1 Universidade Federal do Ceará
Centro de Tecnologia
Departamento de Arquitetura e Urbanismo VIEIRA, Luana Duarte,
Vila Vertical: Outra Opção para as Edificações Residenciais. Luana Duarte Vieira; Ricardo Paiva (Orient).
Fortaleza: DAU/CT-UFC,2010.
84 fl (oitenta folhas). TFG, Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2010.
1. Edifícios Residenciais; Mercado Imobiliário; Fortaleza-CE. FICHA CATALOGRÁFICA
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
VIEIRA, Luana Duarte (2011). VILA VERTICAL: OUTRA OPÇÃO PARA AS EDIFICAÇÕES RESIDENCIAIS. TFG, CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, FORTALEZA-CE, 84 FL.
2 Universidade Federal do Ceará
Centro de Tecnologia
Departamento de Arquitetura e Urbanismo Curso de Arquitetura e Urbanismo
BANCA EXAMINADORA
CONSTITUÍDA PELOS PROFESSORES:
_______________________________________________ Prof. Ricardo Alexandre Paiva (DAU/UFC) – Orientador
_______________________________________________ Prof. (DAU/UFC) – Membro Interno
_______________________________________________ Arq. – Arquiteto Convidado
Fortaleza, CE – BRASIL Junho - 2011
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AGRADECIMENTOS
Ao meu pai, Patrício, por ser sempre minha fortaleza e exemplo de perseverança, à minha mãe, Fátima, que me inspira com sua sensibilidade e à minha gêmea, Lorena, pelo compartilhamento das alegrias diárias.
Aos membros das famílias Moreira, Duarte, Cavalcante, Teixeira, Vasconcelos, Vieira e Sousa, pela pronta disponibilidade no início desse trabalho.
Aos colegas de faculdade Natália Cerqueira, Dante Emanuel, Felippe Fideles, Filipe de Melo, Sara Costa, Plínio Renan, Telma Parente, Joyce Custódio, Raquel Apoliano e Thaís Jucá pelas trocas e pelo companheirismo ao longo do curso, e em especial aos “quase arquitetos” Gabriel Vilela e Gérsica Vasconcelos que acompanharam todo o processo desse TFG, e colocaram a “mão na massa” na confecção final desse caderno.
À Lara Oliveira, minha amiga e companheira de aventuras, desde o Colégio Santa Cecília, e a partir de agora, minha sócia, pelas angústias e conquistas arquitetônicas divididas e vividas, e por sempre me lembrar nos momentos mais críticos que também precisamos de “momentos de piração”!
Ao meu namorado, Joel Sousa Jr., pelo apoio incondicional, pelos momentos de descontração e pela eterna paciência ao longo desse semestre.
À arquiteta Ana Regina Conrado, por ter me proporcionado meu primeiro estágio, por ter me mostrado a complexidade que envolve o exercício profissional do arquiteto.
À arquiteta Luce Galvão, junto com a sua equipe técnica – Raquel Vitor e Evânia Quezado, por me dar a oportunidade de vivenciar a experiência de um escritório de arquitetura da forma mais completa possível.
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RESUMO
Este Trabalho Final de Graduação consiste na elaboração do projeto arquitetônico da Vila Vertical, um edifício residencial que se propõe lançar outra possibilidade de organização e configuração das unidades residenciais. O projeto surge a partir do reconhecimento de uma insatisfação por parte da população em relação ao que está sendo ofertado pelo mercado imobiliário e busca lançar novas diretrizes de projeto, se apoiando em uma releitura sobre as novas necessidades das diversas configurações familiares contemporâneas sobre o espaço doméstico. Para a formação de um programa de necessidades foram escolhidas oito situações reais de composições familiares, o que culminou em unidades residenciais de dimensões e organizações diferentes entre si. A partir de premissas que remetem à customização, à flexibilização dos espaços, ao conforto e às exigências particulares dos moradores, surge a Vila Vertical, um edifício de nove pavimentos, que procura se relacionar de uma forma mais democrática na cidade e que busca direcionar o processo de verticalização na área na qual foi inserido.
PALAVRAS-CHAVE:
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SUMÁRIO
1. Apresentação, 6 2. Justificativa, 7 3. Objetivos, 9 4. Metodologia, 105. A Produção de Tipologias Residenciais no Brasil, 11
5.1 – A Evolução das Tipologias Residenciais no Brasil, 11
5.2 – A Produção Residencial do Movimento Moderno no Brasil, 18
5.3 – A Produção Contemporânea de Espaços Residenciais, 22
6. A Produção de Tipologias Residenciais em Fortaleza, 26
6.1 – Breve histórico: das residências unifamiliares aos condomínios verticais e horizontais, 26
6.2 – A Atual Oferta Residencial em Fortaleza, 30 7. Estudos de Caso, 36
7.1 – Edifício Fidalga, 38 7.2 – Edifício Harmonia, 40
7.3 – Habitação Social em Courbevoie, 42 8. A Proposta, 44
8.1 – Definição do Objeto, 44 8.2 – Diagnóstico, 48
8.3 – Legislação, 50 8.4 – Público Alvo, 51
8.5 - Programa de Necessidades e Interações Funcionais, 52 8.6 - Contextualização do Edifício com o Entorno, 61
8.7 – Aspectos Espaciais, 72
8.8 - Aspectos Estruturais e Construtivos, 73 8.9 - Aspectos Ambientais, 74
9. Perspectivas, 76
10. Considerações Finais, 82 11. Referências Bibliográficas, 83
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1.
Apresentação
A tipologia habitacional é de extrema importância para a conformação do espaço urbano, pois constitui uma das principais funções urbanas. Além da função de abrigo, os diversos tipos de habitação tornam-se o refúgio para os problemas e as situações adversas de cada pessoa, é o local de descanso e de sossego, onde pode-se reabastecer a energia necessária ao desenvolvimento das atividades diárias e é onde o ser humano desenvolve suas relações familiares e cria laços afetivos.
Além disso, é necessário lembrar que todo indivíduo precisa de um espaço para morar. Isso faz do setor habitacional o mais representativo na construção civil, com uma produção cada vez mais crescente. Por tanto, julga-se necessário um olhar cuidadoso sobre essas edificações tanto na sua condição individual quanto no seu relacionamento com a cidade.
O presente Trabalho Final de Graduação consiste na proposição de um edifício residencial multifamiliar diferente do que está sendo construído, como alternativa para a atual produção do mercado imobiliário em Fortaleza. Para isso, foram realizadas uma série de reflexões sobre a atual produção do espaço doméstico frente às necessidades das diversas composições da família contemporânea e a forma com que os edifícios habitacionais estão se relacionando com o meio urbano, foi proposto o edifício denominado Vila Vertical. O nome escolhido remete a um conglomerado de unidades residenciais organizadas verticalmente, localizado em meio à malha urbana consolidada, que procura enfrentar os problemas urbanos, contextualizando-se com o entorno.
Este trabalho foi desenvolvido considerando casos reais de diferentes configurações familiares, a fim de se demonstrar as diferentes expectativas das mais diversas composições familiares que surgem em nossa sociedade e se propõe a lançar uma alternativa ao que hoje está sendo projetado e construído.
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2. Justificativa
É fato que historicamente, a tipologia da casa unifamiliar isolada provoca uma espécie de deslumbramento sobre grande parte da população. O crescente aumento da violência urbana fez com que a oferta e a procura de imóveis com essa configuração caíssem drasticamente nos últimos anos. Uma alternativa encontrada pelo mercado imobiliário para suprir esse público foi através da oferta de condomínios fechados de casas. Esse tipo de empreendimento, no geral, ocupa uma vasta área de terreno e acaba sendo localizado em áreas mais distantes da malha urbana consolidada, se distanciando dos principais comércios e serviços e se implementando em zonas de baixa infra-estrutura urbana, causando uma série de problemas urbanos, ao mesmo tempo em que prometem segurança, conforto e sossego ao morador.
Outra tipologia residencial bastante produzida pelos promotores imobiliários (incorporadoras, construtoras e corretoras) é a de edifícios verticais de apartamentos. Ao contrário dos condomínios de casas, estes estão normalmente situados nas áreas de infra-estrutura urbana consolidada, enfrentando os altos preços dos terrenos, e adensando profundamente esses espaços com unidades residenciais de dimensões mínimas, sem muito conforto.
No último ano, talvez devido à condição de quase egressa do curso de arquitetura, me deparei diversas vezes com angústias de amigos e conhecidos que me questionavam sobre a compensação da localização em detrimento do custo do imóvel, das dimensões das unidades, das vantagens e desvantagens das tipologias e da incerteza do benefício econômico da compra de um imóvel pronto. Esses questionamentos me levaram a observar mais essa produção e a refletir questões mais profundas como a importância da função do habitar para a sociedade, a relação da edificação residencial com as cidades, a relação do
8 homem contemporâneo e o meio urbano, os reflexos da violência urbana sobre os edifícios e
as necessidades contemporâneas relacionadas ao espaço doméstico.
A partir dessas constatações e reflexões, julgou-se importante um estudo mais aprofundado sobre a atual produção do setor residencial em Fortaleza a fim de se propor uma alternativa ao que tem sido ofertado.
9
3.
Objetivos
3.1 – Objetivo Geral
Este Trabalho Final de Graduação tem como objetivo geral propor um projeto de edifício multifamiliar, que apresente uma alternativa às soluções consolidadas no mercado imobiliário visando o aumento da qualidade dos espaços residenciais nas edificações relacionadas ao tema da habitação e sua relação com a cidade.
3.2 - Objetivos Específicos
- Fazer uma proposição diferente para as relações edificação X cidade; homem X cidade; edificação X violência urbana; estandardização X customização.
- Conceber um projeto que atenda a complexidade e heterogeneidade das necessidades contemporâneas de habitação.
- Propor novas soluções de habitações em relação às condicionantes funcionais, plásticas e ambientais.
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4. Metodologia
1. Investigação de material bibliográfico que valide a idéia proposta e que acrescente no entendimento da produção atual e das discrepâncias com as verdadeiras necessidades contemporâneas.
2. Seleção de estudos de caso e análises.
3. Escolha de 08 (oito) famílias de configurações familiares distintas, realização de entrevistas a fim de se entender seus anseios e necessidades e fechamento de um programa de necessidades.
4. Pesquisa e escolha de terreno.
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5.
A Produção de Tipologias Residenciais no Brasil
5.1 – A Evolução das Tipologias Residenciais no Brasil
“Antes de tudo, o ato de morar é uma manifestação de caráter cultural e enquanto as técnicas construtivas e os materiais variam com o progresso, o habitar um espaço, além de manter vínculos com a modernidade também está relacionado com os usos e costumes tradicionais da sociedade” (LEMOS, 1989).
Assim, faz-se necessário realizar um breve histórico sobre a evolução das tipologias residenciais juntamente com as alterações organizacionais do ambiente doméstico no Brasil, a fim de se entender as transformações ocorridas na sociedade brasileira ao longo da história e de reconhecer os reflexos na composição da unidade habitacional.
A primeira tipologia residencial de investigação trata das edificações residenciais que passaram a ser construídas após o estabelecimento das cidades e vilas no Brasil, são as casas coloniais. Estas, como não eram de se esperar, caracterizaram-se por uma identidade própria, relativamente distante da herança portuguesa. A morada portuguesa se manifestou na casa brasileira colonial basicamente em aspectos estéticos, através da reprodução, por nossos construtores, dos modismos de estilos lusitanos. A organização interna de nossas residências foi determinada a partir dos diferenciados aspectos climáticos e socioeconômicos do território brasileiro em toda sua extensão.
A edificação habitacional colonial se dividia em rural e urbana. Em sua grande maioria, eram rurais, isoladas no latifúndio e consideravelmente distantes umas das outras. O distanciamento entre as edificações tornou o sentimento de hospitalidade uma obrigação social, e culminou na elaboração de um programa de necessidades que satisfizesse essa
12 condição. Assim, a unidade habitacional era composta de duas principais zonas, a de receber
visitas e a de interação familiar. A condição climática do país acarretou em uma série de soluções gerais de organização interna das casas, como o afastamento da cozinha as áreas sociais, o espessamento das paredes externas da edificação, a condição de pés direitos altos e a execução de alpendres nas faces ensolaradas da edificação. Esses cuidados buscavam o conforto térmico no interior das edificações.
As residências coloniais urbanas populares eram geminadas e implantadas em terrenos profundos e estreitos. A configuração interna consistia num corredor lateral que ligava todos os cômodos enfileirados. O primeiro ambiente possuía aberturas para o exterior da edificação e configurava a sala ou um comércio. Depois seguiam os dormitórios, verdadeiras alcovas privadas da ventilação cruzada e consequentemente com renovação de ar deficiente. Nos fundos localizavam-se as áreas de serviços, composta da cozinha, de grandes áreas de trabalho e de depósito de alimentos. De lá se tinha acesso ao quintal, onde havia alguma instalação sanitária. As residências mais abastadas configuravam-se em sobrados, onde no térreo eram exercidas atividades relacionadas ao comércio e no pavimento superior à moradia. Esses sobrados possuíam dimensões maiores que as casas populares e caracterizavam-se pela distinção plástica entre as edificações vizinhas. As fachadas eram construídas de forma a reproduzir esteticamente as residências portuguesas.
A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro facilitou o reconhecimento de algumas facilidades advindas da Revolução Industrial. Na arquitetura surgiram novas técnicas e novos materiais. A confecção de esquadrias envidraçadas, por exemplo, tornou-se acessível aos menos abastados, culminando em modificações significativas nos hábitos da família brasileira. As casas passaram a ser iluminadas tanto pelo uso do vidro nas aberturas externas da edificação, como pelos novos aparelhos de iluminação artificial, o que possibilitou
13 a extensão das atividades pelo período noturno. Iluminadas, as salas e as varandas deixaram
de ser áreas íntimas da família e passaram a ser abertas a visitantes, alterando o programa de necessidades e a organização interna da unidade habitacional. Houve também alterações nos hábitos de higiene, e os equipamentos necessários ao banho passaram a se localizar junto aos dormitórios.
A maioria as residências passaram a possuir porões, nos quais foram concentradas as áreas de serviço, inclusive a cozinha. As refeições eram transportadas por monta-cargas ou por uma escada estreita que culminava em um ambiente denominado servisse. Essa tipologia não se disseminou e logo passaram a ser construídas residências com duas cozinhas, a do porão e a superior. Os dormitórios dos empregados eram instalados no porão, junto à cozinha. A casa foi zoneada em três zonas principais, a área de estar, a de repouso e a de serviço. A distribuição desses ambientes deveria permitir o transito de uma a outra sem necessariamente passar pela terceira. Surgiu então uma nova dependência, o vestíbulo, com a função de distribuir os passos na residência.
Quando o advento da água encanada não era acessível às residências, o ato de tomar banho e de eliminar excrementos eram ações totalmente desassociadas e aconteciam em ambientes separados. O alto custo do material hidráulico fez com que essas duas atividades passassem a acontecer no mesmo espaço, configurando nossa tipologia atual de banheiro. Essas alterações na organização da habitação estavam ligadas à condição econômica do proprietário. Quanto pior era a condição financeira do indivíduo mais se preservava os critérios de zoneamento e circulação da casa colonial.
Os ambientes internos e externos se incrementaram com papeis decorativos e balcões em ferro. Os palacetes das famílias mais abastadas representavam os mais diversos estilos arquitetônicos ofertados pelo ecletismo vigente. Inicialmente o estilo mais difundido foi o
14 neoclássico, seguido de outros “neos”, até chegarem na proposição de diversos estilos
arquitetônicos distintos em um mesmo edifício. A minimização das distâncias através da construção de estradas de ferro, logo permitiu que essas alterações que se iniciaram no Rio de Janeiro, fossem implantadas no restante do país com certa homogeneidade.
As importações européias permitiram alterações na configuração das edificações no lote. O uso de calhas coletoras para as águas pluviais permitiu a formação de corredores laterais descobertos e de pátios internos. Assim, se construiu residências com aberturas de ventilação para todos os cômodos. Os construtores produziam casas simétricas duas a duas, de forma a situar os corredores lado a lado, ampliado a área não edificada e favorecendo os dormitórios quanto à insolação e a ventilação.
A ascensão da economia do café, com o seu consequente processo de imigração em São Paulo no final do século XIX, causou sérios problemas habitacionais para a cidade. Como solução para o aumento do déficit habitacional, construíram-se os cortiços, que correspondiam a conjuntos de habitações multifamiliares. Um corredor unia as habitações de apenas um cômodo, e culminavam em algumas latrinas e lavanderias de uso coletivo. Essas edificações eram construídas sempre em terrenos bastante baratos, no interior dos lotes. A vida nesses ambientes era de total insalubridade, pois não havia preocupação com a insolação, nem com a renovação do ar. Essa condição obrigou as prefeituras a regulamentar uma residência de condição mínima de habitabilidade. Assim surgiram as casas operárias, compostas por três cômodos: a sala, a cozinha e um dormitório. No geral, essas edificações eram produzidas pelo próprio morador, e foi nesse processo que houve a implementação do tijolo de alvenaria na construção civil das residências, em substituição à taipa.
Exceto o tijolo, a areia e o cal, os outros materiais de construção e os elementos ornamentais eram exportados da Europa. No período da Primeira Guerra Mundial, essas
15 exportações enfraqueceram e a indústria brasileira ainda não estava preparada para suprir
essas necessidades. O volume de novas construções foi reduzido drasticamente e os construtores procuravam soluções alternativas aos critérios de composição europeus, utilizando materiais e produtos industriais locais. A casa neste período era isolada nas divisas, formando passagens laterais para os automóveis. Nesse período surgiu a copa, como principal ambiente de convivência da família. A sala de jantar tornou-se um apêndice da sala de visitas e sua função de reunir os indivíduos e de ser palco das refeições diárias foi transferida à copa, o que reduziu a utilização dessas salas.
Na década de 1930, em São Paulo, surge a oferta de edifícios verticais de apartamentos no mercado imobiliário. A necessidade de se adensar as metrópoles, já consolidadas de infra-estrutura e prestação de serviços, aliou-se à tecnologia moderna do concreto armado e dos elevadores, justificando a verticalização da construção. Os primeiros edifícios verticais foram construídos destinados a instalação de escritórios, e logo depois passou a abrigar usos mistos que envolviam comércio e habitação. Essa produção de habitação coletiva precisava agradar a distintos padrões de comportamento, e nessa intenção, propôs soluções homogeneizadoras que buscavam satisfazer a média dos desejos dos usuários. Os edifícios construídos nesse período destinavam-se à prática de aluguel e tinham uma função de acumulação de capital bastante forte. Inicialmente, as unidades habitacionais de apartamentos eram resolvidas nos mesmos padrões de conforto e zoneamento das habitações térreas, sem considerar a nova problemática. Repetiam-se as salas de almoço próximas às cozinhas e as salas de jantar e de visitas separadas por grandes portas.
16 “Esta necessidade de pensar o prédio de apartamentos como apenas
dimensionalmente diversos das casas individuais isoladas, essa impossibilidade de enfrentar um novo problema segundo uma escala adequada, faria com que a verticalização, conquistada pelos aperfeiçoamentos das estruturas de concreto e dos elevadores, ao mesmo tempo que abrisse novas e amplas perspectivas, destruísse as conquistas que a arquitetura vinha realizando nas residências individuais, como a reconciliação com a natureza, a integração com os espaços interiores e exteriores e a liberdade de disposição dos edifícios sobre o terreno” (REIS FILHO, 1978).
Com a afirmação do Movimento Moderno nas metrópoles brasileiras, a produção de edificações verticais passa por uma revisão e passam a ser repensadas em função da escala adequada ao edifício e dos novos modos de vida. Além disso, arquitetos do Rio de Janeiro e de São Paulo passam a questionar a incorporação do ecletismo como estilo arquitetônico dominante, na busca de um estilo que valorizasse as tradições históricas do país.
A partir da década de 1950, se intensifica a produção de edifícios verticais. Os estudos sobre a produção desse período foram aprofundados no item 5.2 desse trabalho.
Atualmente a produção de edificações residenciais no Brasil se divide em basicamente duas tipologias, os condomínios fechados horizontais de casas e os condomínios fechados verticais de apartamentos. Com o aumento da violência urbana, as edificações foram se isolando através de muros ou grades de ferro, o que acarretou num fenômeno de negação do meio urbano. A relação entre o espaço público e o espaço privado ficou comprometida. A característica do homem contemporâneo com tendência à valorização da individualidade gera a demanda de espaços residenciais cada vez mais customizados que satisfaçam os anseios
17 particulares de cada indivíduo. A alta diversidade de composição familiar contemporânea
também é um sintoma da necessidade de uma revisão da atual produção homogênea de espaços destinados à moradia.
O ambiente residencial foi, e continua sendo, palco das mais diversas manifestações culturais de nossa sociedade. Nota-se, ao longo da história, uma constante transformação no programa de necessidades e na organização interna da unidade habitacional. A identificação dessas alterações alerta para a discussão sobre a qualidade do espaço habitacional atual a fim de propor questionamentos sobre a satisfação das necessidades de nossa sociedade atual.
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5.2
– A Produção Residencial do Movimento Moderno no Brasil
O processo de industrialização no Brasil concentrou a população nos pólos urbanos e modificou os modos e os meios de produção, com conseqüências na localização dos postos de trabalho gerando uma série de transformações na sociedade. A Carta de Atenas, elaborada por um grupo internacional de arquitetos, buscava soluções para os problemas causados pelo rápido crescimento das cidades a partir da industrialização. As recomendações descritas eram de caráter bastante universal e propunha quatro funções básicas nas cidades: habitar, trabalhar, recrear e circular. O postulado da arquitetura moderna objetivava resgatar e reordenar as cidades, e tratava a arquitetura como um grande agente transformador. Na arquitetura, buscava-se uma nova estética que partia da racionalização dos elementos e que representasse a sociedade industrial.
Os edifícios passam a ser concebidos a partir dos Cinco Princípios corbusianos de planta livre, estrutura independente, pilotis, terraço-jardim e janela em fita, respondendo às necessidades modernas de abertura, de integração entre o interior e o exterior da edificação e essencialmente de ordem. A partir daí, os arquitetos trabalharam na busca de soluções diversas que mantivesses os preceitos modernos, mas que resolvessem as problemáticas particulares de cada edifício. A cidade moderna devia ser planificada com sua organização funcional definida. Os blocos edificados deveriam ser implantados de forma a distanciar-se dos limites do lote, configurando objetos isolados.
19 “A proposta moderna de habitação, como colocada após a Primeira Guerra
Mundial na Alemanha e, posteriormente, na França, alimenta-se dos desdobramentos de certas ideologias, atitudes políticas, conjunturas econômicas e avanços técnicos originados - ou acentuados – a partir da industrialização do continente, ocorrida principalmente no eixo Inglaterra-França- Alemanha. Nesta proposta, a tripartição burguesa oitocentista da casa será substituída pela centralização da cozinha e, posteriormente, por uma bipartição dia/noite, em função, sobretudo, dos novos modos de vida emergentes. Ao mesmo tempo, diversos progressos técnicos permitiriam que as cargas dos edifícios deixassem de ser suportadas pelas paredes divisórias: a planta livre e a estrutura independente, aliadas ao esforço de estandardização e produção em série de seus componentes, teriam viabilizado a execução e o uso de painéis leves e facilmente transportáveis, tanto nas fachadas como nas vedações internas dos edifícios. Os princípios básicos desta habitação moderna foram resumidos por Le Corbusier em sua publicação de 1926, Les cinq points de l’architecture nouvelle, e difundidos pessoalmente pelo arquiteto em suas viagens e conferências, ou através de seus escritos e projetos” (TRAMONTANO, 1993).
A estrutura familiar que surgiu nesse período industrial foi denominada família nuclear e era composta por pai, mãe e filhos, e substituiu um modo de produção baseado na mão de obra da família extensa (POSTER, 1979). Esta nova composição familiar apareceu caracterizada por forte individualização de seus membros que alimentavam cada vez mais uma necessidade de obter privacidade. O espaço doméstico no Brasil, a partir da década de 40, foi palco de grandes experiências relacionadas ao Movimento Moderno. Surge uma nova concepção de habitação, extremamente compartimentada e setorizada, na qual se definirão zonas de prestígio (as salas) localizadas na fachada principal, zonas íntimas (os dormitórios da família) localizadas de forma a garantir a privacidade quanto aos olhares dos visitantes e zonas de exclusão (cozinhas, banheiros, e quartos de empregadas) localizadas e forma a criar uma circulação de serviço separada da circulação social.
20 Destacam-se aqui alguns edifícios pioneiros em termos de sistema construtivo,
tipologia e linguagem, projetados por arquitetos modernos renomados como o Edifício Esther, o Edifício Prudência e o Edifício Louveira.
O Edifício Esther, de Álvaro Vital Brasil e Adhemar Marinho, de 1938 em São Paulo, foi o primeiro grande edifício com estrutura independente de concreto construído no Brasil. O edifício foi idealizado como um volume inteiramente livre, no qual as quatro fachadas têm a mesma relevância. As circulações verticais e horizontais e as áreas molhadas foram localizadas no centro da planta retangular dos apartamentos de forma a liberar as fachadas para grandes aberturas horizontais envidraçadas que ventilavam e iluminavam as áreas de convívio e os dormitórios.
O programa de necessidades contemplado no edifício, além de atender a atividades diversas como habitação, comércio e serviços, ainda produziu unidades habitacionais de tipologias diferenciadas que abrangem da habitação mínima ao apartamento duplex. Essa característica se configura nas quatro fachadas do complexo. Os apartamentos da cobertura adotaram terraços jardins reafirmando os princípios corbuseanos da nova arquitetura. As aberturas foram projetadas de modo a adequar-se aos padrões industriais de produção, buscando a máxima padronização.
O Edifício Prudência, de Rino Levi e Roberto Cerqueira, de 1944, em São Paulo, pela aplicação inédita do conceito do espaço doméstico flexível. A planta da unidade habitacional é solucionada a partir de duas grandes áreas. A área de serviço que correspondia a uma grande cozinha, uma despensa, dois dormitórios de empregados, um banheiro para empregados e dois banheiros sociais voltados para o interior do apartamento, encontrava-se rígida no projeto, voltando-se para o interior do lote. A área social, que inclui as áreas de estar, jantar e dormitórios era entregue com o vão livre, apenas com a marcação da estrutura
Edifício Esther. Interior Unidade
Residencial. Fonte:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/r esenhasonline/03.031/3184
21 e as amplas aberturas envidraçadas. A intenção era dar total liberdade de organização de
layout aos moradores. Outra característica relevante desse edifício é o relacionamento direto do conjunto edificado com a via pública, no qual despensa muros de isolamento ao meio urbano.
O Edifício Louveira, de Vilanova Artigas, de 1949 em São Paulo. Foi implantado em um terreno de esquina em frente à praça Vilaboim, no bairro de Higienópolis, na época predominantemente horizontal. Assim, inaugurou uma área de expansão para o uso residencial vertical na cidade, servindo de exemplo para os futuros edifícios de apartamentos, na medida em que sugere uma relação diferenciada com o ambiente urbano. Os dois blocos do Edifício foram implantados de forma a criar um espaço semi-público de uso dos morador que se estende até à praça Vilaboim e cria uma continuidade visual entre os espaços privado e público.
Edifício Prudência: plantas flexíveis. Fonte:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/a rquitextos/10.120/3437
Edifício Louveira: integração da edificação
com o meio urbano. Fonte:
http://www.flickr.com/photos/kuk/3076248 906/in/set-72157610561232965
22 5.3 - A Produção Contemporânea de Espaços Residenciais
A sociedade contemporânea se caracteriza pela afirmação de alguns fenômenos que vêm se desenvolvendo ao longo da história, como por exemplo, a afirmação da mulher no mercado de trabalho, a redução do número de filhos, a acumulação de aparelhos eletrônicos no espaço doméstico, a redução da mortalidade e o aumento da expectativa de vida. Outros fenômenos não encontram-se tão consolidados, mas já têm bastante reflexo em parte da população, como a crescente informatização facilitando o trabalho em casa, o contínuo enfraquecimento da dependência da empregada doméstica e as reformulações da composição familiar.
“[...] os padrões de formação, dissolução e reconstituição da família tornam-se cada vez mais heterogêneos e tornam-seus limites mais ambíguos. Segundo os estudiosos da UNECE, o casamento tornou-se menos central na conformação da vida das pessoas, diferentemente do que ocorria em um passado recente, por vezes caracterizado pelo preconceito em relação às pessoas que não se casavam. As uniões consensuais aumentaram e, em alguns países, já existe o reconhecimento legal dos casais homossexuais. Os aumentos das separações conjugais e dos divórcios levaram à formação de novos arranjos familiares. Quando os indivíduos separados ou divorciados iniciam uma nova união, formam um novo arranjo denominado “famílias reconstituídas”, especialmente no caso da presença de crianças. O aumento da mobilidade espacial permite aos indivíduos maior liberdade na escolha de onde quer morar, o que pode provocar um aumento do desejo de preservar sua independência, fazendo com que casais procurem alternativas de
23 convivência e parceria, como a moradia em domicílios diferentes.” (Censo
IBGE 2010, p. 98).
Duas tipologias da produção residencial atual bastante construídas são a de condomínio vertical de apartamentos e a de condomínio horizontal de casas, entendidos como conjuntos edificados implantados em uma área particular com equipamentos comum a todos, sendo setorizado em área privativa (a área residencial) e área comum (ambientes de uso comum dos moradores). A construção dessas tipologias teve início nos anos 70, em São Paulo, inicialmente para as classes mais abastadas, e posteriormente, e rapidamente aceita, pelas demais classes sociais, visto que eram duas ótimas opções para quem se preocupava com aumento dos índices de violência urbana. Essa ideia se justificava pela oferta de grandes terrenos distantes dos grandes centros por preços acessíveis. No geral, essas residências seguem o mesmo padrão de configuração interna de décadas atrás, ignorando as transformações por quais vem passando nossa sociedade. A construção de condomínios fechados se proliferou rapidamente nas grandes cidades brasileiras, causando uma série de problemas urbanos. A formação de grandes corredores isolados na cidade pelos muros divisórios desses equipamentos e o deslocamento de grande parte da população para áreas de infra-estrutura insuficiente, sobrecarregando os sistemas de água e esgoto e o sistema viário, são alguns fenômenos observados em consequência dessa produção.
Outra tipologia de moradia contemporânea é a dos flats que proporcionam toda a infra-estrutura e os serviços oferecidos por hotéis, mas que buscam fugir da impessoalidade e da frieza desses serviços. Essa tipologia foi a grande inovação no setor residencial da década de 80. O marketing que gira em torno da oferta dos flats apóia-se nas características de comodidade e praticidade, investindo no público de solteiros e divorciados, categorias que
24 cresceram bastante nos últimos anos. Os serviços ofertados no geral são o de garagista,
camareira e telefonista, e a infra-estrutura prevê lavanderia, piscina, bar e restaurante. A idéia é oferecer ao morados total ausência de preocupação com a administração dos aspectos domésticos. Esse tipo de habitação destina-se às classes de poder aquisitivo maior, e foram absorvidos mais como estilo de moradia temporária do que permanente.
Nota-se que as inovações no desenho do espaço doméstico para essa população em transformação, ainda não satisfazem a necessidade. Modifica-se a forma de organizar as unidades habitacionais, mas as configurações internas destas permanecem praticamente as mesmas. O espaço doméstico produzido atualmente ainda segue o modelo da habitação burguesa européia do século XIX, caracterizado pela tripartição em áreas social, íntima e de serviços, nos moldes do modernismo, em que a uniformidade das soluções se justifica em projetos economicamente viáveis e satisfatórios para as principais necessidades dos moradores por uma suposta democratização das características gerais dos espaços.
“No entanto, estudiosos de diferentes horizontes têm apontado na mesma direção quando o assunto é a metrópole do século XXI: seu habitante parece ser um indivíduo que vive, principalmente, sozinho, que se agrupa eventualmente em formatos familiares diversos, que se comunica à distância com as redes às quais pertence, que trabalha em casa, mas exige equipamentos públicos para o encontro com o outro, que busca sua identidade através do contato com a informação.” (TRAMONTANO, 1998).
Um novo movimento, denominado Novo Urbanismo, fomenta as discussões em torno do planejamento das cidades, do desenho urbano e da arquitetura. A Carta produzida a partir
25 dessas discussões é resultante da revisão de problemas específicos da proliferação de
subúrbios das cidades norte-americanas, mas propõe idéias gerais de organização do espaço urbano para a sociedade contemporânea, que podem direcionar soluções a partir do reconhecimento de problemas urbanos específicos. As cidades da América Latina, por exemplo, sofrem com o crescimento anárquico dos núcleos urbanos, com o desequilíbrio das funções urbanas e com o desajuste entre o espaço público e o privado.
A posição do Novo Urbanismo se sustenta no reconhecimento da necessidade de diversidade social, da mistura de funções, na acessibilidade para os pedestres e na expressão da cultura local. Suas propostas de planejamento referem-se a comunidades menores e mais densas do que acontece hoje. Ao contrário da proposta moderna, os deslocamentos são reduzidos de forma a minimizar a dependência do veículo individual motorizado, e de estimular o uso do transporte público coletivo, de forma a tornar o uso dos recursos naturais mais racional e sustentável.
Na questão residencial, fala-se em habitações acessíveis a grupos diferentes em termos de idade, sexo, raça e situação socioeconômica de forma a criar uma situação de heterogeneidade entre os indivíduos que coabitam. Esses núcleos habitacionais devem ter uma relação estreita com espaços destinados as outras atividades (comerciais, de serviços, institucionais e de recreação). Acredita-se que este tipo de medida devolva certa vivacidade ao meio urbano.
26
6.
A Produção de Tipologias Residenciais em Fortaleza
6.1 - Breve Histórico: das residências unifamiliares aos condomínios verticais e
horizontais.
Até o final do século XIX, a estrutura fundiária em Fortaleza caracterizava-se por lotes estreitos e profundos e a arquitetura residencial era constituída de casas térreas e sobrados geminados, levantadas no alinhamento das ruas, com telhados de duas águas e seguiam a configuração interna de casa-corredor:
“(...) as salas de frente e as lojas aproveitavam as aberturas sobre a rua, ficando as aberturas dos fundos para a iluminação dos cômodos de permanência das mulheres e dos locais de trabalho. Entre estas partes com iluminação natural, situavam-se as alcovas, destinadas à permanência noturna e onde dificilmente penetrava a luz do dia. A circulação realizava-se sobretudo em um corredor longitudinal que, em geral, conduzia da porta da rua aos fundos. Esse corredor apoiava-se a uma das paredes laterais, ou fixava-se no centro da planta, nos exemplos maiores” (REIS FILHO,1995).
A partir do início do século XX, a cidade passa por reformulações modernizadoras. A infra-estrutura urbana é dotada de um novo sistema de transporte, com bondes elétricos e a introdução do uso de automóveis, possibilitando a expansão da cidade para além da área central. Inicia-se um processo de segregação espacial com o desenvolvimento de bairros de classes sociais. A organização residencial padrão também é transformada. Criam-se acessos laterais, reduzindo o longo corredor que atravessa a casa da frente aos fundos. As habitações
27 localizadas no meio do quarteirão passam a recuar suas entradas do alinhamento da rua.
Erguem-se palacetes que utilizaram as mais diversas linguagens do ecletismo.
No final da década de 20, tem-se início a utilização do concreto armado na produção das edificações. Com a difusão da tecnologia e a partir de alterações na legislação que regulamenta o uso e a ocupação do solo, tem-se início o processo de verticalização na área central da cidade.
O Código de 1932 formalizou normas relacionadas à utilização do concreto armado nas edificações. Os conhecimentos sobre a nova tecnologia iam se difundindo entre os profissionais da construção civil e o concreto armado, aos poucos, substituía as paredes de alvenaria estrutural. Esse mesmo Código incentiva esse processo permitindo a construção de edificações com gabarito de até 50 metros. Em 1938, é emitido um decreto que discorre sobre as construções e reconstruções na zona central, no qual ficam permitidas apenas construções de dois ou mais pavimentos. Este mesmo decreto impõe um zoneamento do município em quatro áreas: zona central, zona comercial, urbana e suburbana, e ainda determina quais são os bairros residenciais: Aldeota, Joaquim Távora, Benfica e São Gerardo.
Em 1947 é emitido o Decreto 785 que estabeleceu limites de gabaritos para as cinco zonas da cidade. Para a zona que correspondia à área central foi permitida a construção de edificações com 6 pavimentos além da sobreloja, enquanto para as zonas restantes foi limitado a construção de 3 e 2 pavimentos, estimulando novamente o processo de verticalização do centro de Fortaleza.
Assim, os primeiros edifícios com destaques verticais localizaram-se na zona central e destinaram-se aos usos comercial e institucional. Como exemplo, pode-se citar o edifício dos Correios e Telégrafos construído em 1933 com três pavimentos, a Casa Parente construída
28 em 1936 com cinco pavimentos, o Cine Diogo de 1940 com nove pavimentos, o Edifício
Prudência – Companhia de Capitalização de 1947 com sete pavimentos, entre outros.
“É nesse momento, quando o processo de verticalização se instala, que observamos as primeiras manifestações de uma nova ordem arquitetônica, em contraposição ao ecletismo vigente, denominado por De Fusco como arquitetura “protomodernista”. Apesar de apresentar uma expressão moderna na sua pureza formal, com predominância da linha reta sem no entanto abandonar as formas curvas, mantém apesar disso, uma composição simétrica que denota vestígios ainda acadêmicos (...) Nos bairros, essa tendência é menos acentuada, tanto na verticalização como na expressão formal, apesar de serem encontradas algumas inovações como a escada helicoidal destacada do volume principal, marquise sustentadas por colunas de ferro, telha canal aparente, utilização de brise-soleil” (Andrade, 1999).
Quanto mais se expandia a função comercial dentro da área central, mais a função habitacional perdia força, deslocando-se para as áreas próximas. Segundo Diógenes (2005), “As camadas de mais alta renda começavam então a se segregar, de acordo com seus interesses e suas aspirações, procurando bairros mais seguros e confortáveis, onde pudessem se isolar como conjuntos homogêneos, longe dos tumultos urbanos”. Iniciou-se um processo de ocupação no eixo leste da cidade, definindo o bairro da Aldeota.
Em 1962, o Código Urbano determina a forma e a altura dos prédios. O gabarito das futuras edificações na área central é elevado novamente, agora passa para 12 pavimentos, enquanto o das outras áreas gira em torno de 8 a 3 pavimentos, confirmando a contínuo estímulo de verticalização da zona central. O processo de verticalização da cidade de Fortaleza acelera com a mudança na Lei de Uso e Ocupação do Solo do Plano Diretor de 1979, que ampliou os índices de aproveitamento e permitiu que áreas além do centro pudessem construir edificações de gabaritos mais elevados.
29 O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de 1992 permitiu um maior adensamento
nessas áreas verticalizadas, o que acelerou drasticamente esse processo. Assim, foram sendo ofertados novos programas de necessidades e tipologias relacionados à habitação.
Atualmente, na cidade de Fortaleza, a oferta de edificações destinadas à moradia pelo mercado imobiliário formal se divide em basicamente duas tipologias: os condomínios fechados horizontais – de casas – e os condomínios fechados verticais - de apartamentos.
30
6.2 - A Atual Oferta Residencial em Fortaleza
É evidente o crescimento da oferta de condomínios fechados de casas pelo mercado imobiliário em Fortaleza. Essa nova forma de habitar a cidade corresponde a um conjunto de residências isoladas ou geminadas, térreas ou duplex que voltam-se umas para as outras e são envolvidas por muros altos ou grades de ferro que isolam todo o complexo da cidade. Além do programa residencial, muitas vezes estes complexos são acompanhados de um setor de comércios e serviços de uso privativo do condomínio, no qual apenas os proprietários têm acesso. Em sua maioria, são empreendimentos de larga escala, com um número razoável de unidades e que ocupam uma vasta dimensão de solo urbano.
“É importante destacar que o fascínio que a casa unifamiliar isolada exerce na grande maioria da população não é recente. Ele remete, no limite, à villa renascentista. No século XIX, esta tipologia foi reafirmada através das formas de habitar socialmente, construídas pelos reformadores sociais para as classes trabalhadoras, respaldada pelas propostas higienistas, primeiramente na Europa, e também no Brasil. Historicamente, as classes abastadas quase sempre possuíram casas isoladas, que na versão paulistana corresponde aos palacetes do final do século XIX e início do XX” (DOS SANTOS, 2003). Aliado a esse desejo antigo do habitar residências unifamiliar, o mercado imobiliário entra com um alto investimento no marketing dessa nova tipologia habitacional. Os panfletos publicitários vendem, mais do que as moradias, promessas de segurança, tranquilidade, sociabilidade e qualidade de vida, sem falar na fantasia de um status social conferido pelo privilégio de morar isolado, protegido e rodeado por uma vizinhança homogênea. Esses
Exemplo de panfletos publicitários. Fonte: google imagens.
Fachada mostrando muros de isolamento de um
condomínio de casas. Fonte:
http://imoveisemfortaleza.com/oliver_residence.ht ml
31 empreendimentos são legitimados sob a visão de que o espaço público tornou-se violento,
caótico e impessoal, e que deve ser evitado.
Não se pode garantir que essa nova organização de unidades habitacionais consiga estabelecer relações de vizinhança e de convivência melhores do que as composições atuais. As áreas de convivência estão sempre associadas a uma série de regras e restrições de utilização estabelecidas pelo condomínio.
“Parece que os espaços coletivos dos condomínios fechados tendem a ser, tanto quanto os espaços públicos das cidades, cada vez mais, museificados. Deixam de ser palco onde se estabelece a relação entre os homens para apenas representar a idéia de que esta relação seria possível, sem, no entanto, concretizar-se” (DOS SANTOS, 2003).
O assentamento urbano padrão desses condomínios fechados, no qual se ocupa uma vasta faixa de solo urbano e o isola do restante da cidade por muros altos, acaba por acentuar as desigualdades sociais, bastantes presentes em nossa sociedade, a partir do momento em que nega o espaço público.
“Baseado na crença de que o espaço urbano sempre foi o locus do desenvolvimento da ação coletiva, onde se estabelece a noção de bem comum, onde se configura a esfera pública, onde liberdade e igualdade são constitutivas, pode-se dizer que há uma crise urbana, e que os muros contemporâneos são um reflexo dessa crise” (DOS SANTOS, 2003).
32 Este tipo de equipamento transforma-se em espaços anti-urbanos, contrários à
experiência pública. Esses muros fazem surgir na cidade longos corredores de circulação escuros, sem atividades e longe dos olhos e da vigilância do homem comum. Assim, surgem várias cidades muradas dentro de outra totalmente insegura.
“Não é o abandono da esfera pública, mas a sua apropriação pelos cidadãos de todas as classes sociais, que permite criar uma melhor qualidade de vida e controlar a violência. Não é a sofisticação das barreiras (físicas, sociais e simbólicas), mas a sua derrubada que permite criar um espaço social mais seguro e fazer frente ao medo” (CALDEIRA,1996).
A necessidade de distanciar-se dos pólos urbanos consolidados para a obtenção de terrenos maiores, muitas vezes, faz com que esses núcleos habitacionais ocupem áreas nas quais a infra-estrutura é insuficiente, sobrecarregando os sistemas públicos de água e esgoto. Além disso, ao se instalarem em áreas distantes dos comércios e serviços, geram grandes deslocamentos diários dessa população para as áreas centrais, sobrecarregando o sistema viário, um problema extremamente preocupante na cidade de Fortaleza.
A construção de muros de isolamento, o afastamento dos grandes centros e a individualização da unidade habitacional refletem uma adaptação às necessidades contemporâneas, enquanto a unidade habitacional continua a ser pensada em moldes tradicionais.
“Os conceitos de privacidade, de intimidade, concretizados e institucionalizados primeiramente nos espaços das moradias européias do século XIX, e depois exportados aos países dos outros continentes, inclusive ao Brasil, sob forma de divisões espaciais em cômodos, organizados em
Maquete ilustrativa de condomínio de casas no município de Euzébio.
Fonte: http://fortaleza.olx.com.br/victor-i-o- melhor-e-conceituado-condominio-de-casas-duplex-iid-194617135
33 áreas social, íntima e de serviços, ainda constituem o eixo central do
raciocínio projetual. Verificou-se que algumas das mudanças decorrentes dos novos modos de vida que já começam a despontar na sociedade contemporânea, como o trabalho-em-casa, o acúmulo de equipamentos eletro-eletrônicos, o desaparecimento da empregada doméstica, e as possíveis alterações relativas às novas composições familiares, que se contrapõem à tradicional família nuclear, ainda não encontraram seu lugar efetivo nas casas dos condomínios horizontais fechados” (DOS SANTOS, 2003).
Trata-se de uma nova forma de habitar a cidade, caracterizando um novo padrão de segregação espacial, enraizada em velhas maneiras de morar.
Outra tipologia habitacional que atualmente é fortemente produzida pela construção civil é a dos edifícios de apartamentos em condomínios fechados. Independente do público alvo, esses edifícios multifamiliares construídos atualmente em Fortaleza seguem algumas características comuns.
A alta compartimentação e individualização dos ambientes, principalmente de quartos e banheiros é o reflexo de uma característica bastante marcante do homem contemporâneo, o da individualidade. Aliado a essa característica, grande parte desses empreendimentos oferecem certa flexibilidade na organização do layout interno da unidade habitacional, através da possibilidade de escolha de plantas que prometem total adaptação às necessidades do morador. Essa flexibilidade ofertada pelas imobiliárias, em sua maioria, remete à escolha do número de cômodos, tornando necessária, para qualquer mudança maior a execução de uma reforma pelo proprietário. “Optar por um, entre dois usos que se pode fazer de um
34 determinado cômodo, não é a flexibilidade que se espera para os espaços habitacionais do
século XXI” (SANTOS,2003).
As áreas da cidade em que o processo de verticalização é intenso sofreram com o aumento do número de veículos, já que a infra-estrutura continua a mesma. A evidente preocupação por parte dos construtores com a valorização crescente do automóvel é marcante na grande maioria desse tipo de empreendimento. É comum a distribuição de muitas vagas de estacionamento em diversos pavimentos de subsolos.
Outra característica dos condomínios fechados de apartamentos é a supervalorização das áreas comuns com a introdução de um programa que vai bastante além do exigido pela legislação, na intenção de suprir as áreas de sociabilização e convivência que antes eram oferecidas pelo meio urbano. Assim como no caso dos condomínios fechados de casas, esse tipo de construção também reflete um desejo de morar de maneira exclusiva e segura, a partir do momento que distancia o equipamento do meio urbano através de altos muros ou grades, sustentando um discurso contra a violência urbana e os outros males que a cidade pode causar.
“Na última década, os edifícios multifamiliares têm se transformado em um dos principais produtos do mercado imobiliário e como consequência, sua produção tem sido submetida cada vez mais aos imperativos dos promotores imobiliários. Esta realidade ratifica a superação do valor de uso (moradia) pelo valor de troca (mercadoria-moradia), influenciando, inclusive, a linguagem arquitetônica dos edifícios, conferindo diferenciação para mercantilização e atribuindo distinção (“capital simbólico”) para quem dela se apropria” (PAIVA, 2007).
Área de lazer superequipada em condomínio de apartamentos.
35 As linguagens arquitetônicas predominantes nos edifícios residenciais em Fortaleza se
caracterizam em duas tendências. A primeira é a do ecletismo, no qual o resultado formal consiste na mistura de elementos que se organizam a partir do processo de cada projeto. A composição plástica do edifício resulta da mistura de revestimentos de cores e texturas variadas, que procuram simular arranjos volumétricos, dissociando o aspecto plástico da edificação dos formais, estruturais e funcionais.
“Desta forma, a atratividade dos edifícios enquanto produto do mercado imobiliário se vincula à sua superficialidade cosmética e são subordinados à formatação e ao marketing dos promotores imobiliários para facilitar e ampliar o seu valor de troca” (PAIVA, 2007).
A segunda linguagem arquitetônica bastante utilizada nesse tipo de empreendimento remete ao neoclássico, ao adotar formas e elementos da composição clássica. Os elementos clássicos desligam-se da estrutura física e funcional e tornam-se apenas ornamentos que buscam uma composição desejada. Esse fenômeno é reflexo da importação simples e pura de uma expressão recente produzida em São Paulo, reduzindo a tendência a um jogo de mercado.
36
7.
Estudos de Caso
Foram realizados estudos de casos, em nível nacional e internacional, na intenção de se identificar soluções diversas na produção atual de edificações residenciais quanto à interpretação da organização funcional da unidade habitacional contemporânea, à tecnologia empregada no conjunto edificado e às medidas relacionadas à sustentabilidade.
Em nível nacional foi encontrado em São Paulo uma série de edifícios produzidos a partir de um manifesto escrito por um grupo denominado “Movimento Um”. Esse grupo é formado pelas incorporadoras Idea Zarvos e CP3 e pela imobiliária AXPE. A empresa elaborou um texto no qual estão descritos os princípios para o desenvolvimento de seus edifícios (tanto residenciais quanto comerciais) que prometem modificar a paisagem urbana da cidade de São Paulo.
A seguir, alguns pontos descritos no manifesto:
1. “Por edifícios construídos em escala humana”. Propõe a vida em edifícios menores do que o padrão da produção atual. Essa idéia agrega a possibilidade de se construir em terrenos de dimensões reduzidas, minimizando os danos dos altos preços do solo pela especulação imobiliária e possibilitando a implantação do equipamento em áreas da cidade que já estão consolidadas.
2. “Por espaços que sejam realmente pessoais”. Propõe a produção de espaços customizados de acordo com as individualidades e as necessidades dos moradores. Esta medida torna-se bastante interessante frente à diversidade de composições familiares em nossa sociedade atual.
3. “Por apartamentos que acompanhem as fases da vida de seus donos”. Propõe total flexibilização da organização interna da unidade habitacional, inclusive com soluções diferenciadas para as instalações hidro-sanitárias que
37 permitam o deslocamento das áreas molhadas. A característica de flexibilidade se
faz importante não só pela possibilidade de mudanças na composição familiar, mas pelo aumento na velocidade de alterações referentes aos usuários e aos usos na arquitetura.
4. “Por prédios que aproximem seus moradores da cidade”. Propõe uma nova relação da edificação com a cidade, a partir da eliminação dos altos muros bastante comuns da produção residencial atual. A idéia de se propor uma nova forma de se relacionar o privado e o público é muito interessante, no entanto, é necessário reconhecer e repensar o crescente aumento da violência urbana e a característica de individualidade do homem contemporâneo, para uma proposição válida.
5. “Por imóveis que sejam objetos de desejo”. Propõe edifícios projetados com linguagem arquitetônica contemporânea, que reflita as necessidades e tecnologias de seu tempo. Esta estratégia busca valorizar economicamente o empreendimento a partir de sua arquitetura. Acredita-se que futuramente o discurso arquitetônico extrapole a classe profissional e passe a ser entendida e admirada por toda a sociedade.
6. “Por mais inteligência e menos desperdício”. Propõe edifícios que adotem soluções voltadas à sustentabilidade. Atualmente, muito se estuda sobre novas tecnologias relacionadas à renovação de energia e reaproveitamento das águas a fim de reduzir impactos maléficos ao meio ambiente. Além do exercício da consciência ambiental, a aplicação desse tipo de solução ainda permite, a médio e longo prazo, reduzir custos de utilização do empreendimento.
38 Dentre outros princípios, o “Movimento Um” propõe a construção de edifícios distintos
do que a maioria das imobiliárias está vendendo. Trata-se de um seguimento, que surge em São Paulo e está se espalhando pelo Brasil, que busca interpretar as necessidades da sociedade contemporânea e desenvolver edificações que respondam às expectativas de uso.
7.1
– Edifício Fidalga 727
1, Triptyque, São Paulo
O Edifício Fidalga se localiza na Vila Mariana em São Paulo, e é produto da ação do Movimento Um”. A edificação foi implantada em um terreno de dimensões reduzidas, de 13 x 50m, o que acarretou na redução de custos na compra do terreno. Não foram colocados muros nos limites do terreno, o acesso ao edifício fica recuado do passeio. Essa transição público/privada se dá por uma passarela que permeia um jardim do condomínio. Esse jardim acaba formando uma praça aberta, na qual o caráter público/privado fica indefinido. No projeto do conjunto há a valorização das unidades habitacionais sobre os espaços coletivos do condomínio. Estes foram reduzidos ao mínimo. O espaço com função de convivência e sociabilização volta a ser a cidade. Essa proposta de relacionamento da edificação com a cidade acontece de maneira interessante. A sensação de segurança frente à violência urbana não é comprometida pela ausência dos muros. O recuo dado na instalação da barreira física – necessária - que divide as áreas públicas e privadas, desafoga o passeio público, e chama a atenção do transeunte para a edificação.
A estrutura do edifício foi pensada de forma a permitir a livre organização interna das unidades, inclusive com relação às áreas molhadas, fugindo do padrão atual, em que estas se
1 O condomínio vertical de apartamentos é formado por três blocos, sendo dois de apartamentos que se unem através de passarelas a uma torre central de circulação.
Passarela de acesso. Fonte:
http://www.movimentoum.com.br/fidalga727/ Edifício Fidalga. Visão geral.
Fonte:
39 empilham e os layouts se rebatem. As tubulações são embutidas nas lajes dos apartamentos
e correm em direção às prumadas de água e esgoto que se posicionam aparentes nas fachadas.
Essas soluções de estrutura e instalações permitiram concretizar o princípio de customização dos apartamentos. O conjunto foi projetado com onze unidades habitacionais, todas com dimensões e layouts diferentes entre si, com áreas variando entre 79m² a 281m². Cada unidade foi projetada a partir das necessidades de seu comprador, assim como as aberturas que dão para o meio externo, que foram pensadas de forma a permitir a entrada de iluminação e ventilação necessárias a cada unidade.
Fica garantida ainda, a possibilidade de alteração total da configuração interna do apartamento. Além das modificações relacionadas a reestruturações familiares, e a alteração de usuários, é importante pensar na efemeridade de usos na arquitetura. Hoje, a flexibilidade é uma característica que agrega valor ao empreendimento.
Toda essa liberdade garantida na organização dos layouts internos culminou em fachadas assimétricas, possibilitando o reconhecimento de cada apartamento por quem anda na rua. Os arquitetos adotaram uma linguagem contemporânea na composição do conjunto, produzindo, na opinião da autora, fachadas curiosas e harmônicas.
O projeto se apresenta inovador no relacionamento com a cidade, no tratamento das necessidades habitacionais contemporâneas e na linguagem arquitetônica utilizada.
Reconhecimento das unidades pelo exterior. Fonte:
40
7.2 – Edifício Harmonia 57
2, Triptyque, São Paulo
O Edifício Harmonia, também produto das realizações do Movimento Um, tem uso comercial, mas tornou-se referência nesse trabalho por adotar em seu projeto medidas ligadas à sustentabilidade.
As paredes externas da edificação são bastante espessas, e foram construídas em concreto orgânico, com poros destinados a receber uma cobertura vegetal. A ação consistia em associar plantas diferentes de forma a gerar um ecossistema em que um conjunto de plantas se ajudam mutuamente. Enquanto algumas espécies ficam responsáveis por criar sombra, outras rastejam sobre a superfície da edificação provendo um banco de umidade disponível para as vizinhas. Essa cobertura funciona como uma pele protetora para a edificação, garantindo o conforto térmico e acústico em seu interior. Além disso, há a diminuição dos esforços para resfriar o ambiente pelas máquinas de ar condicionados, reduzindo gastos com energia.
O complexo possui um sistema próprio de tratamento e reutilização da água. O edifício foi projetado com um telhado verde que retém boa parte das águas pluviais. O excedente de água é coletado e direcionado para armazenamento em três reservatórios localizados no térreo, com capacidade que evita o escoamento da água para a rua mesmo nos períodos de chuva intensa. Ao final do terceiro reservatório, a água segue para um reservatório maior,
2
O edifício Harmonia localiza-se na Vila Madalena, em São Paulo, e propõe inovações na tipologia de edifício comercial. O conjunto se divide em dois grandes blocos ligados por passarelas metálicas e permeados por decks e uma praça interna que funciona como área de convivência. Grandes aberturas em janelas e terraços abrem o visual para a cidade. O primeiro bloco é formado pelo pavimento térreo onde funciona a recepção do complexo, e acima dele foram construídos mais dois pavimentos, nos quais se encontram um escritório de 85m² e terraços em cada um. O segundo bloco é formado por três pavimentos com escritórios de 120m² com respectivos terraços nos dois primeiros e um pequeno estúdio de 40m² no terceiro andar.
Edifício Harmonia. Visão geral.
Fonte: http://www.triptyque.com/harmonia/
Paredes externas com cobertura vegetal. Fonte: http://www.plataformaarquitectura.cl/2008/10/06/ harmonia-57-edificio-vivo-tryptique/
41 onde é periodicamente recirculada pelo sistema de ozônio, e então bombeada para caixas
elevadas, de onde segue para o abastecimento de vasos sanitários, irrigação e limpeza externa.
Tubulações em PVC transportam água na parte externa do edifício, ficando totalmente aparentes e misturando-se à camada vegetal. A irrigação desta foi pensada baseada no sistema de alta pressão e baixa vazão, borrifando água pelos minúsculos furos nas tubulações de PVC formando uma névoa úmida que irriga toda a cobertura vegetal. Atualmente, há uma expressiva redução das áreas verdes nos empreendimentos. Isso se deve principalmente aos gastos relacionados a sua manutenção. Optar por um sistema que reduza esses custos, a partir do reaproveitamento de águas utilizáveis que antes eram diretamente despejadas nas redes públicas, é uma saída para o retorno à incorporação desse aspecto verde à edificação.
Além dos ganhos pelos usuários da edificação, deve ser levado em consideração os aspectos de conforto e salubridade que esses “equipamentos verdes” proporcionam à cidade. A edificação se comporta como um organismo vivo que se transforma ao longo do tempo, formando arquiteturas diferentes durante o ano que devem ser admiradas.
Sistema de Tratamento e reutilização das águas pluviais. Fonte: http://www.triptyque.com/harmonia/ Tubulações em PVC externas à edificação. Fonte: http://www.plataformaarquitect ura.cl/2008/10/06/harmonia-57-edificio-vivo-tryptique/
42
7.3 - 28 unidades habitacionais sociais em Courbevoie
3Este projeto parte de um concurso de habitação social em uma área bastante adensada em Paris. A condição de adensamento da área impunha soluções de verticalização para o conjunto. Para isso, os participantes desenvolveram um exercício de adicionar características intrínsecas de casas isoladas ao projeto que propunha uma vivência coletiva. Desse exercício resultaram quatro principais conceitos: qualidade de uso, circum-navegação, individualização e vizinhança.
O primeiro conceito de casa individual de qualidade de uso diz respeito à possibilidade de flexibilidade na disposição dos ambientes e na transformação ao longo do tempo que a casa isolada permite. Essa qualidade de flexibilidade foi interpretada no projeto através da liberação da função estrutural de algumas paredes internas. Essa questão da possibilidade de reconfigurar o espaço habitacional contemporâneo se faz novamente essencial para essa tipologia.
O conceito de circum-navegação fala da possibilidade de circular envolta do apartamento partindo de todos os cômodos, incluindo quartos e cozinha. Esse tipo de liberdade dada ao morador pretendia aumentar o senso particular de posse. Essa característica transferiu-se ao projeto através da proposição de grande variedade de patamares suspensos que davam acessos diferenciados a cada apartamento, gerando diferentes espaços exteriores de varandas. A sensação desejada a ser despertada no
3 Em 2007, o grupo 3F e o conselho de “Courbevoie Town” lançaram uma competição para um projeto de habitação social para a zona de desenvolvimento urbano de “Les Fauvelles”. O concurso buscava novas soluções para a habitação social em áreas urbanas densamente ocupadas. O projeto final resultou em dois volumes ligados por passarelas. A decisão de dividir o programa em dois edifícios possibilitou trabalhar melhor a qualidade de uso e as características de casas individuais.
Habitação social em Courbevoie. Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos
Varandas e patamares de integração. Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos