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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.235.681 - RS (2011/0017834-1)

RELATOR : MINISTRO ARI PARGENDLER

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

PROCURADOR : PROCURADORIA-GERAL DA FAZENDA NACIONAL

RECORRIDO : VALMOR ANTÔNIO ORTIZ GHELLER

ADVOGADOS : MAURICIO DAL AGNOL E OUTRO(S)

RONALDO ELIAS E OUTRO(S)

EMENTA

PROCESSO CIVIL E TRIBUTÁRIO. IMPOSTOS DE RENDA. JUROS DE MORA. AÇÃO TRABALHISTA. NATUREZA DA VERBA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. JULGAMENTO DEFICITÁRIO.

Não se tratando de hipótese de despedida ou de rescisão do contrato de trabalho, é necessário que o tribunal a quo explicite a natureza das verbas trabalhistas, uma vez que somente ficarão isentos do imposto de renda os juros de mora incidentes sobre as verbas isentas ou fora do campo de incidência do referido imposto.

Questão relevante não enfrentada pelo tribunal a quo ; omissão que contraria o art. 535, II, do Código de Processo Civil, impondo a anulação do acórdão proferido pela instância ordinária.

Recurso especial provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da PRIMEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, dar provimento ao recurso especial nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Arnaldo Esteves Lima, Napoleão Nunes Maia Filho (Presidente), Benedito Gonçalves e Sérgio Kukina votaram com o Sr. Ministro Relator.

Brasília, 18 de fevereiro de 2014 (data do julgamento).

MINISTRO ARI PARGENDLER Relator

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.235.681 - RS (2011/0017834-1) RELATÓRIO

EXMO. SR. MINISTRO ARI PARGENDLER (Relator):

Os autos dão conta de que Valmor Antônio Ortiz Gheller ajuizou ação de repetição de indébito contra a União (Fazenda Nacional), visando a restituição do imposto de renda retido em razão dos juros de mora pagos sobre diferenças salariais recebidas em decorrência de reclamação trabalhista (e-stj, fl. 3/12).

O MM. Juiz Federal Rafael Castegnaro Trevisan julgou procedente o pedido para "condenar a Fazenda Nacional a repetir os valores indevidamente recolhidos a título de IR sobre as parcelas relativas aos juros moratórios recebidos na reclamatória trabalhista" (e-stj, fl. 126).

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região negou provimento à apelação interposta Fazenda Nacional, nos termos do acórdão assim ementado:

"TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. PRESCRIÇÃO. SISTEMA DE CÁLCULO DO IMPOSTO DE RENDA INCIDENTE SOBRE INDENIZAÇÕES TRABALHISTAS. JUROS MORATÓRIOS. FORMA DE RESTITUIÇÃO. CORREÇÃO MONETÁRIA E JUROS.

1. Incidência do art. 30 da LC 118/2005, de forma que o prazo de cinco anos poderá ser contado a partir do pagamento indevido. 2. Os juros de mora calculados sobre parcela de quitação de verbas trabalhistas não estão sujeitos à incidência do Imposto de Renda. 3. Tendo o IR incidido indevidamente sobre verbas indenizatórias, tem a parte autora direito à repetição das quantias correspondentes, bastando-lhe provar o fato do pagamento e seu valor. A ocorrência de restituição, total ou parcial, por via de declaração de ajuste, é matéria de defesa que compete ao devedor (Fazenda) alegar e provar. E recomendável, sem dúvida, que o credor, ao apresentar seus cálculos de liquidação, desde logo desconte o que eventualmente lhe foi restituído pela via das declarações, de ajuste, o que só virá em seu proveito, pois evitará o retardamento e os custos dos embargos à execução. Mas tal ônus não lhe pode ser imposto. A regra é proceder-se a execução por precatório, formulando o credor seus cálculos, que poderão ser impugnados em embargos pelo demandado. 4. Correção monetária pela SELIC, nos termos do artigo 39, § 4º, da Lei 9.250/95. Juros à taxa SELIC, incidentes a partir de janeiro de 1996 e inacumuláveis com qualquer índice atualizatório" (e-stj, fl. 171).

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parcialmente acolhidos (e-stj, fl. 181/185), e, então, recurso especial, alegando violação do art. 535, II, do Código de Processo Civil, dos arts. 39, XVI a XXIV, e 43 do Decreto nº 3.000, de 1999, dos arts. 43, 97 e 111 do Código Tributário Nacional, dos arts. 6º e 12 da Lei nº 7.713, de 1988, e do art. 46 da Lei nº 8.541, de 1992 (e-stj, fl. 187/196).

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.235.681 - RS (2011/0017834-1) VOTO

EXMO. SR. MINISTRO ARI PARGENDLER (Relator):

No julgamento do REsp nº 1.227.133, RS, relator o Ministro Cesar Asfor Rocha, DJe de 02.12.2011, processado sob o regime do art. 543-C do Código de Processo Civil, consolidou entendimento no sentido de que não incide imposto de renda

sobre os juros moratórios legais vinculados a verbas

trabalhistas reconhecidas no contexto de despedida ou rescisão de contrato de trabalho.

Posteriormente, a Primeira Seção, no julgamento do REsp nº 1.089.720, RS, relator o Ministro Mauro Campbell Marques, DJe de 28.11.2012, reafirmou esse entendimento nos termos do acórdão assim ementado:

"PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA N. 284/STF. IMPOSTO DE RENDA DA PESSOA FÍSICA - IRPF. REGRA GERAL DE INCIDÊNCIA SOBRE JUROS DE MORA. PRESERVAÇÃO DA TESE JULGADA NO RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA RESP. N. 1.227.133 – RS NO SENTIDO DA ISENÇÃO DO IR SOBRE OS JUROS DE MORA PAGOS NO CONTEXTO DE PERDA DO EMPREGO. ADOÇÃO DE FORMA CUMULATIVA DA TESE DO ACCESSORIUM SEQUITUR SUUM PRINCIPALE PARA ISENTAR DO IR OS JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE VERBA ISENTA OU FORA DO CAMPO DE INCIDÊNCIA DO IR.

1. Não merece conhecimento o recurso especial que aponta violação ao art. 535, do CPC, sem, na própria peça, individualizar o erro, a obscuridade, a contradição ou a omissão ocorridas no acórdão proferido pela Corte de Origem, bem como sua relevância para a solução da controvérsia apresentada nos autos. Incidência da Súmula n. 284/STF: 'É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia'.

2. Regra geral: incide o IRPF sobre os juros de mora, a teor do art. 16, caput e parágrafo único, da Lei n. 4.506/64, inclusive quando reconhecidos em reclamatórias trabalhistas, apesar de sua natureza indenizatória reconhecida pelo mesmo dispositivo legal (matéria ainda não pacificada em recurso representativo da controvérsia).

3. Primeira exceção: são isentos de IRPF os juros de mora quando pagos no contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho, em reclamatórias trabalhistas ou não. Isto é, quando o trabalhador perde o emprego , os juros de mora

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que lhe são pagas são isentos de imposto de renda. A isenção é circunstancial para proteger o trabalhador em uma situação sócio-econômica desfavorável (perda do emprego), daí a incidência do art. 6º, V, da Lei n. 7.713/88. Nesse sentido, quando reconhecidos em reclamatória trabalhista, não basta haver a ação trabalhista , é preciso que a reclamatória se refira também às verbas decorrentes da perda do emprego, sejam indenizatórias, sejam remuneratórias (matéria já pacificada no recurso representativo da controvérsia REsp. n.º 1.227.133 - RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel .p/acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011).

3.1. Nem todas as reclamatórias trabalhistas discutem verbas de despedida ou rescisão de contrato de trabalho, ali podem ser discutidas outras verbas ou haver o contexto de continuidade do vínculo empregatício. A discussão exclusiva de verbas dissociadas do fim do vínculo empregatício exclui a incidência do art. 6º, inciso V, da Lei n. 7.713/88.

3.2. O fator determinante para ocorrer a isenção do art. 6º, inciso V, da Lei n. 7.713/88 é haver a perda do emprego e a fixação das verbas respectivas, em juízo ou fora dele. Ocorrendo isso, a isenção abarca tanto os juros incidentes sobre as verbas indenizatórias e remuneratórias quanto os juros incidentes sobre as verbas não isentas.

4. Segunda exceção: são isentos do imposto de renda os juros de mora incidentes sobre verba principal isenta ou fora do campo de incidência do IR, mesmo quando pagos fora do contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho (circunstância em que não há perda do emprego), consoante a regra do 'accessorium sequitur suum principale'.

5. Em que pese haver nos autos verbas reconhecidas em reclamatória trabalhista, não restou demonstrado que o foram no contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho (circunstância de perda do emprego). Sendo assim, é inaplicável a isenção apontada no item '3', subsistindo a isenção decorrente do item '4' exclusivamente quanto às verbas do FGTS e respectiva correção monetária FADT que, consoante o art. 28 e parágrafo único, da Lei n. 8.036/90, são isentas.

6. Quadro para o caso concreto onde não houve rescisão do contrato de trabalho:

Principal: Horas-extras (verba remuneratória não isenta) = Incide imposto de renda;

Acessório: Juros de mora sobre horas-extras (lucros cessantes não isentos) = Incide imposto de renda;

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Principal: Décimo-terceiro salário (verba remuneratória não isenta) = Incide imposto de renda;

Acessório: Juros de mora sobre décimo-terceiro salário (lucros cessantes não isentos) = Incide imposto de renda;

Principal: FGTS (verba remuneratória isenta) = Isento do imposto de renda (art. 28, parágrafo único, da Lei n. 8.036/90);

Acessório: Juros de mora sobre o FGTS (lucros cessantes) = Isento do imposto de renda (acessório segue o principal).

7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido "

A recorrente alega que "a procedência do pedido se encontra atrelada à natureza das vantagens pagas, merecendo a obrigação acessória (juros de mora) seguir a mesma regra da principal" (e-stj, fl. 194).

No caso, mesmo tendo sido expressamente provocado a se manifestar sobre a natureza da verba principal (e-stj, fl. 176/180), o tribunal a quo silenciou a respeito. Mas, dada a

relevância da matéria suscitada, era de rigor o seu

pronunciamento.

Com efeito, não se tratando de hipótese de despedida ou de rescisão do contrato de trabalho, é necessário que o tribunal a quo explicite a natureza das verbas trabalhistas.

Voto, por isso, no sentido de conhecer do recurso especial e de lhe dar provimento, para anular o acórdão proferido nos embargos de declaração, para que outro seja prolatado, enfrentando a questão.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO PRIMEIRA TURMA

Número Registro: 2011/0017834-1 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.235.681 / RS

Números Origem: 00033211020094047104 200971040033218 33211020094047104

PAUTA: 18/02/2014 JULGADO: 18/02/2014

Relator

Exmo. Sr. Ministro ARI PARGENDLER Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO Subprocuradora-Geral da República

Exma. Sra. Dra. DARCY SANTANA VITOBELLO Secretária

Bela. BÁRBARA AMORIM SOUSA CAMUÑA

AUTUAÇÃO

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

PROCURADOR : PROCURADORIA-GERAL DA FAZENDA NACIONAL

RECORRIDO : VALMOR ANTÔNIO ORTIZ GHELLER

ADVOGADOS : MAURICIO DAL AGNOL E OUTRO(S)

RONALDO ELIAS E OUTRO(S)

ASSUNTO: DIREITO TRIBUTÁRIO - Impostos - IRPF / Imposto de Renda de Pessoa Física

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia PRIMEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

A Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.

Os Srs. Ministros Arnaldo Esteves Lima, Napoleão Nunes Maia Filho (Presidente), Benedito Gonçalves e Sérgio Kukina votaram com o Sr. Ministro Relator.

Referências

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