Aqui não há intolerância, há desordem na cabeça das pessoas. Intolerância como tal, no Bocoio não há, porque senão não estariam aqui os partidos todos. Não há intolerância, há desordem e isto às vezes é problema de polícia já. Quem chega e molesta o outro, deve ir para a polícia, problema de polícia, até nem é da Administração, vai cumprir pelos males que faz. É cidadão não interessa de que partido é.
Administradora Municipal do Bocoio
Os outros, não sei como dizer, são desumanos. Só da forma como trataram as mamãs, aquilo, dentro de mim, aquilo é chorar, mas prontos, como são coisas que aconteceram e outros morreram por isto e nós também temos que continuar em prol dessa liberdade e em todo o caso nós pensamos que até dia 23 de Agosto isto terá mesmo que acabar, isto de intolerância política.
Mário Alberto Camundongo, ex militar das FALA, com a patente de capitão, actualmente a viver no Chingongo
“nós não contamos isso [tolerência] porque nós já estamos a conviver há muito tempo com o MPLA e conhecemos os argumentos, as artimanhas do nosso adversário e, nós estamos a dizer aqui adversário em nossa parte, porque nós estamos numa democracia, mas até àquilo que eles mostram não nos dá a impressão de adversário, dá-nos a impressão mesmo de inimigos de qualquer das maneiras.”
José Martinho, testemunha dos conflitos de 12 de Abril de 2015, Monte Belo 1 – INTRODUÇÃO
Em nome da Plataforma Eleitoral da Sociedade Civil – Benguela (PESCB), representantes das organizações AJS, CRB e OMUNGA estiveram no município do Bocoio dando sequência ao trabalho de terreno iniciado a 20 de Junho.
Devemos desde já, e mais uma vez, agradecer a disponibilidade de todos os interlocutores, entidades e testemunhas, em nos ter concedido um tempo para que pudessemos recolher a informação aqui transcrita e reflectida. A equipa reconhece que, grande parte das vezes, a solicitação para os encontros/entrevistas foram muito em cima da hora, interferindo de alguma maneira nas agendas pessoais. Por isso o nosso muito obrigado e esta disponibilidade deve reflectir o interesse de todos em ver de alguma maneira resolvida a problemática de intolerância política e da construção da paz.
Embora entendamos que, a grande parte dos conflitos, no fundo envolve cidadãos que de alguma forma têm laços familiares, colocando-se em diferentes espaços da barricada, como declarou uma das testemunhas, “esses homens que me fizeram este sofrimento, é família às vezes”, a equipa não quer simplificar a questão, tentando de alguma maneira aprofundar na procura da raíz do problema, de forma que, aproveitando o ambiente eleitoral, se possa dar passos mais seguros para a verdadeira construção da paz e da reconciliação.
Algo se passa e algo necessita de ser solucionado, de forma sustentável, de forma concreta e correcta.
A equipa teve a possibilidade de ouvir/entrevistar, durante todo o seu trabalho no terreno (iniciado a 20 de Junho), as principais entidades que de forma muito concreta têm responsabilidades claras, no processo de pacificação, nomeadamente a Sra Administradora Municipal, o Sr. Administrador Adjunto (enquanto coordenador da Comissão de Pacificação), o Sr. Comandante Municipal da Polícia Nacional, o Sr. Secretário da Regedoria (em representação do Regedor) e o Soba da Sede Municipal, os representantes dos partidos políticos, nomeadamente da CASA-CE (secretário municipal), MPLA (1ª secretária municipal, assumindo na altura também com a pasta de Administradora Municipal), o PRS (secretário municipal) e a UNITA (secretário municipal) e ainda o pároco da Missão Católica Nª Sª de Fátima e um activista do CRB.
Ouviu ainda, para além de testemunhos relacionados com os recentes acontecimentos da povoação da Balança, outros testemunhos que se relacionam com outros casos de intolerância política, ocorridos desde 2004. Tais momentos ajudaram de forma profunda, a entender, ou a tentar entender, o que realmente acontece nesta parcela do território da província de Benguela.
Por outro lado, recorreu à observação directa de factos, bem como das conversas informais que se foi mantendo com diversos cidadãos, como por exemplo os motoqueiros a que a equipa sempre foi recorrendo para apoiar as suas deslocações internas, quer nos taxis que foi utiizando nas deslocações do Lobito para o Bocoio, ou ainda nos espaços que foi frequentando como restaurantes ou pensões, onde se hospedou.
mesmos pagamentos, de acordo às declarações de alguns motoristas, prendem-se também com os camiões, os Hiaces (táxis), e outros. A equipa acredita que, uma forma muito concreta de se poder contribuir para terminar com a intolerância, tem a ver com o término deste tipo de comportamento e daí resultar um aumento do reconhecimento e do respeito pelas instituições públicas, nomeadamente a Polícia Nacional.
2 - DATAS: 20 de Junho a 24 de Julho de 2017
3 - EQUIPA:
CRB (20/06, 30/06 e 01/07)
Matias Nunda Mário – Director Executivo
OMUNGA (30/06, 01/07, 06/07, 10/07 e 24/07)
José Patrocínio – Director Executivo
Eduardo Ngumbe – Repórter Comunitário
Livulo Katchikumi Prata – Repórter Comunitário
Domingos Mário – Repórter Comunitário
AJS (01/07)
Júlio Lofa Martinho – Director Executivo
Samuel Ngola Domboli – Repórter Comunitário
4 - OBJECTIVOS DO TRABALHO
Os objectivos preconizados para o desenvolvimento deste trabalho a nível do Bocoio eram fundamentalmente:
1 – Monitoriar o contexto político do Municipio tomando em conta a limitada informação sobre os facos ocorridos a 26 de Maio, na povoação da Balança, comuna do Cubal do Lumbo;
2 – Definir a linha de base para o delineamento da estratégia de educação cívica a nível do Bocoio;
5 – OS ARGUMENTOS/PONTOS DE PARTIDA
A primeira questão que devemos levantar tem a ver com as razões da definição do Bocoio, como a área de estudo. Por outro lado, deve-se também tentar responder à pergunta sobre a contextualização temporal, o porquê agora.
Acreditou-se portanto que seria de extrema importância que a monitoria do ambiente político pudesse abranger o período eleitoral, dando o arranque antes do início da campanha eleitoral e desenvolver o estudo até depois das eleições.
Ao mesmo tempo, estava em arranque o processo de educação cívica eleitoral. Acreditamos que a partir desta intervenção poder-se-ia ter informação realista e detalhada que facilitasse o delineamento das estratégias par a intervenção nessa área.
Já sobre a escolha do Bocoio, tomou-se em conta:
1 – Ser um município do interior, essencialmente considerado como uma zona rural que contrasta grandemente com a faixa litoral;
2 – Estar relativamente perto o que facilitaria as deslocações, diminuindo custos
3 – As limitadas informações sobre factos recentes ocorridos no município que transparecia intolerância política.
6 – ACTIVIDADES PRELIMINARES
Para se concretizar esta acção, definiu-se uma listagem de instituições que de alguma forma, directa ou indirecta, têm responsabilidades com o ambiente políticos e eleitoral.
As instituições definidas foram: Administração Municipal, Comando Municipal da PN, Comissão Municipal Eleitoral, Regedoria, Partidos Políticos, Igrejas, Sociedade Civil
A definição inicial foi adaptada à medida que o processo no terreno se desenvolvia. Para o efeito distribuiram-se cartas e realizaram-se visitas ao terreno quer de preparação e simultâneamente de implementação. Foram feitos ainda contactos telefonicos e um guião inicial para as entrevistas que foi sendo adaptado de acordo às informações que se iam prestando em cada entrevista, ou seja, o guião delineava apenas as linhas de base das quais depois poderiam surgir outras perguntas que se relacionassem com o definido ou que pudessem ajudar a aprofundar a informação que estava a ser recolhida.
7 – O CASO DA BALANÇA
De acordo ao Secretário municipal da UNITA, a 24 de Maio de 2017, endereçaram uma carta a informar da intenção de a 27 de Maio, inaugurarem a sua estrutura partidária na Balança.
O secretário da UNITA continuou a explicar dizendo que “nós a 26 entendemos que era preciso um grupo de avanço, nosso, passasse em frente para que pudesse organizar o terreno, para que no dia seguinte receber então a delegação municipal, fazermos o nosso trabalho e voltarmos.”
recebido ordens de não poderem receber a UNITA, que não queriam a UNITA lá no terreno, a coisa ficou depois má.”
Mais adiante, o secretário, declarou que “o que nos fez espécie é que na altura, o comandante municipal da polícia vivia a situação lá no terreno, sabia do que se passava, depois daquela situação, uma hora depois é quando o comandante da polícia ligava para mim para dizer que era preciso rever porque nessa altura ainda parece que há alguma particularidade que pode não dar facilidade à UNITA estar lá no terreno, era preciso rever e finalmente os nossos homens já tinham sido escurraçados.”
Quando confrontado com a pergunta de que se houve feridos, Chilumbo disse que “houve de facto feridos. Do nosso lado tivemos um grave e outros que somavam um total de 9, eram ligeiros. Do lado do próprio MPLA, os encontrados, tiveram 8 feridos que esses diziam que eram graves, porém nós não confirmámos porque não os vimos, eram graves e estiveram aqui no hospital municipal, onde estavam internados.”
O secretário da UNITA disse depois que o “efectivo” da UNITA teria-se retirado “porque o nosso objectivo não era lutar, o nosso objectivo é a convivência pacifica na diferença” e os demais membros do secretariado municipal teriam tido um encontro com eles na zona da ACIBOL “numa zona que faz limite com a Balança.”
De acordo ainda ao secretário, deu a entender que, como represália, uma vez que a “palavra do MPLA era de que na Balança apenas poderiam ficar pessoas daquele partido, então chegados às suas áreas, então fazem que todos que são do MPLA também têm de sair das suas áreas e então ficarem só na Balança.”
Estas acções, de represálias, começaram a partir de 27/05. Segundo o secretário da UNITA, garante que “nós não fizemos essa programação às escondidas, nós informámos as autoridades e essa nossa informação permitiu que as autoridades pudessem se organizar.” Ainda segundo Chilumbo, “o comandante municipal da polícia pensa que o protagonista da situação toda daquilo que se passou na Balança, era o secretário municipal da UNITA. Dizia para eu parar os meus homens para não chatear os outros. Como é que isso se torna chatisse (?) Como é que o comandante da polícia entende por chatice nessas condições (?) Se eu passei o documento, entreguei às autoridades e que esse próprio documento devia servir de informação para eles poderem acautelar a situação. Não conseguiram.”
Para o secretário da UNITA, nessa altura, considerou que “o comandante não era um elemento neutro. Era um elemento que quase jogava. Era jogador e árbito ao mesmo tempo”
Mais adiante, o secretário da UNITA declara “que talvés o comandante pensa que pudesse capturar o secretário municipal da UNITA. Naquele dia tinha agendadas actividades no Monte Belo.” O secretário esclarece que “eles tentam montar o control para a minha intercepção aqui na ponte sobre o rio Cubal, mesmo na Sede, assim que eles chegaram, nós também estavamos atrás deles e passámos sem eles descobrirem que nós estavamos aí.”
João Chilumbo foi explicando dizendo que “a situação foi-se agravando, principalmente no Cubal do Lumbo, Passe, a retirada das bandeiras do MPLA em todas as áreas porque todos, os militantes estavam revoltosos, estavam a dizer que como na Balança não vamos, a UNITA não pode lá ficar, então todos do MPLA também vão para a Balança. A situação então ficou mais alarmante. Essa situação praticamente veio provocar a deslocação de 2046 deslocados, a nível dessas duas comunas e isso veio preocupar o próprio governo, até que dia 30 de Maio, o governo provincial teve que mandatar uma comissão onde estava a polícia, até o 2º comandante provincial da polícia, o super-intendente chefe Quim Brás, ele é quem dirigiu a comissão. Estava aí o Engº Ngalanela, estava aí o Dr. Davoca, mais outros. Vieram para tentar entender precisamente o que tinha acontecido, porque a situação havia ultrapassado de facto a capacidade do município.”
Segundo o secretário da UNITA, durante o encontro concluiu-se que “a UNITA não tinha cometido nenhum erro. Tinha toda a documentação apresentada e é dali onde se decide que era preciso, a partir daí, sensibilizar a população no sentido de não continuar mais com as confusões lá nas áreas, também sensibilizarmos a população deslocada para voltarem às suas áreas de origem para permitir que neste preciso momento a vida volte ao normal. Isso foi dia 30. No dia 2 nós partimos já numa comissão municipal, começámos a sensibilizar as próprias populações, iniciámos pelo próprio Cubal do Lumbo, o que foi a fonte dessa situação, fomos falando mas mesmo assim, fomos tendo sempre feridos, nossos militantes da UNITA. Mesmo no dia 2, perante a comissão, quando chegámos ao Cubal de Lumbo, apareceu alguém que tinha sido agredido quase 30 minutos antes. Trazia uma grande ferida na cabeça. Considerámos que como a mensagem ainda não chegou, toda esta situação deveria ser tolerada. A partir de agora que começámos a trabalhar, a situação devia conhecer outros ritmos.”
que algumas nossas pessoas, não são todas, voltassem às suas casas, mas ainda a intimidação continua. Até agora não aceitam que a UNITA monte aí a sua estrutura politico-partidária, não aceitam. Pensamos que, como ninguém tem razão contra o tempo, e no dicionário político angolano, ou na gramática política de Angola, o advérbio de tempo „nunca‟ não existe, pensamos que o tempo depois vai dar a sua razão.”
Já o comandante municipal da polícia do Bocoio, explica a sua versão dos factos ocorridos a 26 de Maio de 2017, “porque conforme deram a conhecer no caso da Balança, se tivessem acatado a informação da polícia, não haveria esse problema da Balança. Escreveram que teriam a actividade dia 27, nós estavamos à espera que dia 27 nos encontrássemos com o secretário municipal da UNITA e a sua delegação que vai realizar essa actividade naquele local, mas isso não aconteceu, dia 26 quando estavamos aqui lá prás 12 – 14 horas, estava alguém a ligar que havia um confronto entre os militantes do MPLA e UNITA na Balança. Mas eu fui ver no documento do partido UNITA e estava lá dia 27 de Maio. Pessoalmente eu liguei para o secretário Chilumbo, mesmo que ele estiver aqui vai confirmar e ele disse que estava na Missão num óbito, não dominava o que estava a se passar lá na Balança e eu disse há isto e há isto na Balança. Ele disse está bom aguarda, eu depois vou-lhe dar qualquer informação. Depois voltei a ligar e disse já estou quase no secretariado como veio alguém de Benguela, vamos reunir, vamos analisar esse caso. Esperei pela resposta, na altura a senhora administradora ia reunir na Chila. Eu como tinha prova, mandei o meu 2º comandante para ir representar porque não poderia ir porque poderia vir tarde e ia fazer prova. Por isso fiquei. Talvez fiquei mesmo por bem e nesse dia não fui mais à prova, tive que esperar a senhora administradora, porque lá não tem rede, tão logo que chegou lhe puz a ocorrência e ela perguntou se eu tive contacto com o senhor secretário Chilumbo e eu disse que eu tive contacto com ele. A senhora administradora tentou ligar, tinha o telefone desligado.
A – BOCOIO, UM CASO MAIS SÉRIO DO QUE PARECE
A primeira questão que nos realça deste trabalho é o facto de que realmente a situação do Bocoio no que se refere ao ambiente político deve ser considerado bastante mais grave do que previamente poderia transparecer. Isto possivelmente se deve ao facto de que a informação sobre os acontecimentos do Bocoio, nomeadamente dos ultimamente ocorridos na povoação da Balança, serem bastante limitados. A falta da informação deve ser considerada neste caso, também como um potencial factor de alastramento do problema. Por exemplo, como as informações não foram divulgadas de forma correta, foi visível, aquando duma visita à Canjala, de reacções de populares com fagrante demonstração de interesse de acções de represália violenta.
Esta falta de informação que pode ter muitas razões, não devendo ser descartada a própria intenção de se esconder o que estava a ocorrer, deve ser cuidadosamente ultrapassada. Possivelmente seja esse um dos objectivos da apresentação do presente relatório.
Em sentido contrário, a falta de divulgação, pode levar a que o “assunto passe rapidamente ao esquecimento”, não contribuindo assim para a procura de soluções duradouras e de fundo.
A exemplo disto, podemos salientar as próprias palavras da Administradora Municipal quando pedimos colaboração para nos descolarmos à Balança: [...]Agora ir lá, não sei qual é o tema que vão falar, levantar poeira, se me permitirem a expressão, duma poeira que já assentou, não sei se terão resultados bons, não sei se teremos bons resultados, porque eu realmente quero ajuda, mas eu também estou aqui e conheço melhor o terreno, conheço os momentos e às vezes é preciso ter efectivamente cuidado.[...]
Esta estratégia de “colocar o lixo debaixo do tapete” pode ser realmente perigosa. É a estratégia das aparências. Aparenta estar tudo bem, porque não falamos mais nisso. Mas o problema realmente continua ali, à espera de uma nova oportunidade para voltar a explodir.
Pode ainda haver uma outra hipótese para a falta de informação. Uma hipótese bastante plausível também que tem a ver com o “esconder a verdade”. Esta deve ser percebida como sendo muito grave, já que isso põe em causa o direito à verdade, o direito a uma informação correcta.
Por outro lado, esta hipótese deve também ser entendida como intencional no sentido de propositamente não se pretender mudar a situação e/ou não se responsabilizar ninguém. Considerada esta hipótese, deve-se facilmente perceber que a intenção se prende com uma cumplicidade e portanto com a manutenção de um status quo.
Podemos dizer que a falta de informação, especialmente nos órgãos de comunicação social sobre a gravidade dos factos ocorridos, deve ser portanto entendida como um dos factores que levam a concluir que a situaçao no Bocoio é mais grave do que aparentava.
Por outro lado, a situação que se vive no Bocoio vem de longa data. Quase podemos afirmar que no verdadeiro sentido da palavra, nunca se viveu neste município um verdadeiro ambiente de reconciliação e de pacificação. Os factos a que a equipa teve acesso, remontam a 2004. É importante realçarmos as palavras de Matias Alberto Charrua, Secretário do PRS: [...]Ao nível do município, no que se refere a esses problemas, nós estamos aqui, as comunas com mais problemas é Monte Belo e Cubal do Lumbo, neste momento. É que têm maiores problemas políticos que muitas das vezes, de 3 em 3 meses, tem sempre um problema no Monte Belo, uns têm que correr daí e dacolá e principalmente neste momento das eleições, assim os corre-corre podem começar[...]
Daqui ressalta à vista o facto de que as tentativas apresentadas pela actual Comissão de Pacificação, podem realmente não representar uma solução definitiva.
Por outro lado, a amplitude dos dados recolhidos, quer em âmbito geográfico, quer em dados demográficos de população afetada directamente demonstram facilmente sobre a gravidade da situação. Achamos importante realçar as palavras da Administradora:
[...]Depois de terem terminado o Cubal do Lumbo foram pró Passe, porque uma questão de uma povoação generalizou-se quase em 3 comunas, só não tivemos casos na comuna da Chila.[...]
[...]O que realmente nós admiramos é que o problema de uma aldeia afete o município inteiro.[...]
[...]Eu vi ali no seu relatório o número de deslocados, era muito superior, era superior a 3000. Aí tem 2 mil e tal, mas era superior a 3 mil, porque nós convidámos o MINARS que fez o seu trabalho de recolha de dados e tivemos mais de 3 mil deslocados. Foi lamentável, as pessoas passaram à fome, sofreram por uma coisa insignificante[...]
Por outro lado a existência de uma própria Comissão de Paciicação deve ser de imediato entendido como um indicador da gravidade da situação.
É de realçar, e ao mesmo tempo é estranho, que, contrariando às opiniões dos partidos políticos (excluindo o MPLA), da própria Regedoria e do Pároco da Missão Católica Nª Sª de Fátima, a Administradora, o Administrador Adjunto e o Comandante Municipal, sejam as entidades que estejam a minimizar o problema.
perguntei como é que as coisas estão (?) estamos todos bem, já não há problemas, isto é que se quer.[...]
A minimização do problema, ligada à falta de informação disponível, podem ser considerados como os factores principais que provocam a manuenção perpétua do problema. Tal como apontámos para a falta de informação, a minimização do problema pode, de uma forma ingénua estar relacionada com a continuidade da situaçao ao longo dos anos e sem um fim à vista, se nos apegarmos às declarações do Administrador Adjunto, enquanto coordenador da Comissão de Pacificação:
[...]A Sra. Administradora sublinhou muito bem que há questões que nós mesmos já devíamos ter evitado há bastante tempo. Aconteceu que não tínhamos uma aproximação, mas a senhora administradora sempre teve as portas abertas, mas não sei o que terá acontecido e não tivemos sucesso.[...]
[...]Algo terá nos passado que não devíamos ter chegado a este ponto, e o secretário da UNITA confirma isto[...]
De acordo aos factos relatados, podemos considerar que o caso da Balança, de 26 de Maio, teve os seus antecedentes em Outubro de 2016, sem que a Administração tenha tomado qualquer posicionamento, conforme relata o secretário municipal da UNITA: “para não falarmos aquilo que foi o passado, vamos falar duma situação um pouco recente, nós vivemos praticamente uma situação que começou exatamente em Outubro de 2016, tomámos o conhecimento em como os nossos militantes do partido na povoação da Balança foram corridos porque eram militantes da UNITA, porque não podiam ficar lá, porque naquela povoação podia só viver os elementos afetos ao MPLA. Aquela informação chegou-nos, nós tivemos que confirmar no terreno, tivemos que produzir um documento que deu a sua entrada dia 16 de Novembro. Depois de quase um mês do acompanhamento do evoluir da situação lá no terreno, produzimos o documento e démos entrada na investigação criminal porque tínhamos os dados de todos aqueles que fizeram parte do tal envolvimento, os tais autores morais e materiais, tirámos a cópia para a Administradora Municipal na qualidade de ser titular deste município, tirámos uma cópia para a Administração Comunal do Cubal do Lumbo, onde pertençe aquela povoação, tirámos uma cópia para a nossa estrutura provincial para terem conhecimento, fomos andando, não houve nenhuma resposta à volta daquela situação.” O secretário da UNITA, ainda acrescentou “e tinhamos pessoas refugiadas daquela povoação para outras áreas, viviam até nas suas lavras. O que nos criou preocupação foi o silêncio das autoridades aqui locais.”
Ainda em relação ao histórico do problema ocorrido na povoação da Balança, Chilumbo explicou que “quando foi dia 19 de Dezembro [2016], numa das reuniões tidas, levantámos essa situação mas a polícia dizia que desconhecia do assunto” e questiona-se, “se nós introduzimos na investigação criminal e se a investigação criminal não trabalha independente, trabalha com a própria polícia, como (?), dizia que eram estruturas muito diferentes e eu pessoalmente, tirei uma cópia e entreguei ao comandante mas a partir
B – UM CONTRA TODOS OU TODOS CONTRA UM?
Outra questão que realça à vista no caso do Bocoio, um dos partidos políticos, neste caso o MPLA, está sempre ligado a todos os factos descritos de intolerância política.
No entanto, de acordo a algumas das opiniões, os problemas realmente se prendem com o MPLA e a UNITA.
Sem menosprezar essa reflexão que até pode basear-se em bastante quantidade de lógica, o que é certo é que também as demais formações partidárias entrevistadas queixaram-se de problemas de intolerância política sofridas por acção de possíveis militantes do MPLA. Gostaríamos de referenciar as palavras de Fernando Tchilumbo Calima, secretário da CASA-CE:
[...]quando fizemos o contrato de arrendamento deste edifício, desta estrutura, houve aquele puxa-puxa, os homens do MPLA não queriam que nós estivessemos aqui, que ficássemos aqui localizados. Nós fizemos a negociação com o senhorio, chegámos, colocámos a nossa bandeira, mas houve a orientação de alguns militantes do MPLA, arrancaram, partiram o mastro e o próprio ferro e a própria bandeira levam na administração municipal. Por sua vez a Administradora viu ali o mastro, tira a bandeira e coloca na sua gaveta. Foram-nos retiradas mais de 3 bandeiras aqui na sede [nas instalações principais], o mastro foi, está lá na administração e até hoje não nos devolveram, está lá!”[...]
Por sua vez, as acções de intolerância não se direccionam apenas às formações partidárias. Também organizações da socieade civil, sentem esse mesmo problema, foi o que nos disse Acácio Tchissende Paulino Cutelela, activista do Círculo Rastafary de Benguela (CRB)
[...]Tivemos muitos problemas com os núcleos comunitários, fomos acusados que nós somos da UNITA, isso no ano de 2009, fomos acusados de que nós somos da UNITA.[...]
[...]isso foi com o líder comunitário do Chaimbungo, que é o soba. Fomos responder ao partido do MPLA e à polícia, mandaram chamar e a polícia também havia mandado chamar. Lá esclarecemos quais são os nossos objectivos e uma vez que eles estiveram com os documentos relacionados com o projecto que a gente havia levado. Lá justificavam pelas cores que o CRB tem nas portas, dizendo que só faltava galo, são as informações que nós recebemos lá, que nós estamos a implementar um grupo de partido que é da UNITA.[...]
Portanto é claro, pelas informações recolhidas, que o problema não se prende exclusicamente ao MPLA e a UNITA e tão pouco cinge-se ao mundo partidário, penetrando mesmo na órbita da sociedade civil. Parece haver uma intensão de impedir o trabalho e a implantação de todas as forças da oposição e/ou que ajam de forma independente, não se subjugando ao “poder” do MPLA e da Administração.
Já o comandante da polícia falou de um caso ocorrido na aldeia do Etemba. [...]Relativamente à questão política, depois são questões entre primo, irmão, tio. É o caso da Etemba. O caso que ocorreu na Etemba, o senhor que estava a ser evocado, o pai dele disse que ele é da UNITA e afirmou lá que é da UNITA e vai manter na UNITA. Se o filho dele saiu da UNITA para o MPLA ele não tem nada que travar, mas também apresentou uma questão que é que não ficou a gostar da forma como foi tratado o filho dele, independentemente dele ser da UNITA mas não gostou como o filho dele foi tratado pelos militantes do partido UNITA porque estão a lhe perseguir por ser militante do MPLA.[...]
C – A PAZ DO MAIS FORTE
O trabalho desenvolvido no município do Bocoio permitiu sobressair a realidade do processo de pacificação em Angola. No terreno, é visível que o que vem acontecendo é a “paz do mais forte”.
O que nos leva de imediato a esta conclusão, prende-se essencialmente com os testemunhos recolhidos em que alguns deles remontam ao ano de 2004.
Esta sensação liga-se de imediato ao clima de desconfiança. É claro que outros factores se relacionam com este. Não é difícil ouvir-se a expressão “é árbitro e jogador ao mesmo tempo”. Isto principalmente quando os partidos políticos da oposição se referem à polícia.
Por outro lado, tanto a administração como o comando da polícia fazem muita referência às zonas de maior influência da UNITA onde por exemplo, sobressaiem as palavras do comandante:
[...]Eu fui no Capinge com a senhora administradora, nas vestes de administradora, à visita das aldeias, o senhor administrador disse que se alguém quiser ir nessa aldeia do Capinge, quiser fazer negócio tem que ser revistado, entrevistado, você veio d‟aonde, que você veio fazer, porque lá tudo desconfiam.[...]
O processo de paz e mesmo o processo da independência atira-nos para isso. Desde sempre apenas os beligerantes, os fortes, se sentam na mesma mesa e negoceiam. Os outros são marginalizados.
O caso da Comissão de Pacificação pode ser mais um desses maus exemplos, como sente o secretário da UNITA
[...]poderem [as autoridades tradicionais] testemunhar aquilo que é o comportamento dos seus correspondentes tradicionais lá nas aldeia [e as autoridades religiosas] para também se aperceberem aquilo que tem sido alguns comportamentos dos catequistas nas aldeias.[...]
Já o secretário do PRS partilha da mesma ideia: [...]Tentaram resolver eles próprios, nós sabemos que cá no nosso município, a administradora é que representa o MPLA, não sei se as pessoas, quando ela ia para lá junto com a policia, se o povo da Balança viu-lhe como administradora ou se viu-a como secretária do MPLA. Não sei e foi para lá sozinha, da informação que eu acabei de colher. Tal coisa que já não seria assim. Tinha que ser todos os líderes dos partidos políticos sedeados no nosso município, é que deviam lá estar, sentar com o soba e outras entidades tradicionais para resolver esse tipo de problemas, para fazer entender como é a política e como se deve viver em uma democracia. Ainda mais agora que estamos em véspera de eleições.[...]
D – QUANDO O FUTURO PAROU NO PASSADO
Pensamos ser bastante importante referir-nos a passagens da Administradora Municipal do Bocoio: [...]Só falando de partidos políticos, veja só, eu fui a uma aldeia agora em Março onde pensavam que há só 2 partidos. Eles pensam que só há o MPLA e a UNITA. Eu tive que explicar que não. Temos 11 partidos[...]
[...]e não só, por exemplo estivemos na aldeia da Chicala, lá não se iça a bandeira da República nas escolas porque eles confundem a bandeira da República com a bandeira do MPLA. Não se iça a bandeira lá. Não se canta o hino nacional, porque essa bandeira não é nossa[...]
Fica claro aqui que para grande parte da população do interior, não há o acesso à informação. Deve haver um programa de longo prazo de educação, consciencialização da população que deve ter como propósito elevar o nível de conhecimentos destas pessoas que se localizam no interior das comunas, sem acessos e que ficam muito dependentes das informações quer das autoridades tradicionais, quer das lideranças partidárias. Estas populações, facilmente são manobradas e podem ser agitadas para provocarem actos de intolerância política.
E – A PARTIDARIZAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS
Esta situação deve desde já ser encarada como foco de conflito. Mesmo que não haja qualquer intensão de misturar os dois papeis, o que é certo é que é um forte motivo de desconfiança.
Por exemplo, no dia em que a equipa teve a entrevista colectiva com a Administradora, Administrador Adjunto e o comandante municipal da polícia, poucos minutos depois do encontro, a equipa confrontou-se com a circulação na via pública duma viatura da administração comunal do Cubal do Lumbo, transportartando uma bandeira do MPLA.
Lembramos que é na comuna do Cubal do Lumbo onde se vive mais recentemente, os graves problemas de tensão e de intolerância política, portanto, este comportamento por parte da Administração comunal do Cubal do Lumbo, não demonstra qualquer vontade de mudança, adoptando uma postura de se colocar num dos lados da barricada, no lado do MPLA.
Já em relação ao caso de 12 de Abril de 2015, José Martinho, uma das testemunhas, explicou sobre o envolvimento do administrador comunal do Monte Belo no próprio conflito. [...]Quando a polícia e o Administrador viram que nós estavamos em posição de repelir todos, então o Administrador foi pegar a ambulância, mete ali as armas, organiza a polícia, então assim mesmo começa com tiroteio. Estavam a avançar em direcção ao nosso secretariado, mas nós como tínhamos homens que foram militares, eu que falo sou capitão, ex militar, agora transformámo-nos em civil, decidimos tomar posição em relação aos disparos que vinham, estavam a avançar mas nós pensámos que, sem armas, mas daqui mesmo ninguém pode se mexer mas vamos receber todas as armas. Assim que estavam a avançar, nós levantámos com muita força e com bengalas e eles tinham que recuar. Onde o Administrador, o carro de ambulância que ele utilizava ficava carbonizado, sem vidros e o resto de polícias todos dispersos e nós pensámos que não devíamos capturar as armas porque sabemos os argumentos deles.[...]
Outro caso flagrante ocorreu aquando duma das visitas da equipa ao terreno. Era a véspera do acto de massas do cabeça de lista do MPLA a decorrer em Benguela. Dezenas de camiões do Estado, apoiaram o transporte de centenas de cidadãos do Bocoio para Benguela para participar na referida actividade.
A equipa tinha solicitado condições de segurança para se deslocar à Balança, à qual a Administradora esclareceu: [...]Nós estamos numa altura de muita agitação, pelo que ouvem por ali, o comandante está cheio de trabalho hoje, porque a partir de hoje até dia 9, os agentes estão envolvidos por causa das caravanas que vão a Benguela [para participarem no acto do cabeça de lista do MPLA às próximas eleições]. Nós aqui temos ainda pouco efectivo da polícia nacional, não sei se tem esta possibilidade ou não e a integridade física das pessoas é muito, muito importante. A vossa pretenção choca com outro trabalho que vai mobilizar muita gente e sobretudo os que vão fazer o trabalho de segurança pública, daí que a minha ideia, a meu ver, não sei se este é o momento ideal. É este o meu ponto de vista[...]
F – A INTOLERÂNCIA E AS AUTORIDADES TRADICIONAIS
[...]Quando me levaram daquela acção da mata fechada, chegámos até na aldeia onde eu vivo, onde tem o próprio soba chamado Fernando Mbunda, me amarraram, passei toda a noite na casa do próprio soba, amarrado, na sombra da própria bandeira do MPLA, o que eu não gostei.[...]
[...]Para puxar a democracia aqui em Angola, sofremos muito. Sofremos muito. Ainda continuamos. Mesmo agora, no Monte Belo há tranquilidade, mas os sobas sempre continuam, exemplo do soba Belar do Calossonga.[...]
Segundo o Secretário da CASA-CE, na povoação da Balança, comuna do Cunal do Lumbo, as autoridades trdicionais estão por trás de casos de intolerância política. [...]No Cubal do Lumbo, na povoação da Balança, os militantes da CASA-CE foram-lhes retiradas as camisolas, ameaçados à morte e isso pelo soba. „tira a camisola‟, assim a autoridade tradicional![...]
Um dos factores que se aponta para o envolvimento das autoridades tradicionais nas acções de intolerância política, prende-se com a partidarização das autoridades tradicionais. Por exemplo, o Pároco da Missão Católica Nª Sª de Fátima, pensa que isso pode prender-se com as benesses que as autoridades tradicionais têm vindo a receber. [...]pelo menos eu tenho insistido que uma autoridade tradicional é um poder de grande importância, fundamental numa comunidade. Ora quando, por exemplo, um soba opta por um partido, assim visivelmente, mina as relações dentro da própria comunidade e quando um soba admite que se ponha a bandeira [de um partido] no pátio da sua casa, isto de facto estraga a relação da própria comunidade. Quando amanhã alguém vier e seja do outro partido, com um problema, como é que vai ser(?)[...]
[...]Isto pode ser que também seja problema dos próprios partidos que insinuam por benesses que o soba vai recebendo, insinuam que o soba caia nesta isca. Não pode ser assim. Devem respeitar o soba, o papel que ele desempenha dentro de uma comunidade, e que é importante, e que ajudem o próprio soba a fazer o seu trabalho que a comunidade lhe confia, para que todos que forem ao encontro do soba se sintam em casa, que consideram o soba como um pai.[...]
O Secretário da Regedoria confirma que o grande problema prende-se precisamente com a partidarização das autoridades tradicionais. [...]Porque há sítios onde você encontra que não há uma bandeira da República e tem uma bandeira do partido. Significa que nós vamos atribuir aonde o erro (?) É nos próprios partidos políticos. Porque quando o tal partido político não faz entender esse soba, que não conhece nada, também está dentro do erro.[...]
G – E AS IGREJAS?
[...]Temos o caso do catequista aqui da Balança, temos o caso do catequista do Evolo que continua a estimular a violência, até chegou a proibir todos aqueles que não faziam parte do MPLA, não podiam frequentar aquela igreja. Chegou a vir aqui a pedir às entidades governamentais que lhe dessem armamento para irem até lá correr com os da UNITA. Foi o mesmo catequista que pessoalmentou pensou que devia queixar os homens da UNITA porque nessa altura não estava à vontade[...]
No entanto, infelizmente, o dedo não se aponta apenas a membros da Igreja Católica mas também a praticantes de outras igrejas. É o caso de José Martinho Munhica, pai de Isaac Soma Martinho, que tinha 21 anos, na altura em que fora assassinado.
Segundo José Martinho, a menina que estivera na casa do pastor intercepta uma carta que tinha sido posta no fundo do sapato da menina a 31 de Setembro. Na carta alertava para a morte do rapaz. A moça terá mostrado a carta ao catequista e ao pai do rapaz. Por sua vez, o catequista fez chegar a carta ao pastor e este por sua vez levou a carta para a polícia. Por outro lado, deu por encerrado o curso pré-nupcial e a menina deveria regressar para a casa dos seus pais, para poderem-se organizar para na sexta-feira dessa mesma semana, se realizar o casamento.
Para o pai de Isaac Martinho, os envolvidos no assassinato prepararam-se quando o seu filho se preparava para levar a rapariga para sua casa. Foi assim que a caminho, foram interceptados pelos 2 assassinos com catanas e facas que os mandaram parar “e a partir da mota começaram já a lhe cortejar, na presença da menina”
José Martinho suspeita que houve o envolvimento do pastor e da polícia na preparação da acção e garante que possui os nomes dos polícias envolvidos e que os encaminhou junto ao processo de queixa. Os dois actores materiais do assassinato foram julgados mas o juíz do Tribunal do Lobito decidiu suspender o processo, estando suspenso até hoje, permanecendo um ainda detido e o outro em liberdade condicional.
H – O PRESENTE AMEAÇADO E O FUTURO INCERTO
[...]aquilo geriu um grande problema mesmo, onde resultou em pauladas, catanadas, em migrar, muita gente tinha que sair de lá para cá, porque houve algumas organizações, mesmo do município, da parte da J [JMPLA] que são alguns membros da organização juvenil do MPLA, que estavam ali a fazer confusão, tentar resolver o problema eles próprios, a não ser autoridade, que seria a polícia nacional, lutar, aquilo mesmo é bater, aleijar, não morrer alguém é sorte, não temos essa informação que morreu alguém, e até aqui muita gente, por esse mal entendido, se encontra cá na sede do município residindo. Não consegue voltar nas suas terras de origem ou nas suas residências porque são ainda atormentados[...] (Secretário do PRS)
[...]As populações que já tinham vivido, os que já viram aquele tempo de guerra, já correram, já viram situações assim dramáticas, prontos, alguns começaram a abandonar as áreas, recuar alguns pr‟áqui para este município e uns até foram mesmo para o município do Lobito.[...] (Secretário da Regedoria)
[...]tinha tomado este conflito proporções alarmantes e que prejudicou, mesmo eles, os da UNITA também deslocaram-se, não estando de acordo, vamos começar mais guerra (?) eu na guerra não vou mais, então também começaram a vir.[...] (Administrador Adjunto, Coordenador da Comissão de Pacificação)
I – O PODER POR NOMEAÇÃO E A FALTA DE ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS
A nomeação dos administradores e a falta de eleições autárquicas deve ser encarado como um dos factores que porporciona o clima de intolerância. Não existe uma relação directa entre os administradores e as comunidades. Não existe um vínculo entre as diferentes partes que obrigue os administradores a reflectirem sobre as suas reais responsabilidades e obrigações. Dependem apenas de quem os nomeia, mas não do povo que os devia escolher.
Esta prática estimula, antes pelo contrário, a tentativa dos administradores pretenderem manter a situação em que foram nomeados. Sentindo que não são alvo do controlo directo da população, os administradores sentem-se mais à vontade.
J – A PAZ MILITARIZADA
Outra coisa que chamou à atenção da equipa da PESCB é o envolvimento das formas militares neste processo de pacificação. O comandante municipal justifica a presença de representante militar na referida comissão de pacificação, pelo facto da polícia nacional ter uma dependência directa do Estado Maior General. Por outro lado, garante que tem apenas como o propósito de ouvir, acompanhar e aconselhar a comissão.
[...]A administradora, na qualidade de administradora, criou uma comissão, onde envolveu os 2 partidos políticos, a polícia para a seguir, e nós, a polícia dissemos, que já que é assim, também combinámos uma pessoa das forças armadas. Porquê as forças armadas? Porque a polícia tem uma subordinação ao Estado Maior General, é um órgão que a entidade máxima é o Estado Maior General. Então como o nosso território tem uma unidade das forças armadas, não podemos nos deslocar, também só tratar esse assunto lá, só nós a polícia e excluirmos as forças armadas, Não (!) um representante das forças armadass, nós solicitámos, nos foi concedito e também nos acompanhou, pra quê (?) só para ouvir só, ouvir, acompanhar-nos e aconselhar.[...]
[...]o governo aqui local, na pessoa da Sra. Administradora Dra. Valiangula, teve que puxar pelos efectivos, pediu ao comando da zona militar aqui em Benguela, onde pediu alguns efectivos para virem aqui no terreno com o fim de intimidar os militantes da UNITA. É assim que puxou por alguns efectivos, 2 companhias que foram posicionadas aqui no Lucunga, na comuna do Passe, e o seu posicionamento ali serviu de mensagem deles no sentido de dizer às pessoas que quem não entendesse qual a mensagem do próprio governo, iria ser raptado pela FAA ou então teria sido morto pelas FAA. Desta vez quando lá estivemos, conversámos com as própiras FAA e eles também assistiram ao nosso programa, ouviram a nossa mensagem e conseguimos de apaziguar os corações dos militantes que estão lá. Ante-ontem mesmo, apareceu outro efectivo a pedido da mesma Administração, posicionou-se aqui na ponte sobre o rio Pango, outro efectivo foi para a povoação de Cangombe, no Cubal do Lumbo, porque diziam que Cangombe tinha um campo de treino da UNITA. Conseguimos neste preciso momento de apanhar as informações em como aqueles efectivos já ontem conseguiram de regressar porque aquilo que foram os propósitos do seu movimento para lá, não conseguiram de encontrar[...]
Esta militarização do processso, põe em causa a sua própria essência, que é o de pacificação. Os conflitos não envolveram militares, nem existem aparentemente, grupos armados, mas apenas civis, militantes de partidos. Não existe, portanto, qualquer razão para o envolvimento de militares na comissão de pacificação. Por outro lado, a movimentação de militares pode ser encarada precisamente como uma forma de amedrontamento da população.
Se já num outro contexto qualquer, a movimentação de militares seria um problema, agora em véspera de eleições pode ser um elemento forte de pressão sobre a população. Conforme a PESCB já anteriormente recomendara, reitera que se ponha fim a toda e qualquer movimentação militar a nível do território do município do Bocoio.
K – DAS AMEAÇAS AOS ASSASSINATOS
[...]duas vezes fui ameaçado à morte, dado o exemplo de alguns dirigentes da UNITA que foram já assassinados. Também o meu pai é perseguido na povoação da Balança por ter um filho militante da CASA-CE. É um ambiente menos agradável. Uma coisa que está muito mal.[...] (Secretário Municipal da CASA-CE)
Em 2011, dia 18 de Setembro, foi assassinado o secretário municipal do partido, Januário Arlindo Sikaleta. [...]Foi morto pelas pessoas identificadas, pessoas conhecidas e até agora estão aqui connosco. Alguns deles até são polícias e foram autores morais. Todos estão aí e continuam impunes. Nós fizemos tudo, tentámos recolher os nomes todos, mas não aceitaram porque são eles que estão no poder. Tentaram prender um jovem que deve estar a fazer agora 25 ou 26 anos. É esse que está na cadeia. É um jovem que, se calhar, nem viveu a tal situação. Mas aqueles que nós citámos nem conseguem desmentir ou então fazer outra coisa. Não conseguiram. Até agora os processos estão lá, o próprio tribunal tem esses processos todos.[...]
Já em 2007, fora assassinado o jovem Isaac Soma Martinho, tinha 21 anos, na altura em que fora assassinado. Era estudante, foi director do grupo da igreja IECA, do Centro Missionário de Kalubango e era da JURA. Estava no processo de casamento, a frequentar o curso de educação pré-nupcial. Casava-se naquela mesma semana.
Também o Secretário Municipal da UNITA garante que existe um plano para o assassinarem. [...]eu pessoalmente, em minha casa fui já emboscado por 3 vezes, porque o objectivo é o de me abater. Mesmo agora, neste preciso momento, esse programa ainda continua, de me abater aqui no Bocoio. Já falei que depois da confusão da Balança, o próprio comandante municipal teve que conceber um plano de me capturar, só que ele atrasou o plano[...]
L – A INTOLERÂNCIA NÃO É ESPONTÂNEA
De acordo aos relatos, os factos ocorridos ao longo destes anos de intolerância política, não são espontâneos. Todos realçam a existência de grupos organizados de agitadores. Por exemplo o secretário municipal da UNITA aponta para o facto de envolvimento de grupos organizados, como no caso recente da Balança, em que diz terem sido mobilizados 250 homens. [...]porque lhes haviam prometido cada um receber 100 mil Kwanzas e que até agora não receberam e agora também entraram na revolta e é dali onde nos facilitou termos acesso à relação nominal deles, dos 28 elementos que fizeram parte daquela operação. Outros vieram do Monte Belo, outros daqui da Sede e a própria comuna. São 250 homens[...]
aqui [ombro esquerdo] a articulação, gleina escapular, houve muitos outros feridos também a partir dali, inclusivé o filho da mamã [uma senhora presente].[...]
M – TORTURA, AGRESSÕES E DETENÇÕES ARBITRÁRIAS
Começámos por ouvir António Marcelino Sangama, natural da Capira, município do Balombo, residente actualmente no Monte Belo.
Iniciou por dizer que “sou alvo de intolerância política desde 2003, 2004 até 2005, até 2006 quase. Sofri 7 vezes a cadeia nas mãos do MPLA. Não consigo definir tudo para completar a entrevista porque há tempo que passa já, a mentalidade já foi fatigada naquela altura.
O princípio do sofrimento que eu sofri, da tal intolerância política é mesmo através dos sobas. A orientação que o MPLA deu nos sobas. Eu fui militar, oficial capitão. Depois da nossa desmobilização fomos orientados para retornar nas nossas casas. Chegando lá no kimbo, o tempo que nós, não demorámos muito, a perseguição agora já iniciou. A intriga foi de eu possuir uma arma de fogo.
Um dia desses me levaram até na Saraiva para merecer a entrevista interrogação de como eu guardei a arma. Eu não combati na área do Monte Belo, lá onde combatemos era distante. A arma que eu possuia, na altura da desmobilização fui trazer na área de acolhimento, Lukunga. Não tinha mais nada, sobretudo que tratava de guardar a arma. Quando viram que a minha razão foi real, transferiram o caso da Saraiva para o Monte Belo [Sede do município]. Depois no Monte Belo, decidiram enviar na minha pessoa os elementos da ODC, a defesa civil.
és da UNITA? – eu teria o algo, porque simplesmente eu sou mesmo militante consequente do partido UNITA. Isso podia dizer me matem só, conforme nós estamos. Como fomos soldados, matámos muita gente, eu espero também morrer.
Dali me levaram até no Monte Belo, chegado no Monte Belo encontrei mais o efectivo elevado. Assim mesmo não tenho mais como, não houve mais a justiça, é me meter já nas cordas, me amarraram assim [pelos braços] por detrás, me meteram mais umas cordas aqui [nos pulsos] e me meteram vareta aqui na cabeça [de cada lado da cabeça] e me meteram corda aqui nos joelhos. Ao mesmo tempo me bater. Aquilo não dá, nem mesmo o porco, nem mesmo o quê, nunca a pessoa quando cria o teu porco, matar o porco lhe mata daquela forma. O sofrimento foi demais. Não tinha mais como falar. Houve a intervenção da Cruz Vermelha. Quando a Cruz vermelha vinha procurar as informações como é que isso aconteceu, como é que isso está (?) Depois do regresso da Cruz Vermelha foi pior. Eu fui mais o alvo. Como é que nós levámos muita gente, chegando a vez deste senhor, na altura o meu nome afamado mais era Kafundanga. Quando capturámos o Kafundanga a Cruz Vermelha venha a se intervir nos casos dele. Então aumenta nos casos. Intensificaram mais outra vez o espancamento. Um dia desses sem eu dar por conta, afinal é para nos avisar que a UNITA não pode aparecer mais, então você tem de mostrar a sua realidade a partir de então para adiante, tinha de mudar da UNITA para o MPLA. Está ali o envelope do dinheiro e está ali a pistola. Dentre essas coisas tira aquilo que você, da sua preferência.
Eu lhe disse claramente que eu fui comando da UNITA, dentre essas coisas que vocês meteram ali na mesa, o que eu tenho na minha mente, mesmo que sou desarmado, é essa pistola, assim conforme estamos eu prefiro tirar a pistola, depois aquilo que eu vou praticar quem tiver sorte é que vai sair aqui porque eu não fico satisfeito depois de muito espancamento é quando vocês vão passar de me mobilizar. Os que aderiram o partido UNITA foram os pais e nós fomos nascidos na própria UNITA, até que crescemos na UNITA, até que a UNITA nos projectaram passar a chefiar os nossos irmãos, conforme eu fui patenteado à patente de capitão. Eu não mudo dessa ideologia.
Depois disso pensaram ainda para eu regressar. Me pediram o porco, galinhas e tudo aquilo que eu tinha na minha posse. Eu estava a dizer que estou a chegar só agora das áreas de acolhimento [acantonamento], não possuo mesmo nada. Quanto ao vosso pedido, a família vão arranjar a maneira de salvaguardar a minha vida, mesmo que eu não tiver isso a família vai repor. E o acordo foi com eles assim.
Mais tarde complicam mais o próprio processo – que não, esse cidadão não pode ser liberto porque ele tem mania na área.
enganado, vamos te matar mesmo assim agora. Dali mesmo começaram já a me espancar, na própria mata fechada. Aquela área no sul do Monte Belo, as pessoas todas têm conhecimento do sofrimento que eu sofri através das tais intolerâncias políticas. Se até aqui estou vivo, é o esforço do partido, quando o partido interviu. Na altura não houve esses a quem pode acudir as situações que vivem os militantes do partido, particular a UNITA.
Quando me levaram daquela acção da mata fechada, chegámos até na aldeia onde eu vivo, onde tem o próprio soba chamado Fernando Mbunda, me amarraram, passei toda a noite na casa do próprio soba, amarrado, na sombra da própria bandeira do MPLA, o que eu não gostei. Depois dali, me exigiram dirigir os outros que são também militantes da UNITA, por exemplo ali, o outro [dirigiu-se a Faustino João Kalufele], localizar a casa dele e eu fui, foi-me obrigado dirigir na casa dele, junto com esse senhor aqui [dirigindo-se a Marcolino Teixeira]. Chegando ali, os outros também sofreram a mesma coisa. Eles poderão já dizer.
Me levaram até no Monte Belo. No Monte Belo, novamente, que é a 5ª vez. O espancamento que eu encontrei lá no Monte Belo não é mais da pessoa. Até aqui eu não estou complecto conforme os pais me criaram. Eu nunca vi. Eu me crucificaram como se fosse Jesus Cristo. Me despiram toda a roupa, até a roupa do interior. Me meteram mesmo assim [de braços abertos] tipo crucifixo. O Jesus Cristo que morreu na parede. – Explica o segredo só que vocês tiveram junto com o presidente fundador do Partido. Eu a sentir que vão me exigir o segredo do membro fundador, eu, um membro só da UNITA (?)
Foi precisamente buscar os projectis, granada de morteiro 82. Assim que estou mesmo amarrado, tipo Jesus Cristo, tiraram aquele arame de cozer os sapatos, aqueles cafios pequenininhos. Cada projéctil desses me meteram cada testículo. Cada testículo mereceu um projectil. Durante 30 minutos não consegui mais ficar de pé, caí no chão. Vi só o coração estava a arrear. Depois de cair no chão não vi mais nada porque aquilo, me bateram muito. Estive a sangrar muito. Não é mais pessoa.
Até aqui, da maneira que eu estou dizer, eu não estou complecto conforme os pais me nasceram, aqueles projectis que meteram ali nos testículos, até aqui, me deram cabo. Não estou mais conforme.
Até aqui não consigo falar muito porque é muito. Aquilo que eu falo!!! Ali na tal intolerância deixei a minha criança primogénita que eu tive. Veio comigo onde nós lá viemos, chegando lá nas próprias áreas, as contradições quando escapam na minha pessoa, empurraram as contradições na minha filha. A minha filha como não tinha mais como resistir, ela disse que eu não consigo mais passar nessa situação que passou o pai. É melhor eu sair na vida das pessoas e se matou a ela própria, as pessoas testemunham.
a minha criança nunca pode se casar com a pessoa do MPLA, esclareça a sua verdade. Depois de eu reagir, permitiram eu ir realizar o óbito da minha filha.
Aquilo que eu vi na minha vida, ali na área onde estamos, se merecemos essa entrevista hoje, eu não tenho mais como falar. O bem é que os nossos mais velhos que são dirigentes do partido, consideraram o meu sofrimento.
Para puxar a democracia aqui em Angola, sofremos muito. Sofremos muito. Ainda continuamos. Mesmo agora, no Monte Belo há tranquilidade, mas os sobas sempre continuam, exemplo do soba Belar do Calossonga.
A tranquilidade depende só daquilo que eles quiser se comportar. Para mim, eu não posso alastrar muito, o que trata da minha vida. Não gostei e não gosto aquilo que os outros me fizeram, porque são vivos até aqui, outros é que morreram, mas outros estão mesmo vivos, através das orientações, os sobas também foram orientados pelos governadores
[administradores] municipais e comunais, a exemplo do próprio Administrador, ao mesmo
tempo secretário do partido do MPLA, na altura foi o Jaime Daniel, e a sua polícia. O comandante actual da polícia do Monte Belo [Flaviano Agostinho Canique], no meu sofrimento, ele é que estava presente e agora retornou mais no Monte Belo.
É o que consigo falar resumidamente do que me aconteceu de 2004 a 2006.”
Faustino João Kalufele declarou que depois da desmobilização [2002 na área de Lukunga Passe], viveu algum tempo na Sede do município do Bocoio. De 2004 para 2005 decidiu ir para a sua área natal.
“Assim que cheguei à minha terra fui alvo, viram que eu fui um dos membros fortes naquela área. A partir dali começámos a viver várias perseguições. As intensões daqueles dirigentes do MPLA queriam que nós mudassemos de organização política nossa para área deles. Assim que eles viram a nossa fortaleza, viram que deviam cozinhar intrigas a título de nos maltratar, de nos espancar, para ver se a partir dali ganhassemos aquele medo a ponto de nos rendermos a eles.
Dizer que naquele dia que o outro acaba de explicar em que até ele foi quem dirigiu para mostrar a minha casa, praticamente foi às 5 horas da manhã quando eles apareceram em casa, ele em frente do grupo. E assim quando eu tentava acordar vi que a minha casa já estava toda ela cercada.
Me tiraram dentro de casa forçosamente, não disseram mais nada, dali mesmo é me pôr nas cordas, me levaram na altura a um soba do bairro que se chama Teixeira Caconda. Assim que chegávamos lá, a minha senhora me seguia atrás, a partir já de fora de casa, me descalsaram já, eu andava já descalço, ela sempre me seguia com os calçados para que eu calçasse. Assim que viram que a minha senhora vinha atrás, lhe ameaçaram com tiro.
voltar à guerra. Ele é um indivívuo que guardou armamentos aqui no vosso bairro para num curto espaço de tempo fazer atrocidades e voltar à guerra‟.
Dali o soba já não tinha mais palavra a dizer, fui levado até a uma área de isolamento onde eles pensam que é dali onde eles deviam me maltratar, talvés me acabar a vida. Postos naquela área, eu tinha sido amarrado conforme o outro acabou de explicar [nos braços, pernas e na cabeça] e começaram a me espancar e obrigavam-me a dizer que para esse sofrimento acabar só tinha que dizer „sim guardei armamento‟. Eu dizia que não. Não posso afirmar uma coisa que eu não fiz. Se tivessem dito, diga que sou militante da UNITA ou sou oficial da UNITA, porque eu sou oficial tenente, sim, posso! Dali teriam razão de me maltratar e finalmente ainda mesmo de acabar a vida, mas menos me impor dizer que eu guardei armamento.
Dali já a porrada continuava, aquilo já não valia a pena. Maltrato de verdade. Até que viram que era uma área próxima da aldeia e eles tinham uma força que estava a guarnecer os homens que tanto estavam a me torturar, então pensaram que deviamos mudar duma área para a outra. Dali me levantaram, me desamarram só as cordas daqui das pernas, ficava só com as cordas daqui [braços] e da cabeça. Aquilo era mesmo amarrar dois ferros assim [um de cada lado do crâneo] e era bater assim nas pontas daqueles ferros que estavam amarrados na cabeça. Até que me tinham levado numa área que eles pensavam que tinha mais segurança.
Chegávamos aí, então o próprio comandante ordenava uns soldados, como o capim já estava assim deitado, foi naquele tempo em Abril, começaram a levantar aqueles capins, me arrastaram por baixo daqueles capins, começaram a voltar a tapar e ordena os soldados começar a pisar por cima de mim. Começavam ali a me pisar, a me pisar, a me pisar, a me pisar (...) e metiam capim dentro da boca até por último quando o próprio comandante viu que talvés devia mandar parar com aquelas práticas e eu já não tinha mais forças naquela altura.
Então quando me arrastaram de novo do sítio até à beira do caminho. Dali disseram – o que vos leva vocês a sofrer só porque são considerados elementos fortes do partido da UNITA. Nós não queremos que o partido da UNITA venha a ter força nesta área. Se vocês aceitassem só render-se ao MPLA, vocês não deviam passar mais neste tipo de sofrimento, mas enquanto vocês não se entregarem ao MPLA, isso ainda vai acontecer mais novamente convosco.”
Kalufele concluiu: “Só pra dizer que o processo foi o mesmo, as práticas de intolerância foram as mesmas, o historial foi o mesmo, por sermos vistos como homens fortes naquelas áreas, razão pela qual tivemos que sofrer aquelas perseguições todas.”
partido da UNITA e estamos lá. Não consigo dizer se um dia ainda pode vir voltar de novo ou não mas para dizer que aquilo que nós sofriamos anteriormente, já não é de igual forma que estamos a sofrer actualmente.”
Em seguida, ouvimos Hilda Mariana que nos contou em Umbundu sobre os factos ocorridos a 12 de Abril de 2015. Segundo ela “quando chegámos ao local, os dirigentes locais que estariam a receber-nos, receber a delegação, já prepararam o terreno, organizaram as cadeiras, todo o pessoal, sobretudo os dirigentes começaram a se sentar.
Como de hábito, a juventude estava a cantar mas a uma dada altura apareceram uns homens que diziam – não queremos aqui a UNITA. Afinal já tinham preparado tudo e sairam da casa onde estavam escondidos e começaram a atirar as pedras, as garrafas, os paus e nós tivemos que nos retirar.
Depois de nos termos saído do local, chegámos num sítio onde encontrámos um antigo polícia chamado Marcelo que mandou parar o grupo que perseguia dizendo que o que já fizeram basta, devem regressar e não perseguir mais os outros.
Quando chegámos no secretariado do partido, como o objectivo principal era colocarmos as bandeiras em dois locais, o secretário decidiu que deveriamos ir colocar a bandeira e quando estámos a tentar colocar o mastro foi quando ouvimos os disparos e depois demos conta da ambulância que vinha com o Administrador a dispararem a partir do próprio carro e tivemos que fugir.”
Segundo a Hilda, chegaram num local onde um companheiro, um ex capitão, que tinha sido apanhado e estava a ser batido com coronhadas e depois disso apareceu a Administradora Adjunta da comuna que orienta a polícia para apanhar-lhes e assim são também detidas e começam a lhes bater.
Depois fizeram cerca de 6 horas na prisão do Monte Belo. Mais tarde foram transferidas para a cadeia da Sede do município onde passaram a noite. No dia seguinte foram levadas para a Catumbela. Ficaram aí detidas [na esquadra da Catumbela] e só no dia seguinte foram soltas.
No entanto, para serem soltas, a caução deveria ser de 62 mil Kwanzas para cada uma. Ela não sabe se o dinheiro foi entregue ou não porque houve envolvimento da estrutura provincial da UNITA.
Ainda sobre o caso de 12 de Abril de 2015, ouviu-se também a Margarida Dina José, envolvida no mesmo caso. Margarida explicou que quando estavam a tentar colocar a bandeira do partido, chegou um jovem chamado Viti que falou com o secretário do partido dizendo que não precisariam da bandeira da UNITA naquele sítio. Depois dessa discussão começou logo o lançamento de pedras, de paus, “a confusão começa”.