O DIABO NA MÁQUINA
DE BRINCAR*
SALMA FERRAZ OLIVEIRA**
Chamo-me Lúcifer, aquele que traz a luz. Assim cantavam os anjos menores, até que lhes foi proibido este canto. Desde então, meu apelido corrói os tempos anunciando aquele que arma ciladas. Bazófia: o homem dispensa Satanás e sabe perder-se por si mesmo. (Walmor Santos)
A
Teopoética, ramo dos estudos comparados entre Teologia e Literatura, proposta por Karl-Josef Kuschel, em 1991, no seu livro Os Escritores e as Escrituras, versa sobre aná-lise literária e estilística da Bíblia enquanto literatura. Este estudo aponta para o caráter literário do épico javista bem como a riqueza dos personagens bíblicos que se oferecem com uma arca a ser explorada, repleta de tesouros para e literatura, cinema, pintura, teatro etc. A Teologia não é detentora do monopólio dos mesmos. Este ramo de estudos já está consolidado no Brasil na América Latina e na Europa. Dentro da Teopoética encontramos centenas de publicaçõesResumo: o presente artigo analisa a árvore genealógica do Diabo na Bíblia, na Li-teratura Ocidental, no Cinema, na LiLi-teratura Infantil (acessada por crianças), a concepção de Orígenes acerca do Diabo e as críticas recebidas pelo livro A Máquina de Brincar, do escritor Paulo Bentancur.
Palavras-chave: Diabo. Bíblia. Literatura. Literatura Infantil. Inquisição.
* Recebido em: 07.02.2017. Aprovado em: 25.09.2017. Agradeço pela cuidadosa revisão e contribuição na escrita final do artigo, feitas pela colega Ivoni Richter Reimer.
** Pós-Doutorado em Teologia e Literatura. Doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Graduada em Letras (UEPJMF) e Teologia (FACASC). Professora associada da Universidade Federal de Santa Catarina, atuando na Pós Graduação Linha de Pesquisa Teopoética: Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura. E-mail: [email protected]
sobre a Bíblia, Deus, Madalena, Judas e o Diabo, bem como, a apropriação e transcriação que centenas de autores de diversas culturas fizeram destes personagens.
E através daquilo que Antoine Compagnon, em sua obra O Trabalho da Citação (1996), chamou de recorte, colagem, repetição, alteração, intervenção e que Julia Kristeva, em Introdução à Semanálise (2012), define como intertextualidade, é que o Diabo, como um ser de papel, se man-tém mais vivo do que nunca, saindo dos limites da Teologia e mergulhando no mundo das artes. ÁRVORE GENEALÓGICA DO DIABO
Difícil seria explicar aqui a origem deste magnífico personagem bíblico, visto que centenas de obras já foram escritas tentando fazer uma síntese. Resumidamente afirmamos que ele é uma amálgama da serpente do Gênesis bíblico, do bode expiatório presente em Le-vítico 16, do tentador/provocador do prólogo do livro de Jó, do tentador de Jesus no deserto, das centenas de endemoniados retratados nos Evangelhos e do dragão de Apocalipse 12. No Primeiro/Antigo Testamento, o bem e o mal só procedem de YHVH. Mas é no zoroastrismo persa, em torno do século IV A.C., que os hebreus encontraram o dualismo, bem versus mal: Spenta Mainyu representando o bem e Angra Mainyu representando o mal. Cabe ressaltar que o Zoroastrismo deve seu nome ao profeta Zoroastro, cuja data de nascimento é alvo de intermináveis debates, mas parece ter vivido no século VII A.C, no nordeste do antigo Irã.
Tentando uma síntese diríamos que o Diabo passa despercebido e ofuscado pelo Jardim da Infância no Primeiro Testamento, uma Adolescência na época em que os judeus tiveram contato com a cultura persa e a Idade Madura com o advento Cristianismo. Quanto à velhice e à morte do Diabo, esta está difícil de chegar!
O Cristianismo, no início uma seita do Judaísmo, no Segundo/Novo Testamento será influenciado fortemente pelo dualismo persa e nele teremos duas figuras distintas, Jesus represen-tando o bem e o Diabo, o mal. Interessante que o Judaísmo tribal começa com um politeísmo em que cabem deuses e deusas como Astarte, Baal, Asherá (REIMER, 2008; CORDEIRO, 2008). A conquista do monoteísmo é um longo processo, que passa por reformas violentas e cruéis como as Reformas de Ezequias (716-687 a.C.) e Josias (640-609 a.C.), reformas que extirparam todos os outros deuses e ídolos. Quando os judeus voltaram do exílio babilônico, em 530 a.C., trouxeram na bagagem a influência do dualismo persa que, por sua vez, influenciará os dissidentes judeus na fundação de um Cristianismo monoteísta, mesmo que no formato demonoteísmo dual. Desde esta época, Deus e o Diabo são alteridades incômodas que pairam sobre o Ocidente.
Desde a Serpente Tentadora do livro de Gênesis, passando pelo Bode Expiatório do Dia da expiação do Livro de Levíticos, ao Tentador de Jó no Livro do mesmo nome (em verdade, Jó é tentado por Deus e não pelo Diabo), ao Tentador de Jesus no Deserto, chegan-do ao Dragão aprisionachegan-do de Apocalipse 12, a árvore genealógica chegan-do Diabo aponta numa só direção: zoroastrismo persa. E a genealogia do Diabo na Literatura?
DIABO: O NONADA QUE É TUDO
“Arre, ele está misturado em tudo.”
(Guimarães Rosa) Teria chegado finalmente a hora e a vez de Lúcifer nas letras profanas? Conjectu-remos! O Diabo, Lúcifer, Satanás ou seus derivativos sempre se ofereceram para a literatura
como um tema inesgotável e recorrente. Impossível citar aqui todas as obras literárias de todas as línguas de todos os tempos que tratam daquele que Giovanni Papini em sua obra O diabo: apontamentos para uma futura diabologia, publicada em 1953, denominou de segundogênito do Pai e Ferraz, em obra publicada em 2012 pela UDUEL intitulada As Malasartes de Lúcifer, denominou de a antiodisséia de Lúcifer, antiépica de Lúcifer, antiteodicéia de Lúcifer, Odisséia Luciferina ou Satanicéia. Escolhemos algumas obras de nossa preferência nas quais o prota-gonista é o Diabo ou nas quais ele ocupa um papel de destaque: A Divina Comédia de Dante Alighieri (1321), O Paraíso Perdido de John Milton (1667, acrescida de dois novos cantos em 1674), Fausto de Goethe (1808), As Litanias de Satanás de Charles Baudelaire (1857), O Diabo no Campanário de Edgar Allan Poe (1839), O Diabo Coxo de Luis Velez de Guevara (1641), Carta de um Diabo a seu aprendiz de C. S. Lewis (1942), O Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente (1517), O Senhor Diabo de Eça de Queirós (1867), A Hora do Diabo de Fernando Pessoa (publicação póstuma em 1988), O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago (1991), Macário de Álvares de Azevedo (1852), Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1956), A Igreja do Diabo (1884), Adão e Eva (1896), O Anjo Rafael, publicado no Jornal das Famílias (1869), além do magnífico O Sermão do Diabo (1893), todos de Machado de Assis. O DIABO É HISTÓRIA DA CARROCHINHA
Figura 1: Os três cabelos de ouro do Diabo
Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-1Pgxo7VWiYM/UzmuZwA1wCI/AAAAAAAABP8/cRbI0-OtfII/s1600/Os+tr%C3%A As+fios+de+ouro+do+cabelo+do+diabo.jpg > Acesso em: 21 jun. 2017.
Na literatura Infantil, centenas são os contos escritos sobre o Diabo. Citamos al-guns de nossa preferência: O Recibo do Diabo de Walter Scott (1824), Os três cabelos de ouro do Diabo/O Diabo e seus três fios de cabelo dourado, O ferreiro e o Diabo, O irmão fuliginoso do Diabo, O Diabo da Farda Verde, O Diabo e sua vó, Os animais do Senhor e do Diabo, todos coletados entre 1812 e 1815 pelos Irmãos Grimm (PFÜTZENREUTER, 2014), O Moinho do Diabo de Andersen (1835 - 1844), Carvões para a lareira do Diabo (conto do folclore irlan-dês), A criança vendida para o Diabo (conto do folclore francês), O Arquidiabo Belfegor
(
1518), de Niccoló Machiavelli.Na literatura infantil, em língua portuguesa contemporânea, há uma riqueza de produções em que o Diabo é protagonista, citamos alguns mais conhecidos: O Diabo na noite de Natal, de Osman Lins (1977), De Morte!, de Angela Lago (1992), Com Mil Diabos, de Ernani Ssó (2010), A noiva do Diabo, de Celso Sisto (2000), O Diabo era mais em baixo, de Manu Maltes (2012). Um belo e comovente livro, no qual o Diabo é uma mulher, vem da literatura francesa: A Diaba e sua filha, de Marie Ndiaye (2000). Não poderíamos deixar de citar o conto O bom Diabo, do livro Histórias de Tia Nastácia, de Monteiro Lobato (1937). Na impossibilidade de elencarmos o vastíssimo corpus em que o Diabo é protagonista nos livros de crianças, na atualidade, remetemos o(a) leitor(a) à tese defendida por Klamt (2016), na Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina.
Na literatura brasileira contemporânea, só a título de exemplo, citamos Lênin desce aos infernos, de Paulo Coelho, os divertidíssimos contos Belzebu.com e Alma Vendo, de Luiz Fernando Veríssimo, Eu e Bebu na hora neutra da Madrugada, de Rubens Braga e um conto que é uma pérola literária de Walmor Santos, intitulado Nostalgia do Amor Ausente.
O DIABO NA TELA DO CINEMA
Na literatura de cordel, o Diabo reina supremo, faceiro, arrogante namorador, vio-leiro e quase sempre enganado. A produção que se concentra no nordeste brasivio-leiro é tão vasta que dezenas de teses e livros já foram escritas sobre este tema (OLIVEIRA, 2013). No cinema brasileiro, o Diabo está bem retratado em dezenas de filmes. No filme do Auto da Compadeci-da (1999), baseado no livro homônimo de Ariano Suassuna, seguindo a tradição dos contos de engano do diabo, ele é ludibriado por Chicó. Na dissertação de mestrado, intitulada O Diabo também brasileiro: a figura de Satanás no Cinema Nacional, Felipe de Monte Guerra (2011) faz uma análise de 18 filmes brasileiros.
No cinema norte-americano, se fossemos apontar todos os filmes que tematizam o Diabo, Satanás ou Lúcifer, teríamos que escrever várias teses. Mencionamos os mais famosos: O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski (1968), O Exorcista, de William Friedkin (1973), O Advogado do Diabo, de Taylor Hackford (1997), O Exorcismo de Emily, Rose de Scott Derri-ckson (2005).
O Diabo é um dos personagens que, devido ao papel desempenhado nos Evangelhos da Bíblia, tem merecido o maior número de adjetivos no passar dos milênios. Relacionemos os mais interessantes: O Semi-hazad, Azazel, Belial, Asmodeu (hebreus); o Eblis (muçulmano); The Old Man (Escócia); o Macaco de Deus (Idade Média); o Maligno, o Inimigo, o Tentador, o Maldito, o Pai da Mentira, o Príncipe das Trevas. Estes adjetivos são usados em quase todas as línguas.
ALCUNHAS DO DIABO
Seja como anjo caído, a serpente, o dragão, o Diabo é adjetivado de maneira cria-tiva em várias línguas, mas nada suplanta a riqueza e irreverência da língua portuguesa. Na a linguagem rosiana, o Diabo é definido como algo que não é, mas há de ter (ROSA, s/d). Eis seus mais conhecidos apelidos no português:
anhanga ou anhangá, anhangüera, arrenegado, azucrim, barzabu, barzabum, beiçudo, belzebu, berzabu, berzabum, berzebu, bicho-preto, bode-preto, brazabum, bute, cafuçu, cafute, caneco, caneta, canheta, canhim, canhoto, cão, cão-miúdo, cão-tinhoso, capa-verde, capeta, capete, capiroto, careca, carocho, chavelhudo, cifé, coisa, coisa-à-toa, coisa-má, coisa-ruim, condenado, coxo, cramulhano, cujo, debo, decho, demo, demonho, demônio, demontre, diá, diabinho, diabrete, diabro, diacho, diale, dialho, diangas, diangras, dianho, diasco, diogo, dragão, droga, dubá, éblis, ele, excomungado, farrapeiro, fate, feio, figura, fioto, fute, futrico, galhardo, gato-preto, grão-tinhoso, guedelha, indivíduo, inimigo, jeropari, jurupari, labrego, lá-de-baixo, lúcifer, macacão, macaco, mafarrico, maioral, má-jeira, maldito, mal-encarado, maligno, malino, malvado, manfarrico, mau, mico, mofento, mofino, satã, satanás, satânico, serpente, sujo, taneco, temba, tendeiro, tentação, tentador, tição, tinhoso, tisnado, zarapelho, moleque, moleque--do-surrão, não-sei-que-diga, nem-sei-que-diga, nico, cascudo, de-cabra, pé--de-gancho, pé-de-pato, pé-de-peia, pêro-botelho, pedro-botelho, peneireiro, porco, porco-sujo, provinco, que-diga, rabão, rabudo, rapaz, romãozinho, sapucaio, sarnento, etc. (CASCUDO, 2012, s/p.).
Na parte teórica, muitos são os livros que tratam do tema, entre eles, mesmo que aqui não referenciados: Biografia do Diabo (1996), de Alberto Cousté, História Geral do Dia-bo, de Gerard Messadié (1993), Pensando com os Demônios de Stuart Clark (1997), Uma História do Diabo, de Robert Muchembled (2000), O diabo – A máscara sem rosto, de Luther Link (1995), As origens de Satanás de Elaine Pagels (1996), O Diabo, Uma Biografia de Pe-ter Stanford (1996), O Diabo no Imaginário Cristão de Carlos Roberto Nogueira (2000), As Fronteiras da Demonologia e Psiquiatria de João Carvalhal Ribas (1964), Escrituras de Deus e o Diabo, de Bárbara Simões e Robert Daubert Jr (2012).
ADVOGADOS DO DIABO: ORÍGENES E PAPINI
Giovanni Papini (1881-1956) foi um dos intelectuais mais polêmicos do seu tem-po, tendo sido excomungado e tido dois livros no Index do Vaticano, e concluiu seus dias, em 1956, como um católico devoto. Foi jornalista, crítico, teólogo à sua maneira, poeta e nove-lista. Seu livro O Diabo foi tema de grandes discussões e controvérsias. Esse livro, publicado em 1953, apresenta na contracapa o subtítulo Apontamentos para uma futura Diabologia.
Ele aponta os seguintes problemas na relação Cristianismo x Lúcifer: 1) os teólogos deveriam estudar Deus e se envergonhar de suas ideias ridículas sobre o Diabo; 2) que se te-ólogos (envergonhados) e filósofos desertaram desse assunto, e coube aos poetas a admiração pelo grande Adversário; 3) que o Demônio recuperou atualmente os seus direitos de cida-dania; 4) que o Diabo é pouco conhecido, apesar de onipresente, ora negado, ora adorado,
ora temido, ora decantado, vilipendiado, mais popular que realmente compreendido, 5) que o cristão não pode e não deve amar a rebeldia e o mal de Satã, mas pode e deve amar nele a criatura mais infeliz de toda a Criação; 6) se o mal não existisse, não existiriam santos e, nesse sentido, pode-se afirmar que o Diabo é, por vontade divina, um coadjutor de Deus; 7) que o Diabo foi o primeiro a reconhecer o caráter crístico de Jesus, antes de qualquer de seus discípulos e antes mesmo de que o próprio Nazareno tivesse proclamado sua divindade etc. (PAPINI, 1953).
Segundo Papini, os cristãos devem amar o Arcanjo que um dia foi o mais próximo de Deus e orar pela salvação do Inimigo.
Poderíamos continuar mencionando o raciocínio brilhante de Papini, mas termi-namos a exploração, ainda que genérica, de sua obra, com uma de suas conclusões brilhantes. Ele ana lisa a obra Divinae Institutiones II, do africano Lucio Célio Firmiano Lactâncio (240-320). Lactâncio afirma que Lúcifer é a segunda Pessoa da Trindade. Papini, a partir deste pensamento, afirma que Lúcifer era o secundogénito do Pai, o irmão mais novo do futuro Cristo. A futura dia bologia, da qual Papini diz estar fazendo apenas apontamentos, já estava completamente escrita por ele. Para ele, se Deus é amor, o Diabo merece perdão.
Papini foi influenciado diretamente por Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesa-réia (185-254), um dos Padres Gregos e um dos maiores eruditos da Igreja Antiga. Sua doutrina mais polêmica foi a Apocatástasis, segundo a qual, no final dos tempos haveria um retorno ao estado primitivo e todos os pecadores, anjos rebeldes e o próprio Satanás seriam recebidos no seio amoroso de Deus, ou seja, toda criação seria restaurada e perdoada (LACOSTE, s/d). Esta doutrina foi condenada no Sínodo de Endemousa, em Constantinopla (543), no Concílio de Constantinopla II (553), no Concílio de Latrão IV (1215) e pela Constituição Dogmática Bene-dictus Deus, de Benedicto XII (1336). Para A Igreja Católica, Satanás não merece ser perdoado. Orígenes e Papini foram cristãos, assumindo até as últimas consequências do Cris-tianismo, inclusive as mais temerárias. E a pergunta temerária que não pode se calar tanto para Orígenes como para Papini é: um Deus definido como absoluto amor não deveria per-doar o Diabo, já que um dos maiores mandamentos é amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem?
INQUISITIO HAERETICÆ PRAVITATIS SANCTUM OFFICIUM: PAULO BENTANCUR
E o Diabo, para o bem ou para o mal, faz parte, ou fará parte da vida do escritor Paulo Bentancur. Causou-nos espanto a polêmica envolvendo um autor gaúcho que publicou um livro para crianças, em 2005, pela Editora Bertrand Brasil, intitulado A Máquina de Brin-car e só agora em 2014, nove anos após, começou a receber dezenas de críticas (não literárias) em diversos sites da internet.
Foge de nosso objetivo, neste artigo, discutir a enorme produção teórica sobre o que é literatura infantil, literatura juvenil, o que é literatura acessada por criança ou até mes-mo se existe uma literatura adjetivada de infantil ou juvenil. Muitos teóricos se debruçaram sobre este tema. O que aquinos interessa é que editoras e livrarias catalogam estes livros para crianças. São categorizadas e destinadas, estão numa prateleira para crianças, e o autor em questão escreveu este livro para este público. Segue a biografia do escritor que retiramos do seu próprio site1:
Paulo (Roberto Ribeiro) Bentancur nasceu em Santana do Livramento, RS, em 20 de agosto de 1957. É escritor, poeta e crítico, praticando diversos gêneros, do infanto-juvenil à poesia. Foi editor da Imprensa Oficial do RS (2000-2002 [...], e Coordenador do Livro e Literatura, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre. Teve contos publicados na Argentina e na Itália. Ganhou quatro prêmios Açorianos: 1995, categoria especial, a
Instruções Para Iludir Relógios (um livro sem gênero); 1996, infanto-juvenil, a O Menino Escondido (Freud); 2004, categoria especial, como organizador de Simões Lopes Neto – Obra Completa; e em 2005, em poesia, para Bodas de Osso. [...]. Ganhou dois prêmios especiais,
Maria Bentancur, nascida em 1984, e Laura Marengo Bentancur, em 1999. E perdeu dois: a mãe, em 2002, e o pai, em 2007. Torce para o Internacional mas não dispensa nenhum papo com um gremista que goste de ler livros, não importa de que autor.
INDEX LIBRORUM PROHIBITORUM: A MÁQUINA DE BRINCAR
Figura 2: Capa do livro
Fonte: http://3.bp.blogspot.com/-2AIF-X3r_7M/U8BCpb6q2XI /AAAAAAAANgY/ 5QZH4k1M6yA/s1600/1.jpg>. cesso em: 23 jun. 2017
A bibliografia do autor chega a 30 obras publicadas e pode ser consultada em seu site. Ele escreve tanto para crianças como para adultos. A Máquina de Brincar parece ser um livro proibido, pois não conseguimos achá-lo em nenhum lugar. Reviramos tudo: a internet, os sebos e nada. O livro sumiu como num passe de mágica. Como não conseguimos ler o livro por inteiro, só aos pedaços, nas páginas publicadas por sites e blogs que acusam o autor de heresia, satanismo, baseamo-nos em resenha apresentada por William Veríssimo2:
O autor Paulo Bentancur, escritor de diversas obras, entre elas “A Máquina de Brincar”, se viu numa situação inusitada. Seu livro, publicado no ano de 2005, passou, de uma hora
pra outra, a receber uma enxurrada de críticas. A obra é instigante: dividida em duas partes, o livro possui 25 textos em forma de poemas para ser lidos no escuro e no claro. O conteúdo,
no entanto, passou a ser considerado inadequado para crianças por algumas pessoas que passaram a publicar uma espécie de corrente nas redes sociais boicotando a obra.
No mesmo ano de sua publicação, o livro foi adotado como parte do acervo do Governo do Estado de São Paulo, e passou a integrar bibliotecas públicas. Sem problemas ou polêmicas
desde então, a obra passou a ser alvo de ataques, e ganhou além das redes sociais, alguns portais de notícias e blogs espaço entre os assuntos noticiados, e claro, compartilhados.
Este veterano e reconhecido autor surpreendeu-se com os ataques recebidos3:
Nove anos depois de lançado e comprado pelo Governo de São Paulo para distribuição às bibliotecas públicas, meu livro A Máquina de Brincar (toda criança é uma “máquina”, um instrumento, um ser construído pela biologia a partir da qual brota a imaginação) vem recebendo, de uma hora para outra, de repente, como se se organizasse um movimento, e por causa de 2 poemas entre 25 (97% dos poemas “sem problemas”), sem mais nem menos, como se eu estivesse escrevendo sob uma ótica religiosa, quando nem religioso sou.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, em 08/07/2014, o autor se defende de fazer apologia ao Diabo:
Quis fazer um livro diferente. As crianças de hoje são inteligentes, gostam de suspense, de figuras lendárias. E qual o problema de brincar com Deus e o diabo? Não faço apologia
ao demônio, apenas brinco com o lado bom e o lado mau das coisas4.
O autor não sabe explicar a razão de a obra ter virado alvo do que ele define como um movimento de fanáticos. Para ele, ateu confesso, Deus e o diabo são “ótimos personagens de ficção”, com os quais brinca nos poemas. Na sua opinião, 90% dos que o criticam nem leram os poemas. Ele considera seus textos bem-humorados: “Busco a beleza das palavras e das imagens. Não faço propaganda religiosa”, esclarece.
O escritor explica que escreveu sobre uma visão livre de ideologias, e colocou Deus e o Diabo como personagens para gerar uma reflexão, sem nenhum enfoque religioso e que jamais pensou que viraria alvo de um movimento de fanáticos5:
Escrevo sobre uma ótica literária, artística, um protesto moralizante e por causa de uma dupla de poeminhas na qual eu brinco (o livro é infantil); num reclamando de Deus
nunca dar as caras, e noutro achando o Diabo muito engraçado, um ótimo parceiro para a gente se divertir. Afinal, o livro, pelo gênero, deve mesmo ser irreverente. [...]
É literatura, é arte. E mais: sou ateu (tenho direito, constitucional), logo não acredito na
existência civil, concreta de Deus e do Diabo. Conclusão: para mim os dois são personagens de ficção.
O autor acredita estar sendo julgado injustamente e defende o direito de expressão em seu fazer artístico:
O que é pensar e o que é escrever literatura? É pura invenção para a qual a liberdade é fundamental, trabalho que não pode estar atrelado a nenhum tipo de crendice [...]
Acredito que os protestos estão se dirigindo à pessoa errada e à obra errada!
Inserimos, abaixo, uma imagem do livro. Ela faz parte de um conjunto de fotos tiradas por detratores do livro e postadas no facebook e foram repassadas e curtidas por milha-res de pessoas. Em todos os sites e blogs pesquisados, as imagens estão pmilha-resentes e se repetem.
Figura 3: Poema “O que Deus nos deu”
Neste artigo, por uma questão de limitação de páginas, não daremos conta de deba-ter sobre a Estética da Recepção, tão bem construída por Wolfgang Iser, Hans Robert Jauss, Stanley Fish, que apontam para o duplo horizonte do ato da leitura. O que nos interessa, aqui, é como determinado público recebeu esta obra, e como a projetou.
São diversos os ataques em blogs, sites, facebook, etc. Fotos de livro foram publi-cadas no facebook quase nove anos depois do lançamento do livro e aí a ‘coisa’ desandou com curtidas e depoimentos. Separamos três para análise. Uma das primeiras internautas a colocar as fotos do livro no facebook foi compartilhada com 49 mil usuários da rede social. A internauta que é mãe de uma garota de nove anos, teve acesso ao livro via escola de sua filha. Este foi retirado de um site gospel com a seguinte chamada: Livro infantil, diabo ami-go, Deus Covarde, Livro infantil distribuído em escolas públicas chama o diabo de “amigo” e Deus de covarde, apologia ao diabo6:
PARA VOCÊ QUE ACHA QUE SEUS FILHOS ESTÃO SEGUROS NO QUARTO LENDO LIVROS. LEIA O QUE ACONTECEU COM A MINHA FAMÍLIA. Todos
sabem como incentivo leitura para minhas filhas desde bebê. O contato das crianças com os livros passa por várias fases. Primeiro eu lia para elas, depois eu lia com elas e hoje elas leem sozinhas. Na hora de comprar um livro eu olho a capa, o tema, a sinopse, sobre o autor e a faixa etária. Depois peço que elas me falem sobre o que leram. Achei que isso era mais do que suficiente até o dia em que Ana Ester (9 anos) disse: “Mãe, tem algo errado com esse livro. No meio dele encontrei uma página ‘para ler no escuro’ e depois coisas horríveis…”. Me desculpe o autor, mas se alguém torna uma obra pública, eu tenho o direito de criticar e emitir minha opinião. Um livro para criança que invoca
o diabo para ser amigo da mesma, diz que Deus não aparece porque é covarde e pequenino e termina dizendo que o capeta venceu, para mim é uma literatura totalmente imprópria. Não venha me dizer que isso é poesia. Isso, para mim, é pura heresia. Estou indignada por
ter colocado algo assim na minha casa e nas mãos das minhas filhas. Que critério usar quando compro livros infantis? Vou ter que ler antes todas as páginas? Como algo assim pode ser liberado para publicação e considerado literatura infantil?
Em outro post, o livro que coloca o maniqueísmo herdado pelo Cristianismo do Zo-roastrismo, numa máquina de brincar (que obviamente não foi interpretada desta maneira), ganhou ares de teológicos, uma vez que está enquadrado em categorias como: A MÁQUINA DE BRINCAR COM O DIABO: Angelologia, Apologética, Fim dos Tempos, Mensagens Subliminares. O autor, um reverendo de uma Igreja Presbiteriana, cita em seu blog “Regulae Fidei - Regra de Fé”, retomando o depoimento da mãe no facebook citado acima:
Hoje fui abordado por minha esposa acerca de uma postagem na página "Vigilantes dos Pequeninos", no Facebook ([...] de uma mãe descontente com a descoberta). A leitura e imagens proporcionaram a necessidade de uma pesquisa sobre o assunto, afinal, somos cristãos e tal conteúdo não é compatível com nossa fé. [...]
Pesquisei seriamente o assunto na internet e foi isso que obtive: (citação do texto da internauta mãe do facebook)
[...]
2) Sobre o Livro: O que fora anunciado por jornais como o gaúcho Zero Hora e o Jornal de Brasília, também foi adotado pelo Governo do Estado de São Paulo através do PNLD, o Programa Nacional do Livro Didático. [...]
3) Minha Opinião: "Quem não lê, não vê"... concordo.
Em todas as áreas da vida os pais são extremamente responsáveis pelo conteúdo ministrado sobre seus filhos. [...] Quando os pais são omissos em seu papel educador e formador os re-sultados são desastrosos. [...] É um direito deles. No escopo religioso cristão, por exemplo, os pais perceberão pontos de contato com a Bíblia que, para eles, podem ser nocivos aos filhos. Sim, é fato que na parte "Para ler no Claro" se fala de Deus; contudo, "Para ler no Es-curo" se refere ao Diabo. É claro que, para o cristão, descrever Deus para as crianças não é
um problema; falar do diabo, contudo, é um grande. [...] Aos mais maduros, também creio
que é possível acessar tal conteúdo ao lado da criança, ensinando-a dentro do caminho em que ela deva andar. É uma questão de foro familiar.
cristã. Além de apresentar um deus distante, medroso e derrotado, com uma aparente "mensa-gem subliminar", por meio de figuras e termos, endossa um perfil diabólico contrário às Escri-turas. [...] Escritores são livres para escrever e devem ser respeitados. As opiniões distintas
(mesmo as religiosas) também são livres e devem ser respeitadas. É o que penso7.
Observamos que o reverendo fez uma pesquisa acurada antes de emitir seu parecer. Já em outro site, o autor é acusado de Satanismo e Comunismo. A chamada está em letras maiúsculas: LIVRO INFANTIL PROMOVE SATANISMO NO BRASIL COMUNISTA8:
A Máquina de Brincar, de Paulo Bentancur, é um livro infantil que claramente invoca o
Diabo e desdenha de Deus. [A descrição feita no site do autor é...] meio ingênua
apresen-tando um livro com um evidente fim ideológico nada ingênuo.
Como se não bastassem filmes, seriados, novelas etc., que fazem apologia ao mal e às suas práticas destruidoras da família e da sociedade, de forma direta ou indireta, até a litera-tura infantil não anda sendo poupada. Com a ideologia de gênero, a desconstrução da sexualidade e da família confundindo e pervertendo a cabeça das crianças; e agora, por que não, livros infantis que, nitidamente têm o propósito de desconstruir o cristianismo,
promovem o satanismo e incentivam o caos social.
O livro infantil, em questão, faz um verdadeiro culto à Satanás, uma invocação simpática e direta ao Diabo e, ao mesmo tempo, debocha de Deus, cultiva o Mal e menospreza o Bem. Cor-rupção de menores? A Bíblia não pode nas escolas, mas a veneração ao Diabo pode? A sociedade
já não anda violenta demais? Tire as suas próprias conclusões.
O autor do site segue o mesmo padrão dos demais, colocando os posts anteriores e as páginas do livro. Poderíamos citar diversos outros cujas chamadas seguem a linha de: Desde-nhando de Deus: Deus tem medo de descer do Céu. Parece que o que incomodou bastante foi o fato de que o livro foi adotado pelo governo do Estado de São Paulo. E como o estado é laico, o livro adotado, retratando o Diabo amigo e bonzinho, foi encarado como uma ofensa por estes cristãos, que não entenderam o livro como literatura e brincadeira. Não se pode brincar com Deus, mas como o Diabo também não!
Uma das poucas vozes discordante foi a do Doutor em Ciências da Religião, o professor Edebrande Cavalieri que assim se expressou9:
Sob regime do medo não se educa para a fé, para a vida, para Deus. Se o livro leva as pessoas
a viverem com menos medo, a discutir a questão do mal com tranquilidade, ótimo. As
pessoas têm uma imagem estereotipada do demônio.
Esta manifestação oriunda do mundo acadêmico deverá instigar outras investiga-ções na área da Teologia, que se coloque em diálogo interdisciplinar com a Literatura10. DIABO: ESTÓRIAS DA CAROCHINHA
Provavelmente estas pessoas não conhecem os muitos livros aqui citados que tem o Diabo como protagonista, muito menos ou talvez nem tanto o pensamento de Orígenes
e Papini. Uma propaganda circulada no grupo RBS, afiliada da Rede Globo, causou igual polêmica entre cristãos no sul do Brasil. A Campanha pela melhoria da educação, intitulada A Educação Precisa de Respostas, colocou o Diabo junto ao Bicho Papão, Mula Sem cabeça, Bruxa Malvada e Boi da Cara Preta11. Este é o lugar perfeito dele: histórias da carrochinha! A RBS, contudo, foi acusada de igualar Deus e Diabo e colocar o Diabo bonzinho. Aliás, as crianças gostaram muito do Diabo pai e seu filho diabinho vermelhinho.
Figura 4: Propaganda da RBS
Fonte: http://i1.wp.com/noticias.gospelmais. com.br/files/2013/06/monstrinhos-rbs.jpg?resize=600%2C400
Este é, na nossa opinião, o lugar do Diabo, o maior legado ficcional do Cristianis-mo ao Ocidente, o bode expiatório do Ocidente Cristão: nos contos de fadas, em histórias da carochinha, numa máquina de brincar, um ser de papel, nos limites de ficção literária e da psiquiatria. Em seu livro As Fronteiras da Demonologia e da Psiquiatria, João Carvalhal Ribas (1964) assevera que a maior parte dos casos de ‘endemoniados’ são casos psiquiátri-cos: possessões, pactos, incubato, sucubato, licantropia, sabath, marcas no corpo, etc. Ele mesmo criou um termo psiquiátrico: demonopatas = aqueles doentes mentais melancólicos que acreditam ser possuídos pelo demônio. Para ele “a demonologia constituiu os primórdios da Psiquiatria [...]” e a feiticeira, enfim, foi a precursora de Freud (RIBAS, 1964, p.11-12, grifo nosso).
Para não permanecermos apenas só no mundo ocidental cristão, perguntamos: por que será que o Estado Islâmico escraviza e mata os Yazidis? Os Yazidis somam menos de um milhão de pessoas e habitam a região de Sinjar, no Iraque. Praticam uma antiga religião sin-crética, o iazidismo, uma espécie de iazdânismo ligada ao zoroastrismo e às antigas religiões da Mesopotâmia.
Figura 5: Fugitivos Yazidis
Fonte: https://abrilexame.files.wordpress.com/2016/09/size_960_16_9_yazidis-iraque3. jpg?quality=70&strip=info
Yazidis são tratados como politeístas, e como politeístas não podem nem sequer pagar imposto (jizyah) para serem protegidos pelos muçulmanos. Na visão dos muçulmanos fanáticos, eles são espólio de guerra e podem ser divididos e escravizados. Contudo, parece--nos que a raiz de tudo isto é clara: os Yazidis são considerados adoradores do Diabo. Trata-se de um povo destruído, massacrado escravizado como adorador do Diabo. Neste contexto, o Artigo intitulado Melek Taus, o luciferianismo árabe12 esclarece:
Melek Taus [...] ou o anjo pavão, é o nome para a figura central da fé Yazidi. Na religião
Yazidi , Deus criou o mundo, e o mundo está agora sob os cuidados de um Heptal (7 seres santos), muitas vezes conhecidos como Anjos ou sirr heft (os Sete Mistérios). Pro-eminente entre estes é Tawûsê Melek (frequentemente conhecido como Melek Taus em publicações em inglês), o Anjo Pavão.
A razão para a reputação Yazidis de serem adoradores do diabo está ligado ao nome de
Melek Taus, chamado também de Shaytan (Satanás), o mesmo nome que o Corão tem para Satanás e identificado na Bíblia como o mesmo. [...]
Os Yazidi não aceitam que eles são adoradores do diabo, e negam ser adoradores do diabo. [...] O Yazidi considera Tawûsê Melek uma emanação de Deus e um benevolente
anjo que redimiu-se de sua queda e se tornou um demiurgo que criou o cosmos a partir do ovo cósmico. Depois ele se arrependeu, ele chorou por 7.000 anos, as lágrimas enchendo
sete frascos, que depois apagaram o fogo do inferno.
Cristãos, muçulmanos e outros identificam Melek Tawûsê como Lúcifer ou Satanás. De acordo com o Black Book Yazidi , os Yazidis estão proibidos de dizer o nome de ” Shaitan“ou” Satanás “. Yazidis, no entanto, acreditam que Tawûsê Melek não é uma fonte
de mal ou maldade. Eles consideram que ele é o líder dos arcanjos , e não um anjo caído ou desgraçado, e uma emanação do próprio Deus. [...] Eles também sustentam que a origem do
Inserimos, na imagem abaixo, o Anjo Pavão, que se recusou a se curvar perante Adão: Como posso curvar-me a outro ser! Sou de sua iluminação, enquanto Adão é feito de pó14.
Nesta versão do mito, este Anjo, ao invés de ser castigado, como no Cristianismo, é reco-nhecido e exaltado por Deus por sua luminosidade e sua liderança, transformando-o em seu representante na Terra, ao qual ele sempre vem no na primeira quarta-feira de Nisan (Abril), que é dia de sua criação e o Dia do Ano Novo.
Figura 6: Anjo Pavão
Fonte: http://1.bp.blogspot.com/-ctNvuUu7t_0/VXG4TkY2ZOI/AAAAAAAATcA /poK0VbNQiNk /s1600/ anjopav%25C3%25A3o.jpg
Paulo Bentancur escreveu estórias de Vang Gog, Shakespeare, Platão, Aristóte-les, Machado de Assis, Kafka, com contos traduzidos na Itália e na Argentina, e ganhou notoriedade por conta do Diabo. Ficções, mitos, fantasias recriadas: no ocidente o Dia-bo foi o rebelde, o Lúcifer que portou a luz e foi rejeitado, para o qual não há salvação. No Cristianismo isto é dogma de fé. Em nome deste dogma milhares de pessoas foram mortas. Basta citar aqui o livro O Martelo das Feiticeiras, publicado pela primeira vez na Alemanha em 1487, escrito por dois inquisidores dominicanos, Heinrich Kraemer e James Sprenger. O cético estudioso da Bíblia, Steve Wells (2010), em livro ainda não traduzido no Brasil, intitulado Drunk with Blood: God's Killings in the Bible, faz a conta literal dos mortos na Bíblia e chega ao espantoso numero de 2,5 milhões. Para Wells, o número de mortos atribuídos a Satanás são apenas 10, os Filhos de Jó, vítimas de uma estúpida aposta e ainda aqui Satanás age sob ordem de YHVH15. Ao autor não mencionou os milhões de mortos das religiões do
deus abraâmico (judaico-cristão-islâmico) ao longo de milhares de anos...
Para os Yazidis, a ficção foi modificada, talvez para melhor: o Anjo luciférico não se curvou a Adão, é líder dos Arcanjos e representante de Deus na terra. Por esta crença são mortos como adoradores do Diabo.
Talvez o Nonada continue a ser tudo graças aos demonopatas de plantão. Se os demo-nopatas entendessem que O Diabo é um mero ser de papel, ficção das ficções, mito, fantasia, lacuna das lacunas mentais, criação de homens que necessitam de deuses para jogar sobre eles seus medos, angústias e frustrações, ou um caso de psiquiatria, então talvez a estória do autor, cuja obra foi lançada no Index Interneturum, a vida dos cristãos, dos Yazidis, a estória do mundo seriam mais leve e suave!
PARA FINALIZAR
Presente em todas as culturas, o Diabo faz parte das obras de arte escritas e visuais. Textos sagrados de religiões judaicas, cristãs e islâmicas o apresentam como opositor a Deus. Como parte da história interpretativa, visualidades, comunicação cinematográfica e literatura contribuem para a continuidade de sua presença em todas as épocas da história de maneiras diferenciadas: às vezes, consolidando, outras, questionando, e ainda outras, brincando. Aqui, destacamos parte da obra de Paulo Bentancur, em seu livro A Máquina de Brincas, bem como a repercussão maiormente negativa em relação à mesma. Nelas, evidencia-se a defesa de um Cris-tianismo que contribui(u) na disseminação de uma cultura dualista, que opera com oposições como ‘Bem-Mal’, ‘Deus-Diabo’, que estão impregnadas na construção das relações sociais. Por isto, também o tema da demonologia deveria colocar-se como desafio para próximos estudos. THE DEVIL IN THE PLAYING MACHINE
Abstract: this article analyzes the Devil's genealogical tree in the Bible, Western Literature, Cin-ema, Children's Literature (accessed by children), Devil's conception by Orígenes and the criticism received by the book The Play Machine of the writer Paulo Bentancur.
Keywords: Devil. Bible. Literature. Children's Literature. Inquisition.
Notas
1 Ver http://www.paulobentancur.com. Consultado em 09/12/2014.
2 Ver detalhes e maiores informações em: http://www.popmundi.com.br/blogs/will-e-uma-noticias/sou-ateu-autor-paulo-bentancur-fala-sobre-polemica-envolvendo-livro-de-poemas/, consultado em 09/12/2014, destaque nosso.
3 Ver maiores informações no seu site http://www.popmundi.com.br/blogs/will-e-uma-noticias/sou-ateu-autor-paulo-bentancur-fala-sobre-polemica-envolvendo-livro-de-poemas/ . consultado em 10/12/2014. 4 Ver em:
http://www.jornaldebrasilia.com.br/entretenimento/cultura/559123/livro-infanto-juvenil-com-conteudo-controverso-causa-revolta-entre-maes-nas-redes-sociais/, consultado em 09/12/2014, destaque nosso. 5 As próximas citações foram extraídas de http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2014/07//noticias/
cidades/ 1492358-diabo-em-livro-infanto-juvenil-vira-polemica.html, consultado em 10/12/2014. Ver também: http://www.popmundi.com.br/blogs/will-e-uma- noticias/sou-ateu-autor-paulo- bentancur-fala-sobre-polemica-envolvendo-livro-de-poemas/. Consultado em 10/12/2014, destaques nossos.
6 Citação extraída de: http://noticias.gospelmais.com.br/livro-infantil-diabo-amigo-deus-covarde-69340. html, consultado em 10/12/2014, grifo nosso.
7 Citação extraída de http://revavds.blogspot.com.br/2014/07/a-maquina-de-brincar-com-o-diabo.html, consultado em 1012/2014, grifo nosso.
8 Citação extraída de: http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2014/07/livro-infantil-promove-satanismo-no.html, grifo o nosso, consultado em 16/12/2014.
9 Citação extraída de: http://gazetaonline.globo.com/index.php?id=/_templates/mobile-oticia.php&xml=/_ conteudo/2014/07/noticias/cidades/1492358-diabo-em-livro-infanto-juvenil-vira-polemica.html, grifo nosso, consultado em 16/12/2014.
10 Há estudos sobre demonologia ou angelologia na área da Teologia, mas que não dialogam com a Literatura. Ver, p.ex., Oro (2005), Marcon e Boff (2013). Ver também pesquisas realizadas por Cavalieri, contemplando a temática da Simbólica do Mal na Condição Humana”, em http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/ visualizacv.do?id=K4773861J6.
11 A respeito desta campanha e de sua repercussão, ver http://i1.wp.com/noticias.gospelmais. com.br/ files/2013/06/monstrinhos-rbs.jpg?resize=600%2C400, consultado em 16/12/2014.
12 Ver citação e outras informações em: https://ocultismopel.files.wordpress.com/2014/08/ melek_ taus.png. Consultado em 18/12/2014, grifo nosso.
13 https://ocultismopel.files.wordpress.com/2014/08/melek_taus.png , Consultado em 18/12/2014, negrito nosso.
14 Veja texto com diálogo em https://ocultismopel.wordpress.com/2014/08/11/melek-taus-o-luciferianismo-arabe/
15 Consultar o mapa dos mortos na bíblia em http://www.paulopes.com.br/2013/01/estudioso-soma-as-mortes-relatadas-na-biblia.html#, 22/12/2-14.
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