C O M U N IC A Ç Ã O
A LEISHM ANIOSE T E G U M E N T A Í AM ERICANA EM U M A REGIÃO
ENDÊM ICA COMO FATOR D E MOBILIZAÇÃO COM UNITÁRIA
Ja c k so n M . L . C osta, K yola C. V ale, Flávio F ra n ç a , M a ria A u g u sta F. C osta, Jo ild a O . d a Silva, E d n ald o jL. L ago e P hilip D. M arsd en
R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i le i r a d e M e d ic in a T r o p ic a l
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A Universidade de Brasília mantém, desde o ano de 1976, um projeto de pesquisa na região de Três Braços (BA), visando estudar alguns aspectos sobre a leishmaniose tegumentar americana (LTA), doença endêm ica naquela região, cujo agente etiológico predominante é & L e is h m a n ia b r a z i lie n s is2
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Em 1983 fomos surpreendidos por grande núm ero de pacientes portadores de LTA, vindos em um caminhão proveniente da localidade de Corte de Pedra (BA), distante 45km do posto de atendimento de Três Braços (BA) os quais passamos a estudar, acompanhando todos os casos ocorridos naquela localidade. Somente nos anos de 1983 a 1984, c a d a s tra m o s 6 8 0 p a c ie n te s p o rta d o r e s de leishmaniose tegumentar, sendo que atualmente ultrapassa os 2.000 casos, todos provenientes de um a d istân c ia m édia de 40km do posto de atendim ento da zona urbana de Corte de Pedra (Figura 1).
A pesar do solo fértil da região, a população da zona rural vive em extrem a pobreza, lembrando a citação de Asmar1 quando refere-se à região cacaueira da Bahia como a “pobre região rica” . Esta localidade não apresentava a mínima infra-estrutura de atenção à saúde, daí encontrarm os um sincretismo cultural, que se expressa na medicina popular, devido à fusão de elementos culturais como o “ índio” , o “branco” e o “negro” que é predominante. Além disso, o caráter de “rústicos” “sim ples” e “prim itivos” que por imposição lhes é atribuído, deriva de sua não integração ao conhecimento legítimo e oficializado, definido como lógico e científico, o que configura uma visão evolucionista e etnocêntrica3 4 5.
N úcleo de M edicina T ropical e Nutrição da Universidade de Brasília e F undação Nacional de Saúde (FN S-M A ), Brasília, D F.
E n d e r e ç o p a r a c o r r e s p o n d ê n c i a: Pro f. Jackson M . L. Costa. D epto. de Patologia/U FM A . Pça. M adre Deus 02 M adre D eus, 62025-560 São L uís, M A .
R ecebido para publicação em 03/05/94.
Com a nossa permanência na área, procuram os estudar um pouco a comunidade, m ostrando-lhe a gravidade da situação naquele momento e que, somente juntos, conseguiríamos controlar o surto epidêmico de leishmaniose tegumentar que estava ocorrendo na região.
De nossa parte, começamos a entender m elhor o significado da doença para essa população, pois doença significa impossibilidade de trabalhar e, portanto, decréscimo na renda, que j á é mínim a. A saúde só pode se configurar como “riqueza” .
A riqueza para o homem da zona rural de Corte de Pedra é a condição de seu trabalho que, no entanto, é identificado como fonte de desgaste físico e de doença. Observa-se que a venda de sua força de trabalho não lhe assegura os meios n ec essá rio s à a lim en tação ad eq u ad a e, p o r conseguinte, à reposição do desgaste físico advindo de suas condições de trabalho. O consumo de certos medicamentos (populares e os da Central de Medicamentos do M inistério da Saúde) passa a funcionar como suplem ento alim entar, para o trabalhador e sua família3.
Nas fazendas distantes foram escolhidas pessoas que tinham noções sobre aplicação de injeções, as quais recebiam pequeno treinamento e o material necessário (seringas, agulhas, algodão, álcool) para aplicar a medicação antimoniato-N-metilglucamina (glucantimeR) nos pacientes de sua região.
Corte de Pedra possui atualmente uma população de 10.728 indivíduos, sendo 1.920 na zona urbana e 8.808 na zona rural (estimativa do IBG E, Prefeitura M unicipal de Valença). Nos anos de 1983 a 1985, cerca de 20 % da população foram acometidos pela leishmaniose tegumentar americana.
No decorrer do nosso trabalho, a comunidade se dispôs a cooperar, decidindo construir um complexo integrado (Posto de Saúde e Alojamento) que oferecesse as mínimas condições a uma equipe p restad o ra de serviços em relação à saúde.
C o m u n ic a ç ã o . C o s ta J M L , V ale K C , F ra n ç a F, C o s ta M A F, S ilv a J O , L a g o E L , M a r s d e n P D . A le is h m a n io s e te g u m e n ta r a m e r ic a n a em u m a r e g iã o e n d ê m ic a c o m o f a t o r d e m o b iliz a ç ã o c o m u n itá ria . R e v is ta d a S o c ie d a d e
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Surpreendentem ente, os trabalhos foram iniciados com re cu rso s p ró p rio s, através de m utirões organizados pelos líderes da comunidade, com apoio do comércio local e municípios vizinhos, assim com o da prefeitura municipal de Valença e de outras prefeituras. E m Julho de 1986, foi criada a U nião dos M oradores do Povoado de Corte de Pedra, entidade representativa da comunidade nos órgãos públicos e estabalecimentos comerciais, que se dedicou à construção do referido complexo in te g ra d o , h o je ú m a re a lid a d e (F ig u ra 2 ). Continuando o processo de mobilização social, fundaram o clube de jovens e clube das mães, entidades que servem de apoio à União deM oradores, com program ações voltadas à integração das diferentes faixas etárias nos problemas da localidade (Costa JM L: dados não publicados).
Assim , a comunidade iniciou todo um processo de conscientização, auxiliando na criação de uma rede básica de atenção primária e na ação comunitária. F oram criados mais três minipostos nas fazendas distantes, onde os agentes de saúde da própria
comunidade realizam o trabalho de atenção prim ária à saúde (Costa JM L: dados não publicados).
A medicina comunitária nem sempre é entendida pela grande m aioria dos profissionais da área de saúde, com formação básica geralm ente dissociada da realidade brasileira. A medicina com unitária não é “medicina de gente pobre” . Seus princípios se aplicam tantò aos subúrbios suntuosos de Brasília quanto às favelas de Salvador-Bahia, em bora sejam os pobres que se beneficiam mais com esse tipo de m edicina. E la evita a catastró fica separação tradicional entre a m edicina curativa, baseada em hospitais, e a saúde pública, orientada para as massas. Leva a medicina curativa à com unidade e aos lares e traz a medicina preventiva para dentro dos hospitais. Ademais, não devemos considerá-la como um a “ medicina de segunda classe” , ou como “medicina alternativa” . É um a tentativa orientada pela Organização M undial de Saúde7, para oferecer medicina “de prim eira”a todos, inclusive àqueles sem acesso a nenhum tipo de assistência médica, como a população de C orte de Pedra (BA).
C o m u n ic a ç ã o . C o s ta J M L , V ale K C , F ra n ça F, C o s ta M Á F, S ilv a J O , L a g o E L , M a r s d e n P D . A le is h m a n io s e te g u m e n ta r a m e r ic a n a em u m a r e g iã o e n d ê m ic a c o m o f a t o r d e m o b iliz a ç ã o co m u n itá ria . R e v is ta d a S o c ie d a d e
B r a s ile ir a d e M e d ic in a T r o p ic a l 2 7 : 2 5 5 -2 5 7 , o u t-d e z , 1 9 9 4 .
F ig u ra 2 - C o m p le x o in te g ra d o : p o s to d e sa ú d e e alo ja m en to , c o n stru íd o p e l a co m u n id a d e d e C o r te d e P e d r a (BA), atu a lm en te fu n c io n a n d o co m o ce n tr o d e tra ta m en to d a LTA n a re gião .
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