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Percursos do "desenvolvimento rural"

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Academic year: 2021

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Interfaces em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade

PERCURSOS DO “DESENVOLVIMENTO RURAL”:

UMA ANÁLISE DE PROPOSTAS

PERITO-NORMATIVAS

1

Mariana Bombo Perozzi Gameiro2

Resumo

As definições conceituais e operacionais sobre as ruralidades se transformam ao longo do tempo. Com elas, alteram-se também as propostas teórico-normativas e políticas para o desenvolvimento rural. Este artigo recorre à lite-ratura internacional e nacional para introduzir brevemente as múltiplas noções do termo desenvolvimento, bem como sua utilização ideológica; posteriormente aborda os modelos de desenvolvimento rural, caracterizando os principais ele-mentos que despontam nos discursos peritos sobre o tema. Ao tratar do debate contemporâneo sobre desenvolvimento rural, o artigo destaca como este foi as-sociado à noção de sustentabilidade e como incorporou, em suas propostas, me-todologias descentralizadas, participativas e territorializadas. Esse percurso das múltiplas noções que envolvem o desenvolvimento rural é analisado à luz da teoria sociológica contemporânea, com destaque às formulações de Anthony Giddens acerca dos sistemas peritos. Entende-se, assim, que atores estrategi-camente posicionados regulam reflexivamente as condições globais de reprodu-ção – manutenreprodu-ção ou mudança – dos sistemas sociais, fomentando relações de-sencaixadas espaço temporalmente.

Palavras-chave: ruralidades, desenvolvimento rural, sistemas peritos.

Abstract

1 Este artigo é parte de pesquisa financiada pela FAPESP entre 2011 e 2013, a

qual resultou na dissertação de Mestrado intitulada “Desenvolvimento, perícia e poder no rural paulista: o caso do Programa Estadual de Microbacias Hidro-gráfica”.

2 Doutoranda e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS)

da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Pesquisadora do Grupo de Estudos Ruralidades, Ambiente e Sociedade, da UFSCar. E-mail: [email protected]

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Conceptual and operational definitions on ruralities have changed through time. With them, theoretical-normative and political proposals for rural development have also changed. This article reviews the international and national literature to briefly introduce the multiple notions of the term development, as well as its ideological use. After that, it deals with rural development models, characterizing the main elements that arise in expert discourses on the subject. Discussing the contemporary debate on rural development, the article highlights the incorporation of the conceptions of sustainability and territoriality, with decentralized and participatory methodologies. These paths of multiple ideas that involve rural development are analyzed under contemporary sociological theories, mainly Anthony Giddens’ concept of expert system. It is understood, therefore, that strategically-placed agents reflexively regulate global conditions of reproduction – change or continuity – of social systems, fomenting “space-time distanciated” relations.

Keywords: ruralities, rural development, expert systems.

1. Introdução

Este artigo parte do conceito de sistemas peritos, que são, por de-finição, os sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos (GIDDENS, 1991). Os sistemas peritos têm influência contínua sobre os indivíduos e esta se perpetua mesmo na ausência daqueles que os representam. Isso significa, em outras palavras, que é desnecessária a presença física ou a vigilância do perito para que suas recomendações técnicas sejam consideradas no momento da ação, não desprezando, ob-viamente, a influência de outros elementos objetivos ou subjetivos que afetam o curso das decisões. Um indivíduo pode, por exemplo, desconhe-cer por completo as discussões conceituais sobre ruralidades e as rela-ções entre campo e cidade, ou pode ter um conhecimento indutivo fraco acerca dos modos de produção agrícola e do que seria desenvolvimento sustentável. Ainda assim, faz cotidianamente opções a partir das

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repre-sentações que constrói sobre a natureza, a conservação ou exploração dos recursos naturais, os alimentos etc.

Tanto leigos quanto especialistas têm consciência das fragilida-des e limites dos sistemas peritos. Giddens (2002) afirma que poucos indivíduos mantêm uma confiança inabalável nos sistemas de conheci-mento técnico que os afetam, e todos, consciente ou inconscientemente, escolhem entre as possibilidades concorrentes de ação que tais sistemas (ou o abandono deles) oferecem. Deste modo, atitudes de antagonismo ou ceticismo coexistem com a confiança nos sistemas peritos – confiança esta que, segundo Giddens, tende a se ancorar na autenticidade do co-nhecimento especializado, não no indivíduo que o representa3. Nesse

cenário, as ciências, mais do que os cientistas de modo individual, ocu-pam lugar privilegiado como locus de produção e difusão do saber.

Frequentemente partindo de observações empíricas, o corpo de conhecimentos especializados oriundo dos sistemas peritos, então, aden-tra na vida cotidiana e afeta as ações individuais e coletivas, por exem-plo, influenciando representações e imagens construídas acerca das ru-ralidades, ou direcionando os contornos das políticas públicas voltadas ao campo, num movimento que se retroalimenta entre “mundo leigo e mundo perito”. Foi assim, por exemplo, que a constatação de diminuição do protagonismo socioeconômico do campo em comparação às atividades

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Gameiro (2013) problematiza esta assertiva a partir de um trabalho de campo realizado junto a agricultores e técnicos extensionistas no interior paulista. Tal pesquisa identifica e analisa casos em que os agricultores afirmam confiar nos extensionistas – símbolos da perícia no meio rural – principalmente devido às características pessoais desses agentes, e menos em função das competências técnicas que eles portam. Isso não significa que tais competências peritas sejam desvalorizadas pelos agricultores, mas sim que outros elementos (objetivos e subjetivos) interferem nesta confiança, para além do conhecimento especializa-do. Para os propósitos deste artigo, no entanto, não cabe adentrarmos neste debate.

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urbano-industriais das cidades que emergiam pujantes no século XIX corroborou para a visão de um rural “arcaico e atrasado”, motivando o posterior desenvolvimento, em ambientes peritos, de tecnologias capa-zes de “modernizar o rural”. A assimilação das recomendações peritas, contudo, não consegue ser previamente modulada, de modo que os resul-tados práticos são incertos.

Isso porque a influência dos sistemas peritos não decorre de uma postura passiva ou de um aspecto estrutural predeterminado, mas sim do caráter reflexivo das sociedades modernas: no constructo teórico gid-densiano, as noções de “agência” e “reflexividade” ocupam lugares cen-trais. Para Giddens (1991), a reflexividade da vida social moderna con-siste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre essas mesmas práti-cas, alterando assim seu caráter. Em outras palavras, a noção de refle-xividade diz respeito ao uso regularizado de conhecimento sobre as cir-cunstâncias da vida social como um elemento constitutivo de sua orga-nização e transformação, afastando a vida social da influência de práti-cas e preceitos preestabelecidos de modo tradicional.

Os indivíduos são reflexivos porque portam, segundo Giddens (1989), a capacidade de agência, que os permite processar a experiência social e traçar estratégias para o enfrentamento da vida. Ainda que di-ante de distintas formas de constrangimento (como as representadas pelos limites da informação, pela incerteza e por restrições físicas, nor-mativas ou polítieconômicas), os atores sociais são detentores de co-nhecimento e capazes de intervir no fluxo de eventos sociais do seu en-torno4. Essa relação de forças torna os processos de desenvolvimento

4 Giddens (1989) expressa, então, o caráter dual das estruturas na configuração

da ação humana, posto que podem tanto constranger/restringir como habili-tar/facilitar a ação. Neste sentido, a dualidade da estrutura caracteriza-se pela

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ral bastante complexos, diluindo as fronteiras entre o que seria interno ou externo à vida rural.

Além de interferir na reflexividade, os sistemas peritos propor-cionam o desencaixe e posterior reencaixe das relações sociais. Desen-caixe, no arcabouço teórico desenvolvido por Giddens (1991), se refere ao deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação, com sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo e espaço. Das modificações do tempo e do espaço decorrem novas formas de ordem institucional, as quais alteram as condições de integração social (no ní-vel micro) e de integração sistêmica (no níní-vel macro), mudando, portan-to, a natureza das conexões entre o próximo e o remoto (GIDDENS, 1989). Os discursos acadêmicos sobre a temática rural ou sobre a neces-sidade de regulação ambiental, por exemplo, podem influenciar as polí-ticas públicas ou a legislação voltadas ao campo, afetando os aspectos práticos da vida dos moradores das áreas rurais e a definição político-ideológica de identidades, sem que o pesquisador científico (por exemplo, europeu) e o agricultor (digamos, brasileiro) jamais tenham se encon-trado.

Nomearíamos “desencaixada” esta relação que, embora ocorrendo em tempos-espaços diferenciados, de alguma forma “liga” os atores soci-ais. Dando continuidade ao exemplo do parágrafo anterior, podemos considerar que cientistas produzam conhecimento e tecnologias que se desdobrem na interdição do plantio comercial em áreas de preservação permanente ou, em outro ramo, no desenvolvimento e comercialização

imposição de regras e pela disponibilidade de recursos, bem como pela recursi-vidade das práticas sociais. Estes componentes da estrutura se manifestam na concreta presença de normas, poder e significados que orientam o repertório de ação dos atores sociais e, simultaneamente, estão implicados na estruturação dos sistemas sociais.

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de sementes transgênicas. Já o reencaixe seria, assim, a reapropriação ou a remodelação das relações sociais desencaixadas, comprometendo-as, ainda que parcial ou transitoriamente, às condições locais de tempo e lugar. No mesmo exemplo, o momento do reencaixe ocorreria quando do cumprimento da recomendação de não plantio em APP ou da adoção da tecnologia transgênica, por parte do agricultor, considerando ainda a existência de agentes mediadores do reencaixe das relações, como os ex-tensionistas rurais.

Desta maneira, ao constituírem fonte de informação e reflexão sobre o contexto em que a ação se dá, os sistemas peritos aprofundam o caráter reflexivo da ação, organizando e alterando rotineiramente os as-pectos da vida social que relatam ou analisam.

2. A polissemia da noção de “desenvolvimento”

Uma breve análise da genealogia do termo “desenvolvimento” re-vela a influência marcante dos sistemas peritos sobre o cotidiano mo-derno. A plasticidade e os múltiplos significados do termo “desenvolvi-mento” lhe asseguram a capacidade de transitar entre diferentes mun-dos peritos: mun-dos economistas e cientistas sociais às diretrizes das organi-zações multilaterais e aos movimentos sociais. Os adjetivos e prefixos acrescentados ao termo (sustentável, endógeno, integrado, biodesenvol-vimento, ecodesenvolvimento etc.) refletem os conflitos existentes na definição de valores, objetivos e metodologias de intervenção que a pala-vra busca mobilizar.

Vários autores entendem que o signo “desenvolvimento” foi e vem sendo utilizado como ideologia, produzindo efeitos, muitas vezes, contrá-rios às propostas originais, aprofundando a dominação e a exploração capitalista e intensificando a pobreza e a destruição da natureza.

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Surgida no século XIX, a noção do desenvolvimento teria se dis-seminado amplamente após a Segunda Guerra Mundial, num contexto marcado pela polarização político-econômico-ideológica entre o socialis-mo e o capitalissocialis-mo. Segundo Clemente (2011), o desenvolvimento teria servido, naquele contexto, para combater o comunismo ao longo da Guerra Fria, para combater os nacionalismos progressistas (na América Latina, nos anos 1960 e 1970), para aliviar a pobreza que o próprio sis-tema econômico provoca, bem como para disseminar padrões culturais hegemônicos e ganhar mercados consumidores. Para este autor, a noção de desenvolvimento, sempre revestida de caráter ideológico, trouxe em-butido um padrão único e hegemônico de produção, que se espalhou des-respeitando culturas, ecossistemas, modos de vida e de produção parti-culares, buscando homogeneizar os padrões culturais e criando novas necessidades.

Para Schmitt (2011), a ideia de desenvolvimento remete a uma construção discursiva, temporal e espacialmente referenciada, afirmada a partir do fim da Segunda Guerra Mundial como um regime de repre-sentação. Isso teria sido possível por meio de um aparato internacionali-zado de produção de conhecimento e de intervenção ancorado em insti-tuições peritas como o Banco Mundial, as Nações Unidas, as agências bilaterais de desenvolvimento, as políticas implementadas pelos Estados Nacionais, bem como em um conjunto heterogêneo de organizações não governamentais (ONGs). A identificação do desenvolvimento como um dispositivo de “saber e poder”, capaz de se impor sobre outras formas de conhecimento e de forjar subjetividades, não evita que a temática seja reapropriada, renegociada, reproduzida ou rejeitada, de modo descontí-nuo, por diferentes racionalidades, modelos e formas de organizar o mundo.

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Ao longo do tempo, as noções sobre desenvolvimento no corpo te-órico da Economia e da Sociologia passaram por significativas mudan-ças, num processo reflexivo de renovação do conhecimento. Mesmo cien-te dos riscos que a simplificação de um cien-tema tão complexo traz, pode-se dizer que, até o século XIX, predominava a vinculação do desenvolvi-mento à evolução e ao progresso, com gradativas alterações até que se tornou praticamente sinônimo de crescimento econômico, o qual, por sua vez, levaria à melhoria de indicadores sociais. A insuficiência desta a-bordagem favoreceu, nas últimas décadas do século XX, a incorporação de indicadores de bem-estar à noção de desenvolvimento, sob influência de trabalhos como os do economista indiano Amartya Sen. Para Sen (2010)5, uma concepção adequada de desenvolvimento vai além da

acu-mulação de riqueza e do crescimento econômico, estando atrelada, so-bretudo, à melhoria da qualidade de vida, à minimização de privações e às condições de liberdade que propicia, por meio do desenvolvimento das capacidades humanas. Com base neste entendimento ampliado, gestou-se a noção de degestou-senvolvimento humano, expressa pelo índice de degestou-sen- desen-volvimento humano (IDH)6.

Paralelamente, somavam-se os indicadores de sustentabilidade ambiental, levando à expressão desenvolvimento sustentável, que em poucas palavras pode ser resumido como aquele capaz de preservar re-cursos às gerações vindouras. O marco que consolida a centralidade des-ta preocupação é a apresendes-tação, em 1987, do documento Nosso Futuro em Comum, conhecido também como Relatório Brundtland, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das

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Esta referência diz respeito ao livro Desenvolvimento como Liberdade, publicado pela primeira vez por Amartya Sen em 1999, mas as ideias ali contidas já vinham sendo disseminadas pelo autor em trabalhos anteriores.

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O IDH foi criado em 1990 por Amartya Sen e pelo economista paquistanês Mah-bub ul Haq, sendo inserido nos relatórios anuais do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) a partir de 1993.

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Nações Unidas. Na área científica, intensificavam-se os esforços para promover e operacionalizar o novo campo da “ciência da sustentabilida-de”, que aglutinava contribuições das ciências naturais, físicas e sociais (HORLINGS e MARSDEN, 2011).

Esse movimento, porém, não vem desacompanhado de críticas. Clemente (2011) revisa a literatura de autores que entendem que o sis-tema capitalista e o desenvolvimento sustentável são incompatíveis. Pa-ra alguns especialistas, as propostas de desenvolvimento sustentável se limitariam a ver o problema ambiental pelo ângulo da questão técnica, tecnológica, evitando atingir a raiz dos problemas, que são as relações capitalistas de produção. Outros enfatizam que o capitalismo necessita aproveitar-se dos custos sociais (exploração de mão de obra) e ecológicos (exploração de recursos naturais) e incorporá-los como lucro, o que invi-abilizaria as propostas contidas no desenvolvimento sustentável de combater a pobreza e anular os danos ambientais.

Schneider e Escher (2011) relacionam a retomada do interesse pela temática do desenvolvimento – e todos os adjetivos que o acompa-nham – aos efeitos de alguns eventos econômicos, sociais e políticos de grande alcance, ocorridos no último quarto do século passado. Entre es-ses, o fim da Guerra Fria, o esgotamento dos modelos econômicos inspi-rados no keynesianismo e nas políticas do welfare state, a queda do Mu-ro de Berlim e o subsequente esgotamento do regime estatista conhecido como “socialismo real”. Mais recentemente, o esgotamento relativo da ideologia e das políticas neoliberais contribui para inspirar o interesse pelo tema do desenvolvimento. O papel proativo do Estado volta a ser enfatizado, junto a um aparente consenso de que as organizações não governamentais e os atores da sociedade civil organizada, assim como o próprio setor privado, não podem ser deixados de fora dos processos de discussão, decisão e execução de medidas práticas.

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Thomas (2005, apud SCHNEIDER e ESCHER, 2011) distingue três sentidos interconectados do termo desenvolvimento em períodos recentes de capitalismo globalizado: (1) como uma visão, descrição ou medida do que deve ser a sociedade desejada; (2) como um processo his-tórico de mudança social em que as sociedades são transformadas no decorrer de longos períodos; (3) como práticas e esforços deliberados que visam à promoção de melhorias, partindo de diversos atores sociais e de agências, incluindo governos, todos os tipos de organizações e movimen-tos sociais. O desenvolvimento seria, em suma, uma construção social legitimada no campo político-ideológico como algo supostamente positi-vo.

As mudanças na conceituação do termo desenvolvimento ocorrem num ambiente de reflexividade institucional que, por sua vez, não im-plica uma sucessão paralela entre a acumulação de conhecimento, de um lado, e o controle mais extensivo do desenvolvimento social, do ou-tro. Segundo Giddens (1989), o maior conhecimento sobre a vida social não provoca maior previsão e controle sobre ela, pois a vida social não é separada do conhecimento humano, e nem este pode ser filtrado conti-nuamente como motivação da vida social – não causando, portanto, uma cumulativa elevação da racionalidade do comportamento. A importância das consequências não premeditadas da ação soma-se aos fatores que desvinculam o aumento do estoque de conhecimentos da pretensão de total previsão e controle social. Quanto mais um problema é colocado em foco, tanto mais as áreas circundantes de conhecimento se tornam em-baçadas para os indivíduos que delas se ocupam, e tanto menos é prová-vel que eles sejam capazes de antever as consequências de sua contribu-ição para além da esfera particular de sua aplicação.

Essa situação gera resultados indesejados e não previstos, os quais não podem ser evitados, salvo pelo desenvolvimento de

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especiali-zações adicionais que, por sua vez, engendram a repetição do mesmo fe-nômeno. Desta forma, o conhecimento perito não cria arenas indutivas estáveis e muitas formas de risco sequer podem ser claramente estima-das (GIDDENS, 2002). Essas observações podem ser relacionaestima-das aos “acertos e erros” dos múltiplos modelos de desenvolvimento aplicados ao longo do último século, os quais representaram grandes avanços econô-micos e, igualmente, elevados custos socioambientais.

3. Construindo sentidos para o desenvolvimento rural

As noções peritas que estabelecem os significados do que é de-senvolvimento são também inspiradoras do que se entende como desen-volvimento aplicado às áreas rurais.

A visão de que o rural se restringia ao agrícola e era “atrasado” frente aos meios urbanos gestou a concepção de que seu desenvolvimen-to se daria por meio da modernização da agricultura. Esta ideia foi fo-mentada e legitimada por um discurso primordialmente científico, con-cebido nos países desenvolvidos e difundido aos países subdesenvolvi-dos, numa articulação entre Estasubdesenvolvi-dos, centros internacionais de pesqui-sa, multinacionais e agências de desenvolvimento, dentro dos chamados sistemas peritos.

A criação do Consultative Group on International Agricultural Research (CGIAR) é emblemática disto. Na década de 1940, a Fundação Rockefeller financiou um programa de pesquisas sobre agricultura no México, com forte apoio do governo norte-americano – o grão inicial da “Revolução Verde”. Um dos principais resultados foi o desenvolvimento de variedades altamente produtivas de trigo, o que acabou tornando o México autossuficiente na produção do cereal e incentivando a transfe-rência de conhecimento para outros países, como a Índia. A fórmula foi

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replicada e quatro centros de colaboração internacionais em pesquisa agrícola foram formados na década de 1960, com apoio adicional da Fundação Ford: um para o arroz (International Rice Research Institute), nas Filipinas, em 1960; o de milho e trigo (International Maize and Wheat Improvement Center), no México, em 1966; e dois para agricul-tura tropical, criados em 1967, sendo um na Colômbia (International Center for Tropical Agriculture) e outro na Nigéria (International Insti-tute of Tropical Agriculture) (CGIAR, 2011).

Visando aumentar o financiamento às pesquisas, juntaram-se às fundações Rockefeller e Ford, a Organização para Agricultura e Alimen-tação das Nações Unidas (Food and Agriculture Organization – FAO), o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (United Nations De-velopment Programme – UNDP) e o Banco Mundial, os quais buscavam persuadir investidores internacionais sobre a importância da agricultu-ra paagricultu-ra a agenda do desenvolvimento internacional (CGIAR, 2011). Vá-rios encontros entre esses atores e agências bilaterais/multilaterais de desenvolvimento, representantes do governo de países industrializados e cientistas ocorreram entre 1969 e 1971, a maioria na cidade italiana de Bellagio, resultando na proposta de que o Banco Mundial estabele-cesse um grupo consultivo sobre pesquisas agrícolas internacionais, o CGIAR, cofinanciado pela FAO e pela UNDP. A primeira reunião formal do CGIAR ocorreu em maio de 1971, na sede do Banco Mundial. Inici-almente, o CGIAR abarcava os quatro centros internacionais de pesqui-sa já existentes, paspesqui-sando a apoiar 13 centros em sua primeira década de atuação; hoje são 15.

Atuando simultaneamente, essas instituições fomentaram um modelo de desenvolvimento “modernizador” conhecido genericamente como Revolução Verde, que consistia na adoção de novas técnicas agro-nômicas, insumos e maquinários – como sementes modificadas,

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cultiva-res altamente produtivas, adubos, fertilizantes e inseticidas, tratocultiva-res, plantadeiras, colhedeiras etc. Tais pacotes tecnológicos eram transferi-dos aos agricultores através de serviços de assistência técnica e exten-são rural públicos e privados (neste caso, grandes empresas multinacio-nais). Além de prover serviços de assistência e extensão, o Estado foi indutor do processo por meio de investimentos em pesquisa aplicada e fornecimento seletivo de crédito subsidiado.

A justificativa para este tipo de intervenção residia na necessi-dade de aumentar a eficiência da produção agropecuária para elevar a oferta de alimentos, de modo a atender à crescente população mundial. Altas produtividades agrícolas, ao mesmo tempo, deveriam diminuir os custos de produção e aumentar a renda dos produtores rurais. Em ou-tras palavras, estes argumentos carregam a ameaça da fome e da misé-ria, manifesta, sobretudo, nos países do então chamado Terceiro Mundo. Tais países equivaleriam ao que Beck (2010) denomina de “sociedades de escassez”, nas quais o processo de modernização consuma-se sob a pretensão de que, por meio do desenvolvimento científico e tecnológico, a riqueza fosse gerada e distribuída, a despeito dos potenciais efeitos cola-terais (previstos ou não calculados) de tal processo. Já nos países mais desenvolvidos do Ocidente, onde a fome e a pobreza não seriam uma ameaça gritante, surgem outros problemas que acabam por privar o processo de modernização de seu fundamento de legitimidade. Parale-lamente, nessas sociedades, dissemina-se a consciência das “ameaças colaterais” das fontes de riqueza, tema que havia se ocultado nos discur-sos peritos em meio aos esforços para superar a pobreza. A percepção de que o processo de modernização desencadeia forças destrutivas resulta numa crítica que altera o rumo das discussões políticas do último quarto do século passado, como veremos ao longo deste estudo.

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As constatações teóricas de que o processo de modernização pro-duz seus próprios riscos e ameaças (BECK, 2010) e que os sistemas abs-tratos geram, na mesma medida, oportunidades e riscos ou segurança e insegurança (GIDDENS, 2002) não amenizam os efeitos negativos pró-prios da Revolução Verde, independente do grau em que estes se revela-ram inesperados ou puderevela-ram ser projetados pelos peritos e pregadores da necessidade de modernização da agricultura. Operando reflexiva-mente, uma farta literatura trata de apontar as consequências bastante desiguais desse processo, as quais acarretaram profundas alterações nas estruturas sociais rurais dos países periféricos, inclusive no Brasil. Sch-neider e Escher (2011) afirmam que o caráter intensivo em capital de tal modelo de agricultura alijou muitas regiões e grande parte dos agricul-tores, sobretudo os familiares, do processo de modernização tecnológica, num contexto em que os principais beneficiários, além das indústrias (especialmente estrangeiras), foram os grandes agricultores. Apesar do relativo sucesso nos quesitos produção e produtividade, este modelo re-produziu as desigualdades distributivas na propriedade e na renda, ge-rou êxodo rural, desemprego nos campos e nas cidades, marginalização urbana, exclusão social e econômica, e desarticulação regional dos pro-cessos de desenvolvimento econômico nos países “subdesenvolvidos”. Ademais, acarretou diversos problemas ambientais, decorrentes do uso de agroquímicos e de técnicas insustentáveis do ponto de vista ecológico, ratificando que os sistemas abstratos carregam consigo oportunidades e riscos.

Já nos países “desenvolvidos”, cujo desenvolvimento agrário foi, em maior ou menor grau, baseado na agricultura familiar absorvedora de inovação e de progresso técnico, o problema se revelou de outra ma-neira. Os agricultores modernizados se viram obrigados a incorporar inovações tecnológicas para se manterem competitivos, e a necessidade

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crescente de adição de insumos externos tornou seus custos de produção cada vez mais elevados. Em paralelo, à medida que as escalas de produ-ção aumentavam, os preços pagos ao produtor diminuíam, ocorrendo um estrangulamento na relação entre o custo de produção e o preço de ven-da (SCHNEIDER e ESCHER, 2011). Posteriormente esses problemas emergiram também nos países “em desenvolvimento”, juntando-se aos problemas socioeconômicos e ambientais já mencionados.

Esse novo padrão tecnológico resultou, portanto, em alterações nas configurações socioculturais, econômicas e político-institucionais do campo, tornando-o cada vez mais dependente de padrões urbanos de produção e consumo. Onde implantado de forma significativa, quebrou a relativa autonomia setorial que em outros tempos a agricultura teria experimentado, por integrar as famílias rurais a novas exigências pro-dutivas, mercantilizando gradualmente a vida social.

Apesar da tendência globalizante, esse modelo exógeno de desen-volvimento não pode ser interpretado como um processo homogêneo e totalizante; tampouco é o único fator explicativo do tecido rural da se-gunda metade do século XX. Internalizado e reproduzido por muitos a-gricultores, foi também reformulado ou mesmo rejeitado por outros, de acordo com o contexto local, as características subjetivas dos atores so-ciais e sua agência. Tais buscas por autonomia podem ser detectadas, por exemplo, na persistência de agriculturas de base para subsistência e nos esforços para a manutenção de estilos “camponeses” (em diversos graus e com características variáveis) de vida, documentados, entre ou-tros, na clássica pesquisa de Scott (1976) ou no recente estudo de Ploeg (2008).

Em termos gerais, a noção de agência atribui ao ator individual a capacidade de processar a experiência social e de delinear formas de re-produção da vida, mesmo diante de restrições normativas,

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político-econômicas ou físicas. Ele procura aprender como intervir no fluxo de eventos sociais ao redor e monitorar continuamente suas próprias ações, observando como os outros reagem ao seu comportamento e percebendo as várias circunstâncias inesperadas (GIDDENS, 1989).

A agência não significa apenas a intenção de uma pessoa em fa-zer determinadas coisas, mas se relaciona à capacidade efetiva de reali-zá-las. Como afirma Giddens (1989, 1991, 2002), a ação depende da ca-pacidade do indivíduo “fazer diferença” em relação a um estado preexis-tente de ocupações ou eventos. Isso implica que todos os agentes exer-cem algum tipo de poder, independente de estarem subordinados ou não a alguém. A continuidade dos sistemas sociais no tempo e no espaço manifesta relações de poder que são regularizadoras de autonomia e de-pendência entre os atores ou coletividades em interação.

Nesse sentido, Ploeg (1995, apud CARAVALHEIRO e GARCEZ, 2007) afirma que cada agricultor organiza, de forma ativa, não apenas o processo de trabalho no espaço de sua unidade produtiva, mas também as relações que irá estabelecer com o ambiente econômico e institucional mais amplo que o cerca. Para o autor, os agricultores são, portanto, a-gentes dotados de conhecimento, e não meros executores de uma lógica que lhes é exterior. Constroem, em consequência, seus próprios projetos de desenvolvimento, não estando simplesmente sujeitos ao mercado ou às tecnologias.

Os agricultores desenvolvem em conjunto maneiras criativas pa-ra abordar as situações problemáticas e buscar recursos, materiais ou não, especialmente em se tratando de conhecimento tácito derivado de experiências passadas, em um esforço para resolver os problemas. As-sim, respostas ao paradigma modernizador que propagava a intensifica-ção da produintensifica-ção, o aumento da escala, a especializaintensifica-ção das unidades

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produtivas e a integração aos mercados surgem nos mais diversos âmbi-tos, desde a academia e as esferas políticas até os lugares rurais.

4. Novas abordagens e modelos

Se a agenda política do pós-Segunda Guerra sugeria que o Esta-do precisava intervir para o desenvolvimento das áreas rurais, o cenário político do final do século XX apontava para outras direções. Até então, a atuação do Estado nas áreas rurais, através de projetos de infraestru-tura, incentivos para investidores, construção e operação de plantas in-dustriais ou intervenções no mercado, significava que as decisões e es-tratégias eram delineadas de modo centralizado pelos governos, sendo que apenas a operacionalização das obras, projetos ou serviços cabia a organizações locais ou regionais.

Esse modelo de governança top-down (de cima para baixo) foi se-veramente criticado durante os anos 1980, por ser antidemocrático e i-neficiente, uma vez que as decisões sobre prioridades e mecanismos e-ram tomadas por políticos e burocratas distantes. Além disso, levantava dúvidas quanto ao desvio de fundos em várias partes da Europa, e mos-trava-se incoerente frente ao receituário “neoliberal” de afastamento do Estado.

Novas abordagens para o desenvolvimento rural, gestadas em espaços construtores do conhecimento perito, sugeriam a necessidade de deslocar o enfoque do produtor rural para as redes de atores ( actor-network), do setor agrícola para dinâmicas socioeconômicas variadas, das ações do tipo top-down para as bottom-up.

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A implementação da abordagem bottom-up (de baixo para cima) se baseia em quatro mecanismos, compilados da literatura por Woods (2009). Primeiro, o emprego de métodos participativos para engajar as populações rurais no processo de planejamento, incluindo planos comu-nitários, consultas etc. Segundo, parcerias entre agências governamen-tais, o setor privado e organizações civis na condução de projetos. Ter-ceiro, incentivo ao empreendedorismo e ao desenvolvimento de projetos encabeçados pela comunidade. Quarto, apoio financeiro e outros recur-sos providos pelo Estado através de programas nos quais grupos das comunidades concorriam ao financiamento.

Este modelo tem foco no território, diversidade e otimização de recursos locais (LOWE et al., 1999), sendo celebrado por seus apoiadores por “empoderar” as comunidades rurais e fomentar a inovação e o em-preendedorismo, mantendo a diversidade cultural. Assim, a produção discursiva perita acerca do desenvolvimento rural elaborada no último quarto do século XX tendeu, no nível teórico-normativo, a tratar as pro-postas participativas e descentralizadas com algum entusiasmo, na ex-pectativa de minimização ou mesmo de reversão das tendências negati-vas proliferadas em parte significativa dos espaços rurais em períodos anteriores.

Tais discursos foram, muitas vezes, reflexivamente incorporados a programas de desenvolvimento, com diferentes graus de dificuldades e sucessos em cada contexto específico. Não se trata, é claro, de entender a decisão política como submetida ao argumento científico, pois, como ressaltam Carneiro e Danton (2012), seria ingênuo supor que as deci-sões políticas sejam tomadas exclusivamente em função de uma raciona-lidade técnico-científica. A tomada de decisão no âmbito das políticas públicas visando regular ações do Estado que afetam a sociedade civil, segundo tais autores, se dá, em grande parte, a partir de informações

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de origem desconhecida, tidas como consensuais; pela intuição; conhe-cimento advindo da prática; e pressões de grupos de interesse. Para eles, normalmente, a referência a pesquisas ou a consulta a especialistas no embasamento da formulação de uma determinada medida pública não é resultado de uma busca sistematizada sobre o tema em questão, mas sim fruto da casualidade e da facilidade de acesso a obras e textos cien-tíficos ou mesmo a cientistas conhecidos, ocorrendo muitas vezes para validar ou legitimar uma decisão já tomada. Cabe destacar, portanto, que no presente artigo, o argumento acerca da influência perita na cons-trução de políticas públicas é indissociável da noção de reflexividade (GIDDENS, 1991), o qual implica o intercâmbio mútuo entre a produção científica e a prática cotidiana, não submetendo passivamente a última aos ditames incontestes da primeira mas, ao contrário, formando e sen-do formada por ela.

Os resultados práticos de pioneiras experiências participativas e descentralizadas de desenvolvimento rural, por sua vez, foram captados por análises de cunho empírico e registrados na literatura sociológica rural, que não tardou a pontuar diversos de seus limites. Neste sentido, alguns especialistas questionam até que ponto “participação e descen-tralização” realmente representam a distribuição do poder de decisão nos espaços rurais, e qual a capacidade de as comunidades se beneficia-rem igualmente disto. Estudos revelam a participação limitada do pú-blico, a dominação das decisões por parte das elites locais e as relações desiguais de poder entre os atores parceiros; destacam o papel ainda de-terminante do Estado, e as dificuldades enfrentadas por algumas comu-nidades na competição por financiamentos, levando vantagem aquelas em que boa parcela da população é formada por profissionais de classe média, com acesso facilitado à informação (WOODS, 2009).

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No mesmo sentido, Gehlen (2004) pontua que as políticas rurais de tipo participativo tendem a fortalecer os agentes que apresentam ra-cionalidade moderna e centrada na ética do trabalho e da competitivi-dade, mantendo a desigualdade perante os portadores de racionalidades diferentes (centradas em valores de convívio, por exemplo). Mesmo sob a aparência da igualdade, as chances de sucesso são diferentes e benefici-am os que detêm poder de decisão. Marsden e Murdoch (1998) alertbenefici-am que autoridades locais podem desempenhar o papel de grupo de pressão dentro das novas modalidades de governança; destacam também a falta de autonomia ou responsabilidade real da comunidade, que serviria a-penas como conselheira ou consultora.

Herbert-Cheshire e Higgins (2004), analisando as redes que dão suporte a estas modalidades de governança descentralizada, destacam que as comunidades rurais precisam, segundo o discurso político, a-prender a governar a si mesmas com responsabilidade. Conforme a nar-rativa dominante, os agentes técnicos, especialistas em desenvolvimento rural, seriam mediadores neutros ou, até mesmo, uma força para a mu-dança social, uma vez que com sua perícia criariam as condições discur-sivas e técnicas que permitiriam às comunidades se conhecerem, identi-ficarem seus próprios problemas e adotarem os métodos adequados para o desenvolvimento sustentado de longo prazo.

Neste contexto, o conhecimento perito desempenharia papel cru-cial, consolidando relações de dominação entre os especialistas em de-senvolvimento rural (tidos como promotores da cidadania, do empreen-dedorismo e canalizadores de competências) e as comunidades locais. Em um estudo sobre comunidades rurais na Austrália, Herbert-Cheshire e Higgins (2004) demonstram o papel fundamental desta perí-cia para definir, governar e estabelecer limites à capacidade destas co-munidades rurais para responderem à mudança:

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O efeito do conhecimento perito é a produção de cate-gorias de risco nas quais as comunidades que seguem os caminhos de desenvolvimento prescritos são repre-sentadas como ativas, responsáveis e merecedoras de financiamentos do governo, enquanto as que não o fa-zem são marginalizadas e tachadas de arriscadas e ir-responsáveis. (HERBERT-CHESHIRE e HIGGINS, 2004, p.290)

A perícia traduz as preocupações políticas dos governos – eficiên-cia, produtividade industrial, lei e ordem, normalidade – em um discur-so politicamente neutro de gestão, ciência discur-social, contabilidade e outros (HERBERT-CHESHIRE e HIGGINS, 2004). Armados com técnicas que prometem uma melhor administração financeira, melhor estilo de vida, práticas eficientes de trabalho e, no caso do desenvolvimento rural, con-dições para uma melhor situação econômica, esses conhecimentos peri-tos procuram aperfeiçoar as capacidades de autorregulação e, assim, a-linhar as preferências e escolhas da comunidade a objetivos políticos mais amplos. Essa estratégia de base perita, porém, nem sempre logra sucesso, pois outras lógicas (baseadas em valores de reciprocidade, con-fiança etc.) influenciam a ação dos agricultores, implicando a assimila-ção fracionada (porque seleta) dos discursos peritos e a conduassimila-ção de pro-jetos individuais.

Em parte como resposta às críticas, a transição para um modelo descentralizado de governança foi acompanhada pela ênfase em um mo-delo econômico endógeno – que também respondia à capacidade limita-da de atração de investimentos internos por parte limita-das iniciativas

bot-tom-up desagregadas (WOODS, 2009). Na economia, o desenvolvimento

endógeno se refere ao uso, desenvolvimento e comercialização de recur-sos encontrados em uma região, tais como recurrecur-sos naturais, produtos tradicionais, recursos simbólicos (como paisagens e heranças culturais)

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e capital humano. Analogamente, os modelos endógenos de desenvolvi-mento rural partem do princípio de que os recursos naturais, humanos e culturais específicos de uma área são a chave para o desenvolvimento sustentável, como postula o trabalho de Ploeg e Dijk (1995).

Com isso, novos esforços interpretativos e teóricos começam a re-desenhar o debate acerca das ruralidades, trazendo os indivíduos para o centro. Trabalhos como os de Long e Ploeg (1994) extrapolam as pers-pectivas estruturalista e neomarxista que predominavam em muitas análises sobre o meio rural, focadas primordialmente nas determinações externas, no avanço da acumulação capitalista e seus impactos sobre as unidades de produção mercantil simples. A linha de argumentação mais recente, por sua vez, busca valorizar as dimensões não mercantilizadas do processo de trabalho na agricultura, tratando-as não como um resí-duo, mas como um elemento-chave na compreensão dos processos de de-senvolvimento; enfoca também o papel dos agricultores na produção e reprodução de estilos de agricultura, e a heterogeneidade enquanto ma-nifestação das múltiplas formas através das quais os agricultores lidam com as variáveis tecnológicas e de mercado (CARAVALHEIRO e GAR-CEZ, 2007).

Essa ampliação de enfoque, contudo, não deve ser vista como um simples movimento interno à sociologia rural, uma vez que integra um contexto reflexivo amplo no qual a mudança do foco das preocupações dos especialistas europeus e norte-americanos acompanha a redução ob-jetiva e o isolamento social das carências materiais7 em seus respectivos

países.

7 Quando a autêntica carência material é objetivamente reduzida e socialmente

isolada e quando são desencadeados riscos e potenciais de autoameaça numa medida até então desconhecida, opera-se a passagem de uma lógica de distribu-ição de riqueza para uma lógica de distribudistribu-ição de riscos na modernidade tardia (BECK, 2010). Os questionamentos de como a riqueza pode ser distribuída de

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Ancorados na observação dos rearranjos e das transformações das ruralidades europeias, Ploeg et al. (2000) afirmam que as estraté-gias de desenvolvimento rural deveriam ter novos objetivos, como a pro-dução de bens simbólicos (paisagens), a valorização de economias de es-copo e não de escala, e a pluriatividade das famílias rurais. Deveriam, ainda, implicar a criação de novos produtos e serviços, associados a no-vos mercados; procurar formas de redução de custos a partir de nono-vos caminhos tecnológicos; e tentar reconstruir a agricultura não apenas nos estabelecimentos, mas também em nível regional e para a economia rural como um todo.

Outro autor a propor uma nova abordagem para o desenvolvi-mento rural, particularmente para países em desenvolvidesenvolvi-mento, foi o in-glês Frank Ellis. Segundo Schneider (2004), a abordagem de Ellis privi-legia o que denomina de estratégias de sobrevivência familiares e a di-versificação dos modos de vida rurais, mostrando que as iniciativas que melhoram as condições de vida dessas populações estão, na maioria das vezes, nas próprias localidades e territórios onde vivem, mediante a combinação de um repertório variado de ações e estratégias.

Alguns autores, porém, são críticos à noção de desenvolvimento endógeno (LOWE et al., 1999; RAY, 2001). Para eles, a noção de que lo-cais rurais perseguiriam um desenvolvimento socioeconômico autônomo e livre de influências externas (sejam elas a globalização, o comércio ex-terno ou políticas dos governos ou da União Europeia) pode ser ideal, mas não é uma proposição prática. Todas as localidades incluiriam um mix de forças exógenas e endógenas, havendo interação entre o nível local e o extralocal. O ponto crítico seria, neste caso, aumentar a

forma desigual e legítima são substituídos por questionamentos sobre como ameaças e riscos coproduzidos podem ser evitados, minimizados, isolados e re-distribuídos sem comprometer o processo de modernização e as fronteiras do (ecologicamente, socialmente, medicinalmente e psicologicamente) aceitável.

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dade das áreas locais para transformarem esses processos, recursos e ações mais amplos em benefício próprio.

Esse seria um modelo de desenvolvimento neoendógeno, que tem foco nas interações dinâmicas e nas mediações entre o local e os ambien-tes políticos, institucionais, comerciais e naturais mais amplos. A abor-dagem da economia do conhecimento aplicada ao desenvolvimento rural neoendógeno buscaria desenvolver o capital social8 e humano em redes

de empresas, profissionais e agências que trabalham nas áreas rurais (GALDEANO-GOMES et al., 2011).

5. Incorporando a “sustentabilidade”

A noção de “sustentabilidade” é outra faceta do debate moderno sobre desenvolvimento rural. Desde os anos 1990, o conceito de desen-volvimento sustentável se tornou influente em diversas políticas, quase sempre acompanhado de definições vagas e diretrizes globais, o que tor-na mais difícil sua operaciotor-nalização em programas tor-naciotor-nais ou regio-nais de ações concretas. Três elementos comuns, no entanto, predomi-nam nos variados discursos sobre sustentabilidade: desenvolvimento econômico, inclusão social e proteção ambiental – correlatos para mer-cado, Estado e natureza (MOREIRA, 2007) – numa complicada cootimi-zação de objetivos contraditórios, que não podem ser alcançados simul-taneamente ou sem trade-offs (BRUCKMEIER E TOVEY, 2008). Estes três princípios estão invocados no já mencionado Relatório Brundtland,

8

A noção de capital social diz respeito a características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas. Permite ver que os indivíduos não agem independentemente, que seus objetivos não são estabelecidos de ma-neira isolada e seu comportamento nem sempre é estritamente egoísta. Neste sentido, as estruturas sociais devem ser vistas como recursos, como um ativo de capital de que os indivíduos podem dispor (ABRAMOVAY, 2000).

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das Nações Unidas, o qual representa a matriz discursiva hegemônica, criticada por Moreira (2007) por não problematizar a apropriação priva-da priva-da natureza e o comércio transnacional. Segundo este autor, o desen-volvimento sustentável é apenas uma questão de uso do ecossistema na lógica do mercado, com regulações políticas ambientais legitimadas em acordos internacionais.

No plano coletivo, a desatenção ao possível uso ideológico da no-ção de sustentabilidade, conforme apontado por Moreira (2007), e a di-fusão das ideias ambientalistas favorecem a incorporação da retórica do desenvolvimento sustentável nas representações sociais de variados grupos. Para Castells (1999), o movimento ambientalista9 despontado no

final dos anos 1960 nos Estados Unidos, Alemanha e Europa Ocidental – depois de as ideias ecológicas terem perdurado por mais de um século como tendência intelectual restrita de uma elite – está no cerne de uma reversão das formas pelas quais pensamos a relação entre economia, sociedade e natureza, proporcionando o nascimento de uma nova cultu-ra.

No final da década de 1960, nos países mencionados, surgiu um movimento ambientalista de massas, entre as classes populares e com base na opinião pública, que se espalhou pelo mundo. Para Castells (1999), existe uma relação direta entre os temas abordados pelo movi-mento ambientalista e as principais dimensões da nova estrutura social que passou a se formar dos anos 1970 em diante, que ele chama de “so-ciedade em rede”. Tais dimensões estariam ligadas à consolidação da

9 Castells (1999) define ambientalismo como todas as formas de comportamento

coletivo que, em seus discursos ou práticas, visam corrigir formas destrutivas de relacionamento entre o homem e seu ambiente natural, contrariando a lógi-ca estrutural e institucional predominante. O autor distingue este conceito de ecologia, que seria, do ponto de vista sociológico, o conjunto de crenças, teorias e projetos que contemplam o gênero humano como parte de um ecossistema mais amplo, que visa o equilíbrio.

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ciência e da tecnologia como os principais meios e fins da economia e da sociedade; à transformação do espaço e do tempo, possibilitada princi-palmente pelos avanços nos sistemas de comunicação; à dominação da identidade cultural por fluxos abstratos globais de riqueza, poder e in-formações, construindo virtualidades reais pelas redes da mídia. Assim, o autor vê o ambientalismo como uma nova forma de movimento social descentralizado, multiforme, orientado à formação de redes e de alto grau de penetração. Castells (1999) afirma que há um discurso ecológico implícito e coerente que perpassa uma série de orientações políticas e origens sociais inseridas no movimento, e que fornece a estrutura sobre a qual diferentes temas são discutidos em momentos distintos e com propósitos diversos. Os conflitos entre os componentes do movimento ambientalista são ligados à definição de táticas, prioridades e tipos de linguagem a serem mobilizados, não à ideia de associar a defesa de am-bientes específicos a novos valores humanos.

Segundo Martins (2008), a questão ambiental emerge em meados do século XX tendo por base o desenvolvimento das capacidades de afe-rição e previsibilidade da ciência. Sua origem estaria interligada aos in-teresses dos agentes econômicos financiadores dos primeiros grandes relatórios sobre o uso moderno dos recursos naturais, bem como sua es-truturação nos aparatos recentes de recomendações multilaterais e re-gulação do uso e acesso aos recursos. Neste sentido, haveria um jogo de retroalimentação perita no qual, ao identificar os níveis de pilhagem ambiental da economia moderna, os mesmos instrumentos científicos adquiririam autoridade sobre a previsão legítima dos rumos de tal pi-lhagem na formulação de políticas de mitigação dos prejuízos então co-nhecidos. Por detrás da aparente ecologização da política, Martins (2008) percebe ocorrer o que Habermas havia denominado de cientifiza-ção da política, recurso discursivo cujas bases de imposicientifiza-ção assentam-se

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na retórica da impessoalidade e da previsibilidade. Tal estratégia dis-cursiva ilustra a penetração dos sistemas peritos no funcionamento das instituições políticas, responsáveis pela regulação e fiscalização do aces-so aos recuraces-sos naturais e, consequentemente, no cotidiano dos agentes que exploram tais recursos, tanto para fins de reprodução simples, ex-pansão da acumulação de capital, ou usufruto como lazer, por exemplo.

Embora uma noção vaga de “desenvolvimento sustentável” fre-quentemente permeie discursos políticos e científicos, na prática é am-plamente reconhecido que os atores negociam suas diferentes interpre-tações. Segundo Bruckmeier e Tovey (2008), essas variam de uma con-cepção ligada ao paradigma da modernização ecológica, com forte base tecnológica – situação na qual o conhecimento perito é o elemento-guia da ação –, à concepção de uso autônomo e responsável dos recursos na-turais pelos atores locais rurais – situação que tais estudiosos atrelam a um conhecimento plural, situado e leigo. É possível discordar da ligação simplificada que Bruckmeier e Tovey fazem entre ação local e conheci-mento leigo (no sentido atribuído por Giddens), uma vez que essa postu-ra de valorização dos elementos locais também pode estar informada por um tipo de conhecimento perito que exalta o capital social e humano, como nas vertentes do desenvolvimento endógeno.

É possível concordar com os estudiosos, porém, na afirmação de que o conhecimento é socialmente distribuído de modo diferenciado e desigual, e que a cooperação entre atores é também um processo de re-distribuição de conhecimentos, os quais são redefinidos, codificados, combinados e integrados, aceitando ou excluindo conhecimentos especí-ficos para chegar a seus propósitos especíespecí-ficos. No âmbito da teoria da estruturação (GIDDENS, 1989), controlar a produção, a retenção ou a distribuição seletiva da informação (valorizada a partir de sua qualifica-ção perita como “conhecimento”, a exemplo dos discursos sobre

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desen-volvimento rural) possibilita operá-la como recurso de poder, dado o po-tencial para perpetuar ou transformar as relações sociais no tempo e no espaço. Isso, no estudo em tela, implica a reprodução (manutenção ou mudança) das formas de produção e de sociabilidade nos contextos ru-rais.

Tanto que, em termos institucionais, uma expressão importante da articulação entre metas sociais e ambientais no desenvolvimento a-grícola são as cláusulas ambientais criadas em 1992 pela União Euro-peia (UE), em sua Política Agrícola Comum (PAC). As cláusulas agro-ambientais10 têm como principal função a incorporação de compromissos

ambientais na concessão das ajudas diretas aos agricultores dos Estdos-membros. Em outras palavras, os agricultores receberiam maior a-juda financeira da UE através da adesão a compromissos de emprego de métodos de produção agrícola compatíveis com a proteção ambiental e a preservação da paisagem do agroambiente. Por meio de tal política, a UE estaria influindo não somente sobre o perfil das práticas agrícolas dos países comunitários, mas também sobre os próprios níveis de renda das comunidades rurais (MARTINS, 2005).

Horlings e Marsden (2011) alertam que na agricultura tornou-se dominante um “modo higiênico de regulação” estatal e privado, por meio da proliferação de instrumentos e garantias ambientais remotas e buro-cráticas, que geram novas barreiras regulatórias à entrada no mercado para muitos pequenos agricultores e fabricantes. Tais autores afirmam que propriedades rurais (e agricultores) têm suportado a pior parte des-ta estratégia científica de gestão de risco. Giddens (1989, 1991, 2002) colabora para a interpretação dessa situação ao explicar que as relações sociais são deslocadas, pelos sistemas peritos, dos contextos locais de

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Instituídas inicialmente pela Regulação Agroambiental 2.078/92 e depois ampli-adas pela Resolução 1.257/99 do Conselho da EU.

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interação, fomentando relações entre ausentes. O ônus deste modo higi-ênico de regulação, fomentado nos sistemas peritos, recai sobre os pe-quenos produtores, sendo as relações de poder camufladas por contatos sem rosto. A ênfase no risco também nos remete a uma consequência desta proliferação de saberes peritos, os quais nos revelam perigos que frequentemente não escolhemos correr – como no caso dos problemas ambientais.

A emergência do “capitalismo verde” tem sido criticada por ser “nada menos do que uma ampla estratégia para a comodificação, mer-cantilização e financialização da ecologia, que intensifica e aprofunda radicalmente a penetração da natureza pelo capital” (SMITH, 2007, p. 17). Assim, suas várias manifestações, tais como créditos de carbono e parques ecoindustriais, são vistas muitas vezes como perpetuadoras da mesma lógica neoliberal e da mesma rota de desenvolvimento, as quais são simplesmente renovadas com um leve tom verde (BRISTOW e WELLS, 2005).

Devemos lembrar que, embora a agricultura continue sendo o uso predominante da terra nas áreas rurais da Europa, ela não mais exerce papel social ou econômico dominante. Na União Europeia, o setor agrí-cola responde por apenas 6% dos empregos e tem relevância pequena quanto à geração do Produto Interno Bruto das regiões rurais. Mesmo nos locais em que a agricultura ainda é um setor político estratégico e determina o ambiente rural, a dependência frente à atividade agropecu-ária vem diminuindo, direcionando o foco das políticas de desenvolvi-mento rural para outros aspectos econômicos e sociais (GALDEANO-GOMES et al., 2011). Na União Europeia, o desenvolvimento rural é visto por alguns autores como suporte à diversificação das atividades

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econômicas para além da agricultura, com iniciativas como o Programa Leader11 (WOODS, 2009).

6. Expressões brasileiras

Como essas características europeias são singulares, a discussão de uma agenda “renovada” rumo ao desenvolvimento rural distingue as prioridades dos países desenvolvidos daquelas dos países em desenvol-vimento. Nos países desenvolvidos, os temas prioritários se relacionam com as normas reguladoras do comércio agrícola, a preservação ambien-tal e a qualidade de vida no meio rural. Nos países em desenvolvimento, ganham maior importância os temas ligados à segurança alimentar, à pobreza e ao crescimento da produção agrícola.

Pinto (2004) defende, para os países da América Latina, a cons-trução de um modelo que promova a equidade, incorporando os excluí-dos ao processo de crescimento, dentro de uma perspectiva de conserva-ção dos recursos naturais. No debate acadêmico nacional das últimas duas décadas, destacam-se as propostas ligadas ao fortalecimento da agricultura familiar e ao desenvolvimento territorial, com ênfase no cpital social e na dinamização das economias locais. O impacto desta a-bordagem no meio burocrático estatal foi significativo a ponto de

11

O Programa Leader − Ligações Entre Ações de Desenvolvimento das Econo-mias Rurais − surge em 1991, como Iniciativa Comunitária da União Europeia, no âmbito de um amplo processo de discussão sobre planejamento de políticas no continente. O Leader inovou por seu viés territorial, que envolvia a estrutu-ração dos recursos do território de forma coerente; o envolvimento de diversos atores e instituições; a integração entre setores empresariais em uma dinâmica de inovações; e a cooperação com outras áreas e políticas nos vários níveis de governo. Em sua primeira fase, de 1991 a 1994, o programa apoiou 217 pro-jetos territoriais, passando para mil na fase seguinte, até 1999. Os propro-jetos re-cebem apoio de acordo com mérito, como estímulo à competição entre territórios e à mobilização de energias e talentos pela busca por recursos (FAVARETO, 2012).

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mar a instituição, em 2000, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), voltado, majoritariamente, a ações de “desenvolvimento rural” que intersectam os modelos discutidos nas duas seções precedentes. Com isso, tal competência foi afastada do âmbito do Ministério da Agri-cultura (nomeado, desde 2001, como Ministério da AgriAgri-cultura, Pecuária e Abastecimento), o qual pode, então, assumir como prioritária sua pre-ocupação mais específica com a produção e a produtividade agropecuá-rias.

Analisando uma década de políticas de desenvolvimento territo-rial rural no Brasil, com experiências que vão do Pronaf-Infraestrutura ao Territórios da Cidadania e ao Brasil Sem Miséria, passando pelo Ter-ritórios de Identidade, Favareto (2012) observa que a experiência brasi-leira é tomada como um processo de aprendizagem institucional. Para ele, as mudanças introduzidas no último período do governo Fernando Henrique Cardoso, e continuadas nos governos subsequentes, tentavam dialogar com resultados das pesquisas e estudos sobre o rural brasileiro, em geral, e sobre o Pronaf, em particular – ressaltando, mais uma vez, a influência dos sistemas peritos.

A concepção do desenvolvimento rural territorial estimulou a cri-ação de Colegiados Territoriais (em substituição aos Conselhos Munici-pais de Desenvolvimento), trazendo reflexos à escala de ações, que pas-sou do âmbito municipal para o intermunicipal, ainda que muitas vezes a lógica dos investimentos e dos projetos tenha permanecido municipali-zada. Outro reflexo foi o maior envolvimento das organizações da socie-dade civil numa política que, até então, tinha preponderância do execu-tivo municipal. No entanto, a outra dimensão contida na abordagem ter-ritorial do desenvolvimento, a intersetorialidade, não foi observada nos colegiados territoriais estudados (FAVARETO, 2012).

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Favareto (2012) reafirma a validade da tese de que “o Brasil ru-ral precisa de uma estratégia de desenvolvimento”, tal qual defendida, uma década antes, por especialistas que compuseram uma publicação do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário (NEAD/MDA) (VEIGA et al., 2001). Para Fa-vareto (2012), a questão não consiste em reivindicar que o país faça uma opção pela agricultura familiar ou pela agricultura patronal, uma vez que há uma forte e competitiva agricultura comercial assentada sobre ambos os segmentos, e que deve permanecer assim pelos próximos anos. O fundamental, segundo ele, é construir uma estratégia que sinalize aos agentes públicos e privados um pequeno conjunto de temas ou questões, para a qual se deveria buscar convergir esforços e investimentos. Sem um acordo em torno desta agenda, continuariam a prevalecer a pulveri-zação e a fragmentação de iniciativas e seus efeitos heterogêneos. Os pontos em torno dos quais o autor sugere uma agenda são: a) diversifi-cação e dinamização das economias interioranas; b) um pacto pela pari-dade entre regiões rurais e urbanas; e c) uma aliança efetiva entre o “Brasil rural e a economia verde”.

Pode-se dizer, assim, que as propostas normativas de desenvol-vimento rural, quando da sua materialização em políticas públicas, e-xemplificam o alongamento dos sistemas sociais por meio do desencaixe das relações sociais, ou seja, da remoção destas relações das imediações do contexto. Tal desencaixe é proporcionado pelo fomento às relações entre ausentes (sem interação face a face), possibilitado pelo que Gid-dens (1991) chama de sistemas peritos. O autor destaca, contudo, a ten-dência de que as formas visíveis do local ocultem as relações espaço-temporalmente distanciadas que determinam sua natureza. Especial-mente no que se refere ao desenvolvimento rural territorial, deve-se a-tentar para que as cores locais não ocultem os conflitos de interesse e as

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estruturas de dominação deslocados do tempo e do espaço daquela loca-lidade, mas ainda assim regentes das suas condições de reprodução.

7. Considerações finais

O artigo buscou mostrar que, em um ambiente no qual as práti-cas sociais estão baseadas em processos de filtragem de informação sele-tiva (GIDDENS, 1991), atores estrategicamente posicionados (sejam nos aparelhos burocráticos do Estado, sejam nos meios acadêmico-científicos) regulam reflexivamente as condições globais de reprodução do sistema (sua manutenção ou mudança), por meio dos mecanismos de desencaixe (sistemas peritos e fichas simbólicas), ainda que nem sempre tenham a intenção deliberada de fazê-lo. A formulação e a implementa-ção de modelos de desenvolvimento rural ilustram essa afirmaimplementa-ção, pois revelam como a construção do conhecimento acadêmico-científico – e, portanto, perito – organiza práticas sociais deslocadas no tempo e no espaço, inclusive mediando políticas e programas de desenvolvimento. Nesse processo, os executores de tais políticas e programas, notadamen-te profissionais da exnotadamen-tensão rural, atuam reencaixando as relações soci-ais (desencaixadas pelos sistemas peritos) em situações de copresença, mantendo encontros face a face com o público-alvo de tais políticas (os habitantes das áreas rurais).

A conjugação entre proximidade e distância, familiaridade e es-tranhamento altera o tecido social e exige a confiança em princípios im-pessoais e anônimos, muitas vezes novos em relação às experiências dos atores envolvidos, tais como os quase axiomas da participação, da go-vernança descentralizada, dos capitais humanos e da valorização da na-tureza, no caso das propostas de desenvolvimento rural tratadas neste artigo. Porém, a ambivalência está no âmago das relações de confiança

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nos sistemas abstratos, significando que as atitudes leigas em relação à ciência e ao conhecimento técnico mesclam respeito e hostilidade (GID-DENS, 1991). Seguindo a compreensão teórica de Giddens, a não adesão imediata ou completa de diferentes atores e grupos sociais aos modelos e políticas aqui estudados se relacionaria, dentre outros, à desconfiança, ao ceticismo ou à cautela, e também à capacidade de agência dos indiví-duos.

Destaca-se ainda que a confiança nos sistemas peritos também é afetada pelos riscos produzidos pelo homem e pelo processo de moderni-zação associado ao avanço da ciência e da tecnologia, devido à inevitabi-lidade de perigos que, com frequência, os indivíduos não escolhem correr e, ademais, estão longe do controle individual e do controle das grandes organizações, incluindo Estados.

As propostas para o desenvolvimento rural visam, explícita ou implicitamente, minimizar riscos, enquanto estes permanecem, de certo modo, sob controle. Por exemplo, o risco de agravamento dos impactos ambientais decorrentes de práticas agrícolas inadequadas (ação sobre a natureza criada), os quais prejudicam a qualidade da água, do ar e a fertilidade dos solos, com implicações na oferta de alimentos e na saúde da população. Outro problema que tais propostas visam minimizar é o de intensificação de situações de pobreza e suas possíveis implicações, inclusive instabilidade política, manifestações públicas contra o sistema político-econômico12, migração para as cidades e pressão por ajuda

assis-tencial. Tais riscos seriam “riscos globalizados”, com tendência a atingir primeiramente a localidade e, posteriormente, se espalhar. A preocupa-ção com a água é, talvez, uma das mais evidentes.

12

A forte elevação dos preços de alimentos básicos (como milho e arroz) em 2007/2008 levou a uma onda de protestos, por vezes violentos, em diversos paí-ses, sobretudo na África, América Central e Ásia, por exemplo.

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Essas ameaças ficam mais manifestas nos discursos das agências bilaterais ou multilaterais de desenvolvimento, como o Banco Mundial, que trabalham com desenvolvimento rural nas regiões em que a carên-cia material é fortemente presente para a maioria da população – as so-ciedades da escassez de Beck (2010). Já os discursos acadêmico-científicos que tratam do desenvolvimento rural nas regiões mais ricas, como as europeias ou norte-americanas, tendem a secundarizar o risco da fome e da pobreza e enfatizar questões mais amenas, como a paisa-gem e a valorização da cultura local, uma vez que a relativa estabilidade material desfaz a legitimidade da pobreza como objetivo maior do de-senvolvimento.

Portanto, os sistemas peritos, tais quais os imbricados nas pres-crições de desenvolvimento rural, alongam os sistemas sociais por fo-mentarem relações entre ausentes. Com esse alongamento dos elos de interação, os recursos coercitivos ou facilitadores da ação passam por instâncias mais complexas de mediação, e a visibilidade do local pode ocultar as relações desencaixadas que interferem num determinando contexto, camuflando os interesses e as relações de poder que afetam as condições de produção e reprodução de um território rural.

Referências

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Referências

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