• Nenhum resultado encontrado

Braz. J. Cardiovasc. Surg. vol.8 número4

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Braz. J. Cardiovasc. Surg. vol.8 número4"

Copied!
2
0
0

Texto

(1)

Rev. Bras. Gir. Gardiovasc. 8(4): 257-258 , 1993 .

Palavras do Prof. Adib D. Jatene

Ao meu mestre,

com carinho

Fechou-se um ciclo da cardiologia brasileira com a morte do professor Zerbini , figura que marcou sua presença, nas Sociedades Brasileira e Internacional de Cardiologia , por uma atuação vigorosa, honesta, construída com tenacidade e muito trabalho .

Devo toda a minha formação cirúrgica a ele, com quem comecei a trabalhar, ainda estudante de Medi-cina, em 1951. Àquela época , iniciava-se a cirurgia intracardíaca no mundo, pela atuação dos cirurgiões que voltaram das frentes de batalha da 2ª Grande Guer-ra e que haviam adquirido enorme experiência com os ferimentos de tórax em geral, e do coração em parti-cular.

Cirurgião de tórax já consagrado, Zerbini lançou-se à cirurgia do coração com o espírito do pioneiro que enfrenta desafio armado de fé inquebrantável e de dedicação que chegava ao sacrifício pessoal.

Tendo permanecido 11 anos ao seu lado, testemu-nhei momentos de humildade que dignificam e dão perfil humano a quem é mais conhecido pela sua posição profissional , que exige determinação

tJ

firmeza de ati-tudes .

Lembro-me de operação , no iníçio dos anos 50, para tratar um grande canal arterial com hipertensão pulmonar, que apresentara episódio de endocardite. A operação ainda hoje é grave e de risco . Zerbini esme-rava-se para dissecar a estrutura quando , subitamente , ao tentar completar a liberação, houve ruptura do canal e profusa hemorragia , que punham em risco a vida do paciente. Ass isti, então , já bastante apreensivo , à

manobra de que só um experimentado cirugião do tórax seria capaz.

Resumindo e não entrando em detalhes técnicos, foi necessário sacrificar o pulmão esquerdo para pou-par a vida do paciente. Controlada a hemorragia, eis que o paciente apresenta parada cardíaca. A esse tempo , conhecia-se pouco sobre recuperação desse tipo de complicação . Massagem e desfibrilação fizeram retornar os batimentos . O paciente foi salvo e vive ainda hoje .

Quando o busquei , em sua sala, para informar que

(Publicado em "O Estado de São Paulo")

o paciente já estava em seu leito, antes de o encontrar triunfante por ter conseguido controlar o acidente-nas circunstâncias e na época, fatal - , encontrei-o chorando por não ter podido preservar o pulmão. Não proclamava o êxito. Humildemente, chorava a perda do órgão .

Outro episódio que guardo com respeito se rela-ciona com sua postura do início da cirurg ia com circu-lação extracorpórea.

O professor Hugo Felipozzi, que era seu assisten-te na Escola Paulista de Medicina , organizara , na Fundação Sabbado O'Ângelo , um valoroso grupo de profissionais e conseguiu , antes do professor Zerbini, operar, com sucesso , pacientes com a chamada cirur-gia a céu aberto , usando o coração-pulmão artificial.

Assisti , em vários congressos, ao professor Zerbini na primeira fila , após apresentação do professor Felipozzi , pedir a palavra e declarar que , apesar de todo o esforço de sua equipe, ainda não tinha conse-guido utilizar o método em pacientes, e por isso, res-saltava a contribu ição alcançada pela equipe do Sabbado O'Ângelo , fazendo , em seguida, indagações sobre detalhes técnicos.

Estes episódios , que recordo, emocionado, mos-tram a dimensão humana desta extraordinária figura que desaparece fisicamente , mas se eterniza na me-mória de todos aqueles que tiveram o privilégio de com ele conviver.

Ele era respeitado , não apenas por seus colegas e discípulos, mas também pelo povo . Certa vez, voltá-vamos da Argentina e enfrentávoltá-vamos longa fila no Aeroporto de Congonhas para visarmos os passapor-tes. Alguém o chamou para atendimento privilegiado. O comentário que ouvi, e recordo agora, foi : "Fizeram muito bem . Um homem destes não pode ficar na fila". Era a expressão maior do respeito por uma figura ímpar, que

vem

servindo de modelo a gerações de cirurgiões .

Sua imagem para os estudantes de Medicina é a de verdadeiro ídolo . Dez anos depois de aposentado da Faculdade de Medicina da USP, com 80 anos de

(2)

Palavras do Prof. Adib D. Jatene. Rev. Bras. Cir. Cardiovasc., 8 (4): 257-258, 1993.

idade , foi escolhido para patrono da turma de 1992.

Quando de sua aposentadoria, tive oportunidade de saudá-lo como "o discípulo que partiu". Disse-lhe, no fecho do meu discurso: "". Nenhum dos seus discí-pulos partiu . Estão todos aqui e agora, orgulhosos do seu mestre e da sua escola".

Este orgulho expressou-se na organização dos Encontros Anuais dos Discípulos do Professor Zerbini, aos quais todos compareciam . O deste ano , o décimo,

258

realizou-se em Santa Maria , no Rio Grande do Sul , 11 dias depois da sua morte.

No momento em que nos despedimos dele , estou certo de exprimir o sentimento de todos os seus dis-cípulos , que admiraram a sua técnica, respeitaram o seu profissionalismo, assumiram o seu lema de que "nada resiste ao trabalho" e dedicaram a pessoa hu-mana, imensamen(e grande na sua humildade , toda a amizade e todo o carinho .

Referências

Documentos relacionados

[2] demonstrated an excellent durability of mitral valvuloplasty using Carpentier’s technique with only 6.2% of the patients who underwent surgery for degenerative disease

Method: We modified the combined graft technique, by making anastomoses of the radial artery to the anterior interventricular artery, and, consequently the LITA is sewed above

As the animals were functionally homogenous soon after myocardial infarction, it is difficult to understand how a group which presented with a stabilization of the left

The irregularity of an aneurysmal thrombus or the presence of ulcerated plaque along the femoral-iliac access can be risk factors for embolic complications described in the

[7], studied 48 patients randomly divided in two groups, 1 using epsilon-aminocaproic acid and the other tranexamic acid, reported that there was no statistical difference in the

Also in the right lower limbs, 16 cases of iliac regurgitation at an intensity of less than 26 cm/s (Classes 1 to 3) occurred, which is similar to the great saphenous ostial in

The FC IV, the serous creatinine level > 1.5 mg/dL, the LVEF < 65%, the AP < 60%, the cardiopulmonary bypass time > 120 minutes, the time of aortic cross-clamping >

Surgical techniques for the treatment of ostial lesions of the coronary arteries, with the exception of endarterectomy [1], utilize patches of autologous tissue (bovine