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Academic year: 2021

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Do trauma à trama do corpo: considerações sobre a prática da Psicanálise no hospital *

Cristiana Rodrigues Rua** Marcos Vinícius Brunhari***

Introdução

O presente trabalho tem por objetivo abordar a teoria do trauma em Freud e suas intersecções com a questão do corpo, enfatizando as implicações para o trabalho do psicanalista no hospital. O texto é baseado na experiência clínica, no atendimento a pessoas que possuem doenças somáticas que acometem o corpo de forma brutal. São abordadas principalmente questões relativas aos sintomas no corpo como algo que escapa à possibilidade de representação, fruto de um excesso desvinculado da elaboração psíquica. Esse excesso será pontuado desde os primeiros escritos de Freud e de publicações da década de 1920 com a proposição da pulsão de morte e a retomada da questão do trauma. Também são examinadas as aproximações entre dor física e dor psíquica e a ressonância disto para a escuta clínica praticada no âmbito hospitalar. Por fim, serão enfatizados os efeitos da fala sobre o corpo e a relevância da teoria do trauma àquilo que se apresenta por meio de um corpo afetado pela doença.

*Trabalho realizado sob orientação da Profa.Dra. Maria Lívia Tourinho Moretto

**Mestranda no Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP; e-mail: [email protected] ***Doutorando no Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP (bolsista Capes); e-mail:

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Desenvolvimento

O início dos estudos psicanalíticos de Freud apresenta de forma singular uma convergência entre o traumático, o corpo e a histeria. A princípio, movido por sua pesquisa de cunho anátomo-funcional, Freud dirige-se ao Hospital Salpetrière e veicula-se aos trabalhos de Charcot eminentemente dirigidos à histeria. Nosograficamente relegada ao rebotalho médico, a histeria torna-se alvo das pesquisas freudianas e o caráter traumático configura-se como desencadeador dos fenômenos e conjuntos sintomatológicos. O quadro disruptivo observado na histeria encontra na descoberta freudiana as engrenagens de um funcionamento que, neste primeiro momento da obra do autor, é descrito em termos de uma energética. O trauma ocupa o lugar de uma marca que se estabelece de forma nuclear no sistema e que é impossibilitado de uma descarga motora adequada ou de um fácil acesso via associação de palavras. Desde então, o trauma causa um represamento da quantidade impossibilitada de descarga proporcionando a experiência de desprazer.

Desde os primeiros trabalhos de Freud, configura-se a referência a certa magnitude e sua vinculação às representações. O funcionamento psíquico é proposto a partir de um esquema de quantidades no qual o acúmulo é sinônimo de dor e a descarga, de prazer. Descarga que não se caracteriza como totalmente aliviante, uma vez que as quantidades provêem do exterior e do interior do corpo, sendo estas constantes. Freud destaca neste funcionamento a experiência de satisfação no momento em que um objeto outro é posicionado. A experiência de satisfação é possibilitada pelo Nebenmensch, a “ajuda alheia” (Freud, 1950 [1895], p.370), o qual oferece apaziguamento à tensão. Contudo, a repetição da urgência desencadeará, de forma alucinatória, o reinvestimento

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da representação do objeto que já se perdera. Com isso, há o delineamento de que a representação faz barreira ao excesso.

Estabelecer que há uma barreira simbólica à magnitude é um determinante clínico que encontra no que resta desta operação algo fundamental. A partir deste esquema no qual a quantidade alcança a representação, Freud pôde delimitar o conflito presente nas neuroses de transferência e diferencia-las das neuroses atuais. Enquanto nas neuroses de transferência, na histeria por exemplo, verifica-se a conversão sobre o corpo, as neuroses atuais compõem-se de formações sintomatológicas eminentemente somáticas: crises de angústia, fadigas, taquicardias e outras. A eminência de manifestações corporais neste quadro das neuroses atuais é apresentada por Freud desde a ausência de um aparato psíquico, ou simbólico, para uma quantidade derivada do corpo. O acidente no âmbito do registro simbólico determina uma formação como aquela que nos é relatada pelo paciente quando se refere a uma magnitude incontrolável que se apresenta pela via do corpo. Diferentemente da angústia, como afeto que afeta o corpo, o fenômeno que se apresenta no corpo é uma formação que supõe outras vias.

É interessante observar como estes pacientes tidos como “insuportáveis” pela equipe, visto que reclamam e questionam demasiadamente, falam também sobre a insuportabilidade. São pessoas que trazem em seu discurso a dimensão de um excesso com o qual convivem. Este excesso pode ser apontado de diferentes formas nas relações destas pessoas com seu trabalho, com a alimentação, com o tabaco, com o trânsito e até com o amor. Não nos atenhamos à plasticidade dessas formas de excesso, apenas indiquemos que esse excesso é articulado, pelo próprio paciente, àquilo que se apresenta em seu corpo. Portanto, é um excesso que atravessa os contornos mais imprecisos das delimitações entre o psíquico e o somático e que constitui alvo certeiro de teorias psicossomáticas.

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Diferentemente das teorias que indicam uma causa “emocional” para uma patologia orgânica, pretendemos falar a partir de outro lugar, uma vez que priorizar a escuta permite que a psicanálise seja inserida como campo no qual a palavra se faz destacada. Pensando nisso, cabe a questão: qual a articulação entre o excesso referido no discurso do paciente, em menção ao adoecimento de seu corpo, e a palavra?

É no trajeto desta questão que encontramos em Freud (1914), em seu “Sobre o narcisismo: uma introdução”, uma afirmação que nos direciona: “uma pessoa atormentada por dor e mal-estar orgânico deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo” (p.89). Nesta citação o autor evidencia o investimento libinal narcísico no momento da situação de dor e contrapõe isto ao investimento na externalidade, no objeto de amor. É pela via da distinção entre libido narcísica e objetal que a dor orgânica, a lesão, pode ser considerada como um deslocamento do investimento no objeto. Este desinvestimento, entendido por Freud (1914) como da ordem do amor, permite verificar que este processo ocorre em um âmbito distinto do da representação (Vorstellung) do objeto. Trata-se de algo da ordem do inominável, registro no qual a palavra se detém e o corpo sucumbe. Disto declara-se algo que está mais além do índice do prazer.

Será em “Além do princípio de prazer” (1920) que Freud postulará isto que escapa à representatividade, na medida em que seu trabalho é silencioso, como pulsão de morte. Desprendendo-se de uma qualificação da pulsão, Freud (1920) avança sobre a metapsicologia. Desde então, a pulsão de morte se ocupa de um retorno, de um processo de repetição no qual algo anterior é restaurado. A teoria do trauma passa por reconsiderações quando a repetição, seja das brincadeiras infantis ou dos sonhos pertinentes aos quadros de neuroses de guerra, é tomada como tentativa de elaboração de algo que permaneceu desvinculado da palavra. A repetição, que está além do

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princípio de prazer, circunscreve na obra de Freud o que é negativo, lacunar e inassimilável.

Freud (1920) faz referências constantes à substância viva, ao elemento biológico, o que não nos deixa de remeter ao corpo anátomo-funcional. De forma proverbial, o autor assevera que “o objetivo de toda a vida é a morte” (p.49) e no caso da matéria viva, tende-se ao retorno ao inorgânico, ao que não se vincula. Podemos assim assinalar a propensão ao desmembramento em relação à representatividade e o caráter de esfacelamento que a dor corpórea presentifica em relação à palavra.

Mais adiante, em “Inibição, sintoma e ansiedade” (1926 [1925]), ao fazer uma distinção entre as experiências de dor, angústia e luto, Freud aponta para os diferentes destinos das experiências de investimento, enfatizando que no caso da dor física há um investimento elevado na parte do corpo que está dolorosa; com relação à angústia tem-se a expectativa pela perda do objeto e, no luto, há um investimento na representação do objeto perdido. As três condições apontam para a experiência de desprazer. Freud (1926 [1925]) vai abordar as diferenças existentes entre dor, angústia e luto em relação à experiência de perda do objeto. Ao tentar fazer estas distinções o autor aponta que a experiência da criança pequena quando sente falta da mãe é uma experiência traumática, ligada à necessidade de que a mãe esteja lá para satisfazê-la e ainda não se configura em uma situação de perigo, a não ser que quando sente falta, a necessidade não esteja presente, mas sim a sensação de perda da percepção do objeto.

Ao abordar a questão da dor, Freud (1926 [1925]) aponta para o caráter narcísico desta experiência que foi abordado em 1914, em “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Há um intenso investimento no ponto doloroso do corpo, que pode cessar caso a atenção psíquica seja desviada para outros interesses. Freud (1926 [1925]), a

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partir da percepção de que há uma similaridade em termos econômicos entre o que é vivido na experiência de dor física e de perda do objeto, afirma:

Penso ser aqui que encontraremos o ponto de analogia que tornou possível levar sensações de dor até a esfera mental, pois a intensa catexia de anseio que está concentrada no objeto do qual se sente falta ou está perdido (uma catexia que aumenta com firmeza porque não pode ser apaziguada) cria as mesmas condições econômicas que são criadas pela catexia da dor que se acha concentrada na parte danificada do corpo. Assim, o fato da causação periférica da dor física pode ser deixada de lado. A transição da dor física para a dor mental corresponde a uma mudança na catexia narcísica para a catexia de objeto (p197).

Freud irá terminar este trecho do texto apontando para a experiência de desprazer que está presente nas experiências de dor e de anseio pelo objeto perdido, o que foi desenvolvido em “Além do princípio do prazer”(1920).

Estas considerações de Freud são extremamente importantes para o atendimento de pessoas acometidas por doenças orgânicas, nas quais percebemos que o intenso investimento na dor ou na lesão do corpo pode permanecer, mesmo que do ponto de vista médico não exista mais uma doença. Nota-se então a dificuldade na mudança de investimentos.

Considerações finais

No trabalho com pacientes que relatam o excesso que os atinge pela via do corpo, interrogamos nossa ação frente aqueles que, muitas vezes, sequer nos procuraram em um primeiro momento, sendo encaminhados por médicos e enfermeiros. Assim, frente a um silêncio marcado na carne, como fazer falar?

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Nesta transposição para o trabalho no hospital, podemos afirmar que o trauma entremeia as situações que presenciamos enquanto psicanalistas, seja no corpo afetado em sua realidade pela doença orgânica, seja nos eventos que antecederam a doença. Frequentemente temos relatos de acontecimentos que podem ser entendidos como situações de excessos não passíveis de elaboração psíquica que foram vivenciados antes do surgimento de uma manifestação somática.

Fragmento de caso clínico: Vitor (nome fictício), 49 anos, havia sofrido uma demissão no emprego, o que a seu ver foi injusta e que se configurou em uma situação extremamente desorganizadora para ele e sua família. Um ano após este evento, teve o diagnóstico de uma Leucemia Mielóide Aguda, o que trouxe momentos de intenso sofrimento e desamparo, além das modificações corporais advindas do tratamento quimioterápico e do transplante de medula óssea. Na época do adoecimento, Vitor não foi acompanhado por psicólogos ou psicanalistas, do que pôde se queixar depois, no momento em que foi encaminhado para psicoterapia, 4 anos após a cura de sua doença. O motivo do encaminhamento nesta época deu-se por suas idas recorrentes aos consultórios médicos, com manifestações somáticas, as quais já pareciam fugir do âmbito da Medicina e os médicos detectaram a necessidade de uma escuta que contemplasse o sentido daqueles sintomas. Queixava-se de dores difusas que apareciam em várias partes do corpo, além de gripes recorrentes. A escuta de Vitor em psicoterapia permitiu que fosse possível que ele colocasse em palavras, somente algum tempo após o tratamento, o que não pôde ser dito anteriormente, mas aparecia recorrentemente nas manifestações em seu corpo que não cessavam de insistir. Após um ano em psicoterapia, Vitor consegue queixar-se menos dos sintomas corporais e passa a dar sentidos para os acontecimentos de sua vida de uma forma diferente, ou seja, as

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representações aparecem, e Vitor pode significar os acontecimentos e não continuar investido em suas dores.

Este fragmento clínico nos mostra que, para além do momento do adoecimento orgânico propriamente dito, temos uma continuidade deste investimento na dor, o que impediu Vitor de estabelecer novas relações ou mesmo outras possibilidades de investimento em termos profissionais. Os investimentos estavam voltados para seu próprio corpo e para os inúmeros tratamentos que buscava.

A partir deste fragmento enfatizamos a importância de uma escuta clínica no hospital que contemple os aspectos da economia libidinal do sujeito no momento em que nos busca, sendo inclusive a transferência estabelecida no tratamento o caminho para a possibilidade de diversificação dos investimentos e também a possibilidade de que o corpo não precise ser a forma privilegiada de demonstração de um sofrimento que insiste.

No adoecimento somático, o corpo é a grande referência daquele que sofre. A enfermidade que se apresenta ao psicanalista, na maior parte das vezes previamente nomeada pelo saber médico, coloca-se como ponto de estofo, regulando a vida e os pensamentos do paciente, atormentando-o. Ele é tomado de assalto por esse excesso avassalador, é capturado por ele e revela uma grande dificuldade em dar novo sentido ao seu sofrimento, em constituir um novo significante que venha dar sentido ao seu sofrimento e dor. É assim que o que chamamos “excesso” faz com que o corpo fique numa relação de exclusão com a cadeia da linguagem e desafie a psicanálise, pois esta “lesão” não cede à interpretação, não pertence à cadeia significante - é da ordem do real.

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Referências bibliográficas

1) Freud, S (1914) Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XIV.

2) ---. (1920) Além do princípio de prazer. In: Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XVIII. 3) ---. (1926 [1925]) Inibição, sintoma e ansiedade. In: Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XX.

4) ---. (1950 [1895]) Projeto para uma psicologia científica. In: Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. I.

Referências

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