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Ciênc. saúde coletiva vol.19 número4

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Academic year: 2018

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Ciência & Saúde Coletiva, 19(4):1315-1318, 2014

Godbout JT.

Ce qui circule entre nous

. Pa-ris: Éditions du Seuil; 2007.

Eleonor Minho Conill2

2 Observatório Iberoamericano de Políticas e

Sis-temas de Saúde.

É necessária uma introdução acerca da trajetória de Jacques T. Godbout para entender melhor esta publicação que sintetiza seus trabalhos de inves-tigação sobre a dádiva e suas interfaces com a ciência política e social. Num conjunto de traba-lhos realizados nas décadas de 1970 e 1980 como

pesquisador do Institut National de Recherche

Scientifique do Québec, o autor se concentrou no estudo da participação local investigando as possibilidades dos usuários exercerem um mai-or controle sobre as mai-organizações, incluindo aque-las da área da saúde. É de sua autoria um dos trabalhos mais completos sobre a participação nas Clínicas Populares de Montréal e nos Cen-tros Locais de Serviços Comunitários.

Intrigado com os resultados (e com os desvi-os) desses processos publicou dois livros

insti-gantes: La participation contre la démocratie1 e La

Démocratie des usagers2.Essa sequência de traba-lhos certamente fermentou e amadureceu algu-mas das questões que lhe levaram ao estudo da dádiva, um domínio até então reservado aos

an-tropólogos. L´Esprit du don publicado em 1995 e

traduzido para o português3 marca o início de

uma colaboração mais intensa com o Mouvement

Anti-Utilitariste em Sciences Sociales, conhecido

como MAUSS. Mas, quais seriam as perguntas

que constituem o fio condutor de suas inquieta-ções e da atual publicação? E, qual a importância de seus trabalhos para a área da saúde coletiva?

As principais advêm da constatação de que entre as relações de mercado e àquelas impostas pelo Estado que terminam por se burocratizar, há algo mais que circula entre os indivíduos em suas relações e laços sociais. Em tempos de um gerenci-alismo exacerbado cujos objetivos nem sempre são atingidos, considerar que as interações sociais ocorrem por outras vias pode ser fértil.

Para o autor, a modernidade traz um mode-lo de pensamento dominante no qual o interesse é considerado como o motor universal da ação e o olhar para compreender o que circula entre as pessoas tem privilegiado a dimensão econômica. Outras maneiras de ver a sociedade são aceitas e podem enfocar as trocas simbólicas ou psíqui-cas, desde que não abordem o que “de fato” cir-cularia e que é conhecido por “bens e serviços”. O

livro pretende quebrar esse “monopólio” consti-tuindo-se numa contribuição para quem se

inte-ressa a outro modo de pensar e analisar la

circu-lation des choses, que não passa nem pelo merca-do nem pela redistribuição pública.

Está dividido em cinco partes: os atrativos do ganho, os atrativos da dádiva, a dádiva e os outros modelos, o potencial e pertinência do modelo da dádiva e o convite à dádiva (que cor-responde a conclusão). A primeira inicia por uma revisão das diferentes correntes que explicam a vida em sociedade (ursos ou formigas?) para ater-se ao predomínio da teoria da escolha racional baseada no interesse individual e na busca de re-sultados. Segundo o paradigma utilitarista, a ra-zão instrumental permitiria, ainda que por efei-tos indireefei-tos, obter o melhor em termos coleti-vos. Essa teoria situa-se num cruzamento de con-cepções psicológicas (motivação, tomada de de-cisão), sociais (mecanismos sociais de ajustes positivos) e morais (bem estar coletivo). Tem se sustentado por alguns atrativos, entre os quais, o fato de que a relação mercantil permite e refor-ça a ilusão de liberdade uma vez que se caracteri-zaria pela possibilidade da liquidação imediata de uma “dívida ancestral” através da transação

monetária. Trata-se da idéia do exit, voice and

loyalty desenvolvida por Albert Hirschman para análise das relações dos consumidores no

mer-cado. Toda transação tende a ser clara (clearing),

imediata, sem passado nem futuro e a liberdade de sair está ancorada numa liquidação imediata e permanente da dívida. A liberdade moderna seria essencialmente a ausência de “dívida”.

Ao abordar essa questão da “dívida ances-tral”, Godbout recorre, por exemplo, a Nietsche e a seu trabalho sobre a genealogia da moral.

Mas, também usa o estudo de Marcos Lanna4

sobre as relações de troca e patronagem no nor-deste brasileiro para mostrar como a percepção de uma dívida ancestral negativa tem facilitado situações de dependência e exploração.

Mas o modelo parece ser insuficiente e o au-tor desenvolve seus argumentos refletindo a par-tir de inúmeras situações concretas num diálogo com uma ampla gama de pensadores, tanto clás-sicos como contemporâneos. Alguma das situa-ções utilizadas para ilustrar esses argumentos advém de pesquisas na área da saúde, como por exemplo, o funcionamento dos Alcoólicos Anô-nimos e os laços que se estabelecem nos proces-sos de doação de órgãos. Há também uma críti-ca aos limites do modelo e das intervenções de prevenção na linha de outros trabalhos já

reali-zados no Brasil por Castiels5 e que certamente

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Resenhas Book Reviews

enriquecem e agregam novos elementos aos li-mites da ideologia de uma sociedade sem riscos. Na parte que se refere aos atrativos da dádi-va são discutidos os elementos que compõem um sistema de dádiva sendo revisado o modo como o tema é tratado por diversos autores in-cluindo, evidentemente, os clássicos estudos de Marcel Mauss. Embora trabalhando com socie-dades primitivas e com um sistema arcaico de dádiva, esse autor já realizava frequentes analo-gias com as sociedades modernas. Godbout des-creve diversas formas contemporâneas da dádi-va e aborda questões que para ele são centrais, tais como, o conceito de reciprocidade.

No âmbito da circulação mercantil é feita a distinção entre valor de uso e valor de troca, mas a circulação pela dádiva introduz um terceiro tipo

de valor: o valor do laço social (la valeur de lien).

O espírito contratual e a lógica do mercado ten-dem a negar esse valor ou dele se apropriam modificando seu sentido.

O objetivo central do livro é demonstrar a importância de reconhecermos a existência de um modelo de ação humana intrinsicamente relaci-onal em oposição ao “homem econômico” que

busca a relação pelo produto, le lien pour le bien.

Para o autor, o ser humano é social, o que impli-ca numa pulsão em direção ao outro, um desejo e um interesse pelos outros que é diferente do interesse por si mesmo, por seus bens ou pela pulsão de se autopreservar. E isto persiste e está presente em nossas sociedades.

Eis um aporte ainda explorado de forma tí-mida no âmbito da saúde coletiva, o que justifica uma resenha de um livro publicado para além do período sugerido (até 2 anos). Há regras que convém serem quebradas.

Referências

Godbout JT. La Participation contre la Démocratie.

Montréal: Éditions Saint-Martin; 1983.

Godbout JT. La Démocratie des Usagers. Montréal: Boréal; 1987.

Godbout JT, Caillé A. O Espírito da Dádiva. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas; 1999. Lanna MPD. A Dívida Divina. Troca e Patronagem

no Nordeste Brasileiro. Campinas: Editora da

Uni-camp; 1995.

Castiel LD, Alvarez-Dardet C. A saúde persecutó-ria: os limites da responsabilidade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2007.

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