PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
Mariana Battistini Dalmolin
O que são leis da natureza segundo D. M. Armstrong
MESTRADO EM FILOSOFIA
São Paulo
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
Mariana Battistini Dalmolin
O que são leis da natureza segundo D. M. Armstrong
Dissertação apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Filosofia sob a orientação do Prof. Dr. Mario Ariel González Porta
MESTRADO EM FILOSOFIA
São Paulo
Aos meus pais,
AGRADECIMENTOS
Ao Prof. Dr. Edelcio Gonçalves de Souza, por ter acompanhado este trabalho desde seus primeiros momentos com muita atenção e cuidado, e por sempre me lembrar de como a filosofia deve ser feita
com os pés no chão.
Ao Prof. Dr. Mario Ariel González Porta, por ter concluído a orientação deste trabalho e por servir de exemplo e estímulo para sempre esperar mais de mim mesma.
Ao Prof. Dr. Marco Antonio Caron Ruffino, por suas preciosas sugestões no exame de qualificação e por seu pronto interesse em discutir meu trabalho.
A todos os professores do Departamento de Filosofia da PUC-SP, especialmente ao Prof. Dr. Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, à Prof. Dra. Rachel Gazolla de Andrade e ao Prof. Dr. Luiz Felipe
Pondé, por terem me ajudado a dar importantes passos no trabalho de pesquisa.
A todos os amigos que fiz desde o início de meus estudos na PUC-SP, por me mostrarem que não estou sozinha nas dores e nas delícias de estudar filosofia, e por me possibilitarem fazê-lo em um ambiente muito alegre e colaborativo. Especialmente a Mateus Perito e Paulo de Tarso Valerio, por me ajudarem com a revisão do texto, entre inúmeros outros auxílios, e a Marco Antonio Chabbouh Junior e Anita Guimarães Câmara, por me socorrerem em todas as minhas angústias. Este trabalho
não existiria sem eles.
À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo que, com todas as suas idiossincrasias, me possibilitou conhecer tantas pessoas maravilhosas e foi minha segunda casa durante todos esses
anos.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, pela concessão da bolsa que possibilitou a realização deste trabalho.
Aos meus pais, Rita e Ricardo, por me ensinarem que o conhecimento é o maior tesouro que podemos adquirir, e por me darem a certeza de que tenho sempre um porto seguro. Ao Luigi, o melhor irmão do mundo, por ser meu companheiro de vida e sempre cuidar de mim. Aos três, pelo
minhas Isabel(l)as, por me mostrarem com seus sorrisos como a vida pode ser deliciosa.
Ao Pedro, meu amor, por acreditar em mim até quando eu mesma duvido, e por me dar mais carinho, atenção, cuidado e amor do que eu jamais pensei que fosse possível. À sua família, pela
acolhida calorosa e pelos muitos momentos de alegria e tranquilidade que me proporcionaram.
A todos os amigos que a vida me deu, por me acompanharem em meu caminho e vibrarem com minhas conquistas, especialmente a Adriana Rodrigues de Souza, Bruna Gaino, Camila Capassi Malagodi, Celina Vertamatti Piacezzi, Débora Furlanetto, Gabriela Pinheiro Lima, Hanne Bresser,
Kayque Antonioli, Sabrina Mertens, Tania Matsunaga, Tayrine Mazotti e Tiina Ollikainen.
RESUMO
Este trabalho é um estudo sobre a teoria de leis da natureza proposta pelo filósofo australiano D. M. Armstrong em sua obra What is a Law of Nature?, publicada em 1983. Neste texto, Armstrong mostra a insuficiência da teoria regularista de leis e procede, então, a desenvolver sua própria teoria, que se mostra capaz de resolver diversos problemas que a teoria regularista deixava em aberto. No primeiro capítulo deste trabalho, apresentamos (1.1) a teoria regularista ingênua, bem como as críticas que ela recebeu de Armstrong e de outros autores. Em seguida (1.2), mostramos que três propostas de sofisticação da teoria não são bem-sucedidas para resolver as dificuldades encontradas na versão ingênua. A teoria regularista fica, assim, refutada, e uma nova teoria sobre leis é necessária. No segundo capítulo, apresentamos, primeiramente (2.1), um pressuposto à teoria de leis de Armstrong – seu realismo sobre universais –, e vemos como este pode ser aplicado a uma teoria de leis. A seguir (2.2), apresentamos a tese fundamental de Armstrong: uma lei é uma relação entre universais e, simultaneamente, um universal em si mesma que, devido à relação de instanciação, regula o comportamento de particulares e gera uniformidades na natureza. Mostramos, também, (2.3) como tal teoria permite dar conta das dificuldades enfrentadas pela teoria regularista. No terceiro capítulo, avaliamos o papel do conceito de necessidade na teoria de Armstrong. Em primeiro lugar (3.1), aprofundamos nosso entendimento da relação de necessitação N, que tem um papel central na teoria apresentada, e, a seguir (3.2), mostramos que Armstrong rejeita a tese de que leis são metafisicamente necessárias, defendendo sua contingência. O entendimento de sua teoria está centrado, portanto, na distinção entre a necessidade nômica afirmada em sua concepção de leis, por um lado, e a necessidade metafísica das leis, que Armstrong rejeita.
ABSTRACT
This work is a study on the theory of laws of nature proposed by the Australian philosopher D. M. Armstrong in his work What is a Law of Nature?, published in 1983. In that text, Armstrong shows the insufficiency of the regularty theory and, then, proceeds to develop his own theory, which is able to answer to several of the regularity theory's outstanding issues. In the first chapter of this work, we present (1.1) the naive regularity theory, as well as the critiques that it received from Armstrong and other authors. Afterwards (1.2), we present three suggestions to sophisticate that theory, which are not successful to address the difficulties found in its naive version. Therefore, the regularity theory is refuted, and a new theory of laws is needed. In the second chapter, we present, firstly (2.1), an assumption of Armstrong's theory of laws – his realism about universals –, and we see how it can be applied to a theory of laws. Afterwards (2.2), we present Armstrong's fundamental thesis: a law is a relation between universals and simultaneously an universal in itself, which regulates the behavior of particulars and generates uniformities in nature in virtue of the instaniation relation. We also show (2.3) how such theory makes it possible to deal with the difficulties faced by the regularity theory. In the third chapter, we evaluate the role of the concept of necessity in Armstrong's theory. Firstly (3.1), we deepen our understanding of the necessitation relation N, and, afterwards (3.2), we show that Armstrong rejects the thesis according to which laws are metaphisically necessary and advocates for their contingency. Therefore, the understanding of his theory is centered in the distinction between the nomic necessity asserted in his conception of laws, on one hand, and the metaphysic necessity of laws, which Armstrong denies, on the other.
SUMÁRIO
0 Introdução: O problema das leis da natureza – 1
1 A crítica à teoria regularista – 17
1.1 A teoria regularista ingênua – 18
1.1.1 As críticas de Kneale e Molnar – 19
1.1.1.1 “Natural laws and Contrary-to-fact Conditionals” – 19 1.1.1.2 “Universality and Necessity” – 22
1.1.1.3 “Kneale's Argument Revisited” – 27 1.1.2 A crítica de Armstrong – 29
1.1.2.1 O conjunto das leis da natureza e o conjunto das uniformidades humeanas não são coextensivos – 30
1.1.2.1.1 O argumento das possibilidades físicas não-realizadas – 30 1.1.2.1.2 O argumento dos objetos inexistentes – 31
1.1.2.1.3 O argumento das uniformidades locais – 34
1.1.2.2 Pode não haver uma relação direta entre uma lei e sua manifestação – 35 1.1.2.2.1 O argumento das leis probabilísticas – 35
1.1.2.2.2 O argumento das leis funcionais – 38
1.1.2.3 Uma lei tem propriedades que faltam a sua manifestação – 39 1.1.2.3.1 O poder explicativo das leis – 40
1.1.2.3.2 Leis e contrafactuais – 40 1.1.2.3.3 Leis e indução – 44 1.2 Teorias regularistas sofisticadas – 48
1.2.1 Restrições epistêmicas: A. J. Ayer – 49 1.2.2 Resiliência: B. Skyrms – 52
1.2.3 Restrições sistemáticas: D. Lewis – 54
2 Uma nova teoria sobre leis – 61
2.1 Realismo sobre universais como pressuposto a uma teoria de leis – 61
2.1.1 O problema dos universais: Realismo e Nominalismo – 62
2.1.2 A crítica ao nominalismo: Nominalismo de Classes e Nominalismo de Semelhanças – 64 2.1.3 Realismo sobre universais – 67
2.1.3.3 Estados de Coisas – 70
2.1.4 Universais aplicados a uma teoria de leis – 71 2.2 A teoria de Armstrong sobre as leis da natureza – 73
2.2.1 Leis como relações entre universais – 74 2.2.2 Leis como universais – 76
2.3 Como a teoria soluciona os problemas encontrados na teoria regularista – 79
2.3.1 Leis funcionais – 80 2.3.2 Leis não-instanciadas – 82 2.3.3 Leis probabilísticas – 85
2.3.4 Uniformidades acidentais, poder explicativo, contrafactuais e indução – 88
3 Leis da natureza e necessidade – 92
3.1 O que podemos dizer sobre N? – 93
3.1.1 N independente de universais: necessitação singular – 94 3.1.2 As propriedades formais de N – 96
3.1.3 Precisamos mesmo de N? O argumento da economia: R. Braithwaite, K. Popper e D. H. Mellor – 97
3.2 Leis da natureza são metafisicamente necessárias? – 99
3.2.1 O conhecimento das leis da natureza – 101
3.2.2 Leis da natureza não poderiam ser diferentes do que são: Shoemaker – 105 3.2.3 Armstrong contra a necessidade das leis –108
4 Conclusão: O que é uma lei da natureza? – 111
INTRODUÇÃO: O PROBLEMA DAS LEIS DA NATUREZA
Em 1687, Isaac Newton publicou a primeira edição de sua obra-prima, Princípios
Matemáticos da Filosofia Natural, em que estabeleceu os fundamentos da mecânica clássica. Nesta obra, Newton formulou a lei da gravitação universal, segundo a qual dois corpos se atraem com uma força proporcional a suas massas e na razão inversa do quadrado de suas distâncias. Seguindo a fórmula proposta, foi possível calcular tabelas astronômicas da órbita dos planetas do Sistema Solar e verificar que as previsões coincidiam com observações feitas por meio de telescópios. No entanto, em 1821, Alexis Bouvard publicou as tabelas astronômicas relativas à órbita de Urano e descobriu diferenças significativas entre a órbita observada e a órbita prevista pela fórmula newtoniana.
Para explicar a diferença, Bouvard, seguido independentemente por John Couch Adams, propôs a hipótese de que haveria um planeta ainda desconhecido, cuja interferência explicaria o erro nos cálculos da órbita de Urano. Tal hipótese foi posteriormente testada por observações e, em 23 de setembro de 1846, foi descoberto o planeta Netuno, localizado muito próximo de onde os cálculos haviam previsto.
Propor a existência de um planeta desconhecido não é pouca coisa. A hipótese destes cientistas, bastante arriscada, demonstra que eles tinham em alta conta a lei da gravitação universal, que de fato tinha alcançado grande sucesso em prever e explicar fenômenos até então, e sua corroboração pela observação do planeta significou não apenas o fim do perigo de estarem diante de uma falsificação da teoria de Newton mas também um êxito muito relevante, que mostrou o notável poder preditivo da lei.
O exemplo relatado permite notar alguns traços do que se espera de uma lei. Percebe-se, por um lado, que a crença na adequação da fórmula newtoniana levou os cientistas a ver como um
problema a identificação de um caso em que a fórmula falhava. Uma boa lei enuncia algo sobre o mundo que não admite exceções. Essa concepção de lei, por sua vez, evidencia um outro pressuposto: a de que a lei de Newton era – ou pretendia ser – uma descrição que corresponde a como a natureza de fato se comporta, e que deve ser julgada pelo sucesso que alcança nessa empreitada. A ciência é vista como o projeto de descobrir e descrever adequadamente o comportamento da natureza.
uma lei depende de seu reconhecimento na comunidade científica de uma dada época ou do papel que desempenha em teorias convencionalmente aceitas. Se aceitamos a concepção de ciência aludida acima, esses enunciados seriam apenas tentativas imprecisas de aproximação da verdade
(cf. SWARTZ, 2009).
Para alguns autores, no entanto, “é um erro pensar que os enunciados universais tradicionalmente considerados como nomológicos exprimem estados de coisas reais (...) [eles são] construções destinadas a forjar uma representação coerente e sistemática dos resultados de experiências multiformes” (BARBEROUSSE et al., 2000, p. 82)1. Estes autores, que chamamos de antirrealistas, acreditam que as leis científicas se esgotam em seu caráter convencional e instrumental, e que não devem ser vistos como tentativas mais ou menos bem-sucedidas de descrever a realidade.
Outros autores, no entanto, consideram que “existem leis reais, ainda que evitemos cuidadosamente supor que nós já as conheçamos perfeitamente e que elas são expressas por nossos enunciados 'das leis', que são na verdade hipotéticos” (idem). Segundo esta visão, que chamamos de realismo a respeito das leis, existem de fato leis da natureza, que são o objeto de estudo da ciência, e quando dizemos que leis científicas são aproximações da verdade, queremos dizer que são tentativas de enunciar as leis da natureza reais. É muito provável que nossas leis científicas não correspondam perfeitamente às leis da natureza, e é até mesmo possível que a ciência não conheça nenhuma delas. Mas é este seu objetivo. Este segundo sentido do termo “lei” é, portanto, aquele segundo o qual trata-se de uma entidade real, “que existe independentemente das mentes que buscam captá-la” (ARMSTRONG, 1983, p. 7), independentemente do seu status em uma comunidade científica ou da linguagem em que é formulada. Se a ciência estiver de posse de enunciados de lei verdadeiros, então “o que os torna verdadeiros é uma lei [da natureza]”
(ARMSTRONG, 1983, p. 8).
Uma vez que consideramos a posição realista a respeito de leis, algumas perguntas surgem. Em primeiro lugar, em que sentido podemos dizer que leis existem ou que são reais? E se leis não são apenas construções imaginárias ou instrumentais, o que elas são? É esse problema que nos interessa neste trabalho. Examinaremos algumas respostas à pergunta “O que é uma lei da natureza?”, tendo como pressuposto o realismo apresentado acima. Dessa forma, delimita-se nosso campo de estudo e ficam excluídos alguns temas relacionados aos problemas levantados que, apesar de relevantes para a filosofia da ciência, superam o escopo deste trabalho.
Poderíamos, por exemplo, partir do relato da descoberta de Netuno para discutir que tipo
de modificações são aceitáveis em teorias falsificadas por alguma observação. Este problema, central para o falsificacionismo, leva a questões que dizem respeito ao método científico, ao progresso da ciência e até mesmo ao posicionamento adotado pela comunidade científica em
relação a teorias duvidosas. Poderíamos também ser levados a problemas ainda mais amplos, sobre a natureza do conhecimento científico, sobre as caractrísticas da experiência empírica, sobre o significado da verdade de uma teoria ou sobre a relação entre linguagem e ciência. Mas nosso interesse está em discutir o que as leis são, enquanto realidades objetivas. Trata-se de uma discussão de caráter metafísico, que pretende clarificar a natureza dessas entidades, e que só marginalmente tratará de problemas linguísticos e sociológicos. Com relação à epistemologia, as relações com o tema aqui tratado são sem dúvida mais próximas, de forma que considerações epistemológicas serão relevantes em alguns momentos, mas apenas enquanto influenciarem diretamente posicionamentos ontológicos. Vale para este trabalho a máxima enunciada por D. M. Armstrong: “nossa preocupação aqui é com a filosofia primeira” (ARMSTRONG, 1978b, p. 12).
Nesta introdução, partiremos de uma concepção corrente sobre as leis segundo a qual elas impõem um certo comportamento sobre o mundo. Em seguida, apresentaremos brevemente uma teoria sobre leis que se baseia na negação desta ideia e que defende que leis podem ser reduzidas a regularidades. Essa tese será ameaçada pela dificuldade que ela encontra para diferenciar entre regularidades que são leis, por um lado, e aquelas que são meramente acidentais, por outro. Sugeriremos, então, que uma caracterização satisfatória das leis é justamente aquela que permite diferenciar leis e regularidades acidentais. Serão explorados, a seguir, dois pontos em que as diferenças são marcantes: o apoio a contrafactuais e a confirmabilidade por indução, mas rejeitaremos a tentativa de utilizar essas diferenças como uma caracterização suficiente das leis. Será sugerido, a seguir, um conceito de explica todas as diferenças reconhecidas até aqui: o conceito
de necessidade. Rejeitaremos, no entanto, que a necessidade presente nas leis seja lógica ou metafísica. Uma nova forma de necessidade será proposta: a necessidade nômica. Apresentaremos os primórdios de uma teoria que defende este tipo de necessidade e a baseia em uma teoria a respeito de propriedades e relações, que é o realismo sobre universais, desenvolvida pelo filósofo David M. Armstrong. A teoria de Armstrong sobre as leis da natureza constitui o foco deste trabalho. Enfim, apresentaremos o plano desta dissertação, em que todos os problemas apontados nesta introdução serão desenvolvidos.
coisas devem acontecer, outras coisas não podem acontecer. Se a lei da gravitação universal vale, então os corpos têm que se comportar de acordo com ela – não pode acontecer que dois corpos se atraiam, por exemplo, na razão inversa do cubo das distâncias. A lei proíbe esta situação. Segundo
esta visão, leis são concebidas como “preceitos ou decretos para o universo natural, decretos que – diferentemente de leis morais ou legislativas – ninguém, e nada, tem a capacidade de violar” (SWARTZ, 2009). Se pensamos sobre leis desta forma, então a pergunta por sua natureza fica ainda mais intrincada: ao explicar o que uma lei é, temos que explicar o que em sua ontologia lhe dá essa capacidade prescritiva sobre o mundo.
Uma forma de resolver esse problema é simplesmente dissolvê-lo, contestando que as leis funcionem como reguladores do mundo. Segundo os autores que o fazem, enunciar uma lei é simplesmente enunciar um comportamento regular no mundo, e não fazer referência a alguma entidade que imponha esta regularidade. Estes autores são comumente agrupados sob a designação de “humeanos” ou “neohumeanos”, o que se deve ao fato desta posição remeter à concepção humeana de causalidade. Assim como Hume que, ao investigar a causalidade, percebeu que o que se observava era apenas a conjunção constante entre efeitos e causas, de forma que tudo que era empiricamente conhecido era uma regularidade no comportamento da natureza, estes filósofos defendem que as leis se reduzem às regularidades do mundo, e não as causam ou explicam – daí o nome pelo qual esta posição é mais conhecida, “teoria regularista”. Trata-se de uma tentativa de simplificação: “Leis da natureza caracteristicamente se manifestam ou resultam em regularidades. É natural, portanto, no espírito Ockhamista, considerar se leis são algo mais que essas manifestações” (ARMSTRONG, 1983, p. 11). Para os que defendem a posição humeana, a resposta é “não”.
É importante notar que a teoria regularista não é necessariamente um antirrealismo. Um enunciado de lei se refere a algo real e objetivo: uma regularidade no comportamento do mundo. A
regularidade constatada não é uma criação mental ou uma convenção com finalidade instrumental. Veremos que algumas versões da teoria regularista admitirão critérios convencionais para diferenciar leis e acidentes, mas a regularidade permanece um importante componente realista desta teoria2.
Os defensores da teoria regularista defendem, portanto, que enunciados de leis (law-statements) não são nada além da descrição de regularidades no mundo, como os enunciados abaixo:
“Um corpo em queda livre próximo à superfície da Terra sofre uma
aceleração uniforme independente de sua massa.
As órbitas dos planetas são elipses das quais o Sol ocupa um dos focos. O seno do ângulo de incidência de um raio que incide sobre uma superfície plana que delimita um corpo transparente c está em uma relação constante com o seno do ângulo do raio refratado, e esta relação é característica do corpo c” (BARBEROUSSE et al, 2000, p. 81).
Se, para o regularista, leis são regularidades, então entender o que leis são é entender o que constitui uma regularidade. É importante notar que os enunciados acima falam sobre algo que se repete no comportamento dos objetos referidos, como corpos em queda livre, planetas do sistema solar e raios incidindo sobre corpos transparentes. Além disso, eles enunciam algo sobre um conjunto inteiro de objetos, ou seja, expressam algo geral, e não particular – ainda que eles não sejam explicitamente afirmações universais, pela falta do quantificador “todo”, eles expressam universalidade e podem ser transformados em afirmações desse tipo sem prejuízo de seu significado. Um fato particular não é considerado uma lei; se digo que a parede que está à minha frente é branca, isso não é uma lei, não expressa nenhuma regularidade, porque diz respeito a um objeto particular em um momento preciso. Eis então o primeiro critério para que um enunciado exprima uma lei da natureza: ele deve ser uma generalização e ser verdadeiro. Esses critérios são amplamente aceitos pelos filósofos como sendo critérios necessários para a enunciação de uma lei,
ainda que muitos discordem sobre se eles são também suficientes. Mas mesmo a primeira afirmação tem dificuldades.
Mas isso não significa que nossa discussão não tem como progredir. Os problemas que nos interessam dizem respeito à natureza geral das leis e não ao seu conteúdo específico. São problemas perfeitamente compreensíveis através de formulações gerais, que usaremos amplamente, como “É
uma lei que todo F é G”. Exemplos serão usados para fazer clarificações e, em geral, seu valor científico será irrelevante. Por isso, os exemplos que usaremos para pensar sobre leis da natureza são também apenas ilustrações – especialmente porque estes são versões bastante simplificadas e muitas vezes desatualizadas de enunciados considerados nômicos pela ciência, que possivelmente são eles mesmos apenas aproximativos, senão totalmente falsos. Note-se também que muitas vezes chamamos de lei algum enunciado que a ciência não reconhece mais como verdadeiro, como a própria lei da gravidade de Newton. Isso se explica, por um lado, pelo costume histórico de manter a designação de “lei” para alguns enunciados que foram um dia considerados como tais, e, por outro, pelo fato de tal enunciado ser perfeitamente suficiente para levantar os problemas que nos interessam.
O outro critério, o de generalidade, também precisa ser explicado. Enquanto nos parece claro que afirmações singulares não enunciam leis, não se pode excluir a possibilidade de que leis façam referência a objetos particulares. Observe-se, por exemplo, os dois primeiros exemplos na nossa lista de enunciados nomológicos acima. Ambos fazem referência a particulares – o primeiro, à Terra, e o segundo, ao Sol – e isso não os impede de serem leis. Veremos futuramente, no entanto, que esses casos merecem atenção, especialmente no que diz respeito à distinção entre leis autênticas e regularidades meramente acidentais (cf. 1.1.2.1.3). Além disso, a exigência de que leis sejam gerais não exclui leis probabilísticas, que constituem grande parte do conjunto de leis reconhecidas atualmente pela ciência e que apresentam um dos maiores desafios para qualquer teoria de leis, como veremos a seguir.
Regularistas e não-regularistas, feitas as considerações acima, concordam com a necessidade dos critérios de verdade e generalidade para que um enunciado seja considerado nomológico. O que os separa é, em linhas gerais, a discordância sobre a suficiência desses dois critérios para caracterizar uma lei. Enquanto regularistas consideram que leis nada mais são que regularidades e que, portanto, qualquer descrição dessas regularidades (geral e verdadeira) pode ser considerada um enunciado de lei, críticos dessa teoria defendem que esses critérios não são suficientes porque não permitem diferenciar leis e regularidades acidentais. Considere o exemplo:
(i) Toda esfera de ouro tem menos de uma milha de diâmetro3.
Trata-se de uma generalização verdadeira – diz algo que é verdade sobre todo um conjunto de
objetos, o das esferas de ouro. Se aceitamos, com os regularistas, que esses dois critérios são suficientes, então temos que admitir que (i) é um enunciado de lei. Mas ele não tem exatamente as características que esperamos de uma lei. Ele é verdadeiro acidentalmente: parece que nada impede
que a humanidade construísse tal esfera, se houvesse algum interesse nela – isso nunca aconteceu até hoje por razões totalmente circunstanciais, que poderiam não existir.
O regularista enfrenta um problema ainda maior quando se percebe que, ainda que (i) seja rejeitado como um law-statement por ser meramente acidental, proposições idênticas a (i) do ponto de vista formal exprimem leis naturais de fato e não apenas coincidências. Considere:
(ii) Toda esfera de urânio tem menos de uma milha de diâmetro.
É notável a semelhança formal entre as duas proposições. Assim como a primeira, esta também é uma generalização verdadeira; mas, ao contrário do que acontecia anteriormente, esse fato não é apenas circunstancial. A tentativa de construir uma esfera de mais de uma milha de diâmetro feita de urânio enfrentaria uma dificuldade insuperável: a massa crítica de urânio seria alcançada muito antes da esfera chegar a esse tamanho. O projeto não é apenas não-realizado, ele é irrealizável. A limitação no tamanho das esferas de urânio, ao contrário das de ouro, é uma lei da natureza.
A semelhança formal entre as proposições (i) e (ii), por um lado, e a diferença profunda entre elas com respeito a seu caráter nômico, por outro, nos fazem pensar no que explica essa distinção. Em outras palavras, precisamos entender melhor o que se espera que uma lei faça para entender o que ela é e diferenciá-la de regularidades acidentais.
A principal diferença entre nossos dois exemplos está na possibilidade de contrariá-los. Se alguém – Bill Gates, por exemplo4 – tivesse interesse em criar tal esfera, se esforçasse por obter uma quantidade de ouro suficiente e enfim tivesse sucesso em construí-la, então haveria uma esfera cujo diâmetro é maior do que uma milha, e nosso exemplo seria falso. Ao contrário, se por algum
motivo alguém se dedicasse a construir uma esfera de urânio maior do que o estabelecido, se depararia com o problema da desintegração do urânio a partir do momento em que sua massa crítica fosse alcançada. A relação expressa em (i), entre esferas de ouro e seu diâmetro, é puramente acidental e poderia ser de outra forma. O expresso no exemplo (ii) não. Assim, a verdade de (ii) é uma base suficiente para afirmar que se Bill Gates construísse uma esfera de urânio, então ela teria menos de uma milha de diâmetro. O mesmo não pode ser dito a respeito da esfera de ouro. Isso significa dizer, em termos técnicos, que leis apoiam contrafactuais – “enunciados que descrevem aquilo que se passaria em uma situação não-atual” (GOODMAN, 1955, APUD BARBEROUSSE et al, 2000, p. 88). Como (ii) exprime uma lei, podemos utilizá-la para apoiar nossa descrição do curso dos acontecimentos em uma situação hipotética (“leis governam não apenas aquilo que de fato
acontece, mas também aquilo que teria acontecido em várias circunstâncias que não aconteceram de fato” – LANGE, 2008, p. 205), enquanto (i), uma regularidade acidental, não pode ter o mesmo papel.
Uma outra diferença entre (i) e (ii) diz respeito à diferente relação que eles têm com processos indutivos. A verdade de (i) só pode ser estabelecida a partir do exame de todas as possibilidades, pela exploração de todas as regiões da Terra e da constatação de que nenhuma esfera de ouro alcançou tal tamanho – é preciso verificar todos os casos particulares para que enfim se estabeleça a verdade da proposição universal. Por outro lado, se se admite que a verdade de (ii) está explicada pelo fato da massa crítica de urânio ser alcançada antes que a esfera chegue ao tamanho proposto, então cada instância particular que for observada oferecerá uma confirmação para a proposição universal de uma maneira que não é possível no primeiro caso: “nossa confiança em sua verdade [de (ii)] aumenta mais rápido que a relação entre o número de casos positivos examinados e a extensão total de seu domínio de validade” (BARBEROUSSE et al, 2000, p. 86). Quando observamos casos particulares de regularidades, não podemos fazer afirmações sobre o universo dos casos até que todos sejam examinados. Ao contrário, quando estamos diante de uma lei, podemos fazer uma indução: um raciocínio que se utiliza da observação de particulares para justificar uma afirmação universal. Assim, podemos dizer que enunciados de lei têm como característica ser confirmáveis por indução, enquanto que uma instância positiva de uma regularidade acidental não tem poder de confirmá-la.
Assim como outros problemas relacionados às leis da natureza, tanto a indução quanto condicionais contrafactuais são objetos de reflexão muito férteis, e também problemáticos, para os filósofos. Qualquer teoria que tentar caracterizar uma lei terá a difícil tarefa de explicar a diferença observada nos dois casos. As dificuldades em justificar condicionais contrafactuais e processos
indutivos estarão no centro das críticas dirigidas à teoria regularista das leis. A teoria regularista ingênua encontra-se em grande desvantagem por identificar leis e regularidades, pois isso a torna incapaz de negar às regularidades, ainda que acidentais, todas as características que se concede às leis no que diz respeito a apoio a contrafactuais e confirmação indutiva. O caminho que o regularista pode tomar é separar regularidades “boas” – aquelas que constituem leis – das “ruins”5 – aquelas que são apenas acidentais, desfazendo a identificação inicial, e admitindo que as leis são apenas um subconjunto das regularidades. É dessa tentativa que nasce a teoria regularista sofisticada, que pode, para isso, adotar critérios mais objetivos ou mais consensuais, mas que rejeita que a diferença entre leis e regularidades seja ontológica.
Uma vez que identificamos o apoio a contrafactuais e a confirmação por indução como
características das leis que não são cumpridas por toda e qualquer regularidade, poder-se-ia propor que leis são precisamente as regularidades que têm essas características. Assim, apoio a contrafactuais e confirmação por indução passariam a ser os critérios necessários e suficientes para
definir um subconjunto de regularidades que são consideradas leis. Tal proposta enfrenta problemas, tanto no que diz respeito à indução quanto com respeito aos contrafactuais.
Dar à indução um papel central na definição de leis é uma estratégia que remete a Nelson Goodman, o filósofo que contribuiu de maneira decisiva com as reflexões sobre a indução no século XX. Goodman mostrou que processos indutivos – ainda que deixemos de lado problemas clássicos sobre sua justificação – não funcionam com qualquer conceito. O exemplo de Goodman é o conceito de “grue”, ou, em português, “verdul”6. Este é um conceito criado por Goodman, que pode ser definido como se segue:
x é verdul se e somente se existe um instante t e x é verde e observado pela primeira vez antes do instante t ou x é azul e observado pela primeira vez depois do instante t.
Consideremos as esmeraldas. Se observarmos um grande número delas, observaremos que a esmeralda 1 é verde, a esmeralda 2 é verde, e assim por diante. Essa evidência nos oferece confirmação para a hipótese de que todas as esmeraldas – inclusive aquelas não observadas – são verdes. No entanto, as mesmas observações nos mostram que as esmeraldas 1, 2, etc, além de verdes são também verduis. Dessa forma, as mesmas observações oferecem indícios de confirmação
para a hipótese de que todas são verduis. No entanto, considere a esmeralda 523.412.265, que só será observada depois do instante t. A indução a respeito do verde prevê que essa esmeralda é verde, mas as mesmas evidências apoiam a previsão de que ela é azul.
Da mesma forma que a indução não confirma regularidades acidentais, ela também não funciona com qualquer conceito – conceitos como “grue”, que Goodman qualifica como não-projetáveis, podem levar a situações problemáticas, como a vista acima, em que a mesma indução apoiava duas induções totalmente diferentes. Assim, Goodman exige que para que uma regularidade constitua uma lei, ela deve ser confirmável por indução, e, portanto, ter apenas conceitos projetáveis: “Só uma afirmação legiforme [lawlike] – não importando a sua verdade ou falsidade ou a sua relevância científica – pode ser confirmada por uma instância; afirmações acidentais não podem sê-lo” (GOODMAN, 1991, p. 73).Mais do que isso, Goodman sugere que ser confirmável por indução é uma condição não apenas necessária mas também suficiente para qualificar uma lei. Poderia ser esta a característica definidora das leis, que a separam das regularidades acidentais?
Essa solução, no entanto, encontra diversos problemas. Em primeiro lugar, a resposta de
Goodman não leva em conta que fatores como as crenças prévias do observador podem ter um papel importante na expectativa dele em relação a regularidades. Por exemplo, o fato de meu amigo Antonio ter um bolso cheio de moedas e, retirando uma delas, me mostrar que é uma moeda de
cinco centavos não me levaria a crer que todas as moedas que estão em seu bolso são do mesmo tipo. Trata-se de uma observação particular que não serve de instância confirmadora para uma indução sobre todas as moedas no bolso de Antonio. No entanto, suponha que eu e Antonio sejamos muito amigos e que eu conheça várias de suas manias – entre elas, a de nunca colocar moedas de valores diferentes no mesmo bolso. Nesse caso, constatar que uma de suas moedas é de cinco centavos me levaria a crer que todas as moedas daquele bolso também são, ainda que tal conclusão fosse totalmente injustificada se não houvesse este conhecimento prévio. Claramente, o exemplo não é científico, mas ilustra como as expectativas do observador modificam o que pode ou não ser considerado uma instância confirmadora de uma indução.
Um segundo problema que é apontado com respeito a esta tentativa é que, ainda que seja verdade que leis e regularidades acidentais se comportem de maneira diferente com respeito à indução, utilizar essa diferença como critério definidor das leis não nos oferece nenhuma maneira de saber como uma dada regularidade se relaciona com a indução e, consequentemente, se ela é ou não uma lei. A definição não oferece nenhum critério de decisão sobre a nomicidade de uma regularidade. Este é um problema que outras tentativas de definição também enfrentam, mas o caso da definição pela relação com a indução é ainda mais grave: ela constata uma diferença real entre leis e regularidades, mas não a explica. Trata-se simplesmente de uma descrição de como leis e regularidades operam, mas não de uma maneira de explicar por que essa diferença existe. Ao recusar uma diferença de natureza entre leis e regularidades acidentais, a resposta de Goodman tem como consequência que os diferentes comportamentos observados não têm razão de ser e parecem
simplesmente aleatórios.
trata de uma lei. O problema, no entanto, é similar ao encontrado no caso da indução. Novamente, estamos identificando uma diferença que permanece inexplicável. Nada é oferecido para justificar por que em alguns casos o apoio a contrafactuais se dá e em outros não – e menos ainda para indicar
se o apoio a contrafactuais existe ou não numa dada regularidade. Mais fundamentalmente, o que se nota é uma insuficiência de base da resposta. O conceito de contrafactual é um conceito muito próximo do conceito de lei, e muitas vezes aquele é definido a partir deste. A tentativa de definir leis a partir de contrafactuais corre o risco de ser circular, e, além disso, parece não dizer muito: “leis e contrafactuais são similares demais para que uma explicação de nomicidade em termos de contrafactuais seja muito informativa” (CARROLL e MARKOSIAN, 2010, p. 92).
Uma vez que aceita a rejeição das tentativas acima com base no fato de que nem o uso da indução nem dos contrafactuais para definir leis nos permite explicar seu comportamento diferente em relação às regularidades acidentais, é natural considerar o que teria a capacidade de fornecer esta explicação – em outras palavras, procuramos uma diferença mais fundamental da qual as diferenças apontadas acima seriam apenas sintomas. Tal explicação é fornecida pelo conceito de necessidade: “Aquilo que segundo alguns está na origem dessas diferenças 'superficiais' é a existência nas leis de uma conexão íntima entre a condição designada pelo antecedente e aquela designada pelo consequente” (BARBEROUSSE, 2000, p. 87). Se dissermos que a característica especial das leis é a necessidade, estamos dizendo que uma lei enuncia uma relação que não pode não acontecer. Por exemplo, no caso da afirmação de que toda esfera de urânio tem diâmetro inferior a uma milha, a lei diz que se algo é uma esfera de urânio (antecedente), então necessariamente ela tem menos de uma milha de diâmetro (consequente). Dizer que isso se dá necessariamente quer dizer que é impossível que algo cumpra a primeira condição sem cumprir também a segunda. Isso não pode ser dito da regularidade acidental – é perfeitamente possível que algo seja uma esfera de ouro e seja de
tamanho maior que o estipulado. Podemos dizer que, contrariamente à neecssidade da lei, a regularidade acidental exprime apenas uma contingência – ela pode igualmente existir ou não, e uma regularidade observada pode ou não se manter em casos futuros. Parece, então, que o conceito de necessidade é promissor para qualificar a diferença entre lei e regularidade. É justamente esse conceito que explica a ideia expressa no início desta introdução de que leis regulam o mundo, estabelecendo o que deve ser e o que não pode ser, e também a ideia mencionada acima de que uma lei pode ser contrariada, enquanto uma regularidade acidental não.
casos futuros ou não observados: se a instância observada de uma lei se comporta assim7, e se leis exprimem uma regularidade não apenas contingente, mas necessária, então podemos saber que todos os casos em que a condição do antecedente for cumprida, a do consequente também será.
Podemos, portanto, fazer inferências justificadas sobre os casos ainda não-observados, o que não seria possível se estivéssemos diante de uma regularidade acidental. Sobre os contrafactuais, a solução é semelhante. Uma lei é capaz de apoiar contrafactuais porque exprime uma necessidade que vale inclusive para situações não-atuais: uma vez que existe uma lei que relaciona necessariamente esferas de urânio e um determinado volume, então qualquer esfera de urânio, atual ou não, está submetida a essa relação. Podemos dizer, portanto, que essa lei permite afirmar que a esfera de urânio que Bill Gates poderia ter construído, mas não construiu, nunca ultrapassaria uma milha de diâmetro. O contrafactual sobre a esfera de urânio não-atual se apoia satisfatoriamente na lei.
Mas não é suficiente dizer que o que caracteriza uma lei é a necessidade da relação enunciada. O próprio conceito de necessidade precisa ser pensado – porque pode ser usado em vários sentidos, mas também porque seria interessante entender o que explica o fato de uma lei impor necessidade sobre o mundo. Uma teoria que seja centrada neste conceito deve dizer mais sobre o que é necessidade e em que ela está baseada.
Quando dizemos que leis da natureza expressam relações necessárias, não podemos estar nos referindo a uma necessidade de tipo lógico. A negação de uma necessidade lógica é uma contradição, e claramente não há contradição alguma em dizer que esferas de urânio podem ter diâmetros maiores que uma milha. Ao contrário, a lei que rejeita essa possibilidade nos informa que, apesar de o mundo poder se comportar assim, não é esse o caso. Leis são informativas justamente porque não apenas afirmam verdades que poderiam ser logicamente deduzidas, mas porque
reduzem todas as possibilidades àquelas que de fato se dão, e, para isso, não é suficiente um sistema formal: dependemos dos dados que a experiência nos traz. Em outras palavras, leis não podem ser derivadas a priori, independentemente da experiência, mas, ao contrário, os dados desta são essenciais para que leis sejam estabelecidas – são, portanto, a posteriori, e sua necessidade não é lógica.
Poderíamos dizer que a necessidade que as leis estabelecem não é lógica, mas metafísica. Essa forma de modalidade está fundada na teoria de mundos possíveis, que ficou conhecida pelo desenvolvimento dado a ela pelo filósofo David Lewis. Resumidamente, a teoria de mundos possíveis parte da totalidade do mundo – todas as coisas que existem, todas as ações executadas,
todas as propriedades instanciadas, todos os eventos passados – e reconhece que ela contém uma infinidade de coisas que poderiam ser diferentes. Por exemplo, eu poderia não me chamar Mariana, mas Tamires (sorte a minha que meus pais decidiram manter a ideia original). Ou a Argentina
poderia ter vencido a Copa do Mundo de 2014, ao invés da Alemanha (afinal, o gol da vitória aconteceu só no segundo tempo da prorrogação). Ou as folhas das árvores poderiam ser marrons (e no outono do hemisfério norte, as folhas ficariam verdes e cairiam). A teoria dos mundos possíveis diz que todas essas coisas que não são verdade em nosso mundo, mas poderiam ser, acontecem em infinitos mundos possíveis. Existe um mundo em que tudo é exatamente igual a este, mas a Argentina venceu a Copa. Existe outro em que o nome sob o título desta dissertação é Tamires Battistini Dalmolin. E outro ainda em que uma foto aérea de uma floresta mostraria algo semelhante a um grande formigueiro mal construído. Esta teoria nos oferece uma maneira nova para entender termos modais, como contingência e necessidade: aquilo que é verdade em apenas alguns mundos possíveis (como os três fatos exemplificados) é contingente; aquilo que é verdade em todos os mundos possíveis é (metafisicamente) necessário.8
De que maneira isso pode nos ajudar a entender a necessidade presente nas leis da natureza? Ora, alguns filósofos defendem que leis são necessárias precisamente neste sentido – o que elas expressam é verdade em qualquer mundo possível. Se é uma lei que toda esfera de urânio tem diâmetro inferior a uma milha, então essa proposição é verdadeira em qualquer mundo possível. Ao contrário, a mesma afirmação feita com respeito ao ouro pode ser universalmente verdadeira em nosso mundo atual, mas será falsa em outros mundos possíveis – por exemplo, em um mundo bastante parecido com o nosso, no qual, no entanto, Bill Gates decidiu que queria construir uma esfera de ouro de mais de uma milha de diâmetro. As leis da natureza são as mesmas em qualquer mundo. A tese de que leis são metafisicamente necessárias está normalmente baseada em uma certa
concepção da natureza das propriedades. Estes filósofos acreditam que é parte da essência do urânio o fato de se desintegrar quando alcança determinada massa, e, portanto, de não ultrapassar uma milha de diâmetro – se o urânio tivesse uma massa crítica diferente da que tem atualmente, não seria urânio, e, portanto, o urânio se comporta em todos os mundos possíveis exatamente como se comporta no mundo atual simplesmente pelo fato de ser urânio.
Outros filósofos, no entanto, não concordam com a tese de que leis são metafisicamente necessárias, e defendem que as leis da natureza são diferentes em outros mundos possíveis. Entre as
motivações dos defensores desta tese, estão tanto os argumentos de que leis são descobertas a posteriori e, portanto, devem ser contingentes, como críticas aos argumentos dos que defendem a necessidade das leis, concluindo que estes são insuficientes.
Esta ampla discussão será detalhada ao longo do trabalho (cf. 3.2). Interessa notar, no entanto, que ainda que um filósofo defenda a contingência de uma lei, isso não implica negar o fato de que, uma vez que a lei existe, ela imprime necessidade no mundo, gerando uma regularidade não-acidental. Defender que leis são contingentes e que, no entanto, exprimem uma relação necessária é perfeitamente possível. É isso, de fato, que afirma David Armstrong, o filósofo cuja teoria sobre leis será explorada neste trabalho. Armstrong, e qualquer um que simultaneamente recuse a teoria regularista, exigindo alguma forma de necessidade nas leis, e defenda que leis são contingentes, terá o trabalho de explicar em que consiste a necessidade das leis, se ela não é lógica nem metafísica. Trata-se de uma necessidade específica das leis naturais, que frequentemente recebe o nome de necessidade nômica, e é considerada mais fraca que os outros tipos de necessidade.
A teoria que nos interessa primordialmente neste trabalho é a teoria das leis da natureza desenvolvida por David Armstrong. Nossa principal fonte é o texto de 1983, entitulado What is a Law of Nature?. Como aludimos acima, Armstrong é um crítico da teoria regularista e reconhece que uma explicação satisfatória das leis que as diferencie adequadamente de regularidades acidentais precisa envolver o conceito de necessidade. Mas Armstrong rejeita que essa necessidade seja de tipo metafísico – para ele, leis são contingentes e poderiam ser totalmente diferentes. Mas, uma vez que uma lei existe, então necessariamente o comportamento do mundo se conforma a ela. Como isso acontece?
Para Armstrong, a necessidade das leis será fundada numa concepção realista de propriedades e relações. Sua teoria pressupõe uma certa resposta ao problema dos universais, que
está justamente na relação de instanciação entre as leis e as regularidades que elas geral no mundo.9 Armstrong não pretende esgotar completamente o conceito de necessidade. Na verdade, ele afirma que a necessidade será considerada um termo primitivo da teoria, e que, por mais central
que seja, não é analisável. Mas isso não significa que nada pode ser dito a seu respeito. A teoria de universais nos fornece uma chave de compreensão importante para este problema, e sua exposição constitui um momento fundamental para a construção da teoria de leis de Armstrong.
Neste momento incipiente de nossa discussão, já se pode notar que a teoria a ser defendida está cheia de pressupostos. Por um lado, assumimos desde o início um realismo a respeito das leis, seguido por uma rejeição da teoria regularista e da busca por uma característica definidora das leis, que é encontrada no conceito de necessidade. Mas esse conceito, por si só, traz dificuldades, e, rejeitada a concepção das leis como metafisicamete necessárias, é preciso desenvolver uma nova concepção de necessidade, que está baseada em um realismo sobre universais, que por sua vez remonta a uma discussão milenar na história da filosofia. Uma pergunta naturalmente se coloca: é preciso tudo isso? A quantidade de pressupostos e a necessidade de defender um arcabouço metafísico tão pesado quanto este já não é uma desvantagem à teoria de Armstrong em relação a uma teoria mais simples?
De fato, poderíamos dizer que a teoria de Armstrong é ontologicamente pesada, e a objeção acima é relevante. O que a objeção tem em mente é um tipo de princípio de economia, derivado da antiga navalha de Ockham, que diz que uma teoria que admita menos entidades (ou menos tipos de entidades) deve ser preferida a uma teoria com mais pressupostos desde que ambas expliquem adequadamente os mesmos fenômenos. Ora, é justamente a condição final que Armstrong questiona. Se a teoria regularista fosse tão bem sucedida em explicar as leis quanto sua teoria, a primeira estaria em vantagem, por ser mais simples, mais econômica. Mas ela não é bem
sucedida. O primeiro passo para a construção de uma teoria de leis baseada em universais será, portanto, uma crítica da teoria regularista, que será considerada insuficiente e, portanto, uma falsa economia. Assim, a admissão de novas entidades que extrapolam as regularidades observadas no mundo será justificada: sem elas, não é possível uma teoria satisfatória a respeito das leis.
Nosso trabalho se inicia, portanto, pela crítica à teoria regularista empreendida por Armstrong. Apresentaremos a versão ingênua da teoria regularista, baseada em um artigo de A. J.
Ayer, as reformulações e críticas clássicas da teoria feitas por William Kneale e George Molnar e alguns pontos da crítica de Armstrong apresentada em seu texto de 1983. Em seguida, veremos três tentativas de sofisticar a teoria, e veremos por que Armstrong, apesar de reconhecer os méritos das
sofisticações, não aceita que nenhuma dessas reformulações é suficiente para solucionar os problemas de base da teoria regularista.
No segundo capítulo, construiremos a teoria de David Armstrong sobre as leis da natureza, que constitui o foco de nosso trabalho. Para isso, será necessário iniciar com o problema dos universais, seguido de uma exposição do realismo que Armstrong defende e que constitui a base de sua teoria de leis. Em seguida, apresentaremos mais detalhadamente a tese segundo a qual uma lei da natureza é uma relação entre universais, brevemente mencionada nesta introdução, e veremos como Armstrong avalia sua teoria em relação aos pontos de crítica levantados contra a teoria regularista.
Ao final do trabalho, analisaremos de forma mais profunda de que forma a ideia de necessidade está presente na teoria de Armstrong sobre leis naturais. Diferenciaremos vários sentidos de necessidade, e veremos que, ao mesmo tempo que Armstrong afirma que existe uma necessidade nômica nas leis, de modo que elas conformam o comportamento do mundo, não existe necessidade metafísica, o que significa dizer que leis poderiam ser absolutamente diferentes do que são. Este segundo ponto é um dos principais debates entre os teóricos que defendem que a ideia de necessidade é central na caracterização das leis da natureza.
CAPÍTULO 1: A CRÍTICA À TEORIA REGULARISTA
Nosso objetivo neste trabalho é estudar a teoria de David M. Armstrong sobre leis da
natureza, que constitui uma das respostas possíveis – e mais difundidas – à pergunta sobre o que as leis são, de modo a diferenciá-las de generalidades acidentais. A obra central em que essa teoria é desenvolvida é What is a Law of Nature?, de 1983, e é este o texto base de nosso estudo. Além dela, serão importantes as obras em que Armstrong trata de sua teoria sobre universais, que será um pressuposto à sua teoria sobre leis, e que veremos no segundo capítulo: Universals and Scientific Realism (1978) e Universals – An Opinionated Introduction (1989) (que, apesar de posterior à publicação de 1983, constitui um bom resumo da teoria).
What is a Law of Nature? é dividida em duas partes: “Uma crítica da teoria regularista” e “Leis da natureza como relações entre universais”. Essa divisão, longe de ser gratuita, é expressão direta da estratégia de Armstrong para construir sua teoria: é preciso, em primeiro lugar, criticar a teoria regularista. Não apenas porque “ela ainda é ortodoxia entre filósofos analíticos” e porque “ainda há muitos que gostariam que ela fosse verdadeira” (ARMSTRONG, 1983, p. 9), como o autor aponta na Introdução da obra, mas precisamente pelo que foi dito ao final de nossa Introdução. A teoria regularista tem, de saída, uma vantagem em relação à teoria de Armstrong: ela é econômica. Comparada à teoria que será defendida, a teoria regularista faz uso de muito menos pressupostos e requer muito menos tipos de entidades – poderíamos dizer que ela é ontologicamente mais leve. A resposta de Armstrong será que se trata de uma falsa economia, já que essa teoria exige menos, mas também oferece menos. Será preciso, então, mostrar que a teoria regularista não é capaz de responder a vários problemas relacionados a leis, de modo que somos levados a aceitar uma teoria menos econômica, mas mais satisfatória. Os pontos em que a teoria regularista falha
serão justamente aqueles aos quais o autor dará especial atenção na segunda parte da obra, mostrando que a aceitação de uma pesada ontologia tem como contrapartida a solução daquilo que a teoria regularista era incapaz de explicar.
base do regularismo ingênuo é criticada já por Kneale, e Molnar retoma a crítica, mas dá um passo além: ele mostra que tentativas de sofisticação da teoria ingênua, empreendidas por filósofos conscientes das críticas que a teoria recebia, não são suficientes para livrá-la de seus problemas
fundamentais.
Armstrong adota, na obra de 1983, a mesma estratégia: define a teoria regularista ingênua de maneira unificada; apresenta diversas críticas a seu núcleo fundamental, que incluem as de Kneale e de outros críticos regularistas, bem como vários pontos originais; apresenta algumas estratégias bem conhecidas de sofisticação da teoria; e mostra, enfim, que nenhuma versão sofisticada da teoria regularista resolve seus problemas de base mantendo-se fiel ao espírito regularista. Este capítulo também seguirá este caminho: começamos (1.1) pela teoria regularista ingênua, (1.1.1) apresentando os artigos de Kneale e Molnar, para em seguida (1.1.2) considerar as principais críticas de Armstrong a ela. Veremos a seguir (1.2) maneiras possíveis para sofisticar essa teoria, em especial (1.2.1) a sofisticação empreendida por A. J. Ayer, (1.2.2) aquela feita por Brian Skyrms e, por último, (1.2.3) a sofisticação mais popular e bem-sucedida de todas, de David Lewis. Em cada seção, veremos também por que Armstrong rejeita que essas sofisticações sejam versões satisfatórias da teoria regularista o que o leva, enfim, a considerá-la fundamentalmente insuficiente para explicar o que são leis da natureza, e ir em busca de uma teoria alternativa.
1.1 A TEORIA REGULARISTA INGÊNUA
Chamamos de teoria regularista ingênua a teoria que defende uma identificação total entre leis da natureza e regularidades. Para um regularista, enunciar uma lei é equivalente a dizer que existe uma regularidade no comportamento do mundo. O regularista recusa que leis sejam entidades
capazes de impor regras ao comportamento do mundo; ao contrário, elas são simplesmente as regularidades deste comportamento. Dessa forma, a toda regularidade corresponde uma lei, e a toda lei corresponde uma regularidade. Não é compatível com essa teoria a admissão de uma assimetria entre leis e regularidades, como uma lei que não se manifestasse em uma regularidade ou uma regularidade que não exprimisse uma lei, dado que regularidades e leis são a mesma coisa.
posteriormente consideradas a base do regularismo ingênuo.
1.1.1 As críticas de Kneale e Molnar
1.1.1.1 “Natural Laws and Contrary-to-fact Conditionals”
Em 1950, William Kneale publica na revista Analysis o artigo “Natural laws and contrary-to-fact conditionals”, que inaugura a linha de críticas à teoria regularista à qual Armstrong se filiará em 1983. O artigo, publicado em junho, se insere numa discussão que envolve problemas fortemente relacionados ao nosso tema, como condicionais contrafactuais e o problema da confirmação. Trata-se da discussão sobre se a possibilidade de derivar contrafactuais de leis signifique que elas são mais que implicações materiais universais (proposições do tipo: para todo x, se x é F, então x é G) – ou seja, se leis são mais que regularidades. Trata-se justamente do problema apontado em nossa Introdução: os diferentes comportamentos de leis e regularidades em relação aos contrafactuais, de modo que leis seriam capazes de justificá-los enquanto regularidades seriam insuficientes para isso. O principal interlocutor de Kneale nessa discussão é Karl Popper.
Para além dos pontos mais técnicos da discussão, nos interessa principalmente o momento em que Kneale apresenta contra Popper, pela primeira vez, um dos argumentos clássicos contra a teoria regularista. Kneale faz referência a uma nota de Popper, publicada na revista Mind em 1949, em que este critica a posição segundo a qual a possibilidade de derivar condicionais contrafactuais de enunciados de leis mas não de meros enunciados universais significa que leis são “logicamente mais fortes que meros enunciados universais, e sua força lógica superior deveria de alguma forma ser expressa em sua formulação linguística” (POPPER, 1949). Popper rejeita essa posição,
sugerindo que ela se baseia em um uso equívoco dos termos envolvidos. Para ele, enunciados universais se comportam da seguinte forma: do enunciado “todo A é B” é possível deduzir “se x é A, então x é B”, e igualmente “se x fosse A, então x seria B”. O que o enunciado não permite deduzir é que se adicionássemos x à classe dos As, então x seria B – “se x fosse A então x seria B” só é dedutível se com isso queremos dizer “se x fosse idêntico a um dos elementos que pertencem a A, então x seria B”. Quando dizemos que “todos os meus amigos falam francês”, isso claramente não permite inferir que “se Confúcio fosse meu amigo, ele falaria francês” – mas isso, segundo Popper, se explica pelo fato de, no primeiro caso, pensarmos os amigos como uma classe fechada, à qual pertence um número limitado de indivíduos determinados, enquanto no segundo caso, ela é uma classe aberta, que pode ser estendida para englobar um novo membro.
poderem ser adequadamente expressas por enunciados universais enquanto as primeiras não, mas sim na diferente interpretação dos termos que figuram no enunciado em questão. Implicações materiais exprimem situações acidentais se a extensão dos termos envolvidos é restrita a certos
indivíduos, de forma que um contrafactual a respeito de um novo membro da classe não pode ser deduzido sem que se mude o significado dos termos envolvidos. Leis naturais, por sua vez, devem ser pensadas como implicações materiais sem restrições: uma descrição universal, de uma regularidade no comportamento do mundo que vale para o passado, para o presente e para o futuro, de forma que uma implicação material, assim concebida, seria plenamente capaz de sustentar um condicional contrafactual, uma vez que seus termos têm extensão irrestrita.
Um crítico dessa posição diria que qualquer implicação material fala apenas do que é atual, e, assim, não é incompatível com a sugestão de uma possibilidade não-atual diferente (caso em que o apoio a contrafactuais . Uma implicação material do tipo “para todo x, se x é um corvo, então x é preto” seria equivalente a uma afirmação do tipo “nunca houve um corvo que não fosse preto e nunca haverá um corvo que não seja preto”. A primeira parte, que trata do futuro, seria irrelevante para alguém considerando possibilidades não-realizadas; a segunda, sobre o passado, seria igualmente desconsiderável, já que o fato de nunca ter havido um corvo preto não permite descartar a possibilidade de que, por exemplo, pudesse haver um grupo de corvos que habitasse uma região nevada e, por motivos evolutivos, seus descendentes passassem a ter penugem branca. O fato de – ao que sabemos – nunca ter existido tal grupo de corvos é um fato acidental, e, portanto, é acidental também o fato de nunca ter havido um corvo que não fosse preto. Assim, a implicação material que diz que todo corvo (atual) é preto não diz nada sobre os corvos (não atuais) que poderiam habitar uma região nevada e ser brancos. Dessa forma, uma implicação material seria incapaz de fornecer qualquer justificação para raciocínios contrafactuais.
impossível falsificá-la porque é impossível sugerir fatos diferentes dos atuais sem sugerir também leis diferentes10.
Kneale chama atenção, neste momento, para uma consequência dessa concepção de leis,
que Popper formula num princípio geral: “Todo tipo de evento que é compatível com as leis naturais aceitas ocorre de fato em alguma região espaço-temporal (finita)” (POPPER, 1949). Isso significa dizer que se algo nunca aconteceu, então é uma lei que isso não acontece. Consideremos esse princípio aplicado a exemplos. Kneale sugere o exemplo de uma melodia criada por um compositor no seu leito de morte, que nunca foi registrada, e que nunca foi ouvida nem por ele próprio nem por outrem. É verdade a implicação material que diz que essa melodia – que pode ser descrita de forma geral como um padrão de sons – nunca foi nem será ouvida por nenhum ser humano. Tal implicação material é, para o regularista, uma lei. Da mesma forma, o exemplo que usamos recorrentemente, sobre a esfera de ouro: para o regularista, o fato de nunca ter havido uma esfera de ouro com mais de uma milha de diâmetro implica que é uma lei que esferas de ouro têm diâmetro menor que uma milha. A mesma afirmação, feita com respeito à esfera de urânio, é também uma lei, e o regularista não encontra nenhuma diferença entre elas. Ora, a ideia de que toda possibilidade física tem que ocorrer de fato em alguma situação é incompatível com nossa concepção comum de leis naturais. Portanto, é implausível também a identificação entre leis e regularidades da qual o princípio de Popper deriva. Este argumento será retomado por Armstrong como uma das principais críticas à teoria regularista.
Além desta primeira crítica, Kneale faz uma segunda, de teor epistemológico. Segundo ele, uma implicação material do tipo “para todo x, se x é F então x é G”, que o regularista considera uma lei, pode ser traduzida por “nunca houve um F não G e nunca haverá um F não G”. A primeira parte dessa afirmação, por sua vez, se divide em duas, de forma que a implicação material pode ser
analisada como uma conjunção de três afirmações: Nunca houve um F não-G observado; Nunca houve um F não-G não-observado; Nunca haverá um F não-G.
Ao considerar cada uma delas individualmente, Kneale constata que apenas (1) pode ser apoiada em evidências empíricas, já que (2) e (3) falam justamente sobre aquilo que não é conhecido empiricamente. Mas são justamente as afirmações (2) e (3) que oferecem dados relevantes para falar sobre aquilo que não conhecemos, como, por exemplo, para fazer previsões. Por sua vez, a evidência oferecida para confirmar (1) não serve de apoio para a conjunção toda,
senão “no sentido em que o fato de estar chovendo oferece alguma confirmação para o enunciado conjuntivo de que está chovendo e a lua é feita de queijo verde” (KNEALE, 1950). Assim, se reconhecemos que leis são confirmáveis por observação, é porque esperamos que leis não sejam
somente implicações materiais. Armstrong faz uso de um argumento parecido em sua obra, quando afirma que a teoria regularista faz com que qualquer previsão apoiada em leis como concebidas pelo regularista seja um mero salto do observado para o não-observado, de modo que a teoria regularista teria como consequência a completa irracionalidade de raciocínios indutivos. Este ponto da crítica de Armstrong será desenvolvido posteriormente.
1.1.1.2 “Universality and Necessity”
A discussão com Popper a respeito das leis naturais é retomada por Kneale em seu artigo de 1961, intitulado “Universality e Necessity”. Nele, Kneale se refere a um texto de Popper de 1949 – o apêndice à Lógica da Descoberta Científica – em que Popper oferece uma nova definição de necessidade física, aquela creditada às leis naturais: “um enunciado pode ser dito naturalmente ou fisicamente necessário se, e somente se, ele é dedutível de uma função sentencial que é satisfeita em todos os mundos que diferem de nosso mundo, se tanto, apenas com respeito a condições iniciais” (POPPER, 1959, p. 433). A nova definição de Popper deixa de identificar leis e regularidades e passa a caracterizar leis (enunciados fisicamente necessários) como enunciados que valem “para todos os mundos que contêm instâncias dos mesmos atributos e relações exemplificados no mundo atual e apenas deles” (KNEALE, 1961); em outras palavras, ela concebe a necessidade das leis como necessidade metafísica11.
A nova definição satisfaz Kneale: “O que é importante na nova definição de Popper, e o
que a torna aceitável para mim é apenas que ela conecta a noção de lei natural com a de validade para estados de coisas diferentes do atual” (KNEALE, 1961). Assim, o fato de Popper recorrer a mundos possíveis em sua nova definição seria suficiente para uma concepção adequada de leis porque envolveria fundamentalmente um aspecto modal em sua caracterização.
Mas, curiosamente, Popper não vê a questão dessa forma. Kneale cita em seu artigo passagens que indicam que Popper não considerava sua definição como uma grande mudança em relação à definição anterior, e, em especial, não a reconhecia como uma caracterização essencialmente modal que o afastasse da concepção regularista. Para ele, a nova definição é uma aplicação à necessidade natural do que fez Tarski com relação à necessidade lógica. Aqui, evitando nos perder em tecnicalidades que fogem ao escopo deste trabalho, nos restringimos a uma breve