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A sociedade Grega e a loucura

No documento Reforma psiquiátrica: de interno a morador (páginas 40-44)

2 DISCURSOS LEGITIMADORES (CONCEPÇÕES IDEOLÓGICAS)

2.2 A loucura na Antiguidade

2.2.1 A sociedade Grega e a loucura

Na Grécia Antiga, pode-se afirmar que a experiência com a loucura nem sempre foi considerada algo negativo, muito menos uma doença, ao revés, em alguns momentos foi considerada até mesmo um privilégio.

Filósofos como Sócrates e Platão ressaltaram a existência de uma forma de loucura tida como divina e, inclusive, utilizavam a mesma palavra (manikê) para designar tanto o "divinatório" como o "delirante". Era através do delírio que alguns privilegiados podiam ter acesso a verdades divinas. Isso não quer dizer que essas pessoas fossem consideradas normais ou iguais, mas que eram portadoras de uma desrazão, a qual, apesar de habitar a vizinhança

do homem e do seu discurso, precisava ser mantida numa distância, separando o sagrado das experiências terrenas (SILVEIRA; BRAGA, 2005).

Peter Pál Pelbart em sua obra sobre desrazão e loucura destaca visões antagônicas deste fenômeno Antiguidade, cita o pavor de Ulisses ao se ver interpelado por Atenas a encontra-se com Ajax25, após episódio de insanidade deste último. “O invencível Ulisses nada receava, exceto a loucura, signo de desfavor divino, maldição e infelicidade”. Em comparação com o fascínio pela insanidade protagonizado por Sócrates no diálogo com Fedro, texto em que o filósofo aborda a questão de forma explícita e acurada.

[...] o diálogo se passa às margens de um riacho encantado onde Fedro lê para Sócrates o discurso de Lysias sobre o amor. A tese de Lysias é simples: é preferível ceder às solicitações de um amante que não ama — e tem a cabeça no lugar — a ceder ao amante que ama e que, por conseguinte, está tomado, pela loucura. Sócrates discorda, e expõe seu argumento principal: se a loucura fosse um mal, teríamos razão de falar assim; o fato, porém, é que "a loucura (mania) é para nós a fonte dos maiores bens” [...]

E segue o autor a destacar que ainda na Antiguidade fazia-se diferenciação entre a loucura como dom divino, mencionada por Socrátes no diálogo com Fedro, e a desrazão que acometeu Ajax, tida por maldita. Para ele a loucura divinizada por Sócrates se subdivide quatro espécies correspondentes, cada uma delas, a uma divindade específica: a loucura profética (Apolo), a ritual (Dionísio), a poética (as Musas) e a erótica (Afrodite), sendo que esta última leva à filosofia.

Já Platão ora adota uma interpretação compreensiva, ora almeja uma explicação filosófica para o fenômeno, por fim assume a corriqueira postura de exclusão (PELBART, 1989). Circunstâncias que para Pelbart (1989) não se contrapõe ao tratamento científico posterior conferido à insensatez, mas sim revela as diversidades de visões do fato na Antiguidade. Ressalta que Platão “enquanto expoente da cultura grega, concebia certas modalidades de loucura como legítimas e vizinhas da razão grega, numa relação que nossa história mistifica ou oblitera (o que dá no mesmo)” (PELBART, 1989, p. 25).

25 [...] Parece querer mostrar a Ulisses toda a demência de que é capaz um homem. Mas este não quer ver a

loucura de Ajax, e protesta. Ao que ela retruca: "Mas o que temes, não é pois um homem?" E em tom provocativo lança-lhe um novo desafio: "Então tens medo de ver face a face um demente?" Ulisses responde de forma invertida mas inequívoca: "Se ele fosse são de espírito, eu não teria medo”[...] (PELBART, 1989, p.22).

Conclui que, para os gregos, era mais significativa a loucura que vem de Deus do que o bom da humanidade. A filosofia para Platão seria o amor à sabedoria que teria em sua base o próprio delírio (COLLI, 1992)26.

A sabedoria teria origem na idade pré-socrática, não há um caminho contínuo entre esta e a filosofia, oriunda de uma nova forma literária, um filtro através do qual se condicionou o conhecimento de todo o precedente. No nascimento da tragédia grega estaria a fonte da sabedoria (COLLI, 1992). E nas sendas da sabedoria estariam os deuses Dionísio e Apolo, contudo, para Giorgio Colli, é no oráculo de Delfos em que através das adivinhações e possessões encontrava-se a construção do saber:

Em Delfos se manifesta a vocação dos gregos para o conhecimento: sábio não é o rico em experiências, o que sobressai em habilidade técnica, destreza, expedientes, tal como ocorre na idade homérica. Odisseu não é um sábio. Sábio é quem lança a luz na obscuridade, desfaz os nós, manifesta o desconhecido, determina o incerto. Para esta civilização arcaica, o conhecimento do futuro do homem e do mundo pertence à sabedoria. Apolo simboliza este olho penetrante. Mas o fato de ser Delfos uma imagem unificadora, uma abreviatura da própria Grécia, indica algo mais, o conhecimento foi, para os gregos, o valor máximo da vida [...] a arte divinatória (COLLI, 1992, p.11).

E na arte da adivinhação estaria a própria loucura e, portanto, a sabedoria divina:

[...] a pitonisa toma banho na fonte, bebe água sagrada, tem contato com o deus através do louro, a planta sagrada, e só depois disso senta-se sobre o tripé, seu assento ritual, para, já "plena de deus" (entheos, em estado de "entusiasmo" no sentido literal, sem que isso signifique necessariamente uma super excitacão frenética), veicular a palavra do deus na primeira pessoa do singular (PELBART, 1989, p.26).

Neste sentido, percebe-se o quão valorizada era a loucura na Antiguidade, atrelada, de maneira geral, ao divino e à verdadeira fonte de conhecimento. Neste período não havia tratamento, pois esta não era considerada como sendo doença, mas sim uma questão além do

26 Para Giorgio Colli, Platão chama a filosofia de amor a sabedoria, à própria busca, à própria atividade

educativa, ligada a uma expressão escrita, à forma literária do diálogo. [...] o amor a sabedoria para Platão não siginfica de fato à aspiração a algo nunca atingido, mas sim a uma tendência a recuperar aquilo que fora realizado e vivido. [...] pois Platão olha reverente o passado, um mundo em que existiram os verdadeiros sábios.

homem, que quase nada poderia fazer para reverter o quadro. Aos pobres mortais caberia apenas rogar aos deuses, quando ainda restasse consciência para isso.

A visão da sociedade para com o louco não era negativa, aproximando-se a um sentimento de comiseração e ao mesmo tempo de temor dos deuses, que poderiam deixar a todos nesta situação, a qualquer momento, dependendo apenas de suas vontades. A sociedade se compadecia do louco e tentava de todas as formas aplacar seu sofrimento tentando lhe mostrar sua insanidade, dando conselhos e rogando aos deuses para libertá-lo de tal fardo.

A loucura, portanto, estava enquadrada no modelo mítico-religioso, recebia um enfoque divino ou demonista, explicada a partir de forças sobrenaturais, as quais retiram a responsabilidade humana sobre sua conduta. Não havia, dentro desta lógica necessidade de exclusão social, não era uma questão moral ou de conduta.

Visão alterada com base no pensamento de Hipócrates (460-377 a.C.), que rompe com a irracionalidade como fundamento da mente perturbada e elabora uma conceitualização médica da loucura com base em explicações racionalistas e segundo as quais as doenças mentais teriam causas naturais (modelo organicista). E, a partir deste momento, passa-se a medicalizar a loucura, buscando-se tornar o patológico, normal. Conforme lição de Karina Gomes Cherubini, esta forma de cuidado persiste até hoje e justifica o emprego de terapêuticas psiquiátricas biológicas, como eletroconvulsoterapia.

Hipócrates [...] sustenta que a causa ou etiologia da loucura como sendo física, orgânica. Sua evolução histórica mostra a busca por um centro orgânico responsável pela loucura, variando entre útero, corrente sanguínea, coração, como responsável pelo calor vital, até sua fixação no encéfalo ou cérebro. Tem grande número de adeptos e desenvolve-se, sobretudo, a partir do Positivismo, que defende sua natureza científica (CHERUBINI, 2006, p.8).

Também na Antiguidade que surge o modelo psicológico, com os autores da tragédia grega, ainda presente na atualidade, tido como fundamento da psicanálise.

No documento Reforma psiquiátrica: de interno a morador (páginas 40-44)