Aspirações, percepções e experiências de trabalho de meninas adolescentes e mulheres jovens em quatro cidades em Moçambique – Tete, Beira, Nampula e Maputo
DFID/OPM Programa Ligada
Estudo 1 sobre Normas Sociais
Equipe de Pesquisa
Coordenação geral: Luize Guimarães e Kerry Selvester Organização responsável pela pesquisa: ANSA Coordenação da pesquisa: Solange Rocha
Pesquisadoras de campo: Kerry Selvester, Lourdes Fidalgo, Unaiti Jaime, Khanysa Mabyeka, Katia Taela, Pablo Ribeiro, Ana Queiroz, Maïra Gabriel.
Logística e apoio de campo: Zilhalia Mate (geral), Leandra Altina Conrado (Tete), Olga Loforte (Nampula) e Carlota Inhamussua (Beira)
Siglas
AE – Aprendizagem Emergente
AIDS/SIDA – Acquired Immune Deficiency Syndrome ANSA - AssociaçãoNutriçãoSegurança Alimentar ARV - antirretroviral
CDC –Comitês de Desenvolvimento Comunitário
CEDAW – Convention on the Elimination of Discrimination Against Women DFID - Department for International Development
DPMAS – Direcção Provincial de Mulher e Acção Social G@W - Gender at Work
GAL – Gender, Action Learning
HIV – Human Immune-deficiency Virus
IESE - Instituto de Estudos Sociais e Económicos INE – Instituto Nacional de Estatistica
INSIDA – Inquerito Nacional de SIDA MEL – Monitoring, Evaluation and Learning MIMAS – Ministério da Mulher e Acção Social MISAU – Ministério da Saúde
OJM – Oraganizacao da Juventude de Moçambique OMS – Organização mundial da saúde
OPM – Oxford Policy Management
PARP – Plano de Acção Para a Redução de Pobreza PIB – Produto Interno Bruto
PROSAN – Programa de Segurança Alimentar e Nutricional UN Women – United Nations Women (ONU Mulher)
UNDP - United Nations Development Programme
UNICEF - The United Nations Children's Emergency Fund UPA - Associação Unidos Para Ajudar
VBG – Violência Baseada em Género
Conteúdo
Equipe de Pesquisa ii
Siglas iii
Sumário Executivo vii
1 Fundamentação do Estudo 2
1.1 Desigualdade de gênero em Moçambique 2
1.2 Propósito e objectivos do estudo 3
1.2.1 Objectivos principais do estudo 4
1.2.2 Objectivos secundários do estudo 4
1.3 Estrutura do Relatório 4
2 Marco-teórico 5
2.1 Conceitos usados 5
2.2 Marco teórico: Quadrante de Análise de Género 6
3 Metodologia usada e sua relevância para o Ligada 8
3.1 Âmbito da pesquisa 8
3.2 Enfoque metodológico 9
3.3 Amostragem 10
3.3.1 Seleção dos bairros e caraterísticas 10
3.3.2 Seleção dos participantes e características 11
3.4 Autorização, consentimento e considerações éticas 12
3.5 Métodos e exercícios utilizados 12
3.6 O processo de pesquisa 14
3.7 Licções aprendidas no trabalho de campo 15
3.7.1 A necessidade de ter cuidadores de criança 15
3.7.2 Clareza sobre os propósitos e as condições da pesquisa 15 3.8 O método de Aprendizagem Emergente é o mais adequado para ser utilizado nesse
programa? Por que? 15
3.8.1 Avaliação da metodologia 15
3.8.2 Condições necessárias para a utilização exitosa da metodologia 16
4 Análise 18
4.1 Trabalho decente na perspectiva dos jovens e adolescentes. 18
4.1.1 Percepções sobre ‘trabalho decente’ 18
4.1.2 Voz, escolha e controle no trabalho 20
4.1.3 Desigualdades de gênero no trabalho 22
4.1.4 Oportunidades 22
4.2 Normas sociais e culturais relacionadas a voz, tomada de decisão e controle 24
4.2.2 O Uso do Tempo 31
4.2.3 Estudar e se formar para que? 33
4.2.4 Acesso e controle de recursos (rendimentos) 37
4.2.5 Ser jovem, e a formação da família 41
4.2.6 Violência baseada em género 45
4.2.7 Corrupção 48
4.2.8 O Bairro e as instituições 51
4.3 Acesso a informações e meios de comunicação 53
4.3.1 Acesso a Informações 53
4.3.2 Meios de comunicação usados 54
4.3.3 Temas para campanhas 55
4.3.4 Desigualdades de gênero no acesso a informação 55
5 Conclusões e recomendações 56
5.1 Conclusões 56
5.2 Recomendações 59
6 Referencias Bibliograficas 63
ANEXO A: Matriz da pesquisa 64
ANEXO B: Metodos e Amostragem 71
ANEXO C: Roteiro para os diarios de pesquisa 73
ANEXO D: Cronograma da pesquisa em Nampula, Beira e Tete 74
Sumário Executivo
Objectivos e metodologia
Existem fortes evidências mostrando que aumentar o emprego feminino exerceria um forte impacto positivo no PIB moçambicano e traria impactos positivos sociais como no planeamento familiar e na educação infantil (OPM/ANSA, 2015). Para Moçambique avançar nesta direcção é necessária uma abordagem inovadora, pois o desfasamento da participação e remuneração económica entre mulheres e homens é grande. O programa Ligada tem como propósito central abordar as desigualdades de género em respeito a participação e empoderamento económica de mulheres jovens em quatro centros urbanos do pais (Maputo, Beira, Nampula e Tete).
Este estudo teve três objectivos. O primeiro foi oferecer uma análise sobre as normas sociais que sustentam as desigualdades de género relacionadas ao trabalho para ajudar o Ligada a desenhar intervenções inovadoras. O segundo foi entender as fontes de informação e meios de comunicação usados por jovens para informar uma campanha de comunicações que visa contribuir para modificar as normas sociais. O terceiro foi testar uma abordagem metodológica (Aprendizagem Emergente) como método de monitoria e aprendizagem contínua durante a vida do programa.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, participativa e exploratória, baseada no princípio da pesquisa- acção. Participaram 83 raparigas e 80 rapazes entre 15 a 25 anos, que relataram suas aspirações, percepções e experiências sobre educação, trabalho, e outros temas relevantes. Usou-se uma variedade de métodos e ferramentas que permitiram a emergência e exploração de questões relevantes aos próprios jovens protagonistas.
Achados e recomendações
A análise foi orientada por um marco-teórico chamado Quadrante de Análise de Género, desenvolvido por Gender at Work . O Quadrante é importante para a abordagem do Ligada, porque reconhece a importância de trabalhar em questões informais nos níveis individuais e colectivos que afectam a agência das mulheres. O estudo afirma que no contexto moçambicano melhorar as condições formais de acesso a oportunidades económicas para as mulheres jovens não será condição suficiente para solucionar a exclusão económica delas; é necessário também enfrentar as normas sociais que sustentam a desigualdade de género em relação ao empoderamento económico feminino.
Apesar das diferenças económicas, socioculturais e institucionais entre as quatro cidades estudadas, o estudo encontrou mais similaridades que diferenças em termos das normas sociais, as manifestações da desigualdade de género, e o nível de agência entre as mulheres jovens, ilustrado pelas limitadas escolhas e controle exercidas por elas relativo a sua educação e participação económica. Também encontrou barreiras similares entre as jovens que se encontram na ou fora da escola, e as jovens com e sem filho. Isto reflecte o nível de enraizamento destas normas na sociedade moçambicana. As normas sociais relacionadas aos papéis de género se traduzem em desigualdades de oportunidade entre raparigas e rapazes: a educação e o trabalho remunerado por parte das raparigas tem menos prioridade já que seu papel principal e de cuidar da casa, do marido, e dos filhos. As raparigas participantes no estudo indicaram sua frustração com a sua falta de liberdade, as obrigações domesticas e de ter que cuidar dos filhos sozinhas, o estresse da dupla o tripla jornada quando também estudam e/ou trabalham, a falta de oportunidade para seguir seus sonhos profissionais, e as violências baseadas em género. Elas têm pouco espaço para articular seus desejos e para tomar decisões para seguir seu próprio percurso educacional e profissional.
O estudo encontrou também sinais de ruptura, exemplos de raparigas e rapazes que já pensam ou agem de maneira diferente, enfrentando as normas das suas famílias e comunidades. Exemplos incluem raparigas que negociam com seus pares o tempo necessário para seguir com seus estudos ou completar cursos técnicos ou profissionais, ou que entram em profissões tradicionalmente masculinos, e rapazes que topam compartir as tarefas domesticas para liberar tempo para as raparigas, e ambos raparigas e rapazes que reconhecem a importância de adiar o casamento e a gravidez ate completar seus estudos e ter um trabalho estável. Existem também famílias que reconhecem a importância da educação das suas filhas para dar-lhes as melhores oportunidades de vida.
O Ligada precisa desafiar as normas socioculturais usando processos participativos e empoderadores para engajar múltiplos actores nos bairros onde actuará. Precisa criar espaços para reflexão sobre as implicações das normas sociais que envolvem não somente as próprias raparigas, mas também os rapazes, as famílias, e as entidades sociais, enfim todos que podem agir como agentes de mudança nas suas comunidades. Precisa ao mesmo tempo agir para criar as condições para melhor acesso a
oportunidades entre os jovens, e as raparigas em particular, inclusive a educação e a qualidade do ensino, a oferta de oportunidades de trabalho nos bairros, e o combate a violência e corrupção que reduzem a capacidade dos jovens de aproveitar das oportunidades disponíveis.
Recomenda-se que as campanhas de comunicação sejam em Português e idiomas locais usando meios como cartazes, pintura na parede, rádio, internet e telefone. Devem dar informações não somente sobre oportunidades educacionais e de emprego, saúde, e outros temas relevantes, mas também comunicar mensagens que ajudam a desafiar as normas sociais que bloqueiam a participação e empoderamento económico das raparigas de modo a que os jovens podem fazer escolhas conscientes.
Devem ser desenvolvidos com entidades comunitárias tais como as igrejas, as associações comunitárias e programas e projectos voltados aos jovens.
Em termos da aptidão da metodologia Aprendizagem Emergente para o Programa Ligada, a equipe da pesquisa concluiu que a metodologia traz ferramentas úteis para fazer emergir temas profundamente enraizados referentes as normas sociais. Como tal, pode ser adaptada para ajudar o Ligada a seguir aprendendo com os jovens protagonistas nas reflexões regulares do programa, e para avaliar continuamente o progresso do programa na transformação das barreiras sociais e culturais que bloqueiam o empoderamento económico das mulheres jovens. Recomenda-se que a equipa de MEL seja capacitada nas técnicas de Aprendizagem Emergente.
1 Fundamentação do Estudo 1.1 Desigualdade de género em
Moçambique
Uma mulher tem empoderamento económico quando ela tem poder para tomar decisões económicas, avançar
economicamente e ser bem-sucedida. Em Moçambique as mulheres são longe desta realidade. A economia moçambicana está crescendo num ritmo considerável: em 2014, a economia apresentou um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) de 7.6% e é esperado um crescimento de 7.5% em 2015 e de 8% em 2016. Os principais sectores propulsores desse crescimento são a construção, prestação de serviços, transportes e comunicações, o sector financeiro e as indústrias extractivas (IESE, 2015).
Apesar deste crescimento, 59,6% da população vive com menos de US$1,25/mês (UNDP 2014) e entre eles, as mulheres são desproporcionalmente representadas com 62,5% (INE (2015), o que conduz à
"feminização" da pobreza. A taxa de desemprego é mais alta entre as mulheres que os homens (24,6%
comparado com 19,9% no nível nacional (INE, 2013)), as mulheres tem rendimentos
consideravelmente inferiores em relação aos homens, e as mulheres tem apenas 4% dos empregos no mercado formal (IESE, 2015). A taxa de alfabetização também é mais baixa entre as mulheres (64,6%
comparado com 85,8% entre os homens (INE, 2011)), em parte devido a diversidade de línguas, o que dificulta o acesso feminino ao trabalho.
A população de Moçambique é predominantemente jovem, com 45% da população menor de 15 anos de idade, e quase dois em cada três moçambicanos (65%) têm menos de 25 anos de idade (PRD, 2015). A taxa de natalidade varia de 3.1 em Maputo à 5 em Nampula (IDS 2011). A taxa de casamento prematuro é alta (14.3% de mulheres jovens entre 20-24 anos estavam casadas antes dos 15 anos, e 48.2% antes dos 18 anos (UNICEF, 2015)), mas a idade do casamento está a aumentar (em Nampula, por exemplo, a proporção de mulheres jovens entre os 20-24 anos que casou antes dos 15 anos caiu de 53% em 1997 para 17% em 2011 (UNICEF 2015)). A taxa de gravidez precoce é também alta: 7.8% de mulheres tiveram o seu primeiro filho antes dos 15 anos e 48% antes dos 18 anos (UNICEF, 2015). Há grandes diferenças regionais: por exemplo 20.5% de mulheres em Maputo Cidade e 51.7% em
Nampula tiveram seu primeiro filho antes dos 18 anos (UNICEF 2015a, 2015b)). O casamento e a gravidez precoces trazem uma serie de desvantagens para as mulheres jovens, inclusive a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidados dos filhos e a probabilidade de abandonar os estudos antes de terminar. A incidência de HIV/ SIDA é de 11.5% (INSIDA 2009, CNCS 2010), e as jovens são as mais afectadas por essa epidemia principalmente quando associada ao adoecimento e mortalidade por tuberculose (TB).
Os dados disponíveis na OPM/ANSA mostram que aumentar o emprego feminino ao nível do
masculino exerceria um impacto forte, positivo e directo no PIB. A investigação internacional também demonstra que a capacitação económica feminina tem um impacto social importante e positivo no planeamento familiar, na educação infantil e em outras áreas (OPM/ANSA 2015). Para Moçambique avançar nessa direcção é necessária uma abordagem inovadora, pois o desfasamento da capacitação económica entre homens e mulheres está desde há muito enraizado em questões comportamentais, habitudinárias e culturais. Especificamente, as mulheres jovens e adolescentes precisam de se ver a si próprias e serem vistas pela sociedade como um ‘asset’, capazes a participar e contribuir para o
desenvolvimento do país de forma igualitária, ao invés de ser percebido como um grupo desconectado que não tem condições de acompanhar o ritmo do país.
1.2 Propósito e objectivos do estudo
O Programa Ligada, que apresenta com um duplo sentido de "estar conectada" e "ficar atenta", tem como propósito central abordar as desigualdades de género em respeito a participação económica de mulheres jovens em quatro centros urbanos do país (Maputo, Beira, Tete e Nampula). O quadro conceitual de empoderamento económico utilizado pelo Ligada (figura 1) trabalha em simultâneo com aspectos ligados ao acesso aos recursos (formação, opções para emprego, e recursos financeiros) e aos aspectos de poder e agência (tempo, poder de tomada de decisão e auto estima). O programa pretende assumir uma abordagem cultural para alterar as normas sociais relacionados a género que
determinam as percepções, as aspirações e os comportamentos entre as jovens raparigas, enquanto também ligando mulheres jovens a oportunidades de trabalho nos sectores formais e informais. Para isso, é preciso desenvolver abordagens inovadoras com potencial de romper com fortes normas que actualmente limitam tanto as opções disponíveis as mulheres jovens, como a agência delas de escolherem seus caminhos de acordo com seus desejos e sonhos.
Figura 1: Empoderamento económico feminino (fonte: DFID)
E propósito deste estudo fornecer os subsídios necessários para desenhar iniciativas inovadoras que promovam a agência, voz e controle das raparigas e mulheres jovens em relação a sua participação e empoderamento económico. Explorou, junto aos jovens participantes, raparigas e rapazes nas quatro cidades, as normas sociais que determinam sua voz, escolha e controle, e repercutem nos seus percursos, para um trabalho decente, tomando em consideração as suas aspirações, percepções, e experiências. O programa Ligada utilizará as conclusões do estudo para:
• Desenvolver programas ou abordagens inovadores para que as mulheres jovens e raparigas sejam apoiadas para participar em trabalhos decentes.
• Identificar importantes parcerias nos sectores públicos, privado e não-governamentais que poderão influenciar positivamente as vidas económicas das mulheres jovens e raparigas e as formas de trabalhar com os mesmos.
• Desenvolver comunicações e campanhas nos Média com mensagens pertinentes a inserção das mulheres jovens e raparigas na esfera económica.
1.2.1 Objectivos principais do estudo
1. Analisar as percepções, experiências, aspirações das adolescentes e mulheres jovens (Ligada - população alvo primária) em relação a sua voz, controle e escolhas para o seu acesso e
manutenção do trabalho (decente) e às oportunidades económicas.
2. Desenvolver, testar e adaptar uma metodologia que possa funcionar como ferramenta de monitoria e aprendizagem contínua para ajudar o Ligada a compreender as normas sociais e as mudanças provocadas nelas na população-alvo do programa.
1.2.2 Objectivos secundários do estudo
• Analisar o acesso e manutenção do trabalho decente e oportunidades económicas.
• Compreender a diversidade de factores de género e socioculturais que contribuem para voz, escolha e controle das raparigas adolescentes e mulheres jovens.
• Compreender a perspectiva dos meninos/homens sobre a diversidade de factores que contribuem para a sua vida e trabalho/experiências económicas e sobre os factores relacionados com as oportunidades e barreiras para as meninas adolescentes e mulheres jovens em relação a esfera económica, tomando em consideração as vertentes sociais, culturais, e económicas que têm um impacto neste grupo alvo.
• Recolher informações que possibilitem definir os temas/mensagens de campanhas de informações.
• Analisar a percepção e experiência de adolescentes e mulheres jovens em relação aos canais de comunicação (pares, família, material de impressão, TV, rádio, tecnologia da informação e meios de comunicação social, etc.) e campanhas de mudança social.
• Desenvolver, testar e adaptar uma ferramenta de aprendizagem participativa e reflexiva para uso com e por meninas adolescentes urbanas e mulheres jovens como parte do quadro de
aprendizagem interactivo (monitoramento).
1.3 Estrutura do Relatório
O relatório está dividido em cinco partes:
1. Esta introdução;
2. O marco-teórico que orientou o desenho do estudo e a análise dos achados;
3. Informações sobre a metodologia de Aprendizagem Emergente (AE) utilizado, e uma avaliação da aptidão da mesma como ferramenta de monitoria e aprendizagem no programa Ligada;
4. A análise dos dados, com as implicações para o Ligada;
5. A conclusão e recomendações finais.
Nos anexos encontram-se a matriz da pesquisa e detalhes dos métodos usados.
2 Marco-teórico
Nesta secção definimos os principais conceitos usados no estudo e apresentamos o marco-teórico que norteou tanto o desenho do estudo como a análise dos achados.
2.1 Conceitos usados
O conceito de género refere-se à variedade de papéis socialmente construídos que a sociedade atribui aos dois sexos de forma diferenciada. E diferente do conceito de sexo, que e biologicamente
determinado.
A igualdade de género descreve o conceito de que todos os seres humanos, tantas mulheres como homens, são livres para desenvolver as suas capacidades pessoais e de tomar decisões sem as
limitações impostas por estereótipos e papéis rigidamente atribuídos. Isto significa que os diferentes comportamentos, aspirações e necessidades das mulheres e dos homens são considerados,
valorizados e favorecidos equitativamente. Não significa que as mulheres e os homens têm de se tornar idênticos, mas que os seus direitos, responsabilidades e oportunidades não irão depender do facto de terem nascido com o sexo feminino ou masculino (UN WOMEN, 2010). Trabalhar em direcção à igualdade de género, bem como a eliminação de outras injustiças sociais, requer entender e mudar os sistemas socioculturais injustos, e as instituições que perpetuam as desigualdades.
O patriarcado é um sistema de dominação do poder masculino que constrói e sustenta as
desigualdades entre homens e mulheres. Historicamente, na ideologia patriarcal, as mulheres são centrais apenas no campo da reprodução biológica no seu papel de esposa e mãe, e os homens são provedores da família, estão ‘destinados’ as funções de força e de produção de recursos. A ideologia do patriarcado se reproduz nos sistemas sociais como de saúde e educação e é ainda reforçada pelas grandes religiões.
Ter agencia ou empoderamento é a condição das pessoas poderem definir quem são e como querem viver seus desejos (LEON, 1997). Significa ter a auto capacidade de tomar decisões e mediar recursos com o máximo de impacto para poder controlar a própria vida (OPM/Business Case, 2015). Os conceitos de voz, escolha, e controle são centrais as ideias de agência e empoderamento. Uma pessoa está empoderada quando tem o direito de falar e ser ouvida (voz), de ter conhecimento das
oportunidades e potencialidades e depois ter a possibilidade de as seleccionar livremente (escolha), e de controlar os seus próprios recursos e destino (controle) (OPM/DFID).
2.2 Marco teórico: Quadrante de Análise de Género
Figura 2: Quadrante de Análise de Género
O Quadrante de Análise de Género (figura 2) é uma ferramenta desenvolvida por Gender at Work1 para analisar os aspectos estruturais sociais que precisam ser mudados para trabalhar em direcção à igualdade de género (Kelleher e Rao, 2009).O uso do Quadrante permite uma análise sistémica que reconhece as relações sinérgicas entre os quadrados. O esquema reconhece duas dimensões. A primeira é a dimensão individual (o lado superior do quadrante)/colectivo (ou sistemas) (o lado inferior). A segunda é a dimensão informal (o lado esquerdo)/formal (o lado direito). Resulta um esquema com quatro caixas, ou quadrados. E necessária acção em cada um dos quadrados para ter efeito na desigualdade de género e a acção em um quadrado pode potenciar mudanças nos outros quadrados.
Na dimensão formal:
O quadrado II refere-se ao acesso a recursos entre mulheres, tais como de educação, saúde,
segurança, informação, oportunidades de trabalho remunerado, dinheiro. Um estudo preliminar a este (ANSA, 2015) analisa o acesso a serviços centrais ao trabalho (educação, planeamento familiar,
creches e transporte urbano) entre mulheres jovens vivendo em bairros desfavorecidos em três cidades moçambicanas (Maputo, Tete e Nampula).
O quadrado III é o conjunto de políticas e procedimentos formais como politicas, leis, e normas, serviços e programas que apoiam a igualdade de género e o empoderamento das mulheres. Incluem
1 http://www.genderatwork.org/
por exemplo uma política de género, cotas de participação das mulheres, leis contra a VBG e favoráveis ao aborto, e um orçamento adequado para trabalhar em prol da igualdade de género.
Na dimensão informal:
O quadrado I refere-se à consciência individual das mulheres e dos homens, as percepções e crenças individuais, como o nível de conhecimento sobre e compromisso com a igualdade de género e a vontade de tomar acção em prol da igualdade de género e os direitos das mulheres.
O quadrado IV relaciona-se com a cultura, as normas e as práticas informais e colectivas.
Denominamos isto de “estrutura profunda” - a colecção de valores, história, ideologias e práticas produtivas e reprodutivas, na esfera pública e privada, que formam a base das escolhas e do
comportamento da sociedade, suas instituições e seus indivíduos. A estrutura profunda está ligada ao inconsciente dos indivíduos na medida em que está maioritariamente fora da consciência e não é questionada.
A ferramenta é de importância no campo de igualdade de género na medida que reconhece que para alcançar a igualdade há que trabalhar não somente em questões formais – que é onde há tido os maiores esforços – mas também em questões informais, tácitos, ocultos e inconscientes, ou seja as normas sociais que sustentam a ideologia do patriarcado e a submissão da mulher. O Ligada reconhece este princípio. Tem como propósito central aumentar a agência das mulheres sobre suas próprias vidas – sua voz, escolha, controle - particularmente na área do seu empoderamento económico. Para isto quer intervir de modo a transformar as normas e regras informais nos níveis colectivos e individuais para o fortalecimento económico de raparigas e mulheres jovens. Este estudo visa aprofundar o conhecimento das normas sociais relacionadas as relações e papéis de género que influenciam as aspirações, percepções e experiências de trabalho das raparigas e mulheres jovens em bairros de quatro cidades moçambicanas.
3 Metodologia usada e sua relevância para o Ligada
3.1 Âmbito da pesquisa
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, participativa e exploratória, baseada no princípio da pesquisa-acção2.
Embora tenha sido feita em quatro cidades localizadas
em diferentes províncias, não consubstancia um estudo comparativo. Participaram 83 raparigas e 80 rapazes entre 15 a 25 anos3, vivendo em áreas urbanas, protagonistas activos no estudo. A diversidade de perfis dos participantes trouxe uma diversidade de temas, aspirações, e experiências relacionadas as normas sociais para o empoderamento económico dos jovens com o propósito de contribuir com o desenho do programa Ligada.
A pesquisa utilizou a abordagem de aprendizado de Gender at Work; os métodos de Aprendizagem Emergente (Emergente Learning)4 foram utilizados para desenhar o processo da pesquisa, e o Quadrante de Análise de Género5 foi utilizado para orientar a análise. A metodologia trabalhou com hipóteses de pesquisa, no sentido de abrir questões de análise e potencializar a curiosidade dos participantes com relação às questões que estavam a emergir. Contudo, a hipótese foi constantemente recriada e aprofundada, o que possibilitou o surgimento de novas questões incorporadas no campo e no processo de análise.
A primeira hipótese é que a inserção com êxito da rapariga e mulher jovem na esfera económica depende tanto de factores informais, tácitos e ocultos – as normas sociais que condicionam o acesso e manutenção do trabalho decente e oportunidades económicas - como de factores formais e explícitos.
Esta hipótese reflecte a ênfase do programa sobre a necessidade de agir nos níveis profundos das normas sociais-culturais e relações de poder e género desiguais.
A metodologia também era uma hipótese a ser testada em termos da sua efectividade em revelar as informações profundas e as vezes sensíveis sobre as normas sociais que influenciam nas aspirações, percepções e experiências das meninas adolescentes e mulheres jovens na esfera económica nos bairros incluídos na pesquisa. Incluímos nossa avaliação da aptidão da metodologia como parte dos processos de monitoria e aprendizagem do programa Ligado sobre mudanças em normas sociais no final desta secção.
Foi adoptada a estratégia de triangulação para aumentar a credibilidade e clareza dos achados e limitar os viesses pessoais e metodológicos. A triangulação ocorreu a quatro níveis: 1) as fontes dos
2Pesquisa-ação procura unir a pesquisa à ação ou prática, busca romper a dicotomia entre teoria e prática. Desenvolve o conhecimento e a reflexão como parte da experiência. Kurt Lewin (2001)
3Participaram 3 raparigas de 26-28 anos em Maputo, Beira pois procurava-se o perfil de raparigas que abandonou estudos depois de engravidar.
4 O termo em inglês (EL Map/Emergent Learning) e um trademark do Signet Research & Consulting, LLC.
www.signetconsulting.com, Usamos o termo ‘Aprendizagem Emergente’ ou AE neste relatório
5www.genderatwork.com - Kelleher/ Rao, 2009..
dados: foram usados dados primários e secundários, como recolha de dados em quatro províncias; 2) os diferentes perfis de pesquisadores: as formações e experiências em áreas diferentes das ciências sociais propiciaram enfoques diferenciados e interpretações alternativas; 3) os enfoques teóricos:
utilizou-se múltiplas perspectivas, com diferentes interpretações para compreender as normas sociais; 4) os métodos: foram utilizadas várias abordagens e ferramentas para observar, escutar e validar as informações.
O Estudo utilizou como referência dados secundários de pesquisas e conhecimento acumulado por ANSA/OPM/DFID, e outras pesquisas de instituições no mesmo campo temático-metodológico em Moçambique e em países com questões sociais similares ao Ligada. Tais referências não objectivavam uma revisão de literatura sistemática, mas visavam ampliar a bibliografia para dar suporte a análise da pesquisa. Em particular foram revisados todos os estudos preliminares da Ligada.
3.2 Enfoque metodológico
Figura 3: Aprendizagem Emergente
Passado Presente
Achados: pensamentos que refaz a
hipótese Hipótese
Conhecer e aprender com os fatos e eventos
Conhecer e aprender com as ideias/
barreiras e oportunidades
Aprendizagem Emergente é uma metodologia utilizada para avaliação e planeamento, e aqui foi adoptado como ferramenta de condução das dinâmicas do trabalho de campo. A abordagem reúne técnicas do campo da teoria de pesquisa com técnicas da educação popular. O método redefine o que significa ser um "expert" no processo de pesquisa. Em Aprendizagem Emergente todas as pessoas são
“especialistas” e trabalham de maneira colectiva na construção de conhecimento. A abordagem construtivista de Aprendizagem Emergente permite a imersão contínua em reflexões profundas e a revisão constante das hipóteses pelos pesquisadores e os participantes (veja Quadro 3), neste caso sobre o significado das normas sociais. A combinação de métodos adoptados visou ajudar os
participantes e a equipe a tornar-se mais conscientes das relações de género presentes nas dinâmicas da própria pesquisa e a criar novas formas de analisar e resolver problemas.
“verdades” a serem testadas Emergem novas questões.
O que aprendeu com essa informação Abre novas questões
Experiências / informações preliminares
O que aconteceu até o momento
Quais as hipóteses e questões para a próxima fase
A pesquisa contou com um rigoroso protocolo com passos e orientaçõespré-definidas, instrumentos semi-estruturados e uma matriz de perguntas indicativas6 (Anexo 1). Tinha um conjunto de questões chaves que se manteve uniforme nas quatro cidades, mas as perguntas detalhadas forma adaptadas em cada cidade de acordo com a evolução da pesquisa e as questões que emergiram na interacção com os participantes.
Procurou-se garantir, tanto quanto possível, que as conclusões do trabalho reflectem as ideias e experiências dos informantes, e não as ideias preconcebidas da equipe de pesquisa ou as hipóteses inicialmente desenhadas pelo Ligada. Durante o treinamento teve-se o cuidado de ajudar os membros da equipe ficar conscientes, na medida possível, dos seus conceitos e convicções preconcebidas. O mesmo processo continuou durante as reflexões e debriefs da equipe na final de cada dia durante o trabalho de campo e nos encontros no final do piloto e no final do trabalho de campo nas províncias.
3.3 Amostragem
3.3.1 Selecção dos bairros e características
Os bairros foram escolhidos por um conjunto de condicionalidades: 1) bairros que já tinham passado por pesquisas anteriores do Ligada sobre outros temas para possibilitar o futuro cruzamento de dados7; 2) bairros urbanos com vulnerabilidade socioeconómica; 3) bairros que tivessem estruturas organizativas para possibilitar a selecção dos participantes.
Maputo: Chamanculo é um bairro dos mais antigos de Maputo, está a cerca de 5 minutos do centro da capital. No tempo colonial abrigou a população moçambicana que tinha direitos temporários de residência na cidade enquanto estavam trabalhando. ChamanculoA, B, C e Dfoi urbanizada
oficialmente no período após a independência. No entanto, a população do bairro cresceu rapidamente com as famílias deslocadas durante o conflito civil, e até hoje há uma constante chegada de famílias extensas da população residente das áreas rurais e outras áreas de Maputo. O bairro é populoso, com 158.323 habitantes, e convive com falta de serviços de saneamento e infraestruturas. É considerado um bairro com altos índices de violência. (ANSA, 2015)
Beira: Chipangara é um bairro populoso, localizado entre a área pesqueira e a cidade. É considerado um bairro típico de Beira pelas suas características sócio-ambientais. Falta infra-estrutura como serviços de limpeza, saneamento, a estrutura de becos e vias de drenagem sem condições faz com que o lixo fique acumulado e a água fique estagnada, criando espaços propícios para doenças e infecções.
As casas são de caniço, lata e de bloco (casa tipo 2 e 3). O mercado local é antigo, vem desde o tempo colonial, é onde muitas mulheres vendem seus produtos e incrementa a economia local. É relatado o elevado nível de criminalidade e violência no bairro. É forte a presença de igrejas e bares, num contexto de falta de actividades culturais e de lazer. Conta-se com a existência de ‘salas de cinema’ –
6Ver documento Metodologia de Pesquisa Study 1 - revisado posterior ao piloto Maputo.
7No pré-estudo sobre Acesso aos Serviços (ANSA 2015) foram seleccionados 2 bairros nas cidades de Tete, Maputo e Nampula. Para este estudo seleccionou-se um destes dois bairros, sendo o bairro com as características ‘mais urbanas’, nomeadamente: situado mais perto da sede de cidade; ñao sendo uma zona de expansão; e sem laços com as zonas rurais. Na cidade de Beira selecionou-se um bairro com estas mesmas características.
pequenos espaços onde passa-se filmes de acção para homens e bollywood para as mulheres. É também histórico o incentivo as equipas e campeonato de futebol.
Tete: O bairro Sansão Muthemba foi formalmente criado em 1976, possui 31.127 habitantes. O bairro foi definido pelo Conselho Municipal de Tete como área de expansão habitacional, industrial, e comercial. O bairro é fundamentalmente destinado para habitação, e é caracterizado por um padrão de ocupação desordenado. As habitações são precárias, localizadas em sítios íngremes, pedregosos com ravinas. Há uma forte imigração de pessoas provenientes dos distritos, províncias e países vizinhos, sobretudo do Zimbabwe, em busca de trabalho nas empresas de pesquisa e prospecção mineira. Os fluxos migratórios do campo para a cidade aceleraram-se em virtude por um lado da queda da hegemonia agrícola e da dinamização do comércio informal e por outro lado, mais recentemente da indústria mineira em franco estabelecimento, com novas oportunidades de emprego8. Mesmo assim, o índice de desemprego é alto. Os serviços são escassos comparativamente a magnitude geográfica do bairro; há poucas lojas e poucos locais de lazer e encontro para os jovens. Os jovens têm de sair do bairro para terem acesso à escola secundária e outros serviços básicos.
Nampula: Bairro militar. O bairro Militar foi originalmente criado por ex-militares da luta de
libertação nacional e servia o pessoal militar. Actualmente o bairro tem uma população mista, com um número significativo de ex-militares recebendo pensão estatal. As condições de habitação são
degradantes e as infraestruturas do bairro são pobres, com graves problemas de saneamento e acesso a água potável. O bairro localiza-se perto do centro da cidade, o que assegura um relativo acesso aos serviços inexistentes no bairro. Há um elevado índice de desemprego, particularmente na população mais jovem.
3.3.2 Selecção dos participantes e características
Buscou-se ter representação igual de raparigas e rapazes, todos na faixa etária de 15-25 anos,
incluindo jovens com e sem filho, e jovens que frequentam e não frequentam actualmente a escola ou uma instituição de formação (veja tabela 1). A amostragem foi definida com o propósito de recolher informação junto de um grupo populacional específico que pode fornecer as informações necessárias para os objectivos do estudo. O número máximo de participantes era 50 por cidade. Ao final,
participaram um total de 163 jovens, 83 raparigas e 80 rapazes, entre 15 a 259 anos de idade.
Tabela 1: Perfis dos grupos
8http://www.iese.ac.mz/lib/publication/II_conf/CP33_2009_Matine.pdf
9Participaram 3 raparigas de 26-28 anos em Maputo e Beira para ter número suficiente de raparigas que abandonaram os estudos depois de engravidar.
Perfis dos grupos Jovens sem filhos
5 raparigas sem crianças que frequentam a escola (ou instituição de formação) – diferentes idades;
6 raparigas sem crianças que não frequentam a escola actualmente (ou instituição de formação) – diferentes idades;
5 rapazes sem crianças que frequenta a escola (ou instituição de formação) – diferentes idades;
A selecção dos participantes foi feita pelas facilitadoras locais, com apoio da ANSA, estruturas locais e organizações comunitárias de base nos bairros seleccionados. A técnica de ‘bola de neve’ foi utilizada (GUERRA, 2006): os primeiros jovens identificados indicavam outros jovens no bairro para suprir a necessidade dos vários perfis da amostragem. Buscava-se ao máximo que as pessoas fossem
desconhecidas, ou pelo menos não amigos e amigas próximas. Evitou-se ter casais (namorados/noivos/casados) para não criar diferentes relações de poder.
3.4 Autorização, consentimento e considerações éticas
Foi realizado o processo de autorizações no nível da gestão municipal para o trabalho nas diferentes cidades no Municipal, Distrital e nível Bairro.
Foi registado o consentimento informado com garantia do anonimato da informação para todos os participantes10. Para os maiores de idade, o formulário foi assinado no momento de chegada, antes do início da pesquisa. Para os participantes menores de 18 anos, as cartas de consentimento foram assinadas pelos responsáveis de educação dos jovens. A participação foi voluntária, e os participantes eram livres de participar em todas ou somente algumas das sessões. As sessões foram organizadas de forma e em horários a não prejudicar os estudos, actividades económicas ou actividades domésticas, incluindo o cuidado das crianças, dos participantes.
A equipe estava capacitada para tomar as devidas acções em caso de encontrar violência, abuso sexual ou outros problemas. Se o participante fosse adulto deveria perguntar se queria ajuda e fazer o
encaminhamento. Para participantes menor de idade deveria pedir orientação ao Programa Ligada ANSA/OPM, acolher se fosse uma emergência, ou fazer encaminhamento se não fosse emergência. No entanto, não aconteceu nenhuma ocorrência nas quatro cidades.
3.5 Métodos e exercícios utilizados
No método de Aprendizagem Emergente tanto a escolha das ferramentas como a ordem lógica de utilização delas são essenciais. A sequência dos exercícios resultou num fluxo produtivo de trabalho com os jovens, criando vários espaços para discussão, expressão e reflexão. Também ajudou a deixar os jovens cada vez mais abertos e á vontade com a equipe de pesquisa e uns com outros.
10Toda documentação encontra-se arquivada na ANSA.
6 rapazes sem crianças que não frequentam a escola actualmente (ou instituição de formação) – diferentes idades;
Jovens com filhos
7 raparigas com crianças que frequenta a escola (ou instituição de formação) – diferentes idades;
7 raparigas com crianças que não frequentam a escola actualmente (ou instituição de formação) – diferentes idades;
7 rapazes com crianças que frequenta a escola (ou instituição de formação) – diferentes idades;
7 rapazes com crianças que não frequentam a escola actualmente (ou instituição de formação) – diferentes idades
No primeiro dia de pesquisa (Censo, Open Space, BodyMapping) trabalhou-se com o grupo na sua totalidade devido a necessidade de criar um espaço de escuta mais amplo e colectivo.
Censo: Sessão inicial de “aquecer” e apresentar-se com conteúdo de género. O exercício usou uma serie de perguntas para ajudar na identificação de proximidade e diferença entre os participantes, e também na apropriação do processo, e neste sentido constitui um pontapé para o diálogo.
Open Space: um “Espaço Aberto”, onde fala-se livremente sobre os temas/paixões identificadas no final do Censo. Os jovens foram apresentados com uma pergunta chave e aberta, e trabalharam sozinhos ou em grupos para reflectir sobre a questão e levar achados (questões emergentes) para o plenário. As reflexões foram realizadas sem facilitadores. O exercício cria um espaço onde as participantes são os ‘protagonistas’ da informação e da decisão e faz emergir uma diversidade de experiências.
BodyMapping: esta ferramenta aprofundou os temas surgidos no do Open Space e fez emergir temas que viraram perguntas para os grupos focais. A técnica exigiu que os jovens desenhassem um corpo e reflectissem sobre os temas emergentes com base no sentido atribuído a cada parte do corpo. A cabeça representava o que eles pensavam sobre a questão, a coração o que eles sentiram, as mãos o que eles fazem, e os pés onde gostariam de ‘ir’ perante a questão. A utilização do desenho no bodymapping permitiu explorar um outro tipo de expressão, pois através dele algumas jovens com dificuldades em expressar verbalmente o que pensavam e sentiam conseguiram expressar-se em torno do desenho. O desenho constitui uma ferramenta de visualização de sentimento e emoções dos jovens para a equipe, assim como para quem não esteve no campo, e a análise dos desenhos foi importante para
compreender a auto-imagem dos jovens.
No segundo dia as principais ferramentas utilizadas foram os grupos focais e o passeio no bairro.
Grupos focais: Os grupos focais serviram para o aprofundamento dos conteúdos sobre a diversidade de factores que contribuem para a vida, o trabalho e as experiências económicas dos jovens, assim como as percepções e as experiências sobre comunicação. Foram formados, em média, 4 a 6 grupos por cidade, com 6 a 10 pessoas em cada grupo. A divisão dos jovens em grupos pequenos e separados por homens e mulheres facilitou a interacção aberta e transparente.
O passeio no bairro: No passeio no bairro cada grupo de 2 a 4 participante levou um dos
pesquisadores a conhecer o seu bairro. Foram realizados cerca de 3 a 4 passeios por cidade. O passeio permitiu obter informações para além das perguntas inicialmente desenhadas, sobretudo por o controle não estar na equipe de pesquisa, já que os jovens definiram o roteiro do passeio (as lugares e coisas que queriam mostrar). Criou espaço para os jovens opinarem sobre o que pensavam de forma livre e autónoma. Resultou em informações sobre a vida comunitária e familiar e as barreiras e oportunidades para o trabalho oferecidas na cidade e nos bairros. Em termos de comunicação, o passeio permitiu identificar quais métodos poderiam ser apropriados e por onde a informação poderia passar.
As sessões finais de validação e comunicação foram feitas com a participação da maioria do grupo do primeiro dia. O exercício de validação foi para confirmar as constatações da equipe de pesquisa e permitir que os jovens reagissem. A actividade usou o exercício Concordo- Discordo para analisar os temas polémicos e contraditórios. Foram seleccionadas 10 a 15 frases que eram “verdades” ditas durante a pesquisa, mas de alguma forma contraditórias e/ou não consensuais, ou ainda cujo significado não estava claro para a equipe de pesquisadores. O jogo permitiu o debate e
posicionamento sobre assuntos polémicos, assim como validar as respostas as perguntas de pesquisa.
Por fim, o perfil de comunicação procurou recolher percepções e ideias sobre comunicação e mensagens no âmbito dos temas discutidos. O grupo foi dividido em 4 a 6 subgrupos e cada um criou uma ideia para uma campanha, usando uma personagem com características físicas-emocionais- psicológicas. O exercício serviu de fecho de conteúdo e de reflexão e foi mais uma oportunidade para analisarmos a perspectiva de género adoptada.
Também foram feitas em Maputo e Nampula histórias de vida com alguns participantes,
particularmente com jovens que tinham mais dificuldade de se expressar verbalmente. A combinação do passeio no bairro com entrevistas de história de vida permitiu que as opiniões individuais fossem expressas e registadas.
3.6 O processo de pesquisa
A pesquisa foi composta pelas seguintes etapas.
• Treinamento: foi realizado nos dias 22 e 23 de Outubro de 2015 e toda a equipe participou. Os temas tratados incluíram: conhecimento sobre o Programa Ligada, a importância da pesquisa ao programa, e as questões chaves a tratar; conhecimento sobre o referencial teórico-metodológico da pesquisa; aprendizado com reflexão colectiva sobre os princípios metodológicos, as
ferramentas e a abordagem de análise. O processo de formação permitiu rever e ajustar as dinâmicas e ferramentas que foram utilizadas no piloto.
A Fase 1 (piloto): realizado em Maputo, 26 a 29 em Outubro de 2015. Foi testado o modelo da pesquisa, e no debrief consolidou-se os pontos que precisavam de ser revistos e desenhados para a recolha de dados em Nampula, Tete, e Beira.
• Seminário de apresentação: Em Novembro de 2015 os achados preliminares do piloto foram apresentados ao Ligada/DFID no workshop de elaboração da teoria da mudança do Programa que finalizava a fase de incepção.
• Relatório do piloto – revisão da metodologia: Em Dezembro de 2015 foi apresentada uma avaliação da metodologia e a revisão final dos instrumentos e métodos para o trabalho de campo nas outras cidades.
• A Fase 2. O trabalho de campo foi realizado na cidade de Tete entre 18 a 22 de Janeiro e na Beira e Nampula de 25 a 29 de Janeiro. Contou com uma fase preparatória de reciclagem da equipe de pesquisa e familiarização com as ferramentas adaptadas, e preparação das facilitadoras locais (responsáveis pela logística e que em situações específicas também foram co-facilitadoras). A equipe de pesquisa foi mantida para ambas fases de modo a garantir coerência no campo das provinciais.
• Debriefs de equipe. No final de cada dia foi feita uma sessão de trabalho com a equipe de pesquisa com revisão de hipóteses, análise do alcance de respostas as questões-chaves, reflexão sobre o método, e planificação do dia seguinte. No final da pesquisa de campo (Fevereiro 2016) teve um debrief final como o propósito de consolidar os achados da pesquisa em categorias de análise e sistematizar as reflexões para o relatório final.
A documentação da pesquisa incluiu anotações, gravações de voz (grupos focais), e fotos e filmagens (Open Space e validação). O principal registo foram as notas dos pesquisadores; as gravações e vídeos são suportes da informação. Não foi realizada a transcrição das sessões já que as notas foram
realizadas por mais de um pesquisador, no entanto as gravações seguem arquivadas para caso de dúvidas futuras.
3.7 Lições aprendidas no trabalho de campo
3.7.1 A necessidade de ter cuidadores de criança
Apesar de ter sido uma orientação inicial, não foram tomadas medidas para ter cuidadores de crianças pequenas se fosse necessário para as que acompanham as mães as sessões. Este equívoco trouxe limitações para a participação de três raparigas em Nampula, e uma rapariga em Beira. Essa experiência traz uma importante reflexão para o Ligada: será importante ter creche ou cuidadores para que as jovens com criança pequena poderão participar das actividades tranquilamente, sobretudo nos projectos do Ligada implementados por organizações como Essor e UPA.
3.7.2 Clareza sobre os propósitos e as condições da pesquisa
Alguns participantes em Nampula tinham a expectativa que vinham para uma formação e esperavam ter acesso a dinheiro de transporte. E importante que a equipe de mobilização explique com clareza aos participantes sobre os propósitos e condições de participação no estudo para evitar tais situações.
3.8 O método de Aprendizagem Emergente é o mais adequado para ser utilizado nesse programa? Por que?
Avaliação de jovens de Beira:
“Nunca tinha sorrido com os colegas, mas agora (depois dos exercícios) não é preciso de muito esforço para eu conversar com os colegas”;
“A técnica de ensino participativa faz com que todos possam participar”;
“O problema é que muitas de nós tem receio. Não era para eu levantar [e falar sobre o que acharam], mas agora os outros não querem falar, então eu levantei para apresentar”.
3.8.1 Avaliação da metodologia
Como já dito, um dos objectivos da pesquisa era testar a efectividade da metodologia Aprendizagem Emergente para revelar informações profundas sobre as normas sociais, e avaliar sua aptidão como parte dos processos de monitoria e aprendizagem do programa Ligado.
A equipe da pesquisa concluiu que a metodologia de Aprendizagem Emergente é inovadora e poderosa para fazer emergir os temas referentes as normas sociais relativas a inserção económica das raparigas e mulheres jovens, e recomenda que seja adaptada para fazer parte integrante do quadro de
aprendizagem da Ligada. São ferramentas que ajudará o programa a criar processos de aprendizagem contínua com os seus participantes e adaptar suas intervenções de acordo com as evidências
emergentes.
A criação de espaços de confiança facilita a participação e o engajamento de participantes em situações de vulnerabilidade. As citações acima revelam que os participantes, pelo menos a maioria, sentirem-se a vontade de expressar-se, inclusive as raparigas que inicialmente revelaram sua timidez em situações sociais. O fato dos participantes guiarem a pesquisa, escolhendo temas e tomando
decisões aumentou seu engajamento com o processo. A participação foi alta em todas as cidades nos três dias da pesquisa, com pouca evasão excepto por motivos justificados.
A metodologia permite recolher contribuições profundas num tempo breve. A criação de espaços seguros e o alto nível de participação permitiu levantar informações culturalmente significativas e marcantes para os participantes sobre assuntos sensíveis num breve período de tempo. Deu por exemplo para falar sobre temas sensíveis como o assédio, a VBG, a sexualidade, o aborto, e álcool e drogas. Deste jeito confirmou-se da pertinência de alguns temas prévios (como a divisão de trabalho reprodutivo e produtivo, papéis de homens e mulheres, os limites e oportunidades sobre trabalho e formação) enquanto também foram revelados e aprofundados temas não esperados (como o assunto da corrupção que emergiu com maior proeminência do que se esperava e o
significado do biscate como ‘não trabalho’ ao mesmo tempo que garante o sustento e ajuda na formação).
A triangulação aumenta a credibilidade e confiabilidade das informações. A combinação de vários métodos e formas de trabalhar possibilita o cruzamento de informações oriundas de diferentes situações, e deu oportunidade para a expressão individual e colectiva, fazendo com que se aproxime melhor ‘a verdade’.
As dinâmicas de trabalho criam uma oportunidade de observação das relações de poder entre os sexos. Os exercícios com a participação conjunta de raparigas e rapazes permitiram que a equipe observasse as dinâmicas entre eles, as relações de poder e de influência na fala e na negociação entre eles, e com membros da equipe de pesquisa. Isso constitui mais uma fonte de informação sobre as normas sociais nos bairros pesquisados.
A metodologia potencia a ruptura nas relações de poder. A criação de condições para que um grupo em situação de vulnerabilidade possa ter voz e opinar, negociar, decidir, e controlar o processo pode contribuir para rupturas das desvantagens vividas pelo grupo de jovens e mais especificamente para a ruptura das desvantagens das raparigas numa situação de desigualdade de género.
A metodologia pode também aumentar a capacidade de negociar e lidar com instituições de poder influentes. O fortalecimento da fala e da negociação entre os participantes pode também aumentar tanto a capacidade como a coragem de negociar com outras instâncias institucionais nas vidas dos jovens, entre eles a família, as escolas, as igrejas e os partidos locais.
3.8.2 Condições necessárias para a utilização êxitos a da metodologia
A equipe pontua que a metodologia requer pessoas com múltiplas habilidades, entre elas a habilidade de escutar, analisar e adaptar o processos os métodos em campo, a capacidade de lidar com o
imprevisto e captar novidades, e a abertura para surpresas, para temas novos. Também requer pessoas capazes de desenvolver as técnicas de forma sensível e não mecânica, as vezes formulando a mesma pergunta de formas diferentes para conseguir as informações buscadas, e com a capacidade de afastar-se dos seus próprios preconceitos para realmente escutar, ouvir e aceitar as visões e
perspectivas dos próprios participantes.
O método exige maior tempo de análise no campo que outras abordagens. Requer que a equipe se junte regularmente para reflectir, questionar sobre os achados, e criar os caminhos de síntese durante o período de pesquisa. Esse tempo foi criado nos debriefs diários e num intervalo de meio-dia criado
no meio de pesquisa. Os debriefs foram espaços importantes para permitir que a equipe aprofundasse seu conhecimento das informações recolhidas de forma a informar as próximas etapas da pesquisa.
4 Análise
Neste capítulo apresentamos os principais
achados sobre as normas sociais que determinam o alcance e manutenção do trabalho decente e o potencial para o empoderamento económico das mulheres jovens e adultas nos quatro bairros estudados. A análise demonstra que é ao nível destas normas culturais-sociais, e na consciência sobre igualdade entre mulheres e homens e os
direitos das mulheres, que persistem as maiores barreiras para o acesso e manutenção do trabalho decente para as raparigas e mulheres jovens do estudo. Nesse estudo, as mulheres denunciam a falta de liberdade, as violências baseadas em género, as obrigações de ter que cuidar dos filhos sozinhos, e as desigualdades de oportunidades. Também alguns homens já reconhecem que ter privilégios, como ser o único chefe de família, tem acarretado uma série de desvantagens, como por exemplo ter que ser o mantenedor da casa mesmo sendo miúdo resulta em cansaço e preocupações pelo tamanho da responsabilidade.
Apesar de diferenças em termos de instituições e serviços e o nível de associativismo entre as quatro cidades estudadas, o estudo encontrou similaridades em termos das manifestações das desigualdades de género, e as normas socioculturais que as sustentam. Também encontrou barreiras similares entre as jovens que se encontram na ou fora da escola, e as jovens com e sem filho. Isto reflecte o nível de enraizamento destas normas na sociedade moçambicana.
A primeira parte deste capítulo apresenta as percepções e experiências dos jovens para o acesso e a manutenção do trabalho decente e as oportunidades económicas. A segunda parte responde à questão sobre a influência das normas sociais relacionadas a temas como a educação, o corpo, o uso do tempo, a família, o controle de recursos financeiros e a violência, temas que emergiram dos primeiros
exercícios (Open Space, body mapping) nas várias cidades. A terceira parte traz as análises sobre as fontes de informação e o uso de meios de comunicação entre os jovens, como subsidio a eventuais campanhas de comunicação. Cada secção trata das percepções e experiências dos jovens participantes do estudo, a manifestação de desigualdades de género relacionado a tema, e as oportunidades
percebidas, ou seja, sinais de mudanças e rupturas nas normas sociais que podem ser explorados pelo Programa Ligado. No final se cada secção encontram-se as implicações para o Programa.
4.1 Trabalho decente na perspectiva dos jovens e adolescentes.
Nesse capítulo informa-se as percepções e experiências relativas ao conceito de ‘trabalho decente’
entre os jovens. O estudo mostra que recaem sobre as adolescentes e mulheres maiores barreiras e menos oportunidades relativas ao trabalho decente.
4.1.1 Percepções sobre ‘trabalho decente’
Trabalho decente é apresentado pelas raparigas e rapazes como “algo seguro”, respeitado e que traga remuneração para pagar as suas necessidades:
“Um bom trabalho tem remuneração mensal e boa; um bom horário, é regular, tem
contrato/carteira assinada, reconhecimento social, conta no Banco;” “é num sítio que se goste do
lugar e do que se faz;” “é respeitado no serviço pelo chefe e pelos colegas porque dá dignidade;”
“pagam o salário na data acordada;” “tem um patrão que cumpre os acordos iniciais”; “não é um trabalho forçado e é um trabalho na área em que se sente à vontade – na área em que se formou (mesmo se não for um bom salário)”; “é bem recebido no trabalho”; “tem segurança e higiene;”
“tem status social”; “tem tempo para fazer outras coisas, fazer o que se gosta”; “realiza o seu sonho”; “é estar formado e saber o que se está a fazer”; “tem vida social, fazem festa de aniversariante do mês, fazem picnics com a família, filhos... ”.(colectânea de definições dos participantes de Maputo, Tete, Beira, Nampula).
Quando perguntado sobre os seus sonhos, a maioria, raparigas e rapazes, indicaram empregos no sector formal. As raparigas dizem que a mulher quer ser gestora de recursos humanos, gestora portuária, médica, enfermeira, professora de geografia ou história, operadora de máquinas pesadas, polícia, cozinheira, modista, advogada. Os rapazes querem ser contabilistas, médicos, advogados, policias, mecânicos, professores. Quando se perguntou ao sexo aposto sobre os sonhos dos outros, a visão de raparigas e rapazes sobre os empregos desejados pelos rapazes coincidiram, enquanto os rapazes tinhas algumas perspectivas diferentes sobre os empregos desejados pelas raparigas: crêem que a mulher quer um trabalho sensível, informática, trabalho com papéis e sem máquinas, medicina, ser enfermeira, ser empreendedora (vender comida, no mercado).
No sector formal há uma clara divisão na percepção dos jovens entre as condições de trabalho nas instituições públicas (menos dinheiro, mais benefícios e regalias, mais segurança) e as empresas privadas (mais dinheiro, menos segurança, mais condições). Em todos os bairros ouviu-se exemplos de que o trabalho no município é bom pela segurança (salário fixo) apesar do rendimento ser menor.
Nalguns casos, relatam que até os biscates pagam melhor que o município, dependendo do que se faça.
Em Nampula, por exemplo, no município um limpador de rua ganha 600/mês enquanto biscates de electricista pode ganhar mais desde que tenha um bom número de “clientes”. Por outro lado, as vezes existe descrédito nos empregadores municipais, por exemplo:
“A minha mãe varreu a Estrada e não lhe pagaram (600MZM)” (rapariga, 19 anos, Nampula);
Em relação ao emprego formal, existe a percepção entre os jovens que a competência dos jovens dos bairros é descredibilizada, as pessoas no bairro não acreditam que o jovem sabe fazer um bom trabalho.
O empreendedores, ou seja, trabalhar por conta própria, é frequentemente percebido como a melhor opção, que traz bons rendimentos, e com formação técnica esse trabalho é mais qualificado e pode crescer. E também visto como mais realista dado o difícil acesso ao emprego formal e porque exige menos estudos que trabalho de contrato. Mas é em geral limitado por medo de assumir o risco e de não ter capital inicial para investir nem a capacidade de gestão. Foram dados alguns exemplos de empréstimos na família ou poupanças com Xitique que possibilitam abrir uma banca, ou negócio próprio.
Para muitos jovens o biscate é a forma de trabalho mais comum e viável, não requer muita formação, e dar para receber uma remuneração rápida. Mas são trabalhos instáveis e dependentes da existência de oportunidades não sistemáticas, com múltiplos empregadores informais, e muitas vezes é trabalho de baixa qualidade e de curta duração, o que não lhes dá uma fonte segura de renda. Muitas vezes acabam trabalhando muito mais do que são pagos e o valor oscila de acordo com quem cobra menos, devido à concorrência. Ao mesmo tempo, quando a pessoa tem formação técnica pode encontrar biscates com menos riscos e melhor pagamento. Muitas vezes o biscate surge como um passo de espera até terem condições para estudar. O biscate é percebido como um trampolim para um futuro melhor, seja
através da continuidade dos estudos para o ensino superior ou da profissionalização da actividade realizada como biscate.
As opções de biscate disponíveis aos jovens variam por sexo. As raparigas têm acesso a áreas, mas limitadas - ‘deixa estar’ (trabalho como doméstica), em restaurantes, cozinheiras, trançar mechas, fazer manicura e venda nas bancas; são trabalhos circunscritos a esfera da reprodução, limpeza e cuidado em espaços privados, e que requerem menos capacidade física. Ambos os sexos acreditam que o homem tem mais capacidade física do que a mulher para fazer trabalhos pesados, por isso faz mais biscates do que a mulher.
“Quando chega biscate, homem faz e tem dinheiro – carregar sacos, mulher não tem oportunidades” (raparigas, 15-18 anos, Beira).
Os rapazes então têm mais opções – serralheiros, electricistas, carregadores, pedreiros, electrónicos, vendas; são trabalhos na esfera da produção e com maior mobilidade no espaço público. Esta distinção faz com que o biscate acaba favorecendo mais aos homens porque adquirem habilidades na esfera pública que lhes dão maior acesso futuro a um emprego comparativamente as raparigas.
Foram detectadas poucas diferenças de género na percepção de um bom trabalho. A única que se destaca é a preocupação comum das raparigas que o trabalho deve lhes permitir ter tempo de cuidar da sua casa, filhos e maridos.
“Mulher casada com filho, não pode fazer hora extra porque deixou filho. Homem pode”
(rapariga, 16 anos, Beira).
Relatam que se o marido cuida a casa, esta vai ficar desleixada e sem dar um toque feminino. Foi relatado que as mulheres não podem repassar “a direcção” da casa para o marido, e desconfiam se as empregadas recebem ordens directas dos maridos eles podem passar a ser amantes.
As raparigas também mencionaram a importância de ter um trabalho digno e não vergonhoso. Como exemplo, em Nampula, as raparigas não querem varrer estrada por causa de vergonha do namorado lhe ver enquanto está com os amigos e não lhe assumir.
4.1.2 Voz, escolha e controle no trabalho
Foi reconhecido tanto pelos rapazes como pelas raparigas que a mulher não tem medo de trabalhar nem é preguiçosa, ela quer trabalhar, mas que grande parte das mulheres tem receio em tomar iniciativa de procurar trabalho, por vergonha, insegurança (medo de assédio ou violência sexual), baixa auto-estima e complexo de inferioridade (acham que não são preparadas). Por isto muitas vezes as mulheres são as primeiras a tomar iniciativa de fazer negócio. As raparigas que saem a procura de emprego têm tendência a ir a lojas, hotéis, restaurantes e empregos domésticos, a maioria são habilidades aprendidas no campo da reprodução, mas tem dificuldade de encontrar vagas:
“Eu procurei emprego nas lojas, acho que eu acabei toda a cidade (rapariga 22 anos, Beira).
Ambos sexos, na situação de vulnerabilidade económica que vivem, sentem que não têm controle nem poder de decisão sobre se devem ou querem trabalhar ou não, quanto contribuir em casa, se continuar ou deixar de estudar. Como disse um dos participantes de Maputo:
“trabalho não se escolhe, se faz, não é escolha é necessidade”.
Esta percepção de falta de escolha é ainda mais forte para as raparigas dado a falta de voz, baixa auto- estima, e baixa autonomia para tomar decisões.
Ambos sexos nas quatro cidades sentem a pressão familiar para trabalhar, muito embora nalguns casos não seja verbalizada. A pressão é ainda maior sobre os rapazes: existe a expectativa de que eles precisam trabalhar, e quando não conseguem continuar os estudos por qualquer razão, sentem-se forçados a realizar um biscate para contribuir nas despesas de casa, ou deixar de ser despesa. Dizem que a partir dos 15 anos é uma boa idade para que um jovem rapaz contribua para a casa. As vezes esta expectativa contribui para a decisão do pai “abdicar” da sua responsabilidade de assegurar acesso à educação para cada um dos seus filhos/as e transferir aos mais velhos a responsabilidade de
assegurar a finalização dos estudos dos irmãs/os menores.
“Porque em casa somos muitos e não dá para dependermos de 1 só pai e porque já estou avançado e tenho irmãos pequenos que também precisam” (Rapaz, 17 anos, Nampula).
“Eu prefiro viver longe para não estar a ouvir choros do que falta em casa. Sinto muita pressão.”
(rapaz, 20 anos, Tete).
No caso das raparigas a mesma pressão só se verifica quando elas têm filhos e vivem com os pais. Esta falta de pressão às raparigas para o trabalho produtivo pode estar relacionada à expectativa que se tem com relação ao casamento, já que espera-se que os rapazes sejam provedores. Também pode ser motivada pelo facto de as raparigas fazerem o trabalho doméstico, cujas tarefas em geral não recai sobre as outras mulheres mais velhas do lar.
Os jovens também reconhecem que não tem poder de decisão sobre que trabalho fazer. Para ambos os sexos ser adolescente é uma fase de grandes desafios e conflitos entre o sonho de ter uma vida digna, que depende de estudos para um bom sustento financeiro, e a realidade possível, dado a dificuldade de completar seus estudos e de encontrar vagas. Tanto os rapazes como as raparigas são bastante
realistas e adoptam uma atitude pragmática que segundo eles deve ter em conta as suas circunstâncias (o que é possível), o que o mercado oferece e precisa, assim como as capacidades da pessoa.
“Se formos ver na actualidade nem toda a gente consegue fazer aquilo que sonhou, porque as circunstâncias da vida não permitem ser o que eu queria ser (médica) então eu vou fazer o que é possível” (rapariga, 22 anos, Beira).
Esta atitude pragmática leva muitos a tem um plano B, que muitas vezes e o empreendedorismo (trabalho por conta própria):
“Não vale ter só um sonho, vale ter dois” (Rapariga, 16 anos, Beira).
A pressão da família sobre que trabalho fazer ou que curso fazer é menos. De um modo geral os
rapazes e as raparigas sentem que podem escolher os biscates que querem fazer assim como os cursos que gostariam de fazer para ir atrás dos seus sonhos, mas, em geral essas escolhas estão
condicionadas as possibilidades no contexto que vivem:
“Minha amiga o pai queria que ela fizesse medicina e a mãe contabilidade, ela fez minas. Nós podemos decidir sobre que curso fazer” (rapariga, 22 anos, Tete)
“O pai queria que fizesse electricidade, mas ele fez serralharia mecânica e o pai pagou” (rapaz, 20 anos, Tete)