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A pratica do folhetim, que a segunda metade do seculo XIX ve expandir-se de. bem

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Texto

(1)

Ela

nao e

ela

nem e a outra:

Julio

Cesar Machado, Da loucura e manias em Portugal

Helena Carvalhao Buescu

Abstract.Thisessayfocusesonthethemes ofexclusion, isolation and madnesspresentinJiilioCesarMachado’s work.Theporousdivision betweenthe spaceofexclusion or isolationandthatof“integration”of

i peoplesufferingwithmarkedpersonality disordersorsocialdisturbances orientsthisreading,adistinction reflected inthe bipartite structureofthe textitself.Drawing fromFoucault’sworkin this area,prominently along thelinesofdivision,exclusion andpurification,thisessay discusses the shadycrossoverbetween madness,religiousor mysticalbeliefs,

communicativedisorders,andlanguageandcognitive disturbances.

A

pratica

do

folhetim,queasegundametade

do

seculo

XIX

ve expandir-se de forma quase exponencial

em

Portugal, constitui

sem

diivida

um

outro lugar para apreender outras faces

do

seculo XIX.i

O

seu caracter potencialmente efemero e episodico, a sua aceitagao

do

fragmentario e

do

heteroclito,

bem como

asua

menor

submissao aos generos literariamente considerados

como

padrao, e por isso mais fortemente sujeitos a

um

preceituario canonico, permitem o aparecimento de inumeras narrativas soltas, apontamentos de viagem, impressoes pessoais (de caracteralias

tambem

heterogeneo,

em

quea notagao humoristica se

combina com

o breve

apontamento

de natureza

1 sociologica)

em

que justamente os autores

demonstram um

nitido maiora-

vontade relativamente as formas mais centrais

do

canone.

Nao

custara por

PortugueseLiterary

&

CulturalStudies12 (2007): 223-33.

©

Universityof MassachusettsDartmouth.

(2)

224 PORTUGUESELITERARY& CULTURAL STUDIES12

exemplo recordar, o qLie

nem

sempree tido

em

considera^ao, queas Viagens na

minha

terra

come^am

justamentea ser publicadas,

em

1843, sob aforma de folhetim, e que isto talvez importe mais para o que elas

propoem como

ideiadenarrativa

do

que apenas o

mero

factode terem tido

uma

publica^ao periodica, na ocorrencia a Revista universal lisbonense,

como

seu suporte primeiro.

Todos

ou

quase todososescritoresrecorreram aoformato

do

folhetim,

com

maior

ou menor

produtividade.

Mas

alguns

nomes podem

serlembrados

como

seus especiaiscultores,

com

particulardestaque paraosde AntonioPedroLopes de Mendoii(;a (1827-1865) eJulio Cesar

Machado

(1835-1890), cujas obras impressasseencontram praticamentenasuatotalidadeimpregnadaspela ideia

do

que

um

folhetim pode ser:

um

contido espa^o grafico

em

rodape da primeira pagina de

uma

publica^ao periodica, cuja total inexistencia de pre- determina^ao tematica oferece

um campo

de experimenta^ao e significativa liberdadeliterarias.

O

casodeCesar

Machado

eaeste respeitocuriosissimo:ja

em

Vida

em

Lisboa (1858) ensaiara

um

curioso desfile de personagens e situa^oes tipicamente urbanas e lisboetas; e, mais tarde, tanto

em

Lisboa de ontem

como em

Lisboa na rua,

ou

ainda

em

diversas narrativas de viagens, retomaessetipodeolhar,que

em

muitosaspectosanunciaaLisboaque E^a

ou

Cesario tratarao: na primeira, atraves da recria^ao humoristica

do

quotidiano lisboetadasdecadasde 1830e 1840,

com

arecorda^aodefigurastipicas

(como

o sapateirodaescada,ocoxo-ladrao,o soldadoda guarda,

mas tambem

alguns politicoseasuaac^ao,algunsescritores easuaobra)

ou

deepisodiosesitua^oes

(como

a importancia de “nao ter tempo,” o papel do cafe,

ou

as pe^as do Ginasio).

Na

segunda, o destaque vai para o coloquialismo muitas vezes cruzado

com

a ironiae ate

mesmo

aparodia paraapresentartipos,situa^oese cenarios lisboetas, alvode

um

olharao

mesmo tempo

satiricoe documental:o diadeSao Martinho

ou

oPasseioPublico, a sopeiraeo soldado,a pretadafava- ricae os cantores ambulantes desfilam nestaobraquede

algum modo

retoma

uma

tradi^aoque,

embora com

algunsexemplosanterioressobretudonapoesia do seculo XVIII,

em

particularTolentino, nao tern recebido talvez aatengao quepoderia,

no

sentido de complexificaranossa apreciagaocrftica.

E

pois neste contexto quegostaria de analisar aqui o caso a varios titulos curioso,adentro

mesmo

daobrade Cesar

Machado, do

seu

volume

intitulado

Da

loucura e das manias

em

Portugal (1872). Concebido inicialmente

como

descri^ao

do

estado da situa^ao dos doentes internados

no

Hospital de Rilhafoles, o texto de Cesar

Machado

cedo ultrapassa,

como

veremos, o

(3)

THEOTHER NINETEENTH CENTURY 225

estatutode

mero

conjuntodeartigosparapassar a representar

um

curiosissimo painelsobre“desviosda personalidade”e “disttirbios socials,”tanto osque dao origem a internamentos

como

os que continuam adesenvolver-se

no

interior

do

palco social, criando-se assim

uma

linha de

alguma

continuidade (potencialmenteamea^adora e desestabilizante, e a isto voltarei) queesbate as segrega^oes obvias e tenta captar as razoes pessoais para os comportamentos

descritos. Assim, se surgem nesta obra doidos, idiotas e furiosos (segundo a classifica^ao da epoca), temos

tambem

apontamentos extensos sobresonhose sinas, engui^os e agouros, feiti<;os e encantos, sobre a “coisa

ma”

e sobre as

“mulheres devirtude.”

A

propriaestrutura daobra apontaparaesta parti^ao: seoinicio todoele decorre

em

Rilhafoles,o lugardaexclusao,

ocupando

os capitulosIa IV, logo os nove capitulos seguintes dao conta da sua extensao, daquilo a que poderiamosreferir-nos

como

asocializa<;ao

do

“desvio”esua banaliza^ao, que

e

tambem

comunaliza^ao.

E

isto oqueo propriotitulosublinha,ao anunciar quevai falardaloucura (Rilhafoles)

mas tambem

dasmanias

em

Portugal

e a narra^ao que de tais manias e feita acentua o caracter subtilmente continuo entreforae dentro: afrase inicial

do

capitulo V, que precisamente inaugura o olhar sobre as manias que

enxameiam

a cenasocial, e

“Tambem

os haca porfora!” (77),^ e narealidade aquiloque ocupara integralmente o resto

do

texto e

um

preciso inventario,

em

cortejo que parecequerer atingir forosdaquase universalidadequecaracterizavaasdan^asmacabrasmedievais, das manias mais insuspeitas que atingem todosos que

andam

“ca porfora.”

A

obra de Cesar

Machado

e assim devedora

do movimento,

que Foucault analisou

em

Histoirede lafoliea Vage classiqued’ que

conduz

daquilo a que

chama

o “grandefechamento” {legrandrenfermement,que ocorre

em meados

do seculo XVII, e que esta na origem da medicaliza^ao da loucura) ao reconhecimento, ja

em meados do

seculo XIX, da existencia de fronteiras porosas entre a loucura e a racionalidade: a banaliza^ao

do

desvio e a sua socializa(;ao habitam assim o texto de Cesar

Machado como

consciencia tragica (eaqui retomo ainda a distin^ao foucauldianaentre atitude tragicae atitudecriticafaceaoproblema) doscanalssimbolicosque nao

permitem

que o gesto exclusive se

tome

definitive, e muito

menos

surja

como

garante contraa irrup^ao dasamea^asa racionalidade navida “capor fora.”

Dois exemplos parecem poder surgir

como

lugares-limite para esta reflexao

sem

duvida

alguma

ameac^adora:

um,

o

do

evocado (mas singularmente nao

nomeado

senao por antonomasia)

Antonio

Pedro Lopes

HELENA CARVALHAO BUESCU

(4)

226 PORTUGUESELITERARY& CULTURAL STUDIES12

f

de

Mendon^a,

“famoso e ilustre, o mestre

do

folhetim

em

Portugal” (64), CLijo internamentoe posterior morte constituiram caso que impressionou os sens contemporaneos e

em

particular Cesar

Machado. O

outro, o de

um

pequeno

episodio passado

com um

sujeito que o director

do

hospital tinha convidado a fazer

uma

visita

episodio que,pelas suas implica<;6es, interessa aqui citar:

Depois, por acaso, perguntou ao Dr. Pulido como e que costumava fazerpara levarparaaliosenfermos.

O

Dr.Pulidofixou-ocomoolhar

um

poucovagoque tinha, bem devem lembrar-se disto os que o conheceram

e que parecia de algumamaneiraseroreflexodoolhardosdoentes,erespondeu:

-

Nao

CListanada.

Em

sendopessoasdecertaclasse,afamiliapede-meparairve- las,convidam-sea jantar,vemsemdesconfian^a,e,taodepressa caasapanho,

em

elasquerendoir-seemborajaachamasportas fechadas.

O

outroouviuistocobrindo-sedesnoresfrios,eacudiu-lheaideiadequeaquele convite tambemfosse

um

la^o.

A

sobremesa puxoupelo relogio,pediu desculpa de naosepoder demorar,levantou-sea pressa, despediu-se,eao chegar aopatio largoLi a correr. (45-46)

Estesdoisexemplos (mas hamais,

como

o

do contmuo

que recebeCesar

Machado

nasuavisita, e que e ele

mesmo um

enfermo,

mas

capaz de fazer inveja aos

contmuos

“de fora”...)

acentuam

precisamente a linha que julgo subjazer a todasas reflexoes empreendidas por Cesar

Machado

nesta obra: a dequeogestoquegarantea partilha entreos dois espa^os,o

do

internamento

eoda cenasocial, eporoso efragil, mais

do

que porvezesse julga.Assim,se o continuo-enfermo daconta deque e possiVel aquernestadentro agirpelo

menos com

igualcompetencia^ueles queestao fora,e a recorda<;aode Lopes de

Mendon^a

assegura da dificuldade

em

apartar o extra-ordinario

do

a- normal, o episodio

do

sujeitoqueciteidaconta de duvidasque

podem

assaltar qualquer

um,

daauto-exclusao ao

medo

daloucurapropria.

A

fronteira, pois, jaseencontraesbatida

em meados

do seculoXIX,eaintensamedicaliza^aode que a loucura tinha sido alvo

come

9a a abrir as possibilidades de lugares de passagem que naturalmente atestam outras tantas formas de ansiedade e angustia.

Assim, aquilode que Cesar

Machado

esta

tambem

afalar nestaobraede peculiares ritos de passagem pelos quais o gesto de exclusao, que Foucault considera estabelecido a partir de

meados do

seculo XVII, e objecto de

(5)

THE OTHER NINETEENTH CENTURY 227

duvidas pertinazes eansiosas, de queo

Romantismo tambem

sealimenta.

O

grande fechamento que tern

como

objecto a loucura, e que Foucault considera

como

herdeiro dasleprosarias medievais e

do

queelas implicaram

como medo

da morte, torna-seassim

bem menos

exclusivoe seguro

do

que

a partida parecia ser

de

modo algum

constituindo

um

garante para que a partilha dos espa^os e a estabilidade das fronteiras que os separam sejam consideradas

como

definitivas:

En faitleveritable heritagede lalepre [il hutlechercher] dans un phenomene

fortcomplexe,etquelamedecinemettrebien longtempsas’approprier.

Cephenomene,c’est la folie.Maisilfaudraunlongmomentdelatence,prbde deux

siecles,pour quecettenouvellehantise,quisuccMealalepredanslespeursseculaires, suscite

comme

elledes reactions departage, d’exclusion,depurificationquiluisont pourtant apparenteesd’unemaniereevidente.Avant quelafolienesoitmaitrisee, vers lemilieuduXYIIemesiecle,avantqu’onressuscite,a sa faveur,devieuxrites,elleavait eteliee,obstinement,atouteslesexperiencesmajeuresdelaRenaissance.( 18)

Partilha, exclusao e purifica^ao sao assim tres dos

mecanismos

que Foucault considera centralsparaaexperiencia

do

grande fechamento que, a partir

do

final da Idade Classica, cristalizara as rela^oes entre sociedade e loucura,

no

Ocidente.

E tambem

dessestres

mecanismos

queotextode Cesar

Machado

fala,reflectindosobreasformaspelasquaisohospitaldeRilhafoles, fundado

em

1850 pelo Marechal Saldanha, e por isso ainda relativamente novo enquanto experiencia de exclusao, permite construir

uma

partilhados territorios socio-simbolicos que sustentam a vida social e subjectiva dos sujeitos.

As

fronteirassimbolicas,o

medo

queIhes estaassociadoeaexpulsao social estao na raiz da reflexao por ele conduzida, que se

detem

alias sobre inumeros casos de “loucura problematica”

ou

pelo

menos

nao manifesta, e

que por esse motivo se transformam

em

outros tantos elementos que amea<;am a seguran^a da partilha e a possibilidade de purifica^ao. Esta purificagao simbolica e alias intuida pelo proprio Cesar

Machado,

ao estabelecer

uma

rela^ao

bem

claraentre tantas formas dedesvios menores da racionalidade socialmente aceite e a dimensao religiosa e

mesmo

mitica da vida: por isso fala de agouros, superstiq:6es, feiti^os e encantamentos

como modos

alternativosebenignos deviver,

sem

exclusaosocial, os efeitosde

uma

racionalidade mais

minada do

que apartida muitosjulgariam:

HELENA CARVALHAO BUESCU

(6)

228 PORTUGUESELITERARY&CULTURALSTUDIES12

Ternrodaviaessasnaturezas [dos supersticiosos] oquequerquesejadereligiose.

Vao seguindo navida como aElectra dosgregos, devota e severa, confiando as cegasnosoraculosesubmetendo-sesemmurmurioasleisdafatalidade.Parecem- Iheslegitimos ossacrifkios;-dir-se-iaque,comooutrora,ouvemosdeuses pedir- Ihos; ofereceriam o pesco^o ao cutelo resignadamente,

como

holocausto inevitavel, seoagoiro osavisasse...Osartistasprincipalmente

osquesaodignos

desrenome,os notaveis, osverdadeirosartistas

ternsuperstigoes indestrutiVeise muitasvezes osacontecimentosparecemmaistarde dar-lhesrazao. (121-22)

Assim, e

como

se ve, a aproximacao entre a experiencia da loucura e a experiencia mitico-religiosa

conduz

Cesar

Machado

ao delineardafigura

do

artista

como

esseser de excep^ao que representaria,

no

seio dainterioridade burguesa, a permanencia velada daquilo a que Foucault veio a chamar, justamente, a “consciencia tragica” (e nao “cn'tica”) daloucura.

No

quadro pois das porosidades que fazem cada vez mais da fronteirade exclusao

uma membrana

atravessavel, a figura

do

artista converte-se

no

expoente daquilo que Cesar

Machado

deoutro

modo

consideracada vezmaisbanale

comum:

as manias

em

Portugal nao se restringem

^uilo

que os

muros

de Rilhafoles contem, e vao-se manifestando nos mais pequenos lugares

do

dia-a-dia de grande parte da populacao, desde a crenca nas almas-penadas e nos lobisomens ateaos sonhos ou, muito simplesmentea “coisama,” que expoe nasua indiferenciacaosemantica(“coisa”) o propriofactodese desdobrar

em

imimeras pregasdo nosso quotidiano.

Cesar

Machado

falaassim daquiloqueeleproprio designa

como

“onadinha impercepnVelqueseparaarazaoda loucura” (45),

em

claraintuicao de alguns dos procedimentos que alicercam a consciencia de que, neste terreno

como

noutros,actuam mecanismosde perspectivismo erelativizacaohistoricos:

Asvezeschegaaparecer-nosqueenaturaltudoaquilo;queosercomonossomos

eportar-secomonosportamos

e serafectado,e serpedante;queassimcomona

natureza tanto ha sensiti^'as como ha cevada e centeio, assim deve haver nas criaturassentimentos complexosquealinguagem\oilgarnaopoderiadar;quesao elesquerntern juizo;melhordo queJui'zo,talento: a finura,o guindado,aquinta essenciado espi'rito;que

em

nos ha simplesmentemudancade convencoes; que

elesestaomaispertodoestado natural;quetudovaida maneira deverascousas edeas julgar;da opiniao doshomensedogenioemodadostempos [...]. (7-8)

(7)

THEOTHER NINETEENTH CENTURY 229

Assim,nao admiraque, nanarrativa detudo quantose passadentro

como

fora de Rilhafoles, o procedimento estruturante

do

texto de Cesar

Machado

coincida

com

o da constru^ao de brevissimas historias

em

torno de tantos OLitros episodios que de

algum modo

concretizam figuralmente,

bem como

ficcionalmente, osde outro

modo

“casos”encontradosnasuavisitaaohospital.

Fora

como

dentro,otextoconstroi-se apartirdanarra^aodehistoriascentradas

em

tornode

uma

personagem principal,

um

caso concreto queerepresentado atraves dos pormenores que sustentam

uma

historia pessoal, muitas vezes recorrendo a

uma

ancoragem espacio-temporal e ate sociologica e escolhendo verter-se sob o

modo

privilegiado de curtas cenas entrecortadas pela forma

dialogal: tudo procedimentos quevisam,

em

ultima analise, trazer ate a

uma

dimensao presente os casos narrados, recortando-os na sua configura^ao concretadeepisodios,enaoenquantomeros exemplosdecategorias abstractas.

Trata-se aqui,

muito

especialmente, de apesar de tudo encontrar alguns

mecanismos

dedefesaparaosperigos detantorelativismo, que naturalmente

em

ultima analiseamea^aria as proprias condi^oes deexclusao pela qual os hospicios passaram, a partir de

meados do

seculo XVII, a representar a partilha social e sobretudo simbolica que as leprosarias tinham constituido durante a Idade Media. Contra as Naves dos Loucos renascentistas, que

punham

os seus habitantes a atravessar o

mundo

e a percorrer as terras,

passando delugar

em

lugar,

sem

poisoestatico, oshospkios

do

finaldaIdade Classica oferecem por esses rituals de exclusao, que coincidem

com

procedimentos evidentes de purifica^ao social, a

imagem

de

alguma

seguran^a e coesao na racionalidade deque e feita o tecido social, afastando para as suas margens formas de razao alternativas cuja deforma^ao

ou

distancia

nem

sempre sao,entretanto, suficientementeclaras.

E

sobreesses rituals, e asrazoesqueIhessubjazem,queJulioCesar

Machado

se interroga neste texto, tentando encontrar, apesarde tudo,

um

garanteque assegureque o ruidodaentropiaencontrado

no

hospfcio de Rilhafoles

pode em

ultima analise retroagir, criando

algum

tipo de certeza quanto a substancia racional da comunica^ao

humana. E

por esta razao

sem

grande surpresa que o

vemos

sobretudo preocupado

com

a descri^ao e analise dos diversos

fenomenos

que, na area da comunica^ao interpessoal e, mais particularmente, na area da linguagem articulada,

podem

sugerir que a racionalidade exterior a Rilhafoles se exprime atraves de formas diferenciaveis, apesar de tudo, das que se

encontram

dentro dos

muros do

hospfcio. Isto significa que se trata de

um

problema radicando nazona da

HELENA CARVALHAO BUESCU

(8)

230 PORTUGUESELITERARY&CULTURALSTUDIES12

comunica(;ao discursiva e por isso simbolica

do humano,

que encontra na linguagem as manifesta^oes ultimas

do

garante da identidade e da consciencia: por isso, adescrigao e analise quefaz dosvarios casos preocupa-

se

com

anarra^ao de

fenomenos

dealtera^ao

do

discurso,que vao danota^ao de

mutismos

impenetraveisatea

fenomenos como

os neologismos,a ecolalia (repeti^ao poreco), a palilalia(repeti^ao compulsiva nvezes)

ou

a palinfrasia (repeti9ao de palavras

ou

frases).

Quando

a duvida surge, sobre as razoes substanciaisque

permitem

escorar os

muros

simbolicosdehospicios

como

os de Rilhafoles, Julio Cesar

Machado

parece apesar de tudo encontrar, nos disturbios da discursividade linguistica,

algum

tipo de justifica^ao que sustente as distin^oes entre o que esta fora e o que esta dentro daqueles muros.

O

exemploa

meu

ver maistocantee pungentedesta reflexao, encontro-o nadescrigao de

um

caso

em

que aparentemente nada ha, nas manifesta9oes exteriores de

uma

rapariga, que justifique a sua reclusao

em

Rilhafoles. E, porque esse e

sem

duvida

um

caso amea^ador da partilha, Cesar

Machado

apesar de tudo encontra, mais

uma

vez

em

formas de

linguagem

“estranhadas,”

algum

tipoderazaopara oexplicar. Porquea

menina

fala

bem,

e acertadamente,

como

diz, e

sem

qualquer manifesta^ao de razao perturbada, ele transcreve-nos

um poema

(porque a pobre

menina

tinha “a

mania

de fazer versos”) que,

sem

ulteriores raz5es, podera atestar a sua perturbagao.

Estamos em 1872

, e as experiencias das vanguardas novecentistasnao aconteceramainda.

Mas

hoje nos, quejaas conhecemos,e

queas

pudemos

jaler,

podemos tambem

lerneste episodioalgo diferentede

uma

razao alienada, manifestando-se

em

formasdiscursivas perturbadas:

Uma

menina, que devetervinte anos,aparece aporta de

um

quartoonde estao algumas mais tranquilas acosturar e a fazer crochet. Olha para

mim

fixamentee

comoesperandoque euIhefale.

O

directorvendoisso,pergunta-lhese

me

conhece.

-Parece-mequeconheco,respondeela.

O

director diz-lheo

meu

nome.

- Eisso mesmo; javioretrato

num

livro [...].

A

pobremeninatern

um

parecer agradavel;naoalegre,massuaveeresignado.Aspoucascoisasquedisseaodirector nadatinhamdetresvariado

nem

dedemente; oaspecto

mesmo

e natural,assimno olharcomonosmodos.Ternpor entretenimentoamaniadefazerversos,ecedeu-

me

unsqueestavacompondoequeIhe pedi;sao versoscertos,eufonicos,mas

em

que naosepercebenuncaa ideia e

em

queaspalavrasbaralhamtudo:

(9)

THEOTHER NINETEENTH CENTURY 231

Amei, infantaeledacomoa aurora Dossonhosdesseinfanteadormecido;

Aoreio tengemido, o teu trovar,

Aotronooteusondarencanecido.

Harpejod’alma, lhana,feiticeira, Gotejoemteu rolarmilalegrias,

E

colhoemcadanotaquedesfiro Insoniasdoporvir, crueismagias(32-35)

JiilioCesar

Machado

encontranestes versos,quetranscreveenao comenta,

um

aparente sossego relativamenteasrazoesqueteraolevadoaointernamento da sua aurora. Nos, que ja lemos

Gomes

Leal,

ou

o Fernando Pessoa por exemplo de “Abdica^ao,”

ou Mario

de Sa-Carneiro,

ou

ainda

Camilo

Pessanha (lembro apenas “Quando?”),

ou

ate

mesmo

Angelo de Lima, que

pode

ser resgatado,

podemos

encontrar neste

poema uma

serie de caracten'sticas que configuram, claramente,

um

ar de familia para o qual o Simbolismo e suas decorrencias abriram os caminhos da modernidade: o imaginario medievalizantesubtilmente tecidode

uma

substancia oniricaque

com

ele seconfunde, tornando-o

uma

dasimagenspossiVeis

do

inatingivel,o Id'bas que persegue todos os que vieram depois de Baudelaire; o contraste entre

um

passadocentrado

em

torno

do

predicadoqueabreo

poema,

“amei,”

e o futuro apenas indiciado pelo

tom

deceptivo implicado pela expressao

“insonias

do

porvir”; o recurso a

uma

atmosfera carregada de nota^oes sensoriais,

em

particular auditivas (“gemido,” “trovar,” “harpejo,” “nota,”

“desfiro”), para construir

um

ambiente carregado de

uma

experiencia simultaneamente concretae nostalgica,

em

que a aura medievalizante e,

no

fundo,

uma

outra forma dedeclinaroexotismo (eesteporsua veze,desde o seculo XVIII,

um

nec plus ultrada manifesta^ao de

um

desejo que, por ser inatingivel, se torna apenas sinalizavel); a aparentemente serena forma

classica,

em

que a quadra de rima cruzada e brancase configura atraves

do

recurso,

sem

excep9ao, ao decassilaboheroico, deacento na6^ e 10^silabas,

com

o hemistiquio a apresentar

uma

cesura interna

tambem

ela praticamente

sem

altera(;ao; a constru^ao de

uma

atmosfera

brumosa

e intersticial, “entre sono e sonho,”

como

viria mais tarde a dizer Fernando Pessoa, de situa^ao

no

“entre”

ou no

“quasi” que viria a atormentar Sa- Carneiro,

ou

de inalcan^avel aspira<;ao a passados e futuros sempre fora

do

HELENA CARVALHAO BUESCU

(10)

232 PORTUGUESELITERARY& CULTURAL STUDIES12

alcance

do

presence,

como

Pessanha saberia; Finalmente, a iniludivel rep resenta(;ao de

uma

figura^ao feminina que se vai cadavez mais fazendo ouvir na pessoa,

tomando

para si os

mesmos

lugares de ansiedade e fragiliza^ao de que o discurso

no

masculino

tambem

se ia socorrendo..

.

Todos

estes aspectos nosos

podemos

ler, e reconhecerde formatensa, nestas duas quadras (as unicas!) que nos foi

dado

conhecer desta personagem.

Quantos

outrospoemas, aepoca incompreensiveis, teria ela escrito, paranos

podermos

hoje compreender?

A

leituradestaobra deJulio Cesar

Machado

permite-me poissobretudo assinalar

um

tipo

muito

especial de ansiedade associada a exclusao social, visto queo caso que acima analisocorresponde aapenas

um

(embora

como

disse o mais pungente) daqueles

em

que eaquestao sobre as formas de ler e as dificuldades

em

interpretarque surge

como

curiosa manifesta^ao de

uma

razao perturbada.

A

exclusao social reveste assim, e curiosamente, formas poeticas: porque apenas esta poesia e oferecida

como

factor garantindo

um

motivosubstantivopara o internamento dasuaautora, a literaturaencontra- se tocada pelo poder de

uma

linguagem que participa dos

mecanismos

de partilha, exclusao e purificagao referidos por Foucault. Este

poema

para nos

anonimo

e aos olhos de Cesar

Machado um

sinal de algo que atesta o distiirbiode

uma

linguageme,poressarazao,de

uma

consciencia.

E

porisso asuaautora, queveioantes

do

queasuaescritapermiteadivinhar, “naoe ela

nem

e aoutra,” parafraseando overso desabor

gnomico

de Sa-Carneiro: ela e,verdadeiramente, “qualquer coisade intermedio.”

Ha

os que

vem

depois, os que

vem

demasiado tarde (sao os filhos atrasadosdasvarias Revolu^oes, daFrancesaade 1848),osqueseencontram historicamente desadequados porque o

tempo

deles aconteceu antes de eles

terem nascido.

Mas

ha

tambem

aqueles que surgem antes

do

seu proprio tempo, queselimitam a intuir ebalbuciar: a estes

costumamos

muitasvezes referir-nos

como

sendo “de transi^ao”

(como

se cada

tempo

historico nao

fosse, substantivamente, isso

mesmo,

transigao). Esta autora,

como

outros, pertencem aesse

tempo

intermedio aque so o olharhistorico, que hoje e o nosso, permite dar

um nome.

Ela pertenceaomaispuro

momento

historico, que e aanacronia,

momento em

que vibram as dissonancias temporais e se torna porisso

mesmo

maisaudivel o ruido dahistoria.

(11)

THEOTHER NINETEENTH CENTURY 233

Notas

^ Ch Ernesto Rodrigues, Mdgicofolhetim. Literatura ejornalismo em Portugal, Lisboa, Non'cias, 1998.

^ Julio CesarMachado, Daloucuraedas maniasemPortugal(Lisboa, LivrariadeA. M.

Pereira,1871).Todasas cita^oes seraofeitasa partirdestaedi^ao.

^Michel Foucault, Histoiredelafolka Pageclassique(Paris,Gallimard, 1976).

HelenaCavalhao Buescuisa Professoratthe Universiciadede Lisboawhereshe teaches ComparativeandPortugueseLiterature.Sheistheauthor ofsixmajorworksonthenine- teenth century, oftenwith acomparative approach. Shewas also thecoordinatorofthe DictionaryofPortugueseRomanticism.Asafrequent VisitingResearcherandProfessorat Universities such as Indiana (Bloomington), Princeton, UW-Madison, Pennsylvania, Harvard and Stanford, she is one of the key links between Portuguese Studies in the UnitedStates andPortugal. Her latest bookis Cristalizagoes. Fronteirasda Modernidade (2005).

Among

her publications are the following: Incidenciasdo olhar.Percepgdoerepre- sentagdo (Lisboa: Caminho, 1991), Diciondrio do romantismo literdrio portugues, ed.

(Lisboa:Caminho, 1997), Chiaroscuro.Modernidadee literatura(Porto:

Campo

dasletras,

2001) and

O

grandeterramotodeLisboa. Ficardiferente, ed.(Lisboa: Gradiva, 2005).

E-mail:[email protected]

HELENA CARVALHAO BUESCU

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