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O problema dos universais: Realismo e Nominalismo

No documento Mariana Battistini Dalmolin.pdf (páginas 72-74)

CAPÍTULO 2: UMA NOVA TEORIA SOBRE LEIS

2.1 REALISMO SOBRE UNIVERSAIS COMO PRESSUPOSTO A UMA TEORIA DE LEIS

2.1.1 O problema dos universais: Realismo e Nominalismo

Neste ponto, nos remetemos a um dos problemas mais tradicionais da história da filosofia: o problema dos universais. Este é um dos problemas mais profícuos da história da filosofia, que esteve presente em todos os seus períodos. Na filosofia contemporânea, em particular na filosofia de tradição analítica, teve um desenvolvimento notável no século XX, do qual Armstrong foi um capítulo importante.

David Armstrong é uma figura de grande destaque nos desenvolvimentos mais recentes nesta área, e é reconhecido não só por ter sua própria teoria a respeito dos universais, uma forma de realismo científico, mas principalmente por ter escrito uma obra de referência que analisa com clareza e sistematicamente as diversas posições possíveis, e, dessa forma, constitui uma excelente introdução a essa questão. Em sua obra Universals – An Opinionated Introduction, Armstrong apresenta diversas formas possíveis de respondê-la. Armstrong introduz algumas distinções conceituais e propõe uma formulação do problema em termos de classes: “O que distingue as classes de tokens que demarcam um tipo das classes que não demarcam?”. A seguir, o autor apresenta diversas respostas possíveis, como o Nominalismo de Classes, o Nominalismo de Semelhanças e o Realismo, para depois comentar sobre a introdução da noção de tropo e quais releituras das teorias anteriores podem ser feitas a partir de sua aplicação.

Nesta seção, vamos apresentar como o problema dos universais se constrói e, a seguir, a crítica que Armstrong faz ao nominalismo e sua adoção de um tipo de realismo sobre universais. Por fim, veremos algumas dificuldades da aplicação de universais a uma teoria de leis.

Podemos começar a construir o problema a partir da distinção, feita por Peirce, tendo em vista inicialmente um problema semântico, entre token e tipo. A distinção pode ser compreendida a partir do seguinte caso. Imaginemos um quadro negro em que a letra 'A' está escrita duas vezes. Podemos perguntar: quantas letras há no quadro? Surpreendemo-nos por encontrar duas respostas possíveis: uma e duas. Pois apesar de existirem duas letras diferentes, separadas espacialmente e a que podemos nos referir individualmente, de certa forma as duas letras são a mesma. A distinção vem então resolver essa dificuldade: no quadro acima, existem dois tokens do mesmo tipo. Cada 'A' individual é um token, um caso, uma ocorrência, de um mesmo tipo 'A' que faz as duas letras serem a mesma.

Segundo Armstrong, esse é o problema filosófico chave: a “mesmidade” de tipo. A partir da explicação que demos, podemos perguntar em que sentido as duas palavras são a mesma. Nesse caso, 'mesmo' quer dizer 'idêntico'? A primeira resposta poderia ser a de que sim, de fato, existe algo de idêntico nas duas palavras: as duas compartilham uma e a mesma propriedade – a propriedade de ser um A. De fato, essa é a posição defendida por vários filósofos. Outros têm problemas com essa conclusão, porque lhes parece estranho dizer que duas coisas totalmente separadas têm algo de idêntico.

Para clarificar essa questão, Armstrong introduz uma nova distinção, creditada a Joseph Butler, entre dois sentidos de identidade: identidade em sentido estrito, por um lado, e identidade em sentido vago, por outro. Se considerarmos uma pedra há um ano e essa pedra hoje, em que sentido estamos diante da mesma pedra de um ano atrás? Intuitivamente, diríamos que se trata da mesma pedra – afinal, não mudamos de pedra. Mas existe um argumento filosófico para colocar isso em dúvida, que se baseia no princípio da Indiscernibilidade dos Idênticos: “Identidade estrita é governada por um princípio chamado Indiscernibilidade dos Idênticos. Este diz que se a é idêntico a b, então a e b têm exatamente as mesmas propriedades” (ARMSTRONG, 1989, p. 3). Dessa forma, se duas coisas são estritamente idênticas, todas as suas propriedades devem ser as mesmas.

Ora, se admitimos este princípio então temos que admitir que nossas pedras, a pedra de um ano atrás e a pedra hoje, não são boas candidatas para a identidade estrita. Várias de suas propriedades provavelmente mudaram durante este tempo. Como as propriedades não são as mesmas, as 'duas' pedras não são estritamente idênticas. Quando dizemos que são a mesma, estamos apenas nos referindo a uma identidade vaga.

letras 'A' de 'a mesma' não constitui um bom motivo para defendermos que existe algo estritamente idêntico entre elas. Essa ainda é uma possibilidade, mas uma alternativa se delineia. Talvez, trata-se simplesmente de um caso de identidade vaga, em que podemos explicar o uso de 'mesmo' pelo fato de os dois 'A' pertencerem a um todo, por exemplo, uma classe a que ambos pertençam.

A partir dessas distinções podemos fazer uma primeira análise das duas grandes posições a respeito do Problema dos Universais. Chamamos realistas àqueles filósofos “que defendem que quando dizemos verdadeiramente que dois tokens são do mesmo tipo, então a 'mesmidade' em questão deve ser entendida em termos de identidade estrita” (ARMSTRONG, 1989, p. 4). Dessa forma, quando dizemos que duas coisas são do mesmo tipo, isso implica que os dois tokens em questão compartilham de fato alguma coisa, tomada em sentido estrito, por exemplo, uma propriedade. Estes filósofos são chamados realistas porque acreditam na realidade de universais – aquilo que dois tokens de mesmo tipo compartilham e que é, portanto, repetível. Ou seja, na concepção realista, as propriedades que dois tokens têm em comum são reais e se repetem, estritamente idênticas, em diversos particulares, gerando assim os tipos.

Chamamos nominalistas àqueles filósofos “que pensam que quando dizemos verdadeiramente que um número de tokens são todos do mesmo tipo, então estamos apenas dizendo que os diferentes tokens são partes não-sobrepostas de um todo ou unidade maior” (ARMSTRONG, 1989, p. 5). Para eles, não existe algo como universais que atravessam diferentes particulares – tudo que existe são os próprios particulares. O nominalista procura explicar o fato de que falamos em propriedades na linguagem ordinária reduzindo-as a outras coisas, por exemplo, a classes, de forma que propriedades não precisem ser admitidas ontologicamente. Se se concede sua existência, como faz uma versão menos ortodoxa e mais interessante de Nominalismo, elas mesmas terão que ser pensadas como particulares – nunca podem existir estritamente idênticas em mais de um token, porque a repetibilidade é o caráter fundamental dos universais. A tentativa do nominalista vai ser se livrar da existência real de tipos, e reduzir tudo a tokens. Por não admitir universais, um tipo de entidade bastante curioso, o Nominalismo é dito uma teoria mais econômica, o que pode ser apontado como uma vantagem a seu favor.

2.1.2 A crítica ao Nominalismo: Nominalismo de Classes e Nominalismo de

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