Reforma psiquiátrica: de interno a morador
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(2) MARCELA DO AMARAL BARRETO DE JESUS AMADO. REFORMA PSIQUIÁTRICA: DE INTERNO A MORADOR. Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-Graduação Justiça Administrativa - Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense e Núcleo de Ciências Jurídicas do Poder Judiciário - como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Justiça Administrativa. Linha de Pesquisa: Justiça Administrativa e o Fortalecimento do Estado de Direito. Orientador: Prof. ALUÍSIO GOMES DA SILVA JUNIOR. Niterói 2017.
(3) Universidade Federal Fluminense Superintendência de Documentação Biblioteca da Faculdade de Direito A481. Amado, Marcela do Amaral Barreto de Jesus. Reforma psiquiátrica: de interno a morador / Marcela do Amaral Barreto de Jesus Amado. – Niterói, 2017. 158 f. Dissertação (Mestrado em Justiça Administrativa) – Programa de Pós-graduação em Justiça Administrativa, Universidade Federal Fluminense, 2017. 1. Psiquiatria. 2. Saúde mental. 3. Inclusão social. 4. Exclusão social. 5. Direitos humanos. I. Universidade Federal Fluminense. Faculdade de Direito. II. Título. CDD 341.3.
(4) MARCELA DO AMARAL BARRETO DE JESUS AMADO. REFORMA PSIQUIÁTRICA: DE INTERNO A MORADOR. Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação Justiça Administrativa, da Universidade Federal Fluminense – UFF - em parceria com o Núcleo de Ciências Jurídicas do Poder Judiciário - NUPEJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Justiça Administrativa. Aprovada em 07 de abril de 2017.. BANCA EXAMINADORA. ____________________________________________ Dr. Aluísio Gomes da Silva Junior UFF. ____________________________________________ Dr. Gilvan Luiz Hansen UFF. ____________________________________________ Dr. Carlos Eduardo Honorato SES/RJ. Niterói 2017.
(5) Ao percorrer os meandros da vida me deparei com a loucura. Gostei do que vi. Isso mesmo, pois vi beleza na loucura. Através da loucura pude reascender minha fé no ser humano, vislumbrar a compaixão, enxergar a importância da simplicidade e valorizar o que o dinheiro não pode comprar: a liberdade de ser diferente e mesmo assim fazer parte do todo.. Dedico este trabalho a todos os esquecidos, rejeitados, sem nome, desprovidos de ascendência que foram lançados em hospitais psiquiátricos, perderam sua dignidade e suas vidas..
(6) AGRADECIMENTOS. Impossível realizar um estudo desta complexidade sem ajuda, sem a colaboração de pessoas maravilhosas que a vida teve a gentileza de permitir que cruzassem meu caminho, em perfeita sincronicidade, tornando a experiência mais prazerosa e frutífera. Ao meu orientador, Professor Aluísio Gomes da Silva Junior, por ter corroborado com seus saberes para consecução da interdisciplinariedade deste trabalho, bem como por ter acreditado e investido nesse projeto. Ao Professor Gilvan Luiz Hansen por ter me acolhido com paciência, iluminado o percurso, colocando em ordem um amontoado de ideias por mim apresentado, tornando viável a concretização do projeto, sempre num tom descontraído e amistoso. A todos os Professores do Programa de Pós-Graduação “Justiça Administrativa”, da Universidade Federal Fluminense, pela inovação e coragem de subtrair o “mundo jurídico” do isolamento, trazendo para nossas profissões a maestria da interdisciplinariedade, fazendo que a experiência acadêmica se mostre ainda mais rica e instigante. A colega Sheila Cristina Vargas, Promotora de Justiça, do Município do Carmo, no interior do Rio de Janeiro, que me recebeu em sua casa e demonstrou o quão importante pode ser o trabalho do Promotor de Justiça, não apenas como braço repressivo do Estado, mas como agente de transformação da realidade do ser humano. Agradeço aos Profissionais do Núcleo de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro em Carmo, que com paciência me transportaram à realidade vivida pelos internos do Hospital Teixeira Brandão e me mostraram que o ideal de liberdade e autonomia da loucura é viável. Aos integrantes da Gerência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro por me fornecer uma visão ampla do trabalho realizado, das dificuldades enfrentadas e dos obstáculos superados. Agradeço à minha irmã Renata do Amaral Barreto de Jesus de Oliveira pelo inafastável companheirismo e pela paciência na revisão de todo material produzido. Agradeço também à minha mãe pelo apoio cotidiano e por proporcionar a estrutura necessária a viabilizar a execução deste trabalho. Enfim, agradeço a todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para a realização do presente trabalho. Gratidão!.
(7) RESUMO. O projeto de pesquisa “Reforma Psiquiátrica: de interno a morador” discute a partir da análise do processo de fechamento do Hospital Colônia Teixeira Brandão, no Município do Carmo, no interior do Rio de Janeiro, os avanços e desafios da implantação dos parâmetros da Reforma Psiquiátrica no país. O trabalho está estruturado em conformidade com o método indutivo, fazendo-se uma estudo do caso concreto, no qual as fontes foram documentos e entrevistas com atores chave do processo de implementação da mudança de paradigma na forma de cuidado da loucura, revisão bibliográfica e da legislação que rege a matéria. Em conclusão, se reconhece o mérito da experiência do Município do Carmo, destacando-se sucesso do funcionamento e articulação da rede de saúde mental e atenção básica como elementos essenciais para a prestação de um serviço público de qualidade, capaz de evitar novas internações e promover a plena efetividade dos direitos das pessoas portadoras de deficiências psíquicas. Sem, contudo, ignorar, que a conjuntura local específica (densidade populacional, economia, gestão, recursos humanos), o aporte constante de recursos financeiros do governo federal, através dos programas de transferência de renda, e apoio financeiro e técnico estadual, constituíram dados relevantes que talvez não encontrem eco em outras regiões do país ou em momento político diverso, tornam-se verdadeiros obstáculos à promoção dos direitos deste grupo.. Palavras-chave: Reforma psiquiátrica. Inclusão e exclusão social. Carmo..
(8) ABSTRACT. The research project "Psychiatric Reform: From Intern to Resident" discusses the progress and challenges of the implementation of the parameters of the Reform, based on the analysis of the closure process of the Colônia Teixeira Brandão Hospital, in the Municipality of Carmo, in the interior of Rio de Janeiro. Psychiatric in the country. he work is structured according to the inductive method, making a study of the concrete case, in which the sources were documents and interviews with key actors of the process of implementation of the paradigm shift in the form of care of the madness, bibliographical review and the Legislation governing the matter.. In conclusion, one recognizes the merit of the experience of the Municipality of Carmo, highlighting the success of the functioning and articulation of the network of mental health and basic attention as essential elements for the provision of a quality public service, able to avoid new hospitalizations and promote The full effectiveness of the rights of persons with mental disabilities. Without ignoring, however, that the specific local situation (population density, economy, management, human resources), the constant contribution of financial resources of the federal government, through income transfer programs, and state financial and technical support, were data Which may not be reflected in other regions of the country or at different political times, become real obstacles to the promotion of the rights of this group.. Keywords: Psychiatric reform. Social inclusion and exclusion. Carmo..
(9) LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Mapa do Município do Carmo ................................................................................ 17 Figura 2 – Igreja Nossa Senhora do Carmo .............................................................................. 18 Figura 3 – Fachada Hospital Colônia Teixeira Brandão .......................................................... 19 Figura 4 – Residência Terapêutica em Carmo - RJ .................................................................. 22 Figura 5 – Centro de Convivência de Carmo - RJ .................................................................... 25.
(10) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 10 1 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6. O HOSPITAL PSIQUIÁTRICO TEIXEIRA BRANDÃO .......................................... 17 Dados Gerais do Município .......................................................................................... 17 Hospital Colônia Teixeira Brandão .............................................................................. 19 A desinstitucionalização dos pacientes do Hospital Colônia Teixeira Brandão ........... 20 Saúde Mental no Município de Carmo – Atualidade ................................................... 23 Peculiaridades do processo de encerramento das atividades do Hospital Colônia Teixeira Brandão – a união do técnico e do jurídico. ....................... 26 Impactos sociais da desinstitucionalização dos pacientes do Hospital Teixeira Brandão ............................................................................................ 30. 2 2.1 2.2 2.2.1 2.2.2 2.3 2.4 2.5 2.5.1 2.6 2.7 2.8 2.9. DISCURSOS LEGITIMADORES (CONCEPÇÕES IDEOLÓGICAS) ..................... 35 História da loucura ........................................................................................................ 35 A loucura na Antiguidade ............................................................................................. 37 A sociedade Grega e a loucura ..................................................................................... 38 A loucura e o poder em Roma ...................................................................................... 42 A loucura da Idade Média............................................................................................. 43 O cuidado da loucura na Idade Moderna ...................................................................... 47 O tratamento da loucura nos séculos XVII e XVIII ..................................................... 49 Explicações para a loucura no século XVIII ................................................................ 54 A revolução de Pinel ..................................................................................................... 56 Do século XIX à atualidade .......................................................................................... 58 Trieste: a superação do modelo manicomial ................................................................ 61 A História do cuidado da loucura no Brasil .................................................................. 64. 3 3.1 3.2 3.2.1 3.3 3.4 3.4.1. ESTIGMATIZAÇÃO E EXCLUSÃO DA LOUCURA .............................................. 67 O Processo de estigmatização ....................................................................................... 67 Estigmatização da loucura ............................................................................................ 69 Instituições totais e o processo de estigmatização ........................................................ 71 Do estigma à exclusão .................................................................................................. 73 Exclusão da Loucura..................................................................................................... 77 Reflexos urbanos-territoriais da exclusão da loucura ................................................... 81. 4 4.1 4.2 4.3 4.3.1 4.3.2 4.3.3 4.3.4 4.3.5. FUNDAMENTOS JURÍDICOS (LEGAIS) – ESTATUTO DA INCLUSÃO ............ 85 Suporte Jurídico da Inclusão ......................................................................................... 85 Estatuto da Inclusão e Interdição .................................................................................. 92 Exercício de direitos existenciais.................................................................................. 98 Casamento e União Estável .......................................................................................... 98 Procriação ................................................................................................................... 100 Intervenções médicas .................................................................................................. 102 Eleição do Domicílio .................................................................................................. 103 Direitos Políticos ........................................................................................................ 104. 5 5.1 5.2. DESAFIOS E PERSPECTIVAS ................................................................................ 105 Resistência à inclusão ................................................................................................. 105 De volta à internação .................................................................................................. 105.
(11) 5.2.1 5.3 5.4 5.5 5.5.1 5.5.2. O papel no Ministério Público nas internações involuntárias..................................... 111 Ausência de recursos para fomento da política de saúde mental ................................ 113 A medicalização da loucura ........................................................................................ 116 Sociedade dividida ...................................................................................................... 121 Campo médico ............................................................................................................ 122 O papel do acolhimento familiar ................................................................................ 126. 6 6.1 6.1.1 6.1.2 6.2 6.2.1 6.3 6.4 6.4.1 6.4.2. PERSPECTIVAS ........................................................................................................ 130 A crise financeira do Estado x benefícios sociais ....................................................... 131 O Estado: entre o bem-estar social e o mercado ......................................................... 131 Brasil: neoliberalismo ou bem-estar social. ................................................................ 135 Neoliberalismo na atualidade ..................................................................................... 139 Proposta de Emenda Constitucional nº 241/2016 (nº55/2016) ................................... 140 Neoliberalismo e o cuidado da loucura ...................................................................... 141 Dignidade da pessoa humana e vedação ao retrocesso ............................................... 143 Sistemas peritos e confiança ....................................................................................... 144 Vedação ao retrocesso ................................................................................................ 146 CONCLUSÃO ............................................................................................................ 148 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 151.
(12) 10. INTRODUÇÃO. Como regra, a sociedade caminha com maior velocidade que o Direito. As mudanças comportamentais se solidificam ao largo das premissas normatizadas e ao legislador resta alcançar esta sintonia, de maneira a conferir segurança e proteção às relações intersubjetivas. Contudo, de forma excepcional, constata-se, por vezes, o caminho percorrido é inverso: o surgimento da lei obriga a sociedade a modificar radicalmente paradigmas consolidados de conduta. De fato, a partir da iniciativa de defensores de uma ideologia ou de interesses específicos, próprios ou alheios e do empoderamento das minorias1 cria-se uma norma, que através do emprego de elementos coercitivos (de força), impõe à sociedade a “aceitação” de novas regras de convivência, cuja legitimidade se pretende questionar. Dinâmica que encontrou eco na eleição da forma de cuidado conferido aos pacientes psiquiátricos, que excluídos do convívio familiar e social pelo isolamento nos hospitais, manicômios e sanatórios, por séculos, em verdadeira situação de cárcere, passaram a representar questão a ser resolvida pelo Estado. A luta contra o sistema de internações perpétuas foi protagonizada pelos profissionais da saúde mental, que em contato direito com a total falta de preservação dos direitos básicos destas pessoas passaram a pressionar o Poder Público no sentido de exterminar esta prática, estruturando a rede de atenção básica, de forma a atender estes cidadãos no seio de sua comunidade e na companhia de suas famílias.. 1. Reconhecendo a distância entre a realidade e o direito positivado, na seara dos direitos sociais, assim se manifesta Vera Telles: “De um lado, essa palavra, individual ou coletiva, que diz o justo e o injusto, é também a palavra pela qual os sujeitos que a pronunciam se nomeiam e se declaram como iguais, igualdade que não existe na realidade dos fatos, mas que se apresenta como uma exigência de equivalência na sua capacidade de interlocução pública, de julgamento e deliberação em torno de questões que afetam suas vidas e essa exigência tem o efeito de desestabilizar e subverter as hierarquias simbólicas que os fixam na subalternidade própria daqueles que são privados da palavra ou cuja palavra é descredenciada como pertinente à vida pública do país. O que instaura a polêmica e o dissenso sobre as regras da vida em sociedade não é portanto o reconhecimento da espoliação dos trabalhadores, a miséria dos sem-terra, o desamparo das populações nos bairros pobres das grandes cidades, ou ainda as humilhações dos negros vítimas de discriminações seculares, a inferiorização das mulheres, o genocídio dos índios e também a violência sobre aqueles que trazem as marcas da inferioridade na sua condição de classe, de cor ou idade. Em todas essas negatividades o discurso humanitário pode seguir tranquilo, é seu terreno por excelência aqui as identidades de cada uma na geometria simbólica dos lugares são apenas confirmadas. O que provoca escândalo e desestabiliza consensos estabelecidos é quando esses personagens comparecem na cena política como sujeitos portadores de uma palavra que exige o seu reconhecimento sujeitos falantes, como (...) que se pronunciam sobre questões que lhes dizem respeito, que exigem a partilha na deliberação de políticas que afetam suas vidas e que trazem para a cena pública o que antes estava silenciado, ou então fixado na ordem do não-pertinente para a deliberação política” (TELLES, 1998)..
(13) 11. Impraticável pensar em Estado Democrático de Direito sem considerar a proteção e resguardo de direitos fundamentais2, sintetizados na ideia de dignidade da pessoa humana, colmatados nos vetores de liberdade, igualdade, fraternidade (solidariedade). Nesta toada, em um primeiro momento, exigiu-se do Estado um comportamento negativo, de respeito às liberdades individuais (direitos de primeira geração ou dimensão3), diante da pouca efetividade alcançada, seguiu-se na busca por justiça social (igualdade) e por derradeiro, superou-se o plano do individuo para se postular a consagração de direitos afetos homem-social (solidariedade ou fraternidade). Nesta linha de raciocínio, a saúde enquadra-se na segunda dimensão direitos fundamentais e, portanto, demanda a adoção de uma postura positiva do Estado, integra a passagem de um panorama de liberdades abstratas, para um quadro de liberdades materiais e concretas, no sentido de densificação da equidade, em resposta aos anseios das classes economicamente menos favorecidas. E na formatação conferida aos direitos fundamentais, o constituinte teve o grande mérito de excepcionar o caráter programático genérico do texto para lhes conferir eficácia imediata, ao considerá-los cláusulas pétreas4 (artigo 5º, §1º e artigo 60, §4º da CRFB/88). Estabeleceu-se, assim, que o direito à saúde é universal, integral, dirigido pelos princípios de justiça social, concretizado de forma descentralizada, a permitir a aproximação com a realidade, garantindo-se a participação comunitária, na formatação da política e na fiscalização das ações adotadas. O direito à saúde é descrito, assim, como um estado integral de bem-estar, logo, abrange de maneira induvidosa o tratamento adequado das questões psiquiátricas e psicológicas. Embora transpareça clareza nesta ilação, decorridos 12 anos da promulgação da Constituição vigente, apenas no ano de 2001 a matéria recebeu a devida atenção do legislador. Naquele ano, também como fruto do movimento popular, capitaneado pelos trabalhadores desta seara, foi publicada a Lei Federal nº 10.216, que estabeleceu as diretrizes. 2. Artigo 16 da Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789: “Toda a sociedade na qual a garantia dos direitos não é assegurada, nem a separação dos poderes determinada não possui Constituição”. 3. Sobre a questão terminológica Ingo Wolfgang Sarlet afirma que: “[...] aludiu-se, entre nós, de forma notadamente irônica, ao que se chama de “fantasia das chamadas gerações de direitos”, que, além da imprecisão terminológica [...], conduz ao entendimento equivocado de que os direitos fundamentais se substituem ao longo do tempo, não se encontrando em permanente processo de expansão, cumulação e fortalecimento. Ressalte-se, todavia, que a discordância reside essencialmente na esfera terminológica, havendo, em princípio, consenso no que diz com o conteúdo das respectivas dimensões e “gerações” de direitos [...] (SARLET, 2012, p.45). 4. E assim obstar sua supressão ou erosão (SARLET, 2012, p.79)..
(14) 12. básicas da “Reforma Psiquiátrica” no país, que consagrou o abandono de um regime terapêutico essencialmente centrado na internação dos pacientes com transtornos mentais graves em hospitais especializados, para indicar uma linha de cuidado centrada na preservação dos direitos fundamentais destes indivíduos e assim redirecionou de maneira drástica o modelo assistencial vigente. Embora os avanços legislativos devam ser comemorados, a sociedade não anuiu de maneira tranquila, colaborativa e receptiva a esta nova forma de tratamento da loucura. Após 15 anos da edição do marco legislativo da reforma psiquiátrica, ainda não se obteve êxito integral na reinserção dos pacientes internados (encarcerados) por longos anos, no seio de suas famílias e comunidades. Neste contexto, busca-se analisar a inclusão social da loucura no Brasil após a reforma psiquiatria, a partir do processo de fechamento do Hospital Colônia Teixeira Brandão, em Carmo, no interior do Rio de Janeiro, onde de maneira pioneira os paradigmas encampados pela Reforma Psiquiátrica foram implementados, entre o ano de 2001 e 2012, transformando cerca de 200 pacientes em moradores da Cidade, capazes de contribuir para a economia local e usufruir dos mesmos serviços que qualquer outro cidadão que ali resida, verificando os pontos de sucessos e os obstáculos ainda a serem superados no empoderamento e garantia da dignidade dessas pessoas de forma geral no país. Nesta mesma toada, ainda se pretende aferir o impacto social do processo de desinstitucionalização, descrever os mecanismos de estigmatização da loucura e, por consequência, sua inclusão ou exclusão no seio da sociedade, além de discorrer sobre a nova forma cuidado e os equipamentos criados para substituir o asilo, considerando o suporte jurídico oferecido como de meio de conferir uma vida digna, em todos os níveis, às pessoas portadoras de deficiência psíquica e por fim trazer perspectivas gerais para o cuidado da loucura no país, em um momento de crise financeira e de densificação dos princípios neoliberais na economia, o que traz evidentes reflexos na efetivação das políticas públicas de cunho social. Nesta linha de ideias, inicia-se este trabalho com a descrição do processo de fechamento do Hospital Colônia Teixeira Brandão, a partir de dados colhidos junto ao Núcleo Estadual de Saúde Mental, do Carmo e a Gerência de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro, bem como através de entrevistas dos profissionais de diversas áreas envolvidos no procedimento..
(15) 13. Após, apresenta-se o substrato teórico da pesquisa, consistente na análise da relação da sociedade com a loucura no curso da história (capitulo 2), do seu processo de estigmatização e exclusão social (capítulo 3). Em seguida, passa-se à descrição do arcabouço normativo vigente, criado para conferir suporte ao movimento de inclusão social da pessoa com deficiência, pós-reforma, com foco na análise das inovações incluídas no regime jurídico pátrio pela Lei nº 13.146/2015, denominado de “Estatuto da Inclusão” (capítulo 4). Por derradeiro, se pretende discorrer sobre os alguns dos obstáculos à efetivação dos direitos e garantia da dignidade das pessoas com transtornos psiquiátricos (capítulo 5), bem como apresentar algumas perspectivas para o movimento de desinstitucionalização iniciado no país em 2001 (capítulo 6). Na conclusão do estudo, ressaltam-se os pontos positivos da transformação da vida dos internos do Hospital Teixeira Brandão, o sucesso da integração social ali alcançada, tecendo-se ilações a respeito das possibilidades de se replicar o modelo ali desenvolvido para outras comunidades, formalizando-se críticas e sugestões gerais ao processo de reforma psiquiátrica no Brasil. A metodologia aplicada nesse trabalho é, majoritariamente, revisão bibliográfica, utilizando-se, também de entrevistas e análise de documentos, colhidos durante visita realizada ao Núcleo Estadual de Saúde Mental do Município do Carmo e à Gerência de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro. Parte-se da contextualização específica do progresso no implemento dos parâmetros da reforma psiquiátrica no Município do Carmo, com fechamento do Hospital Colônia Teixeira Brandão, para de maneira geral se discorrer sobre os meandros da loucura e seu tratamento social no país, dentro dos parâmetros ofertados pela reforma psiquiátrica, abordando-se a questão sobre o ângulo do Direito, bem como trazendo, de maneira, não exaustiva, os exemplos de obstáculos que ainda deverão ser superados no caminho da garantia dos direitos deste grupo, além das perspectivas para o tratamento da loucura que se descortinam em um cenário de crise econômica e implantação de uma política neoliberal no Brasil. Os procedimentos de pesquisa deram-se em três modalidades: levantamento bibliográfico de obras teóricas, principalmente livros e periódicos; análise de documentos oficiais, relatórios institucionais, além de entrevistas pessoais. O estudo conduziu a autora a uma avaliação da forma de cuidados das pessoas portadoras de transtornos mentais,.
(16) 14. pontuando-se as estratégias de inserção social deste grupo, permitindo-se, até mesmo, traçar perspectivas e sugerir propostas de melhoria. A primeira parte do estudo foi resultado, basicamente, da visita de campo realizada ao Núcleo de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro no Carmo. A segunda adveio da análise da bibliografia sobre a história da loucura, parâmetros sociológicos e exclusão e inclusão social. Por derradeiro, a terceira e última parte, já na esteira da análise do momento atual, em seu aspecto macro dimensional, resultou da análise jurídica do Estatuto da Inclusão, a conferir novo rumo nas perspectivas do tratamento da loucura no país, com destaque, para os obstáculos que ainda devem ser superados para efetivar a garantia constitucional de dignidade das pessoas portadoras de transtornos mentais.. Encerra-se o estudo com análise das. expectativas para o cuidado da loucura, em um cenário de escassez de recursos financeiros e diminuição do papel do Estado na vida dos cidadãos. Considerando-se. a. interdisciplinaridade. da. abordagem,. foram. colacionadas. bibliografias relacionadas a diferentes campos de conhecimentos das ciências sociais, principalmente das áreas de psicologia, antropologia, história, filosofia, psiquiatria, economia e direito. Cada parte do trabalho valeu-se de uma ou mais áreas desses saberes, o que implicou na diferenciação da metodologia e dos parâmetros de pesquisa de cada uma delas. Após o relato sobre a situação fática encontrada no Município do Carmo, onde desde 2001, profissionais de diversos setores se propuseram a trabalhar em conjunto no intento de transformar os pacientes internos do Hospital Teixeira Brandão em moradores da cidade, na segunda parte do trabalho reflete-se sobre a evolução do conceito e tratamento da loucura ao longo da história, fundamentando-se, para tanto, nas obras do filósofo Foucault (1972), do psicanalista Frayze-Pereira (1984), com maior utilização da obra “Da clausura do fora, ao fora da clausura-Loucura e Desrazão”, da lavra do Professor de Filosofia Pelbart (1989), quando da análise do fenômeno na Idade Antiga e Idade Média. A descrição da loucura em Roma foi baseada na obra de Winterling (2012), bem como a bruxaria foi retratada com base no trabalho de Cardini (1996). A parte histórica também contou com a contribuição das obras do historiador Ouyama (2005), especialista em loucura e instituições de saúde. Do mesmo modo, o trabalho de Pessotti (1996) sobre o “Século dos Manicômios” subsidiou a pesquisa no que se refere a loucura no século XIX. Já o processo de estigmatização e exclusão social do fenômeno é tratado de maneira mais ampla, com base nos trabalhos do Cientista Social Goffman: “Manicômios, prisões e.
(17) 15. conventos” e “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (GOFFMAN (1974, 1998)”, além dos estudos da Professora Elda Coelho Bussinguer e da Advogada Maristela Lugon Arantes, que cuidam sobre o tema na obra “O estigma da loucura como fator usurpador da dignidade humana: uma análise na perspectiva do direito à saúde” (BUSSINGUER; ARANTES, 2016) e de maneira específica sobre o enfoque no fenômeno da exclusão territorial das pessoas portadoras de transtornos mentais, tendo por fundamento os estudos da Professora Pesquisadora Escorel (1999) consolidados na obra “Vidas ao léu: trajetória da exclusão social” e do Professor de Antropologia Canevacci (2004) “A cidade polfônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana”. A parte jurídica da pesquisa cinge-se à análise da Lei 13.146/15, o chamado “Estatuto da Inclusão”, cujo estudo teve por fundamento as obras do jurista José Fernando Simão (2015): “Estatuto da Pessoa com Deficiência causa perplexidade (Parte 2)”, Pablo Stolze (2016): “Deficiência não é causa de incapacidade relativa: a brecha autofágica”, oportunidade em que se pontuou questões de bioética a partir do trabalho da Médica Alcinda Maria Machado Godoi e do Professor Volnei Garrafa “Leitura bioética do princípio de não discriminação e não estigmatização” (GODOI; GARRAFA, 2014). No que se refere à narrativa dos focos de resistência ao reconhecimento e garantia da dignidade das pessoas com deficiências psicológicas menciona-se, em primeiro lugar, a falta de recursos financeiros para o implemento das medidas da política de saúde mental, neste ponto contou-se com a contribuição Fonseca (2007) “Entre a ficção e a realidade: financiamento versus capacidade de atendimento do CAPS”, na retomada das internações involuntárias, sendo que sobre o tema discorrem o Psiquiatra Daniel Martins de Barros e o Psicólogo. Antônio de Pádua Serafim na obra “Parâmetros legais para a internação. involuntária no Brasil Legal” (BARROS; SERAFIM, 2009). Neste ponto do trabalho também se tratou sobre o excesso de medicalização do sofrimento. Para tanto, pautou-se na obra do Sociólogo Americano Conrad (2007): “The medicalization of society: On the transformation of human conditions into treatable disorders”, bem como se obteve apoio no trabalho dos Professores Sônia Marina Martins de Oliveira Antunes e Marcos de Souza Queiroz intitulado “A configuração da reforma psiquiátrica em contexto local no Brasil: uma análise qualitativa” (ANTUNES; QUEIROZ, 2007). Nesta oportunidade, foi trazida à colação a crítica formulada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) à reforma psiquiátrica consubstanciada no manifesto denominado “Diretrizes Para Um Modelo de Assistência Integral em Saúde Mental no Brasil”, capaz de corroborar para a demonstração do quadro de resistência médica ao.
(18) 16. abandono do modelo hospitalocêntrico. Trazendo, por fim, os indicativos da dificuldade de assunção de responsabilidade por parte das famílias dos portadores de transtornos psiquiátricos demonstrados texto “A reforma psiquiátrica no olhar das famílias” (RANDEMARK; JORGE; QUEIROZ, 2004) e também no trabalho intitulado “Família e reforma psiquiátrica no contexto de um centro de atenção psicossocial: visadas à luz da crítica fenomenológica de Foucault” (MENEZES; OLIVIERA, 2016). Por derradeiro, dentro do ambiente interdisciplinar do estudo, discorreu-se sobre as perspectivas para o cuidado da loucura numa contextualização de crise econômica, na qual o atual Governo aponta para a adoção de princípios neoliberais na condução da economia, com o implemento de medidas de austeridade que, por certo, ensejarão perda da capacidade de financiamento da política de saúde mental (implantada após a reforma psiquiátrica). Para tanto, foram descritos, em linhas gerais os princípio do Estado Liberal com base na obra de Fonseca (2010): “Keynes: o liberalismo econômico como mito”, no trabalho de Esping-Andersen (1991): “As três economias políticas do welfare state”, de Curado (2011): “Uma avaliação da economia brasileira no Governo Lula”, ainda nas obras de Laurell (2002): “Estado e políticas sociais no neoliberalismo” e de Massimo (2013), “Como se explica o neoliberalismo no Brasil? uma análise crítica dos artigos publicados na Revista Dados”. E, apesar da crise financeira e dos princípios neoliberais que tomam conta do Brasil, finda-se a pesquisa invocando-se os princípios da dignidade da pessoa humana e a vedação ao retrocesso, como substrato jurídico-constitucional apto a conferir suporte à ideia de manutenção das conquistas alçadas no luta pelos direitos de liberdade das pessoas portadoras de transtornos mentais, para tanto buscou-se como apoio teórico a obra do Constitucionalista Daniel Sarmento “Dignidade da Pessoa Humana: Conteúdo, Trajetórias e Metodologia” (SARMENTO, 2016) e no estudo de Sarlet (2008): “Proibição do retrocesso, dignidade da pessoa humana e direitos socias: manifestação de constitucionalismo dirigente possível”..
(19) 17. 1 O HOSPITAL PSIQUIÁTRICO TEIXEIRA BRANDÃO. 1.1 DADOS GERAIS DO MUNICÍPIO. Carmo é um dos Municípios do Estado do Rio de Janeiro, localizado na região Serrana, no limite com o Estado de Minas Gerais, que de acordo com o último censo apresentava uma população (estimada) no ano de 2016, de 18.322 habitantes (IBGE, 2016). Figura 1 – Mapa do Município do Carmo. Fonte: http://www.agenciario.com/municipios.asp?codMunic=27. Até o século XIX, seu território integrava a Sesmaria que existia no atual Município de Cantagalo e era coberto pela Mata Atlântica original. Começa a ser povoado por volta de 1832, dentro do ciclo econômico do café que se expandiu por toda a região banhada pelo rio Paraíba do Sul. Com a construção da Igreja em homenagem à Nossa Senhora do Carmo, surge o Arraial de Samambaia que depois veio a se chamar Arraial de Cantagalo, posteriormente. Concluída a capela em meados de 1842, o povoado passou a ser chamado de “Arraial de Nossa Senhora do Carmo”, nome reduzido para Carmo, que conserva até hoje (IBGE, 2017)..
(20) 18. Figura 2 – Igreja Nossa Senhora do Carmo. Fonte: http://galeriamm.blogspot.com.br/2011/10/carmo-rj.html. Com o desenvolvimento da região, o arraial tornou-se a freguesia de Nossa Senhora do Monte do Carmo, ganhando o nome de Vila do Carmo de Cantagalo. Em 1889, o vilarejo é reconhecido como cidade e seus logradouros passam por um planejamento urbano, com o fito de projetar sua futura expansão e crescimento. O Município possui uma área em torno de 320 km². Sua população é predominantemente urbana, sendo a pecuária sua principal atividade econômica, ostenta índice de desenvolvimento humano de 0,696 (IBGE, 2013)5.. 5. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador concebido pela Organização das Nações Unidas (ONU) que tem por finalidade avaliar a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico de uma população..
(21) 19. 1.2 HOSPITAL COLÔNIA TEIXEIRA BRANDÃO. Realizou-se visita ao Município de Carmo entre os dias 16 e 17 de junho de 2016, oportunidade em que foi possível conhecer o trabalho desenvolvido pelo Núcleo Estadual de Saúde, integrado pelos Enfermeiros Tiago leite e Sandra Pereira Toledo, pelas Técnicas em Enfermagem Ângela Monteiro e Vera Lúcia Garcia, pelo Fisioterapeuta Fernando Jasmim, pela Psicóloga Fabricia Ximenes Canellas Ventura pelo Psiquiatra Marcos Argolo. Na oportunidade, se obteve acesso às estruturas do Hospital desativado, ainda sem nova destinação. Uma Fazenda Centenária de Café, localizada a 8 km do Centro da Cidade. O equipamento até 1968 tinha enfermarias com celas, era cercado por muros e mantinha salas de isolamento denominadas “cubículos” (atualmente demolidos). Figura 3 – Fachada Hospital Colônia Teixeira Brandão. Fonte: Dados da pesquisa. Ainda na década de 70, após uma grande chuva parte dos muros que isolavam os pacientes dentro da unidade caiu. O acaso incentivou a modificação nos parâmetros do tratamento adotado. Aos poucos as grades foram sendo retiradas, muros derrubados, o que permitiu que os pacientes circulassem pela grande área verde da fazenda, desfrutando de um pouco mais de liberdade..
(22) 20. Após, sob a gestão do Dr. Osmar Natalle Malvezzi passou-se a utilizar a laborterapia6 como principal forma de cuidados dos internos, que começaram a se ocupar de atividades agropecuárias no entorno das galerias onde ficavam alojados. Opção terapêutica que representou grande avanço à época. E assim, o nosocômio se tornou referência para internação psiquiátrica de pacientes psicóticos, deficientes mentais, usuários de álcool e outras drogas, além de abrigar pessoas que vagavam pelas cidades. Chegou a manter cerca de 400 pacientes, todos do sexo masculino, provenientes de diversos Municípios do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Recebeu pessoas transferidas de outras Instituições tais como do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói, na região metropolitana e do Hospital Estadual Vargem Alegre, em Barra do Piraí.. 1.3 A DESINSTITUCIONALIZAÇÃO DOS PACIENTES DO HOSPITAL COLÔNIA TEIXEIRA BRANDÃO. Em março de 2001, os rumos do pacientes do Hospital Colônia e da própria história do Município do Carmo começaram mudar. A Secretaria Estadual de Saúde realizou visita técnica, com equipe composta de profissionais de diversos departamentos, ligados à Superintendência de Serviço de Saúde. Todos os setores foram avaliados e apontou-se para a inadequação das condições técnicas e assistenciais do nosocômio, o que provocou a imediata intervenção da Assessoria de Saúde Mental e a consequente proibição de novas internações. Em continuidade ao trabalho realizou-se um censo clínico, que resultou na identificação de diversos pacientes sem qualquer referência familiar. Formalizou-se então um sistema de cogestão, entre Estado e o Município, a qual constituiu um Conselho Técnico Administrativo (CTA), com a missão de coordenar, supervisionar e fiscalizar o andamento do. 6. Antecessora da Terapia Ocupacional, a praxiterapia, laborterapia ou ergoterapia, no século XX (embora tenha chegado ao Brasil com a família real portuguesa) aprofunda a relação trabalho/doença mental como forma coadjuvante do tratamento dos pacientes internados nos manicômios. Franco da Rocha no Juqueri conseguiu que seus internos fizessem atividades rurais. No Rio de Janeiro, as Colônias de Jacarepaguá e Engenho de Dentro, os internos plantavam, criavam os animais, trabalhavam em oficinas, carpintaria, marcenaria e tipografia (RIBEIRO, 1999)..
(23) 21. processo de reestruturação do hospital, com base em plano de reorientação de toda assistência mental da Municipalidade. Em paralelo, as notícias da péssima situação dos internos chegam ao conhecimento do Ministério Público Estadual que instaurou inquérito civil7, no intento de acompanhar a situação, oportunidade em que foi celebrado compromisso de ajustamento de conduta 8, subscrito pelo Estado e pelo Município, em que se reconhece a obrigação de formalizar o Plano de Reorientação da Assistência dos pacientes do HETB. No ano seguinte o nosocômio foi indicado para ser descredenciado do Sistema Único de Saúde, em 18 de junho de 2003, logo após ser reprovado no PNASH9 – Plano Nacional de. 7. Procedimento administrativo destinado a subsidiar a propositura de eventual ação civil pública, conforme Resolução nº 23 de 2007 do Conselho Nacional do Ministério Público, artigo 1º , “[...]tem natureza unilateral e facultativa, será instaurado para apurar fato que possa autorizar a tutela dos interesses ou direitos a cargo do Ministério Público nos termos da legislação aplicável, servindo como preparação para o exercício das atribuições inerentes às suas funções institucionais. O inquérito civil não é condição de procedibilidade para o ajuizamento das ações a cargo do Ministério Público, nem para a realização das demais medidas de sua atribuição própria” (BRASIL, 2007). 8. O compromisso de ajustamento de conduta ou termo de ajustamento de conduta é o instrumento através do qual pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, reconhece a prática de conduta violadora da lei e se compromete a seguir condições, prazos, sob pena de multa ou quaisquer outras medidas coercitivas a modificar seu comportamento, seja uma omissão ou ação. Na explicação do Conselho Nacional do Ministério Público: “O termo de ajustamento de conduta é um acordo que o Ministério Público celebra com o violador de determinado direito coletivo. Este instrumento tem a finalidade de impedir a continuidade da situação de ilegalidade, reparar o dano ao direito coletivo e evitar a ação judicial. Isso ocorre, por exemplo, nos casos em que uma indústria polui o meio ambiente. Nesse caso, o Ministério Público pode propor que ela assine um termo de compromisso para deixar de poluir e reparar o dano já causado ao meio ambiente. Se a indústria não cumprir com seu compromisso, o Ministério Público pode ajuizar ações civis públicas para a efetivação das obrigações assumidas no acordo. O termo de ajustamento de conduta está previsto no § 6º do art. 5º da Lei 7347/85 e no art. 14 da Recomendação do CNMP nº 16/10:§ 6° Os órgãos públicos legitimados poderão tomar dos interessados compromisso de ajustamento de sua conduta às exigências legais, mediante cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial. Art. 14. O Ministério Público poderá firmar compromisso de ajustamento de conduta, nos casos previstos em lei, com o responsável pela ameaça ou lesão aos interesses ou direitos mencionados no artigo 1º desta Resolução, visando à reparação do dano, à adequação da conduta às exigências legais ou normativas e, ainda, à compensação e/ou à indenização pelos danos que não possam ser recuperados. Disponível em: <http://www.cnmp.gov.br/direitoscoletivos/index.php/4-o-que-e-o-termo-de-ajustamento-deconduta>. Acesso em: 27 jun. 2016. 9. Através da Portaria nº 251/GM, em 31 de janeiro de 2002, o Ministério da Saúde estabeleceu as diretrizes e normas para a assistência hospitalar em psiquiatria, reclassificou os hospitais psiquiátricos, definiu a estrutura, a porta de entrada para as internações psiquiátricas na rede do SUS. Neste sentido, trouxe uma nova classificação para os hospitais psiquiátricos integrantes da rede do SUS, apurada pelos indicadores de qualidade aferidos pelo PNASH – Programa Nacional de Avaliação do Sistema Hospitalar/Psiquiatria e o número de leitos do hospital, constante cadastro do Ministério da Saúde. Assim, os nosocômios deveriam ser avaliados, no período de janeiro a maio de 2002, pelos Grupos Técnicos de Organização e Acompanhamento das Ações Assistenciais em Saúde Mental das Secretarias Estaduais (Portaria GM/MS nº 799), podendo contar com outros profissionais convocados por decisão do gestor local. Reavaliados no prazo de 90 (noventa) dias, a contar do resultado da primeira avaliação. Sendo o índice mínimo de 61%, necessário à sua classificação como hospital psiquiátrico no SUS. Logo, aqueles que obtivessem índice inferior a 40% do PNASH, assim como os hospitais que não alcançassem o índice mínimo de 61% do PNASH, após o processo de reavaliação, não seriam classificados. Após, o gestor local deveria adotar as providências necessárias para a suspensão de novas internações e a substituição planificada do atendimento aos pacientes dos hospitais que não obtivessem pontuação suficiente.
(24) 22. Avaliação dos Hospitais Psiquiátricos. Iniciou-se, então, o processo de desinstitucionalização de 176 pacientes que ainda residiam no local. Em 2004, foram implantadas as 7 primeiras residências terapêuticas na cidade, onde 36 pacientes passaram a ser tratados como moradores. Em paralelo, 9 casas foram construídas nas imediações do hospital, destinadas a promover a adaptação de outros internos às rotinas domésticas, promovendo-se e incentivando-se sua autonomia. Desde então foram implantadas 21 residências terapêuticas espalhadas pela cidade, todas com nomes de pássaros da fauna local, onde residem 119 moradores. Dentro deste quadro, 24 ex-internos lograram alcançar nível de autonomia adequado para viver sozinho ou na companhia de seus familiares. Figura 4 – Residência Terapêutica em Carmo - RJ. Fonte: Dados da pesquisa.. para a sua classificação. Então, em conjunto com a Secretaria de Estado da Saúde, lhe caberia elaborar um projeto técnico para a substituição do atendimento aos pacientes dos hospitais não classificados, preferencialmente em serviços extra-hospitalares, determinando o seu descredenciamento do Sistema. (artigos 2º a 8º da Portaria nº 251 de 2002. Disponível em: <http://www.mprs.mp.br/infancia/legislacao/id2170.htm?impressao=1>. Acesso em: 29 jun. 2016..
(25) 23. Diante do expressivo sucesso da reforma psiquiátrica na cidade, mais recentemente, 35 pacientes oriundos do Hospital Estadual de Vargem Alegre10, que ainda se encontravam na cidade de Petrópolis, pois foram. trans-hospitalizados para a Clínica Santa Mônica11,. passaram a ser responsabilidade da equipe técnica do Núcleo de Saúde de Mental. Desde junho de 2014, parte desse grupo já vive no local, inserido nos Serviços de Residência Terapêuticas e na Rede de Atenção Psicossocial do Município de Carmo.. 1.4 SAÚDE MENTAL NO MUNICÍPIO DE CARMO – ATUALIDADE. Conforme depoimento dos integrantes do Núcleo de Saúde Mental de Carmo, 10 anos após a implantação das primeiras Residências Terapêuticas, no ano de 2014, comemorou-se o fato de todos os ex-pacientes do HETB terem deixado o nosocômio, passando a viver na cidade.. Fator de incremento da economia local e de comprovação da possibilidade de. convivência. A equipe destaca que a lógica desse serviço está em imprimir a marca do morar, onde cada casa tendia gradativamente se aproximar do funcionamento cotidiano de qualquer outra residência da comunidade, do convívio da vizinhança, das atividades de lazer, dos serviços de saúde, educação e assistência social. Estimula-se o paciente a circular pela cidade e explorar ao máximo suas possibilidades.. 10. Grande nosocômio psiquiátrico localizado no Município de Barra do Piraí, no Estado do Rio de Janeiro, teve suas atividades encerradas na década de 1990. 11. No dia 16 de outubro de 2014 foi realizada visita técnica à Casa de Saúde Santa Mônica, pessoa jurídica de direito privado, com 200 leitos conveniados ao SUS, especializada em atendimento psiquiátrico e internação de longa permanência. Mantém dois pavilhões para alojamento, separados por gênero. O alojamento é divido em quartos, com portas de madeira e raros armários para guardar pertences individuais, onde se há cerca 5 leitos. Há um pátio externo em cada pavilhão. Há três leitos para intercorrências clinicas e um posto de enfermagem, onde ficam os prontuários, prescrições médicos, material de curativos, livros de registro de ocorrência e medicamentos. De acordo com a direção da unidade pacientes internados em decorrência do abuso de álcool e outros drogas ou por ordem judicial recebem alta no máximo em dois meses. Grande parte dos pacientes já passou por processo de interdição, tem um curador e recebe benefício financeiro do Estado. Contudo, a instituição não encontra inserida na rede de atenção psicossocial do Município, não participando da construção de serviços terapêuticos que visem à desinstitucionalização de seus pacientes, não atua, portanto, em consonância com a Política de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Nestes termos, a Gerência de Saúde Mental do Estado indicou como caminho o encerramento gradual de suas atividades, direção também derivada da pressão exercida pelo próprio prestador, pretendendo galgar o aumento dos valores das diárias, bem como pelo próprio gestor local, a quem incumbia a responsabilidade final pelo processo de desinstitucionalização..
(26) 24. Apesar de todo o esforço, em alguns casos há grande dificuldade em quebrar o modelo asilar inserido no âmago do indivíduo, embotado pelo sistema asilar, reproduzido em suas residências. Conduta que demanda um trabalho diário de capacitação de toda equipe técnica envolvida (cuidadores, técnicos de referência, etc), no intento de desconstruir o hospício que existe em cada morador, em um trabalho que tem a transformação social como propósito12. Por isso a equipe de desinstitucionalização tem uma missão muito delicada, eis que formaliza a ponte entre o isolamento e o convívio social, fomenta a sensação de pertencimento ao grupo, torna “normal” a diferença. Esta costura diária visa devolver ao paciente o poder de escolha, a autonomia de agir dentro de suas possibilidades, o direito de optar estar no mundo, dentro da realidade. Hoje com 21 Residências Terapêuticas13 em funcionamento, demanda-se a dedicação de equipe técnica composta de 01 Diretora das Residências Terapêuticas, 11 Técnicas de Referência, 104 Cuidadores. Cada Residência Terapêutica tem uma equipe de Cuidadores, que se revezam, variando em número e qualificação profissional, de maneira a atender o nível de autonomia do grupo residente naquele local. As casas têm sua rotina individualizada, sua própria dinâmica, em conformidade com a harmonia dos moradores. Quanto mais autônomo o grupo, menor será a necessidade de profissionais na residência. Algumas têm apenas acompanhantes diurnos. Os moradores passam suas noites sem qualquer supervisão ou apoio imediato. Outras demandam revezamento ininterrupto de profissionais. Já as casas que abrigos moradores com sequelas neurológicas ou clínicas demandam uma equipe de acompanhamento, que tenha profissional de enfermagem 24 horas em seus quadros.. 12. Em uma cidade pequena como Carmo, é interessante ver como a equipe técnica convive e realiza nesses espaços, em princípio considerados privados, seu projeto de trabalho. Ir ao forró é também conviver com M., morador que passa os dias e noites em pé na praça, tudo observando, e convidá-lo a sentar à nossa mesa. É discutir a internação de um paciente com uma de suas referências informais, o dono de restaurante onde vamos comer. E poder perceber, na interação com a sociedade civil, que estatutos vão sendo colocados em jogo, no tecido social, para o portador de transtorno mental, para os ex-pacientes do HETB (HONORATO; PINHEIRO, 2008, p. 363-369). 13. Conforme Portaria do Ministério da Saúde nº 3090, publicada em 23 de dezembro de 2011, aos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs) incube acolher pessoas com internação de longa permanência (dois anos ou mais ininterruptos), egressas de hospitais psiquiátricos e hospitais de custódia, de acordo com as diretrizes descritas na Portaria nº- 106/GM/MS, de 11 de fevereiro de 2000. Este serviço são constituídos de duas modalidades, definidas de acordo com a necessidade específica de cuidado demandado pelo morador. Assim, são definidos como SRTs tipo I moradias destinadas a acolher até 8 (oito) pessoas com transtorno mental em processo de desinstitucionalização. Como tipo II as modalidades de moradia destinadas àquelas pessoas com transtorno mental e acentuado nível de dependência, especialmente em função do seu comprometimento físico, que necessitam de cuidados permanentes específicos. Neste caso o acolhimento é de até 10 (dez) moradores. Importante destacar que as duas modalidades de SRTs mantem-se como unidades de moradia, inseridos na comunidade, devendo estar localizados fora dos limites de unidades hospitalares gerais ou especializadas, estando vinculados à rede local de serviços de saúde. Para sua implantação o governo federal disponibilizava um incentivo financeiro, no valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) (BRASIL, 2011)..
(27) 25. Dentro deste contexto, desde 2013, cabe ao Núcleo Estadual de Saúde Mental acompanhar o projeto terapêutico singular dos moradores, que frequentam o Centro de Atenção Psicossocial, o Centro de Convivência, bem como outras atividades pelo Município, de maneira a criar uma atmosfera apropriada para a circulação dos pacientes pelo território, na medida em que ganham autonomia, aumentando, até mesmo, sua expectativa de vida. Figura 5 – Centro de Convivência de Carmo - RJ. Fonte: Dados da pesquisa.. Além disso, formalizam reuniões regulares com os Cuidadores, Acompanhantes Terapêuticos e Técnicos de Referência, estimulando a proatividade da equipe na construção coletiva do trabalho. Buscam ouvir o usuário, ao promover visitas periódicas, na busca sempre de melhorar os resultados do tratamento. Assim, todos os moradores são acompanhados pelo CAPS Carmo, através de seus Projetos Terapêuticos Singulares, cerca de 101 frequentam no Centro de Convivência, 16 participam dos projetos para a terceira idade, 14 estão inseridos no Programa Estratégia Saúde da Família, 18 participam das práticas religiosas do Município, 10 estão matriculados retomaram os estudos e 40 circulam sem qualquer supervisão pela cidade e todos, dentro de suas possibilidades, fazem passeios, casamentos, festas de rua,. comemoram seus aniversários com festas, vão a. participam do desfile cívico,. frequentam cinema e. mostrando que o lugar da loucura é o mesmo de qualquer outra pessoa.. teatro,.
(28) 26. 1.5 PECULIARIDADES DO PROCESSO DE ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES DO HOSPITAL COLÔNIA TEIXEIRA BRANDÃO – A UNIÃO DO TÉCNICO E DO JURÍDICO.. A Equipe de Saúde Mental do Carmo destaca o papel do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, no processo de fechamento do nosocômio, atribuindo à parceria desenvolvida com a Dra. Sheila Cristina Vargas14, parte do sucesso alcançado, com a progressiva transformação dos pacientes em moradores. De acordo com a Promotora de Justiça, há 20 anos, titular da Comarca de Carmo, o Hospital Colônia Teixeira Brandão, que fica próximo da divisa do Município com Sumidouro, era uma fazenda, seguia o modelo de hospital psiquiátrico agrícola, onde o trabalho era a principal medida terapêutica adotada e foi por muito tempo mencionado como referência na área. Representava, na verdade, uma ótima maneira de excluir o paciente psiquiátrico do meio social e escondê-lo em um local fechado. A intervenção do Estado na unidade, no intento de implantar os princípios regentes da reforma psiquiátrica, começou em 2001, mesmo período em que a questão foi normatizada pelo Congresso, logo, foi uma atuação pioneira, tendente a servir como modelo para os demais nosocômios do Rio de Janeiro. Ressalta que até 2001, todos achavam que era um serviço que tinha de ser daquela forma, que seria aquela a melhor maneira de cuidar de pacientes psiquiátricos. Assim, Irregularidades não eram comunicadas, pois havia muito interesse na manutenção do sistema. Impossível ignorar que o próprio familiar (por diversas razões) queria que o paciente permanecesse naquelas condições. Logo, ainda que houvesse um profissional de saúde capaz de lançar um olhar crítico sobre aquela situação, ele iria ficar indignado sozinho, sem qualquer ferramenta para promover modificações em um hospital que chegou a ter 400 internos. A chegada da equipe técnica da Saúde Mental do Estado mudou este panorama, trouxe outras perspectivas. A partir deste momento, estreita-se a relação dos profissionais da área de saúde com o Ministério Público, tudo que a equipe técnica fazia era debatido em reuniões, onde as decisões eram reduzidas a termo e constituíam-se ata encaminhada à Promotoria de. 14. Dados obtidos em entrevista, realizada no dia 16.06.2016, na sede do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, com a Promotora de Justiça, em Carmo..
(29) 27. Tutela Coletiva de Teresópolis, que com base nesses documentos elaborou o Termo de Ajustamento de Conduta que foi subscrito pelo Estado e pela Municipalidade. O enlace do setor técnico e jurídico possibilitou a elaboração de um documento minucioso, capaz de amarrar os compromitentes e viabilizar a execução de um serviço de qualidade para o público alvo. Dentro deste projeto, optou-se por construir casas em torno da sede do Hospital, que funcionariam como um “estágio” para que o paciente passasse a residir na cidade. Os pacientes aos poucos eram retirados da enfermaria e transferidos para estas casas. Moravam por um período nestas residências, dentro da estrutura da fazenda, iam se adaptando a rotina de uma residência, de um lar, até ter condições de morar na cidade. A meta era trazer todos para a zona urbana, não deixar qualquer dos pacientes no local, até mesmo para não abrir espaço para retorno das atividades de internamento. De início houve muita resistência dos moradores da cidade, inconformados com a “vinda dos malucos” para a área urbana. Lembra que uma moradora chegou a fazer “abaixoassinado” contra a instalação das residências terapêuticas, depois, não satisfeita, foi capaz de danificar a rede de água que abastecia uma das casas. Na verdade, a expectativa é que houvesse muito mais resistência, o que não ocorreu porque quando eles vieram para a cidade percebendo benefício, passaram a abastecer e movimentar o comércio local. Inclusive, chegou notícia apócrifa ao Ministério Público, exigindo providências, no sentido de que os residentes estavam indo de taxi até o “La Bodeguita”15, prostíbulo da região. Inclusive, na prestação de contas eram apontados os valores gastos com este tipo de programa. Prática que para eles passou a ser muito natural. De fato, com 149 moradores, as ocorrências recebidas eram poucas. Nada que tivesse causado muita alteração na rotina da cidade. Foi necessário que eles reaprendessem a viver em sociedade, aderissem aos hábitos e costumes daquele nicho social. Por exemplo, no hospital eles mantinham o hábito de deitar no sol, no chão. Logo, era comum que muitos deles optassem por dormir na calçada da residência, prática que aos. 15. Fatos também narrados no trabalho de pesquisa da Psicóloga Anna Carolina Rozante Rodrigues Salles que tratou sobre os modos de vida de pessoas com transtornos mentais na Contemporaneidade: “[...] Em relação à vida na cidade, buscamos conhecer o cotidiano das pessoas entrevistadas, que revelaram que seu dia-a-dia envolve predominantemente cuidados com a casa e também a frequência aos serviços que compõem a rede de saúde mental. Destaca-se que alguns pacientes revelaram estudar, tendo um professor particular que vai a suas casas, outros desempenham trabalhos informais e ainda dois deles contaram que frequentam casas de prostituição. Alguns disseram não fazer nada, mas se pôde observar que frequentam o centro de convivência. Os hábitos dos entrevistados envolvem uma rotina estruturada com horários para acordar e fazer refeições, o que se repete constantemente. Diante desta rotina nenhum entrevistado demonstrou qualquer crítica ou descontentamento. [...] (SALLES, 2014, p.38)..
(30) 28. poucos foi sendo modificada. Eles tiveram que aprender a se alimentar, sentar à mesa, utilizar talheres, comer sem ajuda, a mexer nos objetos, sem danificar. De início, trancava-se a geladeira, o acesso ao bebedouro era limitado, situações que apareceram na prática e foram trabalhadas pela equipe técnica. Vários dos pacientes voltaram para os Municípios de origem, mais de uma centena, mas boa parte ficou porque não tinha referência familiar ou por absoluta impossibilidade de retorno à convivência. Algumas famílias além de não receber o paciente, ainda detinham a curatela, recebiam os benefícios e não transferiam os valores. Não prestavam qualquer assistência, seja emocional ou material. Diante deste quadro foi instaurado um procedimento administrativo para cada paciente, no intento de analisar o caso de modo individualizado, para se saber com cuidado, qual seria a intervenção do Ministério Público e do judiciário naquela hipótese. Todos os que não repassavam os benefícios foram chamados e para que a partir daquele momento assumissem o compromisso de cuidar dos seus entes. Aqueles que não repassaram os valores foram processados criminalmente por apropriação indébita e muitos foram condenados. Em alguns casos não se instaurou inquérito policial de pronto, porque a meta era restabelecer o vínculo entre o morador e a família e, esta medida podia causar maiores danos à relação, muitas vezes já desgastada. Para dar apoio a toda esta estrutura, foi criado em Carmo, um Núcleo de Saúde Mental, para que o Estado mantivesse sua co-responsabilidade no trabalho desenvolvido, até mesmo porque o Município não teria estrutura para arcar com esta demanda sozinho. E para acompanhar a administração do dinheiro dos pacientes foi criada uma associação, composta por representante dos residentes, por moradores da cidade, AUFASSAMC16, paga-se um valor mensal para manter uma estrutura de controle do destino dos valores recebidos pelos moradores de cada residência. Até mesmo porque eles querem consumir, por exemplo, alimentos que o Programa não fornece, logo isso é adquirido com os valores próprios. Fazem festas, aniversários, eventos, tudo acompanhado por este associação, com cópia para o Ministério Público. Para que este projeto funcionasse, optou-se por concentrar a Curadoria dos residentes na Coordenação da Saúde Mental. Com a Lei da Inclusão, passou-se a substituir a curatela. 16. Uma instituição de direito privado que tem por finalidade garantir os direitos e deveres dos usuários de Saúde Mental. Atualmente, tem o papel fundamental de prestação de contas dos benefícios dos moradores, mantendo maior transparência nos gastos e despesas. É responsável por atividades de inclusão social..
Outline
Impactos sociais da desinstitucionalização dos pacientes do
História da loucura
A sociedade Grega e a loucura
A loucura da Idade Média
Do século XIX à atualidade
Estigmatização da loucura
Do estigma à exclusão
Estatuto da Inclusão e Interdição
A medicalização da loucura
Brasil: neoliberalismo ou bem-estar social
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