Traumas e filosofia clínica
Daniel Fernandes da Silva
Especialista em filosofia clínica e professor adjunto no Instituto Interseção.
Resumo: Esta comunicação abordará algumas questões relativas ao conceito de trauma e suas interseções com a Filosofia Clínica. Partindo do conceito de trauma e de suas possíveis origens, serão estabelecidas as relações com a metodologia da filosofia clínica, desde seus processos de coleta de historicidade, até o uso de submodos. A partir de tais relações, serão abordadas, mais especificamente, as seguintes questões: Existem traumas em Filosofia Clínica ou apenas eventos passíveis, ou não, de criar um trauma?
De que forma a filosofia clínica trabalha aquilo que é comumente conhecido como trauma? Quais as relações possíveis com as categorias, tópicos e submodos? Por que algumas pessoas podem levar a vida melhor após uma perda traumática? Que aspectos da singularidade podem ser destacados em alguns casos clínicos?
Palavras chave: Traumas, Filosofia Clínica, Eventos Traumáticos, Historicidade, Singularidade.
Muitas vezes aquela pessoa sorridente ao nosso lado na rua, num ônibus ou metrô, um antigo vizinho, ou mesmo um familiar bem íntimo, carrega no íntimo uma dor, um desespero, que desconhecemos. Cada ser humano é único em suas vivências, prazeres, experiências e dores e somente ele sabe o tamanho da própria dor. O que para alguns é algo ínfimo, para outros é fonte de terror e sofrimento. Afinal, se "O mundo é a minha representação", cada qual vive, sente e faz suas experiências na vida de uma forma totalmente particular e única, e é deste modo filosófico que devemos ver e respeitar a aflição alheia.
Tenho recebido questões interessantes, e com visões bem diversificadas, sobre o assunto Traumas. A maioria indaga se a Filosofia Clínica reconhece a sua existência e de que modo os trata? Nesta comunicação eu gostaria de abordar algumas destas questões de forma a provocar a reflexão sobre o tema.
Afinal, o que é trauma e o que pode gerá-lo?
A palavra trauma tem sua origem no grego com o significado de "ferida". Talvez devêssemos utilizar o termo "traumatismo", dela derivada, já que este se refere às consequências do trauma para a estrutura e o funcionamento do organismo. Porém, como é de uso comum a utilização da palavra trauma como sinônimo de traumatismo para se referir aos efeitos de um evento traumatizante, vamos utilizar a palavra trauma para designar estes efeitos existenciais dolorosos.
Para a psicologia trauma é o dano emocional resultante de uma experiência de dor ou sofrimento físico ou emocional, que pode causar um aguçamento do medo e deste levar ao estresse. Esta reação ao evento seria capaz de promover mudanças físicas no cérebro e afetar os pensamentos e o comportamento do indivíduo, levá-lo à depressão, fobias e demais transtornos. Um evento deste tipo poderia estar ligado a apenas uma experiência ou a uma série de experiências repetidas. A partir da vivência desse evento, seria afetada a forma como a pessoa passaria a lidar emocionalmente com experiências do mesmo tipo ou similares.
Importante salientar que estas experiências causam reações muito variadas, pois o que pode tornar um evento traumático não é apenas o fato estressor em si, mas vários outros fatores e principalmente como a pessoa vivencia e elabora essa situação.
Surge então a pergunta: Existem traumas em Filosofia Clínica ou apenas eventos, passíveis ou não, de criar um trauma?
Se entendermos por trauma efeitos patológicos dos eventos traumáticos então tal conceito não encontrará respaldo na filosofia clínica, uma vez que não trabalhamos com as dicotomias: doente, são; normal, anormal. Não podemos negar a existência do sofrimento real para as pessoas que passam por eventos deste tipo. O que negamos é a generalização do trauma como patologia padrão derivada de tais eventos. Não considerar o trauma nestes termos não significa ignorar os possíveis efeitos de um evento capaz de gerar movimentos existenciais dolorosos e até mesmo insuportáveis.
Seria uma leviandade desacreditar a dor alheia, tanto quanto padronizar os resultados destes eventos, tomando como norma o desfecho traumático.
Mas, se na Filosofia Clínica não trabalhamos com padrões de patologias e sim com a subjetividade individual, de que forma encaminhar aquilo que é comumente conhecido como trauma, já que não há um "roteiro" terapêutico a ser seguido, pertinente a todos os que vivenciaram algum evento que lhes causou uma ferida existencial?
Somos seres singulares e singulares são nossas reações ao mundo. Em clínica percebemos isso de modo claro, pois cada partilhante é um universo em particular com suas dores, alegrias, vivências, emoções, etc. Todos os eventos da vida podem causar movimentações existenciais. Movimentações que terão resultados singulares tão variados quantas são as possibilidades da existência humana.
Nos espantamos com a plasticidade e capacidade de adaptação de nossas estruturas de pensamento, mas não podemos imaginar que esta plasticidade seja total, completa e livre. Pois nesse caso não conseguiríamos manter nossa própria individualidade, seriamos uma massa amorfa em constante mutação. É necessário que haja nesta plasticidade, também uma certa permanência. Mudamos, sim! Mas com as resistências próprias de cada um, moldadas por características genéticas, socioculturais, biológicas e por uma história de vida totalmente singular.
Portanto, algumas pessoas não irão considerar o evento como traumatizante, e isto por muitas razões possíveis: porque assim é para ela em sua estrutura de pensamento, ou porque tal evento em seu meio cultural, ou época, não é visto como traumatizante. Em alguns casos o evento pode não ter significado algum para a pessoa, não causar qualquer tipo de movimentação.
Encontraremos pessoas com uma maior plasticidade e capacidade de recuperação, para as quais os efeitos de um evento traumatizante são superados de forma a não deixar cicatrizes existenciais. Pessoas assim, após algum tempo, retomarão suas vidas e o evento terá deixado apenas lembranças de um fato doloroso ou desagradável.
Para outras o evento tampouco é percebido como traumatizante. Havendo casos em que a movimentação existencial é sentida como benéfica, pois causa um impulso visto pela pessoa como algo positivo, apesar das perdas e dores iniciais. E há aqueles, infelizmente, que sofrerão os efeitos de forma mais dolorosa, com movimentos
existenciais intensos, podendo ocorrer mudanças na sua estrutura de pensamento que tornem a vida bem mais difícil.
Sigamos a metodologia da clínica em busca de algumas das respostas que procuramos, observando certas movimentações existenciais que podem ser causadas por eventos traumatizantes.
Em primeiro lugar temos que analisar a categoria Assunto. É o assunto imediato a vivência do trauma? É esta a questão que nos traz o partilhante? Ou o que ele nos traz é o efeito de um trauma do qual nem mesmo tem consciência? Mesmo quando o partilhante nos diz que “tem um trauma” devemos pesquisar o que é isso para ele. O que ele entende por trauma? Sem a devida historicidade e exames categoriais nada podemos afirmar.
Quais seriam os efeitos de um evento traumático detectáveis na historicidade do partilhante?
Em alguns casos o evento estará lá, brilhando como um farol, marcando o exato instante em que ocorreu. A partir daí toda a sua historicidade mostra-se afetada pela reação ao evento e pelas movimentações existenciais dele decorrente. Vamos perceber que a pessoa tem consciência dos efeitos em sua vida do evento traumático que vivenciou.
Em outros casos, é possível que haja um salto temporal na sua historicidade, um lapso criado de forma a manter isolado um Lugar existencial extremamente doloroso. Os efeitos do evento estarão na historicidade, mas de forma que o partilhante não esteja consciente de que são o resultado do evento traumatizante, a pessoa pode não se dar conta de que têm como origem o tal evento, não conseguindo fazer a ligação de causa e efeito.
A situação fica mais complexa quando o evento traumatizante, aparentemente, desaparece da historicidade do sujeito, ou na forma de um lapso temporal, ou ainda mais dissimuladamente, na forma de uma fabulação que substitua a vivência por outra que tenha características mais aceitáveis e que possa ser incorporada à sua história de vida com menos dor existencial. Neste caso o partilhante cria outra história para si, uma
fábula menos dolorosa e passa a acreditar nessa interpretação dos fatos como sendo a realidade por ele vivida. É uma forma de tornar a vida possível de ser vivida. Uma movimentação deste tipo dificulta a coleta da historicidade, uma vez que o fato contado é outro e todo o restante da história de vida do partilhante é adaptada ao novo roteiro por ele criado. Uma reação deste tipo pode ser detectada pelas falhas lógicas e ou temporais, por mínimas que sejam, na historicidade. Sempre faltarão alguns dados, ou haverá outros inexplicáveis.
Não compete ao filósofo clínico causar uma movimentação que traga à luz a verdadeira história se a fábula foi a melhor maneira encontrada pelo partilhante para dar sentido à sua dor. Seria antiético, uma perversidade e perigoso trazer à tona os eventos tais como foram vivenciados, pois estaríamos abrindo a caixa de Pandora do partilhante É possível que outros eventos tragam à tona a verdadeira história, e façam com que a dor ressurja e então, sim, é a vez do filósofo agir.
Portanto, ao colher os dados da historicidade poderemos nos deparar com os fatos relatados pelo partilhante como sendo os eventos traumáticos que o incomodam, mas não necessariamente estes dados estarão explícitos e claros na historicidade. É possível que haja lacunas, falhas, saltos e até mesmo fabulações encobrindo ou mascarando os eventos traumáticos. Esta é uma primeira e importante constatação: os eventos traumáticos podem alterar a historicidade, podem alterar a forma como vemos e interpretamos nossas vidas. É claro que isto torna o trabalho terapêutico mais complexo e sutil.
Como identificar a possível existência de tais eventos em uma historicidade cheia de lacunas ou, ainda pior, interpretada, falseada ou reconstruída à luz do trauma? A resposta está em seguir na coleta dos Exames Categorias com o distanciamento recomendado, com a epoche necessária para não descaracterizar os fatos conforme são trazidos pelo partilhante. As lacunas serão preenchidas em seu devido tempo pelas divisões e enraizamentos e reafirmamos que relembrar os fatos ou desconstruir as fabulações pode ser ainda mais prejudicial e totalmente antiético. Quem direcionará a clínica será sempre o próprio partilhante, pois é ele quem nos fornece o caminho terapêutico.
Será através dos Exames Categoriais que poderemos detectar os movimentos existenciais vividos pela pessoa e as marcas do evento traumatizante. Dependendo da forma que o partilhante encontrou para superar, ou não, tal evento a movimentação em sua Estrutura de Pensamento poderá afetar qualquer uma das categorias.
A categoria Assunto pode ser diretamente influenciada e é quando o partilhante nos traz exatamente o trauma como assunto que o incomoda. Mas pode ser também indiretamente influenciada quando o trauma acaba refletindo em outros aspectos da vida do partilhante e este não consegue identificar a relação dos problemas que o incomodam com o evento traumatizante que vivenciou. Neste caso o trauma poderá aparecer como Assunto Último.
Como vimos, ao discutir a historicidade, nem sempre o evento traumatizante deixa sequelas na categoria Lugar, pois para algumas pessoas o evento nem sequer é visto como existencialmente doloroso, ou para outras com uma maior capacidade de recuperação o efeito é absorvido, minimizado ou até eliminado. Já para aqueles cuja categoria Lugar indica um sofrimento existencial deveremos pesquisar em sua historicidade a possível causa desse sofrimento.
A categoria Lugar pode indicar um “locus” de sofrimento do qual o partilhante possua pleno conhecimento do que se passa com ele. Pode indicar, também, um sofrimento do qual a pessoa não tenha qualquer noção. Ou até mesmo nenhum sofrimento ser sentido.
Se a pessoa criou um salto existencial que isolou o evento de forma eficiente ou criou uma fábula em seu lugar capaz de substituir a vivência traumática de forma convincente eliminando a dor, a categoria Lugar poderá não indicar uma afetação.
Quanto à categoria Tempo, na existência de um lapso temporal, é possível, que haja algo naquele instante do tempo cuja recordação está sendo evitada. Algumas pessoas irão evitar recordar o passado, fugindo assim dos eventos dolorosos. Outras ficarão presas às recordações pré traumáticas, lembrando dos “bons velhos tempos”. Outros, ainda, passarão a evitar pensar no futuro, como se isso fosse uma forma de não se desapontar com um possível novo evento traumático. Para alguns a categoria tempo fugirá da forma cronológica e o individuo passará a viver subjetivamente um tempo Aion, onde passado e futuro são ao mesmo tempo. Para estes os traumas passados estão,
também, no futuro; fazem parte de um “continuum”, com a dor existencial adquirindo aspectos de eternidade.
As Relações podem ser afetadas fazendo com que a pessoa reaja isolando-se e evitando relacionar-se, principalmente com pessoas e lugares que lhe remetam ao evento traumatizante. Poderá se retrair nos seus relacionamentos. Outras irão procurar exatamente o oposto com uma hipertrofia nos relacionamentos, numa busca de superação. Alguns poderão evitar lugares que lembrem o trauma ou ao contrário buscarão os mesmos lugares e pessoas similares, tentando recriar uma nova interpretação para o acontecido, uma nova história para substituir a anterior carregada de dor. Desta vez uma história sob controle.
As circunstâncias são, na maior parte dos casos, as geradoras dos eventos, mas podem ser também afetadas pela movimentação existencial decorrente do evento traumatizante.
As mudanças ocorridas na forma de agir e de se relacionar, poderão ter um efeito nas circunstâncias da vida da pessoa de forma a fazê-la mudar radicalmente, Poderá trocar de emprego, cidade, relacionamentos, abandonar a família, etc.
Obviamente que tudo isto são possibilidades. Uma pequena amostra do infinito universo humano. Uma vez que não poderemos cobrir toda a gama de reações humanas e todos os efeitos e movimentações na estrutura de pensamentos e nos submodos, abordemos possíveis efeitos de tais eventos traumatizantes em apenas alguns tópicos e submodos.
Eventos traumáticos podem ter um efeito bem pronunciado nos dois primeiros tópicos:
Como o mundo parece e O que acha de si mesmo. A visão de mundo pode ser levada a extremos depois de um evento traumático, com o partilhante acreditando que o mundo tornou-se um lugar de horror e medo. Um lugar ameaçador. Um lugar a se evitar. Se ocorrer uma fabulação o oposto também é possível, com sua visão de mundo tornando-o perigosamente confiante. Sua auto-estima pode ser seriamente abalada, enfraquecida, tornando a pessoa medrosa, ou pode ocorrer o oposto tornando-a temerária, arrojada e aventureira.
Alguém que tenha passado por uma experiência deste tipo pode ter o seu raciocínio desestruturado, afetando os tópicos e submodos epistemologia, estrutura do
pensamento, ação, hipótese, experimentação, idéias complexas, etc. Sua forma de aprender e entender o mundo poderá ser filtrada pelas novas lentes existenciais geradas pelo evento traumatizante. A desestruturação em sua forma de pensar pode levá-la a entrar numa armadilha nos tópicos ação, hipótese e experimentação, vivenciando um movimento repetitivo e perdendo-se em idéias complexas com sérias dificuldades em ir ao desfecho.
A pessoa poderá somatizar o fato vivenciado, afetando o tópico sensorial e abstrato e o Submodo em direção às sensações. Muitas são as somatizações possíveis, desde problemas de saúde até atos de auto agressão e auto mutilação. Pode haver uma hiper sensibilização ou seu oposto tornando a pessoa insensível e catatônica. Poderá ocorrer a necessidade de aumentar os prazeres sensoriais com a intensificação da busca por drogas, comidas, bebidas ou sexo.
Seu tópico Emoções talvez seja afetado, o que pode levá-lo a tornar-se hiper-emotivo ou ter o efeito contrário tornando-o apático e insensível. Poderá desenvolver uma série de Pré-juizos relacionados às circunstâncias ocorridas. Tornar-se uma pessoa mais inversiva. Poderá ter dificuldades de ir ao desfecho em suas vivências futuras. Detalhes do evento poderão persistir como termos que ficarão agendados em seu intelecto.
Alguns poderão desistir de suas buscas. Em alguns casos os valores poderão ser afetados indo da estrema rigidez até o oposto de total liberalidade.
Ocorrerão alterações na sua Expressividade ? Quais serão as formas que assumira sua esteticidade? Desenvolverá vice-conceitos, metáforas, para poder encarar os eventos traumáticos?
Enfim, são inúmeras as possibilidades de movimentação existencial em decorrência de um evento traumatizante. Levantamos apenas algumas dentro deste universo infinito chamado vida.
Dentro da Filosofia Clínica não reconhecemos os traumas como patologias, como doenças incuráveis, mas como movimentações existenciais capazes de trazer dor e sofrimento. E, se estes efeitos não são universais, se existem pessoas com estruturas plásticas o suficiente para se readaptarem após um evento traumatizante, não devemos
descuidar, e muito menos minimizar o sofrimento daquelas que estarão carregando em suas estruturas de pensamento as sombras de um fato doloroso cujos ecos ainda reverberam em suas vidas.