Cancioneirito de Ferrara (1554):
edicao, estudo preliminar e notas
MAURICIO MATOS
Pontificia Universidade Cat6lica do Rio de Janeiro
a Helder Macedo, mestre bernardiniano
Ferrara, 1554. Editada por Abraao Usque em caracteres go- ticos, como os pintados a tinta no ja entao antigo Cancioneiro da Ajuda,
e
impressa pela primeira vez Menina e MOffa, novela de Bemardim Ribeiro, apresentada pelo seguinte frontispicio: "Hist6ria de Menina e Moca, por Bemaldim Ribeiro, agora de novo estampa- da e com suma diligencia emendada. E assi algfias Eglogas suas, com 0 mais que na pagina seguinte se vera". Vira-se a pagina e se encontra 0 conteudo do "presente volume". Abraao Usque, ou por seguir a ordenacao de urn hipotetico manuscrito que porventura possuisse como fonte, ou por vontade propria, editorial portanto, vontade esta plenamente justificavel, inicia0 volume, como indica- do na portada, pela novelaMenina e MOffa.Para aquem do que ja se sabe, nao custa repetir queMenina e MOffa
e
uma novela escrita em prosa poetica, que apresenta a pe- culiaridade de ter 0 que no seculo:xx
poderia ser chamado de finalno
MAURICIO MATOSem aberto, ou em suspense.' Desta forma, Menina e Moca, literal- mente, nao tern fim. Todavia, ainda que aparentemente "inacabada", a novela nao deixou de ser impressa por tres vezes, internacional- mente, durante a decada de 1550. As sucessivas edicoes - Ferrara (1554), Evora (1557)2 e Colonia (1559) - evidenciam urn raro presti- gio para a epoca, depois de ter se popularizado atraves de copias rna- nuscritas, durante a primeira metade do seculo XVI, em Lisboa so- bretudo. Notavel para seu tempo, testemunham sua importancia his- torico-literaria essas tres edicoes feitas na me sma decada, marca que nem Camoes atingiria durante a segunda metade do mesmo seculo,
Logo apos aMenina eMoca, seguem-se as cinco eclogas de Bemardim e sua sextina, e a esta, duas cantigas que "dizem ser do mesmo autor": "Nao sou casado, Senhora" e "Para mim nasceu cui- dado". Estampa-se, entao, a extensa e preciosaCrisfal, de Cristovao Falcao, e em seguida a carta em versos do mesmo autor "sobre que fez (segundo parece) a [ecloga] passada", ou seja, Crisfal. Depois dessas, uma sequencia de 50 poemas, escritos provavelmente entre a segunda metade do seculo XV e a primeira do XVI, encerra0 vo- lume. Carolina Michaelis, que estudou profundamente a edicao, em sua notavel "Introducao"
a
transcricao diplomatica que fez del a An- selmo Braacamp Freire, intitulou essa sequencia de poemas como Cancioneirito.[ ... ] 0 Cancioneirito e realmente constituido por composicoes !irieas
de medida velha: eantigas(4+8,ou multiples de8);vilaneetes(2+7, ou 3+7, ou multiples de 7); uma glosa (em oitavilhas, isto
e,
naI Cf. HOOK. David. Naceo e Aperidonia: A Sixteenth-Century Portuguese Sentimental Romance. In: Portuguese Studies. Londres: Departament of Portuguese; King's College London; Modern Humanities Rcserch Association, 1985. v. I.
2Como
e
not6rio, a edicao de Evora traz uma continuacao em capitulos que, todavia, a cri- tica tem considerado ap6crifa em sua totalidade, devido a incongruencias, tais como0rea- parecimento de um personagem que havia morrido no inicio da novel a e a inversao de la- cos de parentesco entre personagens. 0 estilo,itexcecao de breves passagens,e.
com efei- to, marcadamente diverso do texto cia Menina e Moca,0 que igualmente contribui para a suposicao acerca cia sobredita apocrifia. Por prudencia, deve-se considerar. contudo, a hi- p6tese de que algumas dessas passagens pod em ter saido da pena de Bernardim Ribeiro.fonna mais primitiva); e Esparsas (simples e duplas). Nada mais.
Nenhuma so composicao em [...] decassilabos
a
italiana.'Tecnicamente e cronologicamente [...] ele
e
sucessor ou continua- dor do Cancioneiro Geral, parecido pelas tendencias populares com0 Cancioneiro Musicalda corte dos reis catolicos:0 mais anti- go de quantos conheco, de 1524 a 1545 (?). Unico [0Cancioneiri- ta]em ser exclusivamente portugues. [...] Quem ajuntou estes ver- sos nao se havia afeicoadoa
arte nova, italiana."Ha mistura dos dois generos em todos os cancioneiros manuscritos de que sabemos (do Padre Pedro Ribeiro, Evora, Barata, Fernandes Tomas, [Luis] Franco). E logo na impressao do Cancioneiro Geral, de 1527, 1537, etc. havia sonetos.'
Dessa forma, pode-se dizer que, mesmo restrito quantitati- vamente a urn reduzido numero de composicoes, sobretudo se com- parado a outros cancioneiros, contemporaneos seus, 0 Cancioneirito
e,
qualitativamente, urn importante testemunho impresso da exis- tencia de uma certa escola literaria quinhentista em Portugal, rema- nescente direta da poesia portuguesa produzida e desenvolvida du- rante 0 seculo anterior.Nisto Bemardim Ribeiro e 0 Cancioneirito de Ferrara en- contram afinidade indiscutivel: se por urn lade
e
certo que Bemar- dim nao foi 0 unico a ter sua producao lirica exclusivamente com- posta em medida velha, par outro nao se conhece sequer urn autor de sua estatura poetica que, no seculo XVI, nao se tenha arriscadoa
medida nova, exceto, talvez, Cristovao Falcao.
E
preciso atentar pa- ra 0 fato de que, durante a primeira metade do XVI, ao fim da qual sairia impresso 0 Cancioneirito, a medida nova era realmente nova, ja a velha ...3MICHAELIS, Carolina. Prefacio, In: RIBEIRO, Bernardim; FALCAO, Cristovao,Obras - nova edicdo conforme a edictio de Ferrara preparada e revista por Anselmo Braacamp Freire. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1923. p. 183.
4MICHAELIS, Carolina. Op. cit. p. 184.
5MICHAELIS, Carolina. Op. cit. p. 183, nota 2.
II
'I
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Comecemos por definirmedida velha,designacao que surgiu no se- cuIo XVI - nao sem certo tom pejorativo - para, em oposicao
a
medida nova,aplicar-se aos metros e generos tradicionais utiIizados pelos poetas doCancioneiro Geral.6
1,1
II I'
Logo, nao sera inutil, para 0 estudo da literatura portuguesa do seculo XVI, considerar que, se por urn lade coube a Sa de Mi- randa a inauguracao da medida nova em Portugal - constituindo uma escola historicamente direta, com poetas do quilate de urn An- tonio Ferreira, e uma indireta, que seria a de Luis de Camoes e, por extensao, talvez a de Diogo Bemardes -, por outro lado, coube a Bemardim Ribeiro, a Cristovao Falcao, ou a ambos, a manutencao de urn estilo poetico ou, melhor, a atualizacao do que durante secu- los fora marca indelevel da literatura trovadoresca em Portugal, re- gulando-o todavia coerentemente de acordo com a inclinacao poeti- ca de sua maturidade literaria, tempo este em que - para alem de qualquer elucubracao biografista -, provavelmente, Camoes era a- inda0 "mancebo, farto e enamorado, querido e estimado, e cheio de muitos favores e merces de amigos e de damas" de que da noticia Pedro de Mariz, seu mais antigo bi6grafo.
Em carta escrita em "Lisboa, a urn seu amigo" que, pelo seu contexto, deduz-se que esteja no campo, diz Camoes: "Entre algiias novas que mandastes, vi que me gabaveis a vida rustica, como sao:
aguas claras, arvores altas, sombrias, fontes que correm, aves que cantam e outras saudades de Bemardim Ribeiro [...]".7 Prosseguin- do a leitura da carta, percebe-se contudo que se trata de uma ironia, sobretudo quando faz quase urn inventario das prostitutas de Lisboa,
a
sua disposicao, portanto, 0 que faz, contando vanta gem, mas a brincar, dentro do tom descontraido da carta. Imp011a, contudo, sa- ber que Camoes, mesmo ironicamente, tern Bemardim como uma especie de metonimia da "vida rustica", das "aguas claras, arvores altas, sombrias, fontes que correm, aves que cantam", au seja, do6BERARDINELLI, Cleonice. A dimensao tradicional na poesia lirica camoniana. In: _ . Estudos camonianos. 2. cd. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Catedra Pe.
Antonio Vieira; Instituto Camoes, 2000. p. 167.
7 CAMOES, Luis de. Obras completas. Org. de Hemani Cidade. Lisboa: Sa da Costa,