Nesse capítulo informa-se as percepções e experiências relativas ao conceito de ‘trabalho decente’
entre os jovens. O estudo mostra que recaem sobre as adolescentes e mulheres maiores barreiras e menos oportunidades relativas ao trabalho decente.
4.1.1 Percepções sobre ‘trabalho decente’
Trabalho decente é apresentado pelas raparigas e rapazes como “algo seguro”, respeitado e que traga remuneração para pagar as suas necessidades:
“Um bom trabalho tem remuneração mensal e boa; um bom horário, é regular, tem
contrato/carteira assinada, reconhecimento social, conta no Banco;” “é num sítio que se goste do
lugar e do que se faz;” “é respeitado no serviço pelo chefe e pelos colegas porque dá dignidade;”
“pagam o salário na data acordada;” “tem um patrão que cumpre os acordos iniciais”; “não é um trabalho forçado e é um trabalho na área em que se sente à vontade – na área em que se formou (mesmo se não for um bom salário)”; “é bem recebido no trabalho”; “tem segurança e higiene;”
“tem status social”; “tem tempo para fazer outras coisas, fazer o que se gosta”; “realiza o seu sonho”; “é estar formado e saber o que se está a fazer”; “tem vida social, fazem festa de aniversariante do mês, fazem picnics com a família, filhos... ”.(colectânea de definições dos participantes de Maputo, Tete, Beira, Nampula).
Quando perguntado sobre os seus sonhos, a maioria, raparigas e rapazes, indicaram empregos no sector formal. As raparigas dizem que a mulher quer ser gestora de recursos humanos, gestora portuária, médica, enfermeira, professora de geografia ou história, operadora de máquinas pesadas, polícia, cozinheira, modista, advogada. Os rapazes querem ser contabilistas, médicos, advogados, policias, mecânicos, professores. Quando se perguntou ao sexo aposto sobre os sonhos dos outros, a visão de raparigas e rapazes sobre os empregos desejados pelos rapazes coincidiram, enquanto os rapazes tinhas algumas perspectivas diferentes sobre os empregos desejados pelas raparigas: crêem que a mulher quer um trabalho sensível, informática, trabalho com papéis e sem máquinas, medicina, ser enfermeira, ser empreendedora (vender comida, no mercado).
No sector formal há uma clara divisão na percepção dos jovens entre as condições de trabalho nas instituições públicas (menos dinheiro, mais benefícios e regalias, mais segurança) e as empresas privadas (mais dinheiro, menos segurança, mais condições). Em todos os bairros ouviu-se exemplos de que o trabalho no município é bom pela segurança (salário fixo) apesar do rendimento ser menor.
Nalguns casos, relatam que até os biscates pagam melhor que o município, dependendo do que se faça.
Em Nampula, por exemplo, no município um limpador de rua ganha 600/mês enquanto biscates de electricista pode ganhar mais desde que tenha um bom número de “clientes”. Por outro lado, as vezes existe descrédito nos empregadores municipais, por exemplo:
“A minha mãe varreu a Estrada e não lhe pagaram (600MZM)” (rapariga, 19 anos, Nampula);
Em relação ao emprego formal, existe a percepção entre os jovens que a competência dos jovens dos bairros é descredibilizada, as pessoas no bairro não acreditam que o jovem sabe fazer um bom trabalho.
O empreendedores, ou seja, trabalhar por conta própria, é frequentemente percebido como a melhor opção, que traz bons rendimentos, e com formação técnica esse trabalho é mais qualificado e pode crescer. E também visto como mais realista dado o difícil acesso ao emprego formal e porque exige menos estudos que trabalho de contrato. Mas é em geral limitado por medo de assumir o risco e de não ter capital inicial para investir nem a capacidade de gestão. Foram dados alguns exemplos de empréstimos na família ou poupanças com Xitique que possibilitam abrir uma banca, ou negócio próprio.
Para muitos jovens o biscate é a forma de trabalho mais comum e viável, não requer muita formação, e dar para receber uma remuneração rápida. Mas são trabalhos instáveis e dependentes da existência de oportunidades não sistemáticas, com múltiplos empregadores informais, e muitas vezes é trabalho de baixa qualidade e de curta duração, o que não lhes dá uma fonte segura de renda. Muitas vezes acabam trabalhando muito mais do que são pagos e o valor oscila de acordo com quem cobra menos, devido à concorrência. Ao mesmo tempo, quando a pessoa tem formação técnica pode encontrar biscates com menos riscos e melhor pagamento. Muitas vezes o biscate surge como um passo de espera até terem condições para estudar. O biscate é percebido como um trampolim para um futuro melhor, seja
através da continuidade dos estudos para o ensino superior ou da profissionalização da actividade realizada como biscate.
As opções de biscate disponíveis aos jovens variam por sexo. As raparigas têm acesso a áreas, mas limitadas - ‘deixa estar’ (trabalho como doméstica), em restaurantes, cozinheiras, trançar mechas, fazer manicura e venda nas bancas; são trabalhos circunscritos a esfera da reprodução, limpeza e cuidado em espaços privados, e que requerem menos capacidade física. Ambos os sexos acreditam que o homem tem mais capacidade física do que a mulher para fazer trabalhos pesados, por isso faz mais biscates do que a mulher.
“Quando chega biscate, homem faz e tem dinheiro – carregar sacos, mulher não tem oportunidades” (raparigas, 15-18 anos, Beira).
Os rapazes então têm mais opções – serralheiros, electricistas, carregadores, pedreiros, electrónicos, vendas; são trabalhos na esfera da produção e com maior mobilidade no espaço público. Esta distinção faz com que o biscate acaba favorecendo mais aos homens porque adquirem habilidades na esfera pública que lhes dão maior acesso futuro a um emprego comparativamente as raparigas.
Foram detectadas poucas diferenças de género na percepção de um bom trabalho. A única que se destaca é a preocupação comum das raparigas que o trabalho deve lhes permitir ter tempo de cuidar da sua casa, filhos e maridos.
“Mulher casada com filho, não pode fazer hora extra porque deixou filho. Homem pode”
(rapariga, 16 anos, Beira).
Relatam que se o marido cuida a casa, esta vai ficar desleixada e sem dar um toque feminino. Foi relatado que as mulheres não podem repassar “a direcção” da casa para o marido, e desconfiam se as empregadas recebem ordens directas dos maridos eles podem passar a ser amantes.
As raparigas também mencionaram a importância de ter um trabalho digno e não vergonhoso. Como exemplo, em Nampula, as raparigas não querem varrer estrada por causa de vergonha do namorado lhe ver enquanto está com os amigos e não lhe assumir.
4.1.2 Voz, escolha e controle no trabalho
Foi reconhecido tanto pelos rapazes como pelas raparigas que a mulher não tem medo de trabalhar nem é preguiçosa, ela quer trabalhar, mas que grande parte das mulheres tem receio em tomar iniciativa de procurar trabalho, por vergonha, insegurança (medo de assédio ou violência sexual), baixa auto-estima e complexo de inferioridade (acham que não são preparadas). Por isto muitas vezes as mulheres são as primeiras a tomar iniciativa de fazer negócio. As raparigas que saem a procura de emprego têm tendência a ir a lojas, hotéis, restaurantes e empregos domésticos, a maioria são habilidades aprendidas no campo da reprodução, mas tem dificuldade de encontrar vagas:
“Eu procurei emprego nas lojas, acho que eu acabei toda a cidade (rapariga 22 anos, Beira).
Ambos sexos, na situação de vulnerabilidade económica que vivem, sentem que não têm controle nem poder de decisão sobre se devem ou querem trabalhar ou não, quanto contribuir em casa, se continuar ou deixar de estudar. Como disse um dos participantes de Maputo:
“trabalho não se escolhe, se faz, não é escolha é necessidade”.
Esta percepção de falta de escolha é ainda mais forte para as raparigas dado a falta de voz, baixa auto-estima, e baixa autonomia para tomar decisões.
Ambos sexos nas quatro cidades sentem a pressão familiar para trabalhar, muito embora nalguns casos não seja verbalizada. A pressão é ainda maior sobre os rapazes: existe a expectativa de que eles precisam trabalhar, e quando não conseguem continuar os estudos por qualquer razão, sentem-se forçados a realizar um biscate para contribuir nas despesas de casa, ou deixar de ser despesa. Dizem que a partir dos 15 anos é uma boa idade para que um jovem rapaz contribua para a casa. As vezes esta expectativa contribui para a decisão do pai “abdicar” da sua responsabilidade de assegurar acesso à educação para cada um dos seus filhos/as e transferir aos mais velhos a responsabilidade de
assegurar a finalização dos estudos dos irmãs/os menores.
“Porque em casa somos muitos e não dá para dependermos de 1 só pai e porque já estou avançado e tenho irmãos pequenos que também precisam” (Rapaz, 17 anos, Nampula).
“Eu prefiro viver longe para não estar a ouvir choros do que falta em casa. Sinto muita pressão.”
(rapaz, 20 anos, Tete).
No caso das raparigas a mesma pressão só se verifica quando elas têm filhos e vivem com os pais. Esta falta de pressão às raparigas para o trabalho produtivo pode estar relacionada à expectativa que se tem com relação ao casamento, já que espera-se que os rapazes sejam provedores. Também pode ser motivada pelo facto de as raparigas fazerem o trabalho doméstico, cujas tarefas em geral não recai sobre as outras mulheres mais velhas do lar.
Os jovens também reconhecem que não tem poder de decisão sobre que trabalho fazer. Para ambos os sexos ser adolescente é uma fase de grandes desafios e conflitos entre o sonho de ter uma vida digna, que depende de estudos para um bom sustento financeiro, e a realidade possível, dado a dificuldade de completar seus estudos e de encontrar vagas. Tanto os rapazes como as raparigas são bastante
realistas e adoptam uma atitude pragmática que segundo eles deve ter em conta as suas circunstâncias (o que é possível), o que o mercado oferece e precisa, assim como as capacidades da pessoa.
“Se formos ver na actualidade nem toda a gente consegue fazer aquilo que sonhou, porque as circunstâncias da vida não permitem ser o que eu queria ser (médica) então eu vou fazer o que é possível” (rapariga, 22 anos, Beira).
Esta atitude pragmática leva muitos a tem um plano B, que muitas vezes e o empreendedorismo (trabalho por conta própria):
“Não vale ter só um sonho, vale ter dois” (Rapariga, 16 anos, Beira).
A pressão da família sobre que trabalho fazer ou que curso fazer é menos. De um modo geral os
rapazes e as raparigas sentem que podem escolher os biscates que querem fazer assim como os cursos que gostariam de fazer para ir atrás dos seus sonhos, mas, em geral essas escolhas estão
condicionadas as possibilidades no contexto que vivem:
“Minha amiga o pai queria que ela fizesse medicina e a mãe contabilidade, ela fez minas. Nós podemos decidir sobre que curso fazer” (rapariga, 22 anos, Tete)
“O pai queria que fizesse electricidade, mas ele fez serralharia mecânica e o pai pagou” (rapaz, 20 anos, Tete)
4.1.3 Desigualdades de género no trabalho
São fortes as normas sociais que sustentam as desigualdades de género no trabalho. Uma é a crença de que a mulher é fisicamente mais fraca, mais emocional e menos inteligente que o homem. Outra é que a mulher deve se limitar aos trabalhos reprodutivos, de limpeza e cuidado, seja na casa seja no trabalho. Ambos limitam o tipo de trabalho a que a mulher pode aceder – trabalhos de menor valor e remuneração - enquanto também consignando muitas mulheres a uma dupla ou tripla jornada, com responsabilidades dentro e fora de casa.
É muito comum a atitude que os homens têm muitas responsabilidades, por ter papel de chefe de família e ter que prover a casa, e que é “mais fácil ser mulher porque não precisa prover a casa”, aténas casas nas quais as mulheres é que provêm com rendimento. O trabalho doméstico não é reconhecido como trabalho de responsabilidade, faz parte “da rotina de ser mulher”. As mulheres desde crianças são educadas a cuidar das tarefas da casa e não questionam esta divisão de responsabilidades. Ao mesmo tempo alguns rapazes sentem fortemente a pressão social para estarem no espaço público, resolvendo os problemas da família, e tendo que buscar autosustento ou sustento da família.
Entre as raparigas, foi comum encontrar a percepção que as coisas podiam ser mais fáceis se as mulheres fossem homens, mas que também há vantagem em ser mulher:
“Às vezes arrependo-me de ser mulher, mas dizem que as mulheres vivem mais do que os homens, me orgulho de ser mulher por isso. Se eu fosse homem não estaria aqui na Beira, estaria na África do sul a trabalhar. Se fosse homem as coisas seriam diferentes. Por exemplo eu vou a um sítio que estão a admitir, mas só querem homens” (rapariga, 23 anos, Beira).
4.1.4 Oportunidades
Apesar do quadro difícil, com difícil aceso a trabalho decente entre raparigas e rapazes e
desigualdades entre eles, existem também oportunidades e sinais de mudança nas normas sociais.
Constatou-se entre os jovens forte sentimento de persistência e não desistência que motiva eles a seguirem em frente e tentar ultrapassar os constrangimentos e desafios por forma a atingir os seus objectivos e sonhos. Entre os mais jovens há iniciativa de buscar oportunidades colectivas nos espaços de aprendizado/formações e desejam fazer trabalhos conjuntos e solidários. Muitos jovens têm alto espírito empreendedor, buscam as alternativas para a autonomia económica e aceitam a natureza dos biscates que fazem, mesmo sendo consideravelmente diferentes aos seus sonhos.
Existe a percepção da educação como um direito fundamental com potencial para garantir uma melhor qualidade de vida para os jovens e um compromisso por parte dos jovens e seus encarregados de educação para que, pelo menos, terminem o ensino médio (12a. classe) e para os rapazes, que desenvolvam habilidades que lhes garantam sustento (cursos técnicos). O sonho de todos é estudar para ter melhores oportunidades de trabalho e recursos económicos, se possível ir à universidade ou fazer um curso técnico para ter um bom emprego. No entanto, enfrentam as dificuldades de acesso às instituições educacionais devido aos valores cobrados e a baixa capacidade financeira dos
pais/encarregados de educação, a elevada concorrência e falta de vagas, à corrupção e ao limitado acesso à informação (veja mais informações na secção sobre educação).
Existem famílias que priorizam a educação dos filhos e das filhas sem pôr a necessidade de também trabalhar. Existem casos em que os jovens estudam no internato, que têm empregada, ou que
recorrerem ao uso de escala das tarefas entre as mulheres da casa para assegurar que as raparigas tenham tempo para se dedicarem aos estudos.Com relação aos rapazes existe uma motivação por parte de algumas famílias de encontrar alternativas para que se dediquem ao aprendizado de
habilidades, fazer cursos, ter profissão, para que sejam autosustentáveis e tenham trabalho decente e uma vida “decente”.
Existe em algumas partes maior reconhecimento da igualdade entre os géneros relativo aos estudos e o trabalho, que a mulher pode fazer tudo o que o homem faz:
“Nos tempos passados, os homens mais velhos é que trabalhavam mais em relação as mulheres.
Agora já ‘é diferente, porque agora já há igualdade de género, o que os homens fazem as mulheres também podem fazer” (rapaz, 20 anos, Beira).
Há rapazes que reconhecem a necessidade de compartir as tarefas domesticas para liberar tempo da mulher para seus estudos ou trabalho, mesmo que o homem pode ser visto como sendo menos masculino:
“Isso é normal, a mulher é uma parceira. Só que as pessoas começam a falar a dizer que aquele foi engarrafado (foi enfeitiçado) ” (Rapaz, 19 anos, Beira).
E por outro lado há raparigas que tentam negociar o seu acesso a oportunidades de formação e trabalho com os seus parceiros:
“Você não vai ser doutor e eu ser empregada doméstica. Ele ficava com a criança de noite, eu ia para escola, e eu ficava com a criança de dia” (rapariga, 20 anos, Beira)
e outras que enveredarem por profissões não tipicamente femininas como trabalhar nas minas, em recursos humanos, etc.
Há várias entidades sociais nos bairros que oferecem oportunidades e subsídios e apoiam
profissionalização dos jovens. Várias associações, por exemplo Coalizão/Geração Biz, ESSOR, UPA, OJM, têm projectos e programas para jovens, que ajudam a formar, orientar e criar oportunidades para o trabalho e existem ofícios como oficina mecânica de carros, fornos para coser o tijolo, restaurantes, lugares de modistas, etc., que podem servir de aquisição de habilidades e fontes de biscates. As igrejas também oferecem oportunidades de formação e trabalho voluntário no estrangeiro.
O papel das empresas é também importante. Empresas como a Vale e a Gindal treinam jovens com melhor aproveitamento que nos cursos técnicos e criam empregos.
Implicações para o Programa Ligada
• Através dos programas de EVA11 ouvir as preocupações dos jovens no que diz respeito as atitudes e normas sociais e culturais, e realizar programas práticos com soluções. Utilizar, como ‘alavancas’, as mudanças de atitudes e práticas exemplificadas no estudo
• Trabalhar com os interlocutores importantes no meio dos jovens para promover maior interacção com o mundo de trabalho (igrejas, empresas, institutos de ensino, etc)
• Garantir maior, e mais fácil, acesso a informação sobre oportunidades educacionais e de emprego.