REUNIÕES DE REFLEXÃO DA REVISTA
PORTUGUESA DE FARMACOTERAPIA
A Reunião de Reflexão sobre Medicamentos Biossimilares teve como objetivo debater aspetos do enquadra-mento regulamentar europeu e nacional destes medicaenquadra-mentos e os desafios da implementação da sua utili-zação ao nível do Sistema Nacional de Saúde. No decorrer da reunião foram debatidos alguns aspetos rela-tivos à avaliação e comprovação da qualidade dos medicamentos biossimilares e as eventuais consequências clínicas resultantes do contexto da disponibilização ao doente, particularmente de alguns grupos de medi-camentos biossimilares. A reunião contou com a participação ativa e a opinião de todos os intervenientes. Este documento foi objeto de parecer por parte dos participantes na reunião, tendo sido a sua redação final o resultado de um processo de consulta realizado com o objetivo de elaborar um documento consensual.
MEDICAMENTOS BIOSSIMILARES
Data: 23 de maio de 2013Local: Hotel Lagoas Park, Oeiras
Contributos
António Faria Vaz – Comissão de Farmácia
e Terapêutica ARS-LVT
Armando Alcobia – Serviços Farmacêuticos
do Hospital Garcia de Orta
Carlos Fontes Ribeiro – Faculdade de Medicina
da Universidade de Coimbra/AIBILI
Carlos Gouveia Pinto – Instituto Superior
de Economia e Gestão - UTL/CISEP
Helena Canhão – Sociedade Portuguesa
de Reumatologia
João Paulo Cruz – Serviços Farmacêuticos
do Hospital de Santa Maria
José Aranda da Silva – Revista Portuguesa
de Farmacoterapia
Leopoldo Matos – Sociedade Portuguesa
de Gastrenterologia
Marta Amaral – Núcleo de Estudos de Doenças
Auto-Imunes/Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (NEDAI/SPMI)
Nuno Miranda – Sociedade Portuguesa
de Hematologia
Paula Lago – Sociedade Portuguesa
de Gastrenterologia
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Rosário Lobato – Faculdade de Farmácia
da Universidade de Lisboa
Viviana Tavares – Sociedade Portuguesa
de Reumatologia
Foram ainda convidadas:
Sociedade Portuguesa de Oncologia Sociedade Portuguesa de Dermatologia Sociedade Portuguesa de Senologia
Contextualização
Os medicamentos biológicos, ou biofármacos, termo que em português traduz com maior exatidão a natu-reza destes medicamentos, quando comparados com os medicamentos de síntese química, apresentam uma maior complexidade. Por serem derivados proteicos, a sua função depende da sua configuração final, que é influenciada por vários fatores. O seu processo de pro-dução consiste na seleção e clonagem de um gene, num vetor que é transferido para uma célula hospedeira, ocorrendo, posteriormente, os processos de cultura ce-lular, fermentação, purificação e, finalmente, a formula-ção e ampliaformula-ção de escala. Será deste modo expectável que diferentes processos de fabrico originem produtos com ligeiras diferenças e que, mesmo entre diferen-tes lodiferen-tes do mesmo produto, se verifique uma certa micro-heterogeneidade. Adicionalmente, estes medica-mentos sofrem diversas alterações no seu processo de
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produção, ao longo do seu ciclo de vida, em resultado da inovação tecnológica.
Os medicamentos biológicos revolucionaram a abor-dagem das doenças de tratamento mais complexo, col-matando necessidades terapêuticas concretas e provi-denciando o prolongamento e a melhoria da qualidade de vida. Entre os medicamentos biológicos comerciali-zados na União Europeia incluem-se moléculas como a somatropina, a epoetina, o filgastrim, o interferão, a eritropoetina, a insulina, a heparina, entre outras. Contudo, estes medicamentos apresentam um custo bastante elevado e, em muitos casos, o acesso dos do-entes ao tratamento é limitado. Com a expiração de pa-tentes de medicamentos biológicos, surge no mercado espaço para que outras empresas comercializem estes produtos. Emerge, assim, o conceito de medicamento biossimilar e, a ele associado, a competitividade de mer-cado, bem como a consequente e expetável diminuição do custo destes produtos e uma maior acessibilidade por parte dos doentes.
Os primeiros medicamentos biossimilares surgem na Europa no ano de 2006. A Europa foi, com efeito, pio-neira na publicação das primeiras normas de orientação neste domínio. O enquadramento legal e científico dos biossimilares na União Europeia data de 2004, altura em que foi publicada a primeira norma de orientação, «Guideline on Similar Biological Medicinal Products», adotada em 2005. No mesmo ano foi publicado o esbo-ço das normas de orientação gerais relativas aos aspetos clínicos, não clínicos e de qualidade, adotadas em 2006. Também nesse ano teve início a publicação de normas orientadoras específicas de classe.
Em termos de desenvolvimento, os biossimilares apresentam um custo cerca de cem vezes superior ao dos medicamentos genéricos, variando o período de desenvolvimento entre sete e oito anos, por oposição a um período de dois a quatro anos para os medica-mentos genéricos.
Devido às suas caraterísticas particulares, os mentos biossimilares não são considerados medica-mentos genéricos. Importa assim salientar os aspetos que marcam esta distinção.
Um medicamento genérico carateriza-se por ser um medicamento com a mesma composição qualitativa e quantitativa em substâncias ativas, a mesma forma farmacêutica e cuja bioequivalência com o medica-mento de referência esteja demonstrada por estudos de biodisponibilidade.
Por medicamento biossimilar entende-se um medi-camento similar a um medimedi-camento biológico ao qual foi concedida uma autorização de introdução no mer-cado, o medicamento biológico de referência. Um me-dicamento biossimilar, para ser aprovado, tem de
de-monstrar qualidade, segurança e eficácia comparáveis às do medicamento biológico original, utilizado como medicamento de referência. A posologia e a via de ad-ministração deverão ser as mesmas que as do produto de referência. Considerando as variáveis dependentes das caraterísticas moleculares e do processo de fabrico, os medicamentos biossimilares não podem ser consi-derados como medicamentos genéricos. Por esta razão, adicionalmente aos dados de qualidade, são exigidos re-sultados de estudos pré-clínicos e clínicos que demons-trem a sua segurança e eficácia.
A base do desenvolvimento de um medicamento bios-similar consite, assim, numa extensa caraterização es-trutural e funcional e na comparação do medicamento biossimilar com o de referência.
É importante realçar que nos próximos anos ocorrerá a expiração da patente de diversos anticorpos monoclo-nais, facto que, devido à complexidade deste grupo de medicamentos e ao número de patologias em que são aplicáveis, apresenta uma relevância assinalável. Os an-ticorpos monoclonais não estão limitados a uma única função, desempenhando várias funções inerentes à sua estrutura, pelo que se torna determinante, nestes casos em particular, compreender quais os procedimentos e as normas de orientação indicadas para a utilização des-tes medicamentos.
Pelas particularidades acima detalhadas, tem sido am-plamente discutida a nível das autoridades regulamen-tares do medicamento, nomeadamente a Agência Euro-peia do Medicamento (EMA), a necessidade de garantir a segurança dos doentes com a utilização de medica-mentos biossimilares. A EMA, como entidade respon-sável pela atribuição da autorização de introdução no mercado dos medicamentos biossimilares na União Eu-ropeia, não possui competências ao nível da definição da utilização destes medicamentos em cada Estado- -membro. Assim, alguns Estados-membros emitiram já recomendações relativamente à prescrição, dispen-sa e utilização local destes medicamentos.
Comparabilidade
A autorização de introdução no mercado de medicamen-tos biossimilares é obtida através de procedimento cen-tralizado, no qual a EMA avalia os medicamentos com a finalidade de autorizar a sua introdução no mercado. Os estudos de caraterização comparativa avaliam a compo-sição, as propriedades físicas, as estruturas proteicas, a pureza, isoformas ou impurezas que derivem do produ-to, assim como a atividade biológica. O processo de pro-dução entre o medicamento biológico de referência e o biossimilar pode, no entanto, apresentar diferenças. Apesar de na União Europeia os biossimilares serem equivalentes terapêuticos, a sua política de
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tuição e a sua permutabilidade constituem decisões tomadas a nível nacional, fora do âmbito das compe-tências da EMA.
Conforme o disposto no artigo n.º 10 da Diretiva 2004/27/CE, de 31 de março, que veio alterar o descrito na Diretiva 2001/83/CE, «4. Caso um medicamento biológico que seja similar a um medicamento biológico de referência não satisfaça as condições da definição de medicamento genérico, devido, em especial, às diferenças relacionadas com as matérias-primas ou a diferenças entre os proces-sos de fabrico do medicamento biológico e do medica-mento biológico de referência, os resultados dos ensaios pré-clínicos ou clínicos adequados relacionados com essas condições devem ser apresentados. A natureza e a quantidade dos dados adicionais a fornecer devem cor-responder aos critérios pertinentes (...) e às orientações circunstanciadas conexas. Não devem ser apresentados os resultados de outros ensaios constantes do processo do medicamento de referência.»
Os estudos comparativos entre o medicamento biossi-milar e o biológico de referência englobam os critérios de qualidade, segurança e eficácia que são avaliados caso a caso. Neste contexto, a qualidade foca-se na carateriza-ção físico-química e biológica, que engloba o controlo e os padrões de produção, a preparação e o processamento do produto, assim como a pureza, que deverão estar en-quadradas num determinado limite estabelecido. A es-trutura, conformação e glicosilação das proteínas afetam a eficácia (mecanismo de ação, farmacocinética e farma-codinâmica), a segurança (imunogenicidade e efeitos extra-alvo, isto é, efeitos laterais ou secundários) e a esta-bilidade. A glicosilação das proteínas permite aumentar a sua estabilidade (através da diminuição da degradação proteolítica, oxidação, ligações cruzadas, precipitação, inativação cinética, agregação, desnaturação por alte-rações de pH, química ou térmica). Este facto é crucial, uma vez que a instabilidade proteica pode originar uma resposta imunitária exacerbada.
O fabricante do medicamento biossimilar tem de proce-der ao desenvolvimento do processo de fabrico na sua to-talidade, desde a seleção da linha celular até à produção. Estas atividades são realizadas sem o pleno acesso ao his-torial do desenvolvimento do medicamento original. Por conseguinte, o potencial das diferenças entre um medi-camento biológico inovador e um biossimilar é necessa-riamente maior do que entre um medicamento biológico antes e após a implementação de uma alteração no seu fabrico, também esta suscetível de introduzir micro-hete-rogeneidade entre diferentes lotes de uma mesma marca. Quaisquer diferenças no perfil de segurança ou de efi-cácia entre o medicamento de referência e o biossimilar têm, assim, de ser justificadas. Salienta-se ainda que as
modificações introduzidas com o intuito de melhorar a eficácia não são aceites, isto é, o conceito de biossimi-lar distingue-se do conceito de simibiossimi-laridade superior (biosimilar ≠ biobetter). Esta exigência não impossibilita,
contudo, o medicamento biossimilar de apresentar superioridade em parâmetros de qualidade, nomea-damente ao nível da forma farmacêutica e das condi-ções de conservação.
De acordo com o redigido no ponto 4 da Parte II do Ane-xo I da Diretiva n.º 2003/63/CE, de 25 de junho, «(...) Se as informações requeridas no caso dos medicamentos essencialmente similares (genéricos) não permitirem a demonstração da natureza similar dos dois medicamen-tos biológicos, devem ser fornecidos dados suplementa-res, nomeadamente o perfil toxicológico e clínico. Caso um medicamento biológico (...) que diga respeito a um medicamento original ao qual foi concedido uma auto-rização de introdução no mercado na Comunidade, seja objecto de um pedido de autorização de introdução no mercado por um requerente independente depois de ter-minado o período de protecção de dados, deve ser apli-cada a abordagem que se segue: A informação a fornecer não se deve limitar aos módulos 1, 2 e 3 (dados farma-cêuticos, químicos e biológicos), acompanhada por da-dos de bioequivalência e de biodisponibilidade. Assim, o tipo e a quantidade de dados suplementares (ou seja, da-dos toxicológicos e outros dada-dos não clínicos e clínicos apropriados) serão determinados caso a caso; Devido à diversidade dos medicamentos biológicos, a necessidade de estudos identificados previstos nos módulos 4 e 5 será decidida pela autoridade competente, atendendo às ca-racterísticas específicas de cada medicamento individu-almente. Os princípios gerais a aplicar são abordados nas normas orientadoras publicadas pela Agência, tendo em conta as características do medicamento biológico em questão. Caso o medicamento originalmente autorizado tenha mais do que uma indicação, a eficácia e a seguran-ça do medicamento que se evoca como similar devem ser justificadas ou, se necessário, demonstradas separada-mente para cada uma das indicações requeridas.» A «similaridade» é então avaliada através de estudos farmacocinéticos e farmacodinâmicos, sendo utiliza-dos marcadores farmacodinâmicos para demonstrar se o mecanismo de ação é ou não sobreponível. A eficácia deve ser demonstrada em pelo menos uma das indica-ções do produto de referência, podendo eventualmente ser extrapolada para outras indicações. A extrapolação é, obrigatoriamente, avaliada caso a caso. Por outro lado, a segurança deve incluir um plano de gestão de risco robusto, a caraterização dos riscos deve ser bem funda-mentada, podendo ser incluídos dados de segurança do medicamento biológico de referência.
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Imunogenicidade
A avaliação da imunogenicidade é fulcral quando se fala de medicamentos biológicos e, consequentemente, de biossimilares. Ao contrário dos convencionais, estes medicamentos, por serem derivados proteicos, possuem uma maior capacidade para desencadear reações imuno-lógicas indesejáveis. Assim, o sistema imunitário pode reconhecê-los como elementos estranhos ao organismo e desenvolver uma resposta imunológica, razão pela qual são exigidos estudos de imunogenicidade. A duração do estudo de imunogenicidade tem de ser justificada e, nos casos de administração crónica do medicamento, é ne-cessário acompanhar os doentes durante um ano. Con-vém ter presente que o mesmo medicamento, para dife-rentes indicações terapêuticas e vias de administração poderá apresentar perfis de imunogenicidade distintos e que a própria população de doentes à qual o produto é administrado poderá influenciar o perfil de imunogeni-cidade. A ausência destes dados para uma determinada indicação deverá ser justificada. A biossimilaridade de um produto que apresente uma imunogenicidade supe-rior poderá assim ser questionável, não se verificando o mesmo com a situação inversa.
O facto de na prática clínica, em certas áreas terapêuti-cas, as opções de tratamentos serem muitas vezes escas-sas, e de ser inviável o retorno a uma terapia inicialmente seguida, induz nos médicos uma preocupação acrescida com a minimização das possibilidades de ocorrência de imunogenicidade que venham a motivar a obrigatorieda-de obrigatorieda-de alteração da terapêutica a que o doente está sujei-to. Procura-se assim retardar o momento em não haverá mais nenhuma alternativa terapêutica para o doente que já não responde às anteriormente administradas. Esta é uma preocupação acrescida que poderá condicionar a utilização de medicamentos biossimilares, designada-mente em doentes já estabilizados. Importa, no entanto, realçar que a imunogenicidade não é um problema exclu-sivo dos medicamentos biossimilares, podendo verificar--se diferentes respostas a diferentes lotes do medicamen-to original, nomeadamente após alterações no respetivo processo de fabrico.
Denominação ou Nomenclatura
Em termos de exigência legal, para efeitos de aprovação, a denominação dos novos medicamentos biossimilares obedece às mesmas regras dos restantes medicamentos, podendo consistir numa marca ou no nome da substân-cia ativa seguido do nome do titular da AIM.
No âmbito da utilização prática dos medicamentos bios-similares, é debatida a questão relativa à nomenclatu-ra que deverá ser adotada panomenclatu-ra estes medicamentos, sendo recomendado que seja avaliada a possibilidade
de implementar uma denominação para os medica-mentos biossimilares que permita uma distinção en-tre estes mais clara do que a que existe atualmente para os medicamentos genéricos.
Com o intuito de assegurar que em todos os níveis do circuito da prestação de cuidados de saúde é possível identificar com segurança qual o medicamento que é administrado aos doentes, é proposta uma nomencla-tura distinta para os medicamentos biossimilares, de-signadamente que permita garantir a rastreabilidade da marca utilizada. Esta diferenciação permitiria ga-rantir o melhor funcionamento do sistema de farma-covigilância implementado, evitando que uma reação adversa ocorrida com um medicamento biossimilar fosse imputada ao medicamento biológico original, ou vice-versa, com todas as consequências negativas que traria à recolha de informação de segurança sobre os medicamentos em causa.
Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda apenas que o medicamento biossimilar deve recorrer a uma marca distinta. No entanto, o grupo da OMS International Nonproprietary Names Group reconheceu recentemente que a abordagem atual da OMS sobre a denominação comum interna-cional para medicamentos biossimilares poderá não ser viável a longo prazo.
Perfil de Segurança
A recente legislação de farmacovigilância, definida no Regulamento 1235/2010, veio trazer uma nova filo-sofia a esta área, na medida em que as atividades de farmacovigilância passaram a ter um enfoque na mi-nimização dos riscos inerentes à utilização dos medi-camentos, em oposição à simples deteção e avaliação dos problemas de segurança.
Os biossimilares, à semelhança dos medicamentos biológicos e de outros medicamentos, nomeadamen-te as novas substâncias ativas aprovadas, ou medi-camentos cujos dados de pós-autorização assim o exijam, serão sujeitos a monitorização adicional, com obrigatoriedade de submissão de relatórios periódi-cos de segurança e de um plano de gestão de risco, constando de uma lista elaborada, publicada e geri-da pela Agência Europeia do Medicamento e sendo assinalados, quer no resumo das caraterísticas do medi-camento quer no folheto informativo, por um triângulo equilátero invertido de cor preta e com a menção «Este medicamento está sujeito a monitorização adicional».
O perfil de segurança dos medicamentos biossimilares, após a concessão da autorização, é continuamente moni-torizado. São aplicáveis as medidas de farmacovigilância de rotina e, eventualmente, medidas adicionais que
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verão ser definidas no plano de gestão de risco de cada produto, individualmente. A imunogenicidade deverá sempre constar no plano de gestão de risco dos biossi-milares. Em termos de rastreabilidade, para fins de far-macovigilância, a designação por denominação comum internacional é marcadamente insuficiente, devendo ser indicados o nome comercial e o número do lote nas noti-ficações de suspeita de reação adversa medicamentosa, à semelhança do que é exigido para todos os medicamen-tos biológicos.
Tem sido destacada a necessidade de uma vigilância pós--comercialização rigorosa e em larga escala, bem como a realização de estudos de pós-comercialização que per-mitam aferir a segurança efetiva dos medicamentos bios-similares. A recolha e análise dos dados de segurança dos medicamentos biossimilares revestem-se de particular importância na monitorização da incidência de efeitos adversos raros, mas de grande gravidade.
Adicionalmente, será importante a realização de estudos de segurança pós-autorização em populações distintas, dado que o perfil de toxicidade dos medicamentos e as sequelas resultantes dos efeitos adversos ocorridos po-derão ser distintos nas diferentes populações.
Os medicamentos biológicos pertencem assim, pelas suas características, ao grupo de medicamentos sujeitos a uma motorização mais apertada por parte da EMA, sendo obrigados a cumprir as exigências das autorida-des em termos da constante monitorização do perfil de segurança do medicamento, através do recurso às dife-rentes ferramentas instituídas, nomeadamente planos de gestão de risco, estudos de segurança pós-autorização, entre outros.
Permutabilidade
Uma das questões essenciais em debate prende-se com a possibilidade da permutabilidade de diferentes medi-camentos biológicos ser eventualmente efetuada sem o conhecimento do médico prescritor e do doente. As diferenças entre um medicamento biológico original e um biossimilar acima apontadas podem representar um risco de segurança para o doente caso ocorra a permu-tabilidade entre o medicamento de referência e o biossi-milar sem um rigoroso controlo e supervisão médica. O direito do doente a ser informado levanta importantes questões éticas, tendo em conta a posição atual da EMA quanto à permutabilidade entre estes medicamentos e o conhecimento limitado do perfil de segurança dos novos medicamentos biossimilares. Por outro lado, o médico apenas poderá responsabilizar-se pela imple-mentação das medidas de segurança que uma permuta implica se tiver pleno conhecimento quanto ao exato fármaco a administrar.
Estas decisões terão naturalmente importantes reper-cussões no funcionamento dos sistemas de farmaco-vigilância implementados, tanto para os medicamen-tos biológicos originais como para os medicamenmedicamen-tos biossimilares.
Em suma, deverá ser sempre tido em conta que o risco em termos de segurança ou a perda da eficácia resultantes da permutabilidade do medicamento biológico original com o biossimilar, ou vice-versa, ou ainda entre biossimi-lares, não deve ser superior ao risco inerente à utilização isolada do medicamento originalmente administrado.
Extrapolação de Indicações
Terapêuticas
Por último, tem igualmente sido alvo de uma importan-te discussão nos meios académicos e a nível das autori-dades reguladoras do medicamento a extrapolação das indicações terapêuticas aprovadas para os medicamen-tos biossimilares, tendo em conta as diferenças rele-vantes que existem entre estes medicamentos e os medicamentos genéricos e quais as exigências regu-lamentares a definir de forma a garantir a utilização em segurança destes produtos.
Relativamente à posição da EMA nesta matéria, a título de exemplo, uma das normas orientadoras emitidas por esta agência relativa aos medicamentos biossimilares constituídos por anticorpos monoclonais, «Guideline on similar biological medicinal products containing monoclonal antibodies – non-clinical and clinical is-sues», refere que «a extrapolação de dados clínicos de eficácia e segurança para outras indicações terapêuticas do anticorpo monoclonal de referência, não estudada especificamente durante o desenvolvimento clínico do medicamento biossimilar, é possível, com base nos re-sultados da evidência global obtida através do exercício de comparabilidade e mediante a apresentação de uma justificação adequada».
Desta forma, existindo a possibilidade da extrapolação de indicações terapêuticas de acordo com as condições definidas pelas normas orientadoras da EMA, a decisão final relativa à extrapolação de indicações terapêuticas para cada medicamento biossimilar, tendo em conta as especificidades de cada molécula e das patologias a que se destina, terá necessariamente de ser alvo de uma ava-liação caso a caso.
A possibilidade de extrapolação de indicações terapêuti-cas em medicamentos biossimilares é, assim, um assun-to de extrema complexidade. Tanassun-to as normas da EMA como as da FDA exigem uma justificação científica só-lida que se traduz na realização de um ensaio clínico na indicação terapêutica principal, no conhecimento do me-canismo de ação, e na confirmação se este é extrapolável
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para outras patologias, na identificação dos alvos bioló-gicos e na demonstração de segurança em diferentes po-pulações. Contudo, ao contrário da FDA, a EMA exige a inclusão de populações homogéneas no estudo do medi-camento biossimilar, com a finalidade de evitar a variabi-lidade e permitindo aumentar a robustez do estudo. No entanto, é importante considerar a dificuldade em definir populações homogéneas, dado que em muitas situações a própria manifestação da doença é heterogénea.
A extrapolação de indicações terapêuticas poderá exis-tir, desde que o mecanismo de ação do medicamento seja conhecido e idêntico em todas as indicações clínicas. Adicionalmente, é exigido um exercício de comparabi-lidade para o alvo biológico entre os dois fármacos em estudo. Tem assim de ser demonstrada a sobreposição da ligação aos recetores, enzimas ou transportador e das curvas de concentração-efeito. São também avaliadas a comparabilidade farmacocinética e a comparabilidade farmacodinâmica em diferentes populações. Uma das questões que se coloca, relativamente à farmacocinéti-ca, consiste na avaliação da importância da definição de uma margem superior e inferior para a bioequivalência terapêutica, e não apenas de uma margem superior. O ensaio clínico submetido pode ter como objetivo a de-monstração de equivalência terapêutica ou de não inferio-ridade. Para que haja extrapolação, é recomendável a reali-zação de um ensaio de equivalência terapêutica, dado este comportar uma margem de inferioridade e de superiorida-de. Não obstante, a submissão de um ensaio de não infe-rioridade é possível, mediante uma justificação robusta. Neste âmbito, a OMS considera que poderá haver ex-trapolação desde que o mecanismo de ação para as diversas indicações clínicas seja conhecido e que seja realizado um ensaio clínico sensível, que permita aferir a eficácia e a segurança, nomeadamente em termos de imunogenicidade.
A extrapolação de dados é por vezes condicionada, sendo nomeadamente a extrapolação de dados de imunogeni-cidade apenas aceitável de grupos de doentes e situações clínicas de maior risco para grupos de menor risco. Assim, será em vários casos questionável a aprovação automática para o medicamento biossimilar das mes-mas indicações do medicamento original, devendo ser automaticamente aprovadas apenas as indicações com segurança e eficácia clinicamente demonstradas.
Reflexões Finais
Esta é uma área em que se regista uma grande rapidez no que se refere ao desenvolvimento de novos medica-mentos biológicos, inovação farmacêutica e identifica-ção de biomarcadores, o que se traduz em claras vanta-gens, mas também em desafios adicionais.
O debate realizado sobre este tema permitiu, em pri-meiro lugar, identificar algumas lacunas no âmbito do enquadramento regulamentar dos medicamentos bio-lógicos, nomeadamente no que diz respeito à emissão de recomendações a nível nacional para a sua prescri-ção, dispensa e utilização.
Deve ter-se em conta que a utilização eficaz e segura de um fármaco é o resultado da conjugação de três fa-tores: o doente e as restantes terapêuticas envolvidas, a patologia, cujo mecanismo de ação pode não estar to-talmente esclarecido, e finalmente o medicamento. O exercício de comparabilidade que antecede a introdu-ção de um medicamento biossimilar no mercado procu-ra, naturalmente, isolar apenas as questões inerentes ao próprio fármaco. No entanto, as conhecidas limitações dos ensaios clínicos impossibilitam a deteção de todas as questões de segurança relevantes antes da exposição massiva de um medicamento.
A extrapolação de indicações terapêuticas não é, assim, possível em todas as situações nem transversal a todas as áreas terapêuticas. Esta prática será aceitável nas si-tuações em que o mecanismo de ação biológico é bem conhecido e foram efetuados estudos de farmacocinéti-ca e farmacodinâmifarmacocinéti-ca com marfarmacocinéti-cadores reconhecidos. No entanto, muitas vezes estas condições não estão infelizmente reunidas, havendo por vezes um desco-nhecimento do próprio mecanismo da patologia. Por outro lado, a decisão da adequação da substitui-ção do medicamento deve ter fundamento clínico, confirmado por estudos de segurança, devendo o do-ente ser envolvido no processo.
É ainda reconhecida a necessidade de implementar nas unidades de saúde a nível nacional um sistema que permita a rastreabilidade dos lotes de medica-mentos biológicos utilizados não apenas na fase de aquisição, mas no fornecimento e administração ao doente, pois só deste modo será possível garantir o seguimento fidedigno das questões de segurança de-tetadas. Um dos caminhos a seguir poderá ser a ex-pansão dos sistemas de registo de utilização dos me-dicamentos biológicos a nível nacional.
A diminuição do custo dos medicamentos biológi-cos tem um impacto favorável nos orçamentos dos Estados para a saúde, possibilitando uma maior sus-tentabilidade dos respetivos sistemas de saúde. Por outro lado, esta concorrência poderá constituir um estímulo à produção contínua de inovação por parte dos fornecedores. O desenvolvimento de medicamen-tos biossimilares poderá, assim, permitir o desenvol-vimento de processos de fabrico dotados de maior eficiência e a disponibilização de fármacos de menor custo (incluindo os originais). A poupança verificada
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permitirá a transferência de investimento para medi-camentos biológicos mais avançados, continuamente desenvolvidos.
Alguns dados relativos ao grau de poupança obtido com o aumento da utilização de medicamentos bios-similares na Europa e nos Estados Unidos da Améri-ca revelam que a redução de custos poderá não ultra-passar um valor entre 15 e 30 por cento, em contraste com uma redução de 80 a 90 por cento obtida histori-camente com os medicamentos genéricos.
Por outro lado, a redução do preço dos medicamentos originais pode vir a condicionar a implementação dos medicamentos biossimilares no mercado, na medida em que as unidades de saúde poderão privilegiar os medicamentos originais, se disponibilizados a preços idênticos, pelo seu perfil de segurança melhor conhe-cido, designadamente em doentes adequadamente estabilizados.
Não podendo ser excluídos do debate em curso os importantes benefícios económicos resultantes da re-tenção de custos com os cuidados de saúde que a dis-ponibilização dos medicamentos biossimilares per-mitirá alcançar, será certamente essencial a definição dos parâmetros de utilização destes medicamentos, tendo em vista a garantia da segurança dos doentes e a eficiente recolha de informação de segurança. Torna-se, deste modo, fundamental promover a re-avaliação periódica dos medicamentos biológicos, incluindo a sua relação custo-efetividade. Adicional-mente, é também necessário e desejável o estabeleci-mento de orientações baseadas em critérios clínicos e económicos que promovam a equidade no tratamento dos doentes nas diferentes unidades de saúde do país. Interessa pois reter que, nesta área, a complexida-de, a variabilidade e a incerteza existirão sempre. Assim, perante a inevitável, mas também desejável, disponibilização de medicamentos biossimilares, o importante será gerir adequadamente os fatores con-dicionantes, com o objetivo de minimizar possíveis consequências negativas, garantindo acima de tudo a salvaguarda do interesse dos doentes.
Bibliografia Recomendada
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