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Arqueologia dos partidos políticos em Weber

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Academic year: 2021

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João Francisco Hack Kamradt

Arqueologia dos partidos políticos em Weber

Mestrando em Sociologia Política pela UFSC ([email protected])

Resumo

Partidos políticos são responsáveis por mobilizar eleitores, selecionar, recrutar e transformar cidadãos em candidatos, ocupar posições nos legislativos, preencher funções no comando da administração pública e representar interesses de grupos da sociedade. Com tantas tarefas, a chamada crise da democracia representativa se associa em grande parcela a uma crise dos partidos políticos. A falta de participação das pessoas, a baixa credibilidade do sistema político e a contínua deterioração que os mecanismos de representação sofrem, agravam o quadro. Ainda não há nenhuma teoria que consiga apresentar alternativas para esses problemas. Um retorno a formulação histórica feita por Max Weber, de como os partidos políticos se constituem e vão se desenvolvem na sociedade moderna pode contribuir nessa busca.

Palavras-chave

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Abstract

Political parties are responsible for mobilizing voters, select, recruit and transform citizens into candidates, to fill positions in legislative, fill functions in charge of public administration and represent the interests of groups of society. With so many tasks, the so-called crisis of representative democracy is associated in large part a crisis of political parties. The lack of participation of people, the low credibility of the political system and the continuing deterioration of the mechanisms of representing suffering, makes the situation worse. Yet there is no theory that can provide alternatives to these problems. A return to historical formulation made by Max Weber, of how political parties are constituted and will thrive in modern society can help in this quest.

Keywords

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Introdução

Há anos, se fala em crise da democracia representativa (EPSTEIN, 1997). Em geral, sempre este fato está associado a chamada crise dos partidos políticos (MAIR, 2003). Essa constatação parte de uma sensação de que fazem anos que vem ocorrendo um esvaziamento acentuado das siglas partidárias não só no Brasil, mas na quase totalidade das democracias espalhadas pelos países do globo. Isso, somado a falta de participação das pessoas, a baixa credibilidade do sistema político e a contínua deterioração que os mecanismos de representação política vêm sofrendo, só foram agravando o quadro. Entre as inúmeras tarefas para tentar contribuir para um entendimento mais claro dos problemas existentes, escolhemos tratar neste artigo de qual é o papel dos partidos políticos, mostrar sua história e transformações ao longo dos anos, além de discutir os problemas que estas instituições estão passando na democracia representativa contemporânea, tendo em vista as contribuições dadas por Max Weber.

Em sua obra, Weber em nenhum momento escreveu um livro específico sobre os partidos políticos. Mesmo assim, seus apontamentos ao longo de algumas obras constituem um legado considerado precursor nos estudos das siglas partidárias modernas. Além disso, a escolha do pensador alemão como guia para o debate em torno da situação atual das siglas partidárias também se justifica pela contribuição que o autor deu para a compreensão da representação na democracia moderna. Um campo em que os partidos políticos estão sendo questionados de forma frequente atualmente. Embora haja uma grande literatura sobre os partidos políticos, não há muitos consensos. Uma explicação plausível para a dificuldade

de literatura aprofundada sobre o assunto pode estar no fato de que estas instituições são responsáveis por desempenharem inúmeras funções, o que torna desafiador e complexo entender o caminho que irão trilhar no futuro. Atualmente, em menor ou em maior grau de participação, os partidos políticos são os responsáveis por mobilizar os eleitores, por selecionar, recrutar e transformar pessoas em candidatos, em ocupar cadeiras nos legislativos (parlamento), em preencher funções no comando da administração pública, além de representar interesses de grupos localizados da sociedade e, também, de conduzir a implantação de políticas públicas. É possível afirmar, assim, que os partidos políticos fazem a oposição, que também governam e que trabalham ativamente nos três locais decisivos para o funcionamento da democracia representativa contemporânea: na área governamental, na eleitoral e na parlamentar. Diante dessa diversificada gama de ações pelas quais são responsáveis, ainda não foi desenvolvida nenhuma teoria que consiga reunir todas as atribuições que os partidos políticos possuem, o que torna seus problemas e possíveis resoluções ainda mais complicados de serem encontrados, entendidos e de que alternativas sejam sugeridas.

É necessário falar que não será Max Weber que irá preencher todos os buracos existentes na roupa que os partidos políticos trajam atualmente. Mesmo assim, as teorias do autor a respeito das siglas partidárias podem ser o fio condutor de uma boa costura para que a velha vestimenta ganhe uma cara de nova. Isso porque as teorias de Weber foram desenvolvidas justamente quando os partidos estavam surgindo e ganhando um papel central dentro do sistema democrático. Assim, esperamos que sua leitura faça possível que dúvidas, impasses e dilemas sobre

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as instituições e seus problemas possam ser melhor debatidos. Para este artigo, selecionei e analisei quatro textos do autor. São os seguintes: Política como Vocação,

que faz parte do livro Ciência e Polícia: Duas Vocações

(2011), Parlamentarismo e Governo em uma Alemanha Reordenada (1997), O Presidente do Reich e Economia e Sociedade (1982). O artigo está desenvolvido em quatro

seções, sendo que a primeira é esta breve introdução, que é precedida por uma segunda parte que explica a transformação que as instituições partidárias passaram durante o século XIX. A terceira parte traz um desenvolvimento e acrescenta as mudanças dessas instituições, sempre sob a ótica de Weber. Por fim, há uma parte reservada aos apontamentos finais.

Modelo de organização política moderna

Na conferência A Política como Vocação, que faz

parte do livro Ciência e Política: Duas vocações, Weber faz

uma arqueologia do nascimento e da transformação dos partidos políticos modernos. Para ele, as siglas partidárias nada mais são que organizações que lutam por espaços dentro de um mercado eleitoral, “sem jamais recorrer a outros meios que não os pacíficos e racionais” (WEBER, 2011, p. 105). Assim, entre suas características, os partidos são agremiações da sociedade política não estatal e da sociedade civil. O Estado tem uma regulação sobre essas instituições que possuem, entre suas características, a possibilidade do livre recrutamento de seus integrantes.

O surgimento do partido político moderno e sua evolução, segundo Weber, se dá na Inglaterra, no século XVIII. Naquela época, os partidos eram vinculados à nobreza, funcionando de forma esporádica, tendo a sua frente políticos não profissionais. Em geral, tinham em seus quadros representantes da classe

média alta, como membros do clero, advogados e professores, os chamados “gentlemen”. Para fazer parte

de um partido, era necessário pagar mensalidades. Como compensação, os parlamentares da época faziam reuniões públicas nas quais prestavam contas com os membros da organização. Essas associações de notáveis tinham como uma de suas características o fato de serem completamente dependentes das famílias que as patrocinavam. Assim, qualquer disputa entre os membros podia dissolver a sigla, assim como qualquer aliança poderia ser formada a partir de uma necessidade em comum de famílias que casariam seus filhos. Da mesma forma, esses políticos não tinham nenhuma obrigação com a população na hora de defender uma posição no Legislativo. Ao contrário, suas posições muitas vezes saiam após conversas feitas em reuniões nos clubes que os membros participavam. Logo, os eleitores eram representados apenas de maneira formal, sem que pudessem realmente participar do processo. Além disso, as siglas partidárias não funcionavam em todas as cidades, tornando a atividade partidária inconstante. Nessa primeira versão dos partidos políticos, só haviam dois tipos de agentes políticos: os chamados homens de prol e os parlamentares. Os últimos são as pessoas que acabavam tendo na política sua principal atividade, tirando dali seu sustento, enquanto que os primeiros são parte integrante do grupo que é político por excelência da palavra, já sendo economicamente independente e não precisando tirar da atividade seu sustento.

Esses dois tipos de políticos acabam prosperando futuramente quando os partidos crescem e começam a se estruturar em cidades de médio e pequeno porte – mesmo que isso não significasse, necessariamente, um aumento da participação das

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camadas populares nos partidos. Aqui, a organização partidária ainda continuava sendo feita pelos homens de prol1 e parlamentares. Mesmo assim, esse

momento começa a ser o início da transição para um novo tipo de sigla, no qual tem início a participação da sociedade em forma de rudimentares instrumentos de organização partidária.

A transição para uma nova forma de instituição política acontece quando as eleições passam a ter um número maior de pessoas que podem votar. Esse processo de aumento da participação da população, que aconteceu quando foi introduzido o sufrágio universal, levou os partidos a se reorganizarem de uma nova maneira para que pudessem responder adequadamente as demandas cada vez mais complexas da sociedade, ou seja, dos seus novos e velhos eleitores. Como o autor define, esse momento é “filho da democracia, do sufrágio universal, da necessidade de organizar e recrutar massas, da evolução dos partidos no sentido de uma unificação cada vez mais rígida no topo e no sentido de uma disciplina cada vez mais severa nos diversos escalões” (WEBER, 2011, p.109). Essas mudanças fazem com que os partidos ligados a nobreza entrem em declínio. Nessa lógica, surge outra figura: o militante partidário. Ele terá um papel importante, sendo o responsável por elaborar o programa partidário e a escolher os candidatos. Esse funcionário será liderado pelo típico capitalista empreendedor, como denominado pelo autor. Weber usa o exemplo do boss, nos EUA, e do election agent,

na Inglaterra. É esse empreendedor que irá assumir o controle da atividade política.

Os exemplos analisados por Weber para entender como se deu essa mudança que mexeu na

1 Homens de prol, termo que Weber utiliza inúmeras vezes em seus escritos, refere-se aos homens de prestígio social.

estrutura dos partidos e alterou todo seu funcionamento são as siglas inglesas do século XIX e dos EUA, do período que vai de 1820 até 1840. Na Inglaterra, antes da transição para partidos mais democráticos, as instituições não possuíam organização. Nessa época, só haviam duas organizações: tories e whigs. As duas

tinham em suas fileiras integrantes bem distintos dentro da escala social. Os tories possuíam inclinação

conservadora e estavam próximos aos proprietários de terra e ao clero anglicano.

Por sua vez, os whigs tinham inclinação

progressista e contavam com uma camada com menor poder econômico, como alfaiates, artesãos e ferreiros. Independente da instituição, a principal figura que circulava pelos partidos era o whip, responsável

por fazer a mediação entre a comunidade e o líder político. Hoje, ele seria representado parte pela figura do assessor político e parte pela do próprio político. Seu trabalho lhe dava acesso aos empregos e assim, como retrata Weber, iam a ele, logo após faltar com os deputados, todos que desejavam uma posição política, já que era o whip quem tinha autônima para distribuir

os cargos.

Com o surgimento de uma legislação eleitoral que passa a controlar os gastos e a garantir a regularidade das eleições acaba surgindo um novo agente político:

o election agent. Esse profissional passa a ser responsável

por cuidar dos custos eleitorais dos partidos e a ajudar a tornar a legislação eleitoral favorável ao candidato que defende. A inserção de mais um agente na cena política não muda imediatamente o cenário. Assim, os homens de prol e os parlamentares continuam tendo influência sobre o destino das instituições. Ou seja, mesmo que tenha sido dado início em um estágio na transformação dos partidos, eles ainda continuavam guardando características da primeira fase.

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A mudança efetiva na Inglaterra passa a se dar a partir de 1868, quando aparece pela primeira vez o sistema de caucus2, em Birmigham. O processo surge

através de um pastor protestante que quer que mais pessoas votem. Assim, como explica Weber, grupos são reunidos em cada bairro das médias cidades, que passam a ganhar um comitê eleitoral, aumentando a burocratização do sistema. O resultado foi o aumento na quantidade de funcionários que passaram a ser remunerados por comissões locais, que aos poucos começam a juntar e a organizar de forma que fosse possível contar e dimensionar a quantidade de eleitores.

Esse crescimento exponencial do número de eleitores acaba naturalmente entrando em conflito com as funções que possuíam tanto o parlamentar quanto

o whip. Os partidos ligados aos operários foram os que

tomaram a iniciativa de tentar canalizar a participação política das massas que foram incorporadas ao eleitorado. E era justamente nos partidos, que tinham como prerrogativas a mobilização, recrutamento e socialização de novos membros em que se pode ver esse processo acontecendo. Weber não aprofunda muito mais a questão de como se deu essa gradual transição da tomada de poder que os funcionários burocráticos passaram a ter e a consequente submissão das lideranças mais antigas da democracia. Ou seja, em uma situação em que o poder dos funcionários está consolidado, só conseguirá ser candidato o líder que for capaz de agradar as massas de forma demagógica. E será este líder que poderá levar os dirigentes partidários ao poder.

Efetivamente, as mudanças começaram a ocorrer a partir de 1876, quando nas eleições gerais inglesas

2 O sistema de caucus pode ser resumido da seguinte forma: é um encontro em que eleitores que possuem preferência eleitoral se reúnem para discutir em quem votar. São escolhidos delegados, que ficam responsável por participar de convenções em níveis maiores as que estava. Ou seja, se era uma convenção distrital, o delegado indicado iria representar aqueles eleitores na convenção estadual.

Wiliam Gladstone, representante do Partido Liberal, vence o então primeiro-ministro Benjamin Disraeli, do Partido Conservador. A vitória de Gladstone é, para Weber, uma prova do uso que este conseguiu fazer da máquina partidária, aliado ao seu carisma – componente agora fundamental para eleições. Essa vitória pode ser credita como um resultado direto da democratização da política que vinha acontecendo desde o fim do século XIX e que havia sido amplificada através da lei Reform Act

de 1867. Essa legislação aumentou consideravelmente o número de eleitores existentes no país ao permitir que mais pessoas, de diferentes segmentos populacionais, pudessem escolher seus representantes. Assim, a lógica do caucus passa a ganhar cada vez mais importância no jogo eleitoral.

Embora Weber não entre em maiores detalhes, é na política local que há mais mudanças, provavelmente em decorrência dos cargos locais que podem ser indicados para militantes que conseguirem eleger seus líderes. Esse sistema de ocupação de vagas, fez com que Weber passasse a enxergar os partidos como uma “empresa política dotada de forte estrutura capitalista” (WEBER, 2011, p. 124), que é bem organizada e possui uma hierarquia bem definida. Mas essa nova estrutura gera preocupações no autor, já que ele passa a acreditar que os parlamentares perderam autonomia dentro desse sistema. Já em análise sobre a eleição presidencial norte-americana, Weber acredita que o marco foi a chegada de Andrew Jackson à presidência, em 1824. Em um sistema plebiscitário puro (presidencialismo), a figura do boss

foi fundamental para a vitória de Jackson, sendo este sujeito o responsável por tentar driblar as imposições da legislação sobre o controle de gastos. O boss era, em

geral, um agiota, comerciante ou advogado. Nas palavras do autor: “um empresário político capitalista, que busca votos eleitorais em benefício próprio, correndo os

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riscos e perigos peculiares a essa atividade” (WEBER, 2011, p. 121).

É aqui que as assembleias partidárias passam a ter maior significado, já que ao seguir um rito hierárquico, elas dão oportunidades de crescimento das políticas de massa, fazendo com que haja crescimento das máquinas partidárias. Essa vontade, aos poucos, acaba se impondo no interior das siglas. E com o tempo, essas máquinas passam a se impor contra os parlamentares e “só aquele que a máquina se disponha a orientar, mesmo em detrimento da orientação partidária, poderá se transformar em chefe” (WEBER, 2011, p. 111). Desse modo, a vontade e interesse imediato da burocracia partidária passa a ser fundamental na escolha do candidato com as melhores chances e que atenda da melhor maneira os objetivos da máquina partidária, que basicamente se resumem a cargos. Dentro desse contexto, quem se sobressai é o político demagógico, já que ele conseguirá os votos necessários para ser eleito e com o poder, os militantes da sigla terão mais chances de conseguir a recompensa que esperam: cargos. Como Sell reforça, Weber entendia que “o líder do partido da maioria (primeiro ministro) era quem representava o elemento cesarista, mas ele estava submetido ao controle do órgão parlamentar que garantia seu controle” (SELL, 2011).

Nova transformação dos partidos políticos

Segundo Angelo Panebianco, a maioria dos estudos sobre partidos políticos se concentram em algum dos três eixos ou em uma combinação destes: base social, estrutura organizativa ou orientação ideológica. Max Weber foca na estrutura organizativa e assim se concentra na tarefa que distingue os partidos modernos

de outros grupos que possuam tarefas semelhantes: controlar, ao longo prazo, o Estado. Assim, é importante ressaltar que essas organizações são movidas por seus próprios objetivos, podendo ou não ser o problema de uma classe específica. Panebianco explica que o objetivo principal dos dirigentes das organizações nem sempre leva em conta os objetivos pelos quais essas instituições se constituíram. Ao contrário, a principal intenção é de manter sua posição de poder (PANEBIANCO, 2005).

Da mesma forma que acontece quando trata sobre outros assuntos da política, a contraposição ou tensão entre a liderança política e a burocracia é o ponto central para Weber ao falar sobre os partidos políticos. Sua abordagem sobre as siglas partidárias, assim como faz com as empresas e com o Estado, é de que os partidos estão suscetíveis a passar por uma grande burocratização de suas atividades. Ou seja, ao predomínio de regras racionais, de uma impessoalidade cada vez maior nas relações e da hierarquia – características de um processo contínuo de avanço das relações capitalistas, que aconteceu entre o fim do século XIX e o começo do século XX. Uma das mais importantes e, ao mesmo tempo, complexas tarefas dos partidos políticos é a função de ter que conquistar votos em eleitorados cada vez maiores e dispersos, com agendas próprias entre si. Eleitores que são o resultado da consequente expansão que houve com o sufrágio universal nos momentos iniciais da modernidade. Esse processo fez com que os partidos políticos tivessem que passar por uma transformação, tendo que funcionar como estruturas mecânicas, burocráticas. Com isso, dia após dia, os chefes que possuíam importância e influência, como era comum durante o século XIX, foram perdendo poder e sendo marginalizados do processo. Em

Parlamentarismo e Governo em uma Alemanha Reordenada, o

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moderna propaganda de massa torna o sucesso eleitoral dependente da racionalização da empresa do partido: o burocrata, a disciplina do partido, os fundos do partido, a imprensa do partido e a publicidade do partido” (WEBER, 1997, p. 99).

Enquanto isso, por outro lado, começa haver uma exigência cada vez maior para atrair parcelas mais amplas da opinião pública para que esta passe a exigir que as siglas partidárias sejam responsáveis pela retaguarda de lideranças políticas do tipo cesarista, responsáveis por conquistar a confiança das massas. “Os partidos bem organizados, que realmente querem exercer poder estatal, devem subordinar-se àqueles que têm a confiança das massas, se estes homens possuem habilidades de liderança” (WEBER, 1997, p. 115). É desta forma que o pensador alemão acaba levando para o interior dos partidos a contínua disputa existente entre os burocratas que se travestem de políticos e aqueles que são os verdadeiros líderes políticos. Essa disputa também acaba acontecendo no plano estatal.

Assim, é possível afirmar, que provavelmente, a primeira etapa de antagonismo acaba acontecendo dentro dos partidos políticos. Isso, porque se os burocratas tiverem a maioria dos militantes dentro dos partidos, acabam tendo a vantagem sobre os verdadeiros políticos, no caso, aqueles que possuem uma vocação para a liderança política e se pautam pela conversação e conquista do poder sob a ética da responsabilidade. A etapa seguinte é ter o domínio da máquina do Estado. Se isso acontecer, a liderança no interior das siglas partidárias acabará sendo exercida pelos burocratas, fazendo com que a função política dessas instituições diminua. Ou seja, eles deixarão de ser a organização responsável por alguma das mais importantes funções do sistema político. Logo, da seleção, do treinamento dos verdadeiros líderes políticos e do seu recrutamento.

Na lógica da política de Weber, os locais em que houver aumento da preocupação pela maior burocratização da política serão, exatamente, os lugares que se destacarão pela formação de líderes políticos. Mas para haver o cumprimento destas funções não é necessário que haja apenas disposição intrapartidária. Além disso, é necessário que existam cargos disponíveis dentro da administração estatal, caso contrário a orientação dentro das siglas para lideranças políticas será ineficaz. É neste ponto que Weber faz críticas à proibição feita pela Alemanha logo após a Constituição do Reich, em 1871. A proibição vetava que qualquer membro do parlamento pudesse vir a ocupar cargos de direção no governo. Na ótica de Weber, a falta de entendimento sobre como alcançar uma posição ou de como efetivamente participar da administração e, logicamente, nas indicações de cargos acabou minando a capacidade dos partidos de recrutarem novas lideranças políticas. Como explicou o autor:

Onde quer que o parlamento seja tão forte que, via de regra, o monarca confie o governo ao porta-voz de uma maioria bem definida, a luta dos partidos pelo poder será uma disputa pelo mais alto posto executivo. A luta é então conduzida por homens que têm fortes instintos de poder político e qualidades altamente desenvolvidas de liderança política, e consequentemente a possibilidade de assumir as posições mais elevadas; pois a sobrevivência do partido fora do parlamento, e incontáveis interesses ideias e parcialmente materiais, estreitamente ligados ao partido, exigem que líderes capazes cheguem às posições chaves. Somente sob semelhantes condições podem homens com temperamento e talento políticos ser motivados a se sujeitarem a esta espécie de seleção pela competição (WEBER, 1997, p. 56).

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barreira que separava o parlamento alemão dos cargos do governo. Ou seja, como Weber explica em

Parlamentarismo e Governo, os parlamentares estavam

proibidos de assumir estas posições. É assim que dois anos após a publicação deste livro, o autor passa a defender publicamente a eleição direta do Reich (que representaria a figura máxima do poder executivo alemão). Para ele, essa seria uma forma de aproximar o sistema político da Alemanha com o presidencialismo dos EUA. Naquela época, ele estava certo de que esta seria a forma ideal de selecionar o comandante da nação. Como ele defende em Economia e Sociedade, ele

entendia que seria apenas através de uma eleição para a escolha do Reich que a população alemã poderia participar mais ativamente do sistema político de modo a substituir o modelo de gestão feito por notáveis, que Weber considerava antiquado, por um outro.

Quando Weber se refere aos notáveis, não se sabe se ele estava, necessariamente, pensando na elite que formava as siglas típicas do século XIX. Isso porque esse modelo partidário já estava decadente e não conseguia prover a população com às exigências democráticas que esta tinha. Assim, é possível supor que o autor estaria se referindo aos dirigentes das siglas que haviam começado a controlar a máquina partidária – necessária para às eleições – e, com isso, a determinar quais ações e decisões os parlamentares teriam que tomar. Este acordo também não era bem visto por Weber. Ele acreditava que isso acaba com a capacidade dos parlamentares. Da mesma forma, a burocratização das siglas, segundo Weber, “transformou os deputados de senhores de seus eleitores em servidores do chefe da máquina do partido” (WEBER, 2004, p. 239). É por isso que o autor diferencia dois tipos básicos de partidos políticos. De um lado, as siglas podem ser fundamentalmente ideológicas, possuindo como

objetivo principal a concretização de ideias políticos. Esses tipos de partidos eram vistos, predominantemente, na Alemanha. Do outro lado, os partidos funcionam como organizações que são utilizadas e planejadas para ocupar o máximo possível de posições nos governos estatais. Esse tipo de organização é encontrado nas siglas americanas.

Para Weber, os partidos americanos – no contexto do fim do século XIX e início do século XX – possuem como definição a função de se dedicarem quase que exclusivamente a busca e preenchimento de cargos chegando, inclusive, a mudarem seu foco “ideológico” para alcançarem mais votos do eleitorado e assim atingirem mais posições de poder. Essas organizações são comparadas pelo autor a empresas políticas, que agem por interesses monetários – embora aqui o interesse seja por mais poder. Em instituições assim que começa a prevalecer a figura do chefe (boss), que acaba

funcionando como um político empreendedor. Como afirma Weber na conferência Política como Vocação:

“O boss não se apega a uma doutrina política definida,

não professa princípios. Uma só coisa é importante a seus olhos: como conseguir o maior número de votos possível” (WEBER, 2011, p. 96).

Esse sistema partidário era favorecido pelo spoil system, sistema político administrativo daquela época

tipicamente americano, que permitia que o vencedor do pleito eleitoral tivesse o direito de indicar todos os cargos disponíveis na administração pública. No livro, o autor se refere a números impensáveis atualmente, que ficavam entre 300 a 400 mil posições que poderiam ser feitas por indicações políticas. Assim, com tantos cargos à disposição, esse tipo de partido pragmático, que tinha interesse em atrair o maior número de votos para que pudesse assim ter mais cargos para indicar prosperava nesse sistema, já que essas siglas,

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sem nenhuma base doutrinária, reduzidos a puros instrumentos de disputa de postos, opõem-se uns aos outros e elaboram, para cada campanha eleitoral, um programa que é função das possibilidades eleitorais. (...) A estrutura dos partidos subordina-se, inteira e exclusivamente, à batalha eleitoral, que é, muito acima de qualquer outra, a mais importante para o domínio dos empregos: o posto de Presidente da União e de governador dos diversos estados (WEBER, 2011, p. 120).

Depois da aprovação da Reforma de Serviço Civil, nos Estados Unidos, em 1883, a quantidade de cargos disponíveis para indicação diminui de forma gigantesca. Isso faz com que o modelo de spoil system

comece a perder sua importância, já que o país deixaria de ser administrado de maneira “diletante”, como afirma Weber. Mas mesmo com mudanças profundas, as siglas norte-americanas conseguem preservar muitas das características daqueles tempos. Por terem tantas semelhanças preservadas, a fundamentação dos partidos políticos do passado acabam sendo o modelo para que Otto Kirchheimer, em 1966, definisse as siglas como catch-all party ou partidos pega-tudo, que seriam

siglas que sempre tentariam atrair o maior número de políticos para suas trincheiras, independente da sua formação ideológica, já que o próprio partido não teria uma ideologia única ou definida.

Mas o mais paradoxal na análise que Weber faz sobre os partidos políticos americanos é o fato de que estes acabam sendo muito mais suscetíveis a concordarem com um líder político nato do que as siglas ideológicas da Europa. Nestas siglas, segundo o autor, haveria uma possibilidade maior de que houvesse um bloqueio partidário burocrático que brecasse a ascensão dos líderes carismáticos. No sistema norte-americano, por sua vez, como afirma Weber, as instituições

partidárias possuíam uma necessidade muito maior de contar com um político carismático, que seria o responsável por conquistar o poder. Em suas palavras: “a estrutura desse tipo de partido, desprovido de base doutrinária, mas animada por detentores de poder que são desprezados pela sociedade, contribuiu para levar à presidência do país homens de valor que, na Alemanha, jamais se teriam projetado” (WEBER, 2011, p. 123). Seguindo o raciocínio, para Weber, na comparação entre os partidos baseados na ideologia da Alemanha e as siglas americanas firmadas na busca por cargos só sobra uma escolha possível: admitir a existência da “máquina” partidária e, junto com isso aceitar dentro da democracia um dirigente como verdadeiro chefe democrático ou optar por não ter chefes e ficar na mão dos políticos profissionais, que não possuem qualidades carismáticas e nem vocação necessária para serem chefes.

Mesmo assim, no sistema de chefes (ou

bosses para utilizar a terminologia de Weber), também

continuará existindo uma máquina política e também haverá burocracia. Para ele, a principal diferença existente entre o que define como o aparato burocrático das instituições políticas alemãs não é a existência ou não de uma máquina política que esteja organizada. Para ele, o mais importante é se essa máquina irá conseguir ou não reconhecer a importância de também contar com um líder político carismático. Função está, que o partido político não tem qualidades suficientes para desempenhar – ao menos enquanto for uma organização baseada inteiramente em fins burocráticos. Para deixar claro, para Weber, o partido político no estilo alemão, que não vê tanta importância na presença de um líder carismático, dando prioridade para a máquina ideológica, é menos adequado do que as siglas que seguem o modelo americano. Isso, porque estas, que por

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terem um líder político estariam mais aptas ao exercício da liderança política. Assim, o elogio que o autor faz ao sistema de chefes dá a entender a necessidade de que exista um equilíbrio entre as funções representativas dos partidos (ou das lideranças que estes partidos formam) e das funções procedimentais/burocráticas que estas siglas têm. Ou seja, mesmo sendo definições distantes entre si, elas precisam dialogar.

Algumas considerações finais

Qual a contribuição que Weber pode dar para a compreensão que temos da atual situação que passam os partidos políticos? Bem, pela abordagem weberiana, temos a noção de que as siglas em seu estado moderno são máquinas políticas, ou seja, funcionam como empresas burocráticas incrivelmente complexas, que possuem em suas fileiras uma infinidade de membros que decidiram se associar de forma voluntária com o objetivo claro de conquistar cada vez mais poder. Poder esse que dará capital político para que se possam ter vantagens materiais provenientes de indicações para cargos dentro da esfera pública ou possibilidade de implantação de políticas públicas de acordo com a ideologia partidária. Assim, a “maquinação” das instituições políticas acaba sendo um processo natural decorrente do avanço das democracias de massa. Dessa forma, se apresenta como uma característica que se colocará a todos os partidos, sejam eles ideológicos ou programáticos, se representarem poucos segmentos da população ou se representam muitos. A face da organização acaba sendo o que caracteriza o que são os partidos políticos, que assim, não precisam ter, necessariamente, algum valor representativo ou ideológico para apresentar a população.

Diante da necessidade de acumular recursos

financeiros e angariar militantes o suficiente para que esses trabalhem e possam conseguir obter os votos necessários dos eleitores durante os pleitos, se torna uma tarefa difícil pensar uma forma da democracia não precisar ter mais a figura dos partidos políticos. Já quanto a suposta crise da representação política, Weber não parecia enxergar que poderia haver algum tipo de crise sobre isso. Para ele, “a participação da plebe é limitada à colaboração e votação durante eleições, que ocorrem a intervalos relativamente longos” (WEBER, 1997, p. 99). Em seu pensamento, ele via a representação política sendo uma prerrogativa que deveria vir a ser mais associada as lideranças carismáticas dos partidos do que necessariamente as siglas. Esse regime de representação parlamentar proporcional seria baseado em listas partidárias, com as siglas podendo apresentar seu nome preferido ao eleitorado. Mas o autor também criticava a lista fechada, que para ele

facilita, em benefício dos homens de prol, as manobras ilícitas na confecção de listas de votação, como também dá aos grupos de interesses a possibilidade de forçarem as organizações políticas a incluírem nas citadas listas alguns de seus empregados, de sorte que, ao fim, nos vemos diante de um Parlamento apolítico, onde não mais encontram lugar os verdadeiros chefes (WEBER, 2011, p. 130-131).

Tirando os procedimentos de rotina dos partidos, para o autor alemão, a tarefa mais importante que estas instituições irão desempenhar será a seleção e o treinamento das lideranças carismáticas, ou seja, “homens que têm fortes instintos de poder político e qualidades altamente desenvolvidas de liderança política” (WEBER, 1997, p. 56) e que trabalham com o lema da ética da responsabilidade. Para ele, as siglas partidárias terão interesse prioritário em serem

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a ferramenta principal para a ascensão de novas lideranças políticas. Isso, porque na democracia de massas, alcançar os postos mais altos do comando é o objetivo dos líderes, seja em sistemas presidencialistas ou nos parlamentares. Mas para que alguém chegue ao topo do sistema, irá precisar do suporte da máquina partidária, que, com isso, irá se beneficiar do líder que formou, obtendo benefícios.

Um resumo de qual poderia ser uma interpretação de Weber para a suposta atual crise dos partidos políticos é de que ele não atribuiria tanta importância à ela. Mais condizente com a visão weberiana seria a compreensão de que o atual período nada mais é do que uma readaptação as mudanças econômicas, sociais e de comportamento pelas quais a sociedade passa. Assim, não há muitos motivos para se acreditar que o fim dos partidos políticos esteja em curso. Eles estão sendo colocados à prova e necessitam encontrar novos caminhos. Novas siglas podem surgir e outras acabar. Como falou Weber, é possível que outros atores assumam a função de representantes da sociedade. Nesse caso, os partidos não poderiam se transformar em meros experts na busca por votos, já que se transformariam em organizações sem participação política. Um caminho apontado seria o de ser um ponto inicial para se transformar em uma escola política. Da mesma forma que acontece no Estado, é importante que haja um equilíbrio entre a liderança política e a burocracia. Já que a liderança política sem burocracia vira diletantismo estéril, enquanto a burocracia sem política acaba sendo uma fonte ilegítima de poder.

Ao fim, Weber lança uma pergunta de qual é o tipo de político que se quer: se se busca um político profissional, que não tenha as qualidades de chefe, ou se quer um líder político com grande vocação e traços carismáticos fortes. O preço da última alternativa seria

aceitar a máquina partidária e sua burocratização cada vez maior. Já o custo da primeira alternativa seria o de ter uma política em que não houvesse líderes autênticos.

Referências Bibliográficas

EPSTEIN, Isaac. O paradoxo de Condorcet e a crise da democracia representativa. Revista de Estudos

Avançados, vol.11, São Paulo, 1997.

MAIR, Peter. Os partidos políticos e a democracia.

Análise Social, volume 38, Lisboa, 2003, p. 277-293. PANEBIANCO, Angelo. Modelos de Partido:

organização e poder nos partidos políticos. São

Paulo: Martins Fontes, 2005.

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Referências

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