ESCOLA DE APERFEIÇOAMENTO DE OFICIAIS
Cap Inf JOSÉ EDUARDO NATALE DE PAULA PEREIRA
O EMPREGO DE OPERAÇÕES DE COORDENAÇÃO CIVIL-MILITAR PELA SUBUNIDADE DESTACADA COMO MULTIPLICADOR DO PODER DE COMBATE
EM OPERAÇÕES DE PAZ
Rio de Janeiro
2018
ESCOLA DE APERFEIÇOAMENTO DE OFICIAIS
Cap Inf JOSÉ EDUARDO NATALE DE PAULA PEREIRA
O EMPREGO DE OPERAÇÕES DE COORDENAÇÃO CIVIL-MILITAR PELA SUBUNIDADE DESTACADA COMO MULTIPLICADOR DO PODER DE COMBATE
EM OPERAÇÕES DE PAZ.
Dissertação de Mestrado apresentada à Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ciências Militares.
Orientador: JULIO CESAR DE SALES
Rio de Janeiro
2018
Cap Inf JOSÉ EDUARDO NATALE DE PAULA PEREIRA
O EMPREGO DE OPERAÇÕES DE COORDENAÇÃO CIVIL-MILITAR PELA SUBUNIDADE DESTACADA COMO MULTIPLICADOR DO PODER DE COMBATE
EM OPERAÇÕES DE PAZ
Dissertação de Mestrado apresentada à Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ciências Militares.
Aprovado em ____ de __________ de 2018
Banca Examinadora:
______________________________________
ALEXANDRE CARDOSO NONATO– Cel Presidente
______________________________________
ANDRÉ CEZAR SIQUEIRA – Cel Doutor em Ciências Militares
1º Membro
______________________________________
JÚLIO CESAR DE SALES – Cel Doutor em Ciências Militares
2º Membro
DEDICATÓRIA
À minha família, que um dia possam viver e crescer em um mundo melhor.
A meu avô, que do alto de seus mais de
90 anos me ensinou que “a ciência nunca
descansa” e continua contribuindo para
melhorar a vida de todos a sua volta,
realizando cursos e especializações em
sua área.
AGRADECIMENTOS
Àquele que nos permitiu chegar até esse momento, com saúde e sabedoria para que cumpramos nossa missão de fazer um mundo melhor.
À minha amada esposa Karla, pela compreensão e paciência nos dias de sol trocados pela luz da tela do computador e momentos de silêncio e estudos.
Ao Cel Sales, pelas orientações segura, precisas e abundantes, que engrandeceram este trabalho e o pesquisador.
Ao Cel André, pelas orientações durante a Banca de Qualificação para direcionar este trabalho para que chegássemos a conclusões mais sólidas e embasadas.
Ao Cel Valença, pelo apoio, orientação, motivação e exemplo, como comandante do Batalhão onde servia durante o primeiro ano desta pesquisa e especialista no assunto.
Ao Cap Valdetaro, pelos conselhos e assessoramentos e tempo dispendido revisando e corrigindo as falhar doutrinárias acerca do assunto do qual é especialista.
A meus pais, pela educação e cultura que me proporcionaram, e pelos diversos ensinamentos sobre a vida e a necessidade de sempre evoluir.
Ao meu padrasto, Pedro, por me incentivar a ser sempre curioso e buscar novos conhecimentos desde meus dez anos de idade.
A todos aqueles que dispenderam de precioso tempo, como comandantes de
unidades, chefes de seção de Estado Maior em operação e demais funções para
contribuir com este trabalho.
EPÍGRAFE
Vocês [profissionais militares] devem saber algo sobre estratégia, tática e logística, mas também economia, política, diplomacia e história. Vocês devem saber tudo o que puderem sobre o poder militar, e devem também entender os limites deste poder militar. Vocês devem entender que poucos dos problemas importantes de nosso tempo foram finalmente resolvidos pelo poder militar sozinho.
(JOHN F. KENNEDY)
RESUMO
A presente pesquisa procura verificar em que medida as operações de CIMIC influenciaram no cumprimento de missões diversas, aumentando o poder de combate das subunidades destacadas, para que o Estado Final Desejado da operação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti fosse alcançado. As operações de paz evoluíram conforme a conjuntura global. Constata-se que os elementos do poder de combate estabelecidos pela Doutrina Militar Terrestre brasileira (liderança, informações, comando e controle, movimento e manobra, inteligência, logística e proteção) foram direta e indiretamente beneficiados pelas interações das tropas com os demais agentes presentes em sua área de responsabilidade. Percebe-se, entretanto, uma maior exploração da capacidade de CIMIC pela função Informações e para as atividades de operações psicológicas, relegando seus potenciais benefícios aos demais elementos. O estudo das doutrinas da OTAN, ONU, EUA, Reino Unido e outras nações com notório conhecimento e experiência no assunto permite que sejam levantadas lições e oportunidades de aperfeiçoamento da maneira de agir brasileira. A doutrina brasileira foi estabelecida pelo empirismo e experiência prévia, principalmente com as lições aprendidas e melhores práticas durante as participações dos diversos contingentes do Batalhão Brasileiro de Força de Paz no Haiti. O modo de agir das tropas, mesclando ações de combate com atividades humanitárias influenciou também o modus operandi defendido pela ONU e descrito em seus manuais e materiais especializados de treinamento. O subcomandante das subunidades foi estabelecido como Oficial de Ligação e encarregado de planejar e executar as ações de Cooperação Coordenação Civil-Militar devido às demandas da operação em ambientes humanizados para que exista um militar especialista para cada área de responsabilidade, integrando as capacidades dos diversos atores presentes para o alcance de objetivos comuns, evitando a duplicidade de esforços, economizando recursos e multiplicando forças pela sinergia alcançada. Para isso, o CIMIC procura engajar outros atores envolvidos dentro da área de responsabilidade da subunidade no apoio à resolução de necessidades da população local que refletirão nas operações militares, através de ações comunitárias e de coordenação com organizações internacionais, governamentais e não governamentais, liberando os militares para suas tarefas precípuas, garantir a liberdade de manobra da tropa e diminuindo os obstáculos à operação em curto, médio e longo prazos, além de facilitar a consciência situacional.
Paralvras-chave: CIMIC, Cooperação Civil-Militar, Assuntos Civis, Operações de
Paz, Subunidade Destacada, Elementos do Poder de Combate, Operações de
Cooperação e Coordenação com Agências, Exército Brasileiro
ABSTRACT
The present research seeks to verify the extent to which CIMIC operations have influenced the accomplishment of diverse missions, increasing the fighting power of the companies deployed, so that the agreed End State of the United Nations Stabilization Mission in Haiti (MINUSTAH) operation could be achieved. Peace operations have evolved according to the global situation. The elements of combat power established by the Brazilian Land Military Doctrine (leadership, information, command and control, movement and maneuver, intelligence, logistics and protection) were directly and indirectly benefited by the interactions of the troops with the other agents present in your area of responsibility. However, CIMIC's capabilities for Information and Psychological Operations activities were further explored, relegating its potential benefits to the other elements. The study of the doctrines of NATO, UN, USA, UK and other nations with knowledge and experience in the subject allows for lessons to be learned and opportunities to improve the Brazilian way of acting. Brazilian doctrine was established by empiricism and previous experience, mainly with lessons learned and best practices during the participation of the various contingents of the Brazilian Peacekeeping Battalion in Haiti. The troops' way of acting, merging combat actions with humanitarian activities also influenced the modus operandi advocated by the UN and described in their manuals and Specialized Training Materials (STM). The company second in command was established as Liaison Officer and in charge of planning and executing the actions of Civil-Military Coordination and Cooperation due to the demands of the operation in humanized environments so that there is a military specialist for each area of responsibility, integrating the capacities of the various actors present to achieve common goals, avoiding duplication of efforts, saving resources and multiplying forces for the synergy achieved. To this end, CIMIC seeks to engage other actors involved within the company’s area of responsibility in supporting the needs of the local population, which will reflect on military operations through community actions and coordination with international, governmental and non- governmental organizations. to guarantee the freedom of maneuver of the troop and reduce obstacles to operation in the short, medium and long term, and facilitate situational awareness.
Keywords: CIMIC, Civil-Military Cooperation, Civil Affairs, Peacekeeping Operations,
Forward Operating Base, Essential Elements, Peace Support Operations, Brazilian
Army
Lista de Figuras
Figura 1 - Grupo de Observadores Militares da UNTSO em território sem dono, entre Merdya (linha árabe) e Al-Nabi Yusha (linha israelense), em janeiro de 1948 (Fonte:
ONU, 2018)... 38 Figura 2 - Integrante da Força de Paz da ONU em Ruanda guarda corpos de civis assassinados (Fonte: PRADO, 2014) ... 41 Figura 3- Espectro das atividades de paz e segurança (Fonte: BRASIL, 2017, p. 3-4) ... 43 Figura 4 - Integrantes da Missão de Paz da ONU na República Democrática do Congo em coluna de marcha durante empregando meios robustos para alcançar a paz (Fonte: ONU, 2018) ... 46 Figura 5- Evolução Histórica das Operações de Paz (Fonte: BRASIL, 2017, p. 2-11) ... 47 Figura 6 - Níveis de operações interagência e CIMIC (Fonte: CRUZ, 2012) ... 57 Figura 7 - Organograma de um Batalhão de Infantaria de Força de Paz (ONU, 2012) ... 65 Figura 8 - Organograma do Estado Maior de um Batalhão de Infantaria da ONU (Fonte:
ONU, 2012 P.132) ... 65 Figura 9 - Operadores de CIMIC da OTAN durante missão no Afeganistão (Fonte:
OTAN, 2016, p. III-5-5) ... 81
Figura 10 - Militar Húngaro de CIMIC realiza reunião com líderes e chefes de clãs no
Afeganistão (Fonte: OTAN, 2016, p. II-4-2) ... 84
Figura 11 - Elementos de CIMIC holandeses realizam patrulha a pé durante operação
no Afeganistão (Fonte: OTAN, 2016, p. I-6-6) ... 85 Figura 12 - militar estabelece e mantém ligações, atividade fundamental para o CIMIC (Fonte: OTAN, 2016, p. II-2-3) ... 92 Figura 13 - Militares de Assuntos Civis conduzem reunião com chefes tribais no Afeganistão (Fonte: DAVID e DANIELS, 2016) ... 98 Figura 14 - Relacionamentos dos Assuntos Civis com o CIMIC e a Ação Unificada (Fonte: BRASIL, 2015, P. 5-29) ... 108 Figura 15 - Exemplos de Agências (Fonte: BRASIL, 2017, P. 3-15) ... 109 Figura 16 - Relação entre assuntos civis, assuntos de governo e CIMIC (Fonte:
BRASIL, 2017, P. 1-3) ... 123 Figura 17 - Intensidade da CIMIC no espectro das operações militares Fonte:
(BRASIL, 2017, p. 4-2) ... 128
Figura 18 - Organograma do BRABAT (Fonte: TEIXEIRA, 2017) ... 144
Figura 19 - Militar do BRABAT 19 participa de atividade com estudantes haitianos
(Fonte: arquivo pessoal do autor) ... 151
Figura 20 - Militar participa de distribuição de filtro d'água em ação contra a cólera
(Fonte: Arquivo pessoal do autor) ... 159
Figura 21 - Processo de Planejamento e execução do CIMIC (Fonte: o autor) ... 212
Figura 22 - Fluxograma de emprego de tropas em ações de CIMIC (Fonte: o autor)
... 214
Lista de Gráficos
Gráfico 1 - Quantidade de Operações de CIMIC (Fonte: O Autor) ... 167
Gráfico 2 – Percepção do elemento do poder de combate Liderança após atividades
de CIMIC (Fonte: O Autor) ... 169
Gráfico 3 - Percepção do elemento do poder de combate Informações após atividades
de CIMIC (Fonte: O Autor) ... 170
Gráfico 4 - Percepção do elemento do poder de combate Comando e Controle após
atividades de CIMIC (Fonte: O Autor) ... 172
Gráfico 5 - Percepção do elemento do poder de combate Comando e Controle após
atividades de CIMIC por oficiais superiores e intermediários (Fonte: O Autor)... 172
Gráfico 6 - Percepção do elemento do poder de combate Movimento e Manobra após
atividades de CIMIC (Fonte: O Autor) ... 173
Gráfico 7 - Percepção do elemento do poder de combate Inteligência após atividades
de CIMIC (Fonte: O Autor) ... 174
Gráfico 8 - Percepção do elemento do poder de combate Logística após atividades de
CIMIC (Fonte: O Autor) ... 175
Gráfico 9 - Percepção do elemento do poder de combate Proteção após atividades de
CIMIC (Fonte: O Autor) ... 177
Lista de Abreviaturas e Siglas
ACISO Ação Cívico-Social
AI Agência Internacional
A Op Área de Operações
APOP Agente Perturbador da Ordem Pública
Ass Civ Assuntos Civis
Bda Brigada
BRABAT Batalhão Brasileiro de Força de Paz
Btl Batalhão
C² Comando e Controle
C³M Centro de Coordenação e Cooperação Militar
Cap Capitão
CCOE Civil-Military Cooperation Centre of Excellence (Centro de Excelência em Cooperação Civil-Militar) CCOPAB Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil
Cel Coronel
CG Centro de Gravidade
Cia Companhia
CIMIC Coordenação Civil Militar
Cmt Comandante
Com Soc Comunicação Social
COTER Comando de Operações Terrestres
CS (NU) Conselho de Segurança (das Nações Unidas) DDRR Desarmamento, Desmobilização, Reabilitação e
Reintegração
Div Divisão
DICA Direito Internacional dos Conflitos Armados
Dst Destacamento
Dst Op Psico Destacamento de Operações Psicológicas
DMT Doutrina Militar Terrestre
DOPAZ Destacamento de Operações de Paz
Dout Doutrina
DPKO Department of Peacekeeping Operations
EB Exército Brasileiro
EEI Elementos Essenciais de Inteligência
EFD Estado Final Desejado
Elm Elemento
EM Estado Maior
EMCFA Estado Maior Conjunto das Forças Armadas
EME Estado Maior do Exército
Enc Encarregado
Esc Sp Escalão Superior
Ex Exército, Exemplo
F Adv Força Adversa
F Paz Força de Paz
F Ter Força Terrestre
Gen General
GLO Garantia da Lei e da Ordem
HMG Her Majesty Government
Intlg Inteligência
Log Logística
MC Manual de Campanha
MD Ministério da Defesa
MINUSTAH Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti
OEA Organização dos Estados Americanos
OI Organismo Internacional
Of Oficial
O Lig Oficial de Ligação
ONU Organização das Nações Unidas
ONG Organizações Não Governamentais
Op Operação
Op Info Operação de Informação Op Pac Operação de Pacificação
OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte Pel Fuz Pelotão de Fuzileiros
PNH Polícia Nacional do Haiti
QIP Quick Impact Project (Projeto de Impacto Rápido)
SCmt Subcomandante
Seç Seção
SU Subunidade
Ten Tenente
TC Tenente-Coronel
TTP Técnicas, Táticas e Procedimentos
Z Aç Zona de Ação
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 18
1.1 PROBLEMA ... 20
1.2 OBJETIVOS ... 21
1.3 QUESTÕES DE ESTUDO ... 22
1.4 JUSTIFICATIVAS ... 22
2 METODOLOGIA ... 24
2.1 OBJETO FORMAL DE ESTUDO... 24
2.1.1 Variáveis ... 25
2.1.1.1 Definição Operacional das Variáveis ... 25
2.1.1.1.1 Varável Independente ... 26
2.1.1.1.2 Variável Dependente ... 26
2.2 AMOSTRA ... 27
2.3 DELINEAMENTO DA PESQUISA ... 29
2.3.1 Procedimentos Metodológicos ... 31
2.3.2 Instrumentos ... 32
2.3.3 Coleta Documental e Fichamento: ... 32
2.3.3.1 Questionário ... 32
2.3.3.2 Entrevista Exploratória ... 32
2.3.4 Análise dos Dados ... 33
3 REVISÃO DE LITERATURA ... 35
3.1 A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS ... 35
3.1.1 Operações De Paz sob a Égide da ONU ... 37
3.1.1.1 A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti ... 47
3.2 HISTÓRICO DO CIMIC ... 51
3.2.1 Entendendo o que é uma Operação de Coordenação Civil-Militar ... 55
3.3 AS ENTIDADES CIVIS E SEUS PAPÉIS NAS OPERAÇÕES DE PAZ ... 57
3.4 A ONU E A COORDENAÇÃO CIVIL-MILITAR ... 59
3.5 UMA ABORDAGEM ABRANGENTE PELA ORGANIZAÇÃO DO TRATADO
DO ATLÂNTICO NORTE. ... 67
3.5.1 O Reino Unido e a Interação Entre Civis E Militares ... 69
3.5.2 A Abordagem Abrangente ... 72
3.5.2.1 Princípios que Guiam a Abordagem Abrangente ... 75
3.5.2.2 A Abordagem Abrangente Aplicada Pelo Poder Militar ... 78
3.5.3 A Abordagem Abrangente e o CIMIC ... 80
3.5.4 O CIMIC Para A Otan ... 83
3.5.4.1 Princípios do CIMIC Para a Otan ... 86
3.5.4.2 Funções e Tarefas do CIMIC Para A Otan ... 90
3.5.4.3 O Oficial de Ligação De CIMIC para a Otan ... 91
3.6 A COORDENAÇÃO CIVIL-MILITAR REALIZADA PELAS FORÇAS ARMADAS DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA ... 93
3.6.1 As Operações de Assuntos Civis no Exército Americano ... 99
3.6.1.1 A Coordenação Civil-Militar nas Operações de Conta-Insurgência ...102
3.6.2 Operações Civil-Militar do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos da América ...105
3.7 O BRASIL, AS OPERAÇÕES DE PACIFICAÇÃO E O ENFOQUE INTEGRAL ...107
3.7.1 O Poder de Combate segundo a Doutrina Militar Terrestre Brasileira ...113
3.7.1.1 Princípios de Guerra Estabelecidos pela Doutrina Militar Terrestre Brasileira 114 3.7.1.2 Os Elementos do Poder de Combate Terrestre ...117
3.7.1.3 O CIMIC e a Multiplicação do Poder de Combate ...119
3.7.2 A Coordenação Civil-Militar Realizada Pelo Brasil ...120
3.7.3 O Brasil nas Operações de Paz sob a Égide da ONU ...131
3.7.4 O Batalhão Brasileiro de Força de Paz na MINUSTAH ...134
3.7.4.1 As Subunidades Destacadas do BRABAT ...152
3.7.4.1.1 A Subunidade Destacada do Forte Nacional ...153
3.7.4.1.2 A Subunidade Destacada em Cité Soleil ...156
4 RESULTADOS ...161
4.1 RESULTADOS DA REVISÃO DA LITERATURA ...161
4.2 PESQUISA DE CAMPO ...164
4.2.1 Funções dos militares participantes do questionário por ocasião da missão
...165
4.2.2 Organização da tropa para a realização de ações de CIMIC ...165
4.2.3 Adestramento para ações de CIMIC e seleção de militares específicos na fase de Preparação para o contingente ...166
4.2.4 Participação em ações com interação entre militares e civis ...166
4.2.5 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Liderança ...168
4.2.6 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Informações ...169
4.2.7 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Comando e Controle ...171
4.2.8 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Movimento e Manobra ...172
4.2.9 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Inteligência ...173
4.2.10 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Logística ...174
4.2.11 Percepção de aumento do elemento do poder de combate Proteção ...176
4.2.12 Limitações encontradas pelas Subunidades para a realização de Atividades de CIMIC ...177
5 CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES ...179
REFERÊNCIAS ...184
GLOSSÁRIO ...193
APÊNDICE A – Questionário a militares que participaram da MINUSTAH em funções diretamente ligadas à 9ª Seção, comandantes, subcomandantes e comandantes de pelotões de subunidades operacionais e integrantes do DOPAZ e Dst Op Psico...199
APÊNDICE B – Proposta de Anexo ao Manual EB70-MC-10.221 Cooperação Civil-
Militar, voltado aos Comandantes e Subcomandantes de Subunidades
em Operações de Paz ...208
18
1 INTRODUÇÃO
A ideia de conquistar os corações e mentes da população, fazendo com que os soldados fossem bem aceitos nos territórios conquistados, resultando em facilidades na conquista de objetivos militares e dirimindo problemas futuros não é assunto recente. Relatos históricos dão conta que o fator relativo aos civis já fazia parte das ordens dos Comandantes Militares norte-americanos desde a Guerra de Secessão, na década de 1770.
A dimensão humana é considerada uma questão militar, com seções de Estado Maior de Assuntos Civis e frações para realizar ações concretas desde o final do século XIX, quando, entre 1898 e 1934, os Estados Unidos da América realizou intervenções diplomáticas, econômicas e militares em países do Caribe e da América Latina.
Ao final da II Guerra Mundial, e com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), viu-se a diminuição da possibilidade de um conflito de grandes proporções. Com a abertura de canais de negociação e mediação de conflitos, a chamada Guerra Total foi substituída por inúmeros conflitos de baixa e média intensidade.
Para garantir a paz mundial e evitar que tais conflitos se alastrassem e ceifassem ainda mais vidas, a ONU, em decisão de seu Conselho de Segurança, criou as missões de paz para intervir, estabilizar e normalizar as áreas litigiosas.
O combate em áreas humanizadas, ou no seu entorno, tornou o ambiente operacional congestionado e alterou a atuação do combatente na forma como lida com a população das áreas conflagradas.
Junto com a mudança no perfil dos conflitos, especialmente após a dissolução da União Soviética, em 1991, diversos atores não militares viram sua importância crescer exponencialmente no cenário mundial. Organizações, Órgãos e Agências civis, nacionais e internacionais, ligados a governos ou não, assumiram grande responsabilidade, agregando suas competências, meios e experiências diante de crises e assistência humanitária. A fim de melhor aproveitar todos os esforços pelo cumprimento de um objetivo em comum, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), estabeleceu uma doutrina para seus membros cunhando o nome Civil Military Coordination (CIMIC), termo em inglês para Coordenação Civil-militar.
O Brasil, como um dos primeiros signatários da Carta das Nações Unidas, apoia
19
essas ações e contribui para a paz mundial desde a década de 1950, quando enviou o primeiro contingente para uma missão de paz sob a égide da ONU ao Canal de Suez. Desde então, foram 36 missões, tornando o país um dos mais tradicionais contribuintes de militares para missões de paz, o que decorre, basicamente, de sua condição de membro fundador da Organização e de sua vocação para a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos - princípios tão caros ao País, consagrados no artigo 4º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CFRB/88) (BRASIL, 1988).
Inseridos no contexto de operações sob o mandato da ONU, as Forças Armadas brasileiras viram a necessidade de interagir com diversas Agências Civis, de caráter público ou privados. Apesar das diferenças organizacionais, todos precisavam trabalhar em conjunto, racionalizando meios e recursos em busca de um objetivo em comum.
Entre os anos de 2004 e 2017, o Brasil integrou a Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haiti
,MINUSTAH, nome em francês para Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, sendo o maior contribuinte com tropas militares e indicando o Comandante do fator militar da missão.
Dentro do território nacional, as Forças Armadas Brasileiras sempre foram empregadas em Operações de Apoio a Órgãos Governamentais em situações emergenciais, na defesa civil após catástrofes e desastres naturais e Operações de Garantia da Lei e da Ordem, servindo a suas atribuições constitucionais. Em todas essas oportunidades, o fator militar não foi o único envolvido. Agências Governamentais e Organizações Não Governamentais trabalharam lado a lado com a Marinha, o Exército e Força Aérea para a resolução dos problemas. Essas atuações têm sido cada vez mais constantes.
Apesar de da doutrina brasileira de Cooperação Civil-Militar (CIMIC)
1ter sido estabelecida apenas em novembro de 2017, ou seja, após o final da missão, com a publicação do Manual de Campanha EB-70-10.221 COOPERAÇÃO CIVIL-MILITAR, os contingentes brasileiros empregaram amplamente as Operações de Coordenação Civil-militar como forma de melhorar a integração com os diversos atores envolvidos na recuperação e reestruturação daquele país. Além de aproveitar a projeção das ações humanitárias para conquistar o apoio da população, facilitando o movimento
1 CIMIC é a sigla em inglês de Civil-Military Coordination, Coordenação Civil-Militar.
20
das tropas dentro de suas Áreas de Operações, a manobra durante operações e a aquisição de informações de inteligência, o correto emprego da Coordenação Civil- militar otimizou os meios e recursos existentes, evitando a duplicidade de ações e o desperdício de esforços.
Durante as operações no Haiti, duas subunidades de fuzileiros foram destacadas para ocupar duas bases em pontos estratégicos da Região Metropolitana de Porto Príncipe, de onde irradiavam poder e estabeleciam patrulhas em seu entorno. A 1ª Companhia de Fuzileiros de Força de Paz ocupou a base do Forte Nacional, um local elevado e de dominância sobre a capital haitiana, enquanto a 2ª Companhia de Fuzileiros de Força de Paz estabeleceu-se no centro de Cité Soleil, a mais pobre e problemática comuna da região metropolitana de Porto Príncipe.
As companhias do Forte Nacional e de Cité Soleil foram diretamente beneficiadas pelas vantagens obtidas em operações de Coordenação Civil-militar ao empregar o poder militar, de forma limitada, em coordenação e cooperação com agências civis, para restaurar e manter a ordem pública e a paz social. Dessa forma, alcançaram o conjunto de condições que definiram o atingimento dos objetivos propostos pela ONU, também conhecido como Estado Final Desejado (EFD).
Entretanto, não sexista à época uma doutrina que definia como uma operação de CIMIC deveria ser realizada, especialmente considerando o escalão subunidade.
As operações de CIMIC multiplicaram o poder de combate ao facilitarem a Inteligência e a obtenção de informações que facilitavam a Consciência Situacional, por permitirem um melhor conhecimento da população, das forças adversas e o levantamento de outros dados necessários ao processo decisório e às tarefas de Inteligência. Colaboraram com o Comando e Controle ao participar da integração de esforços entre civis e militares e ao coordenar ações para informar e influenciar a população haitiana. Favoreceram a Proteção, ao identificar ameaças e realizar ações junto à população haitiana que as reduziam ou, até mesmo, as mitigavam. Por fim, contribuíram com a Logística, ao unificar esforços e evitar a duplicidade de ações, poupando recursos materiais e de pessoal.
1.1 PROBLEMA
Durante a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti viu-se a
necessidade de destacar subunidades para garantir a manutenção do poder em certas
áreas conflituosas ou para cumprir missões descentralizadas em áreas afastadas da
21
base do Batalhão Brasileiro.
Essas frações, como as companhias de Fuzileiros que ocuparam a base do Forte Nacional e o Ponto Forte em Cité Soleil, encontraram situações em que dependiam do apoio de Organizações Civis para solucionar problemas e conflitos em suas áreas de atuação. Entretanto, cabia ao Comando do Batalhão, com sua 9ª Seção (G9), Assuntos Civis, planejar e coordenar ações de Cooperação Civil-militar.
Considerando que o CIMIC é uma operação com objetivos estratégicos e táticos, em que medida as operações de CIMIC influenciaram no cumprimento de missões diversas, aumentando o poder de combate das subunidades destacadas, para que o Estado Final Desejado da operação de paz fosse alcançado?
1.2 OBJETIVOS
A presente pesquisa, de natureza aplicada, tem por objetivo geral analisar o emprego de operações de Coordenação Civil-militar (CIMIC) por uma subunidade destacada em operações de paz, levantando as possibilidades e limitações para o planejamento e emprego destacado, coordenado pela célula de Assuntos Civis, podendo ampliar a capacidade da Força em atuar em um ambiente humanizado.
Para tanto, serão cumpridos os seguintes objetivos específicos:
- pesquisar a doutrina de CIMIC da ONU, OTAN e de Forças Armadas que detenha notória experiência nessas operações;
- investigar a doutrina de emprego de CIMIC do Exército Brasileiro, especificando o aspecto doutrinário relativo ao escalão subunidade;
- explorar o emprego de operações de CIMIC pelas subunidades brasileiras destacadas do Forte Nacional e de Cité Soleil;
- comparar a experiência brasileira em operações de CIMIC no Haiti, com a doutrina empregada por outros países;
- demonstrar como e quais elementos do poder de combate foram beneficiados quando do emprego de operações de CIMIC;
- concluir sobre a capacidade que uma subunidade destacada pode obter para a coordenação de operações Civil-Militar para a multiplicação do poder de combate;
- propor a possível inclusão do CIMIC no planejamento dos comandantes até
o nível pelotão, em uma operação de pacificação;
22
- propor a confecção de Caderno de Instrução ou Capítulo do Manual EB70-
MC-10.221 (Cooperação Civil Militar) sobre o emprego de operações de CIMIC para as subunidades destacadas.
1.3 QUESTÕES DE ESTUDO
Por ter uma abordagem eminentemente qualitativa, e sendo este um trabalho cujo objetivo é descrever e analisar um processo, faz-se necessário levantar questões de estudo que orientem a pesquisa e cumpram os objetivos propostos. Para tanto, serão respondidas as seguintes questões:
- o que estabelece a doutrina de Organizações Internacionais e de outras nações e para a Coordenação Civil-militar?
- O que estabelece a doutrina brasileira para a Coordenação Civil-militar?
- Como foi o emprego das operações de CIMIC pelas subunidades destacadas brasileiras do Forte Nacional e de Cité Soleil?
- Qual as principais diferenças da forma de emprego de operações CIMIC brasileira para a de nações que detenham notória experiência nessas atividades?
- Quais e como os elementos do poder de combate foram beneficiados quando do emprego do CIMIC?
- Como prover capacidade para que uma subunidade destacada em uma operação de paz para a realização de uma operação de CIMIC?
- Sendo o CIMIC uma operação com objetivos estratégicos e táticos, seu planejamento influencia nas operações de pequenas frações?
- O manual EB70-MC-10.221 (Cooperação Civil-Militar) supre as necessidades de informação dos escalões intermediários e subalternos?
1.4 JUSTIFICATIVAS
O caderno de Lições Aprendidas 2/2016, do Comando de Operações Terrestres (2016, Pág 2-11), suscitou que, ao considerar que o escalão de execução das Operações de CIMIC são as Companhias de Força de Paz, existe a necessidade de preparação dos quadros e inclusão dos Oficiais no Estágio ministrado pelo Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB).
O presente estudo também vai ao encontro do Plano Estratégico do Exército
23
2016-2019 (PEEx 2016-2019) que, em seu Anexo D, estabeleceu como 1ª Prioridade entre as Capacidades Militar Terrestre a SUPERIORIDADE NO ENFRENTAMENTO (CMT 02), por meio do aperfeiçoamento de sua capacidade de atuar no ambiente humanizado, face ao amplo espectro das operações atuais.
Ainda no anexo D do PEEx 2016-2019, concebeu-se como 2ª Prioridade a CMT 03, APOIO A ÓRGÃOS GOVERNAMENTAIS, foi determinado o aperfeiçoamento da geração de força para operação de paz em apoio à política externa em tempo de paz ou de crise, assunto central desta dissertação.
Pela experiência do autor ao comandar um Pelotão de Fuzileiros de uma Companhia destacada no forte de Cité Soleil, Haiti, de novembro de 2013 a maio de 2014, levantou-se a importância das Operações de CIMIC como fator multiplicador do poder de combate e facilitador no cumprimento das diversas missões. Entretanto, muitas oportunidades de emprego podem ter sido perdidas ou mal aproveitadas, devido ao pouco conhecimento do Comando da Subunidade em como explorar esse recurso para obter melhores resultados, com reflexos para operações subsequentes.
O CIMIC como multiplicador de poder de combate permitirá que os futuros comandantes de subunidades em operações de paz possam melhor empregar essas operações, realizando ações mais eficientes e eficazes e conquistando melhores resultados.
Tendo em vista que a subunidade destacada que atua em determinada área é a maior conhecedora das necessidades locais para que o Estado Final Desejado seja alcançado, o estudo proposto trará uma base doutrinária para que os comandantes de subunidades destacadas em missões de paz possam planejar e realizar operações de CIMIC, aproveitando seus benefícios em prol da missão.
Este estudo é inédito, pois não existe na literatura nenhum estudo sobre o emprego de operações de CIMIC por subunidades, fração que aplicará as operações dentro de suas Áreas de Responsabilidade.
Os reais beneficiários são, inicialmente, os oficiais intermediários e subalternos,
que poderão agregar maior conhecimento e poderão aplicar os princípios, técnicas,
táticas e procedimentos em operações de pacificação. Em segunda instância, o
Exército Brasileiro será contemplado com um melhor preparo de suas tropas para
cumprir suas missões, elevando seu prestígio e sua imagem. Por fim, poderá ganhar
a nação, projetando seu nome entre os demais integrantes da ONU, demonstrando a
capacidade e competência de suas Forças Armada
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2 METODOLOGIA
A metodologia empregada compreendeu uma vasta pesquisa documental em manuais, comparando as doutrinas de nações que já desenvolvem o assunto, inclusive com um o emprego em operações, à doutrina brasileira e à experiência e conhecimentos empíricos dos militares do Exército Brasileiro que participaram de operações de paz, ou que realizaram cursos sobre o assunto junto a forças armadas estrangeiras.
Foram pesquisados, também, trabalhos acadêmicos, nacionais e estrangeiros, que estudaram o assunto, bem como relatórios e páginas da internet e outros documentos que discorrem sobre as operações de Cooperação e Coordenação Civil- Militar.
2.1 OBJETO FORMAL DE ESTUDO
A pesquisa proposta abrangeu as operações de Coordenação Civil-militar realizadas por subunidades destacadas que ocuparam as bases do Forte Nacional e Cité Soleil, para que se tenha um maior número de casos a serem estudados, chegando a uma conclusão com mais precisa, entre os anos de 2004 até o encerramento das atividades do Batalhão Brasileiro, em 2017.
Foram questionadas as formas de emprego, melhores práticas, oportunidades de melhoria e como contribuíram para o cumprimento de missões subsequentes e o atingimento do Estado Final Desejado estabelecido pelo escalão superior.
Durante a fase de obtenção de conhecimento e de análise de dados, foi questionada a viabilidade e validade do relacionamento de elementos de combate com agências civis, verificando as vantagens e facilidades advindas de tais interações para os elementos do poder de combate.
O trabalho também englobará como são conduzidas as atividades de
coordenação civil-militar em outros países que empregam essa doutrina, com o
objetivo de buscar subsídios e incluir considerações que possam influenciar a forma
de atuar dos contingentes brasileiros, concluindo em uma sugestão de emprego das
subunidades destacadas em operações de paz em Operações de Coordenação Civil-
militar.
25
2.1.1 Variáveis
O emprego de operações de CIMIC por uma SU destacada como multiplicador do poder de combate em operações de paz, por ser uma pesquisa com abordagem qualitativa, as variáveis são também qualitativas e de organização ordinal.
Para tal, teremos como população a ser estudada as Subunidades destacadas e as ações de CIMIC durante operações de paz, são o contexto em que serão estudadas.
Analisando as questões de estudo, pode levantar as seguintes variáveis:
a) Independente:
- O Emprego de Operações de Coordenação Civil-Militar: a variável emprego de Operações de CIMIC indica que as operações foram empregadas durante os contingentes e influenciam a variável dependente pois, do emprego resulta os benefícios e multiplicação dos fatores de poder de combate.
b) Dependentes:
- Elementos do Poder de Combate: traduz-se em oito elementos essenciais e indissociáveis fundamentais às operações. São eles: liderança, informações e as funções de combate, comando e controle, movimento e manobra, inteligência, fogos, logística e proteção. Devido à natureza das Operação de Paz escolhida para o estudo, a função de combate Fogos não será estudada, haja visto que foi muito pouco empregada para a conquista dos objetivos e estabelecimento do Estado Final Desejado.
c) Interveniente:
- Fase da Operação: A Missão de Paz no Haiti teve duas fases distintas, a primeira até a conquista de todas as áreas de responsabilidade em posse de gangues, com confrontos diários e regras de engajamento proporcionais às ameaças, e a segunda fase, após a conquista destas áreas e início de uma fase com maior ênfase no caráter humanitário na missão. A Variável Interveniente influencia o estudo pois durante a primeira fase as operações CIMIC eram inexistentes ou em quantidade e intensidade insignificantes perante as operações.
2.1.1.1 Definição Operacional das Variáveis
Conforme explicado na Seção acima, as variáveis foram separadas em
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Independente, Dependente e Interveniente, com as seguintes dimensões, indicadores e formas de medição:
2.1.1.1.1 Varável Independente
Variável Dimensão Indicadores Formas de medir
O Emprego de Operações deCoordenação Civil- Militar por uma subunidade destacadaemoperações de paz
Quantidade de Operações
- Quantidade de Operações
- Objetivos das Operações
- Leitura de relatórios
- Questionários, Itens 13 a 24
- Entrevistas exploratórias
2.1.1.1.2 Variável Dependente
Variável Dimensão Indicadores Formas de medir
Elementos do poder de combate
Liderança
- Satisfação da tropa com seus Comandantes;
- Satisfação da tropa com a missão que estavam realizando.
- Questionários (Item 25. a.) - Entrevistas exploratórias
Informações
- Quantidade de Informes obtidos antes, durante e depois de Ações de CIMIC;
- Aproximação e cooptação de haitianos colaboradores.
- Questionários (Item 25. b.) - Entrevistas exploratórias - Consulta a documentos do CCOPAB (Plano de Disciplinas dos estágios, notas de aula, etc).
- Consulta a relatórios diários de situação.
Comando e
Controle
- Participações de integração de esforços de militares e civis;
- Realização de ações para informar e influenciar.
- Questionários (Item 25. c.) - Entrevistas exploratórias - Consulta a documentos do CCOPAB (Plano de Disciplinas dos estágios, notas de aula, etc).
- Consulta a relatórios diários de situação.
Movimento e - Facilidades criadas - Questionários (Item 25. d.)
27 Manobra pelas operações de
CIMIC para ações táticas das tropas.
- Entrevistas exploratórias - Consulta a documentos do CCOPAB (Plano de Disciplinas dos estágios, notas de aula, etc).
- Consulta a relatórios diários de situação.
Inteligência
- Produção de
conhecimento em apoio ao planejamento da Força;
- Apoio á obtenção de consciência situacional;
- Obtenção de
Elementos Essenciais de Inteligência para outras operações;
- Execução de ações de Inteligência, Vigilância e Aquisição de Alvos.
- Questionários (Item 25. e.) - Entrevistas exploratórias - Consulta a documentos do CCOPAB (Plano de Disciplinas dos estágios, notas de aula, etc).
- Consulta a relatórios diários de situação.
Logística
- Facilitadores em apoio
de manutenção,
suprimento e de saúde de outras agências envolvidas
- Questionários (Item 25. f.) - Entrevistas exploratórias - Consulta a documentos do CCOPAB (Plano de Disciplinas dos estágios, notas de aula, etc).
- Consulta a relatórios diários de situação.
Proteção
- Facilitadores para atividades de segurança da tropa e de instalações
- Questionários (Item 25. g.) - Entrevistas exploratórias - Consulta a documentos do CCOPAB (Plano de Disciplinas dos estágios, notas de aula, etc).
- Consulta a relatórios diários de situação.
2.2 AMOSTRA
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Durante o período delimitado para a pesquisa, 25 contingentes ocuparam as referidas bases do Forte Nacional e, 20, a Base de Cité Soleil, totalizando aproximadamente 270 oficiais participantes, a se somar os integrantes das células de assuntos civis e CIMIC, pertencentes ao Estado Maior dos Batalhões Brasileiro, chegando-se a um total aproximado de 348 oficiais, superiores, intermediários e subalternos.
Para melhor elucidação do problema proposto, foram entrevistados oficiais superiores, intermediários e subalternos, combatentes, que tenham ocupado as bases destacadas do Forte Nacional e de Cité Soleil, durante a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti e funções diretamente ligadas à Assuntos Civis e CIMIC.
Não foram considerados militares que as ocuparam temporariamente ou em substituição a outros que tenham retornado ao Brasil com menos de três meses passados nas bases citadas, chegando, dessa forma, à população a ser pesquisada, conforme tabela 1:
Função do militar Quantidade
Encarregado de Assuntos Civis / BRABAT 1
19
Encarregado de Assuntos Civis / BRABAT 2
7
Adjuntos do Encarregado de Assuntos Civis / BRABAT 1
38
Adjuntos do Encarregado de Assuntos Civis / BRABAT 2
14
Comandantes de Subunidades
destacadas no Forte Nacional
25
Comandantes de Subunidades
destacadas em Cité Soleil
20
Subcomandantes de Subunidades
destacadas no Forte Nacional
25
Subcomandantes de Subunidades
destacadas em Cité Soleil
20
Comandantes de Pelotão da Subunidade Destacada do Forte Nacional
100
Comandantes de Pelotão da Subunidade 80
29 Destacada em Cité Soleil
TOTAL 348
Tabela 1: Oficiais Participantes do Questionário
Com o objetivo de encontrar respostas precisas às questões de estudo, atingindo os objetivos geral e específicos, 186 oficiais participaram dos questionários, alcançando um nível de confiança superior a 95% e menos de 5% de margem de erro.
Estudando esse universo, chegou-se a uma representatividade dos oficiais participantes de operações de CIMIC em subunidades destacadas, e no planejamento de tais ações, ocupando os diversos cargos previstos que permitiram uma conclusão eficaz para o problema levantado.
2.3 DELINEAMENTO DA PESQUISA
Por ser uma pesquisa eminentemente descritiva, com a análise indutiva dos dados coletados, o trabalho utilizou uma abordagem eminentemente qualitativa.
Inicialmente, foi realizado um estudo a respeito das Operações de Paz e da forma de emprego dos contingentes. Desta forma, o trabalho procurou definir ao leitor as características do cenário de uma Operação de Paz, a fim de ocorrer a ambientação das variáveis selecionadas.
Na sequência, um estudo exploratório foi conduzido, levantando as formas de emprego das ações de Cooperação e Coordenação Civil-Militar das Organizações Internacionais e de nações que já possuem doutrinas bem definidas e consolidadas sobre a matéria.
Após essa fase, foi realizado um levantamento documental em manuais existentes e trabalhos científicos realizados em instituições de reconhecido valor para a Defesa Nacional, acerca do que já se tem realizado nas missões de Operações de Paz no Exército Brasileiro em conjunto com outras agências civis.
Em linhas gerais, os passos principais a serem desenvolvidos serão o levantamento e seleção da bibliografia pertinente ao tema, seguida por uma pesquisa bibliográfica, documental e de campo.
A coleta desse material bibliográfico deu-se por meio de consultas às
bibliotecas digitais da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, da Escola de
Aperfeiçoamento de Oficiais, do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil e do
Centro de Doutrina do Exército. Outras fontes bibliográficas como manuais militares e
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informações disponíveis na internet também foram amplamente utilizadas. Quanto a coleta documental, foram consultados diversos documentos oficiais do Exército Brasileiro, versando sobre Operações de Paz, além de uma extensa pesquisa das atividades para a integração civil-militar que foram desenvolvidas em diversos países.
Para a comparação das doutrinas internacionais com a brasileira, levou-se em conta o que existe em outros Exércitos e em Organizações Internacionais e o recém- publicado Manual de Campanha EB-70-MC.10.221 COOPERACÃO CIVIL-MILITAR.
O estudo de caso foi feito por meio da análise das missões com participação brasileira, em especial a das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti. O trabalho também levou em consideração conhecimentos extraídos de casos reais já ocorridos e em andamento, como as missões na Bósnia, no Iraque e no Afeganistão.
Uma pesquisa de campo foi realizada para coletar os dados referentes à experiência e percepções dos militares. A pesquisa foi desenvolvida por meio de questionários aos oficiais brasileiros que participaram da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, ocupando cargos nas Seções de Assuntos Civis e CIMIC (G9), componentes das Subunidades que ocuparam o Forte Nacional e a Base de Cité Soleil, destacamentos de Operações de Paz e de Operações Psicológicas e entrevistas exploratórias a oficiais especialistas no assunto que tenham realizado cursos no exterior, que participaram de simpósios sobre a matéria dentro do Exército Brasileiro, que ocuparam a função de Adjuntos da Seção de Assuntos Civis e CIMIC dos Batalhões Brasileiros de Força de Paz e com militares que desempenharam a função de subcomandante de subunidade ou de Oficial de Ligação em uma companhia isolada durante a MINUSTAH.
As informações obtidas foram analisadas qualitativa e quantitativamente. Os dados foram tabulados e analisados através de representação gráfica com a finalidade de responder as questões de estudo. Foram levantadas outras deduções que surgiram dos dados levantados.
Os dados obtidos com os questionários e entrevistas foram categorizados e apresentados para uma análise dos resultados obtidos com as operações de CIMIC, demonstrando com as experiências práticas dos militares entrevistados e que responderam ao questionário, quanto e como as operações foram influenciadas por ações de Cooperação e Coordenação Civil-Militar.
Tendo em vista ser uma pesquisa qualitativa, o tratamento estatístico foi usado
para categorizar os dados e facilitar a análise. Os dados de categoria Ordinal e
31
Nominal foram organizados para possibilitar um resultado preciso das observações.
Por fim, foi elaborado o texto do trabalho onde verifica-se as conclusões sobre os resultados obtidos com a análise do problema.
Ao final, foi apresentada, como solução prática, uma proposta de confecção de capítulo para atualização do Manual EB 70-MC-10.221 (COOPERAÇÃO CIVIL- MILITAR), ou de um Caderno de Instrução sobre a Subunidade em Operações de Coordenação Civil-militar.
2.3.1 Procedimentos Metodológicos
Para que o problema fosse solucionado, foram estabelecidos os objetivos da pesquisa e levantadas as questões de estudo. Foi definida a abrangência, as variáveis e o objeto formal de estudo. Foram levantadas as fontes de pesquisa e estratégias para busca dessas informações.
Após essa fase, foram obtidos os dados e conhecimentos através da pesquisa documental em publicações oficiais, trabalhos acadêmicos e materiais de autores fidedignos. Para definir os dados que interessam ao estudo, foram estabelecidos os seguintes critérios:
1. Critérios de Inclusão
- Documentos formais de instrução e de consulta de outras Forças Armadas e Organizações de notável experiência no assunto;
- Estudos publicados em português, inglês, espanhol, alemão ou francês;
- Estudos publicados a partir de 1996, ano da operação da OTAN na Bósnia Herzegovina, onde a doutrina de CIMIC voltou a ganhar a devida relevância;
- Estudos qualitativos e quantitativos que discorram sobre a interação civil- militar e seus papéis nos conflitos de amplo espectro.
- Documentos de instrução do CCOPAB sobre operações de CIMIC.
- Documentos dos BRABAT sobre operações de CIMIC envolvendo as Companhias do Forte Nacional e de Cité Soleil.
2. Critérios de exclusão
- Estudos que abordem temas não relacionados ao objeto da pesquisa;
- estudos com forte viés político ou ideológicos;
- publicações sem fundamentação comprovada ou credibilidade avaliável.
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2.3.2 Instrumentos
Para a presente pesquisa foram empregados três instrumentos principais, sendo eles a coleta documental de dados, questionários e entrevista exploratória.
2.3.3 Coleta Documental e Fichamento:
Com a finalidade de reunir o conhecimento necessário ao desenvolvimento da pesquisa e levantar os dados necessários, foi realizada uma pesquisa bibliográfica sobre os conceitos e história das operações de paz, salientando a participação brasileira nessas missões. Também foram estudadas doutrinas, teses, artigos científicos, relatórios e lições aprendidas em operações de paz. Toda a informação útil foi compilada em fichas de coletas de dados.
2.3.3.1 Questionário
Inicialmente elaborou-se um questionário, conforme apêndice B, para os militares que integraram a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, citados no item 2.2 AMOSTRA (Pág 28), o qual após aprovado e retificado em pré- teste, foi encaminhado a militares que ocuparam funções de comando e planejamento, voluntários que pertenciam ao universo da população em estudo (vide Tab. 1). As respostas foram interpretadas e, tabuladas, para análise.
O Questionário procurou responder dúvidas que não estavam presentes na literatura, melhores práticas e lições aprendidas durante as ações de CIMIC dos diversos contingentes do Batalhão Brasileiro de Força Paz da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, ou sobre nuances, percepções e observações dos militares acerca das atividades desencadeadas.
2.3.3.2 Entrevista Exploratória
Foram realizadas entrevistas exploratórias com militares de notório saber sobre
o assunto de CIMIC, que realizaram operações e ocuparam cargos de decisão e
planejamento nos BRABAT, como comandante e encarregados e adjuntos de
Assuntos Civis e CIMIC e Subcomandantes de Companhia isolada ou Oficial de
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Ligação de CIMIC.
Foram entrevistados o Cel Júlio César de Sales, comandante do BRABAT 7;
Ten Cel Glauco Corbari Corrêa, Adjunto da Célula do G9, responsável pelo CIMIC no BRABAT 23; Cap Sérgio Ricardo Oliveira Dornelles, Subcomandante da 2ª Companhia de Força de Paz do BRABAT 19, destacada na Base de Cité Soleil entre novembro de 2013 e junhi de 2014 e o Cap João Maurício Dias Lopes Valdetaro, instrutor da matéria de CIMIC do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil.
Assim como o questionário, as entrevistas procuraram dirimir dúvidas que não foram encontradas na literatura e nos relatórios preenchidos a cada rodízio dos contingentes do Batalhão Brasileiro de Força Paz da MINUSTAH, e sobre melhores práticas e lições aprendidas, percepções e observações dos militares acerca das atividades de CIMIC em que participaram.
As entrevistas seguiram um roteiro abordando a experiência de cada militar, com preguntas específicas para a função e contingente do qual participaram sobre suas percepções, melhores práticas e lições aprendidas.
2.3.4 Análise dos Dados
Após a coleta dos dados, estes foram organizados para observação e análise.
As informações levantadas durante esse procedimento foram minuciosamente estudadas, comparando a doutrina aos relatórios e entrevistas exploratórias.
Assim, o conhecimento foi categorizado para a resposta das questões de estudo e cumprimento dos objetivos específicos.
Com a análise profunda dos relatórios das missões e entrevistas exploratórias, foram levantadas as estatísticas descritivas, para uma interpretação e avaliação qualitativa. Para uma maior compreensão do objeto de estudo, após a transcrição das entrevistas, foram realizadas leituras flutuantes, em busca das categorias presentes nas respostas, seguidas de uma leitura transversal, identificando e aprofundando o tema central da pesquisa.
O mapeamento das informações levantadas nos documentos doutrinários das
Organizações e Forças Armadas de países com notória experiência nas operações
de CIMIC permitiu a análise qualitativa e quantitativa das formas de emprego, para
uma melhor comparação com a doutrina brasileira. Essa ação também permitiu que
fosse feita uma síntese dos principais elementos e informações constantes na
34
literatura oficial, apontando os aspectos de emprego das atividades em se coordenavam as ações militares e civis.
Mediante a aplicação dos questionários e das entrevistas exploratórias, pode ser caracterizado a forma de emprego das operações de CIMIC na prática, possibilitando uma convergência e comparação dos resultados encontrados nestes instrumentos com as informações levantadas durante a coleta de dados.
Os resultados foram apresentados em gráficos, analisados e interpretados de
forma qualitativa e, em parte, quantitativa. Dessa maneira, as informações colhidas
puderam ser discutidas e comparadas, para a extração da conclusão, atento a novos
questionamentos e aspectos que introduziram novos problemas para pesquisas
futuras.
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3 REVISÃO DE LITERATURA
Perante o problema em estudo, para a revisão da literatura foram pesquisados os manuais das principais Forças Armadas do mundo, bem como trabalhos acadêmicos de entidades de renome. Assim, concluir-se-á sobre o assunto tendo por base o estado da arte das Operações de Coordenação Civil-Militar.
A presente revisão divide-se em um breve histórico das operações com interações entre militares e civis, sua conceituação e como são empregados pelas Organizações Internacionais, Organizações Não Governamentais, pelos Estados Unidos da América, país possuidor de notória experiência neste tipo de operação e pelo Brasil. Será discorrido também sobre as operações de paz e a atuação brasileira sob a égide da ONU, com ênfase para a Missão no Haiti, incluindo as duas subunidades destacadas do Forte Nacional e de Cité Soleil.
3.1 A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
A Organização das Nações Unidas (ONU) é o principal Organismo Internacional, formado, atualmente, por 193 Países-membros, que se uniram, voluntariamente, com o objetivo precípuo de impedir que novas guerras, como a I e a II Guerras Mundiais voltassem a ocorrer e para zelar pela paz mundial. (ONU, 2018)
Após a I Guerra Mundial, os países aliados, vencedores do conflito, se uniram na tentativa de mediar e negociar a paz, na Liga das Nações, criada pelo Tratado de Versalhes, como objetivo de reunir todas as nações da Terra, evitando, assim, uma nova guerra como a que acabara de destruir boa parte da Europa. (ONU, 2018)
Com o irrompimento da II Guerra Mundial, e seu consequente fracasso, a Liga das Nações, foi dissolvida e abandonada por seus membros.
Em sua carta de fundação, assinada, em 24 de outubro de 1945, pelos 51 Países-membros fundadores da Organização, cita em seu preâmbulo a obrigatoriedade de preservar as gerações futuras dos sofrimentos da guerra:
“Nós, os povos das nações unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito
36 internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla.
E para tais fins, praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais (...)” (ONU, 1945)
Assim, para que pudesse cumprir suas funções, foram criados seis órgãos principais, Assembleia Geral, Secretariado, Conselho Econômico e Social, Corte Internacional de Justiça, Conselho de Tutela e Conselho de Segurança. (ONU, 2018) A Assembleia Geral é o órgão deliberativo onde os 193 países membros se reúnem para discutir os assuntos que afetam os habitantes do planeta. Nela, todos os membros têm direito a voto e são equivalentes em valor, ou seja, existe igualdade total entre todos. (ONU, 2018)
Na Assembleia Geral, são discutidas formas para melhorar as condições de vida de crianças, jovens e mulheres, assuntos ligados ao desenvolvimento sustentável, decisões sobe as contribuições dos Países-membros e eleger os novos Secretários-Gerais, da Organização. Também são deliberadas questões militares, desde que não estejam em pauta no Conselho de Segurança. Todas as suas decisões, porém, tem caráter recomendatórios, não sendo obrigatórias as suas adoções pelos Países-membros. (ONU, 2018)
O Secretariado trabalha em prol dos outros órgãos das Nações Unidas e tem como missão principal administrar o sistema Nações Unidas, com suas Agências e Departamentos, incluindo o Department of Peackeeping Operations (DPKO), Departamento de Operações de Paz, responsável pelo planejamento, execução e administração das missões de paz sob o mandato da ONU. É comandada pelo Secretário-Geral, nomeado pela Assembleia Geral, seguindo recomendação do Conselho de Segurança. (ONU, 2018)
O Conselho Econômico e Social, como seu próprio nome sugere, é o órgão coordenador do trabalho econômico e social da ONU. O Conselho formula recomendações e estimula o desenvolvimento do comércio internacional, industrialização, recursos naturais, direitos humanos, bem-estar social e outras questões econômicas e sociais. (ONU, 2018)
Sediada em Haia, Holanda, a Corte Internacional de Justiça é o principal órgão
judiciário das Nações Unidas. Composta por quinze juízes, chamados de “membros”,
eleitos pela Assembleia Geral, dá pareceres solicitados pela Assembleia Geral, pelo
Conselho de Segurança, pelos demais órgãos compõem a ONU e a Países-membros
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que fazem parte do Estatuto da Corte, parte da Carta das Nações Unidas. (ONU, 2018)
O Conselho de Tutela foi extinto em 1994, quando seus objetivos foram considerados amplamente atingidos. A ele cabia a supervisão da administração de territórios sob a tutela internacional, promovendo o progresso dos habitantes e desenvolvendo as condições para a progressiva independência e estabelecimento de um governo autônomo. Após quase meio século em favor da luta pela autodeterminação dos povos o Conselho de Tutela suspendeu suas atividades, em 19 de novembro de 1994, após o encerramento do acordo de tutela sobre o território de Palau, na Oceania, tornando-o um Estado soberano, membro das Nações Unidas.
(ONU, 2018)
Órgão responsável pela paz e pela segurança internacional, o Conselho de Segurança (CSNU) é formado por quinze Países-membro, sendo cinco permanentes (EUA, Reino Unido, Rússia, França e China), que possuem direito a veto, e dez membros não-permanentes, com mandatos de dois anos. É o púnico órgão da ONU com poder decisório, ou seja, suas decisões devem ser cumpridas por todos os membros da Nações Unidas. (ONU, 2018)
Além de manter a paz e a segurança internacionais, tem como principais funções a determinação se existe alguma ameaça à paz, a decisão da criação, continuação e encerramento das Missões de Paz, aplicação de sanções e outras medidas para impedir ou deter alguma agressão, investigação de situações que possam se tornar um conflito, recomendar o ingresso de novos membros da ONU e recomendar à Assembleia Geral a eleição de um novo Secretário-Geral. (ONU, 2018) Dentro do contexto das missões de Paz, o CSNU é o órgão que determina quando, onde e como serão desencadeadas, devendo ser aprovadas entre seus membros e, como possuem o poder de veto, com unanimidade entre os cinco membros permanentes. Possui em seu organograma o Department of Peacekeeping Operations (DPKO), responsável pela condução direta das operações aprovadas.
Dentre outras atribuições, o DPKO supervisiona o preparo, coordena o emprego e controla todas as atividades por meio de seus representantes em campo e do Department of Field Support (DFS), encarregado da logística das operações.
3.1.1 Operações De Paz sob a Égide da ONU
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