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Vida pregressa e elegibilidade no Brasil

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Academic year: 2021

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Coorientador: Prof. Doutor Pedro Miguel Moreira da Fonseca

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RESUMO

No Brasil, muitos agentes políticos que atuam em nome do Estado, antes de assumirem o

mandato eletivo, já estão denunciados em diversos processos pela prática de crimes graves.

Levam, assim, sua criminalidade para o governo. A Constituição, porém, exige exame da vida

pregressa de quem se propõe a exercer o poder político. Para aprimorar a elegibilidade no País

basta que o Poder Judiciário dê efetividade a essa diretriz constitucional, considerando

inelegível o cidadão que tem contra si denúncia recebida por órgão judicial colegiado. Ao

acusado deve ser assegurado o direito de postular, no respectivo tribunal, a preservação de sua

elegibilidade enquanto não prolatada a decisão penal condenatória. Essa simples providência

impede que o Parlamento se transforme em abrigo de delinquentes.

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3

ABSTRACT

In Brazil, many political agents acting on behalf of the State, before assuming the elective

mandate, are already reported in several cases for the commission of serious crimes. They thus

bring their criminality to the government. The Constitution, however, requires examination of

the previous life of those who propose to exercise political power. In order to improve eligibility

in the country, it is sufficient that the Judiciary give effect to this constitutional directive,

considering ineligible the citizen who has against him denunciation received by a collegiate

judicial organ. The accused must be guaranteed the right to apply, in the respective court, for

the preservation of his / her eligibility until the condemnatory criminal decision has been issued.

This simple provision prevents Parliament from becoming a shelter for criminals.

(4)

4

SUMÁRIO

Capítulo I – Boa reputação para o exercício do poder ... 8

1. Vida pregressa e elegibilidade no Direito brasileiro ... 8

2. Decência exigida para alguém exercer o poder político. ... 11

3. Consequência do desprezo à exigência da vida pregressa... 17

4. Desnecessidade de definição de vida pregressa ... 20

5. A ausência da sanção penal sobre os detentores do poder político ... 24

Capítulo II – Infratores sempre elegíveis ... 28

6. Foro especial e a ausência de julgamento ... 28

7. A oscilação da jurisprudência no julgamento de políticos. ... 29

8. Extinção dos processos pela prescrição... 33

9. Inelegibilidade só após o trânsito em julgado da condenação ... 37

10. In dúbio pro reo e elegibilidade ... 45

Capítulo III – Presunção de inocência e o balanceamento dos valores ...50

11. A presunção de inocência transformada em regra jurídica ... 50

12. A Lei da Ficha Limpa... 53

12.1 Delinquentes elegíveis... 56

13. Filiados infratores como candidatos. ... 61

14. Denúncia recebida como marco da inelegibilidade ... 62

15. Réus poderosos ... 65

Capítulo IV - Conflito entre interesse público e privado ... 67

16. Eleição e a legitimação do neopatrimonialismo ... 67

17. Crimes geradores de inelegibilidade ... 71

18. Estado infrator ... 74

19.

A conquista do mandato como garantia da impunidade...

77

20. Eleição e a legitimação do neopatrimonialismo ... 78

(5)

5

Introdução

O tema “vida pregressa e elegibilidade no Brasil” será objeto de estudo pela

sua importância na democracia representativa e pela sua relevância para impedir que

delinquentes sejam alçados à condição de representantes do povo. A Ciência Política pode,

assim, contribuir para a construção da cidadania, fonte de prosperidade e harmonia entre os

homens. A alternância no poder, por meio de eleição, constitui a seiva do regime democrático,

por assegurar a mudança de pessoas na condução do Estado. Não basta, porém, somente trocar

os governantes, pois é essencial, também, neutralizar o acesso ao mandato de pessoas

denunciadas na Justiça pela prática de crimes, para a preservação da paz, conquista da

prosperidade e sepultamento do Estado patrimonialista.

Uma filtragem mais consistente, por isso, é necessária. É preciso preservar os

cofres públicos, impedindo que cidadãos, comprovadamente já envolvidos com a prática de

delitos, a eles tenham acesso. O Texto constitucional exige respeito à probidade nos arts. 5º,

LXXIII, 14, § 9º, 37, § 4º, e 85, inciso V. Portanto, há normas em abundância, buscando

proteger os bens públicos contra a audácia de predadores, que chegam ao poder por meio de

eleição, de concurso público ou livre nomeação, mas inviabilizam o crescimento econômico e

agravam a pobreza do povo em decorrência da corrupção. Para o Juiz Sérgio Moro, responsável

pelo julgamento do maior escândalo de desvio de verba pública no Brasil, a situação é

desoladora:

[...] um quadro de corrupção sistêmica, que é mais preocupante, porque envolve pagamento de propina como algo rotineiro e natural. Estamos falando em números superlativos, pagos aos milhões de reais. E o lado mais perturbador é que eram direcionados não só a agentes da Petrobrás, mas a agentes políticos e partidos.1

A propósito, sobre o caráter destrutivo da corrupção para a humanidade,

anotou Francis Fukuyama:

Em 1996, James Wolfensohn, recém nomeado Presidente do Banco Mundial, proferiu um discurso no qual apontou para o “cancro da corrupção” como um impedimento de monta para o crescimento econômico dos países pobres. [...] A percepção de que os funcionários e os

1 Afirmação do Juiz Sérgio Moro, referindo-se à Operação Lava-Jato

(6)

6

políticos são corruptos corrói a legitimidade do governo aos olhos do cidadão comum e mina o sentimento de confiança que é crucial para facilitar o funcionamento do Estado.2

A atuação criminosa de agentes políticos é consequência da recorrente

ausência de sanção para delitos contra a Administração Pública

3

e, sobretudo, da falta de

educação para a cidadania. A educação para a cidadania qualifica o representante do povo para

viver em comunidade, o leva a agir sempre em busca do melhor para todos, sem priorização do

seu interesse pessoal, e a “publicizar” seus atos no exercício do poder com total transparência

para permitir integral controle pelos demais indivíduos (Bobbio, 2015:25).

A metodologia adotada buscou identificar, no sistema jurídico aplicado no

Brasil, as principais causas do crescente número de agentes políticos envolvidos com a prática

de delitos, propondo, no final, sugestões para enfrentamento dessa anomalia. Para tanto, foram

analisadas diversas constituições que tiveram vigência no País, para confrontá-las, inclusive,

com a Constituição americana na qual se inspirou o constitucionalismo brasileiro. Dessa

comparação, resulta a percepção de que a impunidade da classe política brasileira tem como

sua primeira causa a não exclusão do crime comum da imunidade parlamentar, providência essa

adotada pelos constituintes da América ao restringirem-na aos discursos e opiniões proferidos

em cada Câmara. Foram, também, utilizados dados coletados em publicações especializadas

sobre o número de parlamentares envolvidos com a prática de crimes que não são julgados,

permanecendo, por isso, sempre elegíveis. Mereceram especial destaque as informações da

Revista Congresso em Foco, que mantém uma cobertura apartidária do Congresso Nacional e

dos fatos políticos relevantes do Brasil. Buscou-se extrair do Texto constitucional vigente o

respaldo para o aprimoramento dos requisitos da elegibilidade de sorte a contribuir,

concretamente, para impedir que o parlamento se transforme em abrigo de delinquentes que, a

despeito de cometerem crimes graves, se mantêm sempre elegíveis.

A corrupção tem se agravado no País por consentir-se a participação, no

processo eleitoral, de cidadãos já envolvidos em inúmeros crimes contra a Administração. Os

sucessivos escândalos, praticados por agentes políticos, confirmam a necessidade de uma

2 Kukuyama, Francis. Ordem Política e Decadência Política. 2015. Lisboa: Dom Quixote, p. 116-117.

3 A falta de punição leva à crença de que o crime compensa, lembra o Ministro Luis Roberto Barroso:”Ninguém

no Supremo nem no Ministério Público deseja um estado policial. Desejamos um estado democrático, com o devido processo legal, amplo direito de defesa. O que não desejamos é um processo de faz de conta que não termina nunca e é feito para não terminar, para que o crime compense”. (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/11/21/barroso-nos-nos-descobrimos-uma-republica-de-bananas.htm, consultado em 22/11/2016).

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7

interpretação do art. 14, § 9º da Constituição que leve em consideração a realidade, marcada

por um espantoso desvio de dinheiro da população, para assegurar efetividade à exigência de

vida pregressa compatível com a relevância da representação popular. A vida pregressa, sem

mácula de crime, deve ser incluída entre os requisitos para a elegibilidade, conforme

posicionamento dos ex-ministros da Suprema Corte Joaquim Barbosa

4

e Ayres Brito.

5

Delinquentes filiados a quaisquer partidos não deveriam exercer mandato político pela ameaça

que representam aos bens da coletividade, como reconhecido no Texto constitucional.

A dissertação intitulada “Vida pregressa e elegibilidade no Brasil” analisa a

questão referente à presença de infratores na representação popular, propondo saídas para

minimização do problema. Com suporte em princípios contidos na própria Constituição, é

possível demonstrar que a exigência da vida pregressa compatível com a magnitude da

representação popular pode ser erigida como condição de elegibilidade, ou seja, como requisito

intransponível para o credenciamento da pessoa para participar do certame eleitoral.

4 Voto-vista do Ministro Joaquim Barbosa, na AÇÃO DECLARATÓRIA DE CONSTITUCIONALIDADE 29

DF: “Após discorrer sobre a história da corrupção e desvios de conduta pelos administradores públicos, o professor Caio Tácito acrescenta: “Mais construtiva, porém, do que a sanção de desvios de conduta funcional será a adoção de meios preventivos que resguardem a coisa pública de manipulações dolosas ou culposas. Mais valerá a contenção que a repressão de procedimentos ofensivos à moralidade administrativa. Os impedimentos legais à conduta dos funcionários públicos e as incompatibilidades de parlamentares servem de antídoto às facilidades marginais que permitem a captação de vantagens ilícitas”. Daí a relevante tarefa do legislador complementar de, calcado no art. 14, § 9º da Constituição, estabelecer outros casos de inelegibilidade destinados especificamente a proteger esses valores constitucionais da moralidade, da probidade e da normalidade e legitimidade das eleições, criando, assim, outras modalidades de inelegibilidade além daquelas já previstas diretamente na Constituição. Afinal, a inelegibilidade, como afirmou Pinto Ferreira, em artigo publicado na Revista Forense, no ano de 1959 [2] [2] , “é um impedimento de ordem pública que visa, sobretudo, a moralização do voto e o interesse social, amparando consequentemente dita ordem pública. Daí a importância que as Constituições ou as legislações eleitorais lhe atribuem por toda a parte e em diversas épocas”. (http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/ noticianoticiastf/anexo/adc29.pdf, consultado em 18/10/2016).

5 Ponderação do Ministro Ayres Brito, no julgamento da Ação Declaratória de Constitucionalidade 29-DF: “[...]

os direitos fundamentais são de três naturezas na Constituição, pelo menos explicitamente: os direitos individuais, art. 5º, notadamente; os sociais, art. 6º e 7º, também por modo especial; e a partir do art. 15 os direitos políticos são também fundamentais, porque fazem parte do título de número II da Constituição, todas as três categorias, cujo nome é Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Os direitos políticos, o direito que tem o eleitor de escolher candidatos de vida biográfica isenta de um passivo penal avultado é um direito fundamental.” (http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=2243342, consultado em 18/10/2016).

(8)

8

Capítulo I – Boa reputação para o exercício do poder

1. Vida pregressa e elegibilidade no Direito Brasileiro. 2. Decência

exigida para alguém exercer o poder político. 3. Consequência do

desprezo à exigência da vida pregressa. 4. Definição de vida pregressa.

5. Ausência de sanção penal sobre os detentores do poder político.

1. Vida pregressa e elegibilidade no Direito brasileiro

O Direito brasileiro, no art. 14, § 9º da Constituição, exige exame da

vida pregressa do cidadão que pretenda disputar mandato eletivo. Parece, assim, com base na

legislação vigente, ser muito fácil a qualquer pessoa responder a esta indagação: Quem é mais

nocivo ao povo, uma vez investido no poder:

A) o cidadão que atrasou a entrega da prestação de contas de sua

campanha; ou,

B) a pessoa presa por homicídio, tráfico de drogas e violência familiar?

É surpreendente, mas equivocou-se quem optou pelo item B. As

eleições municipais, realizadas no dia 02/10/2016, confirmaram que, à luz do Direito aplicado

no Brasil, o delinquente descrito na letra B está credenciado como candidato a postular mandato

eletivo e, o que ainda é mais inusitado, ser eleito.

6

Por sua vez, o cidadão descrito na letra A,

que entregou fora do prazo a prestação de contas referente às eleições de 2012, teve o registro

6 Suspeito de pistolagem e tráfico vota algemado e é eleito em Catolé do Rocha. As eleições de 2016, na Paraíba,

foram cheias de peculiaridades. Uma delas, com certeza, foi a eleição de Bira Rocha (PPS) para o cargo de vereador em Catolé do Rocha, no Sertão, com 948 votos. Curiosamente, ele se encontra preso preventivamente e, para ser diplomado, vai precisar novamente ser escoltado pela polícia, a exemplo do que ocorreu neste domingo (2), quando foi votar. Bira Rocha está preso desde maio e a lista de acusações contra ele vai de pistolagem, tráfico de drogas a violência doméstica. Na hora de seguir para a seção eleitoral, ele foi aplaudido e fez o “V” da vitória para os eleitores. Tudo isso algemado. Confira: Quando Bira Rocha entrou na campanha, ele estava no Presídio PB 1, em João Pessoa, mas conseguiu transferência para a Cadeia Pública de Catolé do Rocha, seu domicílio eleitoral. Como não tem condenação contra si transitada em julgado, ele pôde ser votado, poderá ser diplomado e, se estiver livre, assumir o cargo. São as peculiaridades da nossa legislação. Durante a campanha, o então postulante usou como jingle uma adaptação da música “Metralhadora”, da baiana Banda Vingadora. E não apenas isso, a “canção” é encerrada com uma rajada de balas. (http://blogs.jornaldaparaiba.com.br/suetoni/2016/10/03/suspeito-de-pistolagem-e-trafico-vota-algemado-e-e-eleito-em-catole-do-rocha/consultado em 06/10/2016).

(9)

9

de sua candidatura indeferido pela Justiça Eleitoral, sendo excluído do certame.

7

Uma

explicação para essa situação inusitada encontra-se na Súmula nº 13, do Tribunal Superior

Eleitoral: “Não é auto-aplicável o § 9º do art. 14 da Constituição, com a redação da Emenda

Constitucional de Revisão n° 4/94”. O art. 14, § 9º do Texto constitucional

8

manda examinar a

vida pregressa de quem pretende ser candidato para garantir a probidade administrativa e a

moralidade durante o exercício do mandato. Por seu turno, a inelegibilidade do candidato A,

pelo atraso na entrega da prestação de contas, não decorre da Constituição nem de lei, aliás,

proíbe esta a restrição de direito e a criação de sanção pela Justiça Eleitoral, mas teve por

fundamento a Resolução do Tribunal Superior Eleitoral nº 23.376/2012, cujo art. 51, § 2º foi

invocado

9

na decisão que lhe impediu de participar da disputa eleitoral.

É nesse contexto que se mostra relevante o estudo do tema “vida

pregressa e elegibilidade no Brasil”. Afinal, como demonstrado, a Corte Superior Eleitoral se

recusa examinar a vida pregressa dos candidatos, mesmo diante da recomendação da

Constituição, possibilitando, assim, como consequência direta dessa recusa, a investidura de

infratores da lei na representação popular. A mesma Corte, paradoxalmente, atua com excessivo

rigor para com aqueles que apenas descumprem obrigação formal, não representando, por

7 RECURSO ELEITORAL. ELEIÇÕES 2016. REGISTRO DE CANDIDATURA. AUSÊNCIA DE QUITAÇÃO

ELEITORAL. CONTAS DE CAMPANHA NÃO PRESTADAS. REGULARIZAÇÃO DO CADASTRO AO FINAL DA LEGISLATURA. ART. 51, § 2°, RÉS. TSE N° 23.376/2012. RECURSO NÃO PROVIDO. REGISTRO INDEFERIDO.

1. Nos termos do art. 11, § 7°, da Lei n° 9.504/97, a certidão de quitação eleitoral abrange, dentre outros requisitos, a apresentação de contas de campanha eleitoral, que deve ser realizada dentro do prazo fixado em lei.

2. Julgadas não prestadas as contas de campanha, alusivas às eleições de 2012, que foram posteriormente apresentadas pelo recorrente, conclui-se que este não poderá obter a quitação eleitoral até o término da legislatura pela qual concorreu, posto que somente nesse momento, em 31/12/2016, é que será regularizado o cadastro eleitoral.

Inteligência do art. 51, § 2° c/c art. 53, I, da Resolução TSE n° 23.376/12.

3. Recurso não provido para manter o indeferimento do registro. (Proc. nº 000083-38.2016.6.06.012 - TRE-CE, publicado no Mural/eletrônico, 06/09/2016, às 17:30hs.

8 Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a

probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.

9 Res. 23.376/2012, art. 51, § 2º: Julgadas não prestadas, mas posteriormente apresentadas, as contas não serão

objeto de novo julgamento, sendo considerada a sua apresentação apenas para fins de divulgação e de regularização no Cadastro Eleitoral ao término da legislatura, nos termos do inciso I do art. 53 desta resolução; Art. 53. A decisão que julgar as contas eleitorais como não prestadas acarretará: I – ao candidato, o impedimento de obter a certidão de quitação eleitoral até o final da legislatura, persistindo os efeitos da restrição após esse período até a efetiva apresentação das contas. § 2º Julgadas não prestadas, mas posteriormente apresentadas, as contas não serão objeto de novo julgamento, sendo considerada a sua apresentação apenas para fins de divulgação e de regularização no Cadastro Eleitoral ao término da legislatura, nos termos do inciso I do art. 53 desta resolução.

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10

inexistência de ato delituoso no seu histórico de vida, ameaça à moralidade no caso de

investidura no mandato eletivo. Levantamento publicado, no jornal Folha de São Paulo,

confirma esse fato:

Burocracia barra mais candidatos que a Lei da Ficha Limpa. Das candidaturas indeferidas na eleição, apenas 12,3% foram por ficha suja, contra 71% por erros no registro. [...] A grande maioria dos candidatos é barrada, na verdade, por razões simples e burocráticas, como falta de documentos e não ter prestado contas de campanhas anteriores. A ausência de requisitos para o registro de candidatura aparece em 71,6% dos casos.10

A não efetividade do princípio da exigência de vida pregressa

compatível com a representação popular somente se explica pela falta de percepção da

sociedade em geral do potencial destrutivo do poder político, que detém com exclusividade a

força, quando entregue ao comando de um delinquente. A propósito, observa Norberto Bobbio:

“o meio do qual se serve o poder político, embora, em última instância, diferente do poder

econômico e do poder ideológico, é a força [...] Uma vez que o poder político se caracteriza

pelo uso da força, ele é o sumo poder ou o poder soberano, cuja posse distingue, em toda

sociedade organizada, a classe dominante”.

11

Georges Burdeau, analisando a submissão das pessoas ao Estado,

ofereceu a melhor explicação para essa indiferença dos aplicadores da lei eleitoral em relação

à necessidade do exame da vida pregressa dos candidatos que postulam mandato eletivo:

[...] os homens inventaram o Estado para não obedecer aos homens. Fizeram dele a sede e o suporte do poder cuja necessidade e cujo peso sentem todos os dias, mas que, desde que seja imputada ao Estado, permite-lhes curvar-se a uma autoridade que sabem inevitável sem, porém, sentirem-se sujeitos a vontades humanas. O Estado é uma forma de poder que enobrece a obediência.12

Ao deferir-se o registro da candidatura de um cidadão com 20 denúncias

por crimes graves contra a Administração Pública, que é eleito prefeito, governador ou

presidente, ninguém se imagina prestando reverência a um criminoso ou ser obrigado a cumprir

10 Folha de São Paulo, Edição de 30/10/2016, Poder A5.

11 Bobbio, Norberto. Teoria da Política, Filosofia Política e Lições dos Clássicos. 15ª edição. 2000. Rio de Janeiro:

Elsevier, p.221.

(11)

11

as normas contidas nos decretos por ele editados. Os cidadãos não se dão conta de que se está

institucionalizando a criminalidade, colocando as instituições a seu serviço. Ninguém percebe

que, nesse caso, a obediência ao Estado é, na verdade, a obediência ao delinquente que não

escondeu as suas garras, antes de ser admitido para participar da disputa pelo poder. Uma vez

eleito, vai utilizá-lo, obviamente, para intimidar juízes e lutar pela preservação de sua

impunidade.

2.

Decência exigida para alguém exercer o poder político.

A Constituição do Brasil consagra, no art. 37, os princípios da

moralidade, impessoalidade, legalidade, publicidade e eficiência, objetivando garantir a boa

condução dos negócios públicos para a realização do bem comum que, para Aristóteles

(1986/11), se traduz na finalidade mais relevante do Estado. Consagra, outrossim, a democracia

direta ou participativa exercitada por meio de referendo, plebiscito ou por proposta de lei de

iniciativa popular (art. 1º, § único; at. 14, III, art. 61, § 2º)

13

e a democracia indireta,

operando-se a delegação do poder pelo povo aos operando-seus repreoperando-sentantes por via de eleição.

A eleição, ensina José Afonso da Silva (2013/143), “consubstancia o

princípio representativo, segundo o qual o eleito pratica atos em nome do povo”.

14

É o

instrumento utilizado para a exteriorização do consentimento dos eleitores que é necessário para

a legitimação da sua autoridade. Precisamente, é o mecanismo de credenciamento do cidadão

para atuar em nome da comunidade política,

15

que compreende todos os eleitores e os não

13 Art. 71, § 2º: “A iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de

lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles.”

14 Silva, José Afonso da, Curso de Direito Constitucional Positivo. 36ª edição. 2013. São Paulo: Malheiros, p. 143. 15 Comunidade Política, lembra José Adelino Maltez, com base na lição de Amitai Etzioni: “é uma comunidade

na qual se verificam três formas de integração no sentido da auto-suficiência: tem suficiente poder coercivo para contrabalançar o de qualquer unidade individual que a integra ou uma coligação entre elas; tem um centro de decisão que é capaz de afectar significativamente a distribuição dos activos (allocation of assets) pelos membros da comunidade é o foco dominante da lealdade política para a larga maioria dos cidadãos politicamente activos. No primeiro sentido, controla os meios de violência, impedindo as intervenções arbitrárias, o secessionismo.No segundo sentido, financia as actividades da comunidade, desde as organizações coercivas à máquina administrativa. No terceiro sentido, apenas exige lealdade política, não sendo necessária a lealdade religiosa. A comunidade tem assim um alto poder coercivo, normativo e utilitário, os quais diminuem de intensidade sucesivamente, nas commonwealths, nas unions e nos impérios. As commonwealths têm forte poder normativo (símbolos, valores e sentimentos), mas pouco poder coercivo (meios de violência) e utilitário (activos económicos e capacidades técnicas e administrativas). As uniões (grupo de indivíduos mais integrados do que numa tribo, mas

(12)

12

eleitores. Na delegação dos governados aos governantes, viabilizou-se a própria formação do

Estado (Hobbes, 2000/126).

16

A investidura na representação política, por outro lado, significa a mais

alta honraria que um cidadão pode receber dos habitantes do seu Estado, permitindo-lhe que

interfira, com sua atuação, na vida de toda a população, que fica compelida ao cumprimento de

suas deliberações.

Meirinho explicita os efeitos dessa delegação:

Corresponde (a representação) à transferência da acção de certos membros de um grupo para membros de outro grupo e que, nessa decorrência, a acção de um determinado participante é imputada a todos os restantes (Weber, 1993, 235). Por outras palavras, as consequências para o bem e para o mal, resultantes da acção dos representantes recaem sobre o todo, na medida em que esta deve ser considerada como legítima e obrigatória para os representados. 17

A delegação, como regra nos países democráticos, assegura aos

governantes plena liberdade de atuação, sem necessidade de consulta prévia aos governados,

daí a necessidade do preenchimento de requisitos mínimos pelos candidatos aos cargos eletivos

para prevenir ações nocivas à população e a fim de garantir a preservação dos bens públicos

que ficam sob sua guarda. É que as consequências das ações dos representantes podem se

direcionar “para o bem e para o mal”. Para assegurar o exercício do poder, atuando sempre o

agente no fiel cumprimento da lei e dos princípios da impessoalidade, moralidade e eficiência,

impedindo ações gravemente prejudiciais à coletividade, a Constituição busca impedir o acesso

ao mandato político de pessoa que, pelo seu passado tortuoso, represente potencial ameaça à

probidade imprescindível à boa condução dos negócios públicos. A ameaça à sociedade,

menos que numa comunidade). Na tribo, a unidade no plano interno é mais forte do que a relação com outros grupos ou com a supra-unidade em que se a mesma se integra. (http://maltez.info/respublica/topicos/aaletrac/ comunidade_politica.htm, consultado em 10/10/2016).

16 Hobbes, Thomas: “[...] através de um pacto de cada homem com todos os homens, de modo que seria como se

cada homem dissesse a cada homem: Autorizo e desisto do Direito de Governar a mim mesmo a este Homem, ou a esta Assembleia de homens, com a condição de que desistas também de teu Direito, Autorizando, da mesma forma, todas as suas ações. Dessa forma, a Multidão assim unida numa só pessoa passa a chamar-se Estado, em latim CIVITAS. (Leviatã. 2000. São Paulo: Icone Editora, p. 126).

17 Martins, Manuel Meirinho. Representação Política – Eleições e Sistemas Eleitorais. 2015. Lisboa: ISCSP, p.

44.

(13)

13

decorrente da investidura no poder de pessoas acusadas da prática de delitos, foi percebida por

Spinoza (1994:69) já no século XVII,

18

que mandava excluí-las da lista dos elegíveis.

Na verdade, a análise do passado pontilhado de delitos de quem

pretende governar um Estado permite antever o fracasso inexorável no seu futuro. Tocqueville,

como destaca Hanna Arendt, via no desprezo do passado a causa da escuridão do presente.

19

O

bom comportamento também foi lembrado por James Madison como requisito essencial para a

manutenção no poder do representante do povo.

20

É preciso reconhecer que um cidadão denunciado na Justiça pela prática

de crimes diversos, uma vez investido no poder, vai ameaçar a probidade administrativa.

Obviamente, não vai compor o seu governo com pessoas que, efetivamente, combatam a

criminalidade ou lhe censurem a prática de delitos. Não é, portanto, sem fundadas razões que a

Constituição exige avaliação da vida pregressa de quem se propõe exercer mandato eletivo.

Roberto da Mata, dissertando sobre a realidade brasileira, confirma o acerto do texto

constitucional na ênfase a essa exigência; suas observações permitem, igualmente, constatar o

descaso para com os fatos do cotidiano por parte daqueles que desrespeitam essa diretriz. Foi

esta inserida na Constituição com o objetivo expressamente declarado de preservar a

moralidade no exercício do mandato. A descrição da “malandragem” e da predisposição para

burlar a lei, feita por esse autorizado antropólogo, deixa claro o equívoco na supressão desse

requisito de elegibilidade:

[...] não há no Brasil quem não conheça a malandragem, que não é só um tipo de ação concreta situada entre a lei e a plena desonestidade, mas também, e sobretudo, é uma possibilidade de proceder socialmente, um modo tipicamente brasileiro de cumprir ordens absurdas, uma forma ou estilo de conciliar ordens impossíveis de serem cumpridas com situações específicas, e – também – um modo ambíguo de burlar as leis e as normas sociais mais gerais.

18 “[...] quem quiser ocupar um lugar de legislação deverá conhecer, além do regime e das condições das Civitas

de que é súdito, o regime e as condições das outras Civitastes com as quais a sua tem qualquer comércio. Mas só aqueles que tiverem atingido os cinquenta anos de idade, sem terem cometido qualquer delito, poderão ser colocados na lista dos elegíveis”. Spinoza, Baruch. Tratado Político. 1994. São Paulo: Ícone Editora, p.68/69).

19 “[...] desde que o passado deixou de lançar sua luz sobre o futuro, a mente do homem vagueia na escuridão”.

(TOCQUEVILLE. apud, Arendt, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. 2014. São Paulo: Perspectiva, p. 112).

20 “Se quisermos usar com critério os diferentes princípios em que diferentes formas de governo se fundam,

definiremos que é uma república – ou pelo menos que pode ser considerado digno desse nome – um governo que extrai todos os seus poderes direta ou indiretamente da grande maioria do povo e é administrado por pessoas que conservam seus cargos enquanto são aprovadas e por um período limitado, ou enquanto exibem bom comportamento”. (Madison, James; Hamilton, Alexander e Jay, John. Os Artigos Federalistas. 1993. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 278-279).

(14)

14

A possibilidade de agir como malandro se dá em todos os lugares. [...] e podemos também ser malandros e jeitosos, políticos hábeis e sagazes, quando não enfrentamos a lei com a sua modificação ou rejeição formal, mas apenas a dobramos ou simplesmente passamos por cima dela.21

Poucos se dão conta, mas o aumento da criminalidade no País,

sobretudo entre os jovens,

22

é decorrência, também, dos péssimos exemplos dados por pessoas

investidas no poder político que, a despeito de cometerem crimes, o exercem sem nenhum

constrangimento.

23

Para confirmar a ligação entre os ilícitos dos governantes e o aumento da

criminalidade dos jovens, basta a constatação de que as áreas que mais lhes afetam – saúde e

educação – são justamente as que têm a maior quantidade de recursos desviados,

criminosamente, pelos agentes públicos sem compromisso com o bem comum.

24

Quem assalta

as verbas destinadas ao ensino das crianças não tem nenhum propósito de aprimorá-lo, pelo

21 Continua o sociólogo Roberto da Mata: “A malandragem, assim, não é simplesmente uma singularidade

inconsequente de todos nós, brasileiros. Ou uma revelação de cinismo e gosto pelo grosseiro e pelo desonesto. É muito mais que isso. De fato, trata-se mesmo de um modo – jeito ou estilo – profundamente original e brasileiro de viver, e às vezes sobreviver, num sistema em que a casa nem sempre fala com a rua e as leis formais da vida pública nada têm a ver com as boas regras da moralidade costumeira que governam a nossa honra, o respeito e, sobretudo, a lealdade que devemos aos amigos, aos parentes e aos compadres. [...] Antes de ser um acidente ou mero aspecto da vida social brasileira, coisa sem consequência, a malandragem é um modo possível de ser. Algo muito sério, contendo suas regras, espaços e paradoxos”. (O que faz o brasil, Brasil? 1986. Rio de Janeiro: Rocco, p.105/107).

22 Thais Leitão, Repórter da Agência Brasil, confirma o aumento da criminalidade: “Os atos infracionais praticados

por adolescentes aumentaram aproximadamente 80% em 12 anos, ao subir de 8 mil, em 2000, para 14,4 mil, em 2012 diferentemente do que ocorre em relação aos crimes praticados por maiores de 18 anos, que vêm diminuindo na última década na cidade de São Paulo. Para o promotor de Justiça Thales de Oliveira, que atua na Vara da Infância e Juventude de São Paulo, essa situação evidencia a necessidade do endurecimento das punições a adolescentes. (http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-04-22/aumento-do-numero-de-jovens-envo lvidos-em-crimes-justifica-reducao-da-maioridade-penal-defende-promot, consultado em 10/10/2016).

23 Em palestra no Centro de Apoio Integral à Criança (Caic), no bairro Castelo Encantado, na periferia de Fortaleza,

após preleção incentivando os alunos ao estudo e ao cumprimento da lei como fator de prosperidade e ascensão social, fui surpreendido com a manifestação de um adolescente, argumentando que, para ser bem-sucedido, era melhor não cumprir a lei. Para comprovar seu argumento citou o nome de senadores acusados da prática de diversos crimes, em seus Estados que, a despeito dos crimes que cometeram, não sofreram sanção alguma, mantendo as regalias de autoridade.

24 O GLOBO – “[...] Setores que têm os maiores orçamentos da União e estão diretamente ligados aos cidadãos,

Saúde e Educação são também os que mais sofrem com a corrupção no Brasil. Segundo o Departamento de Patrimônio e Probidade da Advocacia Geral da União (AGU), de 60% a 70% dos recursos públicos desviados no país são dessas duas áreas. É, por exemplo, dinheiro destinado a reformas de escolas e hospitais, compra de merenda escolar e de medicamentos, construção de quadras esportivas e procedimentos do SUS, mas que acaba indo para o ralo por causa da corrupção. Auditorias da Controladoria Geral da União (CGU) constataram, apenas entre 2007 e 2010, desvios de R$ 662,2 milhões nesses dois setores. E quase metade dos acusados de improbidade em todas as áreas da administração pública, segundo a AGU, é de prefeitos ou ex-prefeitos. Um dos problemas é a falta de fiscalização, mas também a pulverização dos recursos. ” (http://congressoemfoco.uol. com.br/noticias/nos-jornais-70-das-verbas-desviadas-sao-em-saude-e-educacao, consultado em 01/08/2016).

(15)

15

contrário, contribui de forma decisiva para o agravamento da situação de insegurança nas

cidades. Cesare Beccaria, aliás, há muito concluiu que se combate o crime pela educação:

Finalmente, a maneira mais segura, porém, ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos propensos à prática do mal, é aperfeiçoar a educação.

O assunto é muito vasto para caber nos limites que me prescrevi. Ouso, contudo, dizer que está tão intimamente ligado com a natureza do governo, que será apenas um campo árido e cultivado só por um pequeno número de sábios, até chegarem os séculos ainda distantes em que as leis não terão outra finalidade senão a felicidade do povo.25

Objetivando proteger o poder político, impedindo o acesso a ele de

pessoas que fizeram opção pela prática de delitos, a Constituição, como assinalado, inseriu no

seu texto o princípio da exigência de vida pregressa compatível com a magnitude da

representação popular, dispondo no § 9º do seu art. 14:

Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada a vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.

A expressão “a fim de proteger a probidade administrativa” não pode

ser desconsiderada pelos aplicadores da Constituição, como ensina Hans Kelsen: “A fórmula

“Quem quer o fim tem de querer o meio” é a resposta à pergunta: “Que tenho eu de fazer para

realizar um determinado fim?”

26

Para proteger a probidade administrativa não se pode, obviamente,

preencher os cargos eletivos da República com infratores denunciados pela prática de crimes.

Isso seria contrário ao fim buscado pela Carta Magna, que indica os meios para consegui-lo:

considerar inelegíveis os ameaçadores dos cofres públicos.

25 Concluiu Beccaria: “Um grande homem, que esclarece os seus semelhantes e que é por estes perseguido,

desenvolveu as máximas precípuas de uma educação verdadeiramente útil. Fez ver que ela consistia muito menos na confusa multidão dos assuntos que se apresentam às crianças, do que na escolha e na precisão com as quais lhes são expostos. [...] Ensinou a encaminhar as crianças para a virtude, pela estrada arejada dos sentimentos, a afastá-las do mal pela força invencível da necessidade e dos inconvenientes que acompanham a má ação”. (Beccaria, Cesare. Dos Delitos e das Penas. 2001. São Paulo: Martin Claret, p.107).

(16)

16

A lição de Kelsen é, também aqui, valiosa:

A relação entre meio e fim é a relação entre causa e seu efeito, uma relação causal. Algo é meio para um fim se constitui a possível causa a qual tem para o efeito o que se tem em vista, quer dizer, é desejado como fim”. [...] Para Kant, o imperativo da habilidade consiste na regra: “quem quer o fim tem de querer o meio.27

Portanto, a inelegibilidade dos denunciados é o meio para se obter a

proteção da probidade na Administração exigida pela Constituição.

A necessidade de avaliação da vida pregressa decorre da relevância da

missão atribuída àquele que é alçado à condição de representante do povo. Sua autoridade para

impor normas de conduta e obrigações aos demais cidadãos exige, em contrapartida, idoneidade

inquestionável, inclusive, para preservação da legitimidade conquistada nas urnas que

pressupõe lisura permanente na condução dos negócios públicos. Até porque a forma de

gerenciamento da Administração, as decisões a serem tomadas deixam de ser objeto de qualquer

ingerência dos eleitores, que vão suportar os seus efeitos e pagar os respectivos custos. Até

aqui, os arranjos democráticos têm priorizado as eleições e não a tomada de decisões, como

constata Meirinho, com base na doutrina de Satori:

Em síntese, a eleição política assume a natureza eminentemente aristocrática. Primeiro porque não decide sobre a forma de governar nem sobre as matérias objecto das preferências eleitorais que vão decidir a forma de governação e as matérias objecto da decisão. Esta é a essência do mecanismo eleitoral nos sistemas representativos, que os marca definitivamente como arranjos inconstitucionais apropriados à seleção dos governantes e não à tomada de decisão democrática.28

É inútil, por isso, para o governante que praticou ações prejudiciais à

população que tipificam crime de responsabilidade, invocar a quantidade expressiva de votos

recebidos para manter-se no poder. Foi eleito para governar bem e não para causar danos

irreparáveis ao povo. Representa autêntica indigência cívica a invocação da quantidade de votos

recebidos como fonte legitimadora para o cometimento de irregularidades no exercício do poder

político. O cidadão é eleito para governar bem, jamais para cometer ilicitudes.

27 Kelsen, ob. cit., p. 14/21

28 Martins, Manuel Meirinho. Representação Política – Eleições e Sistemas Eleitorais. 2015. Lisboa: ISCSP, p.

(17)

17

3.

Consequência do desprezo à exigência da vida pregressa

Malgrado a clareza do Texto constitucional e a ênfase em determinar

que a vida pregressa do agente político seja examinada para autorizar-lhe a investidura no

mandato, essa exigência tem sido desprezada com desastrosas consequências para a República.

O primeiro efeito nefasto desse descaso é constatado na ascensão do Brasil, em 2016, ao quarto

lugar como país mais corrupto do mundo, conforme o índice de corrupção do Fórum Econômico

Mundial.

29

A segunda consequência, não menos devastadora, também é facilmente

percebida. Trata-se do aumento da delinquência na sociedade em consequência da entrega do

“monopólio da violência legítima” a delinquentes investidos no poder político sob o argumento

de que não foram condenados por decisão transitada em julgado. O sempre lembrado Cesare

Beccaria já advertira sobre isso:

as ações dos homens graduados agem sobre a multidão com muito maior influência e os seus excessos desfazem no espírito dos cidadãos as ideias de justiça e de dever, para substituí-los pelos do direito do mais forte: direito do mesmo modo perigoso para quem dele abusa e para quem o sofre.30

É matematicamente comprovado o aumento da criminalidade como

consequência óbvia dessa distorção. Afinal, as pessoas, percebendo a ausência de sanção aos

infratores investidos no poder político, são estimuladas à prática de delitos, confiando em uma

suposta “isonomia na impunidade”. Uma ilustração dessa verdade pode ser visualizada no fato

de que, no ano de 2003, foram registrados 48.909 homicídios no Brasil, já em 2014 esse número

se elevou para 59.627, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Fórum

Brasileiro de Segurança Pública.

31

Não menos ilustrador dessa patologia é o espantoso número

29 “Segundo o índice de corrupção do Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa a 4ª colocação de nação mais

corrupta do mundo aparece atrás apenas do Chade, da Bolívia e da Venezuela, que lidera o ranking. A organização suíça inclui a corrupção no índice anual de competitividade. A pesquisa foi feita com 15 mil líderes empresariais de 141 economias do mundo. A organização suíça inclui a corrupção no índice anual de competitividade.” (http://n oticias.band.uol.com.br/brasil/noticia/100000825742/ranking-brasil-%C3%A9-o-4%C2%BA-pa%C3%ADs-mai s-corrupto-do-mundo.html, consultado em 15/10/2016.)

30 BECARIA, Cesare. Dos Delitos e Das Penas. 2001. São Paulo: Martin Claret, p. 74.

31 “O Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 mil homicídios em 2014, uma alta de 21,9% em comparação aos

48.909 óbitos registrados em 2003. A média de 29,1 para cada grupo de 100 mil habitantes também é a maior já registrada na história do país, e representa uma alta de 10% em comparação à média de 26,5 registrada em 2004. É o que Atlas da Violência 2016, estudo desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FPSP), divulgado nesta terça-feira. A pesquisa ainda revela que jovens

(18)

18

de assaltos, em que são vítimas os cidadãos, em praticamente todas as cidades brasileiras. Os

maus exemplos dos governantes repercutem nas ruas, onde ninguém pode falar ao telefone

celular sem correr risco de ser assaltado, porque não se respeita o direito de propriedade

assegurado no art. 5º da Constituição.

32

É óbvio que esse quadro aterrorizante de criminalidade está relacionado

com a permissão para o acesso de delinquentes de todos os níveis aos cargos relevantes na

República, sob a justificativa de inexistir contra eles condenação transitada em julgado. Essa

trágica tolerância decorre da excessiva indiferença à própria finalidade do Estado bem resumida

nesta lição de Max Weber, da qual se extrai a absoluta incompatibilidade entre prática de crime

e elegibilidade:

O apelo à violência nua dos meios coercitivos, não só para o exterior como também para o interior, é da essência de qualquer associação política, simples assim. Mais até: em nossa terminologia, esse apelo é aquilo que o constitui em associação política: o “Estado” é aquela associação que reivindica para si o monopólio da violência legítima – não há outro modo de defini-lo.33

Governantes denunciados pela prática de crimes, nomeando secretários

de segurança, que lhes são subordinados, fornecem um atestado patético do “monopólio” da

violência sendo utilizado com finalidade distorcida para acobertamento de ilícitos praticados

pelo grupo político dominante.

Quem exerce o poder atua como paradigma, como referência para a

sociedade, não podendo assim uma comunidade política que almeja a prosperidade e a aplicação

eficiente dos seus recursos tolerar a presença de delinquentes no exercício do Poder Político.

negros e com baixa escolaridade são as principais vítimas. No mundo, os homicídios representam cerca de 10% de todas as mortes no mundo, e, em números absolutos, o Brasil lidera a lista desse tipo de crime.” (http:// oglobo.globo.com/brasil/mapa-da-violencia-2016-mostra-recorde-de-homicidios-no-brasil-18931627, consultado em 26/10/2016).

32 “O número de assaltos no Brasil é pelo menos duas vezes maior do que a média, segundo um relatório da

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta terça-feira (05.11.13). A pesquisa, chamada de Better Life Initiative (Iniciativa Vida Melhor), apontou que 7,9% das pessoas entrevistadas relataram terem sido vítimas de assaltos nos 12 meses anteriores. A taxa é quase o dobro do que a média nos países pesquisados pela organização, que é de 4%.” (http://istoe.com.br/333150_NUMERO+DE +ASSALTOS+NO+BRASIL+E+O+DOBRO+DA+MEDIA+MUNDIAL, consultado em 08/11/2016).

33 WEBER, Max. Ética Econômica da Relações Mundiais – Ensaios comparados de sociologia da religião. 2016.

(19)

19

Pessoas envolvidas com a criminalidade não podem ser alçadas ao

patamar de autoridade para atuar em nome do Estado. Essa patologia, constatada pela presença

de denunciados pela prática de crimes exercendo o poder político, somente é possível em

decorrência da equivocada transformação do princípio da presunção de inocência em regra

jurídica. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, é importante sublinhar, agravou a

situação, ao reformar decisão do Conselho Nacional de Justiça, para determinar, por exemplo,

a investidura no cargo de desembargador de pessoa indiciada pela prática de crime, sob o

fundamento de ausência de condenação transitada em julgado.

34

A nomeação para o cargo de

desembargador, encarregado de aferir o acerto das decisões dos juízes e de puni-los nas suas

infrações, de cidadão respondendo inquérito policial, ilustra o desapreço pela vida pregressa,

no Brasil, e explica o descrédito nas instituições, que necessitam da confiança absoluta da

população, naqueles que atuam em seu nome.

Cumpre destacar o fato de que a Lei Complementar nº 35/79

35

determina seja o candidato ao cargo de juiz submetido à avaliação relativa aos aspectos social

e também moral para ser investido nessa relevante função, com o objetivo de preservar a

credibilidade no Poder Judiciário.

34 Ementa: MANDADO DE SEGURANÇA. ATO DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. ADVOGADO

NOMEADO AO CARGO DE DESEMBARGADOR PELO QUINTO CONSTITUCIONAL. IDONEIDADE MORAL. INQUÉRITO POLICIAL EM CURSO INSTAURADO CONTRA O NOMEADO. SUSPENSÃO DA POSSE. INADMISSIBILIDE. PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. ADVOGADO NOMEADO QUE EXERCIA CARGO DE JUIZ ELEITORAL DO TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL. PREENCHIMENTO, ANTERIOR, DOS REQUISITOS CONSTITUCIONAIS DE NOTÓRIO SABER JURÍDICO E IDONEIDADE MORAL PARA ASSUMIR O CARGO DE DESEMBARGADOR. VEDAÇÃO A OCUPANTE DE VAGA DESTINADA A ADVOGADOS NO TRE PARA CONCORRER AO CARGO DE DESEMBARGADOR PELO QUINTO CONSTITUCIONAL NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. INEXISTÊNCIA. ORDEM CONCEDIDA. I – A jurisprudência desta Corte é pacífica no sentido de que a mera existência de inquérito policial instaurado contra uma pessoa não é, por si só, suficiente para justificar qualquer restrição a direito em face do princípio constitucional da presunção de inocência, no sentido de que. II – A qualidade de ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ostentada pelo impetrante indica que é detentor dos requisitos necessários para ocupar o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do mesmo Estado, a despeito de possuir um inquérito policial instaurado contra ele. III - Os cargos de juiz do TRE, assim como o de desembargador do TJ, possuem os mesmos requisitos para o respectivo preenchimento, a saber notório saber jurídico e a idoneidade moral. IV - Dessa forma, se o impetrante preenchia o requisito para atuar no TRE, nada impede que assuma o cargo no Tribunal de Justiça local. V – Não há, na legislação vigente, nenhum impedimento a que ocupante do cargo de juiz no TRE na vaga destinada aos advogados no TRE concorra ao cargo de desembargador pelo quinto constitucional no TJ. VI – Ordem concedida, confirmando-se a liminar deferida, prejudicado o agravo de instrumento interposto pela União. (STF - MANDADO DE SEGURANÇA MS 32491 DF (STF, publicado em 09/10/2014, (http://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/busca?q=PRESUN%C3%87%C3%83O.+INQUERITO+POLICIAL , consultado em 26/10/2016, transcrição conforme o original).

35 Art. 78 - O ingresso na Magistratura de carreira dar-se-á mediante nomeação, após concurso público de provas

e títulos, organizado e realizado com a participação do Conselho Secional da Ordem dos Advogados do Brasil. § 2º - Os candidatos serão submetidos a investigação relativa aos aspectos moral e social, e a exame de sanidade física e mental, conforme dispuser a lei.

(20)

20

Por sua vez, o cidadão investido no poder político, com envolvimento

anterior em ilícitos documentados, impregnará de desconfiança as políticas públicas a serem

por ele formuladas, sem falar na utilização do cargo para retardar ou inviabilizar a apuração de

seus crimes, praticados antes da investidura no mandato. Obviamente, vai agravar os

recorrentes desvios dos recursos destinados à educação, maximizando os níveis de pobreza e

de criminalidade, gerados, entre outros fatores, pela ausência de escola de qualidade para os

filhos de pessoas carentes. A lição de Michel Foucault não pode ser desprezada: “Ele rouba

porque é pobre, mas você sabe muito bem que nem todos os pobres roubam. Assim, para que

ele roube é preciso que haja algo que não ande muito bem. Este algo é seu caráter, seu

psiquismo, sua educação, seu inconsciente, seu desejo.”

36

Sem acesso à educação de qualidade

e estimulados pela prática da corrupção dos agentes políticos, sem qualquer sanção, muitos

jovens fazem opção pela violência. Por outro lado, o combate à criminalidade feito por

governantes, muitos dos quais também envolvidos com o crime do colarinho branco, se resume,

quando muito, na construção de delegacias e penitenciárias para abrigar delinquentes sem

escolaridade.

37

4.

Definição de vida pregressa

Por vida pregressa, segundo o Dicionário Online de Português,

entende-se “os antecedentes da vida pessoal de uma pessoa que normalmente são investigados no âmbito

de um processo policial, judicial ou administrativo”.

38

Vida pregressa, para fins de elegibilidade, se resume no conjunto de

ações positivas e negativas que integram o patrimônio moral do cidadão. Dentre essas ações

“negativas” praticadas, destacam-se aquelas que tipificam crimes geradores de inelegibilidade

que motivaram o recebimento de denúncia contra o acusado por órgão judicial colegiado.

36 Foucault, Michel. Microfísica do Poder. 30ª reimpressão. 2012. Rio de Janeiro: Edições Graal, p. 135.

37 “As condições de escolaridade dos presos no País foram anunciadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE)

que apresentou em seminário nesta segunda-feira (23/04/2012), em Brasília. Outros dados indicam que 66% da população presidiária não concluíram [sic] o ensino fundamental, menos de 8% têm [sic] o ensino médio e a mesma proporção é analfabeta. A falta de escolaridade afeta especialmente os homens em idade produtiva (três quartos têm de 18 a 34 anos).” (http://www.brasil.gov.br/educacao/2012/04/levantamento-mostra-escolaridade-dos-presidiarios-no-pais, consultado em 15/11/2015).

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21

“Negativam” elas o seu nome, impedindo-lhe o credenciamento para participar do processo

eleitoral. O recebimento da denúncia é fator decisivo porque a própria Constituição o qualifica

como tal, ao exigir no art. 86, § 1º, I, o afastamento do Presidente da República, após o

recebimento pelo STF de denúncia contra ele.

A Constituição do Uruguai, elaborada em 1977, equiparou vida

pregressa à exigência de boa conduta, dispondo no seu art. 80: “La cidadania se suspende: 2º)

Por la condición de legalmente procesado en causa criminal de que pueda resultar pena

penitenciaría [...] 5). Por el ejercicio habitual de atividades moralmente deshonrosas, que

determinará la ley sancionada de acuerdo con el numeral 7º del artículo 77. [..] 7º). Por la

falta superveniente de buena conducta exigida en el artículo 75”. Portanto, naquele País, quem

não exibe boa conduta não tem vida pregressa compatível com o mandato eletivo.

Não basta, porém, apenas o oferecimento da denúncia para a

comprovação da vida pregressa incompatível com a representação popular no Brasil. É

necessário que um órgão judicial colegiado a receba. A relevância jurídica do recebimento da

denúncia como fator impeditivo da elegibilidade foi demonstrada pela própria Carta Magna, ao

exigir o afastamento imediato do Chefe do Poder Executivo que tenha contra si denúncia

recebida. Se está o cidadão impossibilitado de exercer o cargo para o qual pretende ser eleito,

é patente a inelegibilidade. A contradição destrói qualquer sistema jurídico. Como considerar

apto a participar do processo eleitoral alguém que, ultimada a eleição, seja proclamado eleito e,

ao mesmo tempo, impossibilitado de ser investido no mandato? Se o presidente denunciado não

pode exercer o mandato, como reconhecer, sem ofensa à isonomia, esse direito aos demais

ocupantes de cargo eletivo?

Por outro lado, o nível de ataque aos cofres públicos tende a

agravar-se, com danos irreparáveis à coletividade, ao garantir-se o acesso ao mandato para atuação como

legisladores a pessoas condenadas em ação popular, em processo em que é comprovado o

desvio de verba pública. A jurisprudência consagrada no TSE, estampada, entre outros, no

Acórdão no RESP nº 23.347/2004, contribui para agravar o descrédito na classe política:

A simples condenação em ação popular não gera inelegibilidade por vida pregressa, por não ser auto-aplicável o § 9o, art. 14, da Constituição Federal, com a redação da

Emenda Constitucional de Revisão no 4/94, nos termos da Súmula-TSE no 13. [...]”.

(22)

22

Na verdade, a presença de infratores no exercício do poder político,

inclusive, condenados em ação popular, é incompatível com a atribuição do Estado de elaborar

as leis para construir o Direito, cujos preceitos básicos foram, já em Roma, enumerados por

Ulpiano: “Viver honestamente, não prejudicar ninguém e dar a cada um o que é seu”.

39

Cumpre, ainda, destacar a opção do legislador por não definir “vida

pregressa” por tratar-se de conceito difuso, indeterminado, conforme reconheceu o próprio

Supremo Tribunal Federal, ao afastar a inconstitucionalidade da Lei Complementar nº

135/2010. Lê-se na ementa do Acórdão na Ação Direta de Constitucionalidade nº 29, redigida

pelo Ministro Luis Fux:

[...] ATENDIMENTO DOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE. OBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO: FIDELIDADE POLÍTICA AOS CIDADÃOS. VIDA PREGRESSA: CONCEITO JURÍDICO INDETERMINADO. PRESTÍGIO DA SOLUÇÃO LEGISLATIVA NO PREENCHIMENTO DO CONCEITO. (Transcrição conforme o original). 40

A propósito de conceito difuso, indeterminado, em relação ao qual a

doutrina se reporta à “zona de certeza negativa”, observa Celso Antônio Bandeira de Mello

(2002/92), com base na lição de Afonso Rodrigues Queiró:

O fato de não se poder saber o que uma coisa é não significa que não se possa saber o que ela não é.41

Salta aos olhos de qualquer observador a ideia de que um cidadão, com

várias denúncias recebidas pela prática de variados crimes contra a Administração Pública, não

preenche o requisito da vida pregressa exigida pela Constituição, cuja finalidade é por ela

destacada, com muita ênfase, no seu texto: “garantir a probidade administrativa e a moralidade”

durante o exercício do mandato. A simples presença de um agente político, envolvido com a

criminalidade, no exercício do mandato, por si só, já traduz grave ameaça à moralidade

39 “Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterun non laedere, suum cuique tribuere”. (Ulpiano, Eneu Domício.

apud, Luiz, Antônio Filardi. Curso de Direito Romano. 1999. São Paulo: Atlas, p. 26).

40 http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=2243342, visitado em 29/10/2016. 41 Mello, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 2002. São Paulo: Malheiros, p.92.

(23)

23

administrativa que a ordem constitucional busca proteger. Representa, igualmente, perigo à

normalidade do processo eleitoral, na medida em que pessoas envolvidas com a criminalidade

não relutam em utilizar-se de fraude e de todos os meios escusos para a conquista do poder,

como há muito advertira Adam Smith.

42

A exigência de aferição da vida pregressa de quem se propõe exercer a

representação popular, noutro passo, está em sintonia com as recomendações de Aristóteles

(2000/40), ao lembrar que a virtude se adquire pelo hábito, antevendo os malefícios

provenientes da transformação de um infrator em legislador

:

Os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem. Esse é o propósito de todos os legisladores, e quem não consegue alcançar tal meta falha no desempenho de sua missão, e é exatamente nesse ponto que reside a diferença entre a boa e má administração.43

Também Montesquieu destacava a virtude como valor essencial para a

sobrevivência de um governo emanado da soberania popular, sem a qual os representantes

acabam se voltando contra os interesses dos representados - vale dizer -, contra o bem comum:

Os políticos gregos, que viviam no governo popular, não conheciam outra força para sustentá-los senão a da virtude. Cessando a virtude, entra a ambição nos corações que podem recebê-la, e a cobiça em todos. Os desejos mudam de objeto; não mais se ama o que se amava; era-se livre com as leis e quer-se a liberdade contra elas. [...]Outrora, o bem dos particulares constituía o tesouro público; desde então, o tesouro público se torna patrimônio dos particulares.44

Pessoas denunciadas pela prática de desvio de verba da Administração

expressam a demonstração cabal de transformarem o “tesouro público em patrimônio

particular”, deixando bem nítida a ausência de “virtude” necessária para evitar a ruína de

42 “Em muitos governos, os candidatos aos mais altos cargos estão acima da lei; e, se podem conquistar o objeto

de sua ambição, não receiam prestar contas dos meios pelos quais os adquiriram. Portanto, frequentemente, se esforçam, não apenas valendo-se de fraude e falsidade – as ordinárias e vulgares artes da intriga e conspiração -, mas às vezes perpetrando os piores crimes, assassinato e morte, rebelião e guerra civil, para superar e destruir os que impedem ou fecham o caminho para a sua grandeza”. (Smith, Adam – Teoria dos Sentimentos Morais. 2002. São Paulo: Martins Fontes, p. 76).

43 Aristóteles. Ética a Nicômaco. 2000. São Paulo: Martin Claret, p. 40-41.

44 Montesquieu. apud, Chevallier, Jeana-Jacques. As Grandes Obras Políticas de Maquiavel a nossos dias. 8ª

(24)

24

qualquer governo.

Como conceder a um infrator da lei a prerrogativa de exercer “a violência

legítima” em nome do poder constituído? Sob nenhuma perspectiva se pode justificar, nas

democracias, em que o primado do Direito prevalece com a garantia do contraditório e da ampla

defesa, a presença, no exercício do poder político, de pessoas denunciadas pela prática de

crimes geradores de inelegibilidade. Um legislador infrator da ordem jurídica, elaborando

regras a serem observadas pela comunidade política, contribui para a destruição da paz social,

estimula a criminalidade na base da sociedade, levando ao descrédito as leis, daí considerar-se

uma loucura (Cooley, 2002/246) a sua participação no processo eleitoral e posterior investidura

no poder. Mais enfático, Aristóteles (1991/36) manda riscar da lista dos cidadãos os bandidos

e os infames.

45

5.

A ausência da sanção penal sobre os detentores do poder político

Historicamente, os detentores do poder político, no Brasil, têm sido

excluídos da incidência da sanção, a despeito da violação, por muitos deles, das normas contidas

no Código Penal. Cometem crimes e não são julgados, consequentemente, são sempre elegíveis

por “ausência de condenação transitada em julgado”. Uma análise retrospectiva das

constituições, que tiveram vigência no País, permite constatar as raízes dessa excessiva

tolerância.

A primeira Constituição da República, promulgada em 24.02.1891, foi

inspirada na Constituição dos EUA de 1787. Consagrou, porém, a imunidade parlamentar com

uma amplitude jamais imaginada pelos constituintes da América.

46

Nos EUA, a imunidade se

restringe à proteção da atividade parlamentar e não existe a figura do foro privilegiado, sendo

inúmeros os casos de políticos condenados e presos em diversos estados.

47

45 Aristóteles. A Política. 1991. São Paulo: Martins Fontes, p..36.

46 Seção 6, 1, da Constituição dos EUA: “Os senadores e Representantes receberão por seus serviços, remuneração

estabelecida por lei e paga pelo Tesouro dos Estados Unidos. Durante as sessões , e na ida ou regresso delas não poderão ser presos, e na ida ou regresso delas não poderão ser presos, a não ser por traição, crime comum ou perturbação da ordem pública. Fora do recinto das Câmaras, não terão obrigação de responder a interpelações acerca de seus discursos ou debates”.

47 “Nos Estados Unidos, a lista de políticos presos e condenados por corrupção ou desvio de dinheiro público não

é curta. Lá não existe foro privilegiado. Todos são julgados pela mesma Justiça que julga o cidadão comum. (JORGE PONTUAL (http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,MUL1407032-16020,00-POLITICOS+NAO+TEM+ FORO+PRIVILEGIADO+NOS+EUA.html, consultado em 29/10/2016).

(25)

25

Ali, a prática de crime comum, a perturbação da ordem pública e o

crime de traição ficaram fora da proteção assegurada aos detentores do poder político, sendo o

infrator julgado tal como qualquer cidadão.

48

Por sua vez, a Constituição brasileira ampliou o

campo de privilégio dos parlamentares, consagrando a impunidade sob o pretexto de garantir a

liberdade para o exercício do mandato, exigindo autorização para a formalização do processo e

avocação dos respectivos autos. Com efeito, ao contrário da Constituição dos Estados Unidos,

a brasileira não excluiu o crime comum do alcance da imunidade. Lê-se nos artigos 19 e 20 da

Constituição de 1891:

Art.19 - Os Deputados e Senadores são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato.

Art. 20 – Os Deputados e Senadores, desde que tiverem recebido diploma até a nova eleição, não poderão ser presos nem processadoscriminalmente, sem prévialicença de sua Câmara, salvo caso de flagrância em crime inafiançável. Neste caso, levado o processo até pronúncia exclusive, a autoridade processante remeterá os autos à Câmara respectiva, para resolver sobre a procedência da acusação, se o acusado não optar pelo julgamento imediato.

Não previu a Constituição de 1891 o foro especial para julgamento de

parlamentares; não atribuiu, tampouco, ao Supremo Tribunal competência para processar e

julgar deputado nem senador. Aliás, a Súmula 398 do Supremo Tribunal Federal assentara: “O

STF não é competente para julgar, originariamente, Deputado ou Senador acusado de crime”.

O julgamento pela prática de crime comum seria feito mediante autorização da Casa legislativa

na qual atuava o acusado. É dizer, a não aplicação da sanção estava assegurada, inclusive,

porque, mesmo nos casos de prisão em flagrante por crime inafiançável, antes da pronúncia, o

processo devia ser remetido para a respectiva Câmara, que poderia impedir o julgamento do

infrator, excetuando o caso em que o parlamentar “abrisse mão da imunidade”, preferindo o

“imediato” julgamento na esfera judicial. Aí, a gênese da impunidade que iria se perpetuar na

República.

Ao tomar posse em 1898 como 4º Presidente do Brasil, Campos Sales

implantou a “política nacional de tolerância e concórdia”, conhecida como “Política dos

48 Constituição dos EUA, ART. III. 3: “O julgamento de todos os crimes, exceto os de responsabilidade, será feito

com intervenção do júri e efetuar-se-á no Estado em que eles tiverem sido cometidos. No caso, porém, de crimes cometidos fora do território de qualquer Estado, o julgamento efetuar-se-á no local ou nos locais legalmente fixados pelo Congresso.”

Referências

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