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1.1.Introdução

Este capítulo promove uma reflexão sobre os principais conceitos, como rede, juventude, identidade, sociabilidade, cidadania e apropriação da Comunicação, utilizados na configuração do projeto Rede Jovem de Cidadania, ou seja, desenvolve um referencial teórico que sustente a análise da pesquisa proposta.

Para tratar do processo de tessitura de uma rede, partiu-se dos autores Villasanate, que discute redes alternativas ou de solidariedade, numa perspectiva da dialética dos movimentos sociais, denominada por ele de “práxis ou sócio-práxis”; Castells, para quem o conceito de rede está associado à "sociedade em rede"; e Bourdieu, que percebe as redes de relacionamento como oportunidades de desenvolvimento da sensação de

“pertencimento/reconhecimento” entre as pessoas envolvidas.

Para abordar o conceito de juventude, contribuíram as teses de doutorado de Juarez Dayrell e Beatriz Bretas, que apresentam todas as peculiaridades desta faixa etária, sobretudo daqueles jovens envolvidos em projetos culturais.

Para tratar da construção de identidades, utilizou-se, sobretudo, a proposta de Stuart Hall e Manuel Castells que lidam com a questão no mundo contemporâneo, principalmente a "identidade de projeto" apontada por Castells. E a referência principal para a discussão sobre sociabilidade foi a autora Rousiley Maia.

No que diz respeito ao acesso à cidadania, trabalhou-se conceito associado à noção de acesso aos direitos sociais e à visibilidade, como indicado no projeto Rede Jovem de Cidadania. Neste sentido, os autores Boaventura Santos, Vera Telles e Hannah Arendt foram de grande utilidade. E, para tratar de visibilidade no espaço público, leu-se Thompson, que trabalha com Hannah Arendt, analisando com muita propriedade a dinâmica da esfera pública nas sociedades contemporâneas "mediatizadas".

Sobre o conceito de Comunicação associado à questão da apropriação, optou-se pelas definições de Thompson e de Braga & Calazans, levando em conta sua proximidade com a abordagem observada no projeto da Rede Jovem.

“As práticas culturais são, mais que ações, atuações. Representam, simulam as ações sociais, mas só às vezes operam como uma ação. Isso acontece não apenas nas atividades culturais expressamente organizadas e reconhecidas como tais; também os comportamentos ordinários, agrupados ou não em instituições, empregam a ação simulada, a atuação simbólica. (...) Talvez o maior interesse para a política de levar em conta a problemática simbólica não resida na eficácia pontual de certos bens ou mensagens, mas no fato de que os aspectos teatrais e rituais do social tornem evidente o que há de oblíquo, simulado e distinto em qualquer interação.” (CANCLINI, 2000: 350)

A citação acima corrobora nossa intenção de promover uma pesquisa sobre a participação das pessoas em projetos culturais. O objetivo principal desta investigação sobre o Projeto Rede Jovem de Cidadania é a análise do processo engendrado para a

identidades e a apropriação dos meios de comunicação por um grupo de adolescentes, no sentido de sua inclusão social.

A direção da constituição de identidades por meio de projetos culturais é que as pessoas se organizem em redes alternativas ou redes de solidariedade social, de forma a garantir seu acesso à cidadania perante as relações sociais assimétricas.

A constituição de uma rede de relações, de ligações, reproduz as relações sociais cotidianas e revela uma perspectiva micro das relações de vizinhança, de trabalho, de parentesco, e, sobretudo, dos processos comunicativos.

Assim, a noção de rede tem sido bastante utilizada nos estudos contemporâneos de Comunicação, tendo em vista, acredita-se, o cruzamento, a interseção, os vários fluxos que perpassam as áreas das Ciências Humanas e que fornecem aportes de pesquisa para a Comunicação.

Nesse sentido, Vera V. França chama a atenção:

“(...) A noção de rede – na acepção de rede de sentidos, rede de informações, rede de homens – é preciosa porque nos incita a pensar em nós, conexões, interseções, inclusões e exclusões que se processam no âmbito das práticas sociais, realizadas comunicativamente. É preciso perguntar, no entanto, pelo avanço dos nossos instrumentos analíticos para empreender sua efetiva aplicação, para transformar a metáfora ou imagem

de rede em dispositivo analítico que de fato nos possibilite uma outra e mais rica incursão e leitura da realidade(...)”. (FRANÇA, 2002: 59-60)

1.2. A tessitura da rede

A temática das redes não é novidade no campo acadêmico, mas apresenta uma complexidade intrínseca. O tema já foi sobejamente tratado tanto na Física quanto na Biologia e nos remete ao pensamento de Capra14: “Sempre que olhamos para a vida, olhamos para as redes”.

O termo, em latim retis, significa entrelaçamento de fios com aberturas regulares que formam uma espécie de tecido. Rede também pode significar entrelaçamento, malha, estrutura reticulada, e um exemplo é a rede utilizada pelos pescadores.

Atualmente, rede também pode significar a construção de laços de solidariedade entre pessoas voltadas para o mesmo interesse; e, principalmente, a agregação de pessoas, em torno de um objetivo comum, preocupadas em garantir seu pertencimento e/ou seu reconhecimento em relação a um grupo maior de indivíduos ao qual estão ligadas.

Nesse sentido, a definição que Márcio Simeone Henriques15, professor do departamento de Comunicação Social da UFMG, desenvolve a partir de sua participação no projeto Manuelzão, de revitalização da bacia do Rio das Velhas, no Vale do Rio São Francisco, em Minas Gerais:

“A construção de outro modelo a partir do qual se possa mapear e segmentar de forma mais dinâmica os públicos de projetos de mobilização social baseou-se numa abordagem desses movimentos como constituindo uma ampla rede de pessoas, grupos e instituições mobilizadas com determinada finalidade comum e que tendem a imbuir-se do sentimento de co-responsabilidade. É esse sentimento de co-responsabilidade que garantirá, qualquer que seja a causa, que cada participante seja também considerado um beneficiário de sua própria ação, seja este benefício compreendido de forma direta, podendo ser apropriado pelo próprio participante na melhoria de suas condições imediatas, ou indireta, onde se

14 CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova compreesão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.

15 HENRIQUES, Márcio Simeone. Considerações sobre o mapeamento dos públicos de projetos de mobilização social. In: PERUZZO, Cicília K., COGO, Denise e KAPLÚN, Gabriel (org.). Comunicação e movimentos populares: quais redes? São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 2002.

beneficia de uma melhoria geral das condições de vida, seja qual for o alcance”.(HENRIQUES, 2002: 267)

A tipologia das redes merece destaque já que pode variar de acordo com a identificação dos atores locais participantes, da caracterização da rede e de suas funções.

Os atores locais se diferenciam conforme sua forma de inserção e de participação no grupo, tendo em vista também a origem dos laços de reciprocidade.

As redes se caracterizam como institucionais (entre grupos formais); informais

(familiares, amigos, vizinhos, profissionais); e produtivas (em torno de um projeto de cooperação entre grupos, empresas e instituições).

De modo geral, os tipos de rede se encontram, de certa forma, imbricados, sendo quase impossível imaginar um formato em que não se possa observar a bricolagem das várias características.

As funções das redes, geralmente, se conformam pelo estabelecimento de trocas, sejam mercantis, ou de relacionamentos, ou de informações e/ou conhecimentos.

Não se pode desprezar a complexidade do conceito de rede, portanto devem ser considerados fatores como a territorialidade/coesão social (em que local geográfico a rede se estabelece, qual o nível de participação, de organização social de seus agentes, tendo em vista suas particularidades culturais e seus laços de reciprocidade); a temporalidade histórica (o contexto sócio-histórico do local, do território e da comunidade, enfim, o local do vivido entre os atores da rede, considerando a promoção e a coesão social); os valores éticos/políticos (os objetivos da rede, ou seja, seu projeto social em perspectiva baseada em valores, seus objetivos de emancipação mais amplos, como preservação ambiental, direitos humanos, democracia, etc.); e a capacidade de inovação, adaptação e regulação (capacidade da rede em se adequar à realidade social junto à qual se forma, tanto do ponto de vista local quanto global).

No que concerne ao funcionamento e à gestão das redes, geralmente, elas se constituem enquanto espaço de reflexão coletiva, pelo menos no plano teórico. Entretanto, no que diz respeito à tomada de decisão, é necessário observar, no interior da rede, a organização dos mecanismos de controle, o modo de resolução dos conflitos, de estabelecimento das normas, da comunicação interna e externa, ou seja, sua hierarquia interna, no intuito de se identificar, ou não, uma forma de gestão democrática.

O estabelecimento de redes alternativas ou redes de solidariedade social propiciou a observação de ocorrência do famigerado desenvolvimento local sustentável.

A formação de redes de cooperação mútua vem proporcionando aos países, sobretudo aos países pobres ou em desenvolvimento da América Latina, promoção econômica e tecnológica, tanto em âmbito local quanto global.

A melhoria das condições de vida, saúde, educação, moradia, lazer, cultura dos membros da rede e de demais beneficiários ocorre por meio da coesão social e da sociabilidadedesenvolvidaentre seus membros.

Segundo MAIA (1997), o conceito de sociabilidade extrapola a noção de espontaneidade das interações sociais: “a sociabilidade – o que nos une ao que nos parece semelhante, comum, familiar, próximo e nos confere sentimento de pertencimento e senso de identidade – apresenta-se como o centro mesmo do processo reflexivo da dinâmica social”.

Para MAIA, a perspectiva teórico-metodológica da sociabilidade deveria ser observada sob três aspectos: as interações comunicativas face a face; o resgate da cultura e da vida cotidiana, possibilitando a construção coletiva de um universo simbólico interativo; e a recusa de uma visão centralizada de sociedade que aponta os processos políticos e normativos como dependentes dos processos interativos dos indivíduos e coletividades.

Neste sentido, fundamental ressaltar, a sociabilidade reforça a Comunicação como um lugar de construção de sujeitos.

Não se pode deixar de considerar a importante atuação das redes na promoção ambiental/ecológica, que busca garantir a preservação da biodiversidade do planeta, na de políticas públicas, pelo fortalecimento da democracia participativa.

Para isso faz-se necessário que as redes tenham sempre em vista maior abertura para o exterior, devam sempre buscar conexão com outras redes e outros atores, tanto no âmbito local, quanto nacional ou global. As redes não podem desconsiderar a importância da interface com as diferentes esferas sociais, ou seja, o estabelecimento de parcerias entre as esferas do Estado, do mercado e da sociedade civil.

O site da RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor16 oferece uma definição de rede que, de certo modo, se ajusta ao que foi dito acima:

“Rede é um processo de captação, articulação e otimização de energias, recursos e competências, capaz de gerar um sistema de relacionamentos que organiza indivíduos e instituições de forma igualitária e democrática, em torno de um objetivo ou agenda comum de caráter público”. (WHITAKER, 2001)

Definição de rede que não pode faltar, em estudo desta natureza, é aquela proposta pelo sociólogo catalão Manuel Castells, em seus livros “A Sociedade em Rede”, “O Poder da Identidade”, e “Fim de Milênio – Tempo de Mudança”, que compõem a trilogia “A era da informação, economia, sociedade e cultura”:

“A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede. Essa sociedade é caracterizada pela globalização das atividades econômicas decisivas do ponto de vista estratégico; por sua forma de organização em redes; pela flexibilidade e instabilidade do emprego e a individualização da mão-de-obra. Por uma cultura de virtualidade real construída a partir de um sistema de mídia onipresente, interligado e altamente diversificado. E pela transformação das bases materiais da vida – o tempo e o espaço – mediante a criação de um espaço de fluxos e de um tempo intemporal como expressões das atividades e elites dominantes”.

(CASTELLS, 2001: 17) g.n.

A importância desta definição para este estudo é pensar como se constituem as identidades (individuais e coletivas) e como os indivíduos buscam acesso à cidadania na chamada “sociedade em rede”, por meio de sua relação com a mídia.

Também são essenciais a este estudo as definições desenvolvidas por Tomás R. Villasante e Pierre Bourdieu, , pois convergem em direção ao foco de atenção da pesquisa.

Gaudêncio Frigotto e Lia Tiriba, já no prefácio do livro “Redes e Alternativas” de Tomás Villasante, afirmam que:

16 Segundo o site da RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor: “Em resumo, (...) pode-se dizer que o ‘Terceiro Setor’ é o composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num âmbito não governamental, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil”.

“(...) nenhuma rede se constitui como um aglomerado de pessoas, mas como um espaço em que os fios vão se tecendo na medida em que cada um descobre a si mesmo, descobre e redescobre o outro, num processo permanente de construção de algo que, além de individual, é coletivo. Temos vivido este processo. Para seguir vivendo, precisamos nos articular com outras redes de ação-conhecimento-ação”. (FRIGOTTO & TIRIBA, 2002:15)17

Tendo em vista a complexidade e a atualidade das redes, Villasante promove articulação constante entre as esferas local e global, pautado nas interfaces entre processos de socialização e mídia. O autor cita estudos de caso de alguns países da Europa, mas, sobretudo, de países latino-americanos, o que o leva a se reportar a autores importantes na área da Comunicação Social, como Jésus Martín-Barbero e Néstor Garcia Canclini.

Um diferencial de Villassante em relação à grande maioria dos teóricos é o seu viés propositivo. Com relação ao processo de conformação de redes ele afirma:

“Construir um processo em que os conjuntos preexistentes possam confluir para formar um conjunto de cidadania mais amplo, uma dinâmica mais sinérgica e auto-impelida é a chave de uma boa rede do terceiro setor, capaz de dar passos para construir um terceiro sistema de valores. Esse setor e essas redes são as chaves de qualquer estratégia, porque estão entre as importantes redes regionais ou internacionais e as desconhecidas redes de continuidade, às quais dificilmente damos valor, ainda que as utilizemos constantemente. Nas redes periféricas, informais e nas suas condutas cotidianas estão as bases sobre as quais se constroem tanto a reprodução como a transformação das sociedades concretas, ainda que não se tenha consciência disso”. (VILLASANTE, 2002: 220-221)

Chamam mais atenção na obra de Villasante sua crítica às metodologias utilizadas nas redes alternativas ou redes de solidariedade social e sua proposta de uma “perspectiva dialética entre a teoria e a prática”18

como forma de acesso à efetiva cidadania.

“Por isso falamos mais de objetivos e de processos abertos que de fins ou de metas determinadas e preocupam-nos mais as redes e os conjuntos de ações

17 FRIGOTTO, Gaudêncio & TIRIBA, Lia. Fios de algumas redes tecidas na correnteza do Rio. In: VILLASANTE, Tomás R. Redes e Alternativas: estratégias e estilos criativos na complexidade social.

Tradução de Carlos Alberto Silveira Netto Soares. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

que dinamizarão esses processos do que os valores ou fins genéricos que costumam ser declarados”. (VILLASANTE, 2002: 104)

O presente estudo consistiu em análise do objeto empírico nessa mesma perspectiva, ou seja, uma abordagem que privilegia um olhar sobre o “processo” de evolução do projeto Rede Jovem de Cidadania, evidentemente, sem desprezar a fase conclusiva desse mesmo processo.

Em sua obra “Escritos de Educação”, Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani apresentam uma definição, proposta por Bourdieu, que também guarda proximidade com as considerações, apontadas aqui, sobre o conceito de rede.

Ao tratar da relação entre a escola e a cultura, Bourdieu observa o desnível entre a chamada escola “conservadora” e a cultura de modo geral. O autor propõe que a forma mais adequada para corrigir esse problema seria maior atenção da escola às teorias da comunicação (emissão/mensagem/recepção), de modo a facilitar a “comunicação pedagógica”.

O autor desenvolve sua teoria do “capital cultural” (ligado ao nível cultural de alunos e professores), o qual, segundo ele, consiste na “bagagem cultural” que os indivíduos adquirem fora do âmbito escolar, no seio da família, em passeios, viagens, excursões, visitas a museus, centros culturais, leituras, conversas que dão conformação a seus referenciais de valores, cultura, comportamento.

Por outro lado, Bourdieu chama de “capital social” a capacidade dos indivíduos de estabelecerem “redes de relacionamento”, o que ele considera a melhor forma de se promover o aprimoramento do “capital cultural”, o que fatalmente proporcionará a recuperação de boa parte das eventuais falhas percebidas no processo de ensino/aprendizagem realizado nas escolas.

Para Bourdieu, no estabelecimento de redes de sociabilidade, que podem ser de parentesco ou de amizade, os indivíduos vinculados promovem negociações, trocas, e adquirem um sentimento de pertencimento e/ou reconhecimento por meio da solidariedade entre os membros do grupo.

“A troca transforma as coisas trocadas em signos de reconhecimento e, mediante o reconhecimento mútuo e o reconhecimento da inclusão no grupo que ela implica, produz o grupo e determina ao mesmo tempo os seus

limites, isto é, os limites além dos quais a troca constitutiva, comércio, comensalidade, casamento, não podem ocorrer. (BOURDIEU , 1998: 68)19 Desse modo, através da participação individual e coletiva, da vinculação pautada na interação (desejos compartilhados), ocorre transformação dos interesses em sentimentos de pertencimento que se manifestam no reconhecimento mútuo e na inclusão no grupo, sobretudo, quando a relação se baseia na solidariedade.

1.3. A construção de identidades

Relevante para esta pesquisa é justamente o surgimento destas redes alternativas, como as redes populares de resistência comunitária, as quais demonstram “a presença dos embriões de uma nova sociedade, germinados nos campos da história pelo poder da identidade”. (CASTELLS, 2001; 427)

Certamente, uma rede precisa de identidades, indivíduos que promovam uma “negociação”, onde, além de afirmarem sua identidade individual, estabeleçam novos vínculos identitários, de forma coletiva.

Identidade é um conceito tratado por diversos autores, mas extremamente complexo. No caso deste trabalho, optou-se pelas definições de Stuart Hall e Manuel Castells, pois, acredita-se que sejam noções mais apropriadas para a melhor compreensão da realidade social que se apresenta neste início de milênio.

Cabe salientar que Hall trabalha a identidade na perspectiva das nuanças da pós-modernidade, e que se considerou a definição apresentada por Castells a mais adequada a este estudo, tendo em vista sua abordagem sobre a identidade de projeto, porque promove reflexão sobre a participação dos indivíduos em projetos culturais.

Nesse sentido, ao abordar a questão da construção da identidade, Castells aponta que a identidade é a fonte de significado e experiência de um povo, com base em atributos culturais relacionados que prevalecem sobre outras fontes. O autor chama salienta que não devemos confundi-la com papéis, pois estes determinam funções e a identidade organiza

19 BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. In: NOGUEIRA, Maria Alice & CATANI, Afrânio (Org.). Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

BOURDIEU, Pierre. O capital social – notas provisórias. Idem. BOURDIEU, Pierre. Os três estados do capital cultural. Idem.

significados(Castells define significado como a identificação simbólica, por parte de um ator social, da finalidade da ação praticada por tal ator, que se organiza em torno de uma identidade primária, que organiza as demais). Desta forma, a construção da identidade depende da matéria-prima proveniente da cultura obtida, processada e reorganizada de acordo com a sociedade, na forma de identidades múltiplas.

O autor distingue três formas e diferentes origens no processo de construção da identidade, a saber:

- Identidade legitimadora – ligada às instituições dominantes da sociedade civil; - Identidade de resistência – elaborada por atores sociais que estão em posições

desvalorizadas ou discriminadas na sociedade, como “trincheiras de resistência”; - Identidade de projeto – gerada por atores sociais que partem dos materiais culturais a que têm acesso, em busca de uma redefinição de sua posição na sociedade.

Castells afirma que:

“Obviamente, identidades que começam como resistência podem acabar

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