O JORNALISMO E A LEGITIMAÇÃO DA INFORMAÇÃO CIENTÍFICA
Bruno Lara de Castro Manso1
RESUMO
A atuação jornalística nos processos sociais propicia a legitimação da informação científica. A academia integra os processos que afetam a vida social e humana, promovendo diálogos com múltiplos atores sociais. É um movimento científico em direção à sociedade para reforçar o apoio ao próprio meio de pesquisa e fomentar a educação científica. O jornalismo, que constrói narrativas e interpreta realidades, é estratégico para as políticas de determinados campos e saberes. Nesse contexto, o conhecimento do cidadão leigo adquire mais legitimidade também no processo de construção da ciência, cada vez mais entendida como sociociência.
PALAVRAS-CHAVE
Ciência e tecnologia. Jornalismo. Mídia. Campo científico. Cidadania.
INTRODUÇÃO
Há crescentes produções na literatura científica que teorizam e refletem as mudanças culturais da ciência e tecnologia (C&T) na contemporaneidade, em que a sociedade da informação é caracterizada, entre outros fatores, pela superação de barreiras e dualidades, pelas interações, relacionamentos, construção de redes e diálogos entre interagentes sociais de distintos e semelhantes campos do conhecimento.
Assim como a sociedade tem passado por profundas transformações, desde, principalmente, a partir das últimas décadas do século XX, a clássica e moderna ciência também demonstra nítidos sinais de novos parâmetros/paradigmas, que alteram as suas tradicionais dinâmicas, configurações, lógicas e modus operandi. Observa-se que há um alinhamento cada vez mais afinado entre o campo científico e outros campos sociais, com movimentos dialéticos e construções mais coletivas e colaborativas do conhecimento, com processos abertos de legitimação dos saberes e com espaços de discussões que se deslocam da academia para transitarem também em espaços culturais heterogêneos. A mídia e o jornalismo são dois exemplos.
1
Bruno Lara é jornalista da Universidade de Brasília (UnB); doutorando e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); editor do blog Dissertação Sobre Divulgação Científica
Em um primeiro momento, o artigo apresenta conceitos e discussões relativos ao campo científico, tais como definições, elementos constituintes, conflitos, dinâmicas de funcionamento etc. Em seguida, aborda-se a tradicional constituição científica, em sua forma moderna de racionalidade, que viria a formar limites contra saberes extra-acadêmicos. Os ambientes jornalísticos e midiáticos, por exemplo, mesmo que envolvidos com a ciência, teriam lugares marginais na consciência coletiva do campo científico clássico. Adiante, o texto explora os debates que ressaltam uma virada das dinâmicas da C&T, a partir das novas e intensas práticas informacionais de relacionamento. Os espaços culturais midiáticos e jornalísticos, de mediações, de construções e interpretações de realidades e exposições narrativas seriam propícios para atuações científicas em seus empreendimentos de ir em direção à conquista de novos parceiros nas redes sociais.
DEFINIÇÃO E CARACTERÍSTICAS DO CAMPO CIENTÍFICO
A noção de campo é um dos grandes tópicos abordados por Pierre Bourdieu. Trata-se de um universo entre o conteúdo textual de determinada produção cultural (a ciência e a literatura, por exemplo) e o contexto social, com os atores sociais (agentes e instituições) como responsáveis pela produção, reprodução e/ou difusão artística, literária e/ou científica. O campo é uma dimensão social, na qual são obedecidas determinadas regras e normas específicas daquele espaço. É um microcosmo com relativa e parcial autonomia dentro de um ambiente maior, o macrocosmo. Essa questão, do próprio ambiente fechado em si e da sua inserção em espaços mais globais, é um dos grandes tópicos que envolvem as dinâmicas dos campos, no caso, o campo científico (BOURDIEU, 2004).
Frente a pressões e forças externas, os campos buscam acionar mecanismos para eliminar ou reduzir as ações de interagentes de fora (BOURDIEU, 2004), embora seja importante frisar que a constituição do campo remete a participações de variadas dimensões e variados campos sociais (econômico, político etc.). O autor utiliza o termo refratar em referência à capacidade de um campo em retraduzir, em recodificar, dentro das lógicas locais, certas forças sociais e globais. Quanto maior a autonomia do campo, maior o poder de refração e transfiguração das forças de fora, para um entendimento particular internamente. Ao contrário, quanto mais sujeito a problemas externos (principalmente a problemas políticos), mais heterônomo o campo. Portanto, a politização de uma disciplina,
por exemplo, não deve ser entendida como evidência de autonomia, pelo contrário. Bourdieu (2004) critica a politização do campo científico, no sentido da importação de modelos para este ambiente, o que seria fruto de ações de agentes fracos de acordo com as normas específicas, com vistas a promover uma heteronomia. As consequências seriam sentidas no próprio “desenvolvimento das trocas racionais”, com a intervenção de “poderes externos nas lutas internas” (BOURDIEU, 2004, p.68).
Se existem relações do campo para lidar com movimentos externos, há também conflitos internos, que representam as disputas pelo poder, pela capacidade de orientar o andamento, o desenvolvimento e as tendências do campo. A estrutura do campo científico é definida a cada momento pela configuração das relações de forças entre os protagonistas (e também coadjuvantes) dos conflitos. Bourdieu expõe o papel fundamental da distribuição do capital específico, fruto do resultado de embates anteriores, para o estabelecimento de condições e estratégias dos diferentes agentes do campo (BOURDIEU, 1983).
Portanto, além das motivações científicas, há os interesses políticos de poder no princípio da distribuição e redistribuição dos capitais e demais ganhos. As motivações das lutas podem ser expressas nos objetivos de conservar ou transformar as posições nos campos. As estratégias dos dominantes são orientadas para a ortodoxia e a conservação das estruturas e posições, de forma a garantir privilégios, prestígio, autoridade e poder de decisão. Já os dominados, geralmente os mais jovens e recém-chegados ao campo, estão em desvantagem e tendem a pautar-se na heresia/heterodoxia/subversão, com vistas a alterar o quadro de forças (BOURDIEU, 2004; BOURDIEU, 2003).
As possibilidades de intervenção no campo estão ligadas ao peso do interagente naquele ambiente, que depende do crédito, do acúmulo de capital científico e da posição dele no espaço - salvo em casos excepcionais, em que o cientista revoluciona os princípios de distribuição do capital e as regras jogadas (BOUDRIEU, 2004). Então, a distribuição do capital científico é decisiva para a configuração do poder de ação e decisão dos atores sociais nas dinâmicas das lutas que contribuem diretamente para a organização das estruturas internas (BOURDIEU, 1976; BOURDIEU, 2004; BOURDIEU, 2007).
Percebe-se que as relações são desiguais, desequilibradas e pautadas por dominações. Quanto mais o agente entende as dinâmicas da "máquina", maior as possibilidades de ascensão, influência, trânsito no campo e de submeter outros atores aos
seus interesses (e/ou do grupo ao qual integra). Quanto mais próximo das dinâmicas internas e do funcionamento da "engenharia" do campo, maior a oportunidade de sucesso, conquistas, ascensão na carreira (no caso, a científica) e poder de decisão.
A compreensão do modus operandi é difícil e complexa, pois as estruturas são dinâmicas, estruturantes, estão a todo o momento em formação, com o meio formando e sendo formado pelas práticas dos indivíduos (BOURDIEU, 1983b). A formulação da teoria praxiológica (mediando o estruturalismo e a fenomenologia) ensina que as possibilidades de ação dos atores sociais se associam tanto às próprias condições de agir (como já exposto) quanto às possibilidades internas do campo em si, em um processo dialético de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade (BOURDIEU,1983b). A disposição para lutar e a expectativa de retorno/lucro, assim como as oportunidades e impossibilidades de realização, variam conforme as condições de existência, as condições de classe, segundo o habitus do qual o agente faz parte e ajuda a formar (2007).
O conceito de habitus estudado por Pierre Bourdieu é oriundo da tradição escolástica, que reforça o caráter passado do aprendizado. Inicialmente, a pesquisa sobre o conceito foi analisado em parceria com Jean-Claude Passeron no livro A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino, de 1975 (ORTIZ, 1983). Em sua reinterpretação do habitus, Bourdieu define o conceito como “sistema de disposições duráveis”, estruturas estruturadas com predisposição para atuar como estruturas estruturantes, como princípio propulsor e estruturador de representações e “de práticas que podem ser objetivamente ‘regulamentadas’ e ‘reguladas’ sem ser o produto de obediência a regras” (BOURDIEU, 1983, p. 61).
O habitus "tende a conformar e a orientar a ação, mas na medida em que é produto das relações sociais, ele tende a assegurar a reprodução dessas mesmas relações objetivas que o engendram" (ORTIZ, 1983, p.15). O conceito está na origem do encadeamento das ações organizadas objetivamente, mas que não são determinísticas (mecanicamente obedientes às regras) nem fruto de propósito estratégico (BOURDIEU, 1983a).
Os habitus se baseiam em “esquemas generativos”, que se por um lado precedem e orientam a ação, por outro, estão na fonte de novos “esquemas generativos”, com potencial para presidir a “apreensão do mundo enquanto conhecimento” (ORTIZ, 1983, p.16). Portanto, a atuação nesses esquemas é determinante para iniciar e concretizar as
transformações que afetarão o modus operandi da ciência, no caso. Os movimentos estruturantes dos campos científicos oscilam e são impactados em seus esquemas generativos, inclusive, pelos movimentos do macrocosmo, implicando em novos (ou variações dos) habitus.
Quem já nasce em um determinado campo tem muito mais oportunidades de entender mais do que só as regras explícitas, mas também as regras implícitas, "invisíveis", em movimento nos jogos de poder. Por isso, são tão importantes os ensinamentos e os papéis da família e da escola (BOURDIEU, 1983). Tais unidades sociais atuam nos processos estruturantes do habitus, através da socialização dos agentes nos campos. Elas possuem, então, capacidade especial para orientar, encaminhar e facilitar o trânsito do interagente nos espaços sociais, contribuindo para a permanência ou mutação dos habitus em seu processo de operacionalização e desdobramentos (BOURDIEU, 1983).
Um ator social no campo científico, com desenvoltura para cumprir as expectativas do sistema e se encaixar nos padrões de produção e avaliação dos pares, terá êxito em dimensões distintas do campo, como no atendimento das exigências do ceticismo organizado. Este conceito, uma das quatro normas que, segundo Robert Merton, guiam as práticas científicas, diz respeito ao fato de a comunidade científica estar permanentemente checando fatos e teorias, até que estas sejam capazes (ou não) de ser reconhecidas e bem aceitas (DELFANTI, 201). É o famoso sistema de julgamento do trabalho dos pesquisadores, realizado pelos próprios pares (VELHO, 1997; MEADOWS, 1974) - sistema decisivo na orientação e na evolução da carreira dos cientistas (REIF, 1961).
Esta dinâmica envolve interesses intrínsecos e interesses extrínsecos: ações para satisfazer o desejo pelo conhecimento, pela curiosidade, pela descoberta e pretensão de expandir as fronteiras do saber; e ações para impressionar os outros (BOURDIEU, 1983; REIF, 1961).
A autoridade científica está na essência dos conflitos no campo científico, de forma a obter mais capital científico, a assegurar e ampliar o prestígio e o poder de decisão. Nas lutas e negociações em busca do capital científico, os interlocutores são os membros internos do campo (BOURDIEU, 1976). Tradicionalmente, quem se vale de autoridades exteriores (como a imprensa e a publicidade) atrai o descrédito (BOURDIEU, 1983). A reputação junto aos colegas é fundamental para crescer na carreira, obter recursos para as pesquisas, obter
bolsas, convites e conquistar estudantes/orientandos com melhores qualidades. A acumulação do capital científico permite ao pesquisador construir um nome, ser conhecido e reconhecido, ter visibilidade e distinção perante os outros (BOURDIEU, 1983).
O capital científico pode ser classificado em dois tipos: a) capital temporal/político, que é institucional (izado), proveniente dos cargos de direção, chefia, comissão, comitês, bancas de concursos e defesas de teses etc.; b) o capital "puro" está relacionado às contribuições do pesquisador para a evolução da ciência (BOUDIEU, 2004). É a pesquisa em si, realizada intensamente pelos microkids nos laboratórios, “afastados” dos agitados meios econômicos e políticos (LATOUR, 2000).
A TRADICIONAL “CULTURA DOMINANTE”
O crescimento e a institucionalização da ciência, a partir do século XIX e ao longo do século XX, foi cada vez mais afastando as influências e os elementos externos, que antes eram bem alinhados e chegavam a se confundir com a ciência em si. Aliás, Mueller e Caribé (2010) dizem que o surgimento da imprensa foi determinante para os processos evolutivos da ciência.
O que é de fora passa a ser uma ameaça, principalmente a grupos hegemônicos, segundo uma perspectiva tradicional da comunidade científica em relação, por exemplo, à divulgação científica - segmento social heterogêneo que trabalha com a ciência, mas sem os critérios e padrões de trabalhos científicos.
Hilgartner (1990) expõe que a visão da cultura dominante da popularização, na academia, sustenta que: a) os cientistas são profissionais que desenvolvem o conhecimento genuíno/puro - se há pureza, há também elementos de contaminação; b) os divulgadores são responsáveis por se comunicar simplificadamente com públicos sobre variados conteúdos de origem científica. Na melhor das hipóteses, esta seria uma necessária tarefa educacional de baixo status. Na pior, seria uma poluição, uma distorção do conhecimento das pesquisas. É como se a divulgação científica comportasse um elevado grau de ruído que distorcesse e prejudicasse a compreensão da informação científica “pura”, tal como trabalhada nos ambientes típicos de produção e desenvolvimento acadêmico.
Bunders e Whitley (1985) chamam esse modelo de standard view, para o qual na divulgação científica, o conhecimento científico (válido, legítimo, organizado e sistemático)
seria comunicado para uma massa desorganizada, dispersa, vaga e indeterminada – em oposição à coesa e harmônica comunidade cientifica. Bunders e Whitley (1985) contam que um importante simpósio sobre divulgação científica ocorreu na Holanda, em 1983, com discussões cujos resultados apontaram que o tratamento das divulgações sobre as informações acadêmicas é motivo essencial para o distanciamento de pesquisadores em relação à referida atividade de comunicação pública da ciência.
Haveria, então, uma definição bem clara do que é ciência e o que não é (DEMO, 1995). Para os adeptos da visão da cultura dominante da popularização, a autoridade suprema dos assuntos científicos são os cientistas, atores sociais com competência o suficiente para determinar o que é e o grau de distorção das divulgações. Os públicos apreenderiam representações bastante rasas e distanciadas das pesquisas (HILGARTNER, 1990).
UMA NOVA GUINADA CIENTÍFICO-CULTURAL
Stephen Hilgartner, Joske Bunders e Richard Whitley expõem o pensamento acima mencionado para transparecer o tradicional modelo abordado, mas o criticam. Hilgartner (1990), por exemplo, baseia-se em estudos recentes da sociologia do conhecimento científico para afirmar ser inadequado e simplista traçar uma rígida fronteira entre a ciência e a não ciência, pois os processos devem ser entendidos em sua dinamicidade relacional e dialética. Wilden (2001) nos ajuda a compreender a noção de fronteira, não como barreira e dicotomia, mas sim como espaço propício para processos de comunicação e relacionamentos, trocas entre estruturas, sistemas e campos. O autor (2001) expõe, inclusive, que as ideologias da sociedade serão construídas e difundidas a partir da interação contínua entre discursos sociais e científicos, através dos quais há sintonias para a formulação de uma base epistemológica comum.
O próprio Bourdieu (2004) diz que devemos entender de forma equilibrada e mediadora a ciência, em um meio termo entre "ciência pura", desprovida de necessidades sociais, e a "ciência escrava", entregue a demandas políticas e econômicas. Com aspectos dialéticos em suas pesquisas, ele estudou as especificidades do campo científico, o campo por excelência dos seus estudos, mas com o cuidado de expor o entendimento deste espaço como um espaço articulado com as heterogeneidades sociais, não deixando de reconhecer a
existência e a importância de saberes oriundos de fora da academia. O autor reforça que as condições sociais de produção interferem na constituição da verdade científica (BOURDIEU, 1983). Bunders e Whitley (1985) destacam o caráter histórico e social da construção da ciência, lembrando que cidadãos de outros segmentos profissionais também são ativos na formulação de estratégias, interpretações e avaliações das pesquisas.
Latour (2000) e Castelfranchi (2008) frisam a necessidade de os cientistas se relacionarem extra-academicamente, em negociar recursos para a permanente conquista de apoio em favor das pesquisas das quais lideram/fazem parte.
Nos laboratórios, há os microkids focados nos experimentos, enquanto que fora há atores sociais que atuam, por exemplo, na busca por financiamento público e privado, na construção de relações públicas e de marketing para convencer, explicar à e dialogar com a sociedade sobre os mecanismos científicos (objetivos, métodos, conteúdos da pesquisa etc.), na leitura, interpretação e articulação de leis e códigos jurídicos, entre outras situações (LATOUR, 2000). A ciência precisa arregimentar segmentos sociais, criar e trabalhar relações para solidificar uma rede de influências.
Enquanto a ciência tradicional se desenvolveria em contexto disciplinar, as práticas científicas mais recentes teriam características transdisciplinares e com orientações aplicativas, segundo Juri Castelfranchi.
Santos (1988) afirma que cada vez mais o diálogo é imprescindível para as características do que ele chama de ciência pós-moderna, inserida em um contexto de transição de paradigmas. O autor vai além ao entender que a ciência não detém mais uma narrativa dominante a ponto de desfrutar de hegemônica e sólida autonomia na sociedade, pois cada vez mais ela (a ciência) se faz na dinamicidade das trocas informacionais, lutas e movimentações em geral dos campos sociais. Há pluralidade de linguagens e narrativas. Lyotard (1988, p.12) resume: “o saber científico não é todo o saber”.
As disputas podem remeter também a uma problematização epistemológica sobre o que seria a ciência, como se daria e quais as particularidades durante o seu desenvolvimento na contemporaneidade, dada as diversas narrativas que, em seu conjunto, impactam o discurso moderno científico. Os espaços midiáticos e jornalísticos são essenciais para identificarmos e compreendermos algumas das narrativas mais presentes, evidentes e influentes na sociedade.
MÍDIA E JORNALISMO: ESPAÇOS DE DIÁLOGOS E LUTAS POR PODER E LEGITIMAÇÃO INFORMACIONAL
Em uma sociedade cada vez mais relacional, com tendências para a supressão de dicotomias (como entre ciência/não ciência, natureza/humano) (SANTOS, 1988) e que prestigia a transparência, o espaço midiático apresenta-se como oportuno para as relações entre campos e atores com distintos perfis. Para Bourdieu (1997), a influência do campo jornalístico é exercida por produtores culturais localizados em espaços entre o próprio campo e os campos especializados (como o literário, o científico, etc.), promovendo uma espécie de ponte para trocas de influências e poderes entre os campos.
A disposição científica em buscar autoridade e legitimação em outros campos e dispositivos é uma alternativa científica para manter fôlego nas lutas, em evitar que as oscilações mundanas se apropriem das suas conquistas científicas e distorçam os conhecimentos oriundos da academia (BOURDIEU, 1997). Se, como diz Latour, a ciência se faz também fora dos laboratórios e da academia, e se temos um cenário de interlocuções em espaços culturais e midiáticos, os atores sociais neste ambiente podem assumir poder de legitimação dos saberes. O envolvimento mais próximo entre o pesquisador e o profissional da comunicação, especificamente o jornalista, no caso, faz-se necessário. Para o acadêmico, a importância está, entre outros itens, no fato de que, conforme destaca Bourdieu (1997, p.21), o jornalismo detém quase “o monopólio dos instrumentos de difusão”.
Prewitt (1982) ressalta o poder de interferência da opinião pública nas prioridades dos governos em relação aos investimentos na ciência e tecnologia. Por isso, trabalhar a imagem e o elo da academia com segmentos sociais é decisivo para o desenvolvimento e a política do campo. A mídia e o jornalismo, como espaços de construção da opinião pública e com tamanho poder de difusão informacional e formação do conhecimento, podem contribuir (positiva ou negativamente) de forma direta para essas propostas.
Mais do que um espelho da realidade, o jornalismo pode ser considerado atuante ativo na construção de percepções e representações sociais, com competência até para a reconstrução de realidades. Genro Filho (1987) afirma que podemos entender o jornalismo como conhecimento cuja produção (a notícia) lida com o tempo presente, mas, claro, com elementos do passado e repercussões também no futuro.
Os estudos da divulgação científica e da midiatização da ciência mostram os processos de inserção e circulação de conteúdos científicos, também, em espaços de debate público, fora unicamente do específico campo acadêmico – portanto, com critérios de legitimação distintos dos científicos. Charaudeau entende que a descoberta científica implica em controvérsia social, exigindo intervenção dos atores. Estabeleceria, assim, o problema de questionar sobre o que fazer a partir dos resultados da ciência, decisão que deveria ser assumida nas esferas sociais e políticas, para além do campo científico, “como vemos com as questões da bioética, da economia, das crises financeiras, da clonagem, do transgênico” (CHARAUDEAU, 2010).
Processos assim podem não só creditar produções culturais (com legitimação dos saberes científicos) e atores sociais (como os cientistas), mas também reconfigurar os saberes e produzir novos conhecimentos. Observa-se, neste sentido, o jornalismo como uma esfera pública de debates entre híbridas vozes, com alta penetração e mobilização social, central para as disputas por poder e validação de discursos e narrativas.
Ao analisar o campo jornalístico, com ênfase na televisão, Bourdieu (1997) parte do ponto de vista da perspectiva das pressões e interferências jornalísticas sobre o próprio jornalista e sobre outros campos de produção cultural, tais como o campo literário, o artístico, o jurídico e o científico. O viés econômico seria um pano de fundo das práticas jornalísticas, cujo nível de autonomia estaria relacionado às receitas de publicidade e do Estado (por meio de subsídios ou propaganda) e ao grau de concentração de quem anuncia. Porém, as movimentações neste cenário não são resumidas apenas à dimensão econômica. Devem ser consideradas, entre outros aspectos, as lutas por postos e posições objetivas na escalada do poder – o poder entendido por Bourdieu (1989) como um campo estruturado nas competições pelo monopólio do próprio poder.
Detentores de informações legitimadas, como agentes governamentais (os cientistas são um exemplo), podem se valer dos aparatos institucionais para que o tratamento e a divulgação de informações sejam favoráveis a eles e aos grupos dos quais fazem parte. O peso de representar segmentos do Estado e deter informações valiosas é decisivo até mesmo nos processos e critérios da pauta jornalística. Nas relações dos jogos sociais, neste ambiente especificamente, é comum jornalistas acionarem as suas habilidades e recursos
em busca de informações institucionais exclusivas – pode estar configurado um quadro de envolvimento muito próximo de trocas de interesses (BOURDIEU, 1997).
O espaço jornalístico-midiático pode ser entendido, assim, como espaço de intermediações, um campo de relações, interesses, conflitos, competições e colaborações; um campo, no caso, sociocientífico e político de intercampos em movimento e conectados, englobando vozes heterogêneas que se fazem presentes nas lógicas e estruturas particulares daquele ambiente instituído (e em constante instituição), exigindo dos atores sociais capacidade de diálogo, construção de narrativas e de adaptação, inclusive de linguagens e discursos. Embora tenha surgido importantes e influentes cientistas midiáticos, a inserção neste território, principalmente para os microkids, tende a ser complexa e difícil, devido às tradicionais referências e práticas da comunidade acadêmica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Há movimentos teóricos que caracterizam um cenário de transformações no clássico e moderno campo científico. Certamente, o campo tradicional da ciência e tecnologia existe e não tende a ser desfeito (nem é a pretensão expor tal ideia neste artigo). Porém, reconhece-se a existência de esforços e segmentos acadêmicos afinados com movimentos dialéticos que envolvem mediações, interações, experiências e trocas com sujeitos informacionais distintos, seja em formação acadêmica, em percurso de vida, em territorialidade, em perspectivas pessoais e profissionais, linguagens, códigos, capitais socioculturais etc. A ciência, neste sentido, alinha-se mais com outros campos sociais, abre-se para o diálogo e outros contextos, permitindo (precisa permitir) que o abre-seu modus
operandi seja mais conhecido, entendido e até interferido por atores sociais
extra-acadêmicos. A diversidade de elementos (atores, temas, perspectivas etc.) associados à divulgação científica poderia, inclusive, contribuir para o aperfeiçoamento e novos olhares das discussões científicas (o “ruído” poderia permitir o aperfeiçoamento das compreensões dos objetos e das temáticas em questão).
Há novos cenários de poder, de narrativas e de validação de discursos. O conhecimento científico é também discutido em outras esferas sociais, o que dá ao intercampo jornalístico-midiático - e aos personagens que nele sabem transitar com desenvoltura - papel estratégico nas relações sociais e na própria construção do
conhecimento e, consequentemente, no desenvolvimento sócio-humano. As fronteiras entre campos não são barreiras, portanto, mas sim contatos de comunicação pertinentes para o entendimento. Trata-se de outra lógica, que requer disposição, reflexão e lida com o conhecimento científico como conhecimento sociocientífico.
As repercussões podem ser as mais variadas e extensas possíveis, inclusive nos parâmetros de comportamento, formação, produtividade, avaliação e cooperação dos pesquisadores, que precisam acumular não só capital científico, mas também atentar para os capitais próprios da mídia, na qual, também, são debatidos, analisados e interpretados as informações e os conhecimentos científicos.
Porém, a cautela é necessária, pois uma das consequências e possíveis desdobramentos de pesquisas com este viés é exatamente o problema das equivocadas referências e representações de realidades, até com perspectivas distorcidas, descontextualizadas e espetaculares. Surge, aqui, possibilidade de outra ramificação de pesquisa para melhor compreensão das questões apresentadas.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.
BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática. In ORTIZ, Renato. (org.) Pierre
Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983b.
BOURDIEU, Pierre. "Introdução a uma sociologia reflexiva". In ________. O poder
simbólico. Trad. Fernando Tomaz. [Col. Memória e Sociedade]. Lisboa/Rio de Janeiro:
DIFEL/Bertrand, 1989. pp. 17-58.
BOURDIEU, P. Le champ scientifique. Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 2, n°2-3, juin 1976. pp. 88-104.
BOURDIEU, Pierre. O campo científico. In: ORTIZ, Renato (org.) Pierre Bourdieu:
Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
BOURDIEU, P. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Unesp, 2004.
BOURDIEU, P. Questões de Sociologia. Tradução de Miguel Serras Pereira. Ed. Fim de Século – Edições, sociedade Unipessoal, Ltda. Lisboa, 2003.
BOURDIEU, P. Sobre a Televisão. Tradução de Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
BUNDERS, J.; WHITLEY, R. Popularisation within the sciences: the purposes and consequences of inter-specialist communication. In: SHINN, T. Whitley, R. P (Orgs.). Expository science: forms and
functions of popularization. Ed. Springer, Nova York, 1985.
CASTELFRANCHI, Y. As serpentes e o bastão: tecnociência, neoliberalismo e inexorabilidade. Tese (Doutorado em Sociologia). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas: 2008.
CHARAUDEAU, Patrick. Entrevista com Patrick Charaudeau: o sujeio voltou. [31 de maio de 2010]. Boletim digital da UFMG. Entrevista concedida Vicente Cardoso Jr. – disponível em https://www.ufmg.br/boletim/bol1697/6.shtml - acesso em 01 jun 2014.
DELFANTI, Alessandro. Biohackers: the politics of Open Science. London: Pluto Press, 2013.
DEMO, Pedro. Metodologia Cientifica em Ciências Sociais. 3. ed. rev. e ampl. - São Paulo: Atlas, 1995.
GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.
HILGARTNER, S. The Dominant view of popularization: conceptual problems, political uses. Social
studies of science, v.20 (n.3), 1990, pp.519-539.
LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora Unesp, 2000.
LYOTARD, Jean-François. O Pós-Moderno. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1988. MEADOWS, A. J. Communication in science. London: Butterworth, 1974.
MUELLER, Suzana P.M.; CARIBÉ, Rita de Cássia do Vale. A comunicação científica para o público leigo: breve histórico. Informação e Informação, Londrina, v. 15, n. esp., p. 13-30, 2010. Disponível em:
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/6160/6780 - Acesso em: 28 jan. 2014.
ORTIZ, Renato. (org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.
PREWITT, Kenneth; The Public and Science Policy; Science, Technology and Human Values, Vol. 39, p, 1982.
REIF, F. The competitive world of the pure scientist. Science, 15 dez. 1961, 134 (3494), p. 1957-62. SANTOS, B. S. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Instituto de
Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, v.2, n.2, p. 56-71, 1988.
VELHO, Lea. A ciência e seu público. Transinformação, Campinas, v. 9, n. 3, p.15-32, set./dez. 1997. WILDEN, Anthony. “Informação”, Enciclopédia Einaudi, vol. 34, Lisboa: Imprensa Nacional, 2001.
The journalism and the legitimation of scientific information
ABSTRACT
The journalistic performance in social processes propitiates the legitimation of scientific information. The academy integrates the processes that affect social and human life, promoting dialogues with multiple social actors. It is a scientific movement towards society to strengthen support for the research and to foment the scientific education. Journalism, which constructs narratives and interprets realities, is strategic for the policies of certain fields and knowledge. In this context, the knowledge of the lay citizen acquires more legitimacy also in the process of building science, increasingly understood as socioscientific. Keywords: Science and technology. Journalism. Media. Scientific field. Citizenship.
Periodismo y la legitimidad de la información científica
RESUMEN
La actividad periodística en los procesos sociales proporciona la legitimidad de la información científica. La academia integra los procesos que afectan la vida social y humana, promoviendo diálogos con múltiplas partes interesadas. Es un movimiento científico hacia la sociedad para fortalecer el apoyo a la investigación y promovier la educación científica. Periodismo, que construye la narrativa e interpreta la realidad, es estratégico para las políticas de ciertos campos y conocimientos. En este contexto, el conocimiento del ciudadano laico adquiere mayor legitimidad también en la construcción de la ciência, entiendida cada vez más como sociociencia.
Palabras clave: Ciencia y la tecnologia. Periodismo. Medios de comunicación. Campo científico. Ciudadanía.
Recebido em: 24/04/2017 Aceito em: 30/07/2017