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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUCSP SONIA CRISTINA ROVARIS

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC/SP

SONIA CRISTINA ROVARIS

VIOLÊNCIA, VELHICE E POLÍTICAS PÚBLICAS: o caso

do Município de Feira de Santana

Bahia

Mestrado em Gerontologia

(2)

SONIA CRISTINA ROVARIS

VIOLÊNCIA, VELHICE E POLÍTICAS PÚBLICAS: o caso

do Município de Feira de Santana

Bahia

(3)

SONIA CRISTINA ROVARIS

VIOLÊNCIA, VELHICE E POLÍTICAS PÚBLICAS: o caso

do Município de Feira de Santana

Bahia

Dissertação

apresentada

junto

ao

Programa de Estudos Pós-Graduados em

Gerontologia, da Pontifícia Universidade

Católica de São Paulo, como exigência

Parcial para obtenção do título de Mestre

em Gerontologia, realizado sob a

orientação da Prof.ª Dr.ª Vera Lúcia

Valsecchi de Almeida.

(4)

BANCA EXAMINADORA

________________________________

________________________________

(5)

AGRADECIMENTOS

Sou grata a minha orientadora, Prof.ª Vera Lúcia, pela disponibilidade em direcionar as limitações cientificas e pelo respeito, firmeza, carisma com estimulo em cada fase dessa dissertação.

Ao corpo de colaboradores do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC/SP, em especial aos docentes, pelo compartilhamento de saberes; superou minhas expectativas e aguçou minha atenção para novos olhares mais sensíveis da velhice.

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo incentivo proporcionado durante o mestrado junto ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, da Universidade Católica de São Paulo.

Aos meus colegas de Mestrado pelos momentos únicos. Qualquer palavra seria insuficiente para expressar a alegria proporcionada quando estivemos juntos; apesar do tempo escasso, foram sempre intensos.

Sou grata ao Escritório Regional do Ministério Público Estadual de Feira de Santana (ERFS), em especial à 16ª Promotoria de Justiça que não somente disponibilizou os dados, como propiciou a construção de um alicerce para que cada um, ao passar, assente seu “tijolo”.

Não poderia deixar de citar meus colegas do ERFS pelas “consultas universitárias”, as quais foram de grande valia; as estagiárias do Curso de Serviço Social, em uma forma recíproca, auxiliaram na coleta de dados.

Em especial à minha família que, mesmo distante, acreditou e incentivou, semanalmente, as longas viagens. Às minhas amigas e amigos, que há algum tempo acolheram a substituição, durante o mestrado, dos diálogos presenciais pelos online e que, nos escassos encontros, parece

que “foi ontem”.

(6)

“A sua verdade é a sua verdade,

A minha verdade é a minha verdade Só resolveremos os grandes assuntos Quando descobrirmos a verdade junto”.

(7)

RESUMO

ROVARIS, Sonia Cristina. Violência, Velhice e Políticas Públicas: o caso do município de Feira de Santana Bahia. 2014. 143p. Dissertação de Mestrado em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2014.

A violência contra o idoso é um fenômeno antigo; no entanto, só se tornou evidente nos meios científicos nas últimas décadas do século XX, impulsionada pela investigação da violência intrafamiliar. Neste sentido, o presente trabalho originou-se das inquietações frente ao elevado número de atos violentos contra idosos registrados na Regional do Ministério Público de Feira de Santana, muitos deles radicados na desarticulação e fragmentação dos serviços de promoção e prevenção das políticas sociais públicas. Para conhecer o contexto que perpassou a violação de direitos dos idosos foram utilizados dos registros documentais de procedimentos, em andamento, da 16ª Promotoria de Justiça de Feira de Santana, no período de maio a setembro de 2012. Foram mapeados os motivos dos atos de violência sofridos pelos idosos nos procedimentos da referida promotoria de justiça. Os objetivos específicos da investigação foram mapear o perfil sócio demográfico dos idosos com suspeita ou que sofreram atos de violência; identificar os fatores relacionais, sociais, culturais e ambientais relacionados com os atos de violência contra idosos e fornecer subsídios para a implementação de políticas públicas. Para a este trabalho a opção metodológica foi pela pesquisa exploratória, descritiva, quanti-qualitativa e documental. Na análise dos 215 procedimentos encontrados foi constatado que os tipos de violação de direitos contra idosos, registrados no Ministério Público, relacionaram-se às violências “interpessoal”, “institucional”, de “cuidados de saúde” e de “busca por serviços”. Verificou-se que 70.2% dos

tipos de queixas estavam relacionadas à violência interpessoal; seguida de 21,9% com demandas de saúde; 3,7% com a violência institucional. 2,4% foram casos que não envolveram diretamente uma agressão pelo fato de ser idoso incapaz e; 1,8% estavam relacionados à busca de serviços oferecidos pelo Órgão. No que diz respeito ao perfil do agressor os dados obtidos acompanharam a tendência nacional, ou seja, que a violência contra a pessoa idosa acontece, principalmente, nos espaços domésticos tendo como agressores os próprios familiares, representando um porcentual de 64,1%, dos casos pesquisados. Os dados encontrados, ainda sinalizaram que os profissionais que atuam nas políticas básicas e especiais não estão comunicando os casos de violência contra o idoso, pois a origem da informação dos atendimentos da 16ª PJFS revelou que mais de 80% dos casos chegaram através da própria vítima ou pela comunicação de outra pessoa. Reconhecemos que os dados levantados quantitativamente não retratam a real magnitude do fenômeno; isso porque se trata de casos complexos e múltiplos; de situações que envolvem o desconhecimento, a negação, a negligência, a falta de preparação dos profissionais e das instituições com o reconhecimento e as notificações dos atos.

(8)

ABSTRACT

Violence against the elderly is not a recent phenomenon, although it only came to the interest of the scientific community in the last decades of the 20th

century, following the studies of domestic violence. Taking this into account, the present thesis originated from the concern about the huge number of documented cases regarding this kind of violence that can be found at the local office of the Ministério Público do Estado da Bahia which is located in

the city of Feira de Santana, Bahia, Brazil. A substantial number of those are

rooted in the fragmented state of the structure of public polices aiming at the prevention of such cases. To understand the context in which they happened, we have analyzed all the existing documented cases in the 16ª Promotoria de Justiça de Feira de Santana, during the period from May to

September 2012. The motivations for, and the circumstances (social, cultural, environmental...) of the acts of violence were identified, categorized and mapped in the process of analysis, so as to create a sociodemographic profile of the elderly people that were suspected of having suffered violence of some kind, which, in its turn, can be used to subsidize the implementation of specific public policies. To perform the present research we have used the following approaches: exploratory, descriptive, quantitative, qualitative and documentary. From the 215 processes that were analyzed, we have detected that the types of violation of rights suffered by elderly are interpersonal, institutional, healthcare related and also happen when they demand some kid of public service at some government department. 70.2% of the existing complaints were related to interpersonal violence; 21.9% were healthcare related; 3.7% were of institutional violence; 2.4% were not age related aggressions and 1.8% were related to demanding some kid of service at the

Ministério Público do Estado da Bahia's local office. Regarding the

aggressor's profile the data points towards the national tendency, that is to say, in its majority, the cases of violence against the elderly happen at home, having as its perpetrators close relatives and the like. These represent 61.4% of the analyzed cases. The data also shows that a great number of cases are not being reported by the professionals acting at the specific and non-specific public polices related to the field of elder abuse prevention; the cases are mostly being reported by the victims themselves or by somebody else. We recognize that the quantitative data does not properly reflect the magnitude of the problem, due to the complexity and multiplicity of cases. These situations involve such things as lack of information from the victims, state of denial and negligence from the professionals acting at the field which are themselves ill trained to properly perform their roles.

(9)

LISTA DE GRÁFICO, QUADRO E FIGURA

Figura 01

Tipologia da violência

35

Figura 02

Hierarquia do acesso às políticas públicas

69

Figura 03

Distribuição da população por sexo

75

Gráfico 01 Tipos de violência

89

Gráfico 02 Tipos de violência interpessoal

92

Gráfico 03 Direitos negados

cuidados de saúde

97

Gráfico 04 Tipos de violência institucional

103

Gráfico 05 Violência por faixa etária

110

Gráfico 06 Idosos por condições de saúde

112

Gráfico 07 Grau do parentesco do agressor

119

Gráfico 08 Órgão do Estado responsável pela violência

122

Gráfico 09 Agressor externo

sociedade

125

Gráfico 10 Origem do Atendimento

129

Gráfico 11 Origem do atendimento e faixa etária

133

Quadro 01 Comparativo da justiça retributiva e

restaurativa

47

Quadro 02 Concentração das demandas por território

do CRAS

115

Tabela 01

Sexo, idade, razão mulher/homem em

relação à violência.

109

(10)

SIGLAS

AME

Assembleia Mundial do Envelhecimento

ATLAS Atlas do Desenvolvimento Humano

CBAS

Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais

CDEP

Coordenação de Documentação e Estatística Policial

CIEH

Congresso Internacional de Envelhecimento Humano

CNAS

Conselho Nacional de Assistência Social

CNDI

Conselho Nacional dos Direitos do Idoso

CNDPI Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa

CNRVV Centro de Referência às Vítimas de Violência

CRAS

Centro de Referência de Assistência Social

ECA

Estatuto da Criança e do Adolescente

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas

IDHM

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal

ILPI

Instituição de Longa Permanência para Idoso

INPS

Instituto Nacional de Previdência Social

IPEA

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

LDO

Lei de Diretrizes Orçamentárias

LOA

Lei Orçamentária Anual

LOAS

Lei Orgânica da Assistência Social

MDS

Ministério de Desenvolvimento Social

NEPE

Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Envelhecimento

NOB

Norma Operacional Básica

OMS

Organização Mundial de Saúde

ONU

Organização das Nações Unidas

PNAS

Política Nacional de Assistência Social

(11)

PNUD

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

PPA

Plano Plurianual

PUC/SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

RENADI Rede Nacional de Proteção e Defesa dos Direitos da

Pessoa Idosa

RMV

Renda mensal vitalícia

SBG

Sociedade Brasileira de Geriatria

SBGG

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

SGDPI Sistema de Garantia de Direitos da Pessoa Idosa

SUAS

Sistema Único de Assistência Social

(12)

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

12

INTRODUÇÃO

20

CAPÍTULO I: SOBRE A VIOLÊNCIA

24

1. Conceituando violência

24

2.

Violência e suas múltiplas formas na vida cotidiana

31

3. Tipologias da violência

33

4. Vulnerabilidade e risco

39

5. Violência contra a pessoa idosa

43

5.1Novas possibilidades de enfrentamento da violência

46

Capítulo II: VELHICE E POLÍTICAS PÚBLICAS

49

1. Velhice

49

2. Políticas públicas

57

2.1 Trajetórias do sistema de proteção social

59

2.1.1 Âmbito internacional

59

2.1.2 Âmbito nacional

61

2.2.3 Delineando um sistema de garantia de direitos da

pessoa idosa

66

Capítulo III: ABORDAGEM METODOLÓGICA E

PROCEDIMENTOSS

DE

COLETA

DE

DADOS

74

1.

Contextualizando o cenário

74

2.

Lócus da pesquisa

77

3.

Abordagem metodológica

82

Capítulo

IV:

APRESENTAÇÃO

DOS

RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS

87

1.

Considerações iniciais

87

2.

Tipos de violência

89

3.

Dados demográficos

107

3.1 Concentrações dos registros por território

114

4.

Perfil do agressor

117

5.

Origens das demandas

128

Palavras finais

135

(13)

12

APRESENTAÇÃO

A busca por uma formação stricto sensu foi desejada desde os

primeiros processos acadêmicos; a incerteza resumia-se à especificidade na abordagem. A formação em Serviço Social abre, cotidianamente, um leque de escolhas pelas circunstâncias com as quais se depara nas intervenções profissionais e que envolvem, na maioria das vezes, vulnerabilidades sociais enfrentadas por grupos específicos – crianças, adolescentes, pessoas com deficiências, idosos etc. Os quais, em alguns momentos, se valem de um

“porta-voz” para garantir vez e voz.

Como mediador de direitos sociais, o assistente social centra-se na matricidade familiar, mas no delineamento de suas ações usa, frequentemente, classificações que agrupam indivíduos em categorias por faixa etária, gênero e posição social, para viabilizar serviços que contemplam os grupos específicos citados no parágrafo acima, que fazem parte de um contexto a um só tempo familiar, social, político e planetário.

Por isso, a escolha de uma dessas categorias não foi tarefa fácil. Indo além das motivações intrínsecas, ao considerar que os projetos de pesquisa tendem a nascer de nossa prática profissional, normalmente aquela na qual o pesquisador está inserido, ainda que inicialmente não se consegue perceber os diversos elementos que contribuem de forma “inconsciente” com a escolha da temática a ser pesquisada.

Na trajetória da intervenção profissional, ações de fortalecimento dos grupos de pessoas acima de 60 anos acompanharam o fazer profissional desde as primeiras experiências. As oportunidades de transitar em diversos espaços ocupacionais (assistência social, saúde, educação, conselhos de direitos, órgãos de defesa), intercalando-as a funções técnicas operacionais e estratégicas, apresentaram-se como uma trilha labiríntica que exigia aperfeiçoamento constante no delineamento de um caminho.

No percurso profissional, as atividades e atribuições mantêm as orientações pautadas nos princípios do Código de Ética Profissional1, que incluem a liberdade na perspectiva de autonomia do indivíduo; defesa dos

1

(14)

13 direitos humanos como forma de recusa do autoritarismo; cidadania2 no

acesso aos direitos civis, políticos e sociais; democracia na participação política e na riqueza socialmente produzida; equidade e justiça social com a universalização no acesso aos bens e serviços; eliminação do preconceito com incentivo à diversidade e às diferenças; garantia do pluralismo e aprimoramento intelectual; construção de uma nova ordem societária sem dominação e exploração de classe, etnia e gênero; articulação com os movimentos sociais; qualidade nos serviços e não subalternidade da profissão (CFESS, 2012).

No campo de promoção das políticas públicas, a inquietação com ações de desrespeito aos direitos civis, sociais e políticos envolvendo pessoas idosas era confrontada com as novas propostas da virada do século XXI, asseguradas nas normas brasileiras e nas diretrizes das políticas públicas. Mesmo com a distância que separava os dispositivos legais da realidade, a maior motivação vinha das falas dos sujeitos durante encontros de convivência, reuniões, atendimentos individuais; enfim, momentos em que as vozes se entrelaçavam com recordações de vivências, como a superação das adversidades que marcavam as experiências de vida.

Paralelamente, ações como implantação de conselhos de direitos, reorganização de serviços quando descaracterizados de sua proposta inicial, decorrente de hábitos tradicionais, e centros de convivência funcionando em modalidade de Instituição de Longa Permanência para Idosos resultavam em longas fricções, que nem sempre resultavam em consensos.

Desenvolvido em 2005, em um município de pequeno porte, o movimento para a instalação do Conselho Municipal do Idoso, que resultou na elaboração de um documentário local com filmagens envolvendo idosos com mais de 70 anos que continuavam ativos, no papel de arrimo de família e cuidador de membros da família com dependência nas atividades da vida diária. Idosos que mantinham ativa a participação na sociedade durante

2

(15)

14 caminhadas e reuniões no processo de criação do Conselho e Fundo Municipal do Idoso.

Foram frequentes os questionamentos sobre a necessidade de formular e criar espaços para os idosos continuarem a exercer a cidadania, mesmo aqueles que não a desfrutaram em fase mais jovem, a exemplo do acesso à educação.

Ao contemplar quase uma década de atuação em órgãos de promoção nas políticas públicas - espaços voltados para garantir efetividade nas políticas sociais básicas e prevenir a presença de agravo e riscos sociais por meio da ampliação do acesso aos direitos de cidadania -, a atuação profissional passou a ser em um órgão de defesa, com a função de subsidiar ações que buscam proteger os interesses coletivos. Nesse espaço, depara-se com a amplitude de situações que dizem respeito à violação de direitos, dando a impressão de vivenciar uma era pré-civilizatória em um mundo planetário. Os contatos com os idosos ocorriam, na maioria das vezes, diante de uma situação de adversidade.

A mudança do espaço de atuação profissional parece ter sido mais difícil do que a própria execução das atividades. Refazer as rotinas de trabalho e mudar o centro da atenção foi processo demorado que exigiu embasamentos teóricos. Fazer um recorte de atuação profissional era um desafio imposto diariamente; no espaço de trabalho as demandas oscilavam, frequentemente, entre categorias de crianças, adolescentes, deficientes, idosos, mulheres vitimadas, pessoas em situação de rua, associações e fundações privadas.

Frente a essa diversidade deparava-se, para cada demanda, com diferentes estilos de chefia imediata que exigiam, na maioria das vezes, a prática interdisciplinar; ação que pouco fluía, pois o histórico do sistema de justiça carrega resquícios de velhas práticas em que o poder muitas vezes prevalece sobre os serviços, o que dificultava a abertura de espaços para discutir a reorganização e avaliação dos instrumentos de trabalho.

(16)

15 órgãos executores3 e órgão auxiliares4 começou a ser contemplada somente

com a indicação do novo membro da 16ª Promotoria de Justiça. Houve estratégias de discussão interdisciplinar - situação pouco comum –, o que contribuiu na escolha de investigar a categoria velhice, objetivando-se a violência e políticas públicas. No momento nos deparávamos com elevado número de informações de violação de direitos que, oriundas do disque denúncia5, continham registros de idosos que sofriam negligência, violência física, psicológica, apropriação de benefícios, entre outras violações.

Nas discussões da 16ª Promotoria de Justiça foi cogitada a possibilidade de ocorrência de desarticulação entre os serviços da rede que deveriam proteger o idoso com ações promocionais e preventivas do ponto de vista biopsicossocial. Na medida em que os registros das denúncias eram apurados, constatava-se que dificilmente os casos haviam recebido intervenções ou acompanhamento dos serviços de promoção de atenção e proteção básica do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que atuam como porta de entrada nos serviços de saúde e assistência social, respectivamente.

Na maioria das vezes as denúncias envolviam demandas relacionadas à falta de informações sobre a forma de acesso aos serviços; consequentemente, ocorriam violações de direitos, com negligências na oferta de equipamentos como próteses, órteses para pessoas em situação de desvantagem social, incapacidade e/ou deficiência, medicamentos, casos envolvendo conflitos familiares, doenças crônicas (demências, drogadição, doença mental), isolamento social, rejeição, abandono, que demandavam orientações, acompanhamento continuado, ou mesmo encaminhamento de pedidosde providências ao órgão ministerial.

Constatou-se, por exemplo, que uma família com a informação registrada no disque denúncia chegava a receber a primeira visita de profissionais de órgão de defesa ou de outros. Conclusão, a família ficava

3 Órgãos de execução são formados por promotores de Justiça que atuam nas diferentes

funções relativas à administração e funções da instituição - Lei Complementar Estadual Nº 11/1996.

4 Órgãos auxiliares são compostos de apoio técnico, administrativo e de assessoramento, e

os estagiários - Lei Complementar Estadual Nº 11/1996.

5

(17)

16 sobrecarregada de informações/orientações e sem apoio no fortalecimento dos vínculos, continuidade na ação protetiva ou acesso e usufruto dos direitos sociais.

A falta de intervenções efetivas para encaminhar as vítimas por meio dos serviços organizados como porta de entrada (atenção básica da saúde e proteção social na assistência social) resultou em encontros com profissionais da área que se queixavam da precariedade de infraestrutura nos locais de trabalho. Indicavam-na como motivo para não intervir nos casos de suspeita de violação de direitos, além de atribuir a intervenção aos órgãos de defesa e controle, como forma de complementar os serviços de promoção e proteção, quando insuficientes para desenvolver as atribuições6. As discussões levantaram a urgência de elaboração de protocolo para estabelecimento de fluxos, no intuito de evitar o retardamento da intervenção e a multiplicidade de ações no mesmo caso.

A escolha de aprofundar sobre a última fase do ciclo vital – a velhice –

contou com uma teia de relações associadas ao meio que exigia um fazer profissional a partir de nova leitura da realidade vivenciada. De início, as razões que levaram a essa opção pareceram intuitivas, pois as questões que envolvem violação de direitos não escolhem idade (perpassam todas as faixas etárias), alterando-se somente as formas de perpetuação.

As habilidades da chefia imediata, responsável pela condução dos trabalhos da 16ª Promotoria de Justiça - 16ª PJFS, com a abertura de espaços de discussões sobre a violência contra o idoso, envolvendo os serviços de atenção e proteção social do SUS e o SUAS, emprestaram sua contribuição para a escolha aqui feita. Habilidade que emergiu como janela aberta em uma caverna. A ela somam-se os embasamentos teóricos da

Revista Kairós, que contemplam importantes discussões teóricas,

fornecendo subsídios significativos para a compreensão dos casos encaminhados pela 16ª Promotoria de Justiça ao Serviço Social e estímulos recebidos pela responsável da editoria da referida revista com a provocação de apresentar um recorte das inquietações vivenciadas no exercício profissional ao Programa de Pós-Graduação em Gerontologia.

(18)

17 O interesse pelo Programa de Pós-Graduação de Estudos em Gerontologia da PUC/SP foi alimentado por esses fatores durante mais de seis meses. Quando iniciado, superou as incertezas que pairavam quanto à possibilidade de conclusão diante das amarras de enfrentar mudanças de rotinas com deslocamentos semanais de longas viagens, que faziam sair da

“zona de conforto”. No decorrer do curso aumentaram os estímulos com as

contribuições proporcionadas pelas leituras e discussões em sala de aula; estímulos que superavam noites em claro e fadiga ocasionada pelas viagens.

O Programa de Estudos passou a preencher o espaço ocupado por um discurso maçante e repetitivo, que não mais respondia às ocorrências que se apresentavam no local de trabalho. Qual o sentido de manter uma intervenção que intimida a família e afirma sua incapacidade de não assumir o papel de provedora de seus membros? Por que as práticas sociais estabelecem critérios para atender às famílias partindo daquilo que está faltando, não do que se tem?

A metodologia de ensino do Programa contribuiu para desconstruir os modelos prontos que nos são apresentados durante nossa formação. Metodologia pautada por uma concepção de educação e aprendizagem que respeita a subjetividade do sujeito que envelhece e busca ações que preservam a autonomia do indivíduo a fim de formar cidadãos capazes de organizar seus conhecimentos.

A excelência do Programa reside, principalmente, na maneira democrática de construção de saberes, possibilitando a abertura de um

pensamento na forma de “elástico”, que leva à ressignificação de projetos de vida e à fuga de atos repetitivos sem aprofundamento do motivo e do significado.

A mensagem transmitida reflexivamente e não acompanhada de respostas prontas fazia-nos entender que a toda crítica deve se seguir uma nova proposta, e que o conhecimento, se não vier acompanhado de perspectivas e atitudes, apresenta poucos resultados.

(19)

18 abordagens (operacional, estratégica e filosófica). O leque possibilitou, portanto, o embasamento das discussões e o estímulo para construção permanente, considerando a heterogeneidade e a singularidade de cada ser humano em determinada época.

No decorrer do Programa surgiram questionamentos, como: a partir do momento que assumimos a maior idade não precisamos iniciar um planejamento que guie as etapas seguintes da vida, inclusive a velhice? Podemos pensar que isso se choca com o confisco da eventualidade da vida? Como evitar a insatisfação de permanecer na velhice em um lugar não desejado? Como reconhecer se alguma violência foi uma maneira diferente (estranha) de amar, uma forma de vingança ou apropriação alheia? Como os espaços coletivos de vivências prolongadas para pessoas acima de sessenta anos podem dar continuidade ao fortalecimento das histórias de amor e da autonomia?

Esses aspectos surgiram durante as discussões proporcionadas pelo Programa em sala de aula, nos encontros do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Envelhecimento (Nepe), nos estímulos para participação em atividades científicas promovidas pelo Programa envolvendo a temática da velhice, a exemplo da 14ª Semana de Gerontologia e do 1º Simpósio

Internacional de Gerontologia Social, com o tema “Gerontologia Social: história e releituras”; na apresentação de trabalhos científicos em congressos: 3º Congresso Internacional de Envelhecimento Humano –

CIEH, com o tema a invisibilidade de práticas tradicionais em instituição de longa permanência para idosos; 13º Congresso Brasileiro de Assistentes

Sociais – CBAS, com o tema transformações na sociedade brasileira e a construção de um sistema de garantia às pessoas acima de sessenta anos de idade: desafios e perspectivas; produção de matérias acadêmicas, como

popularização da ciência, publicada no Portal do Envelhecimento: “É

possível reconhecer a envelhescência?”; participação na Revista Eletrônica

Portal, com o tema “Conte-me! o que é o amor para você?” e “Memórias de Carnaval”.

(20)

19 apresentada como proposta de projeto na instituição de trabalho, acatada pela gestão estratégica como proposta a ser executada pela instituição.

(21)

20

INTRODUÇÃO

A iniciativa em discorrer sobre “violência, velhice e políticas públicas”

teve origem em inquietações vivenciadas na atuação profissional em um órgão de defesa, com a função de subsidiar ações que buscam proteger os interesses coletivos7 enfrentadas por grupos específicos, entre eles pessoas acima de sessenta anos de idade.

A atuação do profissional de Serviço Social8 nas Promotorias de Justiça9 inclui, cotidianamente, estudos de casos envolvendo idosos; de pessoas que enfrentavam, na maioria das vezes, situações de violações de direitos e que exigiam, consequentemente, intervenções inicialmente pontuais, pois havia pouca articulação contínua com os serviços de promoção, controle e defesa.

Observava-se elevado número de informações de violação de direitos oriundas do “Disque Denúncia”, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, e do Setor de Triagem no Ministério Público e informações de idosos sofrendo negligência, violência física e/ou psicológica, abandono e apropriação de benefícios. As demandas apresentadas revelavam desarticulação entre os serviços da rede que deveriam proteger o idoso e as ações promocionais ou preventivas do ponto de vista biopsicossocial.

Era bastante evidente a necessidade de desmistificar as atribuições entre os serviços de promoção10, controle11 e defesa12, para evitar práticas

7Conquistas sociais reconhecidas em lei, como o direito à saúde, o direito a um governo

honesto e eficiente, o direito ao meio ambiente equilibrado e os direitos trabalhistas. Quando um direito coletivo não é respeitado, muitas pessoas são prejudicadas e o Ministério Público tem o dever de agir em defesa desse direito, ainda que o violador seja o próprio Poder Público. Os direitos coletivos, em sentido amplo, dividem-se em direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos, conforme o parágrafo único do art. 81 da Lei 8.078/90. http://www.cnmp.mp.br/direitoscoletivos/.

8A lógica institucional prevê que o Serviço Social seja acionado pelos órgãos de execução; porém, inicialmente, as frequentes demandas que chegava ao setor eram espontâneas ou decorrentes de encaminhamento informal da rede de serviços.

9

Órgão de execução do Ministério Público Estadual.

10 Encontram-se as instituições responsáveis pela execução da política de atendimento do idoso.

11

Responsáveis pela elaboração, deliberação, avaliação e monitoramento da política de atendimento.

(22)

21 viciosas, a exemplo de serviços substitutos ou paralelos, como forma de complementar os primeiros, quando insuficientes para desenvolver as funções.

Cogitou-se que a precariedade de infraestrutura nos locais de trabalho dos serviços promocionais levava os profissionais a não intervir nos casos de suspeita de violação de direitos, atribuindo o acompanhamento e orientações dessas situações aos serviços de controle13 e de defesa14; ocorria, portanto, a inversão de papéis e retardamento na oferta dos serviços às famílias que enfrentavam violação de direitos que, na maioria das vezes, se expressavam pela falta de acesso aos direitos sociais e políticos.

Observava-se que os serviços até existiam, mas executados com ações fragmentadas e tímidas para atenuar a fratura entre necessidades e capacidades efetivas na oferta de bens, serviços e benefícios sociais. Paralelamente, deparava-se com a fragilização de capacitação de profissionais para identificar as situações vivenciadas pelas famílias, reproduzindo ações interventivas que não respondiam às variadas questões sociais apresentadas pelas mesmas.

Constatou-se que a partir do acionamento de um órgão de defesa a família recebia visitas de mais de um profissional de órgãos diferentes, sobrecarregando-a com informações/orientações sem antes ter recebido informações sobre a forma de acesso aos serviços ou apoio no fortalecimento dos vínculos, continuidade na ação protetiva e usufruto dos direitos sociais.

Os desencontros de informações de equipamentos distintos eram recorrentes; o mesmo ocorria com as tarefas delegadas às famílias que as inviabilizavam por questões financeiras, desequilíbrio emocional e dificuldade de lidar com as novas situações, a exemplo daquelas decorrentes do acometimento de doenças na velhice, transtornos mentais que resultam em mudanças bruscas de comportamentos, sem que os familiares recebessem suporte para compreender as mudanças.

13 O Conselho Municipal do Idoso, como órgão formulador de políticas, executava serviços de acompanhamento aos idosos que sofreram violação de direitos.

14

(23)

22 As reflexões sobre a desarticulação e a fragmentação dos serviços levantavam questionamentos sobre os riscos de atribuir aos indivíduos e à família a responsabilidade pelas situações adversas vivenciadas, pois as intervenções tendiam para ações pontuais – centrando-se na violência que perpassa as relações interpessoais –, cujas causas são dificilmente consideradas, como as oriundas da precariedade da estrutura social, isto é, da forma como a sociedade se encontra organizada ou do funcionamento institucional de um serviço que desrespeita a garantia dos direitos

fundamentais15 da pessoa e nega o acesso às políticas públicas.

A precariedade das condições de trabalho oferecidas às equipes que atuavam como porta de entrada (falta de infraestrutura dos equipamentos, manutenção de computadores, internet, telefone e transporte para locomoção nos trabalhos e segurança no local de trabalho), respondia pelo fato de profissionais criarem estratégias diversas para suprir as deficiências. Assim, quando o serviço estava com estruturas precárias e era acionado pela comunidade, para solicitar intervenção em situação de suspeita de violação de direitos, por exemplo, existiam profissionais que orientavam a utilização do serviço do “Disque Denúncia”, alegando falta de segurança ou

transporte para iniciar a intervenção.

A naturalidade com que encaravam as precárias condições de trabalho colocadas à disposição das equipes e o comportamento de medo e recusa das mesmas em acolher casos de suspeitas de violação de direitos na comunidade despertaram preocupações. A falta de intervenções efetivas para encaminhar as vítimas por meio dos serviços organizados como porta de entrada (atenção básica da saúde e proteção social na assistência social) comprometia a organização da rede, além de retardar a intervenção junto à família. Seria preciso, inicialmente, identificar as possibilidades dos serviços de atenção básica para acionar os especializados ou de garantia de direitos, o que demandava estratégias para conhecer ou construir o fluxo dos serviços com ações em rede pelas políticas públicas.

Nesse contexto surgiu o objetivo de mapear os motivos dos atos de violência sofridos pelos idosos com procedimentos em andamento na 16ª

15

(24)

23 Promotoria de Justiça de Proteção ao Idoso de Feira de Santana, no período de maio a setembro de 2012. Decidindo como objetivos específicos traçar o perfil sociodemográfico dos idosos com suspeita ou que sofreram atos de violência; identificar os fatores relacionais, sociais, culturais e ambientais que diziam respeito aos atos de violência contra idosos e contribuir com subsídios para a execução de políticas públicas.

Reconhecemos que os dados levantados quantitativamente não retratam a real magnitude do fenômeno, pois se trata de casos complexos e múltiplos; situações que envolvem desconhecimento, negação, negligência, falta de preparação dos profissionais e das instituições com o reconhecimento e as notificações dos atos. Os atos podem ser únicos para a vítima, mas não no contexto social; mudam apenas nomes, endereços, intensidades, grau de audácia e média de aceitação.

Esta dissertação encontra-se assim estruturada:

O primeiro capítulo discorre sobre as formas de violência, reconhecendo-a como problema social e histórico, com manifestações que incidem de formas diferenciadas em grupos sociais, faixa etária, gênero, época etc. As diferentes performances e formas que possuem as “violências”

dificultam a aplicabilidade de único conceito. No entanto, é importante proceder a um exercício que contemple causas e especificidades da presente pesquisa.

O segundo capítulo explora o conceito de velhice – entendida como construção social – e a trajetória da formulação das políticas públicas com a garantia dos direitos assegurados em lei, a partir das novas tendências que buscam cruzar as fronteiras punitivas do sistema de justiça.

O terceiro capítulo descreve o cenário da pesquisa, o caminho percorrido e os instrumentos utilizados, contextualizando o Ministério Público com as atuais configurações ministeriais.

O quarto capítulo analisa os resultados obtidos na pesquisa e a análise dos mesmos à luz dos referenciais teóricos analíticos considerados apropriados.

(25)

24

CAPÍTULO I

SOBRE A VIOLÊNCIA

1. Conceituando violência

Nos últimos anos a violência ganhou grande visibilidade, pelo aumento de ocorrências e maior divulgação na mídia. Paralelamente, são várias as iniciativas voltadas para conhecer as particularidades das expressões de violências que se apresentam no cotidiano, de modo a incidir na prevenção e diminuição dos riscos de vulnerabilidade.

Questiona-se se seria possível alcançar um conceito que contemple todas as expressões e manifestações da violência. Reconhecida como fenômeno complexo e multifacetado, vivido desde tempos remotos, cada época com retratações do contexto social, político e cultural, torna-se desafiante encontrar uma definição suficiente para a gama de interpretações construídas socialmente ao longo de toda a história e transformações da humanidade.

Atos de violência física faziam parte da época medieval. A obra O Processo Civilizador, de Norbert Elias (1994), proporciona reflexões para

compreender as mudanças históricas em que cada época delineia os comportamentos aceitáveis e repudiáveis. Os costumes tornaram-se mais polidos e o homem passou a controlar a agressividade por medo de punição ou vergonha; qualquer manifestação impulsiva ou de brutalidade era tomada como desqualificadora do indivíduo.

(26)

25 A Organização Mundial de Saúde (OMS) define violência como uso intencional da força física, do poder real ou da ameaça contra si próprio, contra outra pessoa, grupo ou comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (KRUG e DAHLBERG, 2002).

Esta definição associa a intencionalidade do ato, independentemente do resultado, porém não comporta os incidentes não intencionais, além de incidir na impressão que objetiva a violência criminal, urbana, racial, de gênero, interpessoal, e pouco referencia a violência estrutural, que igualmente contribui com as causas ou consequências da violência perpetuada entre indivíduos.

Segundo Wieviorka (1997), há diversos raciocínios suscetíveis de construir instrumentos de compreensão da violência, capazes de contribuir com um enfoque específico à análise da mesma, indicando para cada um sua quota de contribuição e seus limites. De acordo com o período, certas ideias exercem maior influência ou têm impacto predominante.

De acordo com Ristum (2001), optar por expressões amplas contribuirá com margens maiores para o número de interpretações, evidenciando uma citação de Sposito na definição da violência como ato de ruptura de vínculo social pelo uso da força, ou seja, quando ocorre negação na relação social por meio da comunicação e do diálogo.

Por outro lado, optar por um conceito vasto significa correr o risco de não retratar as particularidades da realidade de cada espaço, além de gerar duplas interpretações por não usar expressões claras que retratam o propósito do que foi enunciado.

A opção por definições que mais se aproximam do objeto de estudo na compreensão das expressões da violência que se pretende retratar comunga com a proposição de Soares ao refletir sobre nossas escolhas ou recomendações de leituras, as quais são solicitadas

(27)

26 interpelação institucional, em cujos termos o sujeito toma como seu o discurso do Outro. (2000; p. 28)

Minayo (2006) questiona se a violência seria recurso instintivo do ser humano para desvelar a subjetividade e manifestar o descontentamento em relação a situações ultrajantes, relacionada ao conjunto de normas que dizem respeito aos modos mais (ou menos) apropriados de comportamento diante de certas situações.

As explicações dos pontos de vista sociológico e filosófico são indicadas pela autora a partir de quatro análises associadas às expressões (a) das frustrações sociais16 (b) ao caráter instrumental e racional 17(c) aos processos culturais18 (d) incluindo a necessidade de ultrapassar as discussões no plano das relações políticas formais e considerar as idiossincrasias dos sujeitos.

Para May (1981) e Arendt (2004), a violência se expressa na impotência e na apatia, pois ao tornar as pessoas impotentes, em lugar de controlar a violência, promove-a. As tentativas de livrar as tendências da agressão têm grande chance de inferir nos valores essenciais da humanidade, como fazer valer a capacidade pessoal e a autoconfiança.

Para May (1981), é utópico querer remover o poder e a agressão do comportamento humano, pois se corre o risco de privar o homem da capacidade de fazer valer, autoafirmação e poder de ser. O sentimento de significação e o poder estão interligados. O poder se manifesta de forma interpessoal, permeando os meios sociais entre grupos que convivem com ações pactuadas.

O autor argumenta sobre as afirmações de Sullivan19 de que o sentimento de poder, na influência das relações interpessoais, é decisivo para a manutenção da autoestima e processo de amadurecimento. A perda

16

Diz respeito à expressão de crises sociais que levam a população à revolta frente à sociedade ou ao Estado que não conseguem dar respostas adequadas às demandas. 17Meios para atingir fins específicos; aqui, atores buscam espaço para conseguir manter-se no palco do poder. Apoiando-se em argumentos de Arendt, Minayo repudia o uso instrumental da violência mesmo a serviço da transformação social, justificando que só existe violência quando não há capacidade de argumentação e convencimento, por isso diferencia a violência do uso do poder.

18

Relaciona a violência com a cultura, porém vem acompanhada de críticas por não incluir as mediações políticas, sociais e subjetivas.

(28)

27 da sensação de significação desloca para manifestações pervertidas de poder cujo objetivo é retomar ou substituir a significação.

De igual modo, Arendt20 apresenta definição de poder que

corresponde à habilidade humana de um grupo agir em comum acordo,

afirmando que “o poder jamais é propriedade de um indivíduo; pertence ele a um grupo e existe apenas enquanto o grupo se mantiver unido” (2004, p.

27). A permanência de alguém no poder refere-se ao fato de ter sido escolhido, por certo número de pessoas, para atuar em seu nome, em favor de uma representação coletiva. Esclarece a partir de citação de Bertrand de Jouvenel, que a essência do poder está no domínio, entre dar ordens e ser obedecido.

Arendt e May distinguem poder e força. May não aprofunda na diferenciação, mas indica que o poder é sempre interpessoal, e que quando passa a ser puramente pessoal, entra a força. Arendt (2004), ao diferenciar poder e força, refere-se a D’Entreves, destacando sua importância na

distinção entre violência e poder. Questiona quando o poder pode se

distinguir da força. Para a autora, o poder é a força “qualificada” ou “institucionalizada”, ou seja, legalmente instituída; o uso da força modifica a qualidade da mesma força. Em outras palavras, o poder é como uma violência suavizada.

O poder usado no comando de ordem de um policial é, portanto, diferente da força usada por um bandido. O uso do poder pelo primeiro, mesmo que resulte em reação violenta, busca intimidá-lo a fim de preservar a sua autoridade, que projeta no conceito de lei e ordem. A força usada pelo segundo não coaduna com os valores e normas legitimados pela sociedade. Para Arendt (2004), a forma extrema do poder ocorre quando o coletivo volta-se contra um indivíduo; a violência, diversamente, ocorre na reação de um contra todos, a partir do uso de instrumentos materiais ou não.

20A autora não acredita que o poder político esteja associado à organização da violência,

apesar de ter encontrado consenso entre os teóricos políticos da esquerda e da direita que afirmam que a violência nada mais é do que a manifestação de poder; cita a definição de

Max Weber do Estado como “o domínio de homens sobre homens com base nos meios da

violência legítima”, e afirma que isso só faria sentido se se seguir a avaliação de Marx do

(29)

28 Se se considerar que a natureza do poder se efetiva pelo domínio, torna-se difícil distinguir a ordem dada por um policial daquela anunciada por um bandido armado. O poder na forma de imposição da vontade própria contra a resistência de outros se torna violência.

Para Faleiros, a conceituação da violência implica considerações sobre conflito, poder e força. O conflito

é uma relação social de disputa por posições, domínios, vantagens, lugares em uma estrutura complexa que garante poderes reais ou simbólicos a determinados grupos ou indivíduos em detrimento de outros. (2007; p.28)

A conflitualidade se divide, então, entre o desejo e as normas sociais que a proíbem. O poder é qualquer relação regulada por troca desigual, estruturado pelo processo da legitimação, igualmente considerado por Arendt.

Poder e conflito são formas complexas; o primeiro estrutura o segundo nas relações sociais pela maior ou menor força exercida de um grupo ou pessoa sobre outro grupo ou outra pessoa, pela submissão ou reação a essa força, ou pela pactuação de normas e trocas. Faleiros esclarece que na relação de forças

o Estado exerce um poder expressivo pela legitimidade da regulação que lhe advém do reconhecimento do seu papel, como também da disposição legal da força física para imposição da ordem. Nas democracias essa imposição é regulada por limites legais, mas existe sempre o excesso, ou seja, a extrapolação do limite em nome da lei (2007, p.29).

A violência se expressa na desestruturação da regulação do conflito e transgressão das normas, quando o poder causa prejuízo, sofrimento e infringe o pacto social de convivência.

(30)

29 precisa estar voltada àqueles fatores que não se manifestam, e então saber o que leva o indivíduo a praticar os atos, alcançando um nível subjacente às teorias que discorrem sobre a natureza e a criação desse fenômeno.

As teorias sustentam que a natureza da agressão é instintiva e faz

parte do equipamento genético do homem21, que o afronta inevitavelmente,

cabendo-lhe o controle ou vazão nas formas culturalmente aprovadas. Quanto à criação (exercício da violência), é cultural, causada por uma

educação defeituosa, com uso pelos desordeiros e pessoas íntegras e respeitadas, o que leva o autor a questionar se suas manifestações, talvez inconscientemente, encontraram na violência algo ao qual atribuem valor.

A razão de viver torna-se possível pela autoafirmação e capacidade de fazer valer novas escolhas. A dificuldade está em reconhecer o aspecto positivo da agressão quando manifestada a serviço dos valores descartados dos princípios socialmente construídos.

Conviver em sociedade implica a dificuldade de aceitar o paradoxo entre as necessidades de autodeterminação e de convivência com os demais. Cada indivíduo é livre para decidir qual será sua reação diante de um obstáculo. Por outro lado, precisa de relacionamentos, estar conectado,

o que exige que se adapte, obedeça, sirva ao “bem maior da comunidade”, o

que leva à perda da autonomia pessoal (WHEATLEY e KELLNER-ROGERS, 1998).

Na medida em que o indivíduo desconhece políticas, normas e doutrinas, e sente que não tem e nem pode ter o poder, que até sua autoafirmação lhe é negada, parte para a explosão da violência, que se manifesta na falta de sensação de significação e luta para consegui-la (MAY, 1981).

May propõe a existência de cinco níveis de poder presentes na vida do ser humano como potencialidades. A primeira é a fase poder de ser; a

ela segue-se a fase da autoafirmação que, diante da resistência, aciona

esforços. A terceira é a fase do fazer valer o que somos; caso esta

capacidade seja bloqueada, a tendência é desenvolver uma reação mais

21

(31)

30 forte a partir da agressão; se igualmente negada, são traduzidos por

impulsos violentos, que é a fase da violência.

A primeira fase pode ser observada no bebê recém-nascido, quando esbraveja para externar sinais de desconforto e satisfazer suas carências, tornando-se fundamental à formação da personalidade. A partir das experiências de suas ações, como o choro, descobre formas de obter respostas daqueles que o rodeiam.

A fase da autoafirmação vai além das exigências de sobrevivência.

Diz respeito à significação e ao reconhecimento de sobreviver com certa estima; caso bloqueada, converte-se em exigência compulsiva, vê-se colhido nos aspectos destrutivos da competitividade. Com a negação da autoafirmação é imprescindível aumentar os esforços para elucidar as afirmações – fazer valer o que somos –, o que pode ocorrer a partir de

representações – fazer em nome de outrem.

No caso de bloqueio, por muito tempo, da capacidade de fazer valer, entra em cena a quarta fase, a agressão. Trata-se de um movimento de

penetração nas posições de poder, de prestígio, ou no território pertencente a outrem, apoderando-se de parte dele em nome do eu. Se as tendências agressivas forem negadas, os tributos são cobrados na forma da violência, a

quinta e última fase do poder.

May compara a violência à súbita mudança química que ocorre quando, após um período relativamente plácido, a água começa a ferver; se não atentarmos que existe sob ela um aquecedor, pode-se considerar a violência como fato acidental e isolado. O fenômeno é uma explosão do impulso para destruir o que é interpretado como barreira ao amor próprio, ao movimento e ao crescimento.

Por isso, além de ser ato intrínseco, acumulado no indivíduo, relaciona-se às condições externas. Na analogia feita pelo autor temos que a agressão está para a violência como a ansiedade está para o pânico. O desafio consiste em descobrir métodos pelos quais as pessoas encontrem significação e reconhecimento, de modo que a violência destrutiva não seja praticada (MAY, 1981).

(32)

31 vivem. Um conjunto de indivíduos com interesses e capacidades distintas transforma-se em um grupo porque a cultura lhes forneceu normas que dizem respeito aos modos, mais ou menos apropriados diante de certas situações. Por outro lado, a cultura não é simplesmente escolhida (WIEVIORKA, 1997).

Por ser fenômeno histórico, complexo e multicausal – as pessoas estão sujeitas a sofrer a violência em qualquer momento da vida –, torna-se difícil encontrar uma conceituação precisa, pois é fenômeno da ordem do vivido, cuja manifestação provoca ou é provocada por forte carga emocional de quem a comete, de quem a sofre e de quem a presencia (MINAYO, 2009).

2. Violência e suas múltiplas formas na vida cotidiana

Nos últimos tempos, a violência deixou de ser objeto de justiça. Reconhecida como fenômeno multifacetado que atinge e afeta emocionalmente, a física deixa marcas nos que a vivenciam e impressiona os que a assistem. As modalidades não são estáticas; iniciam-se com comportamentos que se repetem, intensificam e vão se naturalizando. Há atos únicos para a vítima, mas não no contexto social; mudam-se nomes, endereços, intensidades, grau de audácia e média de aceitação sobre a forma de agir.

A violência está no cotidiano das relações na comunidade, sociedade, cidade, bairro, família, instituição, crenças, formas de manifestações, tom de voz etc.

(33)

32 ambiental, ou pela incapacidade de suportar os índices de agressividade (KONZEN, 2007, p.102).

A violência sempre existiu, e a diferenciam suas manifestações, aprovadas ou não, segundo as formas sociais mantidas por costumes ou aparatos legais. Atualmente, o instrumento legal é usado pelo Estado como forma de promover e acelerar a civilidade, meio de intervir ou evitar a naturalização de atos e eventos violentos.

Entretanto, a norma por si mesma não resolve a questão; são essenciais espaços de diálogo com os diferentes segmentos envolvidos, a fim de mediar um processo de socialização de consciência coletiva.

Norbert Elias (1994) explica que a violência e agressões que se repetem cotidianamente decorrem da falta de controle sobre condutas e transgressões da ordem estabelecida, ou seja, atentados cotidianos ao direito individual de ser respeitado como pessoa, diferenciando-as de condutas criminosas ou delinquentes, que dominam a consciência da contemporaneidade e não possuem tolerância social.

O Estado, então, assume o domínio do uso do poder para repressão dos atos de agressividade ou impulsos repudiáveis. Mas isso não significa que a sociedade passou a ser imune aos atos de violência, pois os seres humanos vivenciam tensas contradições. Mesmo na pós-modernidade, há culturas que ainda mantêm comportamentos que expressam violência, a exemplo das lutas de boxe, que utilizam a força física, famílias que usam comportamentos agressivos tidos como “pedagógicos”, governos que usam

justificativas para conflitos políticos e guerras em nome da civilização.

Por outro lado, Soares (2000) questiona se a impotência de o Estado promover segurança e meios adequados de sobrevivência, capazes de garantir a ordem pública, de proporcionar cidadania e condições aceitáveis de vida, isentaria os indivíduos do dever da obediência. A interpelação de legitimidade à desobediência civil parte da reflexão do autor sobre a discussão da violência criminal como forma de justificar o absurdo que seria associar a violência apenas a um viés de criminalidade.

(34)

33 especificidade interna e particularidade histórica, pois está arraigada nas relações sociais construídas das subjetividades, o que leva a discordar da

opinião de ser um fenômeno produzido pelo “outro”. Destaca a urgência de

reconhecimento de cada pessoa ao direito de liberdade e a reprovação do uso da força física, moral ou política, contra a vontade do outro.

A autora ressalta que a violência é fato humano e social, pois há sociedades mais violentas do que outras, evidenciando o peso na cultura na forma de solução dos conflitos. Em um mundo de grandes transformações, a violência é histórica; apresenta formas particulares de expressão, apesar daquelas que permanecem naturalizadas22.

Do ponto de vista social, revela que o antídoto seria a capacidade de a sociedade incluir, ampliar e universalizar direitos e deveres de cidadania; no âmbito pessoal, o pressuposto seria o reconhecimento da humanidade e da cidadania do outro, desenvolvimento de valores de paz, solidariedade, convivência, tolerância e capacidade de negociação (MINAYO, 2009).

Neste processo situa-se a fragilidade de a sociedade estabelecer suas normas construídas nas relações sociais a partir dos valores embutidos nas ações humanas de socialização.

3.

Tipologias da violência

A compreensão da violência como processo estabelecido na estrutura das relações interpessoais, familiares, institucionais, sociais, culturais, econômicas, políticas, ambientais, implica localizar no espaço científico classificações que nos aproximem das complexas expressões da violência levantadas nesta pesquisa.

Faleiros (2007) classifica a violência em três modalidades: sociopolítica, institucional e intrafamiliar. São interdependentes, pois a convivência dos indivíduos supõe inter-relação entre a exigência de autodeterminação e convivência com os demais.

A primeira delas, a sociopolítica, refere-se às relações sociais mais gerais, que envolvem grupos de pessoas consideradas delinquentes comuns

22

(35)

34 e as estruturas econômicas e políticas da desigualdade, quando ocorre a exclusão de conglomerados humanos significativos, uma relação de poder e força para impor a cessão de bens ou submeter o outro à vontade de interesses e desejos de pessoas ou grupos, ou ainda tratando-o com preconceitos e/ou ameaças, configurando crimes socialmente reconhecidos como discriminação, lesões, estelionato etc.

A segunda é a violência institucional, ligada a ações existentes nas organizações públicas e privadas que negam ou atrasam o acesso aos serviços. É uma relação de poder que infringe direitos reconhecidos e garantias civilizatórias de respeito nas relações profissionais e técnicas no âmbito de uma organização privada ou pública de prestação de serviços.

Por último, a violência “calada”, sofrida nas relações cotidianas e espaços familiares - a violência intrafamiliar, que implica a ruptura de um pacto de confiança, a negação do outro, ou mesmo o revide.

No dia a dia ocorrem os eventos de violência, múltiplos, fragmentados, que parecem isolados uns dos outros, manifestando a heterogeneidade da violência nas suas expressões de dominação, de discriminação, de rejeição, de exclusão, de periferização, de marginalização, de negligência, enfim, de negação do outro e da diferença. Essa violência social, impregnada nos hábitos e na cultura cotidiana, faz com que o agressor sequer perceba que está exercendo violência em sua própria casa (FALEIROS, 2007, p. 40).

As expressões da violência abrangem uma combinação do contexto histórico e social e particularidades das idiossincrasias do sujeito, redefinidas pelas condições emocionais e socioculturais nos espaços ocupados pelos indivíduos. Do ponto de vista operacional, sua compreensão se caracteriza por diferentes tipos e requer uma articulação multidisciplinar e intersetorial, com adoção de medidas efetivas por parte do Estado, sociedade e família.

(36)

35 Ao descrever as características da violência, Ristum (2001) ressalta a polissemia de conceituações, controvérsias na delimitação do objeto, quantidade, variedade e interação das causas e a falta de consenso sobre a natureza da mesma.

Por exemplo, na literatura consultada nas diretrizes das políticas sociais no Estado brasileiro encontram-se classificações diferenciadas entre as políticas de saúde23 e de assistência social24, o que releva a multiplicidade da manifestação do fenômeno, apesar dos tipos de violência interpessoal permanecerem em consonância com a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divide a violência em três categorias, segundo as características daqueles que cometem o ato violento: violência autodirigida; violência interpessoal e violência coletiva. A categorização estabelece no primeiro grupo a violência infligida pela pessoa; no segundo, a infligida por outro indivíduo ou pequeno grupo de indivíduos; e, finalmente, a violência coletiva, infligida por grupos maiores, como Estados, políticos organizados, milícias e organizações terroristas, envolvendo questões sociais, políticas e econômicas (DALHBERG E KRUG, 2002).

FIGURA 1

Fonte: Informe Mundial sobre la Violencia y la Salud : resumen/Organización Panamericana de la Salud. Washington, D.C.- 2002

23

Tipologia utilizada por Minayo.

24

(37)

36 Minayo (2006) corrobora a classificação acima ao discorrer sobre os tipos de manifestações da violência; acrescenta, porém, a violência estrutural. Refere-se, a estrutural, a processos sociais, políticos e econômicos difíceis de serem quantificados, pois ocorre sem a consciência explícita dos sujeitos, perpetua-se nos micro e macroprocessos sociais e históricos, repete-se e se naturaliza na cultura, responsável por privilégios e formas de dominação.

A violência estrutural aproxima-se da categoria ‘sociopolítica’

apresentada por Faleiros (2007) quando remete as relações sociais e as estruturas econômicas e políticas às desigualdades que ocorrem na exclusão de conglomerados humanos.

Há consenso nas definições acima. No entanto, apreendidas no contexto específico da violência encontramos outras nomenclaturas/classificações para as manifestações da violência: violência criminal25, cultural26, racial27, de gênero28, intrafamiliar29, interpessoal30, delinquencial31 (MINAYO, 2009), além de expressões como a violência da resistência, representada pelos processos de resistir à dominação, classificadas por Minayo (1994), compondo no grupo da violência estrutural, de delinquência e cultural (gênero, raça, faixa etária).

Como as tipologias de Minayo (2006) e de Faleiros (2007) se aproximam do objeto desta pesquisa, optou-se pela primeira, por se encontrar oficializada na Política Nacional de Redução de Acidentes e Violência do Ministério da Saúde e nas publicações do Observatório

25

Praticada por meio de agressão grave às pessoas, por atentado à sua vida e aos seus bens, constitui objeto de prevenção e repressão por parte das forças de segurança pública. 26

Expressa por meio de valores, crenças e práticas, de tal modo repetidos e reproduzidos que se tornam naturalizados. Apresenta-se inicialmente sob a forma de discriminações e preconceitos que se transformam em verdadeiros mitos, prejudicando, oprimindo e às vezes até eliminando os diferentes.

27É uma forma de violência cultural, geralmente acompanhada pela desigualdade social e econômica.

28

Apresenta-se como forma de dominação que existe em qualquer classe social. 29

Conhecida como a violência doméstica, que diz respeito aos conflitos familiares transformados em intolerância, abusos e opressão.

30

Relacionada à comunicação, que ocorre com prepotência, intimidação, discriminação, raiva, vingança e inveja. Costuma produzir danos morais, psicológicos e físicos.

31

(38)

37 Nacional do Idoso, que seguem a tipologia da Rede Internacional para Prevenção dos Maus-Tratos contra o Idoso.

A violência institucional e estrutural não é reconhecida, cotidianamente, pela maioria da população, ganhando maior visibilidade os fatos isolados e acidentais que perpassam a violência interpessoal, como se não estivéssemos atentos que a água começa a ferver, porque existe um aquecedor por baixo aquecendo-a.

Mesmo muito presente, a violência estrutural nem sempre é percebida como tal, pois integra o cotidiano de quem necessita das instituições; mas o acesso é desigual, frágil processo de controle social, conduzida pelos sistemas econômicos, culturais e políticos. A violência institucional relaciona-se à escasrelaciona-sez de recursos humanos, materiais, sobrecarga de trabalho, falta de qualificação e baixa remuneração dos profissionais, controle e fiscalização inadequados (MINAYO, 2009).

Nesse contexto, o Estado assume dupla função: ao mesmo tempo em que deve promover políticas públicas e oferecer serviços, precisa exigir e fiscalizar as próprias atribuições. A omissão ou negligência comprometem o acesso do cidadão aos serviços. Assim, a responsabilização interpessoal ganha maior visibilidade se comparada às exigências de reverter à precária estrutura do serviço oferecido ou o melhoramento do funcionamento institucional. A má oferta de uma política pública pode ser expressão de violência estrutural ou institucional.

Imagem

GRÁFICO 1  –  Tipo de queixa
Gráfico 3  –  Direitos negados com cuidados de saúde
Gráfico 4  –  Tipo de violência institucional
Tabela 1  –  Sexo, idade e razão mulher/homem em relação à violência
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