Recurso Referência
sobre Direito a
Habitação Adequada
Compilação Preparado pela Unidade Assessoria de Direitos Humanos em Timor-Leste
i
Recursos Referência sobre
Direito a Habitação adequada
Compilação de Padrão Nacional e Internacional Direitos Humanos chave e
Recomendação relevante do Mecanismo da ONU Direitos Humanos
Preparado pela Unidade Assessoria de Direitos Humanos em Timor-Leste
ii PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
O Direito a Habitação Adequada é um direito humano fundamental para qualquer pessoa. Este direito é igualmente essencial para o gozo de diversos outros direitos. Por exemplo, a habitação é o local onde pode viver a sua vida familiar, ter uma vivência saudável, onde crianças e jovens estudam e onde obtém proteção do calor, da chuva forte e doutros eventos. A nossa casa é o local onde nos sentimos seguros e onde outros não podem entrar de qualquer maneira.
Esta publicação, preparada pela Unidade de Assessoria dos Direitos Humanos das Nações Unidas, reúne leis nacionais e instrumentos internacionais relevantes no que diz respeito ao direito à alojamento. Este livro é uma versão atualizada do livro “Recursos e Documentos sobre Direito a Habitação Adequada” que a Secção de Direitos Humanos e Justiça Transitória da Missão Integrada das Nações Unidas publicou há alguns anos. Esta versão inclui instrumentos internacionais adicionais provenientes do Mecanismo de Direitos Humanos, criado pelo Conselho de Direitos Humanos, concretamente através da Relatora Especial sobre Direito a Habitação Adequada.
O direito a habitação tem uma ligação estreita com a questão da propriedade. Pelo que espero que esta compilação contribua para a discussão do pacote legislativo sobre propriedade, em andamento há algum tempo. Acredito que os instrumentos internacionais adoptados pelo Mecanismo dos Direitos Humanos e outros órgãos das Nações Unidas constituem uma orientação-chave na implementação pelo Estado de Timor-Leste dos compromissos assumidos através da ratificação de sete Pactos e Convenções desde a restauração da independência. Embora a legislação nacional já estabeleça obrigações legais para o Estado, eu encorajo V. Exas. a utilizarem também os outros instrumentos internacionais incluídos nesta publicação. Estes instrumentos foram elaborados por peritos independentes dos direitos humanos, os quais fizeram uma interpretação vinculativa e explicaram detalhadamente como implementar os direitos garantidos pelos Pactos e Convenções, assim ajudando V. Exas. a executarem ações com base nas melhores práticas mundiais. Nesta base, os peritos também elaboraram recomendações específicas face a Timor-Leste, as quais integram esta publicação.
As Nações Unidas em Leste continuam a apoiar o esforço importante de Timor-Leste no caminho presente deste país em direção ao desenvolvimento.
Knut Ostby
iii
Tabela de conteúdo – Recursos Referência sobre Direito a Habitação Adequada
Pajina
Palavras Introdutórias ii
Introdução v
I. I. LEI NACIONAL
Constituição da República Democrática de Timor-Leste Relacionado sobre Direito a Habitação
1
II. INSTRUMENTO INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS
Declaração Universal dos Direitos Humanos 4
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais(PIDESC) 10
A natureza das obrigações dos Estados- partes - Comentário Geral no. 3 do Comitê dos Direitos Econômico, Sociais e Culturaisart. 2 PIDESC (1990)
22
Direito a Habitação Adequada - Comentário Geral No. 4 do Comitê dos
Direitos Econômico, Sociais e Culturais, art. 11.1 (1991)
27
O Direito a Um Habitação Adequada Desalojamentos Forçados -
Comentá-rio Geral no. 7 do Comitê dos Direitos Econômico, Sociais e Culturais art. 11.1 (1997)
34
Pacto Internacional sobre os Direitos Civil e Políticos 40
Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discrimi-nação Contra as Mulheres
58
Princípios Básicos e Directrizes sobre as Expulsões e o Deslocamento com ori-gem no Desenvolvimento
Relator Especial Sobre Habitação Adequada como Componente Do Direito A Um Nível de Vida ade-quada A/HRC/4/18, 5 Fevereiro 2007
71
Princípios Orientadores Sobre Segurança De Posse Para Os Cidadãos Pobrezas Em Zonas Urbanas
De Relatora Especial Sobre Habitação Adequada Enquanto Componente Do Direito A Um Nível De Vida adequada , sessão 25, O Conselho dos Direitos Humanos Nações Unidas , A/HRC/25/24, Março 2014
iv
Princípios sobre Restituição de Habitações e Propriedades a Refugiados e Pessoas Deslocadas
- Resolução 2005/21 do Sub Comissão sobre Proteção e Promoção Direitos Humanos, 2005
93
Princípio Orientadores relativos aos Deslocados Internos
Relatório pelo Representante Especial do Secretário-Geral Sr. Francis M. Deng submetido ao Comité de Direitos Humanos, (E/CN.4/1998/53/Add.2, 11 Fevereiro, 1998, Resolução 1997/39
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RECOMENDAÇÃO A TIMOR-LESTE RELATIVAMENTE A HABITAÇÃO POR PARTE DO MECANISMO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU
v INTRODUÇÃO
Este livro, dividido em três partes, reúne as disposições incluídas na Constituição de Timor-Leste relativas à habitação, na Parte I.
A Parte II inclui os instrumentos internacionais de direitos humanos relacionados com o direito a habitação adequada. Nomeadamente, Pactos e Convenções que integrem obrigações legais, bem como outros instrumentos com uma interpretação vinculativa do Mecanismo da ONU dos Direitos Humanos, elaborados por peritos independentes, juntamente com outros Pactos e Convenções Internacionais.
A Parte III enumera as recomendações elaboradas pelo Mecanismo da ONU dos Direitos Humanos face a Timor-Leste desde que este país se tornou membro da ONU, em 2002, até Dezembro de 2015. O Mecanismo da ONU fiscaliza a implementação dos direitos humanos em cada país que ratificou os Pactos e Convenções Internacionais.
Os documentos incluídos nas Partes II e III foram originalmente redigidos em língua Inglesa, os quais podem ser acedidos no sítio electrónico do Gabinete do Alto Comissário para os Direitos Humanos (The Office of the High Commissioner for Human Rights): relativamente a padrões internacionais, pode consultar:
www.ohchr.org/EN/ProfessionalInterest/Pages/InternationalLaw.aspx
Relativamente a www.ohchr.org/EN/Countries/AsiaRegion/Pages/TLIndex.aspx recomendações do Mecanismo da ONU para Timor-Leste.
As traduções para língua português da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Pacto, Convenção e Comentário Geral provêm da Compilação de Instrumentos Internacionais de Direitos Humanos da Provedoria dos Direitos Humanos e Justiça. As traduções dos demais documentos, facultadas pela ONU, não são oficiais.
Constituição da República Democrática de Timor-Leste
1
I. LEI NACIONAL
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE TIMOR-LESTE Referem-se ao Direito à Habitação
Artigo 37 (Inviolabilidade do domicílio e da correspondência)
1. O domicílio, a correspondência e quaisquer meios de comunicação privados são invioláveis, salvos os casos previstos na lei em matéria de processo criminal.
2. A entrada no domicílio de qualquer pessoa contra sua vontade só pode ter lugar por ordem escrita da autoridade judicial competente, nos casos e segundo as for-mas prescritas na lei.
3. A entrada no domicílio de qualquer pessoa durante a noite, contra a sua vontade, é expressamente proibida, salvo em caso de ameaça grave para a vida ou para a integridade física de alguém que se encontre no interior desse domicílio
Artigo 44 (Liberdade de circulação)
1. Todo o indivíduo tem o direito de se movimentar e fixar residência em qualquer ponto do território nacional.
2. A todo o cidadão é garantido o direito de livremente emigrar, bem como o direito de regressar ao país.
Artigo 54 (Direito à propriedade privada)
1. Todo o indivíduo tem direito à propriedade privada, podendo transmiti-la em vida e por morte, nos termos da lei.
2. A propriedade privada não deve ser usada em prejuízo da sua função social.
3. A requisição e a expropriação por utilidade pública só têm lugar mediante justa in-demnização, nos termos da lei.
4. Só os cidadãos nacionais têm direito à propriedade privada da terra.
Artigo 58 (Habitação)
Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.
Constituição da República Democrática de Timor-Leste
2 Terras
Artigo 141 (Terras)
São regulados por lei a propriedade, o uso e a posse útil das terras, como um dos fac-tores de produção económica.
OUTRA DISPOSIÇÃO PERTINENTE Artigo 9 (Recepção do direito internacional)
1. A ordem jurídica timorense adopta os princípios de direito internacional geral ou comum.
2. As normas constantes de convenções, tratados e acordos internacionais vigoram na ordem jurídica interna mediante aprovação, ratificação ou adesão pelos respec-tivos órgãos competentes e depois de publicadas no jornal official
3. São inválidas todas as normas das leis contrárias às disposições das convenções, tratados e acordos internacionais recebidos na ordem jurídica interna timorense.
Artigo 16 (Universalidade e igualdade)
1. Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão su-jeitos aos mesmos deveres
2. Ninguém pode ser discriminado com base na cor, raça, estado civil, sexo, origem étnica, língua, posição social ou situação económica, convicções políticas ou ideo-lógicas, religião, instrução ou condição física ou mental
Artigo 17 (Igualdade entre mulheres e homens)
A mulher e o homem têm os mesmos direitos e obrigações em todos os domínios da vida familiar, cultural, social, económica e política
Artigo 18 (Protecção da criança)
1. A criança tem direito a protecção especial por parte da família, da comunidade e do Estado, particularmente contra todas as formas de abandono, discriminação, violên-cia, opressão, abuso sexual e exploração.
2. A criança goza de todos os direitos que lhe são universalmente reconhecidos, bem como de todos aqueles que estejam consagrados em convenções internacionais reg-ularmente ratificadas ou aprovadas pelo Estado.
3. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimónio, gozam dos mesmos direitos e da mesma protecção social.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
4
Declaração Universal dos Direitos Humanos
Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) em 10 de dezembro de 1948 da Assembléia Geral das Nações Unidas
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no Mundo;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem;
Considerando que é essencial a proteção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;
Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitus fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declaram resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais;
Considerando, A Assembléia Geral,
Proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os orgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
5 Artigo 1
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma dis-tinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou territóriu independente, sob tutela, autônomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3
Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6
Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua per-sonalidade jurídica.
Artigo 7
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. To-dos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8
Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9
Declaração Universal dos Direitos Humanos
6 Artigo 10
Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publi-camente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11
1. Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas
2. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua práti-ca, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu dom-icílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais in-tromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
Artigo 13
1. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.
2. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14
1. Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.
2. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente ex-istente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15
1. Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16
1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
7
2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos fu-turos esposos.
3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado.
Artigo 17
1. Toda a pessoa, individual ou colectiva, tem direito à propriedade. 2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20
1. Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas. 2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21
1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios, públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções pú-blicas do seu país.
3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que sal-vaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22
Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legit-imamente exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organi-zação e os recursos de cada país.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
8 Artigo 23
1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições eq-uitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual. 3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe
permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e com-pletada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24
Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação ra-zoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25
1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circun-stâncias independentes da sua vontade.
2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma protecção so-cial.
Artigo 26
1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a com-preensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escholher o género de educação a dar aos filhos.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
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1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comuni-dade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
2. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28
Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma or-dem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Artigo 29
1. Indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade.
2. No exercício deste direito e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satis-fazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa socie-dade democrática.
3. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente e aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a en-volver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a algu-ma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
Adotado e aberto à assinatura, ratificação e adesão pela resolução 2200A (XXI) da As-sembléia Geral das Nações Unidas, de 16 de Dezembro de 1966
Entrada em vigor na 3 de Janeiro de 1976, em conformidade com o artigo 27. Preâmbulo
Os Estados participantes para os convenções:
Considerando que, em conformidade com os princípios enunciados na Carta das Nações
Unidas, o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no Mundo,
Reconhecendo que estes direitos decorrem da dignidade inerente à pessoa humana, Reconhecendo que, em conformidade com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ideal do ser humano livre, liberto do medo e da miséria não pode ser realizado a menos que sejam criadas condições que permitam a cada um desfrutar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e políticos, Considerando que a Carta das Nações Unidas impõe aos Estados a obrigação de promover o respeito universal e efetivo dos direitos e liberdades do homem,
Tomando em consideração o fato de que o indivíduo tem deveres para com outrem e pa-ra com a coletividade à qual pertence e é chamado a esforçar-se pela promoção e re-speito dos direitos reconhecidos no presente Pacto,
Acordam nos seguintes artigos:
PARTE I Artigo 1
1. Todos os povos tem o direito a dispor deles mesmos. Em virtude deste direito, eles determinam livremente o seu estatuto político e asseguram livremente o seu desenvolvimento econômico, social e cultural.
2. Para atingir os seus fins, todos os povos podem dispor livremente das suas riquezas e dos seus recursos naturais, sem prejuízo das obrigações que decorrem da cooperação econômica internacional, fundada sobre o princípio do interese
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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mútuo e do direito internacional. Em nenhum caso poderá um povo ser privado dos seus meios de subsistência.
3. Os Estados Partes no presente Pacto, incluindo aqueles que têm responsabilidade pela administração dos territórios não autônomos e territórios sob tutela, devem promover a realização do direito dos povos a disporem deles mesmos e respeitar esse direito, em conformidade com as disposições da Carta das Nações Unidas.
PARTE II Artigo 2
1. Cada um dos Estados Partes no presente Pacto compromete-se a agir, quer com o seu próprio esforço, quer com a assistência e cooperação internacionais, espe-cialmente nos planos econômico e técnico, no máximo dos seus recursos dis-poníveis, de modo a assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitus reconhecidos no presente Pacto por todos os meios apropriados, incluindo em particular por meio de medidas legislativas.
2. Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a garantir que os direitus nele enunciados serão exercidos sem discriminação alguma baseada em motivos de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou qualquer outra opinião, ori-gem nacional ou social, fortuna, nascimento, qualquer outra situação.
3. Os países em vias de desenvolvimento, tendo em devida conta os direitos do homem e a respectiva economia nacional, podem determinar em que medida gar-antirão os direitos econômicos no presente Pacto a não nacionais.
Artigo 3
Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a assegurar o direito igual que têm o homem e a mulher ao gozo de todos os direitos econômicos, sociais e culturais enumerados no presente Pacto.
Artigo 4
Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem que, no gozo dos direitus assegurados pelo Estado, em conformidade com o presente Pacto, o Estado só pode submeter esses direitos às limitações estabelecidas pela lei, unicamente na medida compatível com a na-tureza desses direitos e exclusivamente com o fim de promover o bem-estar geral numa sociedade democrática.
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
12 Artigo 5
1. Nenhuma disposição do presente Pacto pode ser interpretada como implicando para um Estado, uma coletividade ou um indivíduo qualquer direito de se dedicar a uma atividade ou de realizar um ato visando a destruição dos direitos ou liberdades reconhecidos no presente Pacto ou a limitações mais amplas do que as previstas no dito Pacto.
2. Não pode ser admitida nenhuma restrição ou derrogação aos direitus fundamen-tais do homem reconhecidos ou em vigor, em qualquer país, em virtude de leis, convenções, regulamentos ou costumes, sob o pretexto de que o presente Pacto não os reconhece ou reconhece-os em menor grau.
PARTE III Artigo 6
1. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito ao trabalho, que com-preende o direito que têm todas as pessoas de assegurar a possibilidade de ganhar a sua vida por meio de um trabalho livremente escolhido ou aceite, e tomarão me-didas apropriadas para salvaguardar esse direito.
2. As medidas que cada um dos Estados Partes no presente Pacto tomará com vista a assegurar o pleno exercício deste direito devem incluir programas de orientação técnica e profissional, a elaboração de políticas e de técnicas capazes de garantir um desenvolvimento econômico, social e cultural constante e um pleno emprego produtivo em condições que garantam o gozo das liberdades políticas e econômicas fundamentais de cada indivíduo.
Artigo 7
Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de todas as pessoas de gozar de condições de trabalho justas e favoráveis, que assegurem em especial:
(a) Uma remuneração que proporcione, no mínimo, a todos os trabalhadores;
(i) Um salário eqüitativo e uma remuneração igual para um trabalho de valor igual, sem nenhuma distinção, devendo, em particular, às mulheres ser garantidas condições de trabalho não inferiores àquelas de que beneficiam os homens, com
(ii) Uma existência decente para eles próprios e para as suas famílias, em conformidade com as disposições do presente Pacto
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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(c) Iguais oportunidades para todos de promoção no seu trabalho à categoria superior apropriada, sujeito a nenhuma outra consideração além da antiguidade de serviço e da aptidão individual;
(d) Repouso, lazer e limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas pagas, bem como remuneração nos dias de feriados públicos
Artigo 8
1. Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a assegurar:
(a) Direito de todas as pessoas de formarem sindicatos e de se filiarem no sindicato da sua escolha, sujeito somente ao regulamento da organização interessada, com vista a favorecer e proteger os seus interesses econômicos e sociais. O exercício deste direito não pode ser objeto de restrições, a não ser daquelas previstas na lei e que sejam necessárias numa sociedade democrática, no interesse da segurança nacional ou da ordem pública, ou para proteger os direitos e as liberdades de outrem;
(b) O direito dos sindicatos de formar federações ou confederações nacionais e o direito destas de formarem ou de se filiarem às organizações sindicais internacion-ais;
(c) O direito dos sindicatos de exercer livremente a sua atividade, sem outras lim-itações além das previstas na lei, e que sejam necessárias numa sociedade democrática, no interesse da segurança social ou da ordem pública ou para proteger os direitos e as liberdades de outrem;
(d) O direito de greve, sempre que exercido em conformidade com as leis de cada país 2. O presente artigo não impede que o exercício desses direitos seja submetido
arestrições legais pelos membros das forças armadas, da polícia ou pelas autori-dades da administração pública.
3. Nenhuma disposição do presente artigo autoriza aos Estados Partes na Convenção
de 1948 da Organização Internacional do Trabalho, relativa à liberdade sindical e à proteção do direito sindical, a adotar medidas legislativas, que prejudiquem ou a aplicar a lei de modo a prejudicar as garantias previstas na dita Convenção.
Artigo 9
Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de todas as pessoas à se-gurança social, incluindo os seguros sociais.
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
14 Artigo 10
Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem que:
1. Uma proteção e uma assistência mais amplas possíveis serão proporcionadas à família, que é o núcleo elementar natural e fundamental da sociedade, particular-mente com vista à sua formação e no tempo durante o qual ela tem a responsabi-lidade de criar e educar os filhos. O casamento deve ser livremente consentido pe-los futuros esposos.
2. Uma proteção especial deve ser dada às mães durante um período de tempo ra-zoável antes e depois do nascimento das crianças. Durante este mesmo período as mães trabalhadoras devem beneficiar de licença paga ou de licença acompanhada de serviços de segurança social adequadas
3. Medidas especiais de proteção e de assistência devem ser tomadas em benefício de todas as crianças e adolescentes, sem discriminação alguma derivada de razões de paternidade ou outras. Crianças e adolescentes devem ser protegidos contra a exploração econômica e social. O seu emprego em trabalhos de natureza a com-prometer a sua moralidade ou a sua saúde, capazes de pôr em perigo a sua vida, ou de prejudicar o seu desenvolvimento normal deve ser sujeito à sanção da lei. Os Estados devem também fixar os limites de idade abaixo dos quais o emprego de mão-de-obra infantil será interdito e sujeito às sanções da lei.
Artigo 11
1. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de todas as pessoas a um nível de vida suficiente para si e para as suas famílias, incluindo alimentação, vestuário e alojamento suficientes, bem como a um melhoramento constante das suas condições de existência. Os Estados Partes tomarão medidas apropriadas destinadas a assegurar a realização deste direito reconhecendo para este efeito a importância essencial de uma cooperação internacional livremente consentida. 2. Os Estados Partes do presente Pacto, reconhecendo o direito fundamental de
todas as pessoas de estarem ao abrigo da fome, adotarão individualmente e por meio da cooperação internacional as medidas necessárias, incluindo programas concretos:
(a) Para melhorar os métodos de produção, de conservação e de distribuição dos produtos alimentares pela plena utilização dos conhecimentos técnicos e científi-cos, pela difusão de princípios de educação nutricional e pelo desenvolvimento ou a reforma dos regimes agrários, de maneira a assegurar da melhor forma a valor-ização e a utilvalor-ização dos recursos naturais;
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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(b) Para assegurar uma repartição eqüitativa dos recursos alimentares mundiais em relação às necessidades, tendo em conta os problemas que se põem tanto aos países importadores como aos países exportadores de produtos alimentares.
Artigo 12
1. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de todas as pessoas de
gozar do melhor estado de saúde física e mental possível de atingir.
2. As medidas que os Estados Partes no presente Pacto tomarem com vista a asse-gurar o pleno exercício deste direito deverão compreender as medidas necessárias para assegurar:
(a) A diminuição da mortinatalidade e da mortalidade infantil, bem como o são desenvolvimento da criança;
(b) O melhoramento de todos os aspectos de higiene do meio ambiente e da hy-giene industrial;
(c) A profilaxia, tratamento e controlo das doenças epidêmicas, endêmicas, profis-sionais e outras;
(d) A criação de condições próprias a assegurar a todas as pessoas serviços médi-cos e ajuda médica em caso de doença.
Artigo 13
1. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda a pessoa à
ed-ucação. Concordam que a educação deve visar ao pleno desenvolvimento da per-sonalidade humana e do sentido da sua dignidade e reforçar o respeito pelos direitos do homem e das liberdades fundamentais. Concordam também que a ed-ucação deve habilitar toda a pessoa a desempenhar um papel útil numa sociedade livre, promover compreensão, tolerância e amizade entre todas as nações e grupos, raciais, étnicos e religiosos, e favorecer as atividades das Nações Unidas para a conservação da paz
2. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem que, a fim de assegurar o pleno
exercício deste direito:
(a) Ensino primário deve ser obrigatório e acessível gratuitamente a todos;
(b) O ensino secundário, nas suas diferentes formas, incluindo o ensino secundário técnico e profissional, deve ser generalizado e tornado acessível a todos por todos
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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os meios apropriados e nomeadamente pela instauração progressiva da educação gratuita;
(c) O ensino superior deve ser tornado acessível a todos em plena igualdade, em função das capacidades de cada um, por todos os meios apropriados e nomead-amente pela instauração progressiva da educação gratuita;
(d) A educação de base deve ser encorajada ou intensificada, em toda a medida do possível, para as pessoas que não receberam instrução primária ou que não a receberam até ao seu termo;
(e) É necessário prosseguir ativamente o desenvolvimento de uma rede escolar em todos os escalões, estabelecer um sistema adequada de bolsas e melhorar de mo-do contínuo as condições materiais mo-do pessoal mo-docente.
3. Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a respeitar a liberdade dos pais ou, quando tal for o caso, dos tutores legais de escolher para seus filhos (ou pupilos) estabelecimentos de ensino diferentes dos poderes públicos, mas con-formes às normas mínimas que podem ser prescritas ou aprovadas pelo Estado em matéria de educação, e de assegurar a educação religiosa e moral de seus filhos (ou pupilos) em conformidade com as suas próprias convicções.
4. Nenhuma disposição do presente artigo deve ser interpretada como limitando a liberdade dos indivíduos e das pessoas morais de criar e dirigir estabelecimentos de ensino, sempre sob reserva de que os princípios enunciados no parágrafo 1 do presente artigo sejam observados e de que a educação proporcionada nesses es-tabelecimentos seja conforme às normas mínimas prescritas pelo Estado.
Artigo 14
Todo o Estado Parte no presente Pacto que, no momento em que se torna parte, não pôde assegurar ainda no território metropolitano ou nos territórios sob a sua jurisdição ensino primário obrigatório e gratuito compromete-se a elaborar e adotar, num prazo de dois anos, um plano detalhado das medidas necessárias para realizar progressivamente, num número razoável de anos, fixados por esse plano, a aplicação do princípio do ensino primário obrigatório e gratuito para todos.
Artigo 15
1. Os Estados parte no presente Pacto reconhecem a todos direito: (a) De participar na vida cultural;
(b) De beneficiar do progresso científico e das suas aplicações;
(c) De beneficiar da protecção dos interesses morais e materiais que decorrem de toda a produção científica, literária ou artística de que cada um é autor.
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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2. As medidas que os Estados Partes no presente Pacto tomarem com vista a asse-gurarem o pleno exercício deste direito deverão compreender as que são necessárias para assegurar a manutenção, o desenvolvimento e a difusão da ciência e da cultura. 3. Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a respeitar a liberdade
indis-pensável à investigação científica e às atividades criadoras.
4. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem os benefícios que devem resultar do encorajamento e do desenvolvimento dos contactos internacionais e da cooper-ação no domínio da ciência e da cultura.
PARTE IV Artigo 16
1. Os Estados Partes no presente Pacto comprometem-se a apresentar, em conformi-dade com as disposições da presente parte do Pacto, relatórios sobre as medidas que tiverem adotado e sobre os progressos realizados com vista a assegurar o re-speito dos direitos reconhecidos no Pacto.
2. (a) Todos os relatórios serão dirigidos ao Secretário-Geral das Nações Unidas, que transmitirá cópias deles ao Conselho Econômico e Social, para apreciação, em con-formidade com as disposições do presente Pacto;
(b) Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas transmitirá igualmente às agências especializadas cópias dos relatórios, ou das partes pertinentes dos relató-rios, enviados pelos Estados Partes no presente Pacto que são igualmente membros das referidas agências especializadas, na medida em que esses relatórios, ou partes de relatórios, tenham relação a questões relevantes da competência das menciona-das agências nos termos dos seus respectivos instrumentos constitucionais.
Artigo 17
1. Os Estados Partes no presente Pacto apresentarão os seus relatórios por etapas, se-gundo um programa a ser estabelecido pelo Conselho Econômico e Social, no prazo de um ano a contar da data da entrada em vigor do presente Pacto, depois de ter consultado os Estados Partes e as agências especializadas interessadas.
2. Os relatórios podem indicar os fatores e as dificuldades que impedem estes Estados de desempenhar plenamente as obrigações previstas no presente Pacto.
3. No caso em que informações relevantes tenham já sido transmitidas à Organização das Nações Unidas ou a uma agência especializada por um Estado Parte no Pacto, não será necessário reproduzir as ditas informações e bastará uma referência precisa a essas informações.
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
18 Artigo 18
Em virtude das responsabilidades que lhe são conferidas pela Carta das Nações Unidas no domínio dos direitos do homem e das liberdades fundamentais, o Conselho Econômi-co e Social poderá Econômi-concluir arranjos Econômi-com as agências especializadas, Econômi-com vista à apresentação por estas de relatórios relativos aos progressos realizados na observância das disposições do presente Pacto que entram no quadro das suas atividades. Estes relatórios poderão compreender dados sobre as decisões e recomendações adotadas pelos órgãos competentes das agências especializadas sobre a referida questão da ob-servância.
Artigo 19
O Conselho Econômico e Social pode enviar à Comissão dos Direitos do Homem para fins de estudo e de recomendação de ordem geral ou para informação, se for caso disso, os relatórios respeitantes aos direitos do homem transmitidos pelos Estados, em conformi-dade com os artigos 16. ° e 17.° e os relatórios respeitantes aos direitos do homem co-municados pelas agências especializadas em conformidade com o artigo 18.º
Artigo 20
Os Estados Partes no presente Pacto e as agências especializadas interessadas podem apresentar ao Conselho Econômico e Social observações sobre todas as recomendações de ordem geral feitas em virtude do artigo 19. º, ou sobre todas as menções de uma recomendação de ordem geral figurando num relatório da Comissão dos Direitos do Homem ou em todos os documentos mencionados no dito relatório.
Artigo 21
O Conselho Econômico e Social pode apresentar de tempos a tempos à Assembléia Geral relatórios contendo recomendações de caráter geral e um resumo das informações recebidas dos Estados Partes no presente Pacto e das agências especializadas sobre as medidas tomadas e os progressos realizados com vista a assegurar o respeito geral dos direitos reconhecidos no presente Pacto.
Artigo 22
O Conselho Econômico e Social pode levar à atenção dos outros órgãos da Organização das Nações Unidas, dos seus órgãos subsidiários e das agências especializadas inter-essadas que se dedicam a fornecer assistência técnica quaisquer questões suscitadas pe-los relatórios mencionados nesta parte do presente Pacto e que possa ajudar estes or-ganismos a pronunciarem-se, cada um na sua própria esfera de competência sobre a oportunidade de medidas internacionais capazes de contribuir para a execução efetiva e progressiva do presente Pacto.
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19 Artigo 23
Os Estados Partes no presente Pacto concordam que as medidas de ordem internacional destinadas a assegurar a realização dos direitos reconhecidos no dito Pacto incluem métodos, tais como a conclusão de convenções, a adoção de recomendações, a prestação de assistência técnica e a organização, em ligação com os Governos interessa-dos, de reuniões regionais e de reuniões técnicas, para fins de consulta e de estudos.
Artigo 24
Nenhuma disposição do presente Pacto deve ser interpretada como atentando contra as disposições da Carta das Nações Unidas e dos estatutos das agências especializadas que definem as respectivas responsabilidades dos diversos órgãos da Organização das Nações Unidas e das agências especializadas no que respeita às questões tratadas no presente Pacto.
Artigo 25
Nenhuma disposição do presente Pacto será interpretada como atentando contra o direito inerente a todos os povos de gozar e a usufruir plena e livremente das suas riquezas e recursos naturais.
PARTE V Artigo 26
1. presente Pacto está aberto à assinatura de todos os Estados Membros da Organi-zação das Nações Unidas ou membros de qualquer das suas agências especializa-das, de todos os Estados Partes no Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça, bem como de todos os outros Estados convidados pela Assembléia Geral das Nações Unidas a tornarem-se partes no presente Pacto.
2. O presente Pacto está sujeito a ratificação. Os instrumentos de ratificação serão depositados junto do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas.
3. O presente Pacto será aberto à adesão de todos os Estados referidos no parágrafo 1 do presente artigo.
4. A adesão far-se-á pelo depósito de um instrumento de adesão junto do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas.
5. O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas informará todos os Estados que assinaram o presente Pacto ou que a ele aderirem acerca do depósito de cada instrumento de ratificação ou de adesão.
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20 Artigo 27
1. O presente Pacto entrará em vigor três meses após a data do depósito junto do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas do trigésimo Quinto instru-mento de ratificação ou de adesão.
2. Para cada um dos Estados que ratificarem o presente Pacto ou a ele aderirem de-pois do depósito do trigésimo quinto instrumento de ratificação ou de adesão, o dito Pacto entrará em vigor três meses depois da data do depósito por esse Es-tado do seu instrumento de ratificação ou de adesão.
Artigo 28
As disposições do presente Pacto aplicam-se, sem quaisquer limitações ou exceções, a todas as unidades constitutivas dos Estados Federais.
Artigo 29
1. Todo o Estado Parte no presente Pacto pode propor uma emenda e depositar o respectivo texto junto do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas. O Secretário-Geral transmitirá então todos os projetos de emenda aos Estados Partes no presente Pacto, pedindo-lhes que indiquem se desejam que se convoque uma conferência de Estados Partes para examinar essas projetos e submetê-los à votação. Se um terço, pelo menos, dos Estados se declararem a favor desta con-vocação, o Secretário-Geral convocará a conferência sob os auspícios da Organi-zação das Nações Unidas. Toda a emenda adotada pela maioria dos Estados presentes e votantes na conferência será submetida para aprovação à Assembléia Geral das Nações Unidas.
2. As emendas entrarão em vigor quando aprovadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas e aceites, em conformidade com as respectivas regras constitu-cionais, por uma maioria de dois terços dos Estados Partes no presente Pacto. 3. Quando as emendas entram em vigor, elas vinculam os Estados Partes que as
aceitaram, ficando os outros Estados Partes ligados pelas disposições do presente Pacto e por todas as emendas anteriores que tiverem aceite.
Artigo 30
Independentemente das notificações previstas no parágrafo 5 do artigo 26, o Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas informará todos os Estados visados no pa-rágrafo 1 do dito artigu:
a) Acerca das assinaturas apostas ao presente Pacto e acerca dos instrumentos de ratificação e de adesão depositados em conformidade com o artigo 26;
Pacto Internacional sobre os Direitos Econômico, Sociais e Culturais
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b) Acerca da data em que o presente Pacto entrar em vigor em conformidade com o artigo 27 e acerca da data em que entrarão em vigor as emendas previstas no arti-go 29.
Artigo 31
1. O presente Pacto, cujos textos em inglês, chinês, espanhol, francês e russo fazem igual fé, será depositado nos arquivos das Nações Unidas.
2. O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas transmitirá cópias certifica-das do presente Pacto a todos os Estados visados no artigo 26.
Comentário Geral no. 3 A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes
22
A NATUREZA DAS OBRIGAÇÕES DOS ESTADOS- PARTES
(art. 2.1 Pacto os Direitos, Econômico, Sociais e Culturais)
Comentário Geral no. 3 do Comitê dos Direitos Econômico, Sociais e Culturais (1990)
1. O artigo 2 é de particular importância para um completo entendimento do Pacto e deve ser visto como tendo uma relação dinâmica com todas as outras provisões do Pacto. Descreve a natureza das obrigações legais de um modo geral assumidas pe-los Estados- partes ao Pacto. Essas obrigações incluem tanto o que pode ser designado (seguindo o trabalho da Comissão de Direito Internacional) como obrigações de conduta quanto obrigações de resultado. Enquanto grande ênfase tem algumas vezes sido colocada na diferença entre as formulações usadas nesta provisão e aquela contida no equivalente artigo 2 do Pacto dos Direitos Civis e Polí-ticos, não é sempre reconhecido que há também significantes similaridades. Em particular, enquanto o Pacto prevê a realização progressiva e admite restrições devido aos limites de recursos disponíveis, também impõe várias obrigações que são de efeito imediato. Dessas, duas são de particular importância no entendimen-to da natureza precisa das obrigações dos Estados- partes. Um desses, que é trat-ado num Comentário Geral específico, e que será considertrat-ado pelo Comitê em sua sexta sessão, é a tarefa de “comprometer-se a garantir” que direitos relevantes “serão exercidos sem discriminação…”
2. O outro é o compromisso no artigo 2(1) “de adotar medidas” (take steps), o que, por si só, não é qualificado ou limitado por outras considerações. O completo sig-nificado da frase pode também ser avaliado observando-se algumas das diferentes versões lingüísticas. Em inglês, o compromisso é “to take steps”, em francês é (“s’engage à agir”) e em espanhol é “adoptar medidas” (“a adotar medidas”.). Assim, enquanto a completa realização de direitos relevantes pode ser alcançada progressivamente, providências em direção ao objetivo devem ser tomadas den-tro de um tempo razoavelmente curto depois da entrada em vigor do Pacto para os Estados envolvidos. Tais providências devem ser deliberadas, concretas e dirigidas às metas tão claramente quanto possível em direção à realização da obrigação reconhecida no Pacto.
3. Os meios que devem ser usados para satisfazer a obrigação de tomar providências são estabelecidos no artigo 2 (1) a saber: “todos os meios apropriados incluindo particularmente a adoção de medidas legislativas.” O Comitê reconhece que em muitos momentos a legislação é altamente desejável e em alguns casos pode ser até indispensável. Por exemplo, pode ser difícil combater efetivamente a discrimi-nação na ausência de um fundamento legislativo para as medidas necessárias. Em campos como a saúde, a proteção de crianças e mães e educação, assim como em
Comentário Geral no. 3 A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes
23
relação às matérias tratadas dos artigos 6 a 9, a legislação pode também ser um elemento indispensável para muitos objetivos.
4. O Comitê nota que os Estados- partes têm, geralmente, sido conscientes em de-talhar pelo menos algumas das medidas legislativas que têm tomado sob esse as-pecto. O Comitê deseja enfatizar, porém, que a adoção de medidas legislativas, como especificamente previstas pelo Pacto, não esgota as obrigações dos Esta-dos- partes. Preferivelmente, a expressão “por todos os meios apropriados” deve ser tomada em seu sentido próprio e integral. Enquanto cada Estado- parte deve decidir por si próprio que meios são os mais apropriados de acordo com as circun-stâncias com relação a cada um dos direitos, a “adequação” dos meios escolhidos não será sempre auto - evidente. É portanto desejável que os relatórios dos Esta-dos- partes devam indicar não apenas as medidas que têm sido tomadas, mas também a base em que são consideradas “as mais apropriadas” de acordo com as circunstâncias. Porém, a determinação definitiva quanto a se todas as medidas apropriadas têm sido tomadas, permanece a cargo do Comitê.
5. Entre as medidas que devem ser consideradas apropriadas, além da legislação, é a previsão de remédios judiciais, em relação a direitos que podem, em concordância com o sistema legal nacional, serem considerados justiciáveis. O Comitê nota, por exemplo, que a fruição dos direitos reconhecidos, sem discriminação, será muitas vezes apropriadamente promovida, em parte, através da previsão de remédios ju-diciais ou de outra natureza igualmente efetiva. De fato, esses Estados- partes que são também partes no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos já são obrigados (em virtude dos artigos 2 (parágrafos 1 e 3), 3 e 26) do Pacto a assegurar que qualquer pessoa cujos direitos ou liberdades (incluindo o direito à igualdade e à não - discriminação) reconhecidos no Pacto tenham sido violados, “devam ter um remédio efetivo” (art. 2 (3) (a)). Além disso, há um número de outras provisões no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, incluindo os artigos 3, 7 (a) (i), 8, 10, (3), 13 (2) (a), (3) e (4) e 15 (3) que pareceriam capazes de aplicação imediata por órgãos judiciais ou de outra natureza em muitos sistemas legais nacionais. Qualquer sugestão de que as provisões indicadas são inerente-mente não auto- aplicáveis pareceriam serem difíceis de sustentar.
6. Onde políticas públicas específicas visando diretamente à realização dos direitos reconhecidos no Pacto têm sido adotados sob forma de legislação, o Comitê dese-jaria ser informado, entre outros, quanto a se tais leis criaram qualquer direito de ação em nome de indivíduos ou grupos que sintam que seus direitos não estão sendo completamente realizados. Em casos onde o reconhecimento constitucional tem sido concedido a específicos direitos econômicos, sociais e culturais ou onde as provisões do Pacto têm sido incorporadas diretamente ao Direito Nacional, o Comitê desejaria receber informações quanto ao alcance do caráter “justiciável” desses direitos (i.e. capazes de serem invocados perante as Cortes). O Comitê
Comentário Geral no. 3 A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes
24
também desejaria receber informação específica quanto a exemplos em que pro-visões constitucionais existentes relativas a direitos econômicos, sociais e culturais tenham sido enfraquecidas ou significativamente mudadas.
7. Outras medidas que podem também ser consideradas apropriadas para os propósitos do artigo 2(1) incluem medidas administrativas, financeiras, educacion-ais e socieducacion-ais, embora a elas não se limitem.
8. O Comitê nota que o compromisso “de tomar medidas... por todos os meios apro-priados incluindo particularmente a adoção de medidas legislativas” nem requer nem impossibilita qualquer forma particular de governo ou sistema econômico sendo usado como veículo para as medidas em questão, na condição de que apenas seja democrático e de que todos os direitos humanos sejam com isso re-speitados. Assim, em termos de sistemas políticos e econômicos, o Pacto é neutro e seus princípios não podem ser precisamente descritos como sendo afirmados exclusivamente sobre a necessidade ou a conveniência de sistema capitalista ou socialista ou misto, centralmente planejado ou liberal, ou sobre qualquer outra abordagem particular. Sob esse aspecto, o Comitê reafirma que os direitos reconhecidos no Pacto são suscetíveis de realização dentro do contexto de uma ampla variedade de sistemas econômicos e políticos, com a única condição de que a interdependência e a indivisibilidade dos dois grupos de direitos humanos, como afirmado entre outros no preâmbulo do Pacto, sejam reconhecidas e refletidas no sistema em questão. O Comitê também nota a relevância sob esse aspecto de out-ros direitos humanos e em particular o direito ao desenvolvimento.
9. A principal obrigação de resultado refletida no artigo 2 (1) é tomar medidas “com vistas a alcançar progressivamente a plena realização dos direitos reconhecidos” no Pacto. O termo “progressiva realização” é muitas vezes usado para descrever a intenção dessa expressão. O conceito de progressiva realização constitui um reconhecimento do fato de que a plena realização de direitos econômicos, sociais e culturais não é possível de ser alcançada num curto espaço de tempo. Nesse sen-tido, a obrigação difere significativamente daquela contida no artigo 2º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos que inclui uma obrigação imediata de re-speitar e assegurar todos os direitos relevantes. Contudo, o fato de a realização ao longo do tempo ou, em outras palavras, progressivamente, ser prevista no Pacto, não deve ser mal interpretada como excluindo a obrigação de todo um conteúdo que lhe dê significado. De um lado, a frase demonstra a necessidade de flexi-bilidade, refletindo as situações concretas do mundo real e as dificuldades que en-volve para cada país, no sentido de assegurar plena realização dos direitos econômicos, sociais e culturais. Por outro lado, a expressão deve ser lida à luz do objetivo global, a verdadeira razão de ser, do Pacto que é estabelecer obrigações claras para os Estados- partes no que diz respeito à plena realização dos direitos em questão. Assim, impõe uma obrigação de agir tão rápida e efetivamente
quan-Comentário Geral no. 3 A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes
25
to possível em direção àquela meta. Além disso, qualquer medida que signifique deliberado retrocesso haveria de exigir a mais cuidadosa apreciação e necessitaria ser inteiramente justificada com referência à totalidade dos direitos previstos no Pacto e no contexto do uso integral do máximo de recursos disponíveis.
10. Com base na vasta experiência obtida pelo Comitê, assim como pelo organismo que o precedeu, ao longo de um período de mais de uma década de exame dos relatórios dos Estados- partes, o Comitê é da opinião de que um núcleo mínimo de obrigações para assegurar a satisfação de níveis mínimos essenciais de cada um dos direitos é incumbência de cada Estado- parte. Assim, por exemplo, um Estado- parte em que qualquer número significativo de indivíduos é privado de gêneros al-imentícios essenciais, de cuidados essenciais de saúde, de abrigo e habitação bási-cos ou das mais básicas formas de educação está, à primeira vista, falhando para desincumbir-se de suas obrigações em relação ao Pacto. Se o Pacto fosse inter-pretado no sentido de não estabelecer tal núcleo mínimo de obrigações, seria lar-gamente privado de sua razão de ser. Além disso, deve ser observado que em relação a qualquer avaliação no sentido de verificar se o Estado se desincumbiu desse núcleo mínimo de obrigações, deve-se também levar em conta as restrições de recursos disponíveis no país considerado. O artigo 2 (1) obriga cada Estado- parte a tomar as medidas necessárias “até o máximo de seus recursos dis-poníveis”. Para que um Estado- parte atribua seu fracasso em cumprir seu núcleo mínimo de obrigações à falta de recursos disponíveis, ele deve demonstrar que todo esforço foi feito para usar todos os recursos que estão à disposição num em-penho para satisfazer, como matéria de prioridade, essas obrigações mínimas. 11. O Comitê deseja enfatizar, porém, que até onde os recursos disponíveis são
demonstravelmente in adequadas, a obrigação do Estado- parte permanece no sentido de se esforçar para assegurar o mais amplo gozo possível de direitos rele-vantes de acordo com as circunstâncias predominantes. Além disso, as obrigações para monitorar a extensão da realização, ou mais especialmente da não realização, de direitos econômicos, sociais e culturais e para planejar estratégias e programas para promoção desses direitos, não são de modo algum eliminadas como re-sultado das restrições de recursos. O Comitê já tratou dessas matérias no Comen-tário Geral 1 (1989).
12. De igual modo, o Comitê destaca o fato de que até em tempos de severas re-strições de recursos disponíveis, se causadas por um processo de ajustamento, de recessão econômica ou por outros fatores, os membros vulneráveis da sociedade podem e de fato devem ser protegidos pela adoção de programas relativamente de baixo custo para o alcance das metas almejadas. Em sustentação dessa abordagem, o Comitê nota a análise preparada pela UNICEF entitulada “Ajuste com uma face humana: protegendo os vulneráveis e promovendo o
crescimen-Comentário Geral no. 3 A Natureza Das Obrigações Dos Estados Partes
26
to”1, a análise pelo PNUD em seu Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 1990 2 e a análise pelo Banco Mundial no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 1990 3/1.
13. Um elemento final do artigo 2 (1), para o qual atenção deve ser dirigida é que o compromisso assumido por todos os Estados- partes é “adotar medidas, tanto por esforço próprio como pela assistência e cooperação internacionais, principalmente nos planos econômico e técnico...”.O Comitê nota que a expressão “até o máximo de recursos disponíveis” foi entendida pelos redatores do Pacto como referindo-se tanto aos recursos existentes dentro de um Estado quanto àqueles disponíveis na comunidade internacional através da cooperação e assistência internacionais. Além disso, o papel essencial de tal cooperação em facilitar a completa realização dos direitos relevantes é ainda mais realçado pelas disposições específicas conti-das nos artigos 11, 15, 22 e 23. Com respeito ao artigo 22, o Comitê já chamou a atenção, no Comentário Geral 2(1990), para algumas das oportunidades e re-sponsabilidades que existem em relação à cooperação internacional. O artigo 23 também especificamente identifica “o fornecimento de assistência técnica”, assim como outras atividades, como sendo “medidas de ordem internacional, para a conquista efetiva dos direitos reconhecidos...”.
14. O Comitê deseja enfatizar que em concordância com os artigos 55 e 56 da Carta das Nações Unidas, com princípios estabelecidos de Direito Internacional e com as provisões do próprio Pacto, a cooperação internacional para o desenvolvimento e assim para a realização dos direitos econômicos, sociais e culturais é uma obrigação de todos os Estados- partes. Está particularmente a cargo daqueles países que estão em situação de ajudar os outros sob esse aspecto. O Comitê nota em particular a importância da Declaração do Direito ao Desenvolvimento adotada pela Assembléia Geral em sua Resolução 41/128 de 4 de Dezembro de 1986 e a ne-cessidade dos Estados- partes de levar em conta todos os princípios aí reconheci-dos. O Comitê enfatiza que, na ausência de um programa efetivo de assistência e cooperação internacionais por parte de todos aqueles Estados em condição de empreendê-lo, a plena realização dos direitos econômicos sociais e culturais irá permanecer uma aspiração incumprida em muitos países. A esse respeito, o Comi-tê também recorda os termos de seu Comentário Geral 2 (1990).
Comentário Geral no. 4 Direito A Habitação adequada
27
DIREITO A HABITAÇÃO ADEQUADA (ART.11 (1) Pacto dos Direitos Econômico, Sociais e Culturais)
Comentário Geral No. 4 de Comitê dos Direitos Econômico, Sociais e Culturais (1991)
1. Nos termos do artigo 11 número 1 do Pacto, os Estados Partes “reconhecem o direito de todas pessoas a um nível de vida suficiente para si e para as suas famílias, incluindo alimentação, vestuário e alojamento suficientes, bem como a um melhoramento constante das suas condições de existência”. O direito humano a um alojamento adequada, decorre assim, do direito a um nível de vida suficiente e reveste-se de importância primordial para o gozo dos direitos econômico, sociais e culturais.
2. O Comité reuniu muita informação relativa a este direito. Desde 1979, o Comité e os órgãos que o precederam apreciaram 75 relatórios sobre o direito a um alojamento adequada. O Comité consagrou a esta questão um dia de debate geral por ocasião da 3.ª e 4.ª sessão. Para além disso, tomou cuidadosamente nota das informações obtidas no âmbito do Ano Internacional do Abrigo para as pessoas sem lar (1987), nomeadamente através da Estratégia Global para o Abrigo para o Ano 2000, adoptada pela Assembleia Geral. De igual modo, apreciou relatórios e outros documentos pertinentes da Comissão dos Direitos Humanos e da Subcomissão para a Prevenção da Discriminação e a Protecção das Minorias.
3. Apesar da extrema diversidade de instrumentos internacionais que abordam as diferentes dimensões do direito a um alojamento adequada, o artigo 11 número 1 do Pacto constitui a disposição mais completa e, talvez, a mais importante neste domínio.
4. A comunidade internacional tem reafirmado, com frequência, a importância de respeitar plenamente o direito a um alojamento adequada; no entanto, o fosso entre as normas enunciadas no artigo 11 número 1 do Pacto e a situação existente em muitas regiões do mundo continua a ser preocupante. Os problemas das pessoas sem-abrigo e mal alojadas afiguram-se particularmente graves em certos países em desenvolvimento, que enfrentam grandes dificuldades e constrangimentos, nomeadamente de natureza económica. Mas o Comité considera que também se verificam problemas significativos, neste domínio, em sociedades economicamente mais desenvolvidas. As estatísticas da Organização das Nações Unidas indicam que existem mais de 100 milhões de pessoas no mundo sem-abrigo e mais de um bilião que não dispõem de um alojamento adequada. Nada permite afirmar que estes números estejam a diminuir. O que parece evidente é que nenhum Estado Parte está livre de problemas de vária ordem, no que se refere ao direito ao alojamento.