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A invenção do cuidado : entre o dom e a profissão

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Academic year: 2021

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Amanda Marques de Oliveira

A Invenção do cuidado:

entre o dom e a profissão.

Campinas

2015

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Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Amanda Marques de Oliveira

A invenção do cuidado:

entre o dom e a profissão.

Orientadora: Profa. Dra. Guita Grin Debert

Tese de doutorado apresentada ao

Instituto de Filosofia e Ciências

Humanas para obtenção do título de

doutor em Ciências Sociais.

Este exemplar corresponde à versão final

da tese defendida pela aluna Amanda

Marques de Oliveira, orientada pela profa.

Dra. Guita Grin Debert, aprovada no dia

26/03/2015.

Campinas

2015

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas

Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387

Oliveira, Amanda Marques de,

1982-OL4i OliA invenção do cuidado : entre o dom e a profissão / Amanda Marques de Oliveira. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.

OliOrientador: Guita Grin Debert.

OliTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

Oli1. Cuidados. 2. Envelhecimento - Aspectos sociais . 3. Idosos. 4. Cuidadores. I. Debert, Guita Grin,1948-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: The invention of care : between gift and profession

Palavras-chave em inglês: Caring

Aging - Social aspects Elderly

Caregivers

Área de concentração: Ciências Sociais

Titulação: Doutora em Ciências Sociais

Banca examinadora:

Guita Grin Debert [Orientador] Nadya Araújo Guimarães Carlos Eduardo Henning Sabrina Deise Finamori Maria Filomena Gregori

Data de defesa: 26-03-2015

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Aos meus pais, Luiz Carlos e Ana Juçara, E ao Carlos, Pelo infinito apoio.

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Agradecimentos

Muitas pessoas e instituições foram fundamentais para a realização desse trabalho, às quais devo sinceros agradecimentos.

Como não poderia deixar de ser, minha orientadora, Profa. Guita Grin Debert, merece os primeiros e mais fundamentais agradecimentos não só por essa tese, mas por todo meu percurso acadêmico desde a graduação. Nesses 12 anos de trabalho conjunto, sempre foi, sem dúvida, minha maior referência como antropóloga. Obrigada, Guita.

Agradeço aos professores e funcionários do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em especial ao Programa de Doutorado em Ciências Sociais, pela estrutura que tornou possível a realização deste trabalho. Agradeço também ao apoio financeiro dado pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, através da bolsa de estudos.

Ao grupo de estudos dos orientandos da professora Guita, muito obrigada pelos instigantes momentos de discussão, e pela forma interessada como tantas vezes leram e comentaram meus textos ao longo desses anos. Para não ser traída pela memória, não citarei os nomes, mas cada um de vocês sabe que também são parte desse trabalho.

Devo um agradecimento especial à Profa. Nadya Araújo Guimarães e Sabrina Finamori, pela brilhante arguição feita durante o exame de qualificação. Foi um momento fundamental para o desenvolvimento do que veio a ser essa tese.

Nesses quatro anos de doutorado, sem dúvida, não posso deixar de agradecer àquelas pessoas que foram meu apoio para muito além do intelectual. À Paola, agradeço por todos os momentos – que não foram poucos - em que partilhamos as angústias e ansiedades em torno dos nossos trabalhos.

Aos meus pais, agradecimento eterno, por terem sido sempre incentivadores da minha dedicação à carreira acadêmica. Obrigada por tudo, sempre.

Ao meu marido, Carlos, me faltam palavras para agradecer. Muito obrigada pela infinita compreensão, apoio, e paciência em todo esse processo.

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Resumo

Vemos a dependência surgir como uma preocupação e o cuidado como um trabalho e uma nova profissão. Através da análise de conteúdo realizada em publicações oficiais e de etnografia entre entre militantes, especialistas, e em cursos de formação de cuidadores de idosos, este trabalho analisa as arenas de conflitos em torno da construção do cuidador de idosos como trabalho e profissão em contexto brasileiro.

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Abstract

Dependence has arisen as a concern and care has become a work and a new profession. Therefore, through etnography in oficial publications, among activists and experts, as well as in training courses and among caregivers of elders, this work shows the arena of conflict around the construction of elderly care as a profession in the Brazilian context.

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Sumário

INTRODUÇÃO ... 1

1 - A construção do cuidado como problema social ... 4

2 – Os espaços da pesquisa ... 12

2.1 - O projeto de lei 4702/2012: ... 12

2.2 - Cuidar Melhor e Evitar a Violência – Manual do Cuidador da Pessoa Idosa: ... 12

2.3 - Guia Prático do Cuidador: ... 12

2.4 - Os cursos de formação de cuidadores de idosos: ... 12

2.5 - As entrevistas: ... 19

2.6 - Os eventos: ... 22

CAPÍTULO 1- A PROFISSIONALIZAÇÃO DO CUIDADO ... 23

1.1 – O PROJETO DE LEI 4702/2012 ... 28

1.2 – A Escolaridade mínima e a formação ... 30

1.3 – O Cuidado de idosos entre a assistência social e a enfermagem ... 37

2 – CUIDADORES DE IDOSOS E EMPREGADAS DOMÉSTICAS: ENTRE FUNÇÕES, PROJETOS DE LEI E DIREITOS. ... 45

2.1 – As funções dos cuidadores de idosos no projeto 4702/2012 e a diferenciação com o trabalho das empregadas domésticas. ... 49

2.2 – A nova ‘Lei das Domésticas’ e o trabalho dos cuidadores de idosos. ... 54

CAPÍTULO 2 - A PROFISSIONALIZAÇÃO NA PRÁTICA: ENTRE A VOCAÇÃO E A FORMAÇÃO ... 63

2.1 – Entre a essência e a técnica: as disputas em torno dos significados do cuidado ... 64

2.2 – Os cursos de formação: entre o dom e a profissão. ... 75

2.3 – O gênero na profissionalização ... 88

2.4 – A Profissionalização na Prática: o aprendizado da essência feminina. ... 99

CAPÍTULO 3 - AS AMBIGUIDADES EM TORNO DO CUIDADO IDEAL ... 103

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3.2 – “O problema é a família” ... 113

3.2 – Cuidado e violência... 129

CAPÍTULO 4 - O IDOSO DO CUIDADO ... 141

4.1 – O idoso do cuidado na legislação e nos manuais ... 144

4.2 – O idoso do cuidado nos cursos de formação ... 149

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 161 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 169 APÊNDICE I ... 179 APÊNDICE II... 183 ANEXO I ... 185 ANEXO II ... 187 ANEXO III ... 191

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INTRODUÇÃO

Tem- se tornado evidente a importância que a questão do cuidado adquiriu no mundo contemporâneo. Principalmente naqueles países em que o envelhecimento da população é mais acentuado, a forma de cuidar dos idosos tem- se tornado uma das preocupações centrais, transformando a dependência em um novo risco social. Como mostra Beck (1997), na sociedade de risco os perigos da sociedade industrial começam a dominar os debates públicos, sendo as instituições dessa sociedade produtoras e legitimadoras das ameaças que não conseguem controlar. O autor argumenta que os conflitos em torno da distribuição dos bens passam a ser encobertos pelos conflitos em torno da distribuição de malefícios e das discussões sobre as formas pelas quais esses malefícios podem ser evitados, controlados e legitimados.

Nesse sentido, vemos a dependência surgir como uma preocupação na medida em que o cuidado― a princípio entendido como uma questão que dizia respeito à esfera privada, à família ou à filantropia― se torna uma necessidade social, uma exigência das sociedades contemporâneas. Um conjunto de orientações e intervenções, muitas vezes contraditório, é definido e implementado pelo aparelho de Estado e outras organizações privadas. Um campo de saber específico é criado com profissionais encarregados de definir o que é a profissão do cuidador, quais são seus deveres e direitos, quais os procedimentos corretos envolvidos em diferentes atividades do cuidado. Como consequência, tentativas de homogeneização das representações de segmentos populacionais são acionadas na tentativa de criar novas categorias culturais: o idoso dependente e o cuidador de idosos dependentes.

Segundo Beck (1997), na sociedade de risco a sociedade torna-se reflexiva, ou seja, torna-se um tema e um problema pra si própria. (BECK, 1997). Assim, essa sociedade autocrítica estabelece e coloca em debate especialistas que, ao tratarem dos riscos, muitas vezes acabam sendo anulados por especialistas de outras áreas, refletindo a ambivalência presente na modernidade reflexiva. Nesse contexto, é possível afirmar que a dependência surge como um novo risco social, o qual vem produzindo uma série de ações e debates

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conduzidos por especialistas que, empenhados no gerenciamento desse novo problema, tem colocado em disputa uma série de significados relacionados ao cuidado e ao envelhecimento.

Este trabalho discutirá os significados que o cuidado assume no mundo contemporâneo, com especial atenção ao processo pelo qual o ‘cuidado de idosos’ vem-se constituindo enquanto um trabalho. Trataremos, então, dos debates provocados pelas disputas em torno dessa nova categoria, bem como sobre quais concepções a respeito do cuidado e do cuidador estão envolvidas na constituição deste novo profissional. Assim, discutiremos como o cuidado toma formas específicas, quais as demandas relacionadas a sua institucionalização, quais são as tarefas realçadas nessa atividade e quais as que são as supostas, porém invisibilizadas.

O processo de transformação do cuidado em trabalho e, mais que isso, em uma profissão regulamentada, coloca em disputa uma série de significados associados a essa atividade. Na história das sociedades ocidentais, o cuidado vem sendo realizado pelas mulheres, de forma gratuita, envolvendo uma multiplicidade de atividades realizadas dentro das famílias. Dessa forma, como mostra a bibliografia especializada, o termo care, largamente usado para falar sobre o cuidado, tem um amplo significado, abarcando uma variedade de ações ligadas, ao mesmo tempo, à atitude ou à disposição moral. (HIRATA & GUIMARÃES, 2012)1

Desse modo, discutiremos aqui a construção social do cuidado, ou seja, as formas pelas quais esta atividade, praticamente naturalizada na esfera privada das famílias, passa por um processo de transformação em problema social, em uma necessidade dos cidadãos e do Estado. O interesse está na percepção de como uma atividade com tamanha multiplicidade de significados acaba sendo objetivada em uma forma de trabalho que requer uma legislação específica que o regulamente, instituições que o legitimem, profissionais que definam as funções do trabalhador e o que é preciso para cuidar. Do mesmo modo, interessa discutir como são definidas quais pessoas são focos dessa

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atividade, a quem e como esse cuidado vai ser provido, bem como o que se torna exigência para a realização desta nova forma de trabalho.

Este trabalho, por um lado, analisará, então, como o Estado está se organizando para dar conta dessa nova necessidade social – através de uma legislação específica –, como as organizações estão respondendo a essa demanda – através de cursos de formação e associações de cuidadores –, e quem são e como pensam as pessoas que estão envolvidas no processo em torno da profissionalização. Além disso, interessa perceber como tais demandas se relacionam com outras formas de trabalho, como a enfermagem e o trabalho doméstico.

Como mostra Marcus (1995), as lógicas culturais tão caras à antropologia são sempre produzidas de maneira múltipla. Desse modo, a partir de uma etnografia multissituada (MARCUS, 1995), essa pesquisa se realizou a partir de uma série de conexões, associações e relações dadas pelo próprio processo de construção do cuidado de idosos enquanto trabalho. Vários materiais distintos foram campo para a etnografia que embasou este trabalho, a qual envolveu a análise de documentação, a observação de comportamentos e entrevistas semiestruturadas. Os materiais e espaços pesquisados foram, a saber: a legislação que tramita com objetivo de regulamentar o trabalho dos cuidadores de idosos – mais especificamente a lei 4702/20122; dois manuais voltados aos cuidadores de idosos, ambos produzidos pelo governo federal em 2008; três cursos de formação de cuidadores de idosos: um oferecido por um projeto de extensão de uma faculdade protestante na cidade de Piracicaba, outro ministrado de forma particular por uma empresa privada na cidade de Campinas e um terceiro, oferecido gratuitamente por uma associação pastoral Católica em parceria com a prefeitura municipal da cidade de Rio Claro3; entrevistas semiestruturadas, realizadas com alunas dos cursos de formação de cuidadores; entrevistas com os presidentes das associações de cuidadores de São Paulo, Bragança

2 O texto da lei está no anexo I.

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Paulista e Minas Gerais; eventos em que se debatia a regulamentação da profissão de cuidador de idosos, com a presença de especialistas e militantes envolvidos com o debate4.

Desse modo, o que procuraremos mostrar é o tipo de ambiguidades e conflitos que considerar o cuidado como trabalho e profissão cria, confundindo o desenho das políticas sociais, a orientação dos movimentos políticos e a formação dos cuidadores.

Nesse sentido, mostramos como uma série de significados associados ao cuidado, à família, ao cuidador e ao idoso demandante de cuidados estão sendo produzidos e reproduzidos nos espaços pesquisados, articulando de formas múltiplas o cuidado enquanto dom e enquanto profissão. Assim, o que ficou evidente foi que, nesse processo de invenção do cuidado, surgem uma série de embates relacionados ao status do cuidado enquanto profissão, mobilizando especialistas, militantes e categorias profissionais interessadas em definir quem será esse profissional, quais serão seus limites de atuação e a quem o seu exercício se destina.

1 - A construção do cuidado como problema social

Tem- se tornado recorrente a discussão sobre o aumento da longevidade, do número de idosos e, com ele, o do número de indivíduos com falta de autonomia funcional e/ou com doenças degenerativas. Existe aqui um discurso que enfatiza a responsabilidade dos indivíduos na adoção de estilos de vida que garantam uma velhice sadia e autônoma. Mas, com menor ênfase, tem-se falado na cena pública sobre a necessidade crescente dos cuidadores para aqueles idosos que estão com sua capacidade funcional diminuída, sejam esses cuidadores familiares ou não. Como aponta Debert (2012),

“a imagem da terceira idade bem sucedida não oferece instrumentos capazes de enfrentar os problemas envolvidos na perda de habilidades cognitivas e dos controles físicos e emocionais que estigmatizam o velho e que são fundamentais, na nossa sociedade, para que um indivíduo seja reconhecido como um ser autônomo, capaz de um exercício pleno dos direitos da cidadania” (p.218).

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A autora contrasta os bem sucedidos projetos voltados à terceira idade com a ausência de políticas que lidem com os problemas causados pelo envelhecimento avançado. Há uma série de iniciativas ligadas ao envelhecimento ativo e autônomo, mas não para aqueles que perderam sua independência funcional e que requerem cuidados – tornando invisíveis tais situações e colocando a questão do cuidado como problema central.

No entanto, aquilo que é tido como ‘cuidado de idosos’, bem como a percepção da necessidade de sua prestação, são construções culturais que emergem da constituição da dependência como um risco social e num mercado específico de bens e serviços. O envelhecimento, bem como o cuidado com os velhos, já foram considerados questão de interesse privado, relacionado aos indivíduos e suas famílias. O envelhecimento era visto como a fase final da vida, e não havia interesse ou disposição pública em tratar dos problemas e necessidades atrelados a este período. Nesse sentido, a centralidade que o cuidado vem ganhando nas sociedades contemporâneas chama a atenção para a dependência, num movimento inverso ao descrito por Debert (1999) quando tratou da terceira idade. O cuidado, na medida em que se transforma num problema social e destaca a situação de dependência própria do avanço das idades, nos obriga a rever o quadro otimista da velhice embutido na expressão terceira idade.

A transformação da dependência em uma questão importante, que merecia o interesse e intervenção públicos, deu-se na medida em que grupos socialmente interessados na produção de novas categorias se empenharam em inserir as questões relacionadas ao envelhecimento no rol de problemas a serem levados à arena pública. Assim, como mostra Lenoir (1989), não é apenas por conta de um descontrole demográfico ou pelo mau funcionamento da sociedade que um problema social emerge. Sua constituição requer, segundo ele, um esforço que supõe as etapas de reconhecimento, legitimação, pressão e expressão.

O reconhecimento se refere à conquista de atenção pública, em dar visibilidade a uma situação particular. Para isso, os grupos socialmente interessados em que esta nova categoria ganhe destaque no mundo social precisam investir, dando centralidade ao tema. A

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legitimação não decorre automaticamente do reconhecimento público do problema, ao contrário, requer um trabalho de promoção e inserção deste tema no campo das preocupações sociais do momento.

Desse modo, vemos que as transformações objetivas, sem as quais um problema social não teria sido colocado, aliam-se a um trabalho específico de enunciação e de formulação pública, ou seja, um esforço de mobilização capaz de promover sua integração às preocupações do momento e incorporá-lo como objeto de luta política.

As formas de pressão se traduzem em formas de expressão. Na transformação do envelhecimento em problema social estão envolvidas novas definições da velhice e do envelhecimento, que ganham dimensão com a expressão “terceira idade”, “idoso” ou “a melhor idade”.

Como mostra Debert (1999), até a década de 60 as pesquisas sobre a velhice nos Estados Unidos e Europa traziam uma ideia de homogeneidade nas experiências e problemas vividos pelos velhos das sociedades industrializadas. Assim, produziu-se a categoria ‘idoso’, que funcionava como uniformizador das representações sobre a velhice. Os autores apontavam para o que havia de comum na experiência de envelhecimento e, por isso, minimizavam as diferenças de etnicidade, classe ou raça. A ideia era de que, nas sociedades industrializadas, a velhice estava sempre associada à baixa renda e baixo status, sendo tal argumento apoiado pelos estudos antropológicos do período, os quais afirmavam que, ao contrário do que ocorria nas sociedades modernas, entre os povos tradicionais os velhos eram detentores de status social mais elevado.

Nos últimos trinta anos, as análises sobre a experiência de envelhecimento complexificaram-se e o interesse foi dar ênfase às diferenças no interior do segmento mais velho da população. Contra a visão da velhice como uma situação de perdas físicas e de papéis sociais, o interesse dos estudos foi realçar os ganhos que o envelhecimento traz.

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Na tentativa de se opor aos estereótipos negativos ligados ao envelhecimento, os trabalhos redefiniam a experiência dos idosos e, quando levados ao limite, negavam a própria ideia de velhice. Este modelo de interpretação forneceu, mesmo que não fosse esta a sua intenção, instrumentos para os discursos empenhados em transformar o envelhecimento num novo mercado de consumo, na medida em que propõem o adiamento da velhice através da adoção de estilos de vida e formas de consumo adequadas. A expressão “terceira idade” indica essa nova percepção, em que a velhice passa a ser vista como um momento propício para novas experiências, para aquisição de novos conhecimentos e definição de novas identidades.

Vemos que a maneira pela qual a dependência e o cuidado vêm ganhando centralidade nas sociedades contemporâneas exige uma revisão na maneira de encarar a velhice. A dependência impõe a necessidade de revisarmos a ideia dessa fase da vida como marcada pela autonomia e pela busca do adiamento do envelhecimento. Obviamente não se está apenas afirmando a velhice como um período marcado pela fragilidade como forma de reivindicar ações do poder público. O que se evidencia é que uma série de mudanças levam a um novo olhar em relação a esta fase da vida, sendo o envelhecimento avançado, e as incapacidades funcionais que ele acarreta, constituintes de um novo mercado profissional, de bens e serviços. A dependência é colocada no centro do debate, levando a produção dessa nova categoria profissional – o cuidador de idosos, constituindo o cuidado como um problema social. A dependência se torna um novo risco social que mobiliza a sociedade e articula família, mercado e Estado de diferentes formas5.

Assim, aquilo a que esta pesquisa se propõe é discutir a arena de conflitos colocadas em torno da invenção do cuidado. No Brasil,

(...) “as pesquisas sobre cuidado e cuidadoras são ainda pouco frequentes, sobretudo nos âmbitos da economia e das sociologias do trabalho e das profissões. Estudos pioneiros foram realizados nas áreas de enfermagem, geriatria, gerontologia e saúde pública, e só muito recentemente começaram a se

5 A bibliografia sobre a forma como Estado, família e mercado estão se articulando em relação à provisão de

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desenvolver pesquisas na área das ciências sociais” (HIRATA & GUIMARÃES, 2012, p.3).

Desse modo, dentre os estudos contemporâneos de repercussão em torno do cuidado, temos o trabalho de Tronto (1993; 1987). Em especial, a autora escreve em oposição à “ética do cuidado” proposta por Gilligan (1982), na qual esta se opõe às teorias da psicologia sobre a formação do senso moral. Segundo essas teorias, os homens teriam maiores chances de alcançar o alto desenvolvimento moral que as mulheres. Neste sentido, Gilligan (1982) aponta o equívoco dado no fato de que as mulheres, segundo ela, ao invés de terem um senso moral diminuído, desenvolveriam um outro tipo de moralidade, ligado ao desenvolvimento de uma “ética do care” – relacionada à preocupação com o sofrimento dos indivíduos singulares.

Segundo Tronto (1987), essa definição estaria sendo tomada como uma evidência de que as mulheres seriam diferentes dos homens, sendo usada, inclusive por feministas, como forma de reivindicar uma suposta superioridade moral feminina dada pela “ética do cuidado”. Nesse sentido, a autora critica essa “moralidade de mulheres”, apontando o fato de que a suposta superioridade não teria tido sucesso: as mulheres continuariam excluídas do poder na política, na economia e nas instituições culturais. Tronto (1993), então, propõe que o care seja considerado como uma atividade genérica, que possa ser atribuída a homens e mulheres. Ela afirma que a alternativa é enfrentar a discussão da ética do cuidado em termos de uma teoria política e moral. Isto incluiria olhar criticamente a noção de uma moralidade de mulheres proposta pelas interpretações sobre a moral e as distinções de gênero, e situar as interpretações no contexto das investigações sobre a moral e as distinções de raça, classe e etnia (TRONTO, 1987).

A relação entre gênero e cuidado é uma das questões mais citadas pela bibliografia especializada, sendo largamente apontado o fato da maioria dos cuidadores e dos recebedores de cuidados serem mulheres6. Esta pesquisa também evidenciou a

centralidade da discussão de gênero quando está em questão o cuidado de idosos.

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Entretanto, não nos interessa apenas afirmar a superioridade numérica de mulheres envolvidas na atividade de cuidado, na medida em que

“O gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado (...) O gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; ele também é o meio discursivo/cultural pelo qual “a natureza sexuada” ou “um sexo natural” é estabelecido como “pré-discursivo”, anterior à cultura, uma superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultura. (...) colocar a dualidade do sexo num domínio pré- -discursivo é uma das maneiras pelas quais a estabilidade interna e a estrutura binária do sexo são eficazmente asseguradas.” (BUTLER, 2003, p. 25)

Assim, a abordagem deste trabalho discute como os atributos femininos e masculinos estão se articulando no processo de construção do cuidado de idosos. A centralidade do debate ficou evidente no que se refere aos significados atribuídos ao cuidado, na medida em que, de modo geral, as qualidades consideradas indispensáveis ao bom cuidador – independentemente do seu sexo - estavam associadas a atributos femininos, como discutimos no capítulo 2.

Além disso, a questão de gênero também ganha especial dimensão no que se refere à sexualidade daqueles que demandam cuidados. A sexualidade ou era diluída na condição de dependência dos idosos, desaparecendo das falas das cuidadoras, ou, quando mencionada, era atribuída às demências, motivo pelo qual deveria ser tolerada – como mostramos no capítulo 4.

Falar sobre o cuidado de idosos no contexto brasileiro insere este trabalho não somente no campo dos estudos de gênero, envelhecimento e relações entre gerações, mas também em outras áreas tais como família e relações de trabalho. Em especial, esta pesquisa também traz à tona os debates envolvidos nas relações e limites entre a atuação dos cuidadores de idosos e das empregadas domésticas, as quais são uma figura central na provisão de cuidados nos setores mais privilegiados da população brasileira. (SORJ & FONTES, 2012).7

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Essa dimensão ganha especial evidência no contexto da discussão sobre a regulamentação da profissão de cuidador de idosos. Em meio ao debate em torno da legislação específica para regulamentar a atividade de cuidado, através do projeto de lei 4702/2012, a aprovação da emenda 72/2013 tensionou ainda mais o debate entre essas categorias de trabalhadores. Ao alterar a constituição federal, atribuindo aos trabalhadores domésticos direitos antes concedidos somente aos contratados com base na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), a emenda 72 impactou diretamente o trabalho dos cuidadores de idosos remunerados, uma vez que são atualmente submetidos à legislação do trabalhador doméstico. 8

No capítulo 1 mostramos como a regulamentação da profissão de cuidador se configura em um campo de conflitos em torno do que significa prestar cuidados, a quem cabem diferentes responsabilidades na execução de cada tarefa, quais os custos envolvidos e a quem caberá arcar com eles. O que esta pesquisa mostrou foi que, no processo de invenção do cuidado, múltiplos significados associados ao cuidado, à família, ao cuidador e ao idoso dependente estão sendo colocados em disputa.

Desse modo, o capítulo 1 se volta aos debates dados em torno da profissionalização do cuidado de idosos no Brasil. Nesse capítulo discutimos as polêmicas em torno do projeto de lei 4702/2012, em especial no que se refere às exigências de escolaridade mínima e de formação específica, bem como em relação aos embates com outras categorias, como com os profissionais de enfermagem e as empregadas domésticas.

O capítulo 2 trata de diferentes instituições que se desenvolveram a partir da demanda em torno desse trabalho, bem como dos argumentos dos especialistas e militantes sobre os sentidos envolvidos com o que é ‘cuidar’. Os debates em torno da profissionalização colocam em disputa o cuidado como profissão que requer capacitação para ser executada da maneira adequada, ao mesmo tempo que a associa a um dom, uma vocação ou um atributo da essência humana. Embora a profissionalização dessa atividade, em especial no que concerne à necessidade da formação, pareça questionar a naturalização

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do cuidado, inclusive no que se refere à aptidão natural das mulheres para realizá-lo, o que se nota no debate é que os significados em torno da atividade se articulam de diferentes maneiras, de modo a, muitas vezes, tornar a capacitação necessária uma aquisição de técnicas e de habilidades emocionais afetivas ligadas à feminilidade.

Mais do que isso, fica subjacente a este debate em torno da profissionalização do cuidado a discussão sobre o que seria o cuidado ideal, envolvido com determinadas concepções sobre família e envelhecimento. Nesse sentido, o capítulo 3 discute a ambiguidade presente em torno do cuidado familiar, considerado pelas alunas dos cursos de formação de cuidadores investigados, ao mesmo tempo fonte de mau cuidado e espaço do cuidado ideal. Além disso, este capítulo também discute a relação entre cuidado e violência, mostrando como o descontrole e agressividade dos cuidadores são considerados manifestações de um estresse mal administrado na relação de cuidado, cuja solução seria dada pela formação adquirida com os cursos e os manuais voltados aos cuidadores.

Assim, ao mesmo tempo que em se constroem significados em torno do cuidado como trabalho, o capítulo 4 discute a forma como o idoso demandante de cuidados está sendo produzido, em especial no que se refere à dependência, independência e autonomia. O que ficou evidente, é que a maneira como tais questões estão se articulando acaba, também, por produzir o idoso do cuidado em termos de sexualidade. Nesse sentido, a passividade associada à dependência suposta pela relação de cuidado acaba por invisibilizar a sexualidade dos idosos, que desaparece dos discursos, e, quando é expressa, é vista como passível de tolerância em função de ser associada a sintomas de demências.

Como afirma Arango (2011), “(...) estamos hablando de um trabajo que hasta hace muy poco no era siquiera objeto de discurso” (Idem, p. 96). Assim, o que este trabalho se propõe a mostrar nesse processo de produção e reprodução se significados associados ao cuidado é o campo de disputas gerado nesse processo de invenção do cuidado como trabalho e como profissão.

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2 – Os espaços da pesquisa

A etnografia que embasa este trabalho se realizou a partir: 1) da análise de documentação referente ao do projeto de lei 4702/2012 e a dois manuais voltados aos cuidadores de idosos produzidos pelo governo federal; 2) da observação de comportamentos em três cursos de formação de cuidadores e em dois eventos sobre a regulamentação da profissão de cuidador de idosos; 3) da realização de entrevistas com alunas dos cursos de formação de cuidadores e com membros de três associações de cuidadores de idosos, duas no Estado de São Paulo e uma em Minas Gerais.

2.1 - O projeto de lei 4702/2012: o projeto que visa regulamentar a profissão de

cuidador de idosos tem autoria do senador Waldemir Moka (PMDB – MS). Seu processo de tramitação e seu conteúdo estão discutidos ao longo dos capítulos 1 e 2. O texto completo pode ser visto no anexo I.

2.2 - Cuidar Melhor e Evitar a Violência – Manual do Cuidador da Pessoa Idosa: este manual, organizado por Tomiko Born, foi publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República em 2008. Com 330 páginas, conta com textos de vários especialistas na questão do envelhecimento. A publicação pode ser acessada em: http://www.sdh.gov.br/assuntos/pessoa-idosa/legislacao/pdf/manual-do-cuidadora-da-pessoa-idosa

2.3 - Guia Prático do Cuidador: esse guia, também publicado em 2008, foi produzido

pelo Ministério da Saúde. Com perfil mais conciso que o anterior, conta com 64 páginas e foi produzido pelo setor de educação em saúde do próprio ministério. A publicação pode

ser acessada em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_pratico_cuidador.pdf

2.4 - Os cursos de formação de cuidadores de idosos: como fonte de dados para esse trabalho, foi realizada observação de comportamentos em três cursos de formação para cuidadores de idosos, os quais não serão identificados, como forma de preservar a

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identidade dos professores e alunos citados ao longo da tese. Por este motivo, todos os nomes referentes aos envolvidos nesses cursos serão alterados.

a) Curso de formação de cuidadores de idosos da Faculdade Protestante de Piracicaba.

Esse curso de formação é oferecido por um projeto de extensão de uma faculdade protestante da cidade de Piracicaba – SP9. Vinculado ao curso de nutrição da referida faculdade, acontece desde 2006 em um centro-escola de nutrição e fisioterapia, no qual alunos e professores da faculdade que mantém a clínica prestam atendimento gratuito ou de baixo custo à população. Localizado na região central da cidade, é um local de fácil acesso, que costuma receber grande número de pessoas para ser atendidas diariamente.

Acompanhei esse curso em dois períodos: no 1º semestre de 2012, em que o curso já estava em andamento e por isso participei apenas da metade das aulas; e no 2º semestre de 2013, em que estive em todas as aulas dos três meses de curso. Assim, as situações descritas ao longo da tese podem fazer referência a qualquer dos dois períodos. Entretanto, a maioria das informações dizem respeito à turma de 2013, em função de ter sido acompanhada em sua totalidade10. A divulgação do curso é feita, além de cartazes nos

painéis do centro-escola e em instituições de longa permanência, através de reportagens nos jornais impressos da região.

Nas duas vezes em que frequentei o curso, as aulas aconteciam nos mesmos dias e horários: às segundas e terças, das 16h às 18h, com um total de 3 meses de duração. Eram 19 aulas, cuja carga horária totalizava 30 horas.11 Não havia exigência de escolaridade mínima para inscrição, sendo necessário apenas ser alfabetizada. O custo era de 70 reais, em 2012, e 100 reais, em 2013, valor referente à totalidade do curso. Todos os

9 Segundo dados do IBGE, o município, 160 km distante de São Paulo, conta com 388 mil habitantes. Fonte:

IBGE (2015).

10 A turma de 2012 serviu como um pré-campo, de modo que muitas informações não estão descritas de forma

tão completa.

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14

professores eram voluntários, sendo o valor da mensalidade referente apenas aos custos com o material: CD com o material das aulas, pasta e xerox.

Todos os professores eram voluntários, recrutados ou na própria faculdade que mantinha o centro-escola, ou através das ligações pessoais das profissionais que ali trabalhavam. Por serem nutricionistas e fisioterapeutas, tinham contato com uma série de profissionais da área da saúde em outras clínicas e postos de saúde, conseguindo voluntários para as aulas em que não havia professores da faculdade disponíveis.

Minha presença no curso foi muito bem aceita nas duas oportunidades, inclusive várias das alunas questionando se eu estava começando o curso naquele dia, de quem eu ‘cuidava’, e questões em que pareciam ter me identificado como mais uma aluna12.

Em 2012, a turma tinha 18 alunas, todas mulheres, a maioria negras ou pardas13, entre 30 e 45 anos. A maior parte era de cuidadoras remuneradas, que atuavam em

domicílio e/ou em instituição de longa permanência. Havia também algumas cuidadoras familiares não remuneradas, as quais aparentavam ser de classe social mais alta: vinham de carro próprio, eram proprietários de pequenos negócios, ou estavam inseridas no mercado de trabalho como profissionais liberais. Havia alunas de escolaridades variadas: desde aquelas que contavam ter trabalhado na roça, onde aprenderam apenas a ler e escrever, até uma técnica em enfermagem de nível médio e duas fisioterapeutas14.

A turma de 2013, também composta apenas por mulheres, começou com dezessete alunas, das quais treze concluíram o curso. A maioria, sete delas, era cuidadora remunerada em domicílio, empregadas ou em busca de emprego; cinco atuavam em

12 Situação diferente foi percebida por Oliveira (2007), quando frequentou o curso para empregadas

domésticas. A autora conta que, nas primeiras aulas, foi interpelada pelas alunas que afirmavam que a pesquisadora não teria ‘cara de empregada’, mas sim de patroa. (OLIVEIRA, 2007). Nos três cursos que frequentei para essa pesquisa, antes de me identificar como pesquisadora, sempre me questionavam no sentido de saber de ‘quem eu cuidava’.

13 Como não fiz entrevistas com essas cuidadoras, não tenho como dado a cor com que elas se auto-

identificavam, mas, sim, a minha percepção em relação a este aspecto.

14 Como essa turma foi acompanhada como pré-campo, não existem dados detalhados sobre o perfil das

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15

instituições de longa permanência; uma era cuidadora familiar do marido e uma arte-terapeuta que não atuava como cuidadora. Quatro das treze alunas eram negras ou pardas, e as idades variavam entre 22 e 63 anos. Em relação à escolaridade, apenas uma tinha ensino superior completo em enfermagem, quatro tinham ensino médio, sete haviam cursado até o ensino fundamental e uma dizia ser apenas alfabetizada.

No dia a dia do curso, de modo geral, estavam presentes a psicóloga Jucimara15 - funcionária da recepção do centro-escola, a qual ajudava em questões logísticas, bem como ministrava algumas aulas; a nutricionista Jaqueline – também funcionária do centro-escola, que em 2012 apenas ministrava algumas aulas e em 2013 também era coordenadora do curso; e a estagiária Juliana – aluna da faculdade que desempenhava ali todo tipo de trabalho burocrático. Na turma de 2012, a coordenadora do curso era uma professora da faculdade de nutrição que também atuava no centro-escola, mas que pouco se envolvia no dia a dia das aulas. Já em 2013, como mencionado, a coordenação era de Jaqueline, que se fazia bastante presente no cotidiano das aulas.

O curso era composto de aulas nas áreas de enfermagem, odontologia, fisioterapia, nutrição, psicologia, culinária, educação física, fonoaudiologia e medicina relacionada às doenças do envelhecimento16. Todos os professores tinham formação superior, e apenas três deles eram homens – dois fisioterapeutas e um médico.

b) O curso de formação de cuidadores de empresa privada em Campinas

O segundo curso que serviu como campo para esta pesquisa foi acompanhado durante o segundo semestre de 2012 na cidade de Campinas17. O curso foi oferecido por uma empresa privada que, além de realizar a formação de cuidadores, também atua como agência de empregos através da seleção e encaminhamento de cuidadores. Na realidade, embora seja formalmente uma empresa, sua atuação está muito relacionada à figura da

15 Como mencionado, todos os nomes utilizados nesta tese em relação aos cursos são fictícios, de modo a

preservar a identidade dos envolvidos.

16 O programa completo do curso pode ser visto no anexo II.

17 Distante aproximadamente 100 km de São Paulo, o município de Campinas conta com quase um milhão de

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16

proprietária, Roberta. Ocupando uma sala alugada em um centro que conta com uma série de consultórios de profissionais liberais, a empresa não conta com funcionários formalmente empregados, apenas contratando prestadores de serviços para os trabalhos necessários, por exemplo, os professores que ministram aulas no curso.

Roberta é a figura central no funcionamento da empresa, sendo a responsável por atuar na seleção e encaminhamento de cuidadores e também pela direção e coordenação do curso, em que também é professora de algumas aulas. Aos 34 anos de idade, formada em psicologia, tinha larga experiência no trabalho com idosos, já tendo atuado em hospitais, casas de repouso e também como membro do Conselho do Idoso18 da cidade. Na ocasião em que acompanhei as atividades do curso, em 2012, a empresa estava em funcionamento há dois anos, tendo inicialmente atuado apenas como agência de empregos. O curso de formação começou posteriormente, no primeiro semestre de 2012, sendo a turma que acompanhei a segunda turma a concluí-lo.

Ele não era ministrado na sala que funcionava como sede da empresa, mas, sim, em um centro cultural de propriedade privada, localizado no centro da cidade de Campinas. Naquele local, havia salas alugadas para vários tipos de cursos, especialmente cursos de idiomas. A sua divulgação acontecia eminentemente pela internet, através de newsletter e pelo site da empresa.

As aulas aconteciam às segundas-feiras, das 18h às 21h, e o custo era de 170 reais mensais. A sua duração era de 5 meses, totalizando 20 aulas e uma carga horária de 60 horas. O cotidiano do curso era marcado pela presença constante da coordenadora, Roberta, que acompanhava todas as aulas, além de uma recepcionista que sempre estava presente no início das aulas para abrir o portão. O currículo era variado, com aulas das áreas da medicina, fisioterapia, enfermagem, odontologia, nutrição, terapia ocupacional, massagem e terapia floral, psicologia, assistência social. Até um psicólogo integrante do

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‘Hospitalhaços’ participava da equipe19. Os professores eram recrutados através das

ligações pessoais da proprietária da empresa, que por ter atuado junto a ILPI´s e outros serviços voltados a idosos conhecia profissionais com experiência na área. Todos os professores eram remunerados e, com exceção da massagista e terapeuta floral, os demais tinham curso superior. Apenas dois professores eram homens – um dentista e um psicólogo. Das vinte aulas do curso, 8 eram ministradas pela diretora, Roberta, e versavam desde temas relacionados às questões emocionais do idoso até sobre preparação do currículo e postura profissional.20

A turma tinha 15 alunas, todas mulheres, com idade entre 23 e 60 anos. Não havia restrição de nível de escolaridade para a matrícula, sendo necessário apenas ser alfabetizada. Assim, havia desde uma aluna apenas alfabetizadas , sete com o ensino fundamental , até duas alunas com ensino médio e cinco com ensino superior – uma formada em História, que na época trabalhava como atendente de farmácia; uma pedagoga, que já havia atuado na área, mas estava afastada; uma nutricionista, em atuação; e duas formadas em recursos humanos, ambas aposentadas. A maioria era branca, e quatro delas eram negras ou pardas. No início do curso, havia três alunas empregadas formalmente como cuidadoras: uma em instituição de longa permanência e duas em domicílio. Essas alunas eram empregadas de forma regular; outras também atuavam na área, mas como plantonistas eventuais. Ao final do curso, 9 das 15 alunas estavam atuando como cuidadoras remuneradas, de maneira regular ou como plantonistas.

c) O curso de formação de cuidadores da Associação Pastoral Católica em parceria com a prefeitura municipal de Rio Claro.

19 “Fundada em 1999 por Walkiria Camelo, a Hospitalhaços é uma Organização Não Governamental

comprometida com o sorriso dentro do ambiente hospitalar. Nosso desafio diário é criar uma atmosfera mais leve, alegre e descontraída para pacientes, familiares e profissionais da área da Saúde.”. Fonte: Hospitalhaços (2013). No curso, a intenção era que a aula abordasse a utilização do humor para lidar com situações-problema.

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18

O terceiro curso de formação de cuidadores de idosos, campo desta pesquisa, ocorreu no primeiro semestre de 2014, na cidade de Rio Claro21. Organizado pela associação pastoral de uma paróquia católica bastante influente no município, o curso teve como parceria a prefeitura da cidade, que forneceu verba para a realização da construção de um salão comunitário dessa associação pastoral. Sua inauguração contou com a presença do prefeito e de várias autoridades locais justamente na formatura do curso de cuidadores de idosos.

A atuação da prefeitura em relação ao funcionamento do curso era circunscrita à liberação de profissionais da Fundação Municipal de Saúde para ministrarem algumas aulas, bem como verba para produção dos materiais do curso. Toda a organização do curso era realizada pelo padre responsável pela associação pastoral, Pedro, e pela assistente social que lá trabalhava, Renata. Entretanto, escolha dos conteúdos, divulgação, realização de matrículas e acompanhamento do dia a dia do curso eram realizados eminentemente por Renata, muito presente no cotidiano do curso, preparando chás, cafés e bolos como recepção para as alunas em todas as aulas.

O curso era totalmente gratuito, e sua divulgação foi feita através de cartazes na própria paróquia e também através de anúncios em jornal impresso e em programas de rádio locais. As aulas aconteciam às quartas-feiras, das 8h30 às 10h30, em uma sala de catequese dentro da paróquia. Com um total de 10 aulas, o curso contava carga horária de 20 horas. Algumas aulas eram ministradas por padres; as demais, por profissionais formados nas áreas de enfermagem, nutrição, educação física, terapia ocupacional, odontologia, direito e medicina. Cinco professores eram homens – dois padres, um médico, um terapeuta ocupacional e um dentista. Os professores eram oriundos da Fundação Municipal de Saúde ou recrutados entre os fiéis da paróquia, todos ministrando as aulas como voluntários22.

21 A cidade de Rio Claro, distante 220 km de São Paulo, tem aproximadamente 180 mil habitantes. Fonte:

IBGE (2015).

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Das vinte e cinco alunas que iniciaram o curso, dezoito o concluíram, das quais apenas uma era negra. Nenhuma das concluintes trabalhava em ILPI; oito atuavam como cuidadoras remuneradas em residência e três eram cuidadoras familiares – das quais duas eram donas de casa e uma secretária aposentada. Havia ainda uma técnica em enfermagem que trabalhava na Santa Casa de Misericórdia do município, cinco empregadas domésticas ou diaristas e uma nutricionista, que não estava trabalhando na área. Em relação à escolaridade, apenas a nutricionista tinha nível superior, duas diziam serem apenas alfabetizadas, duas tinham nível médio e a maioria, treze alunas, tinha nível fundamental. As idades variavam entre 35 e 62 anos.

2.5 - As entrevistas:

a) Foram também utilizadas como fonte de análise para este trabalho entrevistas semiestruturadas com oito alunas dos cursos de formação de cuidadores. Vale a pena ressaltar que as entrevistas foram um complemento à observação de comportamentos realizada no contato com as alunas ao longo dos meses dos cursos de formação.23

b) Foram realizadas também entrevistas semiestruturadas com os presidentes das associações de cuidadores de idosos de São Paulo, Bragança Paulista e Minas Gerais24. As associações de cuidadores de idosos são recentes, sendo a primeira delas fundada em 2006 em Minas Gerais, a partir da iniciativa de um cuidador remunerado do sexo masculino, na época com 23 anos. Além de Minas Gerais, existem associações também no estado do Rio de Janeiro, no Distrito Federal, em Santa Maria – RS, São José do Rio Preto, Bragança Paulista, São Paulo e Campinas.

- Associação dos cuidadores de idosos da região metropolitana de São Paulo (ACIRMESP) - entrevista realizada em 12 de maio de 2014.

23 O roteiro das entrevistas e o perfil das alunas entrevistadas pode ser visto no apêndice I e II,

respectivamente.

24 O roteiro das entrevistas pode ser visto no apêndice I. Vale a pena ressaltar que, tanto com os membros das

associações quanto com as alunas dos cursos de formação, o roteiro em anexo serviu apenas para nortear a conversa sobre algumas temáticas, sendo que as entrevistas se desenvolveram em muitas outras direções.

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20

A ACIRMESP, fundada em 2012, é uma organização sem fins lucrativos, com sede em uma sala emprestada por um escritório de advocacia no centro de São Paulo. Tendo surgido com o incentivo do OLHE – Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento25, através da gerontóloga Marília Berzins, atualmente a associação é presidida por Lidia Nadir Jorge, 64 anos, ex-cuidadora do PAI – Programa de Atendimento ao Idoso da Prefeitura Municipal de São Paulo26. Atualmente, ela se dedica exclusivamente ao trabalho na associação, mesmo sem receber nenhuma remuneração.

A associação conta com cerca de 60 associados, os quais pagam uma mensalidade de 15 reais. Não existe nenhum requisito mínimo para um cuidador se associar, e a associação acaba por funcionar como uma agência de empregos, na medida em que encaminha os cuidadores associados às famílias que a procuram para solicitar um profissional. Na ocasião, a associação não realizava mais nenhum tipo de atividade, restringindo sua atuação a informar cuidadores e familiares sobre a legislação trabalhista referente ao empregado doméstico e a realizar o encaminhamento de cuidadores associados.

- Associação de Cuidadores de Idosos de Bragança Paulista – entrevista realizada em 13 de junho de 2014.

A associação, fundada em 2009, é uma organização sem fins lucrativos. Já tendo contado com uma sede em um prédio da prefeitura, na ocasião da entrevista a associação não tinha sede, segundo sua presidente, em função da troca de partidos na administração municipal. A entrevista foi realizada no abrigo São Vicente de Paulo de Bragança Paulista, Instituição de Longa Permanência, onde a presidente da associação, Maria Cecília de Lima, trabalhava na parte administrativa. Maria Cecília nunca foi cuidadora de idosos, tendo sido a mentora da associação, segundo ela, por trabalhar desde adolescente como voluntária no abrigo. Quando passou a ser funcionária do setor

25 A Olhe é uma OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, que se define como um

conjunto de “profissionais com formação interdisciplinar sobre o envelhecimento humano – profissionais, pesquisadores e professores, mestres e doutores, que nos unimos a fim de definir estratégias que insiram na pauta pública e privada a longevidade humana.”. Fonte: Olhe (2015).

26 Em entrevista realizada por telefone em 10 de setembro de 2014, Marília Berzins evidenciou que não tem

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administrativo, teria percebido as dificuldades enfrentadas pelos cuidadores de idosos e teve a ideia de montar a associação para apoiá-los através da formação.

Com cerca de 80 associados que pagam uma mensalidade de 10 reais, não existem requisitos mínimos para o cuidador se associar. As atividades da associação seriam voltadas à indicação de profissionais para as famílias que os solicitam e também à realização de cursos de formação de cuidadores. Os cursos são gratuitos, para os quais a associação consegue apoio com vereadores e com a prefeitura da cidade.

- Associação de cuidadores de idosos de Minas Gerais (ACIMG) – entrevista realizada em 19 de setembro de 2014.

A Associação de cuidadores de idosos de Minas Gerais foi a primeira fundada no Brasil, em 2006, pelo cuidador que até hoje ocupa sua presidência, Jorge Roberto de Souza. Na ocasião da fundação, com 23 anos, Jorge Roberto cursava um curso superior para cuidadores de idosos27, motivo que, segundo ele, levou-o a ver a necessidade dos

cuidadores se organizarem enquanto categoria.

A entrevista foi realizada na sede da associação, que funciona em uma sala alugada em um prédio comercial no centro de Belo Horizonte. Com 6 mil cuidadores associados, a associação, uma organização sem fins lucrativos, exige que o cuidador seja alfabetizado e tenha certificado de algum curso de cuidador de idosos para se associar. Os cuidadores não pagam para se associar, nem tampouco mensalidade, sendo o sustento da entidade dado pela renda oriunda da mensalidade do curso de formação de cuidadores oferecido por ela própria.

Uma série de atividades é realizada pela entidade, entre elas o curso de formação de cuidadores, encaminhamento de emprego, o ‘café com o cuidador’ – em que os cuidadores realizam um tipo de terapia de grupo –, assessoria jurídica, além de organizar eventos municipais e estaduais em Minas Gerais para discussão do trabalho dos cuidadores

27 O curso superior sequencial de cuidadores de idosos, oferecido pela FUMEC, em Belo Horizonte, não está

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22

de idosos. A associação chegou a ter um convênio com a prefeitura de Belo Horizonte, no programa “Maior Cuidado”, em que selecionava, treinava e encaminhava cuidadores para o atendimento de idosos de baixa renda. Por questões políticas, o convênio feito teria sido interrompido. Na ocasião da entrevista, aos 32 anos, Jorge Roberto estava trabalhando como coordenador de comitê eleitoral de um dos candidatos ao governo do estado de Minas Gerais.

2.6 - Os eventos:

Também foi realizada observação de comportamentos em dois eventos nos quais se discutiu a profissão do cuidador de idosos.

a) Evento “Cuidador da pessoa idosa: a emergência da profissão e da

regulamentação. Aspectos legais e sociais”, realizado em 26 de abril de 2013 no SESC Campinas.

O evento, cuja programação completa está no anexo III, foi organizado pelo SESC em parceria com a Associação de Cuidadores de Idosos de Campinas e Região Metropolitana (ACICAREM), então em fase de formação. O evento contou com a presença de especialistas na questão do envelhecimento e militantes da regulamentação da profissão de cuidador de idosos, entre eles, membros das associações de cuidadores de idosos de São Paulo, Minas Gerais, Bragança Paulista e Rio de Janeiro.

b) “II Encontro de cuidadores: reconhecimento e valorização”, realizado em 25 de

agosto de 2014 na UERJ, Rio de Janeiro.

Esse evento, organizado pelas ACIERJ – Associação de Cuidadores da Pessoa Idosa, da Saúde Mental e com Deficiência do estado do Rio de Janeiro -, contou com a presença de políticos, militantes e especialistas. O cartaz de divulgação e a programação do evento podem ser vistas no anexo III.

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23

CAPÍTULO 1

A PROFISSIONALIZAÇÃO DO CUIDADO

(...)Talvez não exista uma definição precisa em relação ao cuidado, mas de uma coisa eu tenho certeza, cuidado é um trabalho. Cuidar é um tipo de trabalho, seja remunerado ou não. E cuidar dá trabalho também, não é fácil cuidar. (...) E talvez seja um dos tipos de trabalho mais antigos da humanidade. Primeiro o bebê que nasceu precisou ser cuidado. Então é um tipo de trabalho que está na origem da nossa sociedade e que é necessário para nossa sobrevivência, da humanidade. Cuidado nos faz humanos, porque sem cuidado não teríamos sobrevivido.28 (Daniel Groisman)29

‘Cuidador de idosos’ é uma categoria relativamente nova no Brasil, e é justamente o processo de sua construção que nos interessa neste trabalho. Assim, será colocada em questão a afirmação que consta na epígrafe que inicia este capítulo: cuidado é um trabalho. De uma perspectiva antropológica, a intenção é discutir o processo através do qual essa afirmação se tornou- ou vem se tornando- verdade no contexto brasileiro; neste caso, a partir da discussão em torno da regulamentação da profissão de cuidador de idosos.

Há poucos anos, ouvia-se o termo ‘acompanhante’ para designar as pessoas que, em troca de estarem com o idoso, auxiliando em suas atividades, recebiam uma quantia em dinheiro. Mais recentemente, a imagem do ‘cuidador’ ganhou força, -constituindo-se como um novo ator político e, por consequência, como objeto de propostas de ações e intervenções governamentais e legislativas em sua atuação.

28 As citações de campo serão feitas em itálico sem aspas, e as citações bibliográficas longas sem itálico e

com aspas.

29 Daniel Groisman é psicólogo e professor-pesquisador do Laboratório de Educação Profissional na Atenção

à Saúde da Escola Politécnica de Saúde Joaquim (ESPJV/Fiocruz) e há muito tempo vem trabalhando com formação de trabalhadores na saúde do idoso e políticas públicas para o cuidado e envelhecimento. Fala gravada no “II Encontro de cuidadores: reconhecimento e valorização”, realizado em 25 de agosto de 2014 na UERJ, Rio de Janeiro.

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24

Como já foi abordado, estamos vivendo um momento de grande debate em torno do envelhecimento. As estatísticas sobre o envelhecimento populacional, as projeções demográficas sobre o número de idosos que o Brasil terá nas próximas décadas e outros dados deste tipo fazem com que o foco da mídia e dos especialistas não seja apenas o sistema previdenciário ou a saúde pública, mas, de modo crescente, também o debate em torno do cuidado dos idosos. Quem irá cuidar dos idosos?

Camarano e Mello (2010) atribuem às mudanças nas configurações das famílias, com a proporção cada vez maior de mulheres no mercado de trabalho em todo o mundo e a consequente redução do cuidado familiar. No Brasil, o cuidado dos parentes idosos continua sendo responsabilidade das famílias, inclusive com base na legislação. A Constituição de 1988 prevê que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, preferencialmente nos lares, estando as políticas públicas relacionadas ao cuidado restritas ao abrigamento dos idosos pobres (CAMARANO, 2012, p.157). Essa visão perpassa as demais leis, tais como a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso. Sorj e Fontes (2012) também afirmam que o debate sobre o care vem ocorrendo num contexto de mudanças sociais no modelo tradicional de família, principalmente no que se refere ao aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho: os homens tendem a investir seu tempo no mercado de trabalho e as mulheres a dividir o tempo entre o mercado remunerado e os cuidados com a família. Nesse sentido, surge então a necessidade de novas formas de cuidado, articulando Estado, família e mercado privado (CAMARANO & MELLO, 2010).

Camarano e Mello (2010) afirmam que os serviços de cuidado podem ser oferecidos no próprio domicílio, na comunidade ou em instituições. Podem ser informais prestados pelas famílias, amigos / ou vizinhos -, e formais, quando são feitos por profissionais. O cuidado formal é prestado pelo Estado ou pelo mercado, e pode ser domiciliar ou institucional, sendo este último pouco popular, muitas vezes considerado o último recurso quando ocorre a perda da capacidade mental e funcional dos idosos (CAMARANO, 2012). De modo geral, formal ou informal, a maioria das sociedades tem a mulher como principal cuidadora, questão de que trataremos mais adiante neste trabalho.

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As autoras, então, definem o cuidado de idosos como estando entre os chamados “cuidados de longa duração”, definidos como:

“cuidados não especializados tais como ajuda para as AVDs [atividades da vida diária]. Entre elas, cita-se tomar banho, usar o banheiro e se alimentar. Embora esses cuidados refiram-se a pessoas de todas as idades, cuidados de longa duração são, em geral, entendidos como destinados à população idosa, dado ser este grupo o mais exposto a doenças crônicas que podem resultar em incapacidades físicas e/ou mentais” (CAMARANO & MELLO, 2010, p.15).

Camarano e Mello (2010), ao tratar dos cuidados de longa duração, colocam-nos divididos entre os sistemas de saúde e de assistência social dos países – as casas de repouso mais ligadas aos sistemas de saúde –, e as atividades da vida diária associadas à assistência social. No Brasil, as políticas de cuidado são responsabilidade da assistência social e focam, sobretudo, o abrigamento de idosos carentes. Segundo Camarano e Mello (2010), os cuidados informais domiciliares são a principal forma de cuidado dos idosos em todo o mundo, correspondendo, nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico30, a cerca de 80% dos cuidados de idosos que não podem realizar as atividades da vida diária.

Essa articulação entre sistema de saúde e de assistência social é discutida por Georges e Garcia dos Santos (2012) em relação ao trabalho de care das agentes de duas políticas públicas de cuidado. As autoras analisam o que chamam de ‘novas políticas do cuidado’ a partir de duas experiências que surgiram nos anos 80 e 90, durante a redemocratização do país: o Programa Saúde da Família (PSF) e o Programa Ação Família (PAF), vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS), respectivamente.

O Programa Saúde da Família tem como objetivo “promover a prevenção e a identificação de doenças, (...) intervir nos fatores que colocam a população excluída ao

30 OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Seus membros são Alemanha,

Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coreia, Dinamarca. Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, Japão, Luxemburgo, México, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Checa, República Eslovaca, Suécia, Suíça e Turquia. Mais informações em OCDE (2015).

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acesso à saúde preventiva – os pobres – em situação de risco” (GEORGES & GARCIA DOS SANTOS, 2012, p.170). É desenvolvido por equipes multidisciplinares, e seu trabalho varia desde uma conversa rápida, com a lembrança do remédio a ser tomado, um exame a ser realizado, até o acompanhamento quase diário de casos de depressão e violência doméstica. Já o Programa Ação Família (PAF) foi criado pela Prefeitura de São Paulo em 2005, e tem entre suas principais ações visitas domiciliares, orientação, acompanhamento familiar, promoção de atividades comunitárias, etc.

As autoras mostram que, a partir dos anos 90, as políticas sociais brasileiras, especialmente aquelas relacionadas ao ‘cuidado’, vêm sendo marcadas por uma ambivalência estrutural: por um lado, ‘privatista’, e por outro, ‘publicista’. A tendência à municipalização das políticas de assistência indicaria claramente uma tendência privatista, já que representaria formas de gestão combinadas entre União, Estados, Municípios e outras organizações privadas da sociedade civil.

No Brasil, de modo geral, as políticas públicas voltadas propriamente ao cuidado de idosos são diminutas, centradas essencialmente na institucionalização dos idosos pobres. Camarano e Mello (2010) atestam que o contexto brasileiro traz baixíssima atuação do Estado nesse sentido, já que são quase inexistentes políticas e programas de cuidado formal domiciliar.

“Por cuidado formal, entende-se aquele que envolve atendimento integral ao idoso em ILPIs31 e/ou em centros-dia e hospitais-dia, além do cuidado domiciliar

formal. São ofertados por profissionais especializados tanto do setor público quanto do privado.” (CAMARANO & MELLO, 2010, p.19)

No Brasil, os centros-dia e hospitais-dia, em que o idoso passa o dia e vai embora para casa à noite, são tidos como soluções de custo mais baixo que as ILPIs, embora sejam ainda ofertados de maneira incipiente. As autoras mostram que é preocupação comum, entre os países desenvolvidos, a projeção de gastos crescentes com os cuidados de longa duração para idosos, que atribuem à menor possibilidade de cuidados

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familiares. Essa preocupação não encontra a mesma ressonância entre os países pobres ou em desenvolvimento, já que nesses países o Estado pouco atua nessas questões.32

Como afirma Neri (2010), “em todo o mundo, os cuidados a idosos física e cognitivamente dependentes são em sua maior parte prestados no contexto familiar” (NERI, 2010, p.305). Camarano e Kanso (2010) atestam, então, que para as Nações Unidas o cuidado informal e a coabitação entre pais idosos e filhos adultos seria fator fundamental de apoio entre os membros da família. A bibliografia também diz que, no Brasil, a legislação privilegia a família como espaço para o cuidado dos idosos (CAMARANO & MELLO, 2010; CAMARANO, 2012; SORJ & FONTES, 2012). Parte da bibliografia especializada, especialmente na gerontologia, também atesta que “A maioria dos especialistas acredita que é melhor para os idosos frágeis serem cuidados por suas famílias.” (CAMARANO, 2012, p. 154). Segundo a autora, isso não invalidaria o fato de que, para o Estado, os custos do cuidado formal, principalmente o institucionalizado, constitui uma das grandes motivações para a ênfase na família. Além disso, o parágrafo 1º do artigo 230 da Constituição Federal de 1988 traz a família como cuidadora preferencial,

“A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. § 1º - Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares.”(PRESIDÊNCIA, 1988)

Assim, fica claro que, no Brasil, o cuidado de idosos articula a dimensão pública e privada de modo a privilegiar claramente a atuação das famílias. Rifiotis e Santos (2006), ao tratar das práticas de cuidado voltadas a pessoas idosas com demência, bem como da dinâmica familiar dos cuidadores, suas estratégias e conflitos, afirmam que o cuidado familiar é considerado preferencial para idosos dementados ou não. No entanto, os autores apontam que, no caso de idosos dementados, o cuidado ganha um diferencial por se tratarem de indivíduos que requerem atenção contínua, muitas vezes para todas as atividades do dia a dia sem exceção. O trabalho mostra que a maneira como as famílias se organizam para realizar esse cuidado é muito variada, muitas vezes envolvendo outras

32 Segundo Camarano et. al (2010), existem pouco mais de 109 mil leitos nas ILPI´s brasileiras, as quais estão

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