Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Vivem para os seus maridos, orgulho e raça de Atenas Quando amadas, se perfumam suas melenas
Quando fustigadas não choram Se ajoelham, pedem, imploram Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos Querem arrancar violentas Caricias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Despem-se pros seus maridos, bravos guerreiros de Atenas Quando eles se entopem de vinho
Continuam a buscar carinho ]de outras falenas
Mas no fim da noite; aos pedaços Quase sempre voltam pros braços De suas pequenas
Helenas
Miram-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
O poder da escrita no feminino
Edna das Graças Martins Pereira RESUMO: É uma reflexão sobre
de que forma as diferenças entre os sexos são construídos com o aval da ciência e da cultura. De que forma as relações de poder marcam e definem os papeis sociais.
PALAVRAS CHAVES: Gênero, poder, papeis sociais.
ABSTRACT: It is a reflection on how the differences between the sexes are constructed without the endorsement of science and culture. In what way power relations mark and define the social roles.
KEYWORDS: Power, gender, social representations
Elas não têm gosto ou vaidade Nem defeito nem qualidade Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios O seu homem, mares, naufrágios Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas não fazem cenas Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem As suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Secam por seus maridos orgulho e raça de Atenas.
Chico Buarque de Hollanda
Minha reflexão sobre gênero, poder e currículo tem como ponto de partida a letra da música de Chico Buarque de Hollanda, Mulheres de Atenas. Não tenho a pretensão de fazer uma análise literária da canção, mas tentar cartografar do pon-to de vista feminino, de uma mulher criada numa sociedade patriarcal e machista, onde o poder se coloca quase como um fetiche na figura masculina.
Pensar em gênero é sem dúvida refletir sobre as relações de poder instituídas, sobre o papel social e cultural dos sexos. E, principalmente, olharmos de forma detalhada os currículos escolares que mantêm o poder oculto da diferença.
Ao escrever estes versos, o autor Chico Buarque de Hollanda coloca toda sua sensibilidade para descrever as diferenças entre homens e mulheres, que se revelam na maneira de olhar a si próprias, os outros e o ambiente. Como construímos nos-sos pensamentos, como aprendemos a compreender e a resolver problemas? Será que nossos desejos são apenas uma construção psíquica ou estamos inseridos num tempo social em que a indústria produz em larga escala a subjetividade?
Entender a espécie humana é tarefa árdua, sua complexidade se estruturou em uma imensa rede sustentada pelas várias áreas da ciência, tais como a antro-pologia, sociologia, psicologia, biologia e a espiritualidade.
Entender o homem como ser único já é um grande desafio, no entanto pre-cisamos mergulhar num mar de diferenças que nos coloca diante de imagens que, ao mesmo tempo que se distanciam, se aproximam pela necessidade de se com-plementarem.
O entendimento das diferenças em relação ao gênero é caminho árduo, nos-sa compreensão necessita do apoio incondicional da interdisciplinaridade como forma de nos protegermos do engessamento de conceitos pré-fabricados pela ciência e pela cultura.
É necessário um grande mergulho nas ciências que constituem a relação histórica do homem com a sociedade a que pertence. Em que a neurociência, anatomia, psicologia, sociologia e, principalmente, a história nos ajudam a enten-der o gênero e em que nos aprisionam?
A pesquisadora Marie-Victoire (ano 2006, v.21, p. 711), em seu artigo O que significa gênero, descreve de forma clara o que ela entende por gênero e quais são todas as sua implicações. Gostaria de destacar duas em especial que são pertinen-tes a este texto: 1)“Li ser gênero um primeiro modo de significar as relações de poder e está no cruzamento de outras relações de poder...”; 2)“Li ser gênero a diferença entre sexos construída social e culturalmente. O gênero é o caráter cultural das relações entre os sexos...”
Ora se conhecimento é poder, consequentemente a produção científica e seus resultados terão sempre como eixo central o gênero. Não só como diferença entre os sexos, mas também como domínio cultural.
O tempo é outra variável muito importante na compreensão das diferenças entre os gêneros. Segundo Melucci (ano 2001), o homem estaria marcado pelos seguintes tempos: o cronológico, o pessoal e o social. O nosso grande desafio é manter o diálogo entre esses tempos, construindo nossa individualidade e impri-mindo as relações de poder.
A literatura específica sobre gênero diz que os homens têm grande facilidade de localização espacial, é uma habilidade sem grande esforço, se destacam na elaboração de sistemas que exigem precisão. As mulheres são mais hábeis na memorização de palavras, prestam mais atenção aos detalhes, são capazes de conversar horas sobre seus sentimentos, fazem confidências sem grande pudo-res. Eles preferem falar sobre temas concretos e sentem-se perdidos quando so-licitados a discutir o relacionamento. Em situações profissionais são diretos e valorizam a execução das tarefas e obtenção de resultados. Elas recorrem a habi-lidade verbal como estratégia de dominação, eles a autoridade e a força física.
Todas essas diferenças são verdades da cultura de um contexto histórico ou da biologia? Ou será que são caminhos sinuosos que constroem o poder e a resistência, quando analisados em conjunto?
Homens e mulheres diferem não apenas em atributos físicos e função repro-dutiva, mas também no modo como resolvem problemas intelectuais.
Muitos estudos nas últimas décadas tentaram distanciar essas diferenças, outros estudos tentaram aproximar as semelhanças entre homens e mulheres. Algumas pesquisas apontam para evidências recentes em relação aos efeitos dos hormônios sexuais na diferenciação da organização cerebral entre meninos e meninas, trazendo consequências comportamentais. Esses efeitos tornam difícil a avaliação do papel que a experiência desempenha, independentemente da pré-disposição fisiológica. As bases biológicas das diferenças sexuais no cérebro e no comportamento ficaram cada vez mais pontuais graças ao número crescente de pesquisas neurológicas, endocrinológicas e todo o avanço tecnológico em apare-lhagens capazes de revelarem imagens do cérebro.
Uma das descobertas mais interessantes com relação a vida adulta é a de que padrões cognitivos podem permanecer suscetíveis a flutuações hormonais du-rante toda a vida.
Segundo pesquisa da Dr.ª Elizabetth Hampson (ano 2007), da University of Western Ontário, o desempenho feminino em determinadas tarefas durante o ciclo menstrual varia conforme os níveis de estrogênio. Taxas elevadas do hor-mônio associam-se não somente a uma diminuição relativa das habilidades espa-ciais, mas também a uma melhora nas linguísticas e na destreza manual. Foi ob-servado também flutuações sazonais nas habilidades espaciais dos homens; o desempenho seria melhor na primavera, quando os níveis de testosterona são mais baixos.
Muitos estudos apontam para as diferenças entre o lóbulo direito e o esquer-do esquer-do cérebro. Pessoas com lesões na metade esquer-do cérebro indicam que, na maioria delas, o esquerdo é crucial para a linguagem e o direito para certas funções per-ceptuais e espaciais.
Partes do corpo caloso, principal sistema neural que conecta os dois hemis-férios, assim como a comissura anterior, parecem ser maiores em mulheres, per-mitindo mais comunicação entre os hemisférios.
Outro bom argumento para as diferenças, ainda dentro da linha biológica, está sustentado na testosterona, que seria um catalisador químico do desejo em ambos os sexos. Será que este hormônio é o único responsável pelas diferenças entre o comportamento de homens e de mulheres com relação ao desejo? E a cultura, não seria um tatuador de papéis sociais? Não tenhamos pressa para conclusões, continuaremos mais um pouco na mesma linha biológica de pensa-mento.
As sensações prazerosas vividas pelo homem durante o sexo estão relaciona-dos com alguns neurotransmissores, entre eles o chamado oxitocina, ou “hormô-nio do amor”, sintetizado pelo hipotálamo, localizado na base do cérebro. Ho-mens e mulheres, durante a atividade sexual, utilizam esse neurotransmissor, e ele é importante no organismo feminino no final do parto. Além de estimular as contrações uterinas e a produção de leite, a oxitocina também despertaria o dese-jo de aninhar e proteger o filhote, já no organismo masculino coordenaria o reflexo de emissão do esperma. Essa substância funciona como catalisador quí-mico do corpo, induzindo as sensações de amor, altruísmo e ternura, favorecen-do a vinculação afetiva e a satisfação.
É importante salientar que a busca pela saciedade dos desejos, ainda que de forma parcial, tem sido um dos impulsos mais poderosos do homem.
Enquanto a biologia nos ajuda com esses e tantos outros conhecimento, a psicologia nos orienta sobre a avalanche de emoções inatas e adaptativas que conduzem homens e mulheres ao mundo das representações; nesse universo a realidade e a fantasia constroem muitas verdades.
A representação é sempre uma impressão do original. A representação psí-quica é, portanto uma reprodução mais ou menos consistente, produzida dentro da mente a partir de uma percepção de um determinado objeto significativo. Como é uma percepção, está sujeita ao aumento ou diminuição de energia psíqui-ca. Mas é considerada uma subestrutura de nosso ego. Muitos autores da psicolo-gia consideram que não existe representação psíquica quando do nascimento, ela surge com a experiência, com o desenvolvimento da percepção e maturação su-jeito. É necessário a internalização da diferença entre mundo interno e externo, do self e do não-self, para então começar a registrar e a imprimir a representação e suas conexões.
Partindo desse princípio, nossas representações seriam uma construção aon-de o papel social e cultural seriam fundamental em nosso modo aon-de pensar e agir. Se juntarmos a biologia, a psicologia e a sociologia nos deparamos com ho-mens e mulheres que constroem as suas histórias através de redes sociais de fatos, verdades, fantasias, mitos e sonhos. É justamente neste ponto que voltamos a nossa música, repleta de metáforas, mas principalmente marcada pelo tempo histórico.
Mulheres de Atenas é uma referência a aspectos da sociedade ateniense do período clássico e a alguns episódios e personagens da mitologia grega. As artes têm o poder de nos fazer viajar no tempo, de nos depararmos com grandes per-sonagens que podem ser da história ou da literatura. Chico Buarque nos remete aos famosos poemas épicos Ilíada e Odisséia, ambos de Homero. É um período da literatura onde era comum contar as grandes sagas de um povo, eram homens desbravadores que tornavam-se heróis e permeavam a linha imaginária do mito. Penélope, mulher de Ulisses, herói do poema Odisséia, viu seu marido ficar longe de casa por vinte longos anos, período em que ela se comporta com extrema fidelidade ao seu marido ausente. No entanto, seus atributos de beleza e os bens materiais da família atraem pretendentes que julgam a ausência do marido um sinal de sua morte. Ela dizia a esses homens que só escolheria seu futuro marido após tecer uma mortalha, que tinha a função de controlar o tempo. Enquanto os dias estavam destinados a tecer a mortalha, as noites estavam reservadas para desman-char o tear. Durante o período da ausência do marido, Penélope vestia-se de longo, tecia longos bordados e implorava a deusa Atena que trouxesse seu marido.
Já Helena, filha de Zeus, era considerada a mulher mais bela do mundo. Esposa de Menelau, rei de Esparta, foi seduzida e raptada por Paris, filho do rei de Tróia. O rapto deu origem à guerra de Tróia que os gregos promoveram para resgatar Helena.
Quantas Helenas, Penélopes, Marias e Joanas se viram retratadas em históri-as impregnadhistóri-as de dores, desejos, abandonos e violação de corpos.
De onde viria a submissão, paciência e o recato de Penélope? Quem lhe ensinou a reprimir seus desejos? E o aprisionamento do tempo, nas linhas que teciam bordados e que capturavam segredos contados em cada ponto? E quantas Helenas tiveram seus corpos violados em nome da superioridade masculina? Desde
muito cedo a identidade de gênero vai sendo construída de acordo com a cons-trução social. Todos nós estamos fortemente impregnados do caráter binário de categorias como feminino e masculino, no entanto, nas últimas décadas, uma grande zona de desconforto foi criada, com tantas possibilidades que estão sen-do declinadas na categoria gênero. A diversidade nos coloca diante de novas for-mas de agrupamentos sociais, esvaziando o discurso binário, do certo ou errado, normal ou patológico.
O gênero nos remete ao movimento, à transformação social, aos significa-dos que vão sendo construísignifica-dos e (re)significasignifica-dos à medida que o homem se de-para consigo mesmo e com o seu entorno, uma busca incessante de-para dar sentido a sua existência.
Em minha experiência clínica como psicóloga, tenho acompanhado inúme-ros relatos de mulheres que ainda sentem-se capturadas e angustiadas diante de valores de referência que a sociedade lhes impõem.
Relato de experiência clínica
Fernanda, 65 anos, psicopedagogia, casada, mãe de 5 filhos adultos. Procu-rou atendimento psicológico porque sentir-se muito insatisfeita com o casamen-to. O marido, um pequeno empresário da área de alimentação, estava em trata-mento psiquiátrico, tomando medicação em função de uma depressão que o acom-panhava há algum tempo, segundo ela em função de uma forte crise financeira. Fernanda exerceu sua profissão por 15 anos consecutivos. Com o nascimento de seus filhos gêmeos, ela resolveu parar de trabalhar para cuidar dos filhos, já que o marido na época tinha condições de financiar e sustentar a família. Quando per-cebeu que os filhos já não precisavam mais dela, resolveu voltar a trabalhar, foi quando o marido disse que não era favorável ao seu retorno profissional, pois todas as mulheres da família dele não trabalhavam fora de casa, que o trabalho dela não era tão importante. Segundo ele, o que importava era o papel dela den-tro da família, era o que ele esperava dela. Nos primeiros anos após esta combi-nação tudo transcorreu de forma tranquila. Até que os filhos começaram a sair de casa para construir vida própria. Um dos filhos resolveu viver fora do Brasil na busca de encontrar um lugar para viver sua homossexualidade.
Atualmente, Fernanda passa as tardes pacientemente esperando o marido voltar para casa, e tem nos trabalhos manuais o controle do tempo que insiste em passar.
Nos relatos de Fernanda, encontro muito da música de Chico Buarque. Como as mulheres parecem iguais dentro da diversidade feminina! Lembram da oxitoci-na menciooxitoci-nada no início do texto, será ela a única responsável por esse compor-tamento contemplativo do poder masculino? Ou será que a cultura é o braço forte do poder, que institucionaliza papéis, colaborando no processo de exclusão, criando mitos e acorrentando pessoas?
Referências
COHEN, S. B. Diferença essencial: a verdade sobre o cérebro de homens e mulheres. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2003.
HOUZEL, S. H. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2005. HOLLANDA, Chico Buarque. Mulheres de Atenas. Disponível em <http:// marievictoirelouis.net.
LOUIS, MARIE VICTOIRE. Diga-me o que significa gênero? Sociedade e Estado. Brasilia, v. 21, n. 3, p. 711-724. dez. 2006. Pesquisadora do CNRS/Paris.
MELUCCI, ALBERTO. A invenção do Presente. Petropolis: Vozes, 2001. Revista Mente e cérebro. Scientific Ameerican. Edição especial n. 10, 2007.