QUESTÕES EDUCACIONAIS EM ANTÍGONA
FERNANDES GOMES, Renan Willian (Bolsista CAPES/UEM) PEREIRA MELO, José Joaquim (Orientador/UEM)
Considerações iniciais
O processo de formação do homem grego da Grécia clássica pode ser entendido como um resultado angariado pelo processo de transformação social, cultural, político e econômico desenrolado em meados dos séculos VIII e V a.C, época, segundo estudiosos, considerada como um período contraditório, que marcava o enfraquecimento de uma ordem social e o nascimento e consolidação de outra. O mito e sua influência na vida helênica passou a ceder espaço para a racionalidade, promotora da vida na polis.
No processo de negação do mundo mítico, fundado em uma religião doméstica, e de afirmação da razão e da filosofia, as comunidades de aldeias dos tempos homéricos, organizadas em clãs, foram cedendo lugar a uma nova organização socio/politica: as unidades políticas maiores e mais complexas das Cidades-Estado, por sua originalidade, particularizaram a civilização grega.
Uma das grandes modificações havidas desde a época micênica é o grande aumento do número de unidades políticas independentes. Ao invés de uns poucos grandes reinos, talvez sujeitos, todos eles, ao domínio do rei Micenas, encontramos em quase todo vale uma cidade que pretende ser um poder soberano, sem fidelidade a ninguém — na verdade, a cidade-Estado, característica da Grécia clássica (LLOYD-JONES, p.27, 1962).
tomam uma forma nova, cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos” (VERNANT, 2002, p. 53).
De um lado, as novas relações que se estabeleciam, desvinculadas da consanguinidade e ordenadas pela nova construção administrativa, punham em tela o ideal igualitário que alavancava a democracia nascente. De outro, a conjunção do corpo social liquidava a hierarquia sustentada pelo poder das famílias aristocratas.
Essa nova realidade grega teve raízes nas transformações promovidas pela concentração da riqueza agrária, a qual aumentou o poder econômico dos grandes proprietários sobre as populações agrárias. Ao mesmo tempo, tais proprietários arrebataram a autoridade política do rei, atribuindo-a a um conselho, que, de maneira geral, estava sujeito às suas manobras. Por fim, liquidaram por completo o sistema monárquico.
Nesse cenário de mudanças econômicas e de agitações políticas, os gregos conheceram, particularmente no decorrer do século VII a.C., um movimento migratório para regiões não habitadas, onde promoveram a fundação de colônias.
Com a conquista de novos mercados, ocorreu uma revolução econômica no mundo grego, caracterizada pela diversificação de atividades, pela ampliação da produção artesanal e pela expansão do comércio. O comércio possibilitou certa autonomia ao novo agente social, o comerciante.
Como resultado, a população urbana aumentou a necessidade de trocas e de riqueza adquirindo novas formas. Já no século VI, por exemplo, era amplo o uso da moeda nas transações comerciais.
Na dinamicidade desse movimento, alimentada pelas vitórias sobre os inimigos e pela aquisição/compra de devedores que não conseguiam regularizar suas dívidas, a escravidão se impôs como realidade institucional (LARA, 2001).
Na luta contra o inimigo comum — o comerciante —, a oligarquia fundiária, os setores médios ascendentes associaram-se aos homens do campo desapropriados. O resultado desse acirrado conflito foi entre os patriarcas do gnenos e a nova classe de homem que reclamava participação nas decisões da cidade.
em que se encontrava a sociedade grega. Demagogos ávidos de poder conquistaram apoio popular suficiente para atingir os seus fins, à revelia das constituições e leis.
Finalmente, o descontentamento com esse governo de poderes ilimitados, o aumento do poder econômico e a consciência política desenvolvida por cidadãos comuns criaram as condições para a implantação da democracia (BURNS, 1980).
Os séculos V e VI a.C. representam a época clássica na história grega. Nessa época de ouro, termo que tem o mesmo sentido, a cultura helênica chegou ao amadurecimento e desenvolveu todas as suas potencialidades.
Foi em meio a esse conturbado período que a tragédia se apresentou como o espelho do qual o grego necessitava para refletir acerca de sua vida. Assim, destaca-se a dramaturgia/teatro e consigo a tragédia, que ganhou importância na cultura dos gregos, especialmente dos atenienses.
Dentre suas características literárias, o princípio da mimeses destacado por Aristóteles serviu como espelho para o grego refletir sobre as mudanças que se davam nesse período. “A tragédia devolve à poesia grega a capacidade de abarcar a unicidade de todo o humano” (JAEGER, 1995). Isto posto, o universo trágico pode oferecer pistas para melhor entender a complexidade daquela sociedade que deixou marcas até a contemporaneidade.
Sófocles foi um dos mais dramaturgos de maior destaque do mundo antigo e ainda hoje é reconhecido seu estilo de força dramática e exímia elaboração na construção de seus enredos. O poeta viveu nesse período conturbado da história grega, conforme acima mencionado, por isso, pode-se perceber em sua tragicidade a preocupação com o o homem de seu tempo, inserido num estado de conflitos e carente de orientação acerca de sua vida e, principalmente, do seu destino. Em suma, pode-se pensar em Sófocles como o poeta que escreveu para o seu tempo.
Metodologia
necessário, num primeiro momento, contextualizar o poeta em seu tempo, a fim de demonstrar que sua proposta formativa não foi fruto do acaso, mas sim, resultado de transformações ocorridas na Grécia entre os séculos VI e V. Isso implicou compreender a organização da sociedade grega naquele momento histórico, como a base sobre a qual se funda esse processo formativo.
Por outro lado, o ideal educativo sofocliano deve ser percebido nas relações que Sófocles teceu para Antígona no mundo que a rodeava e a levou a assumir uma postura de defensora da antiga tradição, partcularmente na força religiosa desta. Tal postura, para o poeta, deveria servir de espelho para o cidadão, não no sentido para que fosse imitada, mas, sim, para que o homem pudesse refletir sobre o sentido de ser da postura da princesa. Em outras palavras, quem assistia ao desenrolar do espetáculo poderia, outrora admirador do herói idealizado pela aristocracia, agora veria a necessidade de se repensar um referencial diferenciado e de um novo comportamento, ou seja, que escrevesse a sua própria história a partir de uma ação mais racional e ativa em sociedade.
Entendeu-se, assim, que as preocupações concernentes ao aperfeiçoamento do homem estão presentes em todas os tempos, lugares e culturas. No entanto, assumem diferentes direções e características de acordo com os reclames de cada época. Destarte, conceitos e princípios elaborados em fases anteriores podem ser levantados, repensados, e analisados em sua dinâmica própria e, ao mesmo tempo, serem reconsiderados nas análises que se colocam para o homem de hoje.
Desse modo, discutiu-se a educação a partir da dinâmica da sociedade, isto é, como produto histórico dos homens. A partir dessa premissa, acredita-se que as necessidades produzidas em diferentes momentos adquirem também formas e propostas distintas. Em suma, o processo educacional deve ser percebido nas relações que os homens travam entre eles, ao buscar, assim, produzir ou reproduzir a sua própria existência naquele(s) momento(s) determinado(s), que requisitavam uma ação dinâmica e efetiva desse mesmo homem.
com fins artísticos, foi a base sobre a qual se pôde entender a proposta de formação concebida por Sófocles para a sociedade helênica.
Do mito à razão: conflito na pólis
A fundamentação religiosa helênica foi, num primeiro momento, orientada pelo mito e as divindades olímpicas. A mitologia, pode-se pensar, assumia a tarefa/encargo de servir o homem como uma orientadora, norteando suas decisões e ações em sociedade. Com isso, a educação/formação expressava seu caráter fundamentalmente religioso, porquanto o homem desde menino aprendia a respeitar os desígnios dos deuses e a se conformar com eles de bom grado. Contudo, a partir do fenômeno de reorganização social — a passagem de uma sociedade agrária para um voltada para a cidade — permitiu o surgimento da filosofia e a ascenção da racionalidade.
Diante disso, houve, pode-se assim pensar, um choque entre a antiga tradição e a racionalidade que então se instaurava.
A Cidade-estado se estabeleceu como um referencial de desenvolvimento, onde a idéia do coletivo passou a vigorar. O homem iniciou um processo de reflexão sobre quais rumos ele deveria tomar em sua vida a partir do que lhe era exigido pela cidade. Segundo Werner Jaeger, a pólis propagava uma espécie de consciência coletiva; havia um sentimento de identificação/igualdade entre os habitantes de uma mesma pólis.
A gigantesca influência da pólis na vida dos indivíduos baseava-se na igualdade do pensamento dela. O Estado converteu-se num ser especificamente espiritual que reunia em si os mais altos aspectos da existência humana e os repartia como dons próprios [...] Para a identificação total de um grego exigia-se não só o seu nome e o de seu pai, mas também o da sua cidade natal. Pertencer a uma cidade tinha para os Gregos um valor ideal análogo ao do sentimento nacional para os modernos (JAEGER, 1995, p. 141).
Portanto, é à pólis que se deve creditar a influência racional na vida do cidadão helênico, visto que foi em seu interior que se desenvolveu o princípio de igualdade. Esse espaço privilegiado reuniu em si os mais altos valores da existência humana, os quais eram entendidos como dons próprios de cada cidadão. A vida e a justiça, até então guiadas pela interpretação da vontade deuses e pela arbitragem dos reis, assumiram a condição de lei e legislação escrita.
Compreende-se assim o alcance de uma reivindicação que surge desde o nascimento da cidade: a redação das leis. Ao escrevê-las, não se faz mais que lhes assegurar permanência e fixidez. Subtraem-se à autoridade privada do Basileis, cuja função era “dizer” o direito; tornam-se bem comum, regra geral, suscetível a ser aplicada a todos de mesma maneira (VERNANT, 2002, p. 57).
Por isso, o grego vivia na cidade, pela cidade e para a cidade. A cidade tornou-se para o grego comum e, particularmente, para o homem livre o mais significativo valor da sua existência. Nela seria realizava a plenitude humana, visto, no seu âmbito, os gregos sentirem-se livres e protegidos das agressões da natureza, das contendas sociais. Sentiam-se livres do poder dos reis que submetiam os outros povos e, de certa forma, do medo das forças sobrenaturais, já que eles tinham humanizado seus deuses, fazendo deles seus concidadãos.
A cidade incorporava a realização mais perfeita da vida, a única considerada verdadeiramente humana: ela estabelecia um diferencial entre o grego civilizado e os outros povos, que eram considerados bárbaros. Por isso, o grego vivia intensamente e dedicava-se plenamente à sua cidade. Não pensava em outra forma de viver, nem tampouco tinha a intenção de levá-la a outros povos. Pode-se inferir que essa radicalização na concepção da vida na pólis levou à inibição de qualquer tentativa de unificação política do espaço grego, mesmo tendo-se em conta as diversas iniciativas de união entre as cidades (LARA, 2001).
Liberando o homem dos implacáveis desígnios divinos, esta tornou possível que ele, a partir das suas próprias habilidades, fizesse sua historia na ágora1.
De acordo com Jean-Pierre Vernant, era na ágora que a cidade costumava centralizar-se. Esta praça pública servia apropriadamente como um espaço para o debate e a discussão dos problemas de interesse comum (VERNANT, 2002).
Com a pólis, o que era secreto no interior da família — o culto às divindades do período patriarcal — passou a fazer parte de toda a cidade:
Essa transformação de um saber secreto de tipo esotérico, num corpo de verdades divulgadas no público, tem seu paralelo num outro setor da vida social. Os antigos sacerdotes pertenciam como propriedade particular a certos gene e marcavam seu parentesco especial com um poder divino; – a pólis, quando é constituída, confisca-o em seu proveito e os transforma em cultos oficiais da cidade (VERNANT, 2002, p. 58).
Nesse sentido, a religião deixou de ter um caráter puramente doméstico. Os cultos dedicados às divindades deixaram de ser restritos ao interior das casas e passaram a ocorrer nas ruas, nas festas populares. Surgiu, assim, uma “religião da cidade”2. Quando o cidadão helênico abandonou os velhos preceitos da religião gentílica e deixou de aplicar os ensinamentos legitimados pela religião doméstica, estes perderam a função de guia da comunidade em contínuo crescimento.
Esse novo homem deparou-se com a possibilidade de agir em sociedade, de escrever sua história, começando a se entender como parte fundamental dessa mesma sociedade. De um lado, o homem grego tinha sua vida traçada pelos deuses; de outro, configurava-se a possibilidade de agir com base em sua vontade, escrever sua própria história, responder por seus atos.
O quadro de conflito vivido pelo homem grego e que o colocava em dois pólos opostos e conflitantes foi devidamente representado nas manifestações artísticas surgidas na Grécia, especialmente na tragédia: “[...] a contradição trágica pode situar-se
1
Ágora: praça pública onde os cidadãos gregos se reuniam para discutir e expressar suas ideias. Era também na ágora que os filósofos e oradores se reuniam para mostrar suas habilidades de reflexão ou de convencimento.
2
no mundo dos deuses, e seus pólos opostos podem chamar-se Deus e homem, ou pode tratar-se de adversários que se levantam um contra o outro no próprio peito do homem” (LESKY, 1995, p.31).
Isto posto, o universo ficcional da dramaturgia pode ser considerado como um tipo de “registro histórico”, no sentido de que representa a época na qual dada obra foi produzida. Isto quer dizer que, no caso da tragédia grega, o choque ocasionado pelo embate mito versus razão pode ser compreendido com a leitura das tragédias, em particular, Antígona.
Sófocles e sua proposta formativa em Antígona
De estilo elaborado e reflexão aguçada, Sófocles foi autor de mais de cem peças, das quais dezoito mereceram distinções e prêmios. O conjunto de sua obra, a exemplo de poucos escritores gregos, expressa o ideal grego do “nada em excesso”. Sua atitude e estilo são ímpares, quando se trata da deferência e exaltação da harmonia e da paz, do respeito e da dedicação à democracia, da simpatia e da habilidade no trato das fraquezas humanas (BURNS, 1980, p.182).
Sófocles tornou-se um símbolo do artista que busca a mediação entre os pólos opostos, entre os extremos. Quando essa mediação se mostrou impossível, ele lançou mão de uma elegia aprazível e amargurada. Sua maneira de representar a impossibilidade de se voltar atrás apresentou-se posteriormente como síntese primorosa. Em face disso, ele conquistou a graça e a simpatia dos defensores e partidários do equilíbrio notadamente estético: dos classicistas (CARPEAUX, 1959, p.83).
Nesse momento, de acordo com o estabelecido pelos cânones, assentam-se as normas e preparam-se os caminhos para a realização da educação no seu recorte clássico. Acrescente-se que, já nessa época, a palavra educação era investida do sentido de formação consciente (GALINO, 1973).
Artista da palavra e da cena, hábil calculador dos efeitos, mestre da construção dramática e da narrativa analítica do enredo, Sófocles colocava-se entre o pathos coletivista de Ésquilo e o individualismo de Eurípedes.
Sófocles viveu em um período conturbado. Mesmo não tendo sido repentina a transição do génos para a pólis as mudanças foram traumáticas para o homem que passou por esse processo de transformações. A sua forma de viver, antes sustentada na organização familiar já desestruturada, fez com que procurasse outra forma de organizar-se socialmente. Surgiu então a cidade como tentativa para amenizar esse problema.
Com a cidade mudou a maneira de conduzir a forma de viver. O poder patriarcal perdeu sua influência na administração da comunidade. E a crença na religião doméstica deixou de ocupar papel de norteadora da vida do homem com seus cultos e celebrações.
O homem substituiu antigos costumes e tradições religiosas por códigos de leis que foram elaborados para se impor à ordem social e manter as relações políticas e comerciais que dariam a nova forma à cidade: a cidade-Estado democrática conduzida por cidadãos que faziam uso da reflexão filosófica e da retórica na sua administração.
Mas o rompimento com o velho sistema não foi fácil para o grego, o que causou um estado de conflito nesse homem, pois dar lugar ao “novo” foi uma tarefa que provocou contradições numa sociedade ainda em processo de transição.
O homem grego da pólis já não era tão dependente das antigas tradições e dos costumes arcaicos. Mesmo porque as alterações na maneira de condução da sociedade foram influenciados pela reflexão filosófica e pela discussão política, que acabaram por expor esse homem às novas formas de compreensão de si e do mundo.
o desenvolvimento da pólis, como: os códigos de “leis escritas”, a incrementação do comércio, a instituição dos tribunais e das assembléias.
Entre os “instrumentos” de que os legisladores e administradores da pólis fizeram uso na tentativa de amenizar as contradições na sociedade estava o teatro.
Mesmo surgindo como expressão da velha ordem gentílica, por ter como temática os mitos da tradição arcaica e por fazer parte de uma festividade religiosa, o teatro serviu aos interesses dos que estavam no comando da nova forma de organização social. Estes legisladores e administradores não só oficializaram a festa popular na qual as peças eram encenadas como um evento da cidade-Estado, mas também ajudavam na realização das suas encenações com patrocínios.
Fazendo uso dessas encenações, Sófocles, mesmo que não intencionalmente, colocou o posicionamento de Antígona contra a imposição da nova ordem. Na verdade, tal posicionamento não é motivado apenas pela forma de agir do tirano Creonte, mas também, e fundamentalmente, pela fé, pela devoção aos valores e às práticas com as quais a princesa convivera, ou seja, à religião na qual foi criada/formada. Antígona sublevou-se porque era fiel à lei do sepultamento obrigatório, ato negado ao irmão, estigmatizado como inimigo da pátria.
Antígona contém elementos para outra discussão, na medida em que a mulher está no centro do conflito, numa diegese em que defende o culto dos mortos em oposição à autoridade dos homens (ROBERT, 1987). Em razão das características da sociedade grega, seria normal que a autoridade fosse defendida por um homem. Afinal, a discussão que Sófocles propôs refere-se ao embate entre a aristocracia e a cidade-estado, representada por Creonte. Este se impunha como a autoridade que até ordenava o mundo no momento, aquela, proveniente do Olimpo, contrapunha-se à sua decisão, por considerar que ele excedia os limites da humanidade. Apesar de Antígona também responder por sua decisão, ela se converteu em vencedora, pois sua integridade foi legitimada pelo sacrifício (NAGEL, 2006).
do homem e o seu fortalecimento para viver em sintonia com sua sociedade em transformação.
Com essa trama, dando expressão à ordem religiosa e moral, o poeta leva o público a pensar sobre o mérito da questão, ou seja, a distinguir qual seria a melhor posição a ser assumida entre a tradição e a inovação, ou seja, a definir juiz e réu, carrasco e vítima (PULQUÉRIO, 1968), já que as duas personagens defendiam o que acreditavam ser melhor para a sociedade.
Dessa forma, por meio das idas e vindas de suas personagens, Sófocles criou condições para que a reflexão sobre as transformações de seu tempo fosse decorrente de opiniões moderadas, respeitando a religião e a moral (BOWRA, 1976). Isso se explica pelo fato de que, em boa parte, apesar da transição de ordem religiosa que se processava, o mito e os deuses ainda eram presença marcante na sociedade grega. Assim, o desenvolvimento da ação da sua tragédia não inviabilizou a humanização de suas personagens, dotadas de defeitos e vontades.
Mais do que isso, o homem sofocliano, apesar do clima de conflito em que se envolvia, é incentivado a buscar uma “medida”, um equilíbrio para si (JAEGER, 1995). Esta busca pela “medida”, contudo, não confere às personagens um comportamento estável: ora elas se apresentam certas de suas ações, legitimadas pelos deuses, ora duvidosas e temerosas por estarem infringindo o que teria sido traçado por forças superiores. Assim, refletem o mundo instável em que viviam, a crise do mundo grego.
Diante do exposto, pode-se dizer que o teatro de Sófocles tem um caráter pedagógico, dado discutir um ideal de homem em formação entre os gregos. Dessa forma, para além do rigor artístico de suas tragédias, Sófocles mostra ao público personagens que comoviam e faziam seus expectadores pensarem sobre a ordem que se instaurava.
Embora as tragédias terem sido escritas para serem encenadas como espetáculo de arte, não se pode estimar se o poeta trágico tinha consciência da importância de sua dramaturgia como instrumento educativo. Contudo, vale reafirmar que sua obra contribuía para formar concepções requisitadas para a vida na polis.
fenômeno educativo não exige apenas o saber voltado para o ensino formal, restrito ao saber institucionalizado da academia (ROCHA, 2007). A dramaturgia de Sófocles faz parte de um movimento de lutas travadas pelo cidadão helênico, no sentido de ele conquistar o seu próprio “destino” e dar-se a si próprio um lugar na sua existência e na sua sociedade. Em suma, essas questões apontam a relação entre a dramaturgia sofocliana e o fenômeno educativo.
Considerações finais
Ao discutir as crises vividas pela sociedade grega, a tragédia tem por preocupação orientar e situar o cidadão nesse processo confuso e complexo de mudanças. A tragédia, em razão da força dramática que lhe dá características distintas das dos demais gêneros literários, tornou-se instrumento por excelência para se representar e discutir esse processo e, em consequência, refletir sobre o homem requisitado pela ordem social que se implantava.
O segredo da surpreendente proeza literária de Atenas está no lugar central que ocupa não só na educação, como também na vida da comunidade adulta a qual considera que a literatura exerce influência sobre a sociedade e é algo com que a sociedade deve preocupar-se (BALDRY, 1968, p. 60).
Mesmo que pareça perigoso afirmar que as tragédias foram escritas com finalidade formadora para o seu público, pois o propósito era o de serem elas obras de arte com finalidade cênica, deve-se considerar que essa condição não dispensou seus enredos de estar em sintonia com os interesses da pólis, de discutir um modelo de homem para aquele contexto histórico.
Assim, por meio de suas personagens, o poeta assumia uma função social, qual seja: a de ser “o educador dos homens livres” (BONNARD, 1980, p. 206), que, nesse momento, já reivindicavam papel mais ativo na vida em sociedade. Isto era um fragrante indicativo de que o mundo grego passava transformações tão profundas que resultariam em um novo tempo para a Grécia.
Importante aqui é destacar o fato de que, dentre outros aspectos culturais, políticos e sociais, a Grécia continua se fazendo notória também em sua história educacional. Tal notoriedade se explica pela maneira com que a pedagogia helênica concebeu o educar/moldar do homem/cidadão.
Em síntese, a educação grega, quer na sua expressão mais formal quer na informal, desempenhou o seu papel social e respondeu às necessidades do tempo histórico em que ocorreu. Os reflexos desse desempenho iluminaram a educação ocidental da qual foi gênese, marcando presença nas instâncias voltadas à educação na atualidade. Conforme se constata nos currículos, programas, livros e manuais didáticos comumente aceitos e utilizados na contemporaneidade, os temas relacionados à educação desse período são praticamente obrigatórios.
REFERÊNCIAS
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1997. Dissertação (Mestrado em Educação).
HAUSER, Arnald, História da arte e da literatura. São Paulo: Mestrejou, 1990. LEFORTE, Claude. O sentido histórico. Stendhal e Nietzsche. In: Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1992).
LESKY, Albin. A tragédia Grega. Trad. J.Guinsburg. Geraldo Gerson de Souza e Alberto Guzik. São Paulo: Perspectiva, 1996.
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PEREIRA MELO, José Joaquim. Fontes e Métodos: sua importancia na descoberta
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PULQUÉRIO, Manuel de Oliveira. Problemática da tragédia sofocliana. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 1968.
ROCHA, Alessandro Santos. A formação do homem grego na perspectiva da trilogia
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SEGAL, Charles. O ouvinte e o espectador. In. VERNANT, Jean-Pierre (org.). O
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SÓFOCLES, Antígona. Trad. Mario da Gama Kury. 9 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2001.
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