa forma, a esclarecer para a sociedade alguns aspectos importantes sobre a adoção.
A adoção pode ser definida como um procedimento pelo qual uma criança é levada para dentro de uma família da qual seus pais biológicos não fazem parte, mas que são reconhecidos pela lei como seus pais. Podemos assinalar que a adoção é também pode ser vista como uma maneira de atenuar a ansiedade vivida pelas crianças na ausência dos pais biológicos e acima de tudo retirá-las das ruas, instituições e favelas, proporcionando o que lhes é de direito: uma família e a afetividade presente em seu interior.
Este trabalho de tcc é uma proposta de pesquisa teórica sustentada no estudo de autores contemporâneos, através da teoria psicanalítica e de leituras vindas do campo do Direito. Como primeiro capitulo, é relevante esclarecer os aspectos históricos e legais sobre a adoção, visto que esse é de vital importância para todo o processo adotivo e estabelece os direitos do filho e os deveres do pai para com filho adotivo.
Em um segundo capitulo, será trabalhado o tema da família e as repercussões do processo de adoção, considerando a família como o núcleo fundamental para estruturação e desenvolvimento pessoal de cada indivíduo.
Por fim, como terceiro capitulo, a escrita se baseia em uma leitura de um artigo que trata da historia de duas famílias adotantes. Neste momento se fará um relato deste artigo, que trata destas famílias e foi realizada em um serviço de adoção de uma Vara de Infância e da Juventude.
1 ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGAIS SOBRE A ADOÇÃO
Primeiramente é necessário esclarecer a origem e o significado da palavra adoção. Derivada do latim adoptione, possui como significado: escolher, adotar. Segundo Ferreira (1999, p. 54) a adoção é “ação ou efeito de adotar; aceitação voluntaria e legal de uma criança como filho”. A adoption define-se como o ato solene obedecido por requisitos da lei, alguém estabelece com um estranho, um vínculo fictício de paternidade e filiação legítimas, de efeitos limitados e sem total desligamento do adotando com sua família de sangue (CHAVES, 1995, p. 23-24).
Não se sabe quando e onde o tema surgiu pela primeira vez, mas no decorrer da história da humanidade há inúmeros relatos sobre a adoção de crianças e bebês. Paiva (2004, p. 35) menciona a história de Moisés como uma das mais conhecidas:
Aproximadamente no ano de 1250 a.C., o faraó determinou que todos os meninos israelitas que nascessem deveriam ser afogados. A mãe de um pequeno hebreu decidiu colocá-lo dentro de um cesto de vime e deixá-lo à beira do rio Nilo, esperando que se salvasse. Térmulus, filha do faraó que ordenara matança, achou o cesto quando se banhava nas águas do rio, recolheu-o e decidiu criar o bebê como seu próprio filho. Amamentado por sua mãe biológica, serva da filha do faraó, Moisés viveu anos como egípcio, transformando-se mais tarde em herói do povo hebreu.
Observamos que a adoção já era instituída na antiguidade, não de uma forma legal, porém esta já fazia parte da história da humanidade e com o passar dos anos á essência da adoção ainda permanece a mesma.
Nos primórdios a adoção não tinha por objetivo principal proteger a criança ou dar-lhe uma família, mas sim, suprir as necessidades de casais que não poderiam ter filhos; esse tipo de adoção era conhecida como “adoção clássica”. No Brasil a maior parte dos casos de adoção é do tipo de adoção clássica, e o restante se trata da “adoção moderna”, que tem como objetivo garantir o direito de toda criança de crescer e ser educada em uma família.
Historicamente a adoção teve sua origem em vários povos, os quais atribuíram significados similares ao processo de adoção. De acordo com Eickoff (2001), inicialmente a adoção significava a continuação da família para que as cerimônias fúnebres não cessassem e para o culto aos deuses com oferendas. Isso porque, segundo o mesmo autor, a adoção tinha caráter religioso, de perpetuação
da espécie e o culto aos mortos para muitos povos, pois o homem primitivo acreditava que os seres humanos eram governados pelos mortos. Assim realizavam cerimônias com uma criança adotada para receber proteção dos ancestrais.
O Código de Hammurabi é provavelmente o mais antigo conjunto de leis sobre adoção, registros de como a sociedade mesopotâmica do II milênio a.C agia em relação às crianças abandonadas. Ao adotado era permitido retornar ao lar de seus pais biológicos somente se estes o houvessem criado, e supondo que o adotante tivesse despendido dinheiro e cuidados com o adotado, tal situação era proibida. Quando o adotante tivesse filhos biológicos posteriormente a adoção poderia ser revogada, cabendo ao adotado uma indenização. O Código de Hammurabi era muito rígido no que tratasse de adoção, conforme Brauner (2001, p. 33):
Por sua vez, o Código de Hammurabi (1728-1686 a.C ), na Babilônia disciplinava minuciosamente a adoção em oito artigos. Ao filho adotivo que ousa se dizer aos pais adotivos que eles não eram seus pais, cortava-se a língua; ao filho adotivo que aspirasse voltar à casa paterna afastando-se dos pais adotivos, estriam-se os olhos (art.192 e 193).
Os romanos conheceram duas espécies de adoção: a ad-rogação (arrogativo) e a adoção propriamente dita (adoptio). Esta consistia na adoção de uma pessoa capaz, podendo ser até mesmo um pater família que abandonasse o seu culto doméstico e assumisse o culto do adotante, tornando-se, assim seu herdeiro. Naquela ocorria adoção sui júris da pessoa que não se encontrava submetida a nenhum pátrio poder, ocorrendo dessa forma uma maior liberdade, onde um chefe de família poderia entrar na família de outro, o ad-rogante, extinguindo-se a família do ad- rogado (CHAVES, 1995).
A ad-rogatio ou ad-rogação fazia parte do direito público, consistia na adoção de um sui juris, um pater familias e todos os seus descendentes, que estavam a ele subjugados. Era necessária a verificação se a realização deste ato traria utilidade, benefício ao adotado, e se o consentimento era de ambas as partes. Caso aquele que estivesse sofrendo a ad-rogação fosse impúbere, caberia o assentimento por parte dos seus parentes próximos ou tutor. Entretanto, a ad-rogatio só podia ser realizada com a participação da autoridade pública, a interferência de um pontífice e a aprovação do povo nos comícios (populi auctoritate). Fazia-se
necessária a aprovação do povo, pois como na ad-rogação uma família inteira podia ser adotada, o culto doméstico dos adotados ficaria prejudicado, senão extinto.
A ad-rogação estava intimamente ligada aos comícios. Aqueles que não faziam parte dele, como os impúberes, plebeus, mulheres, não podiam ser ad-rogados. Desta forma, a ad-rogatio seguia algumas condições estabelecidas pelo pontífice, que eram: o ad-rogante tinha de ser um pater familias que não tivesse filhos do sexo masculino, o ad-rogado deveria dar seu consentimento e a ad-rogatio só podia acontecer em Roma, pois em outros lugares os comícios não se reuniam. Assim, os efeitos desse instituto eram a absorção do ad-rogado e das pessoas que estavam submetidas a ele, à família do adrogante, e o direito de filho do adrogado em relação à família do ad-rogante.
Com o passar dos anos os alieni juris (aqueles(as) sujeitados à outra pessoa, não tendo personalidade jurídica, nem patrimônio, não podiam exercer seus direitos em nome próprio) tiveram a possibilidade de serem ad-rogados. Este instituto começou então a se disseminar pelas províncias, tendo por isso algumas condições suavizadas.
Conforme Chaves (1966), a adoção era composta por duas fases: na 1º ocorria por três mancipatio sucessivas, na qual o pai extinguia seu pátrio poder, e em seguida por uma cessio in jure (que ocorria na presença de um pretor), na qual o pai natural cedia seu direito sobre o filho ao pai adotante. Na 2º fase era formada por apenas uma mancipatio seguida por uma cessio in jure. Era possível realizar a adoção por testamento, adoptio per testamentum, mas, entretanto há grande divergência entre os autores se esta seria uma nova modalidade de adoção ou uma espécie da ad-rogatio.
Os povos da Grécia tinham um conceito rígido do ato de adotar uma criança, permitiam a adoção dentro de uma determinação específica, em que “o filho adotado não poderia se relacionar com a família biológica sob nenhum aspecto, a adoção somente seria descartada pelo casal se o filho adotivo demonstrasse desprezo pelos pais adotivos” (EICKOFF, 2001, p. 96). O Império Bizantino, por sua vez, passou a considerar a adoção a partir do interesse do adotado, esse tinha direito em possuir o nome da família adotiva, uma posição dentro dessa família e na sociedade, e os bens do adotante.
Sobre esse ponto de vista pode-se configurar o início do processo de adoção como um ato que estava sendo descoberto pela sociedade e pela lei, pois as pessoas agiam cautelosamente diante da ideia de adotar uma criança, levando em consideração as crenças da sociedade, assim como o interesse no vínculo afetivo da criança como família adotiva. Podemos conceituar a origem da adoção sob “padrões jurídicos, de acordo com a perspectiva de Monteiro (1997), pelo qual uma pessoa recebe outra como filho, independentemente de existir entre eles qualquer relação de parentesco consanguíneo ou afim”.
Desde que se iniciou o processo de adoção, em todo mundo, ocorreram diversas mudanças, leis foram revistas e reformuladas, para que as leis em vigor tragam o melhor benefício possível à criança que está à espera de uma família.
Hoje, o processo de adoção no Brasil está longe do que ocorria décadas atrás, com famílias "pegando para criar" crianças doadas pelos pais, mas é caracterizado pela pouca agilidade nos processos. Além de existirem muito mais crianças em instituições de acolhimento do que as disponíveis para adoção.
Verifica-se que em 8 de maio de 2013, havia 5.426 crianças e adolescentes aptos para adoção em todo o país e 355 processos em andamento. Um número relativamente pequeno, levando-se em conta que, naquele mesmo dia, existiam 29.440 pretendentes cadastrados. Os dados são do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), criado há cinco anos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no Dia Nacional da Adoção, 25 de maio.
De modo geral o processo de adoção ainda é lento, uma das condições é primeiramente o comparecimento a uma Vara da Infância e da Juventude ou a um Fórum. Lá os pretendentes deverão procurar o Serviço Social e se inscrever no CPA (Cadastro de Pretendentes à Adoção), onde são exigidos uma serie de documentos. Depois de reunida toda a documentação, tem início o processo de habilitação à adoção. A papelada será enviada ao setor técnico para o agendamento de entrevistas que deverão ser feitas por assistentes sociais e psicólogos e também poderá ser feita uma visita domiciliar.
Após encerrarem a avaliação do pretendente, a documentação será enviada ao Ministério Público. É o juiz quem dará uma sentença de habilitação à adoção. Assim, o pretendente entra no Cadastro Nacional de Adoção, ficando na lista de espera da criança ou adolescente que se enquadrar no que foi previamente estipulado.
Hoje, no CNA, a preferência é por crianças de até dois anos (20,35% dos pretendentes), caindo drasticamente a opção por crianças acima de seis anos (3,80%). "Embora ainda existam sérias resistências, grandes conquistas foram feitas nesse sentido. A freqüência obrigatória das pessoas que querem adotar aos grupos de apoio (formados geralmente por pais adotivos que trabalham voluntariamente para divulgar a nova cultura de adoção) tem permitido que eles vejam o ato como uma chance de uma nova família, abrindo a possibilidade de serem adotados grupos de irmãos", informa Tânia da Silva Pereira, dirigente da Comissão Nacional para Infância e Juventude do IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família).
“A adoção é um instituto jurídico que procura imitar a filiação natural”. Enquanto a filiação legitima, natural tem o seu vinculo no sangue, a adoção cria uma filiação entre pessoas que não são ligadas pelos laços de sangue, mas decorrente de sentença (OLIVEIRA, 2000, p. 147).
A lei nos diz que adoção dá os direitos de um filho de sangue para um filho adotivo, bem como os deveres do pai para com o filho adotivo, sendo que o pai se torna o representante legal até a maioridade legal.
Aspectos jurídicos estão intimamente ligados aos processos de adoção. Isso porque o ato de adotar uma criança requer minuciosos procedimentos, que acima de tudo, envolvem a vida emocional do casal adotante ou da pessoa que ira adotar, pois eles estão em constante preparo psicológico para construir junto com a criança uma boa relação afetiva que iria posteriormente fornecer o elo principal para que o vínculo afetivo entre pais e filho adotivo se concretize. Um aspecto relevante do ponto de vista judiciário, segundo Oliveira (2003), diz respeito à obrigatoriedade de assistência efetiva do Poder Público e de processo judicial com sentença constitutiva que o procedimento da adoção passa a ser submetido, visto que esta declarado no Código Civil, artigos 1.618 a 1.629, que resta unificada a adoção que se aplica a todas as pessoas sem distinção por faixas etárias.
A idade mínima para o adotante passa a ser de 18 anos, novo patamar da capacidade plena, mas continua a natural exigência que ele seja pelo menos 16 anos mais velho que o adotado para que se justifique a perfilhação. A adoção por 2 pessoas pressupõe que sejam marido e mulher após 5 anos de casado ou companheiros em união estável. A exceção fica com os divorciados ou separados judicialmente que poderão adotar em conjunto, desde que acordem sobre a guarda
e o regime de visitas e desde que o estágio de convivência tenha sido iniciado na constância da sociedade conjugal (OLIVEIRA, 2003, p. 20).
De acordo com dados do CNA (Cadastro Nacional de Adoção), em 8 de maio de 2013, entre os 5.426 adolescentes e crianças prontos para adoção haviam 1.777 brancos (32,75%), 2.575 pardos (47,46%), 1.024 negros (18,87%), 23 de pele amarela (0,42%) e 35 indígenas (0,65%).
Desses, 2.349 são do sexo feminino e 3.077 do masculino. Apenas 1.260 não têm irmãos. Já 1.994 (36,75%) têm irmãos também no CNA. Em relação aos pretendentes cadastrados, 9.450 (32,10%) aceitavam somente crianças brancas, contra 1.644 (5,58%) que queriam apenas crianças pardas e 573 (1,95%) que desejavam crianças negras. Existiam 11.475 pessoas indiferentes à cor da pele (38,98%). A preferência era por crianças do sexo feminino: 32,65% ou 9.613 pretendentes.
A partir da análise dos dados disponíveis no CNA foi possível identificar que a idade da criança e/ou do adolescente apto à adoção é o principal motivo de disparidade entre as preferências do pretendente e as características das crianças e dos adolescentes que aguardam por uma adoção no Brasil. Aproximadamente nove em cada dez pretendentes desejam adotar uma criança de 0 a 5 anos, enquanto essa faixa etária corresponde a apenas 9 em cada 100 das crianças aptas à adoção. Reduzindo esse universo para as crianças com idade compreendida entre 0 e 3 anos, o percentual de indivíduos que pretendem adotar uma criança com essa idade fica em torno de 56%, ao passo que o CNA possui somente 3% de crianças correspondentes à mencionada faixa etária.
Algumas preferências (idade, cor, sexo), uma vez determinadas, não costumam ser acompanhadas de outros critérios de restrição das características das crianças. Os pretendentes tendem a escolher apenas um critério para adoção.
Outro ponto que emerge das estatísticas refere-se à opção exclusiva de adoção de crianças pretas, pardas ou indígenas, que, apesar de representarem uma pequena parcela do universo – (aproximadamente 8%) de preferência dos candidatos à adoção – não costuma vir acompanhada de outras restrições de perfil.
2 A FAMÍLIA E AS REPERCUSSÕES DO PROCESSO DE ADOÇÃO
Segundo Ferreira (1986, p. 755) o termo família designa: 1. Pessoas aparentadas que vivem, em geral, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. 2. Pessoas do mesmo sangue.
A família surge inicialmente com um grupo natural de indivíduos unidos por uma dupla relação biológica: a geração, que dá os componentes do grupo; as condições do meio que o desenvolvimento dos jovens postula e que mantém o grupo na medida em que os adultos geradores asseguram sua função (LACAN, 2008, p. 7).
De acordo com Lacan (2008), nos animais essa função é substituída por comportamentos instintivos, que por muitas vezes se apresentam de formas complexas. Não se pode obter das relações familiares outros fenômenos sociais observados nos animais. Estes se apresentam, ao contrario, muito diferentes dos instintos familiares, de forma que em pesquisas mais recentes, são aproximadas de um instinto original, chamado de intera-tração.
A espécie humana caracteriza-se por um desenvolvimento singular das relações sociais - desenvolvimento esse que é sustentado por capacidades excepcionais de comunicação mental - e, correlativamente, por uma economia paradoxal dos instintos que aí se mostram essencialmente suscetíveis de conversão e de inversão, e não tem mais efeito isolável se não de maneira esporádica (LACAN, 2008, p. 7).
A família é o primeiro grupo ao qual o indivíduo pertence. Até pouco tempo atrás o modelo de família constituía-se em pai, mãe e filhos, sendo este considerado ideal para a sociedade. Por este motivo todos os outros modos de organização familiar eram vistos como desestruturados, desorganizados e problemáticos, partindo-se assim de um julgamento moralista, que, por sua vez, utilizava um padrão (ideal). Dessa forma, os demais grupos familiares eram considerados “inadequados” ou “ilegítimos”.
Hoje em dia existem inúmeras formas de estrutura familiar. Segundo Bock (1999) a família de pais separados que realizam novas uniões das quais resulta uma convivência entre os filhos dos casamentos anteriores de ambos e os novos filhos do casal; a família chefiada por mulher (em todas as classes sociais), a nuclear, a
extensa, a homossexual. Podemos observar vários tipos de cultura e novos padrões de relações humanas.
É muito importante e necessário recorrermos sempre à história, para entendermos a família, desde o estado selvagem até a barbárie. Desde a origem da humanidade, segundo o antropólogo americano L.H. MORGAN (1818-1881), existe: a família consangüínea — intercasamento de irmãos e irmãs carnais e colaterais no interior de um grupo; a família punaluana — o casamento de várias irmãs, carnais e colaterais, com os maridos de cada uma das outras; os irmãos também se casavam com as esposas de cada um dos irmãos, isto é, o grupo de homens era conjuntamente casado com o grupo de mulheres; a família sindiásmica ou de casal — o casamento entre casais, mas sem obrigação de morarem juntos, o casamento existia enquanto ambos desejassem; a família patriarcal — o casamento de um só homem com diversas mulheres. E finalmente, a família monogâmica, que se funda sobre o casamento de duas pessoas, com obrigação de coabitação exclusiva e de fidelidade, e que tem como características: o controle do homem sobre a esposa e os filhos e a garantia de descendência por consanguinidade, portanto, a garantia do direito de herança aos filhos legítimos, garantindo a propriedade privada.
Podemos observar que a organização familiar se transforma no decorrer da história do homem. Segundo Bock (1999), a família está inserida na base material da sociedade ou, dito de outro modo, as condições históricas e as mudanças sociais determinam a forma como a família irá se organizar para cumprir sua função social. Ou seja, garantir a manutenção da propriedade e do status quo das classes superiores e a reprodução da força de trabalho — a procriação e a educação do futuro trabalhador — das classes subalternas.
A família por assumir um papel fundamental na sociedade é chamada de célula mater, pois ela é transmissora de valores ideológicos. Conforme Bock (1999) a função social atribuída à família é transmitir os valores que constituem a cultura, as ideias dominantes em determinado momento histórico, isto é, educar as novas gerações segundo padrões dominantes e hegemônicos de valores e de condutas. Neste sentido, revela-se o caráter conservador e de manutenção social que lhe é atribuído.
Notamos que a família é um grupo tão importante, que na sua falta, as crianças ou adolescentes precisam de uma “família substituta” ou devem ser abrigados em uma instituição que cumpra as funções materna e paterna. A família
também reconhecida como um lugar de procriação — é responsável pela sobrevivência física e psíquica das crianças.
Segundo a mesma autora: é na família que ocorrem os primeiros aprendizados dos hábitos e costumes da cultura. Exemplo: o aprendizado da língua, marca da identidade cultural e ferramenta imprescindível para que a criança se aproprie do mundo à sua volta. É na família que se concretiza, em primeira instância, o exercício dos direitos da criança e do adolescente: o direito aos cuidados essenciais para seu crescimento e desenvolvimento físico, psíquico e social (BOCK, 1999, p. 249).
A conservação e o progresso das relações sociais dependem da comunicação e são acima de tudo resultado da coletividade e desta forma constituem a cultura. Assim ela constrói uma nova dimensão na realidade social e na vida psíquica.
Conforme Lacan (2008), de todos os grupos humanos, “a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura, pois a família predomina na primeira educação, na repressão dos instintos, na aquisição da língua acertadamente chamada de materna”. Dessa forma, preside os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico.
Antes do nascimento de um filho, os pais têm a preocupação com a cor da roupa, azul ou rosa, a escolha do nome. A espera de uma menina é diferente da espera de um menino. Podemos notar que desde já a criança vai ocupando um lugar na família, no cenário social e o que a espera são os hábitos da cultura metabolizados pela sua família.
Conforme Bock (1999) é com essa naturalidade que se processa a primeira educação. O exemplo mais claro é o da educação em função da diferença anatômica dos sexos. Segundo a mesmo autora: “As crianças encontram nos pais os modelos de como os adultos comportam-se — como atendem ao telefone e às visitas; como se portam à mesa, resolvem conflitos e lidam com a dor; o que pensam sobre os acontecimentos do mundo, etc”. Os pais são os primeiros modelos de como é ser homem e ser mulher: padrões de conduta que, em nossa cultura, são marcadamente diferentes.
Podemos dizer que a família reproduz, em seu interior, a cultura que a criança internalizará. Segundo Bock (1999, p. 251):
é importante considerar aqui o poder que a família e os adultos têm no controle da conduta da criança, pois ela depende deles para sua sobrevivência física e psíquica. Basta lembrar que uma criança de oito meses depende de alguém para obter alimentos e que uma criança de três anos depende de alguém para levá-la ao médico, A criança necessita, também, das ligações afetivas estabelecidas com seus cuidadores e as quais ela não quer (não pode!) perder. O medo de perder o amor (e os cuidados) desses adultos que lhe são tão importantes é um poderoso controlador de sua conduta e ela, pela “vigésima” vez, recita para o vizinho aquela poesia que tanto a aborrece, mas faz a alegria do pai no exercício de exibição dos dotes do seu filho.
Constatamos como a primeira educação é importante, pois ela auxilia na formação do ser humano. Durante outros períodos da sua vida, surgirão novas experiências que continuarão a construir o indivíduo. De acordo com Bock (1999) ao nascer, a criança encontra-se numa fase de indiferenciação com o mundo — não existe mundo externo (o outro) nem interno (o eu). O mundo, neste momento da vida, significa a mãe. Esta é a díade fundamental que cada pessoa vivencia ao nascer. A marca desta relação é a fusão, isto é, não existe, para quem acabou de nascer, o eu e o outro (o mundo).
A dissociação do seu “eu” do “outro” acontece em etapas. Uma das faces importantes desse desenvolvimento é o tempo que a criança aguarda para satisfazer suas necessidades. Nesse momento (a dissociação do seu “eu” do outro) ela memoriza que há um desconforto (fome, por exemplo) e que essa situação não é superada imediatamente, e para isso aconteça é necessário a intervenção de alguém (a mãe ou sua substituta com o seio ou mamadeira).
Segundo Freud (1921) a diferenciação do Eu, é um processo em que, ao princípio do prazer (que rege o funcionamento psíquico), interpola-se com o princípio da realidade, isto é, surgem os limites impostos pela realidade. Assim, a satisfação, para ser obtida, deve ser postergada e, às vezes, substituída por outro objeto de satisfação ou assim ocorrendo as primeiras vivências de frustração, de não-satisfação. A frustração marca a experiência humana desde o nascimento e é algo constitutivo da humanidade de todos nós.
Juntamente com esse aspecto inerente à formação psíquica existe um outro que constitui a subjetividade da criança e á uma das bases da vida psíquica, este é a interdição. A interdição se define como uma norma da sociedade que se fixa na subjetividade ao reprimir o desejo (de impulsos agressivos e impulsos eróticos). Um clássico exemplo dessa repressão é o tabu do incesto. O filho não pode ter relações
sexuais com a mãe, e tampouco a filha com o pai, embora mãe e pai sejam seus primeiros objetos de amor erótico. No decorrer da vida familiar, a criança irá reunindo outras proibições relacionadas ao prazer e à expressão de seus sentimentos agressivos. Quantas crianças escutaram “Não bata no seu coleguinha!” ou “tire a mão daí, é sujo!!”
Segundo Bock (1999, p. 253) este desejo é inconsciente e a repressão coloca sua marca neste inconsciente; “é como se nada houvesse existido”. No jogo da vida familiar, a criança irá incorporando outras proibições relativas à obtenção do prazer e à expressão de seus sentimentos hostis. “Tira a mão daí, é feio!” é uma frase que muitas crianças ouvem quando estão se masturbando; ou esta outra: “Não pode bater no amiguinho, tem que conversar”.
Outro tema relevante que atesta a importância da família para o indivíduo é sobre a aquisição da linguagem. A linguagem é o requisito fundamental para a criança se inserir e tomar parte do mundo (o que significam as coisas, os objetos, as situações) e interagir mais amplamente e ativamente nele. É a linguagem que torna possível a comunicação e a troca da criança com o mundo e com ela mesma. Por meio da linguagem que a criança dá nomes a seus desejos, afetos, os substitui e os compreende criando uma imagem e uma compreensão do que ocorre dentro de si. Conforme Bock (1999, p. 253):
Na fase anterior à aquisição da linguagem, os impulsos estão livres e o inconsciente prepondera. É no contato com a realidade — que se dá, principalmente, através da linguagem — e pela compreensão dos mecanismos que a regulam que a criança vai discriminando o seu desejo e o que é ou não permitido satisfazer. A linguagem é o instrumento privilegiado que possibilita a compreensão dessa realidade. A família, como primeiro grupo de pertencimento do indivíduo, é, por excelência, em nossa sociedade, o espaço em que este aprendizado ocorre, embora possa ocorrer também em qualquer grupo humano do qual participe em seus primeiros anos de vida.
A partir do que foi exposto anteriormente, pressupomos que fazer parte de uma família é imprescindível para a criança se constituir subjetivamente. Ao nascer a criança é apenas um corpo puramente orgânico, este corpo não proporciona a criança possibilidades de sobreviver por si só. Percebemos então que a criança depende da mãe ou de uma substituta para se tornar um sujeito.
A adoção tem como finalidade responder as necessidades das crianças e dos pais, permitindo que ela encontre uma nova família, um ambiente afetivo satisfatório e ao mesmo tempo formativo. A adoção, por sua vez, representa uma possibilidade para pais que não podem ter filhos e que desta maneira tem a possibilidade de exercer este papel. Supomos então que todo casal possui o desejo de ser pai/mãe e constituir uma família. Ter um filho significa ter disponibilidade de amar e assumir responsabilidades, desejar, oferecer carinho e proteger esse filho. De acordo com Freud (1909, p. 1):
Os pais constituem para a criança pequena a autoridade única e a fonte de todos os conhecimentos. O desejo mais intenso e mais importante da criança nesses primeiros anos é igualar-se aos pais (isto é, ao progenitor do mesmo sexo), e ser grande como seu pai e sua mãe.
Conforme salienta Levinzon (2004, p. 11) “na sua maioria homens e mulheres desejam ter e criar seus filhos de modo a realizar-se tanto no plano biológico quanto psíquico”. Como Freud mostra em seu trabalho “Notas sobre o Narcisismo” (1914), os filhos muitas vezes representam a esperança dos pais de realizar seus próprios ideais narcísicos. A famosa expressão “Sua Majestade o Bebê” expressa a importância que tem uma criança no imaginário dos pais, como um personagem que concentra a fantasia de ser valorizado e privilegiado sobre todas as outras coisas.
Segundo Levinzon (2004), a criança imaginaria é necessária ao que pode ser denominado “desejo de ter um filho”, sem este imaginário, não há desejo. Aos poucos esta criança que habita o imaginário dos pais passa a ter o rosto, uma identidade que não corresponderá à criança real.
Em relação à criança adotiva, sua adaptação e saúde mental dependem de todo um interjogo de fatores internos e externos. Segundo Levinzon (2000), uma boa relação com os pais adotivos, na qual a criança se sente amada, aceita e compreendida, proporciona-lhe a oportunidade de minimizar suas fantasias de abandono. Conforme o mesmo autor, o desenvolvimento satisfatório de uma criança depende de uma conjunção de fatores externos e internos. Um crescimento bem integrado depende ao mesmo tempo das disposições inatas da criança e da adequação de seu meio ambiente familiar. Segundo Levinzon (2000, p. 40):
Que a situação de adoção representa para a criança adotada uma ferida narcísica, devido a separação de seus pais biológicos num período inicial da vida. Este sentimento fica registrado nela como uma marca profunda, que vai se manifestar em maior ou menor grau no decorrer se sua vida e no relacionamento com o mundo e consigo mesma.
Conforme Klein (1946 apud LEVINZON, 2000), as primeiras relações objetais entre mãe e bebê são de fundamental importância para o desenvolvimento da personalidade. Segundo ela o primeiro objeto é o seio da mãe, que é sentido pela criança de duas formas: seio gratificador e seio frustrador. Essa divisão resulta em uma separação de amor e ódio. Ela sugeriu ainda que as primeiras relações objetais são formadas por uma inter-relação da introjeção e da projeção de objetos e situações internas e externas.
Segundo a mesma autora, a projeção, que ocorre ao mesmo tempo diz respeito à capacidade da criança de atribuir às pessoas em torno dela sentimentos tais como amor e ódio. Sendo assim aos poucos seu mundo interno vai se estruturando em parte como um reflexo do mundo externo.
A introjeção e a projeção seguem pelo resto da vida do individuo e se modificam a medida que este amadurece, mas sem nunca perder a importância da relação deste como o mundo que o cerca de modo que mesmo na fase adulta seu julgamento nunca será inteiramente isento da influencia de seu mundo interior (KLEIN, 1975).
A mãe em seus bons aspectos, alimentando e amando, é o primeiro objeto bom que a criança interioriza em seu mundo psíquico. Sendo assim para que este objeto bom se transforme em intensidade suficiente em uma parte do eu, a ansiedade persecutória não deve ser excessivamente intensa. Ainda conforme Klein (1975, p. 30):
Uma atitude amorosa por parte da mãe muito contribui para o êxito desse processo. Se a criança coloca no seu mundo interno a mãe como objeto bom e merecedor de confiança, um elemento de vigor é adicionado ao ego (...) o ego se desenvolve em grande parte em torno desse objeto bom, e a identificação com as boas características a mãe torna se a base para ulteriores identificações benfazejas.
Sendo assim a criança adotiva tem maiores dificuldades do que outras crianças em poder ter bem estabelecido um objeto bom confiável, em seu mundo interno, pois suas primeiras experiências foram de abandono e desamparo. Ela é
caracteristicamente uma criança que foi separada da mãe geralmente no período inicial da vida. Muitas vezes teve de ficar na mão de varias pessoas estranhas ou instituições ate chegar aos pais adotivos, e podemos imaginar que precisou de um tempo maior para poder se adaptar a eles. Portanto essa criança deve ter ficado exposta a intensas cargas de ansiedade. Segundo Freud (1926), o que, presumimos, deixa “marcas” em seu desenvolvimento.
Conforme Levinzon (2000, p. 44):
A criança adotiva, de inicio tem um contato rompido com estes aspectos da mãe: vos, rosto, mãos, andar... e precisa fazer um esforço da adaptação a um novo ambiente, a uma nova mãe. Aqui não podemos deixar de considerar que um bom contato com a mãe adotiva, pode suprir, pelo menos em parte, essas rupturas no desenvolvimento da criança e as condições adversas que dificultam a formação de um ego bem estruturado.
Para Winnicott (apud LEVINZON, 2000), a mãe sustenta o filho através do ato físico de segura-lo no colo, da situação de entender as necessidades especificas do filho, e atendê-lo de modo mais adequado (holding). Para Winnicott (2008) o
holding “inclui a capacidade de empatia, intuição inconsciente e comunicação
silenciosa entre a mãe e o bebe. Ele permite que a criança se sinta integrada em si mesma e vá adquirindo uma sensação de diferenciação do mundo em que vive, adquirindo a noção de ser unitário e coeso.”
As crianças adotivas de maneira geral viveram situações que envolviam um fracasso na preocupação materna primária e na capacidade de holding da mãe biológica. Mas se foram adotadas logo após a separação da mãe biológica, tiveram a oportunidade de serem cuidadas por outra mãe (substituta), sendo possível que a mãe adotiva possa desenvolver também uma capacidade de holding e ajudar seu filho adotivo a se sentir compreendido.
Para Winnicott (2008) um bebê não pode existir por si só, mas é parte essencial de uma relação. Sua famosa frase “Não existe aquilo a que se chama um bebê”, significa que, ao se descrever um bebê, está se descrevendo um bebê e alguém mais. Da mesma maneira, a dinâmica psíquica de uma criança esta inserida dentro de um contexto mais amplo, que é sua inclusão dentro de uma família, envolvendo relações emocionais peculiares.
Podemos dizer que a criança só se constitui a partir da relação com o outro, e que a família aparece, como núcleo fundamental para estruturação e desenvolvimento de cada indivíduo.
3 AS VIVÊNCIAS DAS FAMÍLIAS ADOTANTES: A AVALIAÇÃO PSICOSSOCIAL NO CONTEXTO DA ADOÇÃO
Como já abordado anteriormente o segundo capitulo trabalhou sobre a adoção, e a importância da família no processo de adoção. Com o objetivo de melhor esclarecer este tema utiliza-se a seguir um artigo produzido a partir de uma pesquisa de enfoque qualitativo com duas famílias adotantes, por meio de entrevista de grupo focal.
A pesquisa foi realizada em um serviço de adoção de uma Vara de Infância e da Juventude. Todos os pedidos de adoção, por determinação judicial, são encaminhados para o estudo Psicossocial ao Setor de Adoção, que na ocasião da pesquisa era formado por uma equipe de seis psicólogas e sete assistentes sociais.
A investigação contou com duas famílias que já haviam passado pelo processo de estudo psicossocial de inscrição e de adoção no Setor de Adoção, ambas com parecer técnico favorável à adoção. Para a realização da entrevista de grupo focal foram convidadas sete famílias, quatro confirmaram presença, porém apenas duas compareceram. As duas famílias não tinham filhos biológicos. A família Santos era formada por um casal e uma filha adotiva de 7 anos. A família Silva por casal e dois filhos adotivos de 11 e 2 anos de idade. A faixa etária de ambos os casais encontrava-se entre 35 a 45 anos, eram residentes na cidade de Brasília e possuíam renda mensal entre 5 e 6 salários mínimos. A investigação foi realizada em um único encontro de aproximadamente uma hora e meia de duração e foi gravada em fita cassete e posteriormente transcrita na íntegra, para assim ser realizada a análise dos resultados.
O casal Silva compareceu sozinho, já o casal Santos levou a filha adotiva. Entretanto a criança não pode participar da entrevista, pois não estava bem de saúde.
A entrevista foi conduzida por uma das pesquisadoras e contou com a presença de dois observadores, instruídos para observarem o comportamento não-verbal do grupo durante a realização da mesma. Devido a natureza subjetiva dos
dados a serem coletados: valores, atitudes, crenças dos sujeitos, vivências e cultura coletiva específicas, temos o grupo focal como a técnica de entrevista mais indicada.
Na entrevista de grupo focal, perguntas abertas e fechadas podem estar combinadas no roteiro da entrevista (entrevista semi-estruturada). Foram então planejadas quatro perguntas abertas: Como vocês acham que os técnicos do Juizado deveriam avaliar as famílias adotantes? Pensando na experiência vivida durante o estudo psicossocial, como avaliam que a experiência pessoal, em suas famílias de origem e na família atual, foi considerada ou interferiu no processo de adoção? Consideram que a forma como uma família se apresenta ao Juizado para o estudo técnico é relevante e importante no processo de adoção? Se vocês pudessem realizar outra vez o processo de adoção como se apresentariam de novo ao Juizado?
Na pesquisa, as famílias parecem ressaltar cinco aspectos importantes que deveriam ser priorizados no estudo psicossocial: a motivação, as condições materiais e socioeconômicas, o amor e o vínculo como aspectos prioritários, a prioridade para os casais sem filhos e perfis compatíveis entre crianças e famílias adotantes.
Verificamos que no diálogo das famílias, a motivação é vista como algo importante, o mesmo, contudo, parece demonstrar que existem diferentes motivações e não necessariamente, uma é melhor do que a outra. Segundo o casal Santos: “Eu acho que o primeiro critério é o porquê de você estar querendo adotar uma criança. Qual é a real intenção naquela adoção... A gente não queria adotar uma criança para ajudar uma criança,... tirar do orfanato... a gente queria um filho”. Podemos notar pelo relato da família Santos que o motivo principal que os levou a dar inicio ao processo de adoção era ter um filho. Essa motivação vem ao encontro do mencionado no capitulo dois, onde a adoção, por sua vez, representa uma possibilidade para pais que não podem ter filhos e que desta maneira tem a possibilidade de exercer este papel.
Já o casal Silva respondeu que outras motivações também poderiam ser apropriadas, como amar ou ajudar alguém, oferecer uma família a quem não tem. A esposa argumentou ainda que o desejo para ter filhos poderia não ser assim tão adequado, visto que este poderia ser decorrente de uma pressão de cunho social para gerar filhos e garantir a continuidade da família: “... é muito também de posição social. A família quer ser igual ao contexto”.
Em relação às condições materiais e socioeconômicas, verificou-se que ambas as famílias receiam essa investigação no que tange às condições. Conforme as famílias: “O Juizado vai vasculhar sua vida, quer saber quanto você ganha, onde você mora, quer saber de tudo... Mas eu acho certo. A parte financeira acho muito importante porque infelizmente não é só o amor, você tem que ter uma certa condição para dar para a criança”.
Paras ambas a questão socioeconômica é muito importante na avaliação, mas foi ressaltado ainda que esta deve ter um peso secundário em comparação a dimensão do amor e do vínculo com a criança. Segundo as famílias: “Mas penso que talvez essa criança estivesse em uma situação muito pior. Você às vezes pode melhorar as condições para ela. Se você tiver amor para dar você vai tentar”.
A dimensão do amor e do vínculo é posta em primeiro lugar. O amor por um “filho do coração” pode surpreender. “A gente pega um amor assim... Eu nunca pensei que poderia existir... uma filha do coração. É amor mesmo, muito amor, sabe?” A senhora Silva apontou ainda que o amor e o vínculo que se estabelece com a criança devem ser de naturezas diferentes, deve ser de pai-filho, mãe-filho. A senhora Santos destacou que os técnicos devem procurar conhecer as famílias e observar se dentro delas há amor para dar. Outro ponto relevante é o medo que ambas as famílias demonstraram sobre o rompimento dos vínculos com a criança, caso não consigam adotar.
Uma proposta que surgiu foi que os casais sem filhos deveriam ter prioridade para adoção. “Isso deveria se levar muito em conta: a necessidade de um casal sem filho, ter que ter um filho”. Um dos entrevistados manifestou acreditar que este deveria ser um critério para decisão durante os estudos psicossociais de adoção. Entre duas famílias, nas quais uma com filhos e outra sem, essa última deveria priorizada. “O casal que não tem filho deveria ter certa prioridade sobre os outros”. As duas famílias entrevistadas não podiam gerar filhos biológicos. Ambas relataram suas experiências de sofrimento e a angústia de não terem filhos, de serem diferentes do contexto numa sociedade que valoriza a continuidade familiar através dos vínculos de sangue.
Segundo Levinzon (2006, p. 26) “Tanto os pais biológicos quanto os adotivos se vêem diante da tarefa de acomodar suas expectativas em relação à criança “imaginada” e à criança “real””. Os pais adotivos podem se defrontar com uma tarefa mais árdua no sentido de absorver as diferenças em relação àquilo que esperavam
de seu filho, em função das características peculiares à situação de adoção. Fatores como a falta de vínculo genético, a impossibilidade de ter acompanhado a criança desde o seu nascimento, as fantasias em relação às características de seus pais biológicos, as diferenças étnicas, entre outros, podem dificultar essa acomodação. A inabilidade de alguns pais adotivos em aceitar as expressões mais instintivas da criança pode estar ligada à descontinuidade biológica, que impede com que possam fazer um investimento narcísico no seu filho. Assim, comportamentos instintivos normais como sujeira, curiosidade sexual, agressão, entre outros, são compreendidos como reflexos do “mau sangue” da criança. Como a criança “não veio deles”, acreditam que sua forma de se comportar “só pode vir daquilo que trazem de seus pais biológicos”.
Verificou-se que a família Santos acredita na importância de existir perfis compatíveis entre a família adotante e o adotando. “Tem que haver esse consenso, essa habilidade do pessoal da adoção de colocar a criança numa família compatível fisicamente com os pais adotivos”. Isso viria a proteger tanto a família, como o membro adotivo do preconceito proveniente da sociedade. “A própria criança sente isso... aquela reação negativa das pessoas”.
Em vários momentos a conversa indicou que a busca de semelhanças físicas é um ponto importante na constituição ou formação do vínculo entre a família adotante e a criança, tanto do ponto de vista do par parental, como da família extensa.
Foram ressaltadas nas entrevistas também as semelhanças entre os adotantes e os filhos adotivos. “Porque as pessoas dizem que ele é a cara do pai. Sempre perguntam: e esses olhos? Eu digo que são os olhos do vovô Santos. Por coincidência papai tem os olhos iguaiszinhos aos dela”.
Muitas vezes os estudos psicossociais de adoção revelam que os adotantes demonstram orgulho da semelhança dos filhos adotivos consigo e/ou com o cônjuge e/ou com outros membros da família. Essa identificação com o adotado parece fortalecer o vínculo de parentalidade que poderia estar ameaçado de não existir em função da não ligação biológica.
A literatura aponta que o laço biológico não é garantia para que o exercício da maternidade/paternidade ocorra. Schettini (2007) ressalta que a semelhança física se mostra, dentre outras como uma aspiração tanto dos pais quanto dos filhos numa tentativa de reduzir a inexistência dos laços de sangue. A procura pela
semelhança é uma ação mútua de pais e filhos adotivos numa tentativa de concretizar a ligação parental.
Para algumas famílias, a semelhança física é fundamental para a construção do vínculo e/ou desenvolvimento do sentimento de amor para com a criança. Contudo, mesmo que considerem importante e fundamental a existência da compatibilidade entre os perfis dos adotantes e do adotando, a família Silva, por já ter vivido a primeira adoção e todas as fases de desenvolvimento de uma criança, consegue ser menos exigente no perfil da criança a ser adotada em relação a sua idade e condições de saúde. “Na primeira adoção a gente pegou uma criança com sete dias. Na segunda adoção, a gente pegou uma criança com três meses e com problema cirúrgico que teve de fazer uma cirurgia com um ano. E uma terceira adoção seria uma criança de três anos. Então, são três períodos completamente diferentes de adoção. Então você entra para adotar a criança com outra cabeça, com outras ideias.”
Conforme o artigo as famílias acreditam que a estrutura e dinâmica familiar são levadas em consideração nos estudos psicossociais, em especial, a harmonia do relacionamento conjugal. “Acho que levaram em conta o nosso passado e o presente... Principalmente o presente, nossas experiências do dia-a-dia, do casal... a harmonia, o tipo de relacionamento, a opinião do marido...”
A senhora Santos comentou a importância da família de origem como uma base para a formação do casal e de uma nova família. “Porque eu acho que quando você vem de uma família com uma estrutura sólida, uma estrutura bem formada, você já tem uma condição maior de formar a tua família numa base mais sólida”.
Como já relatado anteriormente, de acordo com Bock (1999), as crianças veem nos pais modelos de como são os adultos, de como atentem ao telefone, como falam com os vizinhos, de como se portam perante estranhos, de como resolvem problemas e conflitos; de como lidam com a dor, etc. Os pais são o modelo a seguir de como é ser homem, de como ser mulher; são um modelo a se espelhar e admirar.
O senhor Silva levantou a hipótese de que a dúvida em relação à estabilidade de seu casamento e o pouco tempo de inscrição no Juizado podem ter sido fatores ou critérios considerados pelos técnicos para a demora na conclusão da adoção. “Porque nesse período (de espera pela conclusão do processo) de um ano eu poderia ter me separado dela... Então (o Juizado) faz um trabalho todinho e de
repente o casal se separa. E a criança fica naquela situação, vai para o pai, vai para a mãe, aí volta para o Juizado para ter aquela briga de quem vai ficar com a criança.”
O diálogo de ambas as famílias apontou importância da estabilidade familiar de um segundo abandono ou ainda uma situação indefinida em caso de uma separação conjugal.
Foi apontado por uma das famílias, que a gravidez, em geral, é aceita de forma mais natural pela família extensa se comparada com uma adoção. Possivelmente, porque há um laço sanguíneo com a criança e rejeitá-la seria negar o próprio sangue. A senhora Silva referindo-se a criança adotada “é uma pessoa que vai integrar uma família, mas uma família vista como um todo. Como é que vai ser a aceitação não apenas dos pais, mas dos avós, dos tios, dos primos, porque tem que ser levado em conta tudo isso. E as pessoas têm que enfrentar e conviver com aquilo. Então não é gravidez que a mulher vai e a família aceita. Está na família, mas é uma coisa que vem de fora...”.
De acordo com Schettini (2007), isto seria consequência de uma aprendizagem cultural que propaga a obrigatoriedade de amar aquele ser que foi gerado de forma biológica ou com quem temos laços de sangue. Assim, a adoção provoca uma probabilidade maior de rejeição, visto que o sentimento de amor é consequência de uma decisão pessoal. Dessa forma, nessa cultura de laços de sangue não existiria uma garantia de que o mesmo pudesse ocorrer.
A pesquisa ainda trabalha o tema da vivência das famílias durante o processo de adoção. Nesta direção, o critério para convocação para as entrevistas foi, como citado anteriormente, que as famílias já tivessem sido objeto de um estudo psicossocial visando à adoção. Dentre os assuntos trabalhados vamos destacar os seguintes:
Ansiedade e temor x necessidade de segurança: Uma família, relatou que passou por duas experiências de adoção, na primeira a entrega da criança tinha sido mais rápida, porém o tempo de estudo e conclusão do processo foi longo. “Nós ficamos um ano sem a certidão, sem a garantia de que ele (o filho adotivo) é seu... É uma situação em que a gente, o casal mesmo, dá uma desestruturada”.
O casal comentou que o tempo de espera para a concretização do registro foi mais angustiante do que esperar para acolher a criança. Visto que quanto maior o tempo de relação com a criança, mais se fortalecia o vínculo e dessa forma maior o
medo de um possível rompimento. O medo desse casal chegou a “dar uma desestruturada nessa família, pensaram ate em fugir com a acriança, caso não ficassem com a criança. “Se o Juizado falar a gente pega as coisas, bota a criança no saco e cai fora. Eles relatam que: “É completamente diferente a questão da primeira e da segunda adoção, porque a primeira é aquela expectativa total do primeiro filho. O segundo já vem assim mais tranquilo”. Observamos nesse ultimo caso:
O medo de perder o filho aparece como um fantasma permanente, em graus diferentes, nas famílias adotivas. É como se a falta de um elo consanguíneo não garantisse a solidez do vínculo que liga os pais à criança. É claro que a intensidade desse temor depende do grau de maturidade psíquica do casal adotante, e das condições em que se deu a adoção (LEVINZON, 2006, p. 27).
Conforme Levinzon (2006), inconscientemente os pais apresentam temores, de represália e castigo, como se de alguma forma houvesse a possibilidade de perder o filho a qualquer momento. Estas fantasias têm relação com vivências edípicas primitivas e sentimentos de rivalidade e inveja em relação à fertilidade dos pais.
Já a experiência da outra família foi diferente. Segundo os diálogos, embora os adotantes também estivessem ansiosos com relação à possibilidade de retirada da criança, estavam mais seguros fazendo a adoção através do Juizado, “a imagem que as pessoas têm do processo todo da adoção é torcida... a adoção através da Vara da Infância é uma coisa muito mais tranquila, muito mais transparente, uma segurança para você e para a criança”.
No decorrer da entrevista surgiram queixas a respeito do tempo para a conclusão de todo o processo. Essa demora é citada como um possível motivo para algumas famílias não adotarem. Como a senhora Silva explica: “o processo todo que é infelizmente muito demorado, tem muitas pessoas que evitam porque é um processo demorado”. O processo é concluído com o registro da criança no nome dos adotantes.
Em relação ao vasculhamento, exposição e proteção as famílias perceberam que o vasculhamento é necessário, e que tem o propósito de minimizar os riscos tanto para os adotantes e para os adotados. Entretanto, um diálogo indica que, ainda que necessário, esse “vasculhamento” expõe demais o adotante, provocando
angústia e desconforto. Em vários momentos durante a entrevista, o tamanho do “vasculhamento” foi destacado. As falas demonstram que as famílias acreditam que uma pessoa disposta a adotar uma criança, tem a possibilidade de fingir, dissimular mascarar alguma coisa, e que deste modo, o estudo deve ser denso e profundo, bem como as visitas devem ocorrer sem aviso prévio. Uma das mães comentou o fato de que, às vezes, a vontade de ter um filho, é tanta, que o adotante pode não medir esforços para atingir o seu objetivo, mesmo que não possua condições para tanto.
Assim como foi descrito anteriormente, a maioria dos homens e mulheres deseja ter e criar seus filhos para que assim possam realizar-se tanto no aspecto biológico quanto no aspecto psíquico. Assim como Freud demonstrou em seu trabalho “Notas sobre o Narcisismo” (1914), os filhos representam a chance dos pais realizarem seus próprios ideais narcicísticos. A expressão “sua majestade o bebê “expressa a importância que tem a criança na imaginação dos pais, como um personagem que concentra a fantasia de ser valorizado e privilegiado sobre todas as outras coisas.
Ainda que exista a chance de haver algo escondido, ou ainda, mascarado/dissimulado, as famílias demonstram acreditar na capacidade do estudo psicossocial detectar isso e agir em prol dos interesses da criança. O estudo psicossocial é necessário e pertinente à proteção do adotando e das próprias famílias. Essa pesquisa tem demonstrado como é importante que os pais adotivos tenham a possibilidade de recorrer a uma orientação psicológica como um recurso para a prevenção de possíveis problemas na relação familiar e no equilíbrio emocional dos sujeitos da família e do filho adotado.
CONCLUSÃO
O presente trabalho abordou, em três capítulos, primeiramente as questões dos aspectos históricos e legais sobre a adoção. Ainda temas pertinentes sobre a família e sua função na adoção, bem como, utilizando o artigo intitulado: “A avaliação psicossocial no Contexto da adoção: Vivências das famílias adotantes”, versou acerca dos aspectos relevantes sobre a família e a adoção.
Desta forma, o primeiro capítulo buscou esclarecer a origem e a evolução da adoção, desde os primórdios da humanidade até os dias de hoje. Na sequência se analisou a situação atual do país relativa aos aspectos legais do processo de adoção.
Percebemos que houve uma enorme mudança no processo adotivo, iniciando quando a criança apenas era trazida para dentro de uma nova família até o modelo praticado atualmente, onde há uma série de etapas a serem seguidas para assim entrar no Cadastro Nacional de Adoção e ficar na fila de espera da criança ou adolescente que foi estipulado previamente. Embora todo o processo adotivo tenha se alterado drasticamente com o passar dos anos, a essência ainda permanece a mesma.
O segundo capítulo trouxe o estudo da família adotiva. Fazer parte de um grupo familiar, uma família, é algo vital para que a criança possa se constituir subjetivamente. A família tem responsabilidade de transmitir os valores ideológicos, a cultura, os costumes e bem como, proporcionar condições para o indivíduo adquirir a linguagem e, dessa forma, se inserir e tomar parte do mundo.
Para finalizar o tcc, o terceiro capítulo, teve como objetivo principal esclarecer o segundo capítulo, mais especificamente a família na adoção. A análise do artigo deixou claro como a família passa pelo processo adotivo, suas angústias e
medos, também nos proporcionou um melhor entendimento em relação a família na adoção.
Observamos nesse trabalho, que a adoção é muito complexa e não pode ser feita sem um acompanhamento adequado. E é de suma importância que um profissional acompanhe o período de adaptação da criança com sua nova família. Que o país juntamente com a família devem agir juntos para o bem estar, assim proporcionando cuidado e proteção as crianças e adolescentes.
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