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A FAMÍLIA ESCRAVA EM LORENA E CRUZEIRO (1874)

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A FAMÍLIA ESCRAVA EM LORENA E CRUZEIRO (1874)

Renato Leite Marcondes 1

José Flávio Motta 2

Introdução

O Decreto nº 5.135, de 13 de novembro de 1872, aprovou o regulamento geral para a execução da Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871  a Lei do Ventre Livre. O capítulo II do aludido regulamento tratava do Fundo de Emancipação; em seu artigo 27, estabeleceu-se que a alocação dos recursos para emancipação deveria obedecer a seguinte ordem: em primeiro lugar, libertar-se-iam as famílias escravas; em seqüência, os indivíduos. Na libertação por famílias, a classificação prevista era: 1º) os cônjuges que fossem escravos de diferentes senhores; 2º) os cônjuges que tivessem filhos nascidos livres em virtude da lei nº 2.040 e menores de oito anos; 3º) os cônjuges que tivessem filhos livres menores de vinte e um anos; 4º) os cônjuges com filhos menores escravos; 5º) as mães com filhos menores escravos; 6º) os cônjuges sem filhos menores. Os demais cativos eram também ordenados: 1º) mãe ou pai com filhos livres; 2º) os de doze a cinqüenta anos de idade, começando pelos mais moços do sexo feminino, e pelos mais velhos do sexo masculino. 3 Em decorrência dessa legislação foram elaboradas as Listas de Classificação dos Escravos para Emancipação, fontes de inegável relevância

para o estudo da escravidão no Brasil, muito embora nem toda a população cativa viesse a constar, como se depreende dos critérios acima, da classificação efetuada.

A Lista de Classificação por nós utilizada, referente aos municípios paulistas de Lorena e Cruzeiro, preservada no Arquivo do Estado de São Paulo, tem seu termo de encerramento datado aos 3 de maio de 1874. 4 Confeccionada consoante as diretrizes

1

Professor da FEA/USP. Este artigo contou com o auxílio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.

2

Professor da FEA/USP e do Programa de Pós-Graduação em História Econômica da FFLCH/USP.

3

Ver Colleção das leis do Império do Brasil de 1872 (1873, v. 2, p. 1059) e, também, Graf (1974, cap. 1, p. 5-37).

4

Na região em foco, desde fins do terceiro decênio do Oitocentos, a lavoura cafeeira assumira a liderança entre os vários cultivos praticados, apresentando-se já plenamente consolidada em meados do século. Todavia, muito embora o desenvolvimento das localidades em tela estivesse vinculado ao evolver da economia cafeeira, sua produção de café não atingiria as mesmas proporções alcançadas em outras povoações do vale. No Almanak da Província de São Paulo para 1873 registraram-se, em Lorena, 22 fazendeiros voltados exclusivamente à produção de café, 5 de café e fumo,

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aprovadas pelo Decreto 5.135, dela consta a maior parte da população cativa daquelas localidades, radicando-se as maiores lacunas no contingente formado pelas pessoas com mais de 50 anos de idade. Para a maioria dos indivíduos listados é fornecido o preço, decorrente de avaliação efetuada pela Junta de Classificação. 5 Adicionalmente,

constam do arrolamento os nomes do cativo e de seu respectivo proprietário, o número de matrícula do escravo, sua idade, estado conjugal, aptidão para o trabalho e profissão, 6 além de um campo intitulado “pessoa de família”, no qual se faz referência

aos nomes dos pais ou de filhos menores, ou ainda apenas ao nome da mãe e, alternativamente, à condição de marido, mulher (isto é, esposa) ou mãe.

Após completarmos a coleta das informações disponíveis, procedemos à reordenação dos dados a partir do nome dos escravistas, com a finalidade de conformar seus respectivos plantéis cujos escravos, no documento, encontravam-se dispersos por conta dos distintos critérios de classificação. 7 Com isto, não apenas foi possível

construir uma nova variável  o tamanho do plantel, base para a análise da estrutura da posse de cativos que compõe uma das seções subseqüentes deste artigo  , mas igualmente evidenciar a ocorrência de diversos casos de duplicidade. Por exemplo, houve escravos listados como filhos (de casais ou mães solteiras) e, novamente, inseridos na relação de indivíduos por idades que reflete o último dos critérios de classificação; houve cativas que apareceram como filhas (de casais ou mães solteiras) e, novamente, como mães de seus próprios rebentos; houve caso de cônjuges arrolados com prole ingênua e, novamente, com prole escrava etc.

Todos esses casos tiveram de ser eliminados do contingente por nós trabalhado, uma vez assentado, com segurança, que se tratavam de mesmos indivíduos arrolados mais de uma vez. Adotando esse procedimento, dos 2.426 registros computados originalmente, chegamos à população de 2.245 escravos e 43 crianças ingênuas sobre a qual se baseiam as considerações por nós delineadas. Adicionalmente, com fundamento 13 de cana e café e 22 que produziam tão-somente cana. Além da agricultura, o comércio assumia uma posição de destaque, favorecido pela própria situação geográfica da localidade, situada numa encruzilhada. No mesmo almanaque, informa-se a existência de 68 armazéns de secos e molhados e de gêneros do país e 21 lojas de fazendas, ferragens e armarinhos. Por fim, atuavam na localidade 61 artesãos de diversos ofícios (Luné & Fonseca, 1985, p. 221-224).

5

Para um estudo dos preços dos escravos constantes da Lista de Classificação vis-à-vis os preços verificados em escrituras de compra e venda de cativos, ver Motta & Marcondes (1999).

6 No que respeita aos quesitos “aptidão para o trabalho” e “profissão”, vale observar que, enquanto o último

contemplava o informe da ocupação/atividade produtiva do cativo, o primeiro trazia uma apreciação de suas condições (“bom”, “ruim”, “sofrível”, “doente” etc.).

7

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no informe qualitativo da “pessoa de família” e dentro dos limites dos plantéis, foi-nos possível identificar filhos adicionais àqueles listados junto com seus pais ou suas mães solteiras. Na maior parte dos casos, esses filhos adicionais possuíam maior idade que os demais, amiúde mais de 18 anos. Foi possível, também, pela mesma informação da “pessoa de família”, “reconstituir” relações familiares entre irmãos. Analogamente, em alguns casos integramos irmãos a casais e mães com filhos. Por fim, “reconstituímos” famílias com três gerações: uma escrava e seus filhos, um deles também mãe com sua respectiva prole.

A população escrava em Lorena e Cruzeiro

Nesta seção pretendemos traçar um rápido perfil da população cativa existente nas localidades de Lorena e Cruzeiro na primeira metade da década de 1870. Para tanto, lançamos mão da Lista de Classificação acima descrita e, adicionalmente, tomamos como referenciais alguns dados da matrícula de escravos realizada em 1872 e, sobretudo, o Recenseamento Geral do Império, também de 1872. No restante do texto, referimo-nos às fontes mencionadas, respectivamente, como Lista, Matrícula e

Recenseamento. Deste último, computamos conjuntamente os informes concernentes às

paróquias de Nossa Senhora da Piedade de Lorena e de Nossa Senhora da Conceição de Embahú (Cruzeiro). 8

O referencial de 1872 é necessário pois, como vimos, na confecção da lista de classificação dos cativos privilegiaram-se os indivíduos que compunham núcleos familiares, sendo apenas listados os escravos isolados com idades entre 12 e 50 anos. Assim, no que diz respeito ao total da massa escrava, o documento concluído em 1874 apresenta evidentes lacunas.

De outra parte, é igualmente possível que a população cativa recenseada em 1872 esteja subestimada. Essa suspeita tem sua origem ao compararmos os totais de escravos computados na Lista e no Recenseamento. Observamos que, não obstante as lacunas presentes no primeiro desses dois documentos, teria havido um crescimento de cerca de 7,9% na escravaria entre 1872 e 1874, de 2.080 para 2.245 indivíduos. Tal suspeita se fortalece quando consideramos terem sido ao que tudo indica mais

8

“A Vila do Cruzeiro denominava-se anteriormente Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Embahú. Foi elevada à categoria de Vila a 6 de março de 1871” (Luné & Fonseca, 1985, p. 224). No que tange aos informes da Matrícula, nossa fonte é a “Demonstração dos escravos da Província, matriculados nos respectivos municípios, na conformidade da Lei n. 2.040, de 28 de setembro de 1871 até 30 de setembro de 1872” (cf. Luné & Fonseca, 1985, p. 172-173).

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freqüentes  e decerto em boa medida por conta das aludidas lacunas  as situações nas quais a quantidade de cativos informada no Recenseamento superava aquela tabulada a partir das Listas de Classificação. 9

Por fim, os dados da Matrícula corroboram nossa hipótese; assim, no município em foco foram matriculados 2.964 escravos. Comparados os totais de indivíduos da Lista e da Matrícula, verificamos uma diminuição de cerca de um quarto (24,3%) entre 1872 e 1874.

A distribuição da população cativa de acordo com o sexo (Tabela 1) permite-nos perceber que, muito embora houvesse o predomínio dos escravos do sexo masculino nas três fontes compulsadas, foi menor a razão de masculinidade calculada a partir da Lista (125,6 versus 138,3 no Recenseamento e 134,5 na Matrícula). As características da regulamentação do Fundo de Emancipação, descritas na seção anterior, sem dúvida respondem por essa maior presença relativa das escravas no documento datado de 1874. Por outro lado, os porcentuais de homens (58,0% e 57,4%) e mulheres (42,0% e 42,6%) são relativamente próximos nos dois documentos de 1872. Ademais, para a Matrícula, não possuímos dados sobre a estrutura etária ou o estado conjugal dos cativos, razão pela qual, no restante desta seção, manteremos apenas o referencial do Recenseamento, tendo sempre em mente a eventual ocorrência de vieses decorrentes da possível subestimação que caracterizaria esta última fonte.

Tabela 1

População Escrava Segundo Sexo

(Lorena e Cruzeiro, 1872 e 1874)

Recenseamento Matrícula Lista Sexo _____________ _____________ _____________ nº. % nº. % nº. % Homens 1.207 58,0 1.700 57,4 1.250 55,7 Mulheres 873 42,0 1.264 42,6 995 44,3 Total 2.080 100,0 2.964 100,0 2.245 100,0 nº. = números absolutos.

As lacunas da Lista ficam mais evidentes quanto atentamos para a distribuição

da população cativa segundo sexo e faixas etárias (Tabela 2). Dessa forma, em 1874, mais de três quartos das mulheres (78,0%) e cerca de oito décimos dos homens (79,5%) tinham idades de 11 a 50 anos. As proporções correlatas, no Recenseamento, foram de

9

Como pudemos verificar, por exemplo, nos casos das também localidades valeparaibanas paulistas de Bananal, São José dos Campos e Paraibuna.

(5)

aproximadamente dois terços dos homens (66,8%) e pouco mais que isso no caso das mulheres (67,7%). Ainda que supuséssemos que, no Recenseamento, os 19 escravos ausentes, bem como aqueles 7 com idades indeterminadas, estivessem todos localizados na faixa etária em questão, os porcentuais respectivos alçar-se-iam para 67,3% e 68,0%, permanecendo substancialmente inferiores àqueles calculados com base na Lista.

Tabela 2

Distribuição Porcentual da População Escrava Segundo Sexo e Faixas Etárias

(Lorena e Cruzeiro, 1872 e 1874)

Recenseamento a Lista b Fx. Etárias __________________ __________________ Homens Mulheres Homens Mulheres 0 - 10 23,8 26,1 17,9 20,4 11 – 50 66,8 67,7 79,5 78,0 51 e + 9,4 6,2 2,6 1,6 Total 100,0 100,0 100,0 100,0

a

No Recenseamento há 3 homens e 4 mulheres com idades indeterminadas; outros 14 homens e 5 mulheres constam do “Quadro Geral da População de N. S. da Piedade de Lorena” como ausentes.

b

Na Lista há uma escrava cuja idade não foi possível determinar.

Em contrapartida, na terceira das faixas etárias consideradas (51 e mais anos), os porcentuais da distribuição da população cativa no Recenseamento, tanto para homens como para mulheres, eram mais de 3,5 vezes os porcentuais observados na Lista. No caso das crianças, convém que as segmentemos em dois grupos. Para aquelas com idades de zero a 5 anos, contempladas amiúde na Lista compondo os núcleos familiares, os porcentuais eram menores no Recenseamento (10,2% versus 11,9% para os indivíduos do sexo masculino; 12,4% versus 14,5% para as escravas). 10 Para aquelas

com idades de 6 a 10 anos, o efeito da subenumeração  tal qual o verificado para os cativos com mais de 50 anos  parece mais que compensar a presença nos núcleos familiares: os porcentuais no Recenseamento, tanto para meninos como para meninas, eram cerca de 2,3 vezes os verificados na Lista. 11

Por fim, para a conformação do rápido perfil da população escrava que vimos esboçando, fornecemos também sua distribuição segundo sexo e estado conjugal

10

Os porcentuais da Lista ficam ainda maiores  13,9% para meninos e 15,7% para meninas  se computamos entre as criancas de 0 a 5 anos os 43 ingênuos.

11

Nesta faixa etária (6 a 10 anos) estavam, no Recenseamento, 13,6% dos homens e 13,7% das mulheres; na Lista as respectivas participações relativas igualaram-se a 6,0% e 5,9%.

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(Tabela 3). Antes do mais, a subenumeração, na Lista, dos indivíduos com mais de 50 anos de idade é novamente evidenciada. Desta feita mediante a comparação dos porcentuais concernentes aos viúvos. Eles eram 4,6% dos homens e 7,4% das mulheres no Recenseamento de 1872, valores que diminuem para, respectivamente, 1,0% e 1,3% em 1874. De outra parte, os informes dispostos nessa tabela são de grande interesse para nós, pois a variável “estado conjugal” fornece-nos uma primeira aproximação à análise das famílias escravas. E essa primeira aproximação parece-nos, em grande medida, enganosa, revelando-nos, talvez, um viés adicional presente na Lista, ou, alternativamente, permitindo-nos vislumbrar uma estratégia utilizada pelos proprietários de cativos.

Tabela 3

Distribuição Porcentual da População Escrava Segundo Sexo e Estado Conjugal

(Lorena e Cruzeiro, 1872 e 1874)

Recenseamento Lista Est.Conjugal __________________ __________________ Homens Mulheres Homens Mulheres Solteiros 83,6 72,9 85,5 82,8 Casados 11,8 19,7 13,5 15,9 Viúvos 4,6 7,4 1,0 1,3 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 É provável, como sugerimos anteriormente, que a menor razão de masculinidade entre os escravos presentes na Lista decorresse, ao menos parcialmente, dos critérios que nortearam sua confecção. De fato, naquele documento é nítida a ênfase nas relações familiares, com o que as cativas são guindadas para uma posição de destaque, seja como esposas, seja, sobretudo, como mães. Não obstante, a participação das escravas casadas na Lista (15,9%) é inferior à verificada no Recenseamento (19,7%); em contrapartida, as solteiras faziam-se mais importantes em 1874 (82,8%) vis-à-vis 1872 (72,9%). Vale dizer, a presença de relações conjugais sacramentadas pela Igreja tornaria os escravos que delas participassem melhor classificados para as alforrias pelo Fundo de Emancipação. Já as mães solteiras com filhos cativos só são listadas após terem sido contemplados todos os cônjuges, exceto aqueles sem filhos menores. Assim sendo, sugerimos duas explicações possíveis e não necessariamente excludentes para esses porcentuais: teria havido uma subestimação explícita das uniões legitimadas, ou

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ter-se-ia observado efetivamente um incremento na freqüêncter-se-ia das ligações consensuais, eventualmente por força da própria legislação vigente. Em ambos os casos, parece-nos crucial, mesmo que não o tenha sido de maneira exclusiva, a ação dos escravistas.

Estrutura da posse de escravos

Entendemos ainda como oportuno, antes de dedicarmos nossa atenção precipuamente às famílias cativas, procedermos a uma breve análise da estrutura da posse de escravos inferida da Lista de 1874. Pois tem sido recorrente na historiografia a verificação de que as relações familiares estabelecidas no seio da população escrava encontravam, regra geral, melhores condições de efetivação e estabilidade nos plantéis de maior tamanho. 12

Este resultado, observado ao mesmo tempo em que se registravam, para esses mesmos plantéis, as mais elevadas razões de masculinidade, vinculava-se ao exíguo número de uniões entre cativos pertencentes a proprietários distintos. De outra parte, tem-se assentado, outrossim, o predomínio, que se estende em termos espaciais e temporais, de um perfil da estrutura da posse de escravos que, não obstante evidencie uma distribuição relativamente concentrada, marcou-se pela superioridade numérica dos escravistas detentores de poucos cativos; de fato, a moda encontrada, na grande maioria das situações estudadas, igualou-se à unidade, revelando a predominância dos plantéis unitários em nossa sociedade, na qual o escravismo encontrava-se amplamente disseminado. 13

A distribuição, para Lorena e Cruzeiro, de escravistas e de cativos de acordo com diferentes faixas de tamanho dos plantéis, elaborada a partir dos dados da Lista, é apresentada na Tabela 4. Notamos que cerca de dois terços (66,0%) dos proprietários de escravos possuíam de 1 a 4 cativos. Em seu conjunto, esses escravistas de menor porte detinham aproximadamente um quinto (19,9%) da massa escrava. Como se vê, as localidades por nós examinadas não negavam, em 1874, o padrão evidenciado pela historiografia; também nelas a posse modal igualava-se à unidade, havendo 118 plantéis unitários, pouco menos de um terço do número total de plantéis. No outro extremo da

12

Dentre os inúmeros trabalhos nos quais é apontada essa relação entre a maior presença de famílias escravas e o tamanho dos plantéis, ver, por exemplo, Slenes (1987, 1998 e 1999), Costa, Slenes & Schwartz (1987), Florentino & Góes (1997) e Motta (1999).

13 Uma vez mais a título ilustrativo, destacamos, entre os vários estudos que evidenciaram essas características da

estrutura da posse de escravos, os de Luna (1981), Luna & Costa (1983) e Schwartz (1983). Por outro lado, a mencionada disseminação da propriedade escrava não implica serem irrelevantes os não escravistas. Sobre este último segmento populacional ver, por exemplo, Costa (1992).

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distribuição, os proprietários com 40 ou mais escravos perfaziam tão-somente 2,7% do total de escravistas, porém possuíam quase um quarto (24,3%) da escravaria. A média de cativos por proprietário foi de 6,1, a mediana igualou-se a 13 e o índice de Gini foi de 0,612. 14 Ainda em conformidade com o dito padrão, mostraram-se em geral

crescentes as razões de masculinidade calculadas para as distintas faixas de tamanho; nas cinco faixas consideradas esse indicador igualou-se, respectivamente, a 94,3, 104,4, 130,0, 167,5 e 151,6.

Tabela 4

Distribuição de Escravistas e de Cativos Segundo Faixas de Tamanho dos Plantéis

(Lorena e Cruzeiro, 1874) Escravistas Escravos F.T.P. __________________ __________________ Número % Número % 1 - 4 242 66,0 447 19,9 5 – 9 64 17,4 417 18,6 10 – 19 39 10,6 522 23,3 20 – 39 12 3,3 313 13,9 40 e + 10 2,7 546 24,3 Totais 367 100,0 2.245 100,0 F.T.P. = Faixas de Tamanho dos Plantéis.

Com base na Tabela 5 podemos já aventar alguns indícios no que respeita à presença diferenciada das relações familiares entre escravos segundo distintas faixas de tamanho dos plantéis. Nessa tabela, fornecemos a distribuição porcentual dos cativos de acordo com tal variável e, também, consoante três faixas etárias. Antes do mais, tomando os porcentuais calculados por intervalos de idade (as três primeiras colunas da Tabela 5, que somam 100,0% na vertical, vale dizer, em cada faixa etária), e comparando-os com os valores da distribuição dos escravos constante da última coluna da Tabela 4, notamos o seguinte: em apenas duas faixas de tamanho, exatamente as primeira e última, a participação das crianças menores de 15 anos é inferior à participação dos escravos em geral. Assim, nos plantéis de 1 a 4 cativos, estão 19,9%

14

Este valor do índice de Gini é superior àqueles calculados para Lorena em vários anos do período 1778-1829: “No primeiro ano, o índice assumiu o valor de 0,504. Em 1798, houve um pequeno crescimento para 0,527, o qual se reverteu em 1818, quando se reduziu a 0,506. Por fim, em 1829, o índice de Gini atingiu o valor mais elevado: 0,554” (Marcondes, 1998, p. 87). Foi também superior ao índice calculado por Costa & Nozoe para Lorena em 1801: 0,536 (cf. Costa & Nozoe, 1989, p. 328). De outra parte, os valores obtidos para outras localidades valeparaibanas a partir de Listas de Classificação análogas à de Lorena em 1874 foram os seguintes: 0,758 em Bananal; 0,570 em São José dos Campos; e 0,637 em Taubaté (para esta última localidade, ver Marcondes, 1998b, p. 48).

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dos escravos em geral, mas apenas 16,2% das crianças; nos plantéis com 40 ou mais cativos, os porcentuais correlatos são, respectivamente, 24,3% e 23,2%.

Essa presença menos que proporcional das crianças pareceria indicar serem as duas faixas referidas de tamanho dos plantéis aquelas em que seriam identificadas as menores freqüências de famílias escravas. Essa indicação corroboraria a historiografia no que respeita à primeira das faixas, mas seria um resultado surpreendente no caso dos maiores plantéis. De fato, nas posses de 1 a 4 cativos, sendo reduzidos os casos de ligações entre escravos de proprietários distintos, o estabelecimento de famílias seria mais difícil. Ademais, nas situações em que, mesmo assim, as famílias fossem constituídas, a eventual prole resultante poderia implicar a mudança na própria faixa de tamanho (por exemplo, um casal que gerasse três filhos). Por fim, há que referir uma vez mais o predomínio dos plantéis unitários, pois nenhum dos 118 plantéis desse tipo era formado por indivíduo com 10 ou menos anos de idade.

Tabela 5

Distribuição Porcentual dos Escravos de Acordo Com Faixas Etárias e de Tamanho dos Plantéis

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

% por faixas etárias % por F.T.P. _____________________ _____________________ F.T.P. Faixas Etárias Faixas Etárias 0-14 15-49 50 e+ 0-14 15-49 50 e+ 1 - 4 16,2 22,4 8,9 24,0 73,8 2,2 5 – 9 21,4 17,3 18,8 34,1 60,9 5,0 10 – 19 24,2 23,2 17,9 30,7 65,5 3,8 20 – 39 15,0 12,9 22,3 31,6 60,4 8,0 40 e + 23,2 24,2 32,1 28,2 65,2 6,6 F.T.P. = Faixas de Tamanho dos Plantéis.

Obs.: Não se computou uma escrava cuja idade não foi possível determinar.

Nossas considerações acerca dos menores plantéis são confirmadas ao observarmos as três últimas colunas da Tabela 5 (nas quais os valores porcentuais da distribuição por faixas etárias somam 100,0% na horizontal, isto é, em cada faixa de tamanho). Notamos que tão-somente 2,2% dos escravos nos plantéis com menos de 5 cativos tinham idades iguais ou superiores a 50 anos, porcentual que varia de 3,8% a 8,0% nas demais faixas de tamanho, sendo as maiores cifras as correspondentes às duas últimas faixas. Sabemos, a partir dos critérios da classificação dos escravos na Lista,

(10)

que aqueles com mais de 50 anos só eram arrolados à medida que partícipes de relações de família. Logo, é sintomático que as maiores presenças relativas desses indivíduos mais velhos sejam verificadas nos plantéis compostos por 20 ou mais cativos.

Este último comentário aparentemente contrapõe-se à referida  e, repitamos, em boa medida surpreendente  distribuição menos que proporcional das crianças escravas na faixa de maior tamanho. Todavia, no que respeita a essa distribuição, são pertinentes alguns comentários. De início, cabe observar que o contingente de crianças vivendo nas posses escravistas de maior porte não deve ser sopesado sem que consideremos, concomitantemente, o perfil da distribuição das crianças ingênuas. E, ao levarmos em conta os 43 ingênuos que integram a Lista, percebemos que nenhum deles aparece vinculado a plantéis com menos de 5 escravos, ao passo que mais de dois quintos (41,9%, ou seja, 18 crianças) são filhos de casais ou viúvos cativos possuídos por escravistas detentores de plantéis com 40 ou mais escravos. 15 Ademais, é evidente

que o número total de ingênuos em Lorena e Cruzeiro está subestimado, pois só são informados aqueles filhos de casadas ou viúvas. Por fim, a prole liberta, cuja alforria não decorresse da Lei do Ventre Livre, igualmente não é explicitada no manuscrito. 16

É possível que tais fatores, que implicam a subestimação das crianças em geral, incidissem com maior intensidade nos plantéis maiores.

Na Tabela 6, fornecemos a distribuição dos cativos segundo sexo, estado conjugal e tamanho dos plantéis. De forma similar ao procedimento que adotamos anteriormente, é pertinente tomarmos os informes da última coluna da Tabela 4 para fins de comparação. Dessa maneira, percebemos que a última faixa de tamanho congregava 24,3% do total da escravaria, porcentual que se eleva para 36,1% dos homens casados, 41,7% dos viúvos, 38,0% das mulheres casadas e 30,8% das viúvas.

Tabela 6

Distribuição Porcentual dos Escravos de Acordo Com o Sexo, Estado Conjugal e Segundo Faixas de Tamanho dos Plantéis

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

15

Os demais ingênuos distribuem-se da seguinte forma: 7 nos plantéis de 5 a 9 escravos, 13 na faixa de 10 a 19 e os 5 restantes nos plantéis formados por de 20 a 39 indivíduos.

16 Quando resultante de matrimônios sacramentados pela Igreja, essa prole liberta fundamenta o terceiro critério de

classificação por famílias: “os cônjuges que tivessem filhos livres menores de vinte e um anos”; quando não, essa prole, incorporando os ingênuos gerados por mães solteiras, fundamenta o primeiro critério de classificação por indivíduos: “mãe ou pai com filhos livres”.

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Homens Mulheres F.T.P. _____________________ _____________________ Solt. Casd. Viúv. Solt. Casd. Viúv. 1 - 4 19,3 5,3 16,7 26,8 5,7 - 5 – 9 17,4 15,4 8,3 21,4 16,5 15,4 10 – 19 23,5 25,4 8,3 22,8 21,5 38,4 20 – 39 15,2 17,8 25,0 10,4 18,3 15,4 40 e + 24,6 36,1 41,7 18,6 38,0 30,8 Totais 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 F.T.P. = Faixas de Tamanho dos Plantéis; Solt. = Solteiros; Casd. = Casados; Viúv. = Viúvos.

À sua vez, nos plantéis de 1 a 4 cativos, onde vivia cerca de um quinto da massa escrava (Tabela 4), encontramos aproximadamente só um vigésimo das pessoas casadas (5,3% das do sexo masculino e 5,7% do feminino). Por conseguinte, ao que tudo indica, nos plantéis maiores não apenas era menos difícil o estabelecimento de relações familiares, mas também era relativamente maior a incidência de uniões legitimadas pela Igreja. Essa possibilidade, há que salientar, colocar-se-ia ainda que estivesse presente a estratégia aventada ao fim da seção anterior. Mesmo porque a ação dos escravistas, embora crucial e talvez até mais poderosa em seus efeitos, haveria de defrontar-se com a vontade dos cativos. E para estes últimos, a legitimação das uniões poderia ser desejável, independentemente ou não do aspecto religioso stricto sensu.

As famílias escravas

Iniciamos nossa análise das famílias escravas com uma breve comparação temporal. Para tanto, servimo-nos do artigo intitulado A família escrava em Lorena

(1801). 17 Nele, os autores lançam mão, como fontes primárias, das listas nominativas

de habitantes referentes a quatro dentre as oito Companhias de Ordenanças que, no alvorecer do século XIX, integravam a Vila de Nossa Senhora da Piedade de Lorena. 18

Uma das tabelas confeccionadas no artigo referido, denominada “Distribuição da população escrava segundo alguns atributos concernentes ao estado conjugal”, é por nós

17

Costa, Slenes & Schwartz (1987).

18 As quatro Cias. de Ordenanças estudadas por Costa, Slenes & Schwartz foram as primeira, segunda, quinta e

sétima. Não se analisam, portanto, as quarta e oitava Companhias, que darão origem à futura cidade de Areias; a terceira, compreendendo a então “Nova Aldea de Sam Joam de Quelluz”; e a sexta, correspondente à região de Bananal.

(12)

parcialmente reproduzida na Tabela 7. Nela agregamos, aos informes de 1801, os dados de 1874 (da “nossa” Lista). 19

São três os elementos que queremos frisar com fundamento na observação da tabela em foco. Em primeiro lugar, as distinções que resultam da utilização de fontes manuscritas de natureza diversa. 20 Essas distinções tornam-se evidentes, antes do mais,

no caso dos “irmãos(ãs)”. A identificação desses escravos na Lista, a maior parte deles (34 em um total de 49) com idade igual ou superior a 18 anos, deveu-se à informação dos nomes de seus pais no campo “pessoa de família”. Esses pais, regra geral, não apareciam entre os cativos arrolados na Lista, talvez porque já estivessem mortos. Ainda em 1874, foram igualmente vários os casos em que “juntamos” filhos legítimos, já adultos, a núcleos familiares formados por casais listados com ou sem prole, num procedimento tornado possível, uma vez mais, a partir dos informes constantes do campo “pessoa de família”. Situações como essas, amiúde, não seriam detectadas nas listas nominativas de habitantes, com o que os indivíduos envolvidos acabariam sendo somados aos “demais solteiros”. Isto decerto está ocorrendo na tabulação dos dados de Lorena em 1801.

Um segundo ponto a salientar é o seguinte. Na Lista, como vimos, há lacunas no que respeita aos escravos arrolados as quais, tendo em vista a ênfase posta nas relações de família, tendem a acarretar a subestimação da parcela relativa aos “demais solteiros”

vis-à-vis a computada nas listas nominativas. Por outro lado, nestas últimas, a não

identificação de casos como os dos filhos legítimos mencionados no parágrafo anterior tende a superestimar o peso relativo dos “demais solteiros” vis-à-vis o observado na

Lista. Como se vê, ambas as tendências reforçam-se; não obstante, excluídos os

irmãos(ãs), verificamos que a soma de casados, viúvos, filhos legítimos, mães solteiras e filhos naturais é exatamente igual em 1801 e 1874 (53,0%). Este resultado poderia eventualmente estar a refletir a existência de melhores condições para a manutenção das famílias escravas em 1801 em comparação a 1874. 21 Antes, porém, de aceitarmos

19

Vale lembrar que, em 1842, a localidade de Silveiras foi elevada à ategoria de Vila, desmembrando-se de Lorena.

20

Enquanto as Listas de Classificação para Emancipação privilegiam a ordenação dos escravos em famílias, tais unidades familiares não são, o mais das vezes, claramente explicitadas nas listas nominativas; não obstante, quanto a este quesito, o documento de Lorena em 1801 é um dos mais completos de que se tem notícia.

21

Assim, por exemplo, se os 1.191 escravos que correspondem aos 53,0% da Lista fossem comparados não com o total de cativos listados (2.245) e sim com a massa escrava computada na Matrícula (2.964 indivíduos, como informado na Tabela 1), o aludido porcentual reduzir-se-ia para 40,2%.

(13)

totalmente essa hipótese, há que considerar o terceiro dos aspectos que queremos ressaltar acerca da Tabela 7.

Tabela 7

Distribuição da População Escrava Segundo Alguns Atributos Concernentes ao Estado Conjugal

(Lorena, 1801; Lorena e Cruzeiro, 1874)

1801 1874 Atributos ________________ ________________ % % ac. % % ac. Casados 19,4 14,6 Viúvos 1,3 20,7 1,1 15,7 Filhos legítimos 18,1 38,8 11,3 27,0 Mães solteiras 5,3 9,9 Filhos naturais 8,9 53,0 16,1 53,0 Irmãos(ãs) - - 2,2 55,2 Demais solteiros 47,0 100,0 44,8 100,0 Totais 100,0 100,0

% ac. = Porcentagens acumuladas.

Obs.: Para 1801, reproduzimos os dados constantes de Costa, Slenes & Schwartz (1987, p. 250, tabela 4).

Este terceiro aspecto implica retomar os possíveis efeitos da legislação e a decorrente estratégia dos escravistas aos quais já nos referimos anteriormente. Pois os fatores cuja soma conduzem à igualdade em 53,0% são bastante diferentes em 1801 e 1874. Assim, casados, viúvos e filhos legítimos, conjuntamente, correspondiam a quase dois quintos (38,8%) dos cativos no início do século XIX e a pouco mais de um quarto (27,0%) em 1874. No que respeita às mães solteiras e aos filhos naturais, a situação inverte-se: eles (mães e filhos) perfaziam tão-somente 14,2% dos escravos em 1801, porcentual que se eleva para 26,0% sete décadas depois. Em suma, condições aparentemente menos favoráveis para as famílias escravas em 1874 talvez signifiquem apenas uma incidência maior de uniões legitimadas pela Igreja em 1801. 22

Atenhamo-nos agora aos dados da Lista. Com esse intuito, repetimos, na Tabela 8, os informes da tabela anterior concernentes a 1874, todavia organizados de maneira um tanto diferente. Desta feita acrescentamos os números absolutos e agrupamos os

22

E, tratando-se de ligações consensuais, há que lembrar que vale para a Lista o mesmo comentário feito com relação às listas nominativas de habitantes: os dados “(...) eventualmente subestimam a presença das relações familiares entre os escravos, pois seriam computados como ‘demais solteiros’: os casais em vivência consensual, sem filhos; os companheiros presentes, mas não identificados, das mães solteiras; e aqueles indivíduos que, tendo desfrutado da vida em família consensual, encontravam-se sós à época do recenseamento, devido à morte ou ausência do

(14)

indivíduos de acordo com os distintos vínculos familiares identificados. Examinemos, a partir dos dados da aludida Tabela 8, três segmentos que se destacam dentre aqueles nela contemplados: os casais em que ambos os cônjuges eram escravos; as mães cativas, fossem elas casadas, viúvas ou solteiras, e os filhos, escravos ou ingênuos, legítimos ou naturais, que integravam as famílias escravas.

Tabela 8

Distribuição da População Escrava Segundo Distintos Vínculos Familiares

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

Escravos Números absolutos Porcentual

• casais com filhos a

• cônjuges 188 8,4 • filhos 223 9,9 • casais sem filhos 116 5,2

• viúvos(as) com filhos a

• viúvos(as) 16 0,7 • filhos 25 1,1 • viúvos(as) isolados 9 0,4

• pessoas casadas com cônjuge de outro proprietário

• cônjuges 20 0,9 • filhos 1 0,0 • homem casado com filhos

• pai 1 0,0 • filhos 5 0,3 • mulheres casadas com cônjuges

libertos, sem filhos 2 0,1 • irmãos(ãs) 49 2,2 • mães solteiras com filhos

• mães b 223 9,9 • filhos 362 16,1 SUBTOTAL 1.240 55,2 • demais escravos 1.005 44,8 TOTAL 2.245 100,0 a

Os casais e os viúvos(as) com filhos possuíam também, respectivamente, 38 e 5 filhos ingênuos.

b

Entre estas mães incluem-se 37 mulheres solteiras com filhos livres, que compunham o primeiro critério de preferência na libertação por indivíduos (cf. art. 27 do regulamento aprovado pelo Decreto 5.135).

companheiro ou companheira, e à ausência ou inexistência de descendência, incluindo-se aqui situação equivalente à dos viúvos sem filhos presentes” (Motta, 1999, p. 246).

(15)

Observamos, de início, que 13,6% dos indivíduos da Lista compunham um total de 152 casais. Para maioria deles (94 casos, isto é, 61,8%) identificamos a presença de um ou mais filhos, os quais perfaziam cerca de um décimo do total de cativos (223 indivíduos, aos quais se somavam 38 crianças ingênuas). Outros 58 casais (38,2%) foram classificados sem filhos. Na Tabela 9 fornecemos a distribuição dos casais segundo faixas de tamanho dos plantéis e de acordo com a presença ou não de prole. Percebemos que tanto os casais com como os sem filhos concentravam-se nos plantéis de maior tamanho, em proporções não meramente reflexas da distribuição do conjunto da população cativa.

De fato, servindo-nos, mais uma vez, da última coluna da Tabela 4 para fins comparativos, observamos que, nos plantéis da primeira faixa de tamanho vivia cerca de um quinto da escravaria (19,9%), mas tão-somente 6,9% e 2,1%, respectivamente, dos casais sem e com filhos. Essa ordem decrescente de valores porcentuais inverte-se para os plantéis com 40 ou mais elementos: 24,3% (Tabela 4), 34,5% (casais sem filhos) e 40,4% (casais com filhos). Notamos, pois, que a aludida concentração dos cônjuges nos plantéis maiores era também mais intensa nos casos em que a prole se fazia presente. Dessa forma, os porcentuais da distribuição dos casais referentes às três primeiras faixas de tamanho são mais elevados quando não há filhos vis-à-vis os calculados para os casais com prole, o contrário ocorrendo nas duas últimas faixas consideradas. Plantéis maiores poderiam proporcionar melhores condições para o aumento das famílias e, a sua vez, o aumento das famílias acarretaria, em princípio, o incremento no tamanho dos plantéis.

Podemos avançar um pouco nossa análise dos casais escravos a partir do informe das idades médias dos cônjuges, igualmente apresentado na Tabela 9, segundo faixas de tamanho dos plantéis. 23 Verificamos que a idade média dos homens (47,4

anos) e das mulheres (43,9) que formavam os casais sem filhos superavam as idades médias correspondentes de maridos (42,5) e esposas (34,3) com filhos. Esse resultado, ademais, vale para os cativos de ambos os sexos nas diversas faixas de tamanho

23

É preciso salientar que as idades atribuídas aos escravos na Lista decerto carecem de maior precisão, característica que, de resto, não é exclusiva deste tipo de fonte documental (ver, entre outros, Nozoe & Costa, 1992). Em verdade, além de ser um informe prestado de maneira aproximada, é possível que eventuais distorções estivessem conforme o fato de serem os recursos do Fundo de Emancipação uma indenização paga aos escravistas pela libertação de seus cativos. Aí radicaria, também, um dos fatores explicativos da superestimação dos preços dos escravos constantes da Lista (cf. Motta & Marcondes, 1999, p. 536-538). Ainda que seja oportuno ter sempre em mente essa ressalva, não

(16)

contempladas, com uma única exceção: os homens nos plantéis de 20 a 39 escravos. Esta última faixa de tamanho destoa das demais, com ou sem prole presente, pois é a única na qual a idade média das esposas (42,0) foi mais elevada que a dos maridos (40,2). É digno de nota que, em 17 (29,3%) dos 58 casais sem filhos, a idade da mulher superava a do homem, situação que ocorria em tão-somente 7 (7,5%) dos 94 casais com filhos.

Tabela 9

Distribuição dos Casais e Idade Média dos Cônjuges Segundo Faixas de Tamanho dos Plantéis

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

Casais Idades Médias F.T.P. _______________ _____________________________ Número % Marido Esposa Diferença • Casais sem filhos

2 - 4 4 6,9 51,3 43,3 8,0 5 – 9 11 19,0 52,5 43,6 8,9 10 – 19 14 24,1 47,9 42,1 5,8 20 – 39 9 15,5 40,2 42,0 -1,8 40 e + 20 34,5 46,6 46,3 0,3 Totais 58 100,0 47,4 43,9 3,5

Casais com filhos

2 - 4 2 2,1 32,5 32,5 zero 5 – 9 15 16,0 41,3 30,9 10,4 10 – 19 19 20,2 40,9 33,2 7,7 20 – 39 20 21,3 43,3 37,3 6,0 40 e + 38 40,4 43,8 34,7 9,1 Totais 94 100,0 42,5 34,3 8,2

Voltemos nossa atenção, em primeiro lugar, para as idades médias mais elevadas dos cônjuges que integravam os casais sem filhos. Em tais casais, por exemplo, eram quatro os maridos septuagenários, idade que não foi verificada nenhuma vez entre os cônjuges homens com filhos; com relação às mulheres, apenas 5 das que compunham os casais sem filhos (8,6%) tinham idade inferior a 30 anos, o que ocorria para 32 (34,0%) das esposas dos casais com filhos. É, portanto, bastante plausível supor que, em boa medida, os casais sem filhos correspondessem a situações nas quais a prole já houvesse cremos que ela comprometa os comentários que se fazem a seguir, pois os vieses introduzidos tenderiam a se compensar mutuamente.

(17)

sido gerada, mas não mais convivesse com seus pais em 1874. Esses filhos poderiam ter morrido, ou sido objeto de venda, ou ainda poderiam estar presentes mas sem qualquer indicação que nos permitisse reconstruir a relação de parentesco com seus pais.

A diferença etária entre as esposas com e sem filhos corrobora nossa hipótese. Assim, a menos dos plantéis de 20 a 39 cativos, nos quais essa diferença era de 4,7 anos, nas demais faixas de tamanho as idades médias das cônjuges sem filhos era de 8,9 a 12,7 anos superior à das esposas com filhos. Adicionalmente, se considerarmos que as idades médias mais elevadas dos maridos sem filhos  superiores a 50 anos  foram computadas exatamente nas duas primeiras faixas de tamanho dos plantéis, é possível igualmente sugerir que os respectivos proprietários estivessem vivenciando a fase final de seu ciclo de vida, com o que estaria em processo a fragmentação da propriedade escrava anteriormente amealhada, acarretando, eventualmente, a ruptura de vínculos familiares estabelecidos entre os cativos. Vale dizer, estaríamos defronte à última etapa do modelo cíclico de destruição, construção e dispersão da família escrava elaborado por Herbert Gutman. 24

No que respeita às diferenças etárias entre maridos e esposas, é interessante observarmos que, dos 17 casais sem filhos nos quais a mulher era mais velha, as diferenças oscilaram de 1 a 15 anos. Esta última cifra ocorreu duas vezes: em um mesmo plantel, composto por 77 escravos, viviam Honório, de 30 anos, e sua esposa Eva, de 45, e Félix, de 45 anos, com sua mulher, Benedita, de 60. De outra parte, também entre os casais sem prole encontramos diferenças etárias em favor dos maridos  33 casos, isto é, a maioria (56,9%) desses casais. Dentre tais diferenças, as maiores foram de 30 e 25 anos: Adão, de 60 anos, e sua esposa Thereza, de 30, integrantes de um plantel com 8 cativos; e Bento, de 60 anos, e sua mulher Theresa, de 35, que viviam em um plantel com 5 escravos. 25

24

Gutman (1976, p. 137-143). Esse movimento cíclico acompanha as diversas fases da vida  e da atividade econômica  do proprietário de pequenas plantações. Este, ao iniciar sua vida adulta, procede à formação de sua força de trabalho, com isso ocasionando amiúde a destruição de laços familiares anteriormente possuídos por seus escravos. Tais laços vão se reconstruindo e desenvolvendo, em um processo de estabilização e reprodução da mão-de-obra que marca a “meia-idade” do senhor. Por fim, a velhice ou a morte deste freqüentemente provoca a quebra dos laços construídos na etapa anterior, tendo lugar a dispersão da força de trabalho.

25

Esses casos extremos remetem-nos à hipótese aventada por Florentino e Góes para os cativos das áreas rurais do Rio de Janeiro, em especial em momentos de estabilidade nos desembarques de africanos (entre 1790 e 1807), quando “(...) os mais velhos homens dominaram o mercado de mulheres férteis. (...) O monopólio dos homens maduros e idosos era tão forte sobre as mulheres férteis, que os cativos jovens eram permanentemente excluídos do acesso a estas últimas. Aos escravos muito moços, em particular aos nascidos na África, restavam apenas as mulheres com idade bem superior à deles” (Florentino & Góes, 1997, p. 154). Todavia, cabe frisar, na Lista de 1874,

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Entre os casais com filhos, a magnitude dessas diferenças etárias pouco destoa da encontrada entre os cônjuges sem prole. Assim, as maiores diferenças em favor dos homens atingiram a cifra dos 30 anos; e aquelas em favor das mulheres chegaram ao máximo de 20 anos. Contudo, como vimos, entre os casais com prole foram muito menos freqüentes as situações em que as esposas eram mais velhas que seus maridos. Mais ainda, essas situações, havendo filhos presentes ou não, ocorreram de forma particularmente concentrada nos plantéis de maior tamanho: 12 (70,6%) dos 17 casos entre os casais sem filhos; 6 (85,7%) dos 7 casos entre os casais com filhos. É possível que essa disparidade na freqüência de casais nos quais a mulher era mais velha estivesse relacionada ao padrão de segundos casamentos de viúvas. De um lado, as possibilidades de ocorrência desses segundos matrimônios seriam maiores nos maiores plantéis; de outro, a presença de filhos poderia tornar as aludidas viúvas menos propícias a efetuar uma nova união. 26

Debrucemo-nos agora sobre o contingente formado pelas mães cativas e seus filhos. Para tanto, permanecemos com a atenção voltada para as 94 esposas dos casais com filhos e para sua respectiva prole (223 escravos e 38 ingênuos). Ademais, incorporamos à análise as 11 viúvas com prole (23 filhos, 5 deles ingênuos), 27 bem

como as 186 mães solteiras com seus 362 filhos e, por fim, Eva, a quem já nos referimos anteriormente, única dentre os cativos casados com cônjuges pertencentes a proprietários distintos que era listada com um rebento, o menino Salvador. Apenas não computamos em nossos cálculos  como explicitado em nota que inserimos nas Tabelas 10 e 11  as 37 mães solteiras com filhos livres às quais se referia o primeiro critério de preferência na libertação por indivíduos, pois não obtivemos nenhuma informação acerca da sua prole. 28

Primeiramente, na Tabela 10, apresentamos a distribuição das mães por diferentes faixas de tamanho dos plantéis e consoante seu estado conjugal. Com relação às viúvas, o reduzido número de observações (apenas 11 casos) impede que avancemos maiores considerações. Quanto às casadas e solteiras, a observação dos porcentuais para pouco menos da metade (46,6%) dos casais sem filhos  e também dos com filhos (45,7%)  as diferenças etárias entre os cônjuges oscilou entre tão-somente 0 e 5 anos.

26

Abstemo-nos, pois, cautelosamente, de propor a vigência, num contexto tão díspar como o de Lorena e Cruzeiro em 1874, do mesmo “monopólio dos homens maduros e idosos” sugerido por Florentino e Góes para o Rio de Janeiro de fins do século XVIII e inícios do XIX (ver a nota de rodapé anterior).

27

Os restantes 5 viúvos com filhos, constantes da Tabela 8, eram homens, cuja prole somava 7 indivíduos, todos escravos.

(19)

respectivos permite identificar nítida disparidade. Assim, mais de três quintos (62,1%) das mães casadas encontravam-se em plantéis com 20 ou mais componentes, enquanto quase três quartos (74,2%) das solteiras viviam em plantéis com menos de 20 cativos. 29

Em seguida, na Tabela 11, ainda segundo o estado conjugal, fornecemos a distribuição das mães escravas conforme o número de filhos presentes na Lista. Pouco menos da metade (45,3%) das mães casadas tinham 3 ou mais filhos, enquanto mais de três quartos das solteiras tinham menos de 3 rebentos. De fato, a idade média das mães solteiras era inferior à das casadas (30,0 versus 34,5 anos), bem como o número médio de filhos listados no documento (1,9 versus 2,8). 30

Tabela 10

Distribuição das Mães Escravas de Acordo com o Estado Conjugal e Segundo Faixas de Tamanho dos Plantéis

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

Mães escravas ________________________________________________ F.T.P. Casadas a Viúvas Solteiras b ______________ ______________ ______________ nº. % nº. % nº. % 2 - 4 2 2,1 - - 47 25,3 5 – 9 15 15,8 2 18,2 44 23,6 10 – 19 19 20,0 5 45,4 47 25,3 20 – 39 20 21,1 2 18,2 19 10,2 40 e + 39 41,0 2 18,2 29 15,6 Totais 95 100,0 11 100,0 186 100,0 F.T.P. = Faixas de Tamanho dos Plantéis.

a

Incluída a escrava Eva, casada com cativo pertencente a proprietário distinto do seu.

b

Não incluídas as 37 mães solteiras com filhos livres que compunham o 1º critério de classificação para emancipação de indivíduos, pois não constam da Lista quaisquer informes acerca da prole.

Os dois casos em que a prole atinge a marca dos dez indivíduos são emblemáticos seja da possível estabilidade a caracterizar muitas das uniões firmadas entre os escravos, seja da importância que a família escrava poderia assumir no que toca ao próprio processo de acumulação em cativos, processo este para o qual, é claro, estariam voltados os interesses dos proprietários. Ilustremos essa afirmativa com a descrição de um desses dois casos. Dessa forma, o casal Ricardo e Martha, respectivamente com 50 e 38 anos de idade, eram pais de uma criança ingênua, Getúlio,

28

A essas 37 mulheres, contudo, referir-nos-emos adiante, sempre que julgarmos pertinente.

29

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de apenas 1 ano. Sua prole era composta também dos seguintes cativos: Maria (2 anos), Onofre (4), Theóphilo (5), Januário (10), Sebastiana (12), Sebastião (12), Clementina (15), Brigida (18) e Geraldo (20). Com base nesses informes, vemos que Martha teria começado a conceber com a idade de 18 anos, por volta de 1854, e continuava trazendo à luz frutos de sua união com Ricardo por ocasião da confecção da Lista. Os doze integrantes dessa família correspondiam a 44,4% do plantel em que viviam. A eles somavam-se três outros casais, um dos quais sem filhos, outro com uma criança e o terceiro com três rebentos, um deles ingênuo. Cinco cativos solteiros, com idades entre 22 e 45 anos, um dos quais do sexo feminino, completavam esse plantel formado por 25 indivíduos e duas crianças nascidas livres. Portanto, mais de quatro quintos (81,5%) desses indivíduos compunham as quatro unidades familiares; e mais da metade deles (14, isto é, 51,8%) eram filhos gerados no seio dessas famílias, concepções que acarretaram, ao longo do tempo, a duplicação do tamanho do aludido plantel. 31

Há que ressaltar que a terceira prole mais numerosa foi gerada por uma cativa solteira. Luiza, de 48 anos, era mãe de Magdalena (5 anos), Sebastião (11), Luís (13), Lourenço (15), Rosa (17), Bárbara (19), Josepha (21) e Benedito (24). Seria essa família resultante de uniões sucessivas, promíscuas, ou um exemplo de vínculo consensual, tão estável quanto os dois exemplos anteriores parecem ser? Não nos será possível avançar uma resposta definitiva a esta questão, mormente sem o recurso a outras fontes documentais (em especial, os registros paroquiais). Cabe, tão-somente, observarmos que Luiza e seus 8 filhos viviam num plantel formado por 10 pessoas, sendo a décima um homem solteiro, Tobias, de profissão tropeiro. A idade de Tobias (30 anos), entretanto, não nos permite sugerir ser ele o “companheiro” de Luiza. Ele, de fato, poderia ser seu “atual” companheiro, mas igualmente poderia ser seu filho mais velho, ou mesmo poderia não possuir qualquer relacionamento de família com os demais escravos integrantes do plantel. Independentemente de tais considerações, o certo é que há, no mínimo, uma família matrifocal no bojo da qual acham-se 90,0% dos componentes do plantel aludido.

30

A idade média das mães viúvas igualou-se a 39,0, e seu número médio de filhos a 2,1.

31

Vale frisar que os porcentuais fornecidos para este exemplo foram calculados sobre o total considerando-se conjuntamente escravos e ingênuos.

(21)

Tabela 11

Distribuição das Mães Escravas de Acordo com o Estado Conjugal e Segundo o Número de Filhos Presentes na Lista

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

Mães escravas ________________________________________________ Número Casadas a Viúvas Solteiras b de filhos ______________ ______________ ______________ nº. % nº. % nº. % 1 32 33,7 4 36,3 87 46,8 2 20 21,0 3 27,3 55 29,6 3 13 13,7 3 27,3 24 12,9 4 15 15,8 1 9,1 13 7,0 5 9 9,5 - - 3 1,6 6 2 2,1 - - 3 1,6 7 2 2,1 - - - - 8 - - - - 1 0,5 10 2 2,1 - - - - Totais 95 100,0 11 100,0 186 100,0 a

Incluída a escrava Eva, casada com cativo pertencente a proprietário distinto do seu.

b

Não incluídas as 37 mães solteiras com filhos livres que compunham o 1º critério de classificação para emancipação de indivíduos, pois não constam da Lista quaisquer informes acerca da prole.

A possibilidade, aventada acima para o caso de Luiza, de mais de uma união vivenciada pelas mães escravas relaciona-se, também, à detecção de vários casos em que os intervalos genésicos foram elevados: no dito exemplo de Luiza, os seis anos decorridos entre as concepções de Sebastião e Magdalena. Assim, para 17,2% das mães solteiras, 26,3% das casadas e 36,4% das viúvas houve intervalos iguais ou superiores a 5 anos. É evidente que tais intervalos não necessariamente implicam a ocorrência de segundas ligações. Por exemplo, num plantel formado por 39 escravos, vivia a família de Francisco Angola, 45 anos, sua mulher Carlota, 43 anos, e o filho do casal, Marcos, de 2 anos; no mesmo plantel vivia também Felipe, de 23 anos de idade, sobre o qual se informava, no campo “pessoa de família” os nomes dos pais: Francisco e Carlota. Assim, é possível que outros filhos estivessem presentes sem que os tenhamos identificado; outros ainda podiam ter sido transacionados, ou mesmo morrido. A precisão foi menor em casos como o da família de Martinho e Bebiana, ambos com 45 anos de idade e compondo um casal com três filhos pequenos: Zulmira (6 anos), Zacarias (4) e João (1); no plantel do qual faziam parte, formado por 43 cativos, vivia

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também Casemiro, solteiro de 25 anos, sobre quem se informava apenas o nome da mãe, Bebiana.

Tabela 12

Distribuição dos Filhos Escravos e Ingênuos Segundo Faixas Etárias e de Acordo com o Estado Conjugal de Suas Mães

(Lorena e Cruzeiro, 1874)

Mães escravas ________________________________________________ Fx.etárias Casadas a Viúvas Solteiras b dos filhos ______________ ______________ ______________ nº. % nº. % nº. % 0 - 4 94a 40,0 7 3,0 134 57,0 5 – 11 91 37,8 1 0,4 149 61,8 12 – 19 64 44,1 12 8,3 69 47,6 20 e + 13 52,0 3 12,0 9 36,0 Totais 262 23 361b F.T.P. = Faixas de Tamanho dos Plantéis.

Obs.: Os valores porcentuais somam 100,0% na horizontal, ou seja, para cada faixa etária dos filhos.

a

Incluído o cativo Salvador, de 4 anos de idade, filho da escrava Eva, casada com cativo pertencente a proprietário distinto do seu.

b

Excluída a escrava Eufrásia, cuja idade não foi possível determinar, filha de Firmina (solteira, 40 anos) e irmã de Ana (15 anos).

Esses intervalos genésicos mais amplos, em geral envolvendo filhos com idades mais elevadas (20 ou mais anos), ocorriam para mães independentemente de seu estado conjugal. Todavia, esses filhos mais velhos eram absoluta e relativamente mais freqüentes entre as mães casadas. Os menores valores do número médio de filhos e da idade média das mães solteiras auxiliam-nos na interpretação dos informes constantes da Tabela 12. Nela, fornecemos a distribuição dos filhos, escravos ou ingênuos, de acordo com quatro faixas etárias e levando-se em conta simultaneamente o estado conjugal das respectivas mães. Percebemos que, não obstante as casadas correspondessem a menos de um terço (32,5%) das mães, elas possuíam mais de dois quintos (40,6%) dos filhos, proporção que atinge os 44,1% na faixa etária dos 12 aos 19 anos e chega a 52,0% dos filhos com 20 ou mais anos de idade. As solteiras, a seu turno, perfazendo quase dois terços (63,7%) das mães, possuíam apenas pouco mais de um terço (36,0%) desses filhos de maior idade.

Por fim, não podemos deixar de fazer referência aos quatro casos em que identificamos famílias que se estendiam por mais de uma geração. Todos esses casos

(23)

envolviam mães solteiras com filhos vivendo em plantéis com mais de 4 e menos de 20 escravos. Antonia, de 37 anos de idade, era mãe de Catharina (15) e também de Benedita (20); esta última, a sua vez, era mãe de 4 rebentos com idades entre 2 e 6 anos. Francelina, de 49 anos, tinha 4 filhos, 2 deles do sexo feminino, uma das quais, Germana, de 21 anos, era também mãe de três crianças. Mariana, de 46 anos, era mãe de Evaristo (20) e Victalina (18), esta última mãe de Francisca (2). E Zeferina (24), tinha 5 filhos; a mais velha deles, Maria (14) era mãe de Luzia (3 anos).

Considerações finais

A Lista de Classificação dos Escravos para Emancipação mostrou-se fonte

valiosa para o estudo da família escrava nas localidades valeparaibanas paulistas de Lorena e Cruzeiro na primeira metade da década de 1870. Comparada a duas outras fontes relativas ao mesmo lustro  a matrícula de escravos e, em especial, o Recenseamento Geral do Império  , a Lista apresenta lacunas radicadas sobretudo entre os indivíduos com mais de 50 anos e, em menor medida, entre as crianças com 6 a 10 anos de idade. A subenumeração desses contingentes decorria dos próprios critérios que norteavam a confecção daquele documento, que privilegiavam os cativos participantes de relações familiares. Por esse mesmo motivo, a razão de masculinidade calculada para a Lista foi menor que a computada com base nas duas outras fontes mencionadas.

A análise da estrutura da posse de escravos corroborou, para as localidades e período por nós contemplados, algumas características que se têm assentado como largamente generalizáveis para o escravismo brasileiro. Por exemplo, de um lado, a supremacia numérica, entre os escravistas, daqueles detentores de poucos cativos. Assim, em Lorena e Cruzeiro em 1874, mais de quatro quintos dos proprietários possuíam plantéis com menos de 10 escravos; cerca de dois terços detinham de 1 a 4 cativos; e pouco menos de um terço eram possuidores de plantéis unitários. De outro lado, uma decrescente dificuldade relativa para o estabelecimento de relações familiares entre os escravos, à medida que era maior o tamanho dos plantéis nos quais eles viviam. E, como vimos no caso da Lista, era também relativamente maior a incidência de uniões legitimadas pela Igreja nos plantéis maiores.

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E aqui há que salientar um elemento fundamental a condicionar as relações familiares escravas na década de 1870. Trata-se do impacto da legislação de 1869 e, em seguida, da Lei do Ventre Livre, proibindo a separação de cônjuges e de pais e filhos cativos, além da própria regulamentação do Fundo de Emancipação, da qual o manuscrito que compulsamos é uma resultante. Ora, um efeito desse conjunto de leis e regulamentos teria sido tornar os escravistas mais resistentes aos casamentos unindo seus cativos, ainda que não necessariamente contrários ao estabelecimento de relações consensuais. A comparação que fizemos com a Lorena de 1801 é bastante ilustrativa do impacto aludido. Ainda que a soma dos indivíduos casados ou viúvos, com seus filhos legítimos, e das mães solteiras e seus filhos naturais tivesse o mesmo resultado em 1801 e 1874, o aumento, neste último ano, do peso relativo das mães solteiras e sua prole é bastante expressivo.

Não obstante a tendência acima exposta, nos plantéis maiores de Lorena e Cruzeiro em 1874, a grande maioria dos cativos partícipes de relações de família eram-no a partir de uniões legitimadas. Poder-se-ia aventar que o efeito da legislação demandaria um lapso de tempo mais dilatado para ser plenamente sentido. É possível. Mas é também plausível sugerir que, ao menos em certa medida, devemos considerar um outro fator. Pois o interesse dos proprietários, é evidente, teria de chocar-se com as vontades dos escravos, por mais oprimidas que estas estivessem. E, para os cativos, a legitimação das uniões poderia ser desejável, e mais do nunca até então, talvez até mesmo por força daquela mesma legislação.

Com base nesse pano de fundo que vimos sumariando, examinamos três segmentos formados por indivíduos que partilhavam dos distintos vínculos familiares identificados na Lista: os casais em que ambos os cônjuges eram escravos; as mães cativas, fossem elas casadas, viúvas ou solteiras; e os filhos, escravos ou ingênuos, legítimos ou naturais. Foram várias as inferências extraídas dessa análise, mas cremos que seria supérfluo repeti-las nestas considerações finais. De fato, se algo talvez deve ser aqui repetido, que o seja o elenco daquele plantel composto por 25 escravos acompanhados por duas crianças ingênuas, conjunto de indivíduos dos quais 22 formavam quatro famílias. Eram José (30 anos) e sua esposa Dionísia (22), um casal sem prole; Victor (50) e sua mulher Virgínia (48), com seu filho Levy (10); Francisco (50), Martinha (48) e os filhos Gervásio (15), João (5) e Andreza, ingênua (2); e Ricardo

(25)

(50), sua esposa Martha (38) e seus filhos Geraldo (20), Brígida (18), Clementina (15), Sebastião (12), Sebastiana (12), Januário (10), Theóphilo (5), Onofre (4), Maria (2) e Getúlio, ingênuo (1 ano de idade). Cientes, como estamos todos, da inegável violência inerente ao instituto da escravidão, um plantel como esse retrata uma faceta instigante do cotidiano dos escravos no Brasil.

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