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FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DA UFMG BELO HORIZONTE 2004 REDE JOVEM: UM LUGAR DE COMUNICAÇÃO E SOCIABILIDADE EDISON GOMES

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REDE JOVEM:

UM LUGAR DE COMUNICAÇÃO E SOCIABILIDADE

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DA UFMG BELO HORIZONTE

2004

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REDE JOVEM:

UM LUGAR DE COMUNICAÇÃO E SOCIABILIDADE

Trabalho apresentado ao Curso de Mestrado em Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Comunicação Social.

Área de Concentração:

Comunicação e Sociabilidade Contemporânea.

Linha de Pesquisa: Processos Comunicativos e Práticas Sociais.

Orientadora: Professora Doutora Regina Helena Alves da Silva.

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Belo Horizonte

2004

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Dissertação defendida e aprovada, em 27 de outubro de 2004, pela banca examinadora constituída pelos professores:

________________________________________________________________

Prof.(a) Dra. Regina Helena Alves da Silva – Orientadora (UFMG) _________________________________________________________________

Prof. Dr. Bruno Souza Leal (UFMG)

_________________________________________________________________

Prof. Dr. Juarez Tarcísio Dayrell (UFMG)

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À Profa. Regina Helena da Silva, pela orientação, por ter apostado em mim desde o início e por me oferecer condições de trabalho e total autonomia.

Aos professores César G. Guimarães, Vera V. França, Maria Beatriz A. S. Bretas, Bruno S. Leal e Valdir de C. Oliveira, pelo apoio e sugestão de caminhos.

À Profa. Rousiley C. M. Maia, pela indicação no mercado de trabalho.

Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, pelos ensinamentos.

Aos colegas de Mestrado, pelas muitas conversas sobre os processos comunicativos.

contatos face a face com os adolescentes comunicadores.

À diretora da AIC, Rafaela P. Lima, em especial, pela presteza e colaboração em meu trabalho de pesquisa.

Aos jovens comunicadores da Rede Jovem, sem os quais este trabalho não existiria.

Aos colegas de trabalho pelo incentivo.

Aos meus alunos pela torcida.

Aos familiares e amigos que apostaram no meu sucesso e souberam superar as minhas ausências.

Aos amigos Josemir de A. Barros, Filomena M. A. Bomfim e Moisés A. Gonçalves, pelo apoio constante.

A Maria da Luz, ausente fisicamente, mas presente em inspiração.

A Pedro e Moema, pela paciência e compreensão diante das ausências.

E, finalmente, a Viviane, grande companheira, que me incentivou e esteve a meu lado durante todo o processo, mesmo nos momentos mais difíceis.

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RESUMO

Essa investigação discute o processo de conformação de uma rede alternativa ou de solidariedade social, cujo foco são os jovens integrantes do Projeto Rede Jovem de Cidadania, propositiva do acesso desses jovens, a maioria pobre e da periferia de Belo Horizonte, à cidadania, bem como da constituição de identidades. Analisou-se a experiência cultural dos jovens, no sentido de aprimoramento de seus conhecimentos pela apropriação dos meios de comunicação, para compreender sua vivência em torno do Projeto e os significados que lhe atribuíram. Esta pesquisa aponta que esses jovens se apropriaram dos meios de comunicação os quais assumiram centralidade em suas vidas, o que lhes propiciou avanço cognitivo e, sobretudo, relacional, mais pontualmente, assegurou sociabilidade; os adolescentes tiveram oportunidade de (re) significar a referência corrente, comum, sobre a juventude e de criar modos próprios, originais, de ser jovem, revelando-os no espaço público através da mídia.

Palavras-Chave: rede, jovem, cidadania, apropriação, Comunicação, sociabilidade.

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SUMMARY

This investigation discusses the process of conformation of an alternative net or of social solidarity, which focus are the young members of the Project Young Net of Citizenship, the one that purposes the access of these young people, most poor and from the periphery of Belo Horizonte, to citizenship, as well as the constitution of identities. The youths' cultural experience was analyzed, in the sense of improving their knowledge through the appropriation of the communication means, to understand their existence around the Project and the meanings that were attributed. This research points that these young people appropriated of the communication means which assumed the center point of their lives, what offered them cognitive progress and, above all, relational, actually it assured sociability; the adolescents had opportunity to change the meaning of the current reference, common, on the youth and on creating their own original ways of being young, revealing them in the public space through the media.

Key-Words: net, young people, citizenship, appropriation, communication, sociability.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 09

CAPÍTULO 1. Rede Jovem de Cidadania: uma reflexão conceitual 1.1. Introdução ... 16

1.2. A tessitura da rede ... 18

1.3. A construção de identidades ... 24

1.4. Os limites da cidadania ... 31

1.5. O espaço público enquanto um "mundo comum" ... 33

1.6. Juventude ou juventudes? ... 42

CAPÍTULO 2. Mídia-Processo: o "fazer comunicativo" da Rede Jovem 2.1. Breve histórico da Rede Jovem de Cidadania ... 46

2.2. A tessitura da Rede ... 49

2.3. A rede na visão dos integrantes do Projeto ... 51

2.4. Construção de identidades ... 52

2.5. Concepção de cidadania ... 53

2.6. A participação no Projeto ... 56

2.7. As estratégias de visibilidade ... 59

2.8. Mídia-Processo: a metodologia de produção da Rede Jovem ... 60

2.9. Visão dos jovens sobre o "fazer comunicativo" ... 77

2.10. Avaliação durante o processo ... 79

CAPÍTULO 3. Produção ou reprodução? 3.1. A apropriação do processo na TV ... 82

3.2. A apropriação do processo no rádio ... 89

3.3. A apropriação do processo no jornal ... 94

3.4. A apropriação do processo na agência de notícias ...102

3.5. A relação com o patrocinador do Projeto ...103

3.6. Interação entre as mídias no processo ...104

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 106

BIBLIOGRAFIA ... 112

ANEXOS ... 118

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LISTA DE ANEXOS

ANEXO 1 ROTEIRO DE ENTREVISTAS INDIVIDUAIS

ANEXO 2 ROTEIRO DE ENTREVISTAS COLETIVAS – GRUPO FOCAL

ANEXO 3 FOTOS REGISTRADAS DURANTE O PROCESSO DE REALIZAÇÃO (MAKING-OFF) DO PROJETO REDE JOVEM DE CIDADANIA

ANEXO 4 AVALIAÇÃO DIÁRIA DOS COORDENADORES DE OFICINA (PERÍODO: 28 DE ABRIL A 8 DE MAIO/2003)

ANEXO 5 MATERIAL REFERENTE AO “EDITORIAL” DO NÚMERO 2 DO JORNAL “TÁ NA REDE!”, PUBLICADO EM SETEMBRO DE 2003.

ANEXO 6 FLUXOGRAMA REFERENTE AO 4.º CICLO DO PROJETO REDE JOVEM DE CIDADANIA

ANEXO7 METODOLOGIA DO “NÚCLEO DE DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO” DA AIC / REDE JOVEM DE CIDADANIA

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INTRODUÇÃO

A busca de definição para o campo de trabalho da Comunicação, ou do seu objeto de pesquisa, tem suscitado caloroso debate no meio acadêmico, tendo em vista sua complexidade, sobretudo no que concerne à relação da Comunicação com as demais disciplinas da área das Ciências Humanas (História, Antropologia, Sociologia, Psicologia, dentre outras).

Nesse sentido, a interdisciplinaridade é o conceito que melhor situa a discussão em questão.

Os pesquisadores que atuam na área da Comunicação (principalmente aqueles oriundos de outras áreas afins) precisam ficar atentos para não incorrerem no erro de adotar seja, nem uma perspectiva “holística” (tudo é Comunicação), nem uma perspectiva reducionista (especializada demais).

Ainda que de forma menos radical, perspectivas circunscrita ou generalizada não são aconselháveis, tendo em vista a possibilidade de empobrecimento da análise dos fenômenos da Comunicação.

Os estudos desenvolvidos nos cursos de pós-graduação em Comunicação têm apontado para uma terceira opção: a proposta de um “ângulo de interação social/comunicacional”, no qual se deve levar em consideração as relações humanas, tendo em vista as condições sócio-históricas, bem como a lógica interna dos processos comunicativos nos mais variados espaços e tempos históricos, como forma de melhor abordagem do objeto da Comunicação.

Cabe salientar que a maior dificuldade de se definir o objeto da Comunicação reside no fato de que ele perpassa todas as demais disciplinas afins, mas quando se pretende promover um estudo em sua área específica de atuação, a tendência é haver encaminhamento da discussão para a outra área afim.

Nesse sentido, seria importante melhor definição do limiar entre os campos de cada disciplina, de modo que não se transforme esse limite nem em uma “fronteira guardada”,

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nem em uma “encruzilhada passivamente atravessada”, de acordo com José Luiz Braga (BRAGA, 2001: 23-50).

A oportunidade de o estudante de outra área afim, no caso da História, realizar pesquisa no campo da Comunicação amplia substancialmente sua formação acadêmica, em sentido bastante produtivo.

O objeto de estudo desta pesquisa é o projeto Rede Jovem de Cidadania, uma iniciativa da ONG Associação Imagem Comunitária, de Belo Horizonte, com financiamento da PETROBRÁS.

Desde novembro de 2002, a ONG promove a tessitura de uma rede voltada para a produção de mídias comunitárias e, a partir de junho de 2003, realiza produções de programas de TV, rádio, jornal impresso, peças gráficas, site e agência de notícias, envolvendo centenas de adolescentes e inúmeras entidades comunitárias e culturais de toda a cidade, que cobriram as nove regiões administrativas de Belo Horizonte.

A proposta deste estudo é analisar o processo de formação/capacitação, as práticas e vivências (experiência) dos jovens participantes do projeto Rede Jovem de Cidadania, no que diz respeito ao acesso à cidadania e aos direitos sociais1, sobretudo pela análise dos aspectos culturais, da interação, do processo dialógico entre as práticas sociais e as formas comunicativas existentes na cidade de Belo Horizonte, tendo em vista a perspectiva da rede e seus circuitos comunicativos.

O objetivo geral da pesquisa se resume a investigar em que medida a participação no projeto Rede Jovem de Cidadania pode vir a promover o acesso efetivo de um grupo de jovens à cidadania – como preconizado pela ONG Associação Imagem Comunitária.

Foram traçados os seguintes objetivos específicos:

1- Averiguar se realmente essa rede (fenômeno comunicacional, enquanto um processo comunicativo e uma prática social) se formou.

2- Verificar se a formação dessa rede permitiu aos jovens integrantes do projeto o acesso efetivo à cidadania, além da constituição de sua identidade (identidade individual e coletiva).

1 Conceito compartilhado com TELLES, Vera da Silva. Direitos Sociais: afinal do que se trata? Belo Horizonte: Ed.

UFMG, 1999.

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3- Investigar se os jovens se apropriaram do processo de produção das mídias, de modo a promover a sua autonomia e ampliação de seu conhecimento.

Pesquisa do INEP2 comprova que os estudantes que têm acesso a bens como TV, computador, carro e telefone, associados ao poder socioeconômico, obtêm melhores resultados na vida escolar.

Portanto, ter acesso a atividades extracurriculares pode representar diferença significativa no desempenho escolar. Infelizmente, essa ainda não é a realidade da maioria dos jovens belorizontinos.

O projeto Rede Jovem de Cidadania pretendia reverter este quadro.

A intenção foi promover, a priori, uma investigação exploratória, tendo em vista que se pretendia acompanhar tanto a gênese quanto o desenvolvimento da rede e de que maneira seus diferentes protagonistas (monitores integrantes da ONG e, sobretudo, os jovens correspondentes integrantes do Projeto Rede Jovem Cidadania) nela interagiam.

Apesar de volumosa coleta de dados para este estudo, o material empírico utilizado se resumiu num Diário de Campo (Observação Participante), Entrevistas Individuais3 em profundidade (vide anexo 1) e uma Fita de Vídeo com o programa de TV de número 204, o último da série do primeiro ano de funcionamento do projeto.

Observou-se que a realização das Entrevistas Individuais se transformou em momento de reflexão, catalizador de manifestações dos integrantes do Projeto que reconstituíram o processo de tessitura da Rede.

Promoveu-se uma análise de perspectiva da maior flexibilidade possível, devido ao desafio de se estudar um objeto em movimento, em construção, já que a rede não existe empiricamente, implicando maiores cuidados metodológicos em direção à confiabilidade ou validade deste trabalho.

2 O nome da matéria veiculada é “Atividade extracurricular melhora nota no ENEM”, e pode ser encontrada no endereço eletrônico: http://www.uai.com.br/uai/noticias/agora/nacional/118282.html , visitado em 13/07/04.

3 Nas entrevistas individuais, no intuito de proteger os entrevistados de possíveis situações constrangedoras, optou-se pela omissão de seus nomes verdadeiros através do artifício da utilização de nomes fictícios.

4 Este programa contém uma boa parte daquilo que foi apresentado nessa dissertação, funcionando, inclusive, por assim dizer, como um recurso áudio-visual do que será demonstrado no texto.

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Tendo em vista que a realidade é construída social e cotidianamente pelos indivíduos, optou-se por tratar, simultaneamente, os aspectos conceituais e fenomenológicos nessa investigação (na busca de apreensão da construção da rede) e por realizar uma sondagem exploratória, uma investigação assistemática, através de um Diário de Campo5.

Além disso, utilizaram-se registros visuais como fotografias e vídeo das atividades de criação dos jovens integrantes do projeto (making-off, disponibilizado pela AIC – vide anexo 4).

Analisou-se o material teórico produzido pela ONG para o Projeto, além do conteúdo do material produzido pelos integrantes da rede (texto, imagem e som), com a intenção de perceber a ocorrência, ou não, do protagonismo, da autonomia dos jovens no processo.

Enfim, uma investigação no campo da Comunicação não poderia desprezar o processo sócio-histórico, foi feita, então, para melhor compreensão do fenômeno comunicacional, minuciosa contextualização do objeto de estudo.

A organização deste estudo se estabelece na divisão em três capítulos, e mais as considerações finais:

1. O primeiro capítulo dá ênfase a parâmetros teóricos voltados para o processo de tessitura de uma rede, de sua relação com a construção de identidades6, de reconhecimento/pertencimento a um grupo e de acesso à cidadania, tendo em vista o projeto Rede Jovem de Cidadania;

5 O diário de campo é o instrumento por excelência de registro de observações assistemáticas. “A observação pode ser usada de maneira exploratória, a fim de conseguir instituições que mais tarde serão verificadas por outras técnicas; seu objetivo pode ser a obtenção de dados suplementares significativos ou que possam auxiliar na interpretação de resultados obtidos por outras técnicas; pode ser usada como o método básico de coleta de dados nos estudos destinados à obtenção de descrições exatas de situações ou à verificação de hipóteses causais. Os processos de observação podem ir desde de a maior complexa flexibilidade, orientada apenas pela formulação do problema a ser estudado e por algumas idéias gerais a respeito de aspectos de provável importância, até o uso de instrumentos formais minuciosos, criados antecipadamente”. (REIS, 1991:

61 apud SELLTIZ, JAHODA, DEUTSCH, COOK. Métodos de Pesquisa nas Relações Sociais. São Paulo:

EPU, 1965. p. 237).

6 Onde contou-se com o apoio de Manuel Castells, em seus livros “Sociedade em Rede” e “O Poder da Identidade”.

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2. O segundo capítulo, levando em consideração o conceito de mídia-processo7, metodologia aplicada no projeto Rede Jovem de Cidadania, reflete sobre os processos comunicativos, as práticas sociais e a apropriação da mídia pelos jovens. Para tal, foram analisadas a interação, a mediação entre os integrantes da rede, bem como sua capacidade de deliberação no espaço público a partir da participação;

3. No terceiro capítulo, mais conclusivo, analisam-se alguns produtos finais da Rede, originados do "fazer comunicativo", no intuito de se identificar os modelos de comunicação presentes na rede e como eles contribuíram, ou não, para o desenvolvimento da autonomia, da ampliação de conhecimentos dos jovens envolvidos no Projeto8.

O recorte temporal utilizado para a coleta de dados foi de novembro de 2002 (início do Projeto Rede Jovem de Cidadania – processo de seleção dos jovens) a outubro de 2003 (final da primeira fase do projeto)9, encerramento da pesquisa de campo.

Desta forma, foi possível acompanhar a evolução de toda a primeira fase do Projeto, o que propiciou uma visão panorâmica da implementação da proposta da AIC.

No que diz respeito à estratégia de abordagem metodológica utilizada, a opção foi por ênfase maior na pesquisa qualitativa, é claro, sem desprezar os conselhos de GOLDENBERG (2002: 63):

“A combinação de metodologias diversas no estudo do mesmo fenômeno, conhecida como triangulação, tem por objetivo abranger a máxima amplitude na descrição explicação e compreensão do objeto de estudo.

Parte de princípios que sustentam que é impossível conceber a existência isolada de um fenômeno social. Enquanto os métodos quantitativos pressupõem uma população de objetos de estudo comparáveis, que fornecerá dados que podem ser generalizáveis, os métodos qualitativos poderão observar, diretamente, como cada indivíduo, grupo ou instituição experimenta, concretamente, a realidade pesquisada.[...] A premissa básica

7 Esse conceito representa a base da metodologia de trabalho desenvolvida pela AIC, e será esclarecido no capítulo 2 desta dissertação.

8 Observar se a produção dos jovens consistiu em algo realmente inovador, que represente seus desejos, seus interesses, ou se apenas reproduziram as mensagens/informações veiculadas pela mídia convencional.

9Segundo informações obtidas junto à diretora da ONG, o projeto deverá ter um prosseguimento, contando inclusive com incentivo da Petrobrás, que financiou a primeira fase, numa demonstração de satisfação com os resultados obtidos.

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da integração repousa na idéia de que os limites de um método poderão ser contrabalançados pelo alcance de outro. Os métodos qualitativos e quantitativos, nesta perspectiva, deixam de ser percebidos como opostos para serem vistos como complementares.”

Desta forma, fez-se opção pela chamada estratégia da “triangulação” (cruzamento de dados de diferentes fontes), observando-se os critérios de não diretividade e abrangência, por meio de utilização do diário de campo, entrevistas

entrevista do tipo semi-estruturada individual, entrevista narrativa e episódica10 observação participante: participação das reuniões na sede da ONG de avaliação do processo de evolução do Projeto e de desenvolvimento metodológico, acompanhamento da realização das oficinas de formação/capacitação dos jovens, bem como de produção das mídias; reuniões de “pauta”11; reuniões de “copião” 12; observação das relações inter- pessoais no cotidiano da sede da ONG e do Centro Cultural da UFMG (espaço cedido ao Projeto), entre os monitores, entre os monitores e os jovens e, sobretudo, entre os jovens correspondentes; registro e análise de texto, imagem e som das peças de comunicação produzidas ou distribuídas pelos integrantes; além de periódicos e bibliografia concernente à área.

10 As entrevistas narrativas e episódicas são ideais para descobrirmos a relevância subjetiva e social do tema em estudo através da investigação de circunstâncias concretas (tempo, espaço, pessoas, acontecimentos, situações), envolvendo estudos que lidam com políticas locais e pesquisa biográfica de grupos sociais específicos (“representação social – uma forma de conhecimento social compartilhado por aqueles que são membros de um grupo social específico e que é diferente do conhecimento compartilhado em outros grupos sociais” – BAUER & GASKELL, 2002: 114), como neste caso, em especial, da conformação de uma rede, envolvendo um grupo de jovens adolescentes (moradores da periferia da cidade, em sua maioria), que participam de um projeto com período de duração previamente determinado.

“Finalmente, a entrevista episódica é, em si mesma, uma tentativa de colocar em termos concretos a idéia da triangulação interna ao método [...], através da combinação de diferentes enfoques (de tipo narrativo e argumentativo) com respeito ao tema em estudo, a fim de aumentar a qualidade dos dados, das interpretações e dos resultados.” (BAUER & GASKELL, 2002: 133).

11 Reunião da equipe de produção das mídias (TV, rádio e jornal) para elaboração da pauta de uma edição dos programas de TV e rádio e a publicação do jornal.

12 Momento em que alguns monitores da ONG e jovens responsáveis pela produção das mídias se reuniam com convidados especiais (alguns pais, alguns representantes de outras instituições parceiras) no intuito de definirem os cortes, os acréscimos, enfim, a “edição” da peça midiática apresentada para a apreciação de todos.

Nesse sentido, alguns programas de TV e de rádio, bem como alguns exemplares do jornal produzido pela Rede Jovem passavam por uma crítica interna e externa antes da sua veiculação na mídia.

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Com relação à amostra ou a população/universo a ser entrevistado, em discussão com a orientadora da pesquisa, optou-se pela realização das entrevistas individuais, respeitando certa proporcionalidade em relação ao contingente de participantes (seis jovens integrantes, mais quatro monitores da ONG), promovendo uma variação entre o grupo escolhido.

Ainda foi realizado o registro de dois grupos focais elaborados pela AIC, considerados como parte da Observação Participante (vide anexo 2).

Todas as entrevistas foram realizadas entre os meses de agosto e outubro de 2003.

Durante as entrevistas individuais usou-se o gravador, com a autorização prévia dos entrevistados. As entrevistas tiveram duração média de 40 minutos.

Promoveu-se análise de conteúdo do material teórico produzido pela ONG, bem como do material produzido pelos jovens. As categorias de análise utilizadas foram: rede, identidade, cidadania, meios de comunicação/mídia, interação, processo, participação, visibilidade, pertencimento, reconhecimento, transformação (aprendizagem).

O cruzamento dos aspectos teóricos (leituras anteriores) com uma análise crítica dos dados coletados foi extremamente relevante para as considerações finais.

Cabe ainda salientar que a maior preocupação desta investigação não foi trabalhar com categorias de análise pré-concebidas (ADLER & ADLER, 1998: 89), mas, num processo contínuo de imersão no objeto empírico, obter um volume cada vez maior de conhecimento sobre o mesmo, para descrever, compreender e interpretar o fenômeno comunicacional engendrado pela Rede através da metodologia da “mídia-processo”13.

Observou-se que um dos principais objetivos dessa atividade era perceber, ainda que de uma forma hipotética, como se daria o processo de recepção das peças produzidas pela Rede Jovem pelo público.

13 Esse conceito será discutido no Capítulo 2 desta dissertação.

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CAPÍTULO 1 - Rede Jovem de Cidadania: uma reflexão conceitual

1.1. Introdução

Este capítulo promove uma reflexão sobre os principais conceitos, como rede, juventude, identidade, sociabilidade, cidadania e apropriação da Comunicação, utilizados na configuração do projeto Rede Jovem de Cidadania, ou seja, desenvolve um referencial teórico que sustente a análise da pesquisa proposta.

Para tratar do processo de tessitura de uma rede, partiu-se dos autores Villasanate, que discute redes alternativas ou de solidariedade, numa perspectiva da dialética dos movimentos sociais, denominada por ele de “práxis ou sócio-práxis”; Castells, para quem o conceito de rede está associado à "sociedade em rede"; e Bourdieu, que percebe as redes de relacionamento como oportunidades de desenvolvimento da sensação de

“pertencimento/reconhecimento” entre as pessoas envolvidas.

Para abordar o conceito de juventude, contribuíram as teses de doutorado de Juarez Dayrell e Beatriz Bretas, que apresentam todas as peculiaridades desta faixa etária, sobretudo daqueles jovens envolvidos em projetos culturais.

Para tratar da construção de identidades, utilizou-se, sobretudo, a proposta de Stuart Hall e Manuel Castells que lidam com a questão no mundo contemporâneo, principalmente a "identidade de projeto" apontada por Castells. E a referência principal para a discussão sobre sociabilidade foi a autora Rousiley Maia.

No que diz respeito ao acesso à cidadania, trabalhou-se conceito associado à noção de acesso aos direitos sociais e à visibilidade, como indicado no projeto Rede Jovem de Cidadania. Neste sentido, os autores Boaventura Santos, Vera Telles e Hannah Arendt foram de grande utilidade. E, para tratar de visibilidade no espaço público, leu-se Thompson, que trabalha com Hannah Arendt, analisando com muita propriedade a dinâmica da esfera pública nas sociedades contemporâneas "mediatizadas".

Sobre o conceito de Comunicação associado à questão da apropriação, optou-se pelas definições de Thompson e de Braga & Calazans, levando em conta sua proximidade com a abordagem observada no projeto da Rede Jovem.

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“As práticas culturais são, mais que ações, atuações. Representam, simulam as ações sociais, mas só às vezes operam como uma ação. Isso acontece não apenas nas atividades culturais expressamente organizadas e reconhecidas como tais; também os comportamentos ordinários, agrupados ou não em instituições, empregam a ação simulada, a atuação simbólica. (...) Talvez o maior interesse para a política de levar em conta a problemática simbólica não resida na eficácia pontual de certos bens ou mensagens, mas no fato de que os aspectos teatrais e rituais do social tornem evidente o que há de oblíquo, simulado e distinto em qualquer interação.” (CANCLINI, 2000:

350)

A citação acima corrobora nossa intenção de promover uma pesquisa sobre a participação das pessoas em projetos culturais. O objetivo principal desta investigação sobre o Projeto Rede Jovem de Cidadania é a análise do processo engendrado para a identidades e a apropriação dos meios de comunicação por um grupo de adolescentes, no sentido de sua inclusão social.

A direção da constituição de identidades por meio de projetos culturais é que as pessoas se organizem em redes alternativas ou redes de solidariedade social, de forma a garantir seu acesso à cidadania perante as relações sociais assimétricas.

A constituição de uma rede de relações, de ligações, reproduz as relações sociais cotidianas e revela uma perspectiva micro das relações de vizinhança, de trabalho, de parentesco, e, sobretudo, dos processos comunicativos.

Assim, a noção de rede tem sido bastante utilizada nos estudos contemporâneos de Comunicação, tendo em vista, acredita-se, o cruzamento, a interseção, os vários fluxos que perpassam as áreas das Ciências Humanas e que fornecem aportes de pesquisa para a Comunicação.

Nesse sentido, Vera V. França chama a atenção:

“(...) A noção de rede – na acepção de rede de sentidos, rede de informações, rede de homens – é preciosa porque nos incita a pensar em nós, conexões, interseções, inclusões e exclusões que se processam no âmbito das práticas sociais, realizadas comunicativamente. É preciso perguntar, no entanto, pelo avanço dos nossos instrumentos analíticos para empreender sua efetiva aplicação, para transformar a metáfora ou imagem

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de rede em dispositivo analítico que de fato nos possibilite uma outra e mais rica incursão e leitura da realidade(...)”. (FRANÇA, 2002: 59-60)

1.2. A tessitura da rede

A temática das redes não é novidade no campo acadêmico, mas apresenta uma complexidade intrínseca. O tema já foi sobejamente tratado tanto na Física quanto na Biologia e nos remete ao pensamento de Capra14: “Sempre que olhamos para a vida, olhamos para as redes”.

O termo, em latim retis, significa entrelaçamento de fios com aberturas regulares que formam uma espécie de tecido. Rede também pode significar entrelaçamento, malha, estrutura reticulada, e um exemplo é a rede utilizada pelos pescadores.

Atualmente, rede também pode significar a construção de laços de solidariedade entre pessoas voltadas para o mesmo interesse; e, principalmente, a agregação de pessoas, em torno de um objetivo comum, preocupadas em garantir seu pertencimento e/ou seu reconhecimento em relação a um grupo maior de indivíduos ao qual estão ligadas.

Nesse sentido, a definição que Márcio Simeone Henriques15, professor do departamento de Comunicação Social da UFMG, desenvolve a partir de sua participação no projeto Manuelzão, de revitalização da bacia do Rio das Velhas, no Vale do Rio São Francisco, em Minas Gerais:

“A construção de outro modelo a partir do qual se possa mapear e segmentar de forma mais dinâmica os públicos de projetos de mobilização social baseou-se numa abordagem desses movimentos como constituindo uma ampla rede de pessoas, grupos e instituições mobilizadas com determinada finalidade comum e que tendem a imbuir-se do sentimento de co-responsabilidade. É esse sentimento de co-responsabilidade que garantirá, qualquer que seja a causa, que cada participante seja também considerado um beneficiário de sua própria ação, seja este benefício compreendido de forma direta, podendo ser apropriado pelo próprio participante na melhoria de suas condições imediatas, ou indireta, onde se

14 CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova compreesão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.

15 HENRIQUES, Márcio Simeone. Considerações sobre o mapeamento dos públicos de projetos de mobilização social. In: PERUZZO, Cicília K., COGO, Denise e KAPLÚN, Gabriel (org.). Comunicação e movimentos populares: quais redes? São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 2002.

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beneficia de uma melhoria geral das condições de vida, seja qual for o alcance”.(HENRIQUES, 2002: 267)

A tipologia das redes merece destaque já que pode variar de acordo com a identificação dos atores locais participantes, da caracterização da rede e de suas funções.

Os atores locais se diferenciam conforme sua forma de inserção e de participação no grupo, tendo em vista também a origem dos laços de reciprocidade.

As redes se caracterizam como institucionais (entre grupos formais); informais (familiares, amigos, vizinhos, profissionais); e produtivas (em torno de um projeto de cooperação entre grupos, empresas e instituições).

De modo geral, os tipos de rede se encontram, de certa forma, imbricados, sendo quase impossível imaginar um formato em que não se possa observar a bricolagem das várias características.

As funções das redes, geralmente, se conformam pelo estabelecimento de trocas, sejam mercantis, ou de relacionamentos, ou de informações e/ou conhecimentos.

Não se pode desprezar a complexidade do conceito de rede, portanto devem ser considerados fatores como a territorialidade/coesão social (em que local geográfico a rede se estabelece, qual o nível de participação, de organização social de seus agentes, tendo em vista suas particularidades culturais e seus laços de reciprocidade); a temporalidade histórica (o contexto sócio-histórico do local, do território e da comunidade, enfim, o local do vivido entre os atores da rede, considerando a promoção e a coesão social); os valores éticos/políticos (os objetivos da rede, ou seja, seu projeto social em perspectiva baseada em valores, seus objetivos de emancipação mais amplos, como preservação ambiental, direitos humanos, democracia, etc.); e a capacidade de inovação, adaptação e regulação (capacidade da rede em se adequar à realidade social junto à qual se forma, tanto do ponto de vista local quanto global).

No que concerne ao funcionamento e à gestão das redes, geralmente, elas se constituem enquanto espaço de reflexão coletiva, pelo menos no plano teórico. Entretanto, no que diz respeito à tomada de decisão, é necessário observar, no interior da rede, a organização dos mecanismos de controle, o modo de resolução dos conflitos, de estabelecimento das normas, da comunicação interna e externa, ou seja, sua hierarquia interna, no intuito de se identificar, ou não, uma forma de gestão democrática.

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O estabelecimento de redes alternativas ou redes de solidariedade social propiciou a observação de ocorrência do famigerado desenvolvimento local sustentável.

A formação de redes de cooperação mútua vem proporcionando aos países, sobretudo aos países pobres ou em desenvolvimento da América Latina, promoção econômica e tecnológica, tanto em âmbito local quanto global.

A melhoria das condições de vida, saúde, educação, moradia, lazer, cultura dos membros da rede e de demais beneficiários ocorre por meio da coesão social e da sociabilidade desenvolvida entre seus membros.

Segundo MAIA (1997), o conceito de sociabilidade extrapola a noção de espontaneidade das interações sociais: “a sociabilidade – o que nos une ao que nos parece semelhante, comum, familiar, próximo e nos confere sentimento de pertencimento e senso de identidade – apresenta-se como o centro mesmo do processo reflexivo da dinâmica social”.

Para MAIA, a perspectiva teórico-metodológica da sociabilidade deveria ser observada sob três aspectos: as interações comunicativas face a face; o resgate da cultura e da vida cotidiana, possibilitando a construção coletiva de um universo simbólico interativo;

e a recusa de uma visão centralizada de sociedade que aponta os processos políticos e normativos como dependentes dos processos interativos dos indivíduos e coletividades.

Neste sentido, fundamental ressaltar, a sociabilidade reforça a Comunicação como um lugar de construção de sujeitos.

Não se pode deixar de considerar a importante atuação das redes na promoção ambiental/ecológica, que busca garantir a preservação da biodiversidade do planeta, na de políticas públicas, pelo fortalecimento da democracia participativa.

Para isso faz-se necessário que as redes tenham sempre em vista maior abertura para o exterior, devam sempre buscar conexão com outras redes e outros atores, tanto no âmbito local, quanto nacional ou global. As redes não podem desconsiderar a importância da interface com as diferentes esferas sociais, ou seja, o estabelecimento de parcerias entre as esferas do Estado, do mercado e da sociedade civil.

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O site da RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor16 oferece uma definição de rede que, de certo modo, se ajusta ao que foi dito acima:

“Rede é um processo de captação, articulação e otimização de energias, recursos e competências, capaz de gerar um sistema de relacionamentos que organiza indivíduos e instituições de forma igualitária e democrática, em torno de um objetivo ou agenda comum de caráter público”. (WHITAKER, 2001)

Definição de rede que não pode faltar, em estudo desta natureza, é aquela proposta pelo sociólogo catalão Manuel Castells, em seus livros “A Sociedade em Rede”, “O Poder da Identidade”, e “Fim de Milênio – Tempo de Mudança”, que compõem a trilogia “A era da informação, economia, sociedade e cultura”:

“A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede. Essa sociedade é caracterizada pela globalização das atividades econômicas decisivas do ponto de vista estratégico; por sua forma de organização em redes; pela flexibilidade e instabilidade do emprego e a individualização da mão-de-obra. Por uma cultura de virtualidade real construída a partir de um sistema de mídia onipresente, interligado e altamente diversificado. E pela transformação das bases materiais da vida – o tempo e o espaço – mediante a criação de um espaço de fluxos e de um tempo intemporal como expressões das atividades e elites dominantes”.

(CASTELLS, 2001: 17) g.n.

A importância desta definição para este estudo é pensar como se constituem as identidades (individuais e coletivas) e como os indivíduos buscam acesso à cidadania na chamada “sociedade em rede”, por meio de sua relação com a mídia.

Também são essenciais a este estudo as definições desenvolvidas por Tomás R.

Villasante e Pierre Bourdieu, , pois convergem em direção ao foco de atenção da pesquisa.

Gaudêncio Frigotto e Lia Tiriba, já no prefácio do livro “Redes e Alternativas” de Tomás Villasante, afirmam que:

16 Segundo o site da RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor: “Em resumo, (...) pode-se dizer que o ‘Terceiro Setor’ é o composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num âmbito não governamental, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil”.

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“(...) nenhuma rede se constitui como um aglomerado de pessoas, mas como um espaço em que os fios vão se tecendo na medida em que cada um descobre a si mesmo, descobre e redescobre o outro, num processo permanente de construção de algo que, além de individual, é coletivo. Temos vivido este processo. Para seguir vivendo, precisamos nos articular com outras redes de ação-conhecimento-ação”. (FRIGOTTO & TIRIBA, 2002:15)17

Tendo em vista a complexidade e a atualidade das redes, Villasante promove articulação constante entre as esferas local e global, pautado nas interfaces entre processos de socialização e mídia. O autor cita estudos de caso de alguns países da Europa, mas, sobretudo, de países latino-americanos, o que o leva a se reportar a autores importantes na área da Comunicação Social, como Jésus Martín-Barbero e Néstor Garcia Canclini.

Um diferencial de Villassante em relação à grande maioria dos teóricos é o seu viés propositivo. Com relação ao processo de conformação de redes ele afirma:

“Construir um processo em que os conjuntos preexistentes possam confluir para formar um conjunto de cidadania mais amplo, uma dinâmica mais sinérgica e auto-impelida é a chave de uma boa rede do terceiro setor, capaz de dar passos para construir um terceiro sistema de valores. Esse setor e essas redes são as chaves de qualquer estratégia, porque estão entre as importantes redes regionais ou internacionais e as desconhecidas redes de continuidade, às quais dificilmente damos valor, ainda que as utilizemos constantemente. Nas redes periféricas, informais e nas suas condutas cotidianas estão as bases sobre as quais se constroem tanto a reprodução como a transformação das sociedades concretas, ainda que não se tenha consciência disso”. (VILLASANTE, 2002: 220-221)

Chamam mais atenção na obra de Villasante sua crítica às metodologias utilizadas nas redes alternativas ou redes de solidariedade social e sua proposta de uma “perspectiva dialética entre a teoria e a prática”18 como forma de acesso à efetiva cidadania.

“Por isso falamos mais de objetivos e de processos abertos que de fins ou de metas determinadas e preocupam-nos mais as redes e os conjuntos de ações

17 FRIGOTTO, Gaudêncio & TIRIBA, Lia. Fios de algumas redes tecidas na correnteza do Rio. In:

VILLASANTE, Tomás R. Redes e Alternativas: estratégias e estilos criativos na complexidade social.

Tradução de Carlos Alberto Silveira Netto Soares. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

18 O autor denomina a dialética entre teoria e prática, numa perspectiva marxista, de práxis ou sócio-práxis.

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que dinamizarão esses processos do que os valores ou fins genéricos que costumam ser declarados”. (VILLASANTE, 2002: 104)

O presente estudo consistiu em análise do objeto empírico nessa mesma perspectiva, ou seja, uma abordagem que privilegia um olhar sobre o “processo” de evolução do projeto Rede Jovem de Cidadania, evidentemente, sem desprezar a fase conclusiva desse mesmo processo.

Em sua obra “Escritos de Educação”, Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani apresentam uma definição, proposta por Bourdieu, que também guarda proximidade com as considerações, apontadas aqui, sobre o conceito de rede.

Ao tratar da relação entre a escola e a cultura, Bourdieu observa o desnível entre a chamada escola “conservadora” e a cultura de modo geral. O autor propõe que a forma mais adequada para corrigir esse problema seria maior atenção da escola às teorias da comunicação (emissão/mensagem/recepção), de modo a facilitar a “comunicação pedagógica”.

O autor desenvolve sua teoria do “capital cultural” (ligado ao nível cultural de alunos e professores), o qual, segundo ele, consiste na “bagagem cultural” que os indivíduos adquirem fora do âmbito escolar, no seio da família, em passeios, viagens, excursões, visitas a museus, centros culturais, leituras, conversas que dão conformação a seus referenciais de valores, cultura, comportamento.

Por outro lado, Bourdieu chama de “capital social” a capacidade dos indivíduos de estabelecerem “redes de relacionamento”, o que ele considera a melhor forma de se promover o aprimoramento do “capital cultural”, o que fatalmente proporcionará a recuperação de boa parte das eventuais falhas percebidas no processo de ensino/aprendizagem realizado nas escolas.

Para Bourdieu, no estabelecimento de redes de sociabilidade, que podem ser de parentesco ou de amizade, os indivíduos vinculados promovem negociações, trocas, e adquirem um sentimento de pertencimento e/ou reconhecimento por meio da solidariedade entre os membros do grupo.

“A troca transforma as coisas trocadas em signos de reconhecimento e, mediante o reconhecimento mútuo e o reconhecimento da inclusão no grupo que ela implica, produz o grupo e determina ao mesmo tempo os seus

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limites, isto é, os limites além dos quais a troca constitutiva, comércio, comensalidade, casamento, não podem ocorrer. (BOURDIEU , 1998: 68)19

Desse modo, através da participação individual e coletiva, da vinculação pautada na interação (desejos compartilhados), ocorre transformação dos interesses em sentimentos de pertencimento que se manifestam no reconhecimento mútuo e na inclusão no grupo, sobretudo, quando a relação se baseia na solidariedade.

1.3. A construção de identidades

Relevante para esta pesquisa é justamente o surgimento destas redes alternativas, como as redes populares de resistência comunitária, as quais demonstram “a presença dos embriões de uma nova sociedade, germinados nos campos da história pelo poder da identidade”. (CASTELLS, 2001; 427)

Certamente, uma rede precisa de identidades, indivíduos que promovam uma

“negociação”, onde, além de afirmarem sua identidade individual, estabeleçam novos vínculos identitários, de forma coletiva.

Identidade é um conceito tratado por diversos autores, mas extremamente complexo. No caso deste trabalho, optou-se pelas definições de Stuart Hall e Manuel Castells, pois, acredita-se que sejam noções mais apropriadas para a melhor compreensão da realidade social que se apresenta neste início de milênio.

Cabe salientar que Hall trabalha a identidade na perspectiva das nuanças da pós- modernidade, e que se considerou a definição apresentada por Castells a mais adequada a este estudo, tendo em vista sua abordagem sobre a “identidade de projeto”, porque promove reflexão sobre a participação dos indivíduos em projetos culturais.

Nesse sentido, ao abordar a questão da construção da identidade, Castells aponta que a identidade é a fonte de significado e experiência de um povo, com base em atributos culturais relacionados que prevalecem sobre outras fontes. O autor chama salienta que não devemos confundi-la com papéis, pois estes determinam funções e a identidade organiza

19 BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. In: NOGUEIRA, Maria Alice & CATANI, Afrânio (Org.). Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

BOURDIEU, Pierre. O capital social – notas provisórias. Idem.

BOURDIEU, Pierre. Os três estados do capital cultural. Idem.

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significados(Castells define significado como a identificação simbólica, por parte de um ator social, da finalidade da ação praticada por tal ator, que se organiza em torno de uma identidade primária, que organiza as demais). Desta forma, a construção da identidade depende da matéria-prima proveniente da cultura obtida, processada e reorganizada de acordo com a sociedade, na forma de identidades múltiplas.

O autor distingue três formas e diferentes origens no processo de construção da identidade, a saber:

- Identidade legitimadora – ligada às instituições dominantes da sociedade civil;

- Identidade de resistência – elaborada por atores sociais que estão em posições desvalorizadas ou discriminadas na sociedade, como “trincheiras de resistência”;

- Identidade de projeto – gerada por atores sociais que partem dos materiais culturais a que têm acesso, em busca de uma redefinição de sua posição na sociedade.

Castells afirma que:

“Obviamente, identidades que começam como resistência podem acabar resultando em projetos, ou mesmo tornarem-se dominantes nas instituições da sociedade, transformando-se assim em identidades legitimadoras para racionalizar sua dominação. De fato, a dinâmica de identidades ao longo desta seqüência evidencia que, do ponto de vista da teoria social, nenhuma identidade pode constituir uma essência, e nenhuma delas encerra, per se, valor progressista ou retrógado se estiver fora de seu contexto histórico”.

(CASTELLS, 2001: 24) Para o autor, a globalização não extinguiu os atores políticos, mas propiciou o surgimento de novos espaços pelos quais se inicia um processo histórico permeado por uma imprevisibilidade sem precedentes. Assim, a criatividade, a negociação e a capacidade de mobilização se tornam os grandes trunfos na conquista de uma posição de destaque na Sociedade em Rede, uma sociedade conformada por uma mídia onipresente, em que as categorias de tempo e espaço se transformam em espaço de fluxos e um tempo intemporal.

Para Castells, “admirável ou não, trata-se na verdade de um mundo novo”.

Castells se concentra nas identidades coletivas, e não individuais. O autor afirma que “(...)sujeitos não são indivíduos, mesmo considerando que são constituídos a partir de indivíduos. São o ator social coletivos pelo qual indivíduos atingem o significado holístico

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em sua experiência.(...)”. Segundo ele, os sujeitos principais da Era da Informação são os movimentos sociais que surgem da resistência comunal à globalização, à reestruturação do Capitalismo, formação de redes organizacionais, busca desenfreada de informação e machismo, agindo de forma a transformar os códigos culturais. Para ele, os agentes que dão voz a essas identidades de projeto devem ser sintetizadores e difusores de símbolos, pois, segundo o autor o poder, nas sociedades complexas contemporâneas, se encontra diluído.

Castells sugere dois tipos de liderança: o profeta – aquele que fala pelos “rebeldes”, e outro agente, que ele considera o principal – os movimentos sociais – uma forma de organização e intervenção descentralizada e integrada em rede.

Com relação às identidades coletivas, o autor apresenta estudos de caso, onde trata do fundamentalismo religioso, do nacionalismo, da identidade étnica e da identidade territorial, que considera essencial para a apreensão dessa perspectiva coletiva.

O que chama mais a atenção, dentre essas questões é a identidade territorial, que aponta para a comunidade local, onde, segundo Castells:

“As pessoas se socializam e interagem em seu ambiente local, seja ela a vila, a cidade, o subúrbio, formando redes sociais entre seus vizinhos. Por outro lado, identidades locais entram em interseção com outras fontes de significado e reconhecimento social, seguindo um padrão altamente diversificado que dá margem a interpretações alternativas”.

(CASTELLS, 2001: 79).

Segundo o autor, as pessoas tendem a resistir ao processo de individuação e atomização, gerando, ao longo do tempo, um sentimento de pertencimento, uma identidade cultural (identidade de projeto), comunal. Castells aponta que esse fator é bastante visível nos movimentos urbanos, com ênfase na identidade cultural local, conquista da autonomia política local e participação na qualidade de cidadãos. Para ele, esse é um elemento essencial das cidades, onde ao longo da História, o ambiente construído, bem como o seu significado, são oriundos de um conflito entre os interesses e valores de atores sociais antagônicos.

No que concerne ao poder, Castells observa que o mesmo não se concentra mais nas instituições estatais, nas organizações capitalistas, nem nos mecanismos simbólicos de controle, como a mídia. Na verdade, ao contrário, o poder se encontra difuso nas redes

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globais de riqueza, poder, informações e imagens que circulam e passam por transformações. Para o autor:

“A nova forma de poder reside nos códigos de informação e nas imagens de representação em torno das quais as sociedades organizam suas instituições e as pessoas constroem suas vidas e decidem o seu comportamento. Este poder encontra-se na mente das pessoas. Por isso o poder na Era da Informação é a um só tempo identificável e difuso. Sabemos o que ele é, contudo não podemos tê-lo, porque o poder é uma função de uma batalha ininterrupta pelos códigos culturais da sociedade. Quem, ou o que quer que vença a batalha das mentes das pessoas sairá vitorioso, pois aparatos rígidos e poderosos não serão capazes de acompanhar, em um prazo razoável, mentes mobilizadas em torno do poder detido por redes flexíveis e alternativas.”

(CASTELLS, 2001: 423) Nesse sentido, o autor acredita que o principal agente da transformação na sociedade complexa contemporânea são os movimentos sociais, que consistem em uma

“forma de organização e intervenção descentralizada e integrada em rede, característica dos novos movimentos sociais20, refletindo a lógica de dominação da formação de redes na sociedade informacional e reagindo a ela.” (CASTELLS, 2001: 426).

Ainda segundo o autor: “Essas redes fazem mais do que simplesmente organizar atividades e compartilhar funções. Elas representam os verdadeiros produtores e distribuidores de códigos culturais”.(CASTELLS, 2001: 426). Acontece que, na atualidade, as campanhas mais bem sucedidas, as iniciativas mais surpreendentes, normalmente resultam de “turbulências” existentes na rede interativa de comunicação em múltiplos níveis. Esse caráter sutil e descentralizado é que muitas vezes dificulta a percepção e identificação de novas identidades de projeto que vêm surgindo, dada à nossa visão tradicional dos movimentos sociais.

A identidade se constrói em conjunto, com o outro, com o diferente. Estabelece-se o modo de ser, quando se conta uma história sobre si mesmo. Sujeitos vivos, concretos

20 Os movimentos sociais clássicos (luta de classes) visavam a transformação social, sobretudo no que tange à redistribuição de recursos materiais. Segundo Boaventura S. Santos, os novos movimentos sociais, desde a década de 50 abrangem realidades sociológicas muito diversas, como os movimentos ecológicos, feministas, pacifistas, anti-racistas, de consumidores, de auto-ajuda, entre outros. Nesse sentido, podemos observar que os desejos, os interesses dos indivíduos não se concentram apenas nas questões econômicas, mas,

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constroem realidades, criando representações. Reinventar a realidade, um novo modo de ser, de viver, na mesma temporalidade, de forma partilhada, é um trabalho permanente do sujeito. Os homens se relacionam e criam um mundo comum por meio da linguagem, da cultura, das apropriações, da criação de outros sentidos, dos processos identitários.

Cabe dizer que identidade é, antes de tudo, um conceito relacional, ou seja, é a afirmação de um “Eu” ou de um “Nós” diante de um “Outro”. Partindo da premissa de que o “eu” e o “social”, assim como a cultura, a sociedade e a subjetividade, não são instâncias desvinculadas, o indivíduo é o portador de uma conduta socialmente organizada. Assim, o processo de construção de identidades é visto como um efeito da relação do indivíduo ou do grupo com processos sociais mais amplos, isto é, a identidade dos sujeitos não se encontra pronta, acabada ou determinada, mas sim em permanente formação, de acordo com as particularidades vivenciadas por cada indivíduo.

Desta forma, no cenário pluricultural em que vivem, os indivíduos podem ter identidades múltiplas, já que a identidade é produzida em sintonia com os diversos ambientes dos quais os indivíduos fazem parte e nos quais eles interagem ou se relacionam.

O alicerce desta concepção é a seguinte afirmação de Rousiley Maia (1999, p.18):

“as identidades distintas são criadas de fragmentos, a partir de referências interculturais e da intensificação localizada de associações e possibilidades globais”.

Considera-se que o sujeito se encontra constantemente em autoprodução, e no intuito de reforçar nosso argumento, cita-se Hall (1999, p.13):

"A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’ formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. (...) na medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma da quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. "

Para evidenciar o que vem a ser e como se processa a questão da identidade, apontam-se alguns jovens que não se apropriaram apenas da Rede Jovem como uma forma

principalmente, naquilo que diz respeito ao seu pertencimento/reconhecimento no contexto da comunidade na qual se encontram inseridos.

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de entretenimento como também se identificaram com os elementos incorporados ao seu repertório cultural.

Na atualidade, a identidade possui estreita ligação com o fenômeno que se nomeia

“globalização21”. Sob o olhar de Hall (1999, p.87):

"(...) a globalização tem o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e ‘fechadas’ de uma cultura nacional. Ela tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, e tornando as identidades mais posicionais, mais políticas, mais plurais e diversas, menos fixas, unificadas ou trans-históricas."

Desta forma, entende-se que a globalização acelera a velocidade da produção e circulação de bens materiais e/ou simbólicos, comprime as relações espaço-tempo, propõe novas formas de apreensão do real e causa um impacto sobre as relações sociais e, conseqüentemente, sobre as identidades culturais.

A Rede Jovem mostrou que sua proposta era apresentar as transformações pelas quais a sociedade está, permanentemente, atravessando, isto é, apresentou os fatos, interpretou-os de maneira realista e, ao mesmo tempo, associou-os às demais recentes tendências, assumindo, então, um caráter globalizante, obviamente, do ponto de vista dos jovens participantes.

Este meio comunicacional permitiu que seus integrantes tivessem acesso a variados tipos de informação, que trocassem e construíssem, juntamente com o grupo, um sentido no

qual se apoiasse a proposta do projeto Rede Jovem de Cidadania.

As formas de interação e sociabilidade promovidas pela Rede e compartilhadas pelos jovens integrantes do projeto permitem dizer que eles constituíram uma

“comunidade”.

Tomando por referência Patrick Tacussel (1998, p. 04,05):

21 Conjunto de transformações na ordem política e econômica mundial que vem acontecendo nas últimas décadas. O ponto central da mudança é a integração dos mercados numa “aldeia global”, explorada pelas grandes corporações transnacionais. Este processo tem sido acompanhado de uma intensa revolução nas tecnologias de informação – telefones, computadores e televisão. Isso faz com que os desdobramentos da globalização ultrapassem os limites da economia e comecem a provocar uma certa homogeneização cultural entre os países. (Almanaque Abril, 1997).

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“Comunidade (...) quer dizer literalmente ‘o humano comum’, ‘a humanidade compartilhada’. Essa noção privilegia algo que faz com que os indivíduos se reconheçam como próximos ou distantes em função de uma série de elementos: valores, uma práxis comum, uma atividade que os reúna profundamente, ou ainda um sentimento de segurança ou insegurança”.

“... a idéia de comunidade trata da relação social como um partilhamento de valores, de bens, de práticas que são constitutivas do sujeito na relação social. Tomando o espaço comum como ponto de partida, a noção de comunidade ilumina a relação que se estabelece entre as consciências”.

Por outro lado, levando em consideração o pensamento de Rousiley Maia (1999, p.14) acerca do tema:

“comunidade, no sentido sociológico tradicional, refere-se ao agrupamento social que se caracteriza por acentuada coesão, baseada no consenso espontâneo dos indivíduos que o constituem, consenso esse derivado de valores compartilhados”.

A Rede procurou estabelecer, fortalecer e consolidar um vínculo entre os jovens por meio das produções midiáticas. E, para isso, restabeleceu, a cada novo produto, a idéia de pertencimento do jovem àquele contexto sócio-histórico discutido e veiculado em cada uma de suas produções.

Comunidade pode ser entendida, também, como um grupo de indivíduos articulados em prol da idéia de contribuição/participação social através de um projeto, como a proposta pela Rede, ou como uma aglomeração de adeptos de um estilo de vida, se se leva em consideração o que Giddens (2002: 79,80) entende por estilo de vida:

"Um estilo de vida pode ser definido como um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo abraça, não só porque essas práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular de auto-identidade. Estilo de vida (...) implica em uma escolha dentro de uma pluralidade de opções possíveis, e é ‘adotado’

mais do que ‘outorgado’. Os estilos de vida são práticas rotinizadas, as rotinas incorporadas em hábitos de vestir, comer, modos de agir (...)."

Deste modo, a partir do pressuposto da Rede, “ser jovem” passa a significar ter um ideal de interferência e manifestação pública de suas idéias e ser seguidor de estilos de vida.

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1.4. Os limites da cidadania

Evidenciar os “limites”, “os modos”, enfim, “em que termos” a participação no projeto garantiu aos jovens integrantes o acesso à cidadania, como proposto no projeto inicial da AIC, foi preocupação latente desta pesquisa.

Neste caso, considera-se necessário melhor entendimento da abordagem da Rede Jovem em torno do conceito de cidadania, que será mais explorado no próximo capítulo.

Percebeu-se que a forma, os modos, os limites que compõem a sua proposta de trabalho caminham em direção da conquista dos direitos sociais, sobretudo pelo aprimoramento do conhecimento, apropriação dos meios de comunicação, e visibilidade no espaço público por parte dos jovens integrantes do projeto.

Na busca de abordagem mais adequada, para esta pesquisa, do conceito de cidadania, fez-se opção pelas teorias desenvolvidas por Vera da Silva Telles (1999) e Boaventura de Sousa Santos (2000), por causa de sua proximidade com a questão dos

“direitos sociais” e da importância da “visibilidade no espaço público”.

Em seu livro “Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade”, o autor lusitano Boaventura de Sousa Santos afirma, especialmente no capítulo “Subjetividade, Cidadania e Emancipação”, que as sociedades contemporâneas convivem, simultaneamente, com complexos sistemas de tentativa de controle e regulação (estratégias de dominação) por parte das classes dominantes, inclusive com o auxílio da mídia; além de movimentos progressistas e de tentativa de emancipação (táticas utilizadas na busca de autonomia e liberdade) por parte dos sujeitos “menos favorecidos” nessas sociedades.

O autor discute sobre “direitos” e “democracia”, contudo, a sua insistência na imbricação entre os conceitos de subjetividade, cidadania e emancipação, sem dúvida, é o que interessa, de modo especial, a este estudo.

Boaventura demonstra como a relação entre a subjetividade, ou seja, a singularidade dos sujeitos, sua autonomia (política, econômica, social, cultural) em direção à construção da sua identidade, e a sua liberdade vem se comprometendo durante o avanço da modernidade e da pós-modernidade, tanto nas sociedades capitalistas quanto socialistas.

Por outro lado, o acesso à cidadania, sempre bastante associado à conquista dos direitos (políticos, civis e sociais) e do cumprimento dos deveres perante uma dada

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