2022
MAURO SCHIAVI
MANUAL DIDÁTICO DE
DIREITO DO
TRABALHO
2ª edição
XIII
DA RESPONSABILIDADE CIVIL NO
DIREITO DO TRABALHO
1. DO DANO
Ensina Agostinho Alvim1 “nós entendemos que o termo dano, em
sentido amplo, vem a ser a lesão de qualquer bem jurídico, e aí se inclui o dano moral. Mas em sentido estrito, dano é, para nós, a lesão do patri-mônio; e patrimônio é o conjunto das relações jurídicas de uma pessoa, apreciáveis em dinheiro. Aprecia-se o dano tendo em vista a diminuição sofrida no patrimônio. Logo, a matéria do dano prende-se à da indenização, de modo que só interessa o estudo do dano indenizável”.
Dano, na ótica de Maria Helena Diniz2, “é um dos pressupostos da
responsabilidade civil, contratual ou extracontratual, pois não pode haver ação de indenização sem a existência de um prejuízo. Consiste na lesão (diminuição ou destruição) que, devido a certo evento, sofre uma pessoa, contra a sua vontade, em qualquer bem ou interesse jurídico, patrimonial ou moral”.
O dano é a lesão de um bem jurídico, material ou imaterial ou ainda moral, tutelado pelo direito, que acarreta prejuízo à vítima.
Se o dano causa prejuízos no patrimônio da pessoa, ele é considerado material e pode ser reparado por um montante em pecúnia para tornar indene o prejuízo sofrido, ressarcindo o lesado dos danos emergentes (imediatos e atuais) e lucros cessantes (mediatos e futuros), o que o lesado razoavelmente ganharia se não houvesse o dano sofrido.
O dano é um dos pressupostos da responsabilidade civil, pois sem ocorrência de prejuízo, não há o dever de indenizar.
No Direito italiano e também no Direito brasileiro, costuma-se classi-ficar o dano, não pela sua origem, mas pela extensão dos seus efeitos, ou seja, pelos resultados que produz. Se o dano atingir o patrimônio, estaremos diante de um dano patrimonial; caso atinja um direito da personalidade sem conteúdo econômico, o dano será de ordem moral.
2. A RESPONSABILIDADE CIVIL
Segundo Maria Helena Diniz3, “responsabilidade é o dever de
res-ponder por atos que impliquem dano a terceiro ou violação da norma jurídica.”
Conforme sedimentado em doutrina, a responsabilidade civil é o tema mais importante do Direito Civil, mas não está adstrita a esse ramo do Direito, irradiando efeitos em praticamente todas as esferas jurídicas, inclusive no Direito do Trabalho, que é um ramo especializado do direito, cujos conceitos e pressupostos da responsabilidade civil são aplicáveis por força do art. 8º, da CLT.
Na esfera trabalhista, a responsabilidade civil é o instituto que disci-plina a reparação de danos ao empregado, ou ao empregador decorrente de violação de dever legal ou contratual em razão de conduta culposa.
O art. 186, do Código Civil, consagra uma regra universalmente aceita sob os pressupostos da responsabilidade civil.
Com efeito, aduz o referido dispositivo legal, in verbis:
“Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.
O Código Civil Brasileiro adotou, como regra geral, a teoria subjetiva da responsabilidade civil, fundada existência da culpa em sentido amplo.
Diante do referido dispositivo legal, são quatro pressupostos funda-mentais da responsabilidade civil, quais sejam:
a) ação ou omissão: Pressupõe um ato (agir) ou uma omissão do
agente, quando a prática de tal ato era exigível. A responsabili-dade pode derivar de ato próprio, de ato de terceiro que esteja sob a guarda do agente, ou ainda de danos causados por coisa e animais que lhe pertençam. Por exemplo, se um cão bravo atacar um transeunte na via pública, o dono responderá por omissão de vigilância do animal, já que tinha o dever jurídico de manter sua guarda.4
b) culpa ou dolo do agente: Em sentido genérico, a culpa engloba
o dano e a culpa em sentido estrito.
O dolo consiste livre e consciente de praticar uma conduta para violar o direito.
Culpa é a falta de um dever de cuidado. Falta de diligência. Mani-festa-se, pela imprudência, negligência e imperícia.
Conforme José de Aguiar Dias5 a “culpa genérica, que se desdobra
em dolo e culpa propriamente dita; aquele não é o vício de vontade, mas o elemento interno, que reveste o ato da intenção de vontade, mas o elemento interno, que reveste o ato da intenção de causar o resultado, ao passo que na culpa, em sentido restrito, a vontade é dirigida ao fato causador da lesão, mas o resultado não é querido pelo agente. A culpa é falta de diligência na observância da norma de conduta, isto é, o des-prezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado, não objetivado, mas previsível desde que o agente se detivesse na consideração das consequências eventuais da sua atitude. A teoria subjetiva desce a várias distinções sobre a natureza da culpa. Culpa lata ou ‘grave’ é a falta imprópria ao comum dos homens, é a modalidade que mais se avizinha do dolo. Culpa ‘leve’ é a falta evitável com atenção ordinária. Culpa ‘levíssima’ é a falta evitável com atenção extraordinária, com especial habilidade ou conhecimento singular. Na responsabilidade aquiliana a mais ligeira culpa produz a obrigação de indenizar (in lege
quilia et levíssima culpa venit)”.
Segundo a teoria da responsabilidade objetiva, não há necessidade de demonstração de culpa por parte do ofensor, sendo suficiente a existência do dano e do nexo causal da conduta do agente e dano.
c) Relação de causalidade: É a relação de causa e efeito entre a
ação ou omissão do agente e o dano verificado.
d) Dano: pode ser material ou moral, ou seja, sem repercussão na órbita financeira do ofendido. Sem a prova do dano ninguém pode ser responsabilizado civilmente. Quanto ao dano moral, este decorre da prova do fato lesivo (“in re ipsa”), ou seja, da ofensa, da perda da capacidade laboral, etc.
3. DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR POR DANOS CAUSADOS A SEUS EMPREGADOS
A responsabilidade civil do empregador por danos causados a seus empregados, como regra geral, é subjetiva, seguindo a regra do art. 186 do Código Civil.
Embora o empregador corra os riscos da sua atividade econômica (art. 2º, da CLT), esse fato não faz eclodir a responsabilidade objetiva, como regra geral, oriunda da teoria do risco da atividade, ou do risco criado. Sendo assim, a responsabilidade civil do empregador pela reparação dos danos causados ao empregado, sejam materiais, ou morais, é subjetiva como regra geral, vale dizer: responderá se presentes os pressupostos do art. 186 do Código Civil, quais sejam: ação ou omissão, culpa, o dano e nexo causal entre a ação e omissão e o dano.
Entretanto, hipóteses há em que a responsabilidade do empregador é objetiva.
Como bem assevera José Affonso Dallegrave Neto6 “o art. 2º da CLT
conceitua empregador como a empresa que ‘assume a atividade econômica’. Desse modo, não há dúvida que ao preconizar a assunção do risco pelo empregador, a CLT está adotando a teoria objetiva, não para a responsa-bilidade proveniente de qualquer inexecução do contrato de trabalho, mas para a responsabilidade concernente aos danos sofridos pelo empregado em razão da mera execução regular do contrato de trabalho. Dessarte, o empregado não pode sofrer qualquer dano pelos simples fato de executar o contrato de trabalho”.
Dallegrave Neto7, elenca hipóteses de responsabilidade objetiva do
empregador. São elas: “a) incidente sobre aquela decorrente da inexecução de resultado (teoria da culpa contratual presumida e art. 2º, da CLT); b) incidente sobre dano decorrente da simples e regular execução do contra-to em face da assunção de risco da atividade econômica (teoria do risco proveito e art. 2º, da CLT); c) incidente sobre a indenização acidentária em atividade normalmente de risco (teoria do risco criado – art. 927, parágrafo único do CC); d) incidente sobre danos ambientais em relação a todas as vítimas – comunidade de trabalhadores (art. 225, § 3º, e art. 14, § 1º, da Lei n. 6.938/81); e) atribuída ao empregador por dano de terceiro decorrente de ato praticado por empregado ou preposto em razão do con-trato de trabalho (responsabilidade por fato de outrem – art. 933, do CC)”. Concordamos com as palavras do professor Dallegrave Neto no sentido de que a responsabilidade do empregador é objetiva se o dano causado ao empregado foi em decorrência de um inadimplemento de norma con-tratual pelo empregador que seja potencialmente apta a acarretar dano ao empregado (por exemplo: dever contratual de fornecer equipamentos de segurança individual), ou proveniente da execução normal do contrato de trabalho. Também a nosso ver, a responsabilidade do empregador é objetiva quando este não cumprir um dever legal de vigilância e proteção do empregado durante o contrato de trabalho. Por exemplo, o emprega-dor deixa de fornecer uma arma a um vigilante devidamente preparado para usá-la e este vem a falecer em decorrência de um assalto na agência bancária por não possuir esse equipamento de segurança. Não obstante, o mero risco econômico que assume o empregador não gera a responsa-bilidade objetiva pelos danos causados ao empregado.
De outro lado, nas atividades de risco (art. 927, parágrafo único do Código Civil), onde a probabilidade da eclosão do sinistro seja mais acentuada que o normal, considerando-se o padrão médio da sociedade, a responsabilidade do empregador é objetiva, mas não pela teoria do risco integral, e sim pelo risco criado. Sendo assim, se houver prova da culpa exclusiva do empregado para o dano, caso fortuito ou força maior, não haverá o dever de indenizar por parte do empregador.
4. DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR POR ATOS DE SEUS PREPOSTOS OU EMPREGADOS POR DANOS CAUSADOS A TERCEIROS
Antes do Código Civil, o Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula n. 3418, havia sumulado o entendimento no sentido de que era
presumida a responsabilidade do empregador por atos de seus prepostos ou empregados.
O Código Civil de 2002, atualizado pelos novos rumos da respon-sabilidade civil oriundos do Código de Defesa do Consumidor, fixou responsabilidade objetiva do empregador por atos de seus prepostos. Agora, não há mais uma presunção juris tantum de culpa, e sim a res-ponsabilidade decorrente do próprio risco da atividade econômica que exerce o empregador (art. 2º, da CLT), conforme os arts. 932, III c/c 933 e 942, ambos do Código Civil.
Essa responsabilidade do empregador é objetiva para danos causados a terceiros, praticados pelos seus empregados, tendo o dano nexo casual com a atividade laboral.
5. DA RESPONSABILIDADE DO EMPREGADO POR DANOS CAUSADOS AO EMPREGADOR
Conforme o art. 462 da CLT, “ao empregador é vedado efetuar qual-quer desconto nos salários do empregado, salvo quando este resultar de adiantamentos, de dispositivos de lei ou de contrato coletivo. Parágrafo único. Em caso de dano causado pelo empregado, o desconto será lícito, desde que esta possibilidade tenha sido acordada ou na ocorrência de dolo do empregado”.
É sabido que o empregador corre os riscos da atividade econômica (art. 2º, da CLT). Também, como regra geral, os princípios da irredutibilidade e intangibilidade salariais protegem o salário contra eventuais reduções ou descontos. Não obstante, esses princípios de proteção ao salário e também o fato de o empregador suportar os riscos da atividade econômica não isentam o empregado de responder pelos danos causados ao empregador, quando
sua conduta for culposa, ou dolosa, restando aplicável também a regra geral do art. 186 do CC, por força do art. 8º, da CLT.
Na hipótese de culpa, conforme o § 1º, do art. 462, da CLT, o em-pregado somente responderá se tal cláusula constar expressamente do contrato de trabalho e de forma escrita. A nosso ver, não basta o ajuste tácito diante das consequências que podem acarretar ao empregado, máxime em razão dos princípios de proteção ao salário, como fonte de renda do trabalhador. Quando houver dolo do empregado, torna-se desnecessária a previsão contratual.
Sob outro enfoque, quando os prejuízos causados ao empregador forem em razão da natureza da atividade, ou quando o empregado trabalhar em atividade de risco (art. 927, parágrafo único do CPC), onde há probabilidade mais acentuada de causar danos aos equipamentos de trabalho, mesmo ha-vendo previsão contratual de desconto salarial em razão de conduta culposa do empregado, acreditamos que, nessa hipótese, o empregador corre os riscos da atividade, isentando o empregado de tal responsabilidade.
6. DA RESPONSABILIDADE DO EMPREGADOR PELOS DANOS CAUSADOS AO EMPREGADO DECORRENTES DO ACIDENTE DE TRABALHO
6.1. Do acidente de trabalho: questões conceituais
A Lei Previdenciária nos traz, por meio de interpretação autêntica, o conceito de acidente de trabalho. Com efeito, dispõe o art. 19, da Lei 8213/91, “in verbis”:
a manipular. § 4º O Ministério do Trabalho e da Previdência Social fiscalizará e os sindicatos e entidades representativas de classe acom-panharão o fiel cumprimento do disposto nos parágrafos anteriores, conforme dispuser o Regulamento.”
Conforme o referido dispositivo legal, o acidente de trabalho é aquele que:
a) ocorre pelo exercício de trabalho em prol do empregador; b) provoca dano;
c) o dano consiste em lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
Como bem adverte Sebastião Geraldo de Oliveira9, “é da essência do
conceito de acidente do trabalho que haja lesão corporal ou perturbação funcional. Quando ocorre um evento sem que haja lesão ou perturbação física ou mental do trabalhador, não haverá, tecnicamente acidente do trabalho. Tanto que há expressa menção legal que não será considerado doença do trabalho a que não produza incapacidade laborativa (...)Além da lesão ou perturbação funcional, é necessário, para completar o con-ceito de acidente do trabalho, que o evento acarrete a morte, ou a perda ou redução, permanente ou temporária da capacidade para o trabalho.”
Conforme Luciano Martinez10, “doença ocupacional é o acontecimento
de ocorrência paulatina, por exposição a agentes endógenos, que decorre direta ou indiretamente do trabalho e que, tal qual o acidente típico, é capaz de agredir a integridade física ou psíquica do trabalhador.”
O art. 20, da Lei 8.213/91 equipara para fins previdenciário, a doença do trabalho ou profissional ao acidente de trabalho. Com efeito, dispõe o referido dispositivo legal:
“Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo an-terior, as seguintes entidades mórbidas: I – doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência
9 Indenizações por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacional. 11ª ed. São Paulo: LTr, 2019, p. 50.
Social; II – doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o traba-lho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação mencionada no inciso I. § 1º Não são consideradas como doença do trabalho: a) a doença degenerativa; b) a inerente a grupo etário; c) a que não produza incapacidade laborativa; d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela natureza do traba-lho. § 2º Em caso excepcional, constatando-se que a doença não incluída na relação prevista nos incisos I e II deste artigo resultou das condições especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona diretamente, a Previdência Social deve considerá-la acidente do trabalho.”
Conforme o referido dispositivo legal são equiparadas ao acidente de trabalho para fins previdenciários e de responsabilidade civil do em-pregador, as seguintes entidades mórbidas:
a) doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadea-da pelo exercício do trabalho peculiar a determinadesencadea-da atividesencadea-dade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social;
b) doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desenca-deada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social. A doença do trabalho tem nexo causal (causa e efeito) com as ati-vidades que o empregado desempenha par ao empregador. Já a doença profissional é própria de uma categoria, ou de um tipo especial do trabalho, a exemplo dos digitadores que desenvolvem a DORT.
Diferentemente do acidente que acontece em evento único, a doença é desencadeada de forma paulatina, muitas vezes insidiosa em razão das condições peculiares do trabalho ou de determinada profissão.
recuperação; II – o acidente sofrido pelo segurado no local e no horá-rio do trabalho, em conseqüência de: a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho; b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho; c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de companheiro de trabalho; d) ato de pessoa privada do uso da razão; e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de força maior; III – a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no exercício de sua atividade; IV – o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho: a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da empresa; b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar proveito; c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão de obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de propriedade do segurado; d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado. § 1º Nos períodos destinados a refeição ou descanso, ou por ocasião da satisfação de outras necessidades fisiológicas, no local do trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho. § 2º Não é considerada agravação ou complicação de acidente do trabalho a lesão que, resultante de acidente de outra origem, se associe ou se superponha às conseqüências do anterior.
6.2. Teorias sobre a responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho
Com relação à responsabilidade do empregador pelos danos causados ao empregado em razão do acidente de trabalho, há três entendimentos sobre a responsabilidade civil do empregador, quais sejam:
a) teoria da responsabilidade subjetiva apenas;
b) teoria da responsabilidade subjetiva, sendo a responsabilidade objetiva em atividades de risco;
6.3. Teoria da responsabilidade subjetiva do empregador pela reparação dos danos causados ao empregado no acidente de trabalho
Para esta teoria, a responsabilidade do empregador é sempre subjetiva, mesmo onde há atividades de risco, pois o art. 7º, XXVIII11, exige o dolo
ou culpa do empregador. Como se trata de uma regra Constitucional, a legislação ordinária (CC, art. 927, parágrafo único) não pode com ela confrontar.
6.4. Teoria da responsabilidade objetiva do empregador pela reparação dos danos causados ao empregado no acidente de trabalho
Para essa teoria, o empregador responde objetivamente pelos danos causados à saúde do empregado, como regra geral, já que, com sua atividade econômica, gerou uma situação de risco para o empregado, aplicando-se a teoria do risco criado.
Segundo Sebastião Geraldo de Oliveira12, “a modalidade mais aceita
e que supera o embaraço anterior é do risco criado, porquanto não indaga se houve ou não proveito para o responsável; a reparação do dano é devida pela simples criação do risco. Segundo o saudoso Caio Mário, o conceito de risco que melhor se adapta às condições de vida social é o que se fixa no fato de que, se alguém põe em funcionamento uma qualquer atividade, responde pelos eventos danosos que esta atividade gera para os indivíduos, independentemente de determinar se em cada caso, isoladamente, o dano é devido à imprudência, à negligência, a um erro de conduta, e assim se configura a teoria do risco criado”.
Para essa teoria, a responsabilidade do empregador é objetiva, como regra geral, somente podendo ser excluída em hipóteses de caso fortuito ou força maior, ou ainda em casos de culpa exclusiva da vítima.
São fortes os argumentos de justiça e equidade para se adotar a teoria da responsabilidade objetiva do empregador. Por isso, pensamos que a Justiça do Trabalho poderá adotá-la em face da hipossuficiência do em-pregado, da dificuldade probatória do trabalhador em juízo e do relevante
XV
DIREITO COLETIVO DO TRABALHO
1. CONCEITO E FINALIDADES
Segundo os relatos históricos da doutrina, o chamado Direito Coletivo do Trabalho surgiu antes do Direito Individual, embora, didaticamente, o Direito Coletivo seja estudado por último nos livros de doutrina e cursos jurídicos, uma vez que a união dos trabalhadores, e o reconhecimento do direito de união foi um dos fatores mais importantes para o surgimento das primeiras normas trabalhistas.
Embora a doutrina sistematize princípios peculiares do Direito Co-letivo, ele ainda não ganhou autonomia científica, sendo, uma divisão do próprio Direito do Trabalho, uma vez que está atrelado à própria razão de ser das normas trabalhistas, que é busca pela melhoria da condição social do trabalhador. Isso é destacado pela própria Consolidação das Leis do Trabalho, que em seu art. 1º, assevera:
“Esta Consolidação estatui as normas que regulam as relações individuais e coletivas de trabalho, nela previstas.”
Como bem adverte Carlos Henrique Bezerra Leite1, “o direito coletivo
não constitui ramo autônomo do direito, e sim parte integrante do direito do trabalho, na medida em que o seu objeto reside, como já apontado alhures, não apenas no estudo da organização sindical, das negociações coletivas e dos conflitos coletivos do trabalho e suas soluções, mas também na representação dos trabalhadores na empresa dos conselhos de fábrica, da greve do lockout etc.”
Não há também consenso sobre a denominação da disciplina, para muitos a denominação para as relações coletivas do trabalho e as normas que a disciplinam deve ser Direito Sindical, uma vez que o Sindicato é o grande protagonista das relações coletivas de trabalho. A própria Conso-lidação das Leis do Trabalho, no título V, trata da Organização Sindical, Enquadramento Sindical, Contribuições Sindicais, e funções do Sindicato, principalmente, a negociação coletiva de trabalho.
Segundo Amauri Mascaro Nascimento2, “o direito sindical está
consolidado na vida dos povos e nos ordenamentos jurídicos. São qua-dro, segundo a melhor doutrina, as partes que se compõe: a) organização sindical; b) a ação e funções dos entes sindicais, em especial a negociação coletiva de trabalho e suas formas de composição; e d) a representação não sindical ou mista dos trabalhadores na empresa.”
Outros, defendem a denominação Direito Coletivo do Trabalho, pois as relações coletivas de trabalho não se restringem à atuação Sindical, pois envolvem, também, os conflitos coletivos de trabalho e formas de solução, bem como os instrumentos de pressão como a Greve e o Locaute.
Conforme Maurício Godinho Delgado3, a expressão Direito Coletivo
do Trabalho é de caráter objetivista, realçando o conteúdo do segmento jurídico identificado: relações sociojurídicas grupais, coletivas, de labor. A expressão Direito Sindical tem caráter subjetivista, enfatizando um dos sujeitos do Direito Coletivo do Trabalho: o sindicato.
Tem prevalecido, as denominações mistas, que enfatizam o prota-gonismo dos Sindicatos na esfera do Direito Coletivo do Trabalho, mas reconhecem outros institutos coletivos em que não há a participação sindical, a exemplo da representação dos trabalhadores nas empresas.
De nossa parte, diante do ordenamento jurídico vigente, a melhor denominação é Direito Coletivo do Trabalho, que abrange a estrutura e criação dos sindicatos, representação sindical, formas de solução dos con-flitos coletivo de trabalho, negociação coletiva de trabalho, representação dos trabalhadores nas empresas, greve e locaute.
Na visão de Maurício Godinho Delgado4, o direito Coletivo do
Tra-balho define-se como “complexo de institutos, princípios e regras jurídicas
2 Compêndio de Direito Sindical. 7ª ed. São Paulo: LTr, 2012, p. 27.
que regulam as relações laborais de empregados e empregadores, e outros grupos jurídicos normativamente especificados, considerada sua atuação coletiva, realizada autonomamente ou através das respectivas entidades sindicais.”
Podemos conceituar o Direito Coletivo do Trabalho, como o segmento do Direito do Trabalho, composto por princípios, regras e institutos que disciplinam a organização sindical, a representação direta dos trabalhadores nas empresas, as formas de solução dos conflitos coletivos de trabalho, e as formas de pressão da classe trabalhadora e empresas (greve e locaute).
A finalidade do direito coletivo do trabalho, assim como o Direito Individual, é a melhoria da condição social dos trabalhadores, pela busca de melhores condições de trabalho e solução dos conflitos coletivos de trabalho.
2. DO INTERESSE COLETIVO
A atuação das entidades sindicais, as funções do Direito Coletivo do Trabalho, giram em torno do chamado interesse coletivo.
A doutrina sempre se esforçou para definir o que seja o interesse coletivo, pois este transcende a esfera individual para atingir um número significativo de pessoas.
O Direito do Trabalho, desde o seu surgimento, convive com os interesses coletivos, que tanto podem ser concretos, ou seja, quando há lesão coletiva de um direito já existente, ou quando o interesse se dá em abstrato, visando à criação de novas normas para a categoria.
Com efeito, diz o art. 8º, III, da CF:
“Ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas”.
atualmente, o entendimento do Supremo Tribunal Federal que a legiti-midade do sindicato para a defesa dos direitos individuais homogêneos da categoria é ampla.
Pedro Paulo Teixeira Manus5 nos traz a seguinte definição do
inte-resse coletivo no aspecto trabalhista:
“O interesse coletivo, no direito do trabalho é aquele de que é titular a categoria, ou uma parcela da categoria, como o grupo de empregados de algumas empresas, de uma empresa, ou grupo de empregados de um ou alguns setores de uma empresa. Esse interesse ultrapassa as pessoas que a integram porque indeterminado, sendo titular o grupo, cujos integrantes podem vir a ser determinados a cada momento e estão ligados entre si por pertencerem à mesma empresa, setor ou categoria profissional”.
Averte Antonio Monteiro Fernandes6, “não existe, pois, um critério
para a determinação da existência de interesses colectivos. Pode, sim, deduzir-se pela via (sindical) pela qual se afirmam as pretensões, do método pelo qual são prosseguidas (a negociação nos termos regula-dos pela lei) e da amplitude regula-dos efeitos que se vise desencadear com o resultado final: efeitos destinados a cristalizarem em certos contratos individuais, ou, invés, os efeitos de um padrão geral para um conjunto abstracto de relações laborais (efeitos normativos, portanto). São estes traços os que particularmente definem o fenómeno de superação (e, em certa medida, apagamento) dos interesses singulares ou individuais que leva à afirmação de interesses colectivos e às correspondentes formas de prossecução”.
O art. 81, da Lei n. 8.078/90, define, por meio de interpretação autêntica, os interesses transindividuais, dos quais o interesse coletivo é uma das suas espécies.
Com efeito, aduz o referido dispositivo legal:
“A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo. Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
5 Negociação Coletiva e Contrato Individual de Trabalho. São Paulo: Atlas, 2001, p. 27.
(...) II – interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais de natureza indivisível, de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base”.
Diante do referido dispositivo legal, pensamos ser interesse cole-tivo para fins trabalhistas: o que transcende o aspecto individual para
irradiar efeitos sobre um grupo ou categoria de pessoas, sendo uma espécie de soma de direitos individuais, mas também um direito pró-prio do grupo, cujos titulares são indeterminados, mas que podem ser determinados, ligados entre si por uma relação jurídica base. Em razão disso, no Direito do Trabalho, cada categoria pode defender o próprio interesse e também, por meio de negociação coletiva, criar normas a viger no âmbito da categoria.
3. DOS PRINCÍPIOS DO DIREITO COLETIVO DO TRABALHO
Como já mencionado, segundo a Teoria Geral do Direito que nor-mas são mandamentos que regem a vida em sociedade, tidas por seus membros, como obrigatórias. Fazem parte do dever ser. Tais normas que disciplinam determinadas condutas humanas podem estar positivadas no ordenamento jurídico, ou não, podem estar escritas ou não, podem derivar de uma Entidade de Poder, como as leis e a jurisprudência, ou ser reco-nhecidas espontaneamente dentro de determinado segmento social, como o costume. Podem também ser o fundamento das regras que disciplinam determinados comportamentos humanos, como os princípios, que podem estar positivados ou não.
Em razão disso, podemos dizer que norma é um gênero, do qual, as regras (normas positivadas ou não), que se exteriorizam por meios dos princípios, leis, jurisprudências ou costume são espécies.
Conforme a doutrina, os princípios têm quatro funções: a) inspiradora do legislador; b) interpretativa; c) suprimento de lacunas; d) sistematização do ordenamento, dando suporte a todas as normas jurídicas, possibilitando o equilíbrio do sistema.
3.1. Princípios específicos do Direito Coletivo do Trabalho
A doutrina costuma enumerar os princípios do Direito Coletivo do Trabalho, mas na verdade todos derivam do princípio cardeal que direciona os entes coletivos no Direito do Trabalho que é o da liberdade sindical. 3.1.1. Liberdade Sindical
A liberdade, que faz parte da condição humana, e é uma das vertentes mais expressivas da dignidade humana, como um direito de autodetermi-nação, é apontada pela doutrina, como o fundamento e razão de ser do Direito Sindical e Coletivo do Trabalho.
A liberdade sindical é vista sob o enfoque individual e coletivo. No aspecto individual, configura-se pela liberdade que têm os trabalhadores e empregadores de se vincular ou não a um sindicato ou de criar, nos limites da lei, uma categoria profissional ou econômica. Sob o enfoque coletivo, a liberdade permite aos sindicatos sua organização e gestão, bem como de praticar os atos inerentes à representação da categoria.
Conforme Luciano Martinez7, a liberdade sindical “é o princípio
se-gundo o qual os trabalhadores e os empregadores, sem qualquer distinção e sem autorização prévia, têm o direito de constituir as organizações que entendam convenientes, assim como o dever de afiliar-se a essas organi-zações com a única condição de observar-se seus estatutos.”
Convenção 87, da Organização Internacional do Trabalho, não rati-ficada pelo Brasil, consagra a liberdade sindical plena, valendo destacar os arts. 1º a 5º, “in verbis”:
“Cada Membro da Organização Internacional do Trabalho, para o qual a presente Convenção está em vigor, se compromete a tornar efetivas as disposições seguintes.”
ARTIGO 2:
“Os trabalhadores e os empregadores, sem distinção de qual-quer espécie, terão direito de constituir, sem autorização prévia, organizações de sua escolha, bem como o direito de se filiar a essas organizações, sob a única condição de se conformar com os estatutos das mesmas.”