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ACONTECE AO CORAÇÃO. A Chama.indd 17 06/02/19 12:32

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Academic year: 2021

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ACONTECE AO CORAÇÃO

Eu trabalhava sem parar Só que nunca lhe chamei arte Financiava a depressão

Encontrando Jesus, lendo Marx Claro que falhou, o meu pequeno

fogo Mas a centelha moribunda é

forte Vai dizer ao jovem messias O que acontece ao coração Há uma névoa de beijos estivais Onde tentei parar em segunda

fila A rivalidade era feroz

E as mulheres é que mandavam Não era nada, era trabalho Mas deixou uma marca feia Por isso vim revisitar O que acontece ao coração Eu vendia bugigangas sagradas E vestia ‑me com elegância Tinha uma gatinha na cozinha E uma pantera no jardim Na prisão dos talentosos Tornei ‑me amigo do guarda Por isso nunca tive de ver O que acontece ao coração

Devia ter adivinhado

Fui quase eu que tracei o plano Olhar para ela era um sarilho Foi um sarilho desde o início Claro que fazíamos um belo

casal Mas nunca gostei desse papel Não é agradável, não é subtil O que acontece ao coração Agora o anjo tem um violino E o diabo tem uma harpa Cada alma é um peixinho E cada mente um tubarão Já abri todas as janelas Mas a casa continua escura Basta render ‑se, depois é simples O que acontece ao coração Eu trabalhava sem parar Só que nunca lhe chamei arte Os escravos já lá estavam Os cantores amarrados e

queimados Mas o arco da justiça vergou ‑se E os feridos estão prestes a

marchar Perdi o meu trabalho a defender O que acontece ao coração

(2)

Depois estudei com um pedinte Que estava sujo e marcado Pelas garras das muitas mulheres Que não conseguira ignorar Não há fábula nem lição Nem cotovia a cantar

Só um pedinte sujo que abençoa O que acontece ao coração Eu trabalhava sem parar Só que nunca lhe chamei arte Não levantava grandes pesos Quase perdi o cartão do sindicato Era habilidoso com uma

espingarda A .303 do meu pai

Lutávamos por algo definitivo Não o direito de discordar

Claro que falhou, o meu pequeno fogo Mas a centelha moribunda é forte Vai dizer ao jovem messias O que acontece ao coração

(3)

retrato falhado

(4)

SIM

(5)

21 COSTELETAS DE BORREGO

estou a pensar naquelas costeletas de borrego do Moishe’s na outra noite

todos sabemos bem uns aos outros

quase todos os corpos são bons para comer até os répteis e os insetos

até o lutefisk venenoso da Noruega

enterrado na lama um milhão de anos antes de ser servido e o peixe ‑balão venenoso do Japão

podem ser preparados

para garantir riscos razoáveis à mesa

se o louco deus não quisesse que nos comêssemos uns aos outros porque nos faria a carne tão agradável?

ouvi na rádio

um coelho feliz na quinta dos coelhos que dizia à vidente animal

não fiques triste este sítio é encantador tratam ‑nos tão bem não somos os únicos dizia o coelho para a consolar todos somos comidos como disse o coelho à vidente animal

2006

Referências

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