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Estudo de caso: processo judicial eletrônico e a duração razoável do processo no âmbito da justiça do trabalho na grande Florianópolis

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Academic year: 2021

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FERNANDO DE MEDEIROS MARCON

ESTUDO DE CASO: PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO E A DURAÇÃO RAZOÁVEL DO PROCESSO NO ÂMBITO DA JUSTIÇA DO TRABALHO NA

GRANDE FLORIANÓPOLIS

Palhoça 2017

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FERNANDO DE MEDEIROS MARCON

ESTUDO DE CASO: PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO E A DURAÇÃO RAZOÁVEL DO PROCESSO NO ÂMBITO DA JUSTIÇA DO TRABALHO NA

GRANDE FLORIANÓPOLIS

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Leonardo Martins Fornari, Especialista

Palhoça 2017

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Dedico este trabalho ao corpo docente da Universidade do Sul de Santa Catarina que me acompanhou e orientou pelo árduo caminho da graduação, com sabedoria e desprendimento, pois os verdadeiros mestres são aqueles que possuem o dom de conciliar sua obrigação com a paixão pelo compartilhar saber.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço minha esposa por me apoiar durante todo esse período despendido para conclusão do curso, com graça e paciência. Agradeço novamente meus caros professores que souberam lidar com minha ânsia de instigar cada vez mais suas aulas com minhas opiniões e questionamentos. Agradeço meus colegas acadêmicos, pois seus questionamentos engrandeceram os debates e as aulas promovendo constantes trocas de conhecimento. Agradeço, finalmente, meus pais, pois com seu inestimável esforço e dedicação me proveram da educação necessária para que eu pudesse trilhar meu caminho em busca de meus sonhos.

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RESUMO

O presente estudo tem por objetivo identificar se o PJe, como sistema de tramitação processual, trouxe maiores benefícios no contexto da celeridade processual, abordando o método dedutivo de pesquisa, de natureza qualitativa e quantitativa, por meio dos procedimentos monográfico, comparativo e estatístico. Valendo-se das técnicas de pesquisa bibliográfica, documental e de estudo de caso, foram utilizados consultas à legislação, doutrinas e dados disponíveis nos relatórios fornecidos pelo CNJ, CSJT e atas correicionais do TRT12, relativamente às Varas do Trabalho de Florianópolis, São José e Palhoça, no período de 2009 até 2016. A análise do problema se deu sob três aspectos: da produtividade e eficiência das Varas do Trabalho paradigma, de acordo com a comparação entre os sistemas processuais utilizados (físico, Provi e PJe); do tempo despendido para prática dos atos processuais; e, dos efeitos do PJe na gestão estratégica do CNJ, e com estes, na celeridade do processo. Ao resultado do estudo constatou-se que o PJe promoveu o aumento da produtividade e eficiência nas Varas do Trabalho pesquisadas, a diminuição do tempo neutro do processo, tornando os atos nele praticados mais céleres que aqueles realizados nos sistemas anteriores, e, que o uso do Pje possui reflexos na produção de dados estatísticos equiparáveis e fidedignos, auxiliando na tomada de decisão estratégica do CNJ no âmbito do Judiciário brasileiro.

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LISTA DE SIGLAS

CRFB/88 – Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 PJe - Processo Judicial Eletrônico

PJe-JT - Processo Judicial Eletrônico da Justiça do Trabalho

PROVI - Processo legado Virtual utilizado pelo TRT da 12ª Região CNJ - Conselho Nacional de Justiça

CJF - Conselho da Justiça Federal

CSJT - Conselho Superior da Justiça do Trabalho CNMP - Conselho Nacional do Ministério Público STF - Supremo Tribunal Federal

TRT - Tribunal Regional do Trabalho

TRT12 - Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região - Santa Catarina SDH/PR - Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República USP - Universidade de São Paulo

MNI - Modelo Nacional de Interoperabilidade OAB - Ordem dos Advogados do Brasil

AASP - Associação dos Advogados de São Paulo MS - Mandado de Segurança

CLT - Consolidação das Leis do Trabalho CPC – Código de Processo Civil

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Fórmula para cálculo da eficiência das Varas do Trabalho da Grande Florianópolis ... 54

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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1- Variáveis analisadas de acordo com o sistema processual utilizado ... 57 Gráfico 2 - Aumento da produtividade e eficiência de acordo com o sistema processual utilizado ... 58 Gráfico 3 - Prazo médio nacional do ajuizamento da ação até a prolação de sentença no âmbito do 1º Grau ... 60

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Processos Recebidos nas Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016 ... 48 Tabela 2 – Força de Trabalho nas Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016 ... 49 Tabela 3 – Carga de Trabalho por servidor nas Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016... 50 Tabela 4 – Processos Solucionados nas Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016... 51 Tabela 5 – Produtividade do servidor nas Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016... 52 Tabela 6 – Tempo Médio (dias) entre a autuação e a sentença nas Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016 ... 53 Tabela 7 – Índice de Eficiência das Varas do Trabalho da Grande Florianópolis/SC no período de 2009 até 2016 ... 55

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 13

2 A INFORMATIZAÇÃO DO PROCESSO NA JUSTIÇA BRASILEIRA ... 15

2.1 O PROCESSO: EVOLUÇÃO E CONCEITO ... 16

2.2 A EMENDA CONSTITUCIONAL 45/2004 E A INFORMATIZAÇÃO DA JUSTIÇA TRABALHISTA BRASILEIRA ... 20

2.3 A LEGISLAÇÃO COMPLEMENTAR QUE ESTRUTURA A INFORMATIZAÇÃO DO JUDICIÁRIO ... 21

2.4 O PROCESSO ELETRÔNICO NA JUSTIÇA BRASILEIRA ... 24

2.4.1 O processo eletrônico e a nova forma de dizer o direito ... 25

2.4.2 Os princípios norteadores do processo eletrônico ... 27

2.4.2.1 Princípio da Imaterialidade ou Desmaterialização ... 28

2.4.2.2 Princípio da Intermidialidade ou Oralidade ... 28

2.4.2.3 Princípio da Desterritorialização ... 29

2.4.2.4 Princípio da Conexão ou Ampla Acessibilidade ... 29

2.4.2.5 Princípio da Evolutibilidade ... 30

3 O PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO - PJE ... 31

3.1 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DO PJE ... 32

3.2 CARACTERÍSTICAS DO PJE ... 34

3.3 ALTERAÇÕES TRAZIDAS PELO PJE ... 35

3.4 CRÍTICAS AO PJE ... 37

3.4.1 Forma de Implementação ... 37

3.4.2 O Acesso à Justiça ... 39

3.4.3 Ampla defesa ... 40

3.4.4 A Efetividade Judiciária ... 41

4 ANÁLISE DO PJE E SEUS EFEITOS NA CELERIDADE PROCESSUAL NO TRT DA 12ª REGIÃO: ESTUDO DE CASO NAS VARAS DO TRABALHO DA GRANDE FLORIANÓPOLIS ... 43

4.1 IMPLANTAÇÃO DO PJE NO ESTADO DE SANTA CATARINA E NA GRANDE FLORIANÓPOLIS ... 43

4.1.1 PJe no âmbito do Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina - TRT12 ... 44

4.1.2 Sistemas processuais em comparação ... 45

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4.3 LEVANTAMENTO, PROCESSAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS ... 47

4.4 INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS E DEMAIS ASPECTOS ... 56

4.4.1 O PJe e o aumento da produtividade e eficiência das Varas do Trabalho da Grande Florianópolis ... 56

4.4.2 O PJe e o tempo despendido para prática dos atos processuais ... 58

4.4.3 O PJe e a gestão estratégica do CNJ ... 61

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1 INTRODUÇÃO

O Processo Judicial Eletrônico (PJe) é um sistema de tramitação de processos judiciais, desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que assegura uma solução única e gratuita para todos os segmentos do Poder Judiciário Brasileiro, visando a racionalização de gastos na área, o aumento da segurança das informações processuais e a interoperabilidade entre os diversos sistemas existentes nos órgãos jurídicos brasileiros.

Em constante desenvolvimento, o novo sistema utiliza-se da tecnologia para atender as demandas das justiças de acordo com suas necessidades e peculiaridades, trazendo inovações e soluções que visam amenizar o impacto da crescente demanda de processos que pressionam o judiciário brasileiro.

Atualmente utilizam-se do sistema uma grande parcela dos órgãos que integram o Poder Judiciário brasileiro. São eles: os Tribunais de Justiça do Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal e Territórios, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Paraná, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima e Rio Grande do Sul; os Tribunais de Justiça Militar Estaduais de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo; os 24 Tribunais Regionais do Trabalho; os Tribunais Regionais Federais da 1ª, 3ª e 5ª Região; os Tribunais Regionais Eleitorais do Amazonas, Goiás, Paraíba, Rio Grande do Sul e Tocantins; e, por fim, o Tribunal Superior Eleitoral e do Tribunal Superior do Trabalho.

Com vistas ao crescente uso do sistema, este estudo busca descobrir se o PJe, como sistema de tramitação processual, trouxe maiores benefícios no contexto da celeridade processual, aos segmentos do Poder Judiciário que dele se utilizam, tendo por parâmetro os dados estatísticos extraídos do CNJ, do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) e das atas correicionais das Varas do Trabalho da Grande Florianópolis (Florianópolis, São José e Palhoça) elaboradas pelo egrégio Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (TRT12), no período de 2009 até 2016, em comparação com os sistemas processuais anteriormente utilizados, tal qual o Processo Virtual (Provi) e os processos físicos.

O acompanhamento da implementação do PJe no TRT12, suas dificuldades e seus sucessos, bem como as críticas dos operadores do direito, o uso diário da tecnologia e a participação efetiva na busca de novas soluções, aliados ao vislumbre de um sistema universal integrado de soluções ao crescimento desenfreado das demandas judiciais no Brasil, foram determinantes para o estudo do novo sistema de tramitação de processos, analisado sob o contexto da duração razoável do processo.

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A pesquisa aborda o método dedutivo, iniciando com o estudo histórico do direito processual, a virtualização dos sistemas processuais brasileiros até a verificação dos efeitos do novo PJe na celeridade processual, de natureza qualitativa e quantitativa, por análise de comparações constantes, buscando nos dados estatísticos levantados, processados e interpretados, a relação entre o novo processo eletrônico e seus efeitos na celeridade processual. Os métodos de procedimento utilizados são o monográfico, comparativo e estatístico, tendo como técnicas a pesquisa bibliográfica, documental e de estudo de caso, cooptando nos relatórios fornecidos pelo CNJ, CSJT e TRT12 informações que, analisadas em conjunto com a legislação e doutrinas brasileiras sobre o tema, apresentam a trajetória do processo eletrônico na justiça brasileira culminando com os benefícios do novo sistema processual e a sua relação com a celeridade processual.

Para isso divide-se a monografia em três capítulos de desenvolvimento: o primeiro perfaz uma análise do surgimento do direito processual, sua relativização em vista do processo eletrônico no ordenamento jurídico brasileiro, culminando com a identificação dos novos princípios norteadores do processo eletrônico; o segundo visa destacar a origem e as características basilares do PJe, alterações trazidas com sua implantação e as críticas ao novo sistema; por fim, o terceiro traz a forma de implantação no TRT12, os sistemas processuais anteriormente utilizados, a apresentação do método de estudo, o levantamento e processamento dos dados e a interpretação dos resultados, a fim de observar acerca da existência do fenômeno da celeridade processual.

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2 A INFORMATIZAÇÃO DO PROCESSO NA JUSTIÇA BRASILEIRA

O presente capítulo apresenta o conceito de informática e a forma como ela se relaciona com as ciências jurídicas, remontando o desenvolvimento histórico do direito processual como instituto jurídico, a fim de demonstrar sua aproximação ao direito constitucional e os princípios que aparelham o processo judicial e a celeridade processual.

Ademais, denota-se a relação entre a emenda constitucional nº 45 e o os novos princípios que motivaram a informatização do judiciário brasileiro, elencando as mudanças até o surgimento do processo eletrônico, para, enfim, demonstrar suas características e nuances em relação ao modelo tradicional de processo.

A justiça brasileira nunca esteve tão informatizada quanto nos dias atuais. A tecnologia tem se integrado de forma simbiótica às ciências no decorrer dos anos, tornando-se um instrumento facilitador indispensável ao desenvolvimento científico. De modo não diferente ocorre seu relacionamento com as ciências jurídicas, mais precisamente com o processo.

O advento da informática junto ao processo brasileiro surge da transdisciplinaridade que permeia tanto o direito quanto a informática. O relacionamento entre eles é um processo natural de convergência de disciplinas em uma sociedade devota à tecnologia e à informação (ALMEIDA FILHO, 2012).

O termo informática surge da união entre as palavras informação e automática, sendo definido como o estudo da tecnologia da computação, como instrumento de coleta, armazenamento, processamento de dados para distribuição de informação (MARÇULA; BENINI FILHO, 2013, p. 46, 201).

Em verdade, a influência da informática enquanto ciência implica em profunda integração às atividades relacionadas ao processo judicial, servindo de instrumento integrante ao processo assim como o direito processual é instrumental integrante do direito material (FEÓLA, 2014, p. 25).

Porém o processo, ao contrário da informática, se desenvolveu lentamente ao longo dos séculos, surgindo invariavelmente como um apêndice do direito material. Após muito desenvolvimento teórico, adquire sua independência e traça seu destino perfilado às garantias fundamentais.

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2.1 O PROCESSO: EVOLUÇÃO E CONCEITO

O conceito de processo adquire característica polissêmica ao longo do desenvolvimento histórico do direito processual. Para o ideal entendimento de sua definição faz-se necessário reconstruir as teorias jurídicas que o originaram, remontando na história os estudos que firmaram o conceito de processo que se tem na atualidade.

Primeiramente é necessário discutir a diferença entre o processo e direito processual. A confusão teórica entre esses conceitos é um desserviço à ciência do Direito. Há desencontro quando se toma a fração pelo todo, pois o processo é o núcleo central da qual emana o direito processual, sendo dele seu tema central de estudo (LEAL, 2014).

Por conseguinte faz-se necessário registrar que, apesar de as doutrinas atuais utilizarem a expressão direito processual e processo, ao longo das épocas, durante o desenvolvimento do direito processual, essa terminologia não era necessariamente utilizada, contudo é possível identificar nas obras a exata compreensão dos institutos (DELLORE, 2016, p. 26).

Em breve leitura da obra de 1857, que segue abaixo, é possível constatar esta sinonímia, visto que o conceito apresentado na obra jurídica trata-se matéria de direito processual, contudo a terminologia utilizada está de acordo com o estudo da disciplina na sua época.

Depois dos direitos, tomados subjectivamente, e como faculdade moral de obrar, seguem-se as acções e as excepções, como garantias de sua effectividade [...] a acção pertence ao Direito Civil; o seu exercicio (demanda propriamente dita) pertence ao regimen judiciário. (BAPTISTA, 1857).

Desta feita, voltando à exposição histórica do direito processual, registra-se que até o século XI, conhecido como o período do primitivismo, é possível encontrar ao longo de obras esparsas sobre direito, relatos acerca da justiça e seu funcionamento. A terminologia que hoje conhecemos por processo surge do termo jurídico presente nas obras de direito comum dos séculos XII e XIII, denominado iudicium. Por este motivo esse período ficou conhecido por judicialismo (ALVIM, 2016, p. 25).

Nos séculos XVI a XVIII inicia-se o praxismo, período em que se passa a reconhecer os dispositivos de lei que orientam as práticas de ação em juízo como direito processual. Nesse período, nasce a Teoria do Processo como Contrato. Idealizada pelo jurista francês Robert Joseph Pothier, que preconizava o processo como a relação jurídica havida entre

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os litigantes como em um contrato, tendo na vontade dos contratantes a única fonte de direito e dever do Estado (LEAL, 2014).

No século XIX surge o procedimentalismo, que enriqueceu em detalhes o direito processual, agregando-lhe a forma de organização judiciária e seu campo de competência. Nesse período, no ano de 1850, surge através do jurista alemão Friedrich Carl Von Savigny e o francês Arnault de Guényvau, a Teoria do Processo como Quase Contrato, que estendeu o conceito de processo da relação jurídica havida entre as partes também para o juiz (Estado), porque com a jurisdição obrigatória, é na intervenção do juiz que se forma a relação processual, independentemente de manifestação do réu (BARROS; DEROMA JÚNIOR, 2012, p. 225).

No mesmo século, mais precisamente no ano de 1868, a publicação da obra Teoria das Exceções Processuais e os Pressupostos Processuais, do jurista polonês Oskar Von Bülow, passa a servir de marco histórico para a inserção do direito processual na era do processualismo científico, cuja obra foi de fundamental importância ao reconhecer a independência do direito processual ante o direito material (ALVIM, 2016, p. 28).

Seu grande destaque foi o desenvolvimento da Teoria do Processo como Relação Jurídica, promovendo a sistematização da relação jurídica processual, separando-a da relação jurídica material presente nas teorias anteriores. Bülow apontou as diferenças em três aspectos: “a) por seus sujeitos (autor, réu e Estado-juiz); b) por seu objeto (a prestação jurisdicional); c) por seus pressupostos (os pressupostos processuais)” (CINTRA; GRINOVER; DINAMARCO, 2015, p. 320).

O direito processual passou então a ser considerado ciência, ramo autônomo do direito, demonstrada a existência de uma relação jurídica entre os sujeitos do processo, relação esta distinta daquel’outra de direito material litigiosa. A partir daí iniciou-se a fase científica do direito processual, na qual proliferaram os estudos destinados à fixação de conceitos próprios da ciência processual, permeada por categorias específicas, tais como: jurisdição, ação, defesa e processo. (DELLORE, 2016, p. 28).

Surgem, neste período, os maiores teóricos processualistas da história, aqueles que desenvolveram o conceito de processo ao entendimento contemporâneo, tais como: Giuseppe Chiovenda, Francesco Carnelutti, Piero Calamandrei, Enrico Tullio Liebman, James Goldschmidt, Jaime Guasp, Alfredo Buzaid, Moacyr Amaral Santos, dentre outros (DELLORE, 2016, p. 28).

Em meados de 1925, desenvolve-se a Teoria do Processo como Situação Jurídica, tendo como fundador o alemão James Goldschmidt, que, contesta a natureza jurídica proposta por Bülow, traduzindo o processo como uma comunhão de situações jurídicas distintas, que

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poderão ser aproveitadas, ou não, pelo juiz por ocasião da sentença, não havendo qualquer ligação entre as partes, estando ambas sujeitas à ordem pública (DELLORE, 2016, p. 241).

Por conseguinte, Elio Fazzalari propõe a Teoria do Processo como Procedimento em Contraditório na qual aduz que o processo não seria todo e qualquer procedimento e sim aquele realizado em contraditório no desenvolvimento da relação entre os seus sujeitos. Ressalta-se que, ao propor o atributo do contraditório, Fazzalari não almejou qualquer reflexão constitucional, e sim distinguiu brilhantemente uma qualidade processual a ser incorporada pela atividade jurisdicional, independentemente de qualquer paradigma democrático (LEAL, 2014).

Após a segunda guerra mundial, desenvolve-se a Teoria da Constitucionalização do Processo, pois em decorrência da natureza pública do processo, torna-se necessário aproximar os institutos do direito processual às garantias constitucionais, evidenciando sua finalidade como instrumento de pacificação social (DELLORE, 2016, p. 29).

Propõe Leal (2014), o amadurecimento dessa teoria em uma nova: a Teoria Neoinstitucionalista do Processo. Fundada em um Estado Democrático de Direito, define o processo como sendo o instrumento utilizado pelos juridicamente legitimados, para assegurar, por meio dos princípios e institutos jurídicos constitucionais, “o exercício dos direitos criados e expressos no ordenamento constitucional e infraconstitucional por via dos procedimentos estabelecidos em modelos legais”.

Desta feita, ao longo do desenvolvimento histórico do direito processual, percebe-se o crescimento inteligível do conceito de processo de mera noção de procedimento, como deriva de sua palavra latina originária procedere, para um movimento dialético dirigido a um determinado fim (DELLORE, 2016, p. 20).

Para Cintra, Grinover e Dinamarco (2015, 317), Tesheiner (2016, p. 4) e Leal (2014, n.p.), o processo também é compreendido como a relação jurídica formada pela tríplice autor, juiz e réu, e, ainda, como o conjunto de atos jurídicos que produzem transformações jurídicas. Em amplo aspecto, Cintra, Grinover e Dinamarco (2015, p. 64) e Marinoni (2008, p. 405) aduzem que o processo tem o papel de, através da legitimidade democrática, assegurar ao Estado instrumento para o legítimo exercício do poder, protegendo os direitos fundamentais, à serviço da paz social.

Para Martins Filho (2016, p.323), destaca-se atualmente a existência de três espécies de processos judiciais: o civil, o penal e o trabalhista, que diferenciam-se uns dos outros no concernente ao direito material que subsidiam. Na inteligência de Almeida (2015, p. 42), enquanto o processo civil e o processo penal atuam na tutela jurisdicional dos direitos

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individuais, o processo do trabalho, efetiva o conceito de direito social, atuando diretamente nos direitos de grupos ou coletividades.

Entre essas três espécies de processo é inescusável falar em processo sem falar de Direito Constitucional, ou ao menos citar algum dos institutos jurídicos lá enraizados que suportam todo o emaranhado de leis processuais existentes no ordenamento jurídico.

O direito processual civil, ciência de autonomia indiscutível, mantém afinidades e relações plúrimas com os demais ramos do direito, sendo certo que sua imbricação com o direito constitucional é marcante e intensa, a evidenciá-lo como base fundamental, surgindo nesse contexto a sistematização da tutela constitucional do processo, que impõe o aperfeiçoamento do sistema jurídico a partir dos princípios constitucionais. (DELLORE, 2016, p. 29).

Os princípios que dão forma aos institutos do direito processual descendem da própria ordem constitucional. Nesse sentido, a subordinação hierárquica do direito processual deve se dar não somente em respeito a sua aplicação, mas também quando de sua elaboração legislativa (DINAMARCO, 2009, p. 26).

Dos inúmeros princípios constitucionais que regem o direito processual destaca-se o princípio do acesso à justiça, extraído do art. 5º, inciso XXXV, também conhecido como princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional, que atrai ao poder judiciário a tutela jurisdicional responsável por assegurar a todo cidadão, por meio do processo, à busca de seus direitos e a garantia de uma resposta do Estado; e o princípio do devido processo legal, extraído do inciso LIV do artigo 5º, considerado o supraprincípio do direito processual, pois surge da comunhão dos princípios constitucionais da legalidade (inciso II), da igualdade (inciso I) e da ampla defesa (LV), assegurando ao jurisdicionado a garantia de um instrumento, sustentado nas bases de um Estado democrático de direito, capaz de prover a solução dos conflitos sociais (BRASIL, 1988).

A Constituição brasileira refere, como princípios fundamentais do processo, os da inafastabilidade do Poder Judiciário, do juiz natural, da imparcialidade, da ação, do contraditório, da publicidade, da licitude das provas, da persuasão racional, do devido processo legal, da representação por advogado, do controle hierárquico, da fundamentação, dentre outros. (TESHEINER, 2016, p. 48).

Destaca-se, ao objetivo do presente trabalho, aquele princípio denominado Princípio da Duração Razoável do Processo, disposto no inciso LXXVIII do art. 5º da Constituição Federal (BRASIL, 1988), que diz: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Esse é o princípio que norteia a efetividade da prestação jurisdicional pois para

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alcançar a paz social, a resposta do Estado deve ser entregue em tempo razoável, a fim de garantir ao jurisdicionado o proveito do direito assegurado. Neste aspecto, vale-se do adágio de Rui Barbosa: “Justiça tardia não é Justiça, é injustiça manifesta”.

2.2 A EMENDA CONSTITUCIONAL 45/2004 E A INFORMATIZAÇÃO DA JUSTIÇA TRABALHISTA BRASILEIRA

A preocupação pela morosidade do processo acompanha o direito processual desde a fase embrionária da Teoria Constitucionalista do Processo, que, na forma do anteriormente disposto, iniciou-se ao fim da segunda guerra mundial. Percebe-se ao encontrar o direito estampado no artigo 6º, da Convenção Europeia do Direito do Homem, contemplada em 1950. Traz a duração razoável do processo como uma das garantias balizadoras a um processo equitativo, demonstrando, segundo Barbosa (2013, p. 104), “que a preocupação com a morosidade da justiça, além de não ser contemporânea, é mundial”.

Em 1969, a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, também conhecida por Pacto de San José da Costa Rica, corrobora, em seu artigo 8º, parágrafo 1, a duração razoável do processo como uma das garantias judiciais fundamentais a todo cidadão:

Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo

razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido

anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza. (CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 1969, grifo nosso).

No ano de 1992, com a ratificação do pacto pelo Brasil, o texto foi recepcionado no ordenamento jurídico pátrio através do Decreto nº 678, sendo o instituto jurídico transformado em garantia constitucional somente no ano de 2004, com a reforma trazida pela emenda constitucional nº 45, que, dentre outras mudanças, criou o inciso LXXVIII no art. 5º da Constituição Federal introduzindo nas garantias fundamentais dos cidadãos um direito, e um compromisso do Estado, de uma duração razoável para a solução de seus conflitos. (BRASIL, 1988).

O hiato temporal levado para assimilação do instituto jurídico à Constituição não significa que a insatisfação nacional sobre a morosidade da justiça estava latente, muito pelo contrário, foi este anseio social, por um processo célere e efetivo, que instigou o legislador a iniciar o processo de informatização da justiça brasileira. Exemplificadamente, destaca-se a lei que introduziu no ordenamento jurídico nacional o processo eletrônico, a Lei nº 11.419/2006,

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que será vista a seguir, oriunda de projeto de lei de iniciativa popular nº 5.828, proposto em 04 de dezembro de 2001, pela Associação dos Juízes Federais do Brasil.

Mas, para Marinoni (2008, p. 112), a “promessa de realização do processo em tempo razoável passou a figurar de modo explícito entre as garantias oferecidas pela Constituição Federal” com a emenda constitucional nº 45, se tornando um verdadeiro farol norteador de todo o direito processual brasileiro. Para Barbosa (2013, p. 103), neste ponto inicia-se “uma era institucional de combate à morosidade judicial, pois configurada como contramão do desenvolvimento social”.

Outra imprescindível mudança trazida pela emenda constitucional nº 45/2004, com papel fundamental na informatização da justiça, foi a criação de um novo órgão do Poder Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça - CNJ, responsável por, dentre outras competências, controlar a atuação administrativa do Poder Judiciário, gerenciando relatórios estatísticos sobre os processos e as sentenças prolatadas pelos seus diferentes órgãos, a fim de propor providências aos problemas encontrados (BRASIL, 1988).

Ambas as mudanças foram importantes marcos para a informatização da justiça brasileira, pois a partir das informações gerenciadas pelo CNJ foi possível identificar os gargalos responsáveis pela lentidão contumaz dos processos no Poder Judiciário, e assim, objetivar a criação de soluções de atuação direta no foco da demanda.

2.3 A LEGISLAÇÃO COMPLEMENTAR QUE ESTRUTURA A INFORMATIZAÇÃO DO JUDICIÁRIO

O início da informatização do judiciário brasileiro se deu pela via legislativa, conforme anteriormente citado, com o aproveitamento do crescente desenvolvimento e uso de novas tecnologias que poderiam ser aproveitadas para simplificar a realização de determinados atos jurídicos. O processo legislativo foi tímido porém constante, iniciando-se com dispositivos esparsos em leis específicas conforme segue.

Em 1991, com a Lei do Inquilinato, inaugura-se a viabilidade de citação, intimação ou notificação de pessoa jurídica ou firma individual, pela via fac-símile, desde que pactuado pelas partes (BRASIL, 1991).

Em 1997, com a entrada em vigor da Lei de Protestos, no parágrafo único do art. 8º, autoriza-se a recepção das indicações a protesto das Duplicatas Mercantis e de Prestação de Serviços, pela via magnética ou de gravação eletrônica de dados (BRASIL, 1997).

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Já em 1999, através da Lei do Fax, podemos dizer que o direito processual sofreu sua primeira significante mudança no que tange aos atos processuais eletrônicos. Pois a lei passou a autorizar a utilização no processo, pelas partes e pelo Juízo, de sistema de transmissão de dados e imagens tipo fac-símile, ou outro similar, para atos processuais que dependam de petição escrita (BRASIL, 1999).

Destaca-se, neste caso, que o dispositivo autoriza o uso da tecnologia como “instrumento de transmissão”, porém o instrumento físico original deveria ainda ser entregue posteriormente dentro do prazo, sob pena de seus efeitos jurídicos não serem concretizados. Ou seja, a materialidade do instrumento era essencial para produção de seus efeitos jurídicos, mantendo ainda a formalização do ato jurídico através do meio físico, neste caso o papel. Assim diz o art. 2º da lei: “a utilização de sistema de transmissão de dados e imagens não prejudica o cumprimento dos prazos, devendo os originais ser entregues em juízo, necessariamente, até

cinco dias da data de seu término” (BRASIL, 1999, grifo nosso).

Em 2001, entrou em vigor a lei nº 10.259, que instituiu os Juizados Especiais Cíveis e Criminais no âmbito da Justiça Federal. (BRASIL, 2001a) Em observância ao parágrafo segundo do artigo 8º, os Tribunais Federais tiveram de “organizar serviço de intimação das partes e de recepção de petições por meio eletrônico”, o que, nas palavras de Soares (2012), “possibilitou a prática dos atos processuais de forma totalmente eletrônica, sem a necessidade de apresentação posterior dos originais”.

No mesmo ano, a Medida Provisória nº 2.200 institui a infraestrutura de chaves públicas brasileiras, a ICP-Brasil, com o objetivo de prover autenticidade, integridade e validade jurídica aos documentos produzidos de forma eletrônica, bem como para garantir a segurança nas transações e aplicações de suporte que utilizem certificado digital (BRASIL, 2001b).

Já no ano de 2006, entra em vigor a Lei nº 11.280, que, com supedâneo na nova garantia trazida pela emenda constitucional nº 45/2004, inseriu o parágrafo único no art. 154 do então Código de Processo Civil, de 1973, introduzindo a autonomia dos Tribunais em disciplinar a formalização da prática dos atos processuais (BRASIL, 2006a).

Os tribunais, no âmbito da respectiva jurisdição, poderão disciplinar a prática e a comunicação oficial dos atos processuais por meios eletrônicos, atendidos os requisitos de autenticidade, integridade, validade jurídica e interoperabilidade da Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP - Brasil. (BRASIL, 2006a).

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No mesmo ano, entra em vigor a Lei nº 11.419, que dispõe finalmente sobre a informatização do processo judicial a todos os Tribunais, inovando ao expandir o uso da tecnologia para além das transmissões de peças processuais, viabilizando enfim a utilização de meios eletrônicos na tramitação de processos judiciais e na comunicação de seus atos (BRASIL, 2006b).

Para Almeida Filho (2012), a idealização de processo eletrônico trazida pela lei “não possui natureza meramente processual. Por esta razão afirmamos que ela trata de prever a possibilidade da prática de atos processuais, mas não de todo um processamento”. E neste aspecto, segundo o jurista, pecou o legislador ao legitimar apenas a formalização dos procedimentos, deixando o processo eletrônico, adstrito ao capítulo três, composto apenas por seis artigos, que invariavelmente autorizam aos órgãos do poder judiciário a desenvolver seus próprios sistemas de processamento de ações judiciais, silenciando-se acerca da legitimação do processo como instituto jurídico.

O intuito do legislador com a edição da Lei no 11.419, de 2006, era a mudança estrutural do Poder Judiciário, com vistas à concretização do direito constitucional à razoável duração do processo e à justiça célere, pois, com os avanços propiciados pela globalização, o conceito de celeridade judicial é indissociável da aplicação das novas tecnologias de transmissão virtual de dados. (BARBOSA, 2013, p. 108).

Essa autonomia, garantida pelo art. 8º da Lei 11.419/2006, tornou por permitir que os inúmeros órgãos do poder judiciário brasileiro se aventurassem na criação de seus próprios processos eletrônicos, ou “sistemas eletrônicos de processamento de ações judiciais”, como referido no artigo, iniciando uma onda de reflexão de suas atividades intrínsecas, tanto gerenciais quanto legais, bem como, o investimento dos setores de tecnologia da informação a fim de viabilizar a implementação técnica dos sistemas (BRASIL, 2006b).

No ano de 2009 o Conselho Nacional de Justiça inicia, conforme apurar-se-á no capítulo seguinte, as tratativas de implementação de um novo sistema eletrônico baseado naqueles desenvolvidos pelos Tribunais Regionais Federais.

No ano de 2012 o Conselho Nacional de Justiça - CNJ publica a Resolução nº 121, que dispõe sobre a divulgação de dados processuais eletrônicos na rede mundial de computadores, expedição de certidões judiciais e outras providências, tais como o acesso ao processo pelo advogado que não possua vínculo com o processo (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2010).

Por fim no ano de 2015, com a entrada em vigor da Lei nº 13.105, de 16 de março, conhecida como novo Código de Processo Civil, sedimentou-se a prática de atos processuais

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na forma eletrônica. Assim preconiza o art. 193: “Os atos processuais podem ser total ou parcialmente digitais, de forma a permitir que sejam produzidos, comunicados, armazenados e validados por meio eletrônico, na forma da lei”. (BRASIL, 2015). Outro importante assentamento se dá na definição do Conselho Nacional de Justiça como órgão competente para regulamentar, disciplinar e editar a prática dos atos processuais pela via eletrônica, podendo, supletivamente, os tribunais tomarem esse papel.

2.4 O PROCESSO ELETRÔNICO NA JUSTIÇA BRASILEIRA

Se buscarmos a definição de processo anteriormente exposta, culminando-a com a expressão eletrônica, é possível entender o conceito de processo eletrônico. Contudo, não tão simples se parece a definição. Soares (2012) aduz que o processo eletrônico “pode ser mais facilmente entendido como a completa substituição do meio físico papel pelos meios de armazenamento disponibilizados pela informática”, ou seja, é a instrumentalização da tecnologia utilizada no campo jurídico.

Já Almeida Filho (2012), acredita que “no Brasil, não estamos diante de processo eletrônico, mas de verdadeiro procedimento eletrônico” sendo a distinção substancialmente importante pois a legislação do processo, cuja competência é exclusiva da União, será fracionada entre a dos estados, cuja competência é concorrente.

Importante destacar que a própria Lei nº 11.419/2006 não traz o conceito de processo eletrônico, no máximo, conforme acima descrito, utiliza a expressão “sistemas eletrônicos de processamento de ações judiciais”, trazendo, por fim, o Código de Processo Civil a expressão “sistemas de automação processual” em seu art. 194. Tal incerteza, nas palavras de Pinho (2015, p. 418) tornam a definição de um conceito para processo eletrônico “uma tarefa árdua, sobre a qual não se debruçam a doutrina e a legislação, acarretando grande confusão prática”.

Conclui o nobre jurista que o processo eletrônico é uma roupagem ao processo judicial já existente, sendo que o ato processual praticado sob a égide da Lei 11.419/2006 não é capaz de qualificá-lo como processo eletrônico, representando apenas “mais um reflexo do avanço tecnológico na seara do direito processual” (PINHO, 2015, p. 418).

Mas para Almeida (2015, p. 578), não deve o processo eletrônico ser tomado como uma mera caracterização do direito processual ordinário, pois ele, em sua essência altera fundamentalmente as regras processuais comuns, rompendo com “os princípios clássicos do processo, impondo-se a criação de princípios próprios do processo eletrônico”.

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A seguir, o presente trabalho traz a discussão doutrinária acerca do tema, apontando os princípios processuais que emergiram com o processo eletrônico, e a forma como eles devem ser interpretados.

2.4.1 O processo eletrônico e a nova forma de dizer o direito

O processo eletrônico nasceu do desenvolvimento do direito processual adaptado às inovações tecnológicas emergentes do mundo moderno. A busca por uma prestação jurisdicional mais efetiva, por maior acesso à justiça, por uma duração razoável no tempo de tramitação do processo e a libertação dos entraves burocráticos do velho sistema, foram os fatores determinantes para o nascimento de uma nova forma de perceber o direito processual.

Nasce uma nova fase do desenvolvimento do processo judicial. O Direito processual atravessou as eras, desde o sistema puramente oral - em que nem mesmo existiam leis escritas –, passou pela fase documental - em que os atos processuais passaram a ser transcritos para o papel -, até chegar ao presente estado, no qual o papel é dispensável e o computador é ferramenta de trabalho dos atores do Judiciário. (PINHO, 2015, p. 424).

Para Abrão (2017, p. 18) todos os princípios constitucionais e processuais asseguram a formação, constituição e desenvolvimento do processo eletrônico durante todas as fases processuais. Para Ribeiro (2015) o processo eletrônico surge da evolução dos meios de comunicação, “otimizando e desburocratizando o processo, caminhando de forma a concretizar os princípios constitucionais que permeiam o processo civil”. Nesse sentido esclarece Silva:

A despeito de algumas posições doutrinárias vanguardistas que procuram sustentar uma principiologia própria e diferenciada para o processo eletrônico, não divisamos nenhuma modificação de essência na Constituição [...] Mudaram-se os suportes (do papel para o meio eletrônico), mas não mudou o caráter ético e finalístico do processo, que é servir de instrumento ajustado e conducente a uma tutela jurisdicional adequada, célere e efetiva. (SILVA, 2013, p. 45).

Almeida Filho (2012) permeia ambos entendimentos, entende que, via de regra, os princípios basilares do direito processual continuam alicerçando o processo eletrônico, porém, excepcionalmente, é necessário fazer uma releitura daqueles que mereçam adequações para serem aplicados no mundo digital. São eles: o princípio da aderência ao território, do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, da ação, publicidade e instrumentalidade das formas

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No que tange ao princípio da aderência ao território, que, segundo Alvim (2016, p. 83), trata da limitação espaço-territorial do juiz em dizer o direito. Almeida Filho (2012) propõe que a mitigação desse princípio se dá na medida da desterritorialização havida no mundo virtual, sendo muito difícil identificar, nestes casos, a competência do juiz em determinados litígios. Chaves Júnior (2010, p. 36), afirma que a desterritorialização já ocorre na prática judicial, valendo-se do exemplo dos convênios celebrados com a justiça a fim de auxiliar as execuções judiciais, onde a ordem emanada se estende a todo território nacional.

No concernente aos princípios da ação, do devido processo legal, do contraditório e ampla defesa, em suma, aduz Almeida Filho (2012) que impor como único meio de acesso à justiça a via eletrônica, acrescido da necessidade de certificação digital para o peticionamento, ofende de pronto o direito constitucional de acesso à justiça pois adiciona-se um novo pressuposto para o exercício do direito de ação.

Neste aspecto, demonstra-se em contraponto o artigo 193 do CPC, que em 2015, passou a autorizar a prática de atos processuais total ou parcialmente digitais, ficando a cargo do órgão judiciário recepcioná-los e integrá-los ao processo (BRASIL, 2015).

No âmbito da Justiça do Trabalho, a Resolução 185/2017, no seu artigo 4º, autoriza a juntada de petição por servidor do juízo quando o usuário externo não possuir certificado digital:

As partes ou terceiros interessados desassistidos de advogado poderão apresentar peças processuais e documentos em papel, segundo as regras ordinárias, nos locais competentes para recebê-los, que serão inseridos nos autos eletrônicos pela unidade judiciária, em arquivo eletrônico que utilize linguagem padronizada de marcação genérica. (CONSELHO SUPERIOR DA JUSTIÇA DO TRABALHO, 2017d).

Já o entendimento de que a certificação eletrônica é um novo pressuposto processual ao direito de ação, Feóla (2015, p. 74) afirma que trata-se de ferramental essencial para a advocacia eletrônica, servindo de instrumento obrigatório indispensável à integridade, autenticidade e segurança das informações digitais, e sua ausência, ou substituição pelo uso de

login e senha, demonstram nítida insegurança procedimental aos usuários.

Relativamente ao princípio da publicidade, Almeida Filho (2012) traz um contraponto diferenciado, os atos processuais devem ser públicos porém deve-se solucionar a controvérsia entre a publicidade e a intimidade. Por exemplo, uma simples notificação publicada no diário eletrônico, relativa a uma reclamatória trabalhista, se não for tratada, pode-se através de sites de busca da internet descobrir pode-se determinado empregado possui ou não demandas em face das empresas onde trabalhou, situação vedada pela lei trabalhista pois pode

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lhe prejudicar na busca por novo emprego. Neste aspecto, o Conselho Nacional de Justiça publicou a Resolução nº 121/2010 que passou dirimir quais dados básicos do processo são de livre acesso e quais são de caráter privativo, sanando problemas na esfera da publicização excessiva.

Outrossim, no que tange ao princípio da instrumentalidade das formas entende Almeida Filho (2012) que o tema deve ser analisado com cautela, visto que a busca pela celeridade processual pode acarretar o detrimento da formalidade dos atos processuais. Em contrapartida, a teoria de deformalização do processo, proposta pelo jurista Cândido Rangel Dinamarco, que visa a simplicidade dos atos processuais, encontra-se fortemente apoiada no novo Código de Processo Civil, artigos 188, 203, § 4º, e 277, permitindo que aqueles cuja finalidade seja atingida sejam convalidados independentemente da forma.

Apesar da relativização dos princípios próprios do direito processual, Chaves Júnior (2010, p. 24) e Freire e Oliveira (2012, p. 53), destacam que as peculiaridades do processo eletrônico exigem uma diferente percepção do direito processual alinhada a novos princípios norteadores que, em comunhão com os princípios constitucionais e processuais comuns, formarão a base fundamental que dará sustentação ao direito processual eletrônico.

2.4.2 Os princípios norteadores do processo eletrônico

Os princípios são elementos jurídicos que surgem da vontade do povo em um Estado democrático de direito. Encontram-se, geralmente, expressos em normas dispositivas. Contudo essa não é a regra, pois um princípio pode ser percebido da análise sistêmica do ordenamento legal ou até mesmo da vontade social. Um princípio, muitas vezes, não se extrai de um artigo de lei, mas da vontade democrática insculpida no espírito da lei (ALVIM, 2016, p. 219).

A doutrina [...] tem feito a distinção entre princípios e regras. Enquanto as regras se esgotam em si mesmas, na medida em que descrevem o que se deve, não se deve ou se pode fazer em determinadas situações, os princípios são constitutivos da ordem jurídica, revelando os valores ou os critérios que devem orientar a compreensão e a aplicação das regras diante das situações concretas. (MARINONI, 2016, p. 49).

Mello (2008) traduz o princípio como um espírito que sustenta um sistema de leis que ao se irradiar sobre as normas asseguram a sua exata compreensão e inteligência. Nesse norte, apesar do processo eletrônico surgir da mesma espécie do processo ordinário, traduz-se em gênero diferenciado, possuindo espírito próprio.

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Esse espírito traduz-se no estudo dos princípios que regem a informática relacionando-os aos princípios jurídicos, através da hermenêutica para identificar a eficácia dos procedimentos jurídicos (FEÓLA, 2014, p.26).

Desta feita, para o presente estudo buscou-se nas obras de José Eduardo Rezende Chaves Júnior e Luiz Fernando Feóla os princípios que estão mais bem delineados à atual realidade do processo eletrônico brasileiro.

2.4.2.1 Princípio da Imaterialidade ou Desmaterialização

Talvez este princípio apresente maior impacto em relação aos princípios processuais comuns, pois ele decorre da conjunção dos conceitos de processo, procedimento e autos anteriormente já vistos. Para Freire e Oliveira (2012) “Os sujeitos processuais estarão ligados entre si por meio de um processo linguístico” flexibilizando uma relação processual mais democrática e construtiva.

Para Chaves Júnior (2010, p. 25) desmaterializar se traduz na passagem do mundo material para o mundo da linguagem, na mais simples conversão do processo físico, materializado no papel, em sistema digital de informação.

Feóla (2014, p. 43) complementa aduzindo que para o Poder Público a desmaterialização implica em incontestáveis benefícios, visto que o armazenamento digital acarreta desde a economia de recursos públicos até a proteção do meio ambiente.

2.4.2.2 Princípio da Intermidialidade ou Oralidade

O meio de informação não mais é o papel, e sim diferentes tipos de mídias como fotos, áudios, vídeos, enfim, todo e qualquer material que possa ser agregado ao sistema. Para Chaves Júnior (2010, p. 31), a intermidialidade consiste na interação entre mídias distintas para “aumentar a possibilidade de se aferir a verdade real”, gerando conhecimento processual que irá auxiliar na solução mais eficiente do conflito.

Pelas semelhanças o presente trabalho unifica neste princípio aquele denominado de Princípio da Hiperrealidade, proposto também por Chaves Júnior (2015, p. 17), que consiste na realidade aumentada de um fato processual, que deixará de ser transcrito para uma folha de papel e passará a apresentar, através de suas novas mídias, aspecto diferenciado do ato jurídico. Exemplifica Freire e Oliveira (2012, p. 60) os casos de depoimento de testemunha filmado,

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onde se permite ao magistrado absorver informações além do depoimento escrito e a viabilização de audiências em videoconferência.

Feóla (2014, p. 49) nomeia este conceito como princípio da oralidade, pois o processo eletrônico permite o uso de diferentes mídias para imprimir celeridade e simplicidade ao processo, o mesmo objetivo do princípio no direito processual ordinário. Aduz que o processo eletrônico permitirá, num futuro próximo, a gravação em áudio e vídeo de audiências e decisões diretamente no processo, sem a necessidade de reduzi-las a termo.

2.4.2.3 Princípio da Desterritorialização

Este princípio, trazido por Chaves Júnior (2010, p. 36), relativiza o princípio da territorialidade do direito processual comum, pois “desmaterializa a ideia de foro e circunscrição judicial”, estendendo a longa manus do juiz para além de seu território.

Guardadas as devidas ressalvas legais, na prática este princípio já se demonstra no dia a dia da justiça. Uma ordem de penhora de valores em conta bancária através do sistema bacenjud, em regra, ultrapassa os limites da jurisdição do magistrado que emanou a ordem, pois o bloqueio das contas alcançam agências bancárias em âmbito nacional.

Portanto o uso de convênios celebrados com o órgão judiciário, tais como bacenjud, renajud e infojud, já são exemplos de aplicação deste princípio, ou, nas palavras de Almeida Filho (2012), demonstram a relativização do princípio processual ordinário da territorialidade.

2.4.2.4 Princípio da Conexão ou Ampla Acessibilidade

Funda-se na conexão imediata do processo com seus sujeitos, estando o processo instantaneamente à vista das partes, pois se encontra disponível na rede mundial de computadores a qualquer hora em qualquer lugar, tornando o processo mais inquisitivo em razão da dialética processual ocorrer de forma sinérgica e espontânea. Outro aspecto positivo deste princípio é a transformação em obsoleto da ciência dos atos processuais praticados (CHAVES JÚNIOR, 2010, p. 28).

Para Feóla (2014, p. 53) a ampla acessibilidade do processo eletrônico funciona como “instrumento potencializador da eficácia do direito processual”, permitindo a liberdade dos operadores do direito em praticar os atos processuais a qualquer momento em qualquer lugar, garantindo amplo acesso ao Poder Judiciário.

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Pelas semelhanças, o presente trabalho aglutinou neste tópico os princípios da instantaneidade e da interação, ambos propostos por Chaves Júnior, 2015, p. 21-23), que trata do acesso instantâneo aos autos pelas partes e da nova forma, sinérgica e instantânea, da dialética processual, que elimina as fadadas intimações de vista à parte adversa garantindo agilidade ao trâmite processual.

2.4.2.5 Princípio da Evolutibilidade

No capítulo que trata das legislações que introduziram o processo eletrônico no Brasil, é possível perceber que o ordenamento jurídico acompanhou a evolução tecnológica, utilizando-se dos seus benefícios para aprimorar a eficácia da prestação jurisdicional.

Este princípio se fundamenta na capacidade intrínseca do processo eletrônico se aprimorar de acordo com a evolução da informática, gerando reflexos no âmbito normativo. Desta forma o processo eletrônico está em contínuo desenvolvimento, sinérgico, dinâmico (FEÓLA, 2014, p. 29-30).

Desta feita, compreendidos os novos princípios que regem o processo eletrônico, o presente trabalho fará introdução ao processo eletrônico criado pelo CNJ para ser utilizado como sistema singular o judiciário brasileiro.

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3 O PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO - PJE

O presente capítulo apresenta o sistema de informação desenvolvido pelo CNJ - Processo Judicial Eletrônico (PJe), sua origem e características, os impactos causados pelas alterações promovidas no âmbito processual, organizacional, bem como entre os sujeitos do processo e os operadores do direito. Por fim, apresenta a análise das críticas decorrentes da implantação e uso do novo sistema.

Com a entrada em vigor da lei 11.419/2006, cada órgão do judiciário brasileiro quedou autorizado a desenvolver e utilizar seus próprios sistemas de processamento de ações judiciais, acarretando na proliferação de diferentes tipos de soluções desenvolvidas tanto internamente, pelo próprio órgão, quanto externamente, frutos de contratos público-privados (BRASIL, 2006b).

Sem regulamentação específica o desenvolvimento ocorreu à revelia de qualquer uniformização, acarretando na falta de compatibilidade entre os sistemas eletrônicos utilizados pelos tribunais, tornando a informatização do judiciário incompleta, exigindo ainda o uso contínuo de papel, na contramão da celeridade processual (TEIXEIRA, 2015, p. 504).

Essa capacidade de interação entre um sistema e outro, que viabiliza o trabalho em conjunto e a troca de informações ou serviços, denomina-se interoperabilidade. Tamanha é a importância dessa característica à eficiência e eficácia do processo eletrônico, que o CPC, em seu artigo 194, a define como elemento imprescindível aos sistemas de automação processual (GAJARDONI, 2015).

Os sistemas de automação processual respeitarão a publicidade dos atos, o acesso e a participação das partes e de seus procuradores, inclusive nas audiências e sessões de julgamento, observadas as garantias da disponibilidade, independência da plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos sistemas, serviços, dados e

informações que o Poder Judiciário administre no exercício de suas funções.

(BRASIL, 2015, grifo nosso).

Desta feita, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no exercício do controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário, iniciou o projeto de unificação dos sistemas processuais brasileiros para fins de racionalizar os recursos orçamentários dos órgãos judiciários e garantir a celeridade e qualidade da prestação jurisdicional (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2010a, p. 5).

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3.1 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DO PJE

O CNJ iniciou o projeto no ano de 2009, em cooperação com o Conselho da Justiça Federal e os Tribunais Federais, buscando implementar um único sistema singular de processo judicial eletrônico, adaptável a todas as necessidades e peculiaridades de cada órgão de justiça, viabilizando a simplificação do acesso ao judiciário (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016a, p. 8).

Esse importante passo resulta do papel primordial do CNJ, pois através da supervisão dos processos eletrônicos já existentes, foi possível conciliar os elementos necessários à uniformização dos processos eletrônicos e a busca do meio mais eficiente na relação de custo e benefício (ABRAÃO, 2017, p. 136).

O CNJ pretende convergir os esforços dos tribunais brasileiros para a adoção de uma solução única, gratuita para os próprios tribunais e atenta para requisitos importantes de segurança e de interoperabilidade, racionalizando gastos com elaboração e aquisição de softwares e permitindo o emprego desses valores financeiros e de pessoal em atividades mais dirigidas à finalidade do Judiciário: resolver os conflitos. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017d).

Para tal, em 15 de setembro de 2009, através do Termo de Acordo de Cooperação Técnica nº 73, realizado entre o CNJ, Conselho da Justiça Federal (CJF) e os Tribunais Regionais Federais, fora definido o sistema CRETA, então utilizado pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região, como sendo o sistema basilar para o desenvolvimento do Processo Judicial Eletrônico - PJe (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016a, p. 9).

A partir de então, por meio de termos de cooperação técnica, o CNJ engendrou o desenvolvimento do sistema PJe valendo-se do conhecimento e características inerentes de cada órgão cooperante. Integraram a equipe de desenvolvimento os Tribunais de Justiça dos Estados do Amapá, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Piauí, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, São Paulo, Sergipe, Rondônia, Roraima e Distrito Federal e Territórios, além da Justiça do Trabalho, da Justiça Federal, da Justiça Eleitoral, do Ministério Público, do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) e da Universidade de São Paulo (USP) (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017a).

Em 21 de junho de 2011 é então lançado o sistema de Processo Eletrônico Judicial - PJe, que, segundo o então presidente do CNJ, ministro Cezar Peluso, tornou-se um marco na justiça brasileira, pois “não se trata de mera informatização do processo, mas da formalização

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de processo judicial realmente eletrônico”, assegurando total autonomia de conhecimento acerca do sistema aos tribunais, permitindo a cada um adequá-lo às suas normas internas e peculiaridades locais (PELUSO, 2011, p. 1).

O PJe define-se como um sistema computacional gratuito, que funciona inteiramente na internet, caracterizando-se pela “proposição de atos jurídicos e acompanhamento do trâmite processual de forma padronizada” de acordo com as regras de negócio definidas por cada ramo da justiça (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016a, p. 8).

Em 16 de abril de 2013, o CNJ e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), publicaram a Resolução Conjunta nº 3, instituindo o Modelo Nacional de Interoperabilidade (MNI), visando a uniformização e interação entre os diferentes sistemas utilizados pelos órgãos de justiça com o Pje, bem como assegurando aos órgãos do Poder Judiciário e do Ministério Público que não utilizam o PJe, o prazo de dois anos para integrar seus antigos sistemas de tramitação de processos à nova metodologia (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2013a).

No dia 18 de dezembro de 2013, entrou em vigor a Resolução nº 185 do CNJ que instituiu em âmbito nacional, o Processo Judicial Eletrônico (PJe) como sistema informatizado de processo judicial no âmbito do Poder Judiciário (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2013b).

Atualmente, o PJe se encontra em funcionamento nos tribunais de Justiça do Amazonas (TJAM), Bahia (TJBA), Ceará (TJCE), Distrito Federal e Territórios (TJDFT), Espírito Santo (TJES), Goiás (TJGO), Maranhão (TJMA), Minas Gerais (TJMG), Mato Grosso (TJMT), Pará (TJPA), Paraíba (TJPB), Pernambuco (TJPE), Piauí (TJPI), Paraná (TJPR), Rio Grande do Norte (TJRN), Rondônia (TJRO), Roraima (TJRR) e Rio Grande do Sul (TJRS). [...] os três Tribunais da Justiça Militar Estadual (TJMMG, TJMRS e TJMSP) e os 24 Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs), além do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), o da 3ª Região (TRF3) e o da 5ª Região (TRF5). Na Justiça Eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os Tribunais Regionais Eleitorais do Amazonas AM), Goiás (TRE-GO), Paraíba (TRE-PB), Rio Grande do Sul (TRE-RS) e Tocantins (TRE-TO). (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017d).

Conforme anteriormente exposto, o PJe foi desenvolvido através do conhecimento técnico compartilhado entre diferentes órgãos de justiça, culminando na absorção das melhores práticas jurídicas utilizadas por cada ente ao longo do seu desenvolvimento.

Destaca-se que o PJe permanece ainda em expansão, sendo desenvolvido de forma continuada, o que resulta em diferentes versões de um mesmo sistema, desmistificando, por um

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lado, a estratégia de sistema universal. Contudo, por outro norte, isso viabiliza a utilização de versões de acordo com a capacidade tecnológica e planejamento estratégico de cada tribunal.

3.2 CARACTERÍSTICAS DO PJE

A finalidade do Pje é idêntica a do processo tradicional (em papel), servir de instrumento que guiará o conflito jurisdicional até uma solução pacífica. A diferença é o aproveitamento dos recursos tecnológicos para assegurar a eficiência administrativa e a celeridade processual, sem interferir sobremaneira no direito.

Com o Pje os atos processuais são praticados diretamente no sistema, o que viabiliza a mudança na rotina de trabalho e automatiza aqueles atos que, pela burocracia, são dispendiosos à marcha do processo, assegurando celeridade efetiva na execução dos atos processuais (ROTTA et al., 2013, p. 12).

Percebe-se, portanto, que a principal diferença entre o PJe para o processo tradicional, é que o primeiro possui características intrínsecas com potencial para reduzir o tempo de tramitação do processo, suprimindo vários atos processuais dispendiosos (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2010, p. 6).

Com a tramitação automatizada, poderemos enfim encurtar o que, em ocasião anterior, já rotulei como “tempo neutro do processo”, um tempo não-criativo de mera rotina burocrática, que a praxe centenária, acriticamente reproduzida, fazia por alongar desmesuradamente. Tive ocasião de demonstrar, no já longínquo ano de 1992, com base em pesquisa sobre processos do arquivo da Justiça Federal, que não menos que 70% do tempo total de um processo correspondem a essa repetição de juntadas, carimbos, certidões e movimentações físicas dos autos. (NORTHFLEET, 2008, p.11).

No processo físico grande parte da força de trabalho humana é dispensada em atividades meramente manuais, como procurar processos nas prateleiras, adequar e juntar petições nas formas previamente estabelecidas, certificar prazos, dentre outros. Em contrapartida, com o PJe os processos são encontrados com um simples clicar do mouse, as petições são juntadas diretamente pelas partes e os prazos são automaticamente registrados. O tempo anteriormente despendido nessas tarefas passam a ser reaproveitados de forma mais efetiva (HERZL; ENGELMANN, 2015).

À título exemplificativo acerca da eliminação de atos processuais burocráticos extrai-se, ainda: a baixa manual de recursos, a desnecessidade de cópias físicas para formação de agravos ou cartas, a verificação automática de possíveis casos de litispendência ou prevenção, a atuação simultânea de mais de um operador do direito num mesmo processo, a

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distribuição automática de ações entre as unidades judiciárias, a remessa automática de processos entre órgãos judicantes e a desnecessidade de transporte e manipulação de volumes em um mesmo processo. São inúmeros benefícios que somados promovem a celeridade processual (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2010a, p. 6).

Outra característica do Pje é o fim da falácia de que processo eletrônico é processo físico escaneado. Conforme descrito na seção anterior, o PJe trata-se de sistema de informação integrado, relacional, com regras de negócio elaboradas pelo órgão de justiça mantenedor do sistema. É um verdadeiro instrumento potencializador da relação processual (CHAVES JÚNIOR, 2015, p. 26).

Essas são algumas das características singulares do PJe que trazem impacto no âmbito processual. Entretanto, o sistema promove mudanças também em outros aspectos. A seguir serão apresentados os reflexos causados pelo Pje no funcionamento da justiça, em seu aspecto organizacional e nos sujeitos envolvidos no processo, bem como as críticas realizadas em face do sistema.

3.3 ALTERAÇÕES TRAZIDAS PELO PJE

Para além das mudanças na forma de dizer o direito, o processo e seus princípios, o Pje transforma significativamente a justiça em seu aspecto organizacional, despontando nova forma de perceber a estrutura judiciária, seus órgãos e seus integrantes, de acordo com o dimensionamento do uso do processo eletrônico.

O PJe reduz consideravelmente o fluxo de pessoas que se deslocam até a unidade judiciária, seja na busca de acesso ao processo seja na busca de informações jurídicas. Este elemento causa impacto direto no trânsito e no transporte público das áreas urbanísticas onde estão inseridas as varas. Outro aspecto relaciona-se ao viés econômico, pois a vara que atua com Pje invariavelmente economiza materiais de escritório e mobiliários específicos à utilização do processo em papel. Ademais, o próprio espaço físico da vara é diminuído, tornando alguns setores obsoletos, tais como a distribuição, o protocolo e o arquivo (FEÓLA, 2014, p. 60).

No concernente ao jurisdicionado, o PJe facilita o acesso ao processo, com a disponibilização gratuita de computadores ao público e com o acesso aos autos eletrônicos pela internet, promovendo verdadeira democratização na acessibilidade da justiça e possibilitando às partes um instrumento para fiscalização da prestação jurisdicional (HERZL; ENGELMANN, 2015).

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Há ainda o aspecto da saúde funcional dos operadores do direito, que se beneficiam diretamente com o fim das doenças decorrentes do manuseio e transporte dos processos em papel, tais quais alergias, problemas respiratórios, lesões por esforço repetitivo, dores na coluna, dentre outros (FREIRE; OLIVEIRA, 2012, p. 65).

Importante apontar, ainda, o aspecto motivacional dos servidores, pois passam a atuar diretamente na atividade jurisdicional final, abstendo-se de tarefas manuais simplórias e repetitivas, causando impacto direto na sua produtividade e motivação profissional (FEÓLA, 2014, p. 61).

Destaca-se, outrossim, que o PJe viabiliza a implementação do teletrabalho no âmbito do Poder Judiciário. Regido pela Resolução CNJ nº 227 de 15/06/2016, permite aos serventuários da justiça executar suas atividades de forma remota, fora das dependências da Unidade Judiciária.

Teletrabalho é uma modalidade de trabalho realizada a distância [...], ou seja, fora das dependências [...] do empregador, em que se utilizam ferramentas da tecnologia da informação [...], principalmente com canais de comunicação on-line via internet para se comunicar com a empresa e/ou colegas de trabalho, clientes, fornecedores etc. (TEIXEIRA, 2015, p. 117).

Silva (2015, p. 11-12) afirma que com o novo sistema processual os tribunais que implementaram o teletrabalho alcançaram um aumento de produtividade dos servidores de aproximadamente 20% (vinte por cento) em relação aos que trabalharam em atividades presenciais, além da redução dos custos operacionais decorrentes da instalação do ambiente de trabalho.

De outro norte, a viabilidade do teletrabalho, possui também condão social pois assegura preferência ao novo regime àqueles servidores portadores de deficiência, ou com dificuldade de locomoção, ou, ainda, que possuam dependentes nesta condição, e também às gestantes e lactantes (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016b).

Outro aspecto traduz-se na atuação do magistrado. Segundo Feóla (2014, p. 62-63), o amplo acesso do processo assegura ao juiz a prática de atos processuais até mesmo de sua residência, permanecendo à disposição do processo 24 horas por dia. Faz ressalvas, entretanto, de que a possibilidade não se traduz em obrigatoriedade, pois deve o magistrado administrar seu tempo de forma que a prestação jurisdicional não invada a sua vida familiar.

Para Rotta e outros (2013, p. 15) há, ainda, o aspecto gerencial, visto que o PJe permite o gerenciamento de indicadores estatísticos e de desempenho, que auxiliam

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