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REGIÃO DE RESISTÊNCIA DOS GAÚCHOS1

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Academic year: 2018

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REGIÃO DE RESISTÊNCIA DOS GAÚCHOS

1

vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

EDGAR AVILA GANDRA*

RESUMO

Este artigo elabora uma discussão sobre o conceito de região, enfocando a

Região Platina na primeira metade do século XIX. Analisa também a

possibilidade de elaboração de uma região de integração do gaúcho

despossuído no referido recorte.

PALAVRAS-CHAVE: resistência, gaúcho, região platina, historiografia, fronteira.

1 INTRODUÇÃO

o

presente trabalho tem como intuito discutir a possibilidade de resistência dos gaúchos dentro dos limites da denominada Região Platina. Para este fim percorremos uma trajetória específica, constituída por três momentos específicos. No primeiro, partimos da definição mesma de região, discutindo o conceito em si, enfocando a posição de alguns pesquisadores perante essa temática. Salientamos que esta discussão - sobre região - é enfocada em duas perspectivas diferenciadas, denominadas por Áurea Breitbach de "convencionais" ou "avançadas" (Breitbach, 1988).

Em um segundo momento, delimitamos a posição de autores da historiografia brasileira que estudam a zona platina, objetivando captar sua noção de Região Platina, e a utilização desta noção.

Por fim, construímos, a partir das discussões propostas dentro dos limites deste ensaio, um recorte diferenciado perante a Região Platina.

2

O QUE É "REGIÃO"

Nosso objetivo consiste na apresentação e discussão de vanas a?ordagens sobre o conceito Região, visto que a "( ...) produção hlstoriográfica é de tal maneira assente em determinadas óticas de

* Mestre em História Ibero-Americana - UNISINOS.

p 1 Este artigo é uma adaptação de uma monografia elaborada pelo autor junto ao

rograma de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS.

BIBlas, Rio Grande, 10: 53-62, 1998.

(2)

abordagens do que seja Região e, por extensão, Espaço, que não se questiona sobre seu conteúdo" (Silveira, in Silva, 1990, p. 19). Esse questionamento é de suma importância para a história, pois como estudar a formação da Região Platina sem precisar o que se entende por zona platina, sem definir o conceito de região, suas premissas e conseqüências?

Neste contexto, destacamos a existência,

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

g r o s s o m o d o , de duas correntes. Uma possuindo um teor "convencional", em que o espaço é visto

como neutro ou externo em relação às questões sociais. E outra, que possui características mais "avançadas", com uma noção de região que tem como pressuposto a inexistência de um espaço neutro, visando enfatizar a influência da sociedade sobre o espaço (Breítbach, 1988).

A corrente historiográfica que comunga da perspectiva "convencional" tem como pressuposto a geografia tradicional, vinculada ao positivismo e

ao

neopositivismo, com princípios vagos e noções de neutralidade do pesquisador.

Segundo Áurea Breitbach,

(...) o

p r im e ir o g r u p o ( c o n v e n c io n a l) c a r a c te r iz a - s e p o r tr a b a lh a r c o m b a s e n a a b s tr a ç ã o d o s is te m a s o c ia l q u e e s tá n a o r ig e m d a fo r m a ç ã o

r e g io n a l e, c o m is s o fo r m u la le is d e c a r á te r u n iv e r s a l, s e m le v a r em

c o n ta o c o n d ic io n a m e n to h is tó r ic o d o o b je to q u e se p r e te n d e e s tu d a r (1988, p. 26).

Neste contexto, é interessante destacar também a posição de Rosa Maria Godoy Silveira, que afirma:

S e n d o u m d a d o

a

p tio r i,

o

m e io fís ic o

é

c a r a c te r iz a d o p o r p r o c e d im e n to s m a is id e o ló g ic o s d o q u e c ie n tífic o s , u m a v e z q u e

o

p o s itiv is m o jo g a c o m

a

p r e te n s a n e u tr a lid a d e d o o b s e r v a d o r d ia n te d a

n a tu r e z a , q u e lh e fa la r ia c o m o

o

d o c u m e n to

ao

h is to r ia d o r . D e s s a p o s tu r a - " o r a fa z e n d o r e la ç õ e s e n tr e e le m e n to s d e q u a lid a d e d is tin ta ,

o r a ig n o r a n d o m e d ia ç õ e s

e

g r a n d e z a s e n tr e p r o c e s s o s , o r a

fo r m u la n d o ju íz o s g e n é r ic o s a p r e s s a d o s . E s e m p r e c o n c lu in d o c o m

a

e la b o r a ç ã o d e tip o s fo r m a is , a - h is tó r ic o s , e, e n q u a n to ta is , a b s tr a to s

( s e m c o r r e s p o n d ê n c ia c o m os fa to s c o n c r e to s ) " - r e s u lta m r e c o r te s

e s p a c ia is to m a d o s , p o r e x e m p lo , p e la c o n fig u r a ç ã o e x te r n a d e

e s p a c ia lid a d e , s u a s fr o n te ir a s p o lític o - a d m in is tr a tiv a s v is ív e is , o fic ia is

( p a ís - e s ta d a - m u n ic íp io ) ( .... ) (in Silva, 1990, p. 20).

Destacamos a profunda enraização desses recortes, que até hoje dominam a historiografia, e citamos como exemplo a divisão que temos da história nos currículos escolares: História da América, História do Brasil,

54 BIBlOS, Rio Grande, 10: 53-62,1998.

História do Rio Grande do Sul.

Cabe salientar que são perceptíveis, além do citado acima, outros recortes na concepção "convencional",

Segundo Ângelo Priori,

N a b ib lio g r a fia c o n s u lta d a , d e p a r a m o s c o m a lg u m a s c a r a c te r ís tic a s

b á s ic a s , u tiliz a d a s p a r a d e lim ita r u m d e te r m in a d o e s p a ç o : ( .,,)

F r o n te ir a s p o lític o - a d m in is tr a tiv a s : s ã o a s fr o n te ir a s e s p a c ia is - p a ís ,

e s ta d o , m u n ic íp io - o n d e a c o n te c e

o

p r o c e s s o h is tó r ic o . U m e x e m p lo

s ig n ific a tiv o fo i a d iv is ã o d o te r r itó r io n a c io n a l em m e s o e

m ic r o r r e g iõ e s , r e a liz a d o p e lo IB G E , p a r a fa c ilita r

a

c o le ta d e d a d o s

e s ta tís tic o s . M u ito s e c o n o m is ta s , g e ó g r a fo s , p la n e ja d o r e s , s o c ió lo g o s ,

in c lu s iv e h is to r ia d o r e s , tê m - s e u tiliz a d o d e s ta d iv is ã o p a r a d e lim ita r

u m a r e g iã o ; ( " .) C r ité r io s e c o n ô m ic o s : s ã o o s c a s o s d a s r e g iõ e s o n d e

p r e d o m in a u m a d e te r m in a d a c u ltu r a a g r íc o la , o u s e ja , a s z o n a s

c a n a v ie ir a s , c a fe e ir a s , a lg o d o e ir a s , m in e r a d o r a s , p e c u á r ia s , e tc .; ( " .)

B a s e fís ic o - c lim á tic a : s ã o a s r e g iõ e s d e te r r a s fé r te is , á r id a s , s e m

i-á r id a s , d e s é r tic a s , e tc . N e s te c a s o , p a r te - s e d o p r in c íp io d a fe r tilid a d e

d a te r r a o u d a s in te m p é r ie s c lim á tic a s p a r a d e lim ita r u m a r e g iã o ; ( . .. )

C a r a c te r ís tic a s v e g e ta tiv a s : s ã o as r e g iõ e s d o b r e jo , s e r tã o , lito r a l,

a g r e s te , c e r r a d o , p a n ta n a l, A m a z ô n ia , s e r r a A tlâ n tic a , s e r r a d o m a r ,

e tc . N e s te tip o d e d e lim ita ç ã o , a v e g e ta ç ã o éo s u je ito d e c o n s tr u ç ã o d a r e g iã o ; ( " .) D is tr ib u iç ã o d e m o g r á fic a : n e s te c a s o , as r e g iõ e s s ã o

d e lim ita d a s c o n fo r m e

o

flu x o p o p u la c io n a l: ê x o d o r u r a l, s u p e r p o p u la ç ã o ,

v a z io s p o p u la c io n a is , e tc . (1994, p. 187).

Neste contexto, acreditamos que esses critérios sobre o conceito de região são incapazes de apreender a historicidade e as contradições que impregnam um espaço determinado, visto que, retiram de cena o papel do sujeito humano como agente na construção deste. Assim, segundo alguns autores, servem para mascarar a dominação da classe dominante frente à

classe subalterna. Como afirma Rosa Maria G, Silveira, "(".) a geografia pragmática cumpre sua função: não só manter mas expandir o sistema de dominação e as classes que o controlam" (Silveira, in Silva, 1990, p. 21).

Em relação à corrente "avançada", destacamos que é um movimento recente que tem como suporte principal a geografia crítica, que incorpora Conceitos do materialismo dialético e histórico,

Segundo Janaína Amado, esse novo conceito de região é:

( ,,) c a p a z d e a p r e e n d e r a s d ife r e n ç a s

e

c o n tr a d iç õ e s g e r a d a s p e la s a ç õ e s d o s h o m e n s ,

ao

lo n g o d a H is tó r ia , em u m d e te r m in a d o e s p a ç o . P a r a e s s e s g e ó g r a fo s , a o r g a n iz a ç ã o e s p a c ia l s e m p r e se c o n s titu i em

BIBLOS, Rio Grande, 10: 53-62, 1998.

(3)

u m a c a te g o r .ia s o c ia l, fr u to d o tr a b a lh o h u m a n o

vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

e d a fo r m a d e os

h o m e n s se r e la c io n a r e m e n tr e s iec o m an a tu r e z a (in Silva, 1990, p. 8).

Neste sentido, autores dessa corrente enxergam a região como um espaço particular (singularidade) dentro de uma determinada organização social mais ampla (totalidade), com a qual se articula. Cabe salientar que essa nova forma de abordagem do conceito região ainda se encontra em formação e que existem muitos pontos obscuros, como, po~ exemplo, a definição do conceito de totalidade, que é discordante entre os pesquisadores dessa corrente. Mesmo assim, é um conceito que apresenta características inovadoras sobre o tema, colocando em questão o papel do ser humano como agente transformador do espaço em que está inserido, discutindo os conflitos sociais e suas contradições.

Ressaltamos que atualmente existe um grande número de possibilidades de construir o conceito de região, que avançaram sob a perspectiva da geografia crítica, elaborando seus conceitos com a questão simbólica, entendida como a consciência coletiva dos atores sociais de pertencer a uma região determinada.

Segundo limar de Matos, uma região

( ... ) n ã o d e v e s e r r e d u z id a

a

d e te r m in a d o s lim ite s a d m in is tr a tiv o s , c o m o o s d a s c a p ita n ia s . E la n ã o d e v e te r ta m b é m c o m o r e fe r ê n c ia s

a p e n a s a .d is tr ib u iç ã o d e s e u s h a b ita n te s em u m d e te r m in a d o

te r r itó r io , d e fin id o c o m o á r e a e c o ló g ic a , p o is n ã o é

o

fa to d e u m g r u p o d e p e s s o a s h a b ita r u m m e s m o te r r itó r io q u e d e te r m in a

o

e s ta b e le c im e n to d e u m a r e d e d e r e la ç õ e s s o c ia is e o

d e s e n v o lv im e n to d e u m a c o n s c iê n c ia c o m u m d e p e r te n c e r

a

u m m e s m o m u n d o , e m b o r a s e ja c e r to q u e u m a r e g iã o n ã o p r e s c in d e d e

u m a b a s e te r r ito r ia l (apud Priori, 1994, p. 182).

Reiteramos que o conceito de região ainda é um tema muito discutido pelos pesquisadores, e o interessante é manter essa polemização, objetivando um maior aprofundamento e reflexão desse tema.

3

REGIÃO PLATINA NA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Neste item, desenvolvemos uma análise sobre autores que refletiram sobre o tema Região Platina (entendida como a zona da campanha que interliga atualmente quatro Estados Nacionais, Argentina, Brasil, Paraquai e Uruguai), buscando resgatar neles seu entendimento de região. Destacamos que nosso recorte temporal delimita-se do período colonial até os primeiros anos da independência desses países.

56 BIBlOS, Rio Grande. 10: 53-B2, 1998

Para esse fim, dividimos esse momento em dois blocos. No primeiro resentamos autores que possuem como embasamento a concepção ~Ponvencional" do conceito de região, tentando desenvolver os limites da

~ilização desse conceito. Logo após analisamos os pesquisadores que udotam uma perspectiva "avançada", comungando com geografia crítica, :obre o conceito de região.

Analisamos, neste primeiro bloco, as obras de Moysés Vellinho, Guilhermino Cesar e Sandra Pesavento, com o intuito de demonstrar seu conceito de Região Platina."

Moysés Vellinho, em seu livro C a p ita n ia d 'E I- R e i, elabora um conceito de região baseado em fronteiras políticas, afirmando que e$sas fronteiras separam de forma "incontestável" as populações ali residentes, e, se existe alguma semelhança, deve-se ao mesmo tipo de atividade\ produtiva, o pastoreio. Segundo o autor,

( ... ) p o n to s d e p a r e c e n ç a e n tr e os tip o s s o c ia is d o g a ú c h o r io

-g r a n d e n s e e d o g a ú c h o p la tin a e x is te m , s e m d ú v id a , m a s se

r e s tr in g e m às p e c u lia r id a d e s d e c o r r e n te s d o m e s m o s is te m a b á s ic o

d e a tiv id a d e s -

o

p e s to r e io - d e s e n v o lv id o n u m c e n á r io fís ic o

s e m e lh a n te , e p a r c ia lm e n te fu n d a d o , em a m b o s os la d o s , n a

e x p e r iê n c ia

e

n a s p r á tic a s d o c a m p e a d o r n a tiv o . F o r a d is s o , p o r é m ,

fo r a d e s s e s fa to r e s c ir c u n s ta n c ia is , s u s c ita d o r e s d e a ç õ e s

e

r e a liz a ç õ e s e q u iv a le n te s , tu d o

o

m a is s ã o tr a ç o s q u e c a r a c te r iz a m tip o s a u tô n o m o s , a tiv a m e n te e x tr e m a d o s u m d o o u tr o , e c h a m a d o s a

d e s e m p e n h a r u m d r a m a d e fr o n te ir a n o q u a l h a v ia m d e a tu a r c o m o

in im ig o s (Vellinho, 1970, p. 144).

o

autor demonstra seu apego ao conceito tradicional e se "fecha" para outras perspectivas. Se utilizarmos o conceito crítico de espaço, no próprio trecho de Vellinho é possível traçar um espaço regional único, visto que os atores sociais compartilham de um mesmo meio de produção, experiências e práticas em comum, neste sentido constituindo, concretamente, uma região. Com relação a Guilhermino Cesar, em sua obra H is tó r ia d o R io G r a n d e d o S u l, percebemos o mesmo tratamento de Vellinho com referência à fronteira política. Cesar afirma que os gaúchos platinas e rio-grandenses possuem traços em comum devido a sua atividade produtiva, no entanto "( ..:) isso não quer dizer, todavia, que o gaúcho platino e o rio-grandense sejam o mesmo e único tipo social. Bem longe disso, (... )" (Cesar, 1970, p. 97). Poderíamos destacar, novamente, a questão da produção para a elaboração de uma região; no entanto, em um trecho de seu livro

2 Destacaríamos que esses autores acompanham a denominada Matriz Lusitana, e

SObre essa questão indicamos a leitura deA h is to r io g r a fia r io - g r a n d e n s e .

BIBLOS, Rio Grande, 10: 53-B2, 1998.

(4)

constatamos um outro dado interessante. Relata o autor:

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

J u n te - s e a tu d o is s o (Guerra Guaranítica) a in te r a ç ã o c u ltu r a l

e s ta b e le c id a tã o v iv a m e n te n a q u e le s d ia s . P a s s a n d o

a

c o n h e c e r

m e lh o r

o

in d íg e n a e os e s p a n h ó is , n a in tim id a d e d o s a c a m p a m e n to s ( ... ) v ir a m os p o r tu g u e s e s , em r e a lid a d e , o q u e e r a m e v a lia m ta is

in im ig o s . S o b m u ito s p o n to s d e v is ta , e s s e c o n flito fo i u m e q u ív o c o

d e s u m a n o , m a s

a

s u a lo n g a d u r a ç ã o s e r v iu d e e s c o la - em te r m o s d e

a c u ltu r a ç ã o -

ao

h o m e m b r a n c o q u e v ie r a c o lo n iz a r ta r d ia m e n te

o

R io

G r a n d e d o S u l (Cesar, 1970, p. 161).

Utilizando novamente os subsídios da perspectiva "avançada", compreendemos o papel da cultura enquanto elemento ativo no processo de constituição desta região. Cesar, apesar de citar o fato, não aprofunda suas possibilidades.

Sandra Pesavento, em sua obra H is tó r ia d o R io G r a n d e d o S u l, não avança muito o conceito de região platina, mantém o caráter político da fronteira e afirma que o Rio Grande do Sul integrou-se tardiamente ao restante do Brasil colonial. Destacamos que a autora 'utilizou conceitos marxistas, sem, contudo, adentrar na geografia crítica. Pesavento (1982) mantém o referencial da matriz lusitana. Segundo a autora:

P a r a

o

R io G r a n d e c o m e ç a r a m

a

d e s c e r p a u lis ta s e la g u n is ta s , o b je tiv a n d o p r e a r g a d o x u c r o p a r a le v a r a té

a

z o n a m in e r a d o r a . E m

e s p e c ia l, L a g u n a , fu n d a d a em

1676

p e lo p e u lis te D o m in g o s d e B r ito P e ix o to , to r n o u - s e

o

fo c o d e ir r a d ia ç ã o d a d e s c id a p a r a

o

s u l, n u m

m o v im e n to e s p o n tâ n e o q u e , c o n tu d o , te v e

o

in c e n tiv o d a c o r o a

p o r tu g u e s a . E n q u a n to q u e

o

in te r e s s e p o p u la r fix a v a - s e n a p r e ia d o g a d o ,

a

p e r s p e c tiv a d a C o r o a o r ie n ta v a - s e p a r a

o

p o v o a m e n to d a s

te r r a s ao s u l d e S ã o V ic e n te a té S a c r a m e n to .

O

R io G r a n d e , n o c a s o , a p r e s e n ta v a - s e c o m o p o s s u in d o u m a fu n ç ã o e s tr a té g ic a , c o m o p o n to

d e a p o io p a r a

a

c o n s e r v a ç ã o d o d o m ín io lu s o n o P r a ta (1982, p. 13).

Interessante destacar o fato de ser uma obra recente, o que mostra o peso da geografia tradicional, e o seu caráter limitador de "horizontes". Mesmo autores críticos como Sandra Pesavento mantêm alguns traços das concepções "convencionais".

Neste segundo momento, discutimos autores que utilizam em suas obras conceitos avançados de região. Para esse fim, analisamos os escritos de Helen Osório, Heloísa Reichel e Ieda Gutfreind.

Em seu artigo "Estancieiros e Lavradores", Osório utiliza-se de conceitos psicológicos para definir uma região e levanta com muita

58 BIBlOS. Rio Grande. 10: 53~2. 1998.

propriedade a seguinte questão:

S e r e g iã o '

é

u m a h ip ó te s e , c o m o d iz Y o u n g , u m p o n to d e p a r tid a d a in v e s tig a ç ã o , n ã o p o d e r ía m o s c o n s id e r a r q u e

a

p a m p a a r g e n tin a ,

a

B a n d a O r ie n ta l e

o

R io G r a n d e d o S u l c o n s titu ír a m - s e e m u m a , c o m

p a is a g e m e e c o s s is te m a s a g r á r io s s e m e lh a n te s , a in d a q u e m a r c a d o s

p e la s d ife r e n ç a s in s titu c io n a is d e c a d a im p é r io c o lo n iz a d o r ?

(Osório,1995, p. 31).

Acompanhamos a posição da autora, visto que, em ambos os lados da fronteira, as populações percebiam um processo semelhante, o que possibilitou concretamente uma identificação, ou seja, a noção de pertencerem a um "mesmo mundo".

Com relação à obra F r o n te ir a s e g u e r r a s n o P r a ta , de Heloísa Jochims Reichel e Ieda Gutfreind, ressaltamos a contribuição sobre conceito de "Região Platina", em que esta é vista em um conjunto, e as fronteiras possuem um caráter dúbio e fluido, ora visto como divisão, ora visto como integração. Segundo as autoras:

Q u a n d o a s s o c ia d a à g u e r r a ,

a

fr o n te ir a

é

e n te n d id a c o m o u m a lin h a q u e d iv id e , s e p a r a g r u p o s , s o c ie d a d e s e d o m ín io s p o lític o

-a d m in is tr -a tiv o s . É to m a d a c o m o lim ite , is to é, fim d o e s p a ç o p o r o n d e

p o d e m o s tr a n s ita r e s o b r e o q u a l te m o s d o m ín io . D e fin e a p o s s e d e

u m te r r itó r io , p r o c e s s o q u e s u b e n te n d e , m u ita s v e z e s , d is p u ta s e lu ta s

a r m a d a s p a r a c o n q u is te - to . P o r é m ,

a

fr o n te ir a ta m b é m p o d e s e r

c o m p r e e n d id a c o m o e le m e n to d e a p r o x im a ç ã o e n tr e s o c ie d a d e s . E la

p r o p ic ia c o n ta to s e s p o n tâ n e o s e n a tu r a is , r e s p o n s á v e is p e lo

s u r g im e n to d e o p o s iç ã o

à

id é ia d e d e s in te g r a ç ã o , e la p o d e s e r p e r c e b id a c o m o u m a z o n a d e in te r c â m b io s e c o n ô m ic o s e d e

in te g r a ç ã o h u m a n a q u e se s u p e r p õ e à s d e te r m in a ç õ e s d o s e s ta tu to s

p o lític o s d e s o b e r a n ia d e u m E s ta d o s o b r e u m te r r itó r io (Reichel e Gutfreind, 1995, p. 3).

As pesquisadoras, sob o prisma da geografia crítica, contribuíram para a abertura de um "Ieque" amplo de opções de pesquisa até então não enfocado pela historiografia: a questão da integração no Prata.

Gostaríamos de enfatizar nossa preocupação com as graves lacunas que existem na historiografia em relação à "Região Platina" e a necessidade de estudos sobre esta temática. Observamos que, com o fracionamento levado a cabo pela maior parte da historiografia, a compreensão enquanto Conjunto, ou seja como integração, se perde, transcrevendo assim uma nOÇãode Região Platina incompleta

BIBLOS, Rio Grande, 10: 53~2, 1998.

(5)

4 REGIÃO PLATINA: UM ENFOQUE DIFERENCIADO

vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Neste item, analisamos a possibilidade da existência de uma região de resistência" dos gaúchos na zona platina. Destacamos que é apenas um dos recortes possíveis para abordar essa região, devido

à

"liberdade de escolha" do historiador. Sobre esta questão acompanhamos as reflexões de Ângelo Priori:

(...) ao

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

m e s m o te m p o q u e

o

h is to r ia d o r te m lib e r d a d e p a r a e s c o lh e r u m te m a d e p e s q u is a , e le ta m b é m te m p a r a d e lim ita r u m a r e g iã o .

T u d o d e p e n d e d o s e u p o n to d e v is ta , o u s e ja , d a c o n c e p ç ã o d e

h is tó r ia , e s p a ç o e te m p o d o h is to r ia d o r e d a s q u e s tõ e s q u e e s te

s o u b e r fo r m u la r e m r e la ç ã o .a o e s p a ç o s o c ia l d e lim ita d o . Oh is to r ia d o r

s o m e n te s e r á c a p a z d e fo r m u la r q u e s tõ e s

a

p a r tir d e s e u ta le n to

in te le c tu a l, d a s u a c u ltu r a h is tó r ic a (1994, p. 183).

Cabe salientar que essa liberdade possui seus limites, ou seja, não podemos construir mentalmente uma região sem contato algum com a realidade empírica, isso seria apenas "delírio". A esse respeito, é interessante destacar a posição de Cláudia Maria Ribeiro Viscardi. R e la ta a autora:

Q u a n to a o s c r ité r io s q u e d e lim ita m

o

e s p a ç o r e g io n a l, p a r tim o s d o

p r e s s u p o s to d e q u e , s e n d o

a

r e g iã o u m c o n s tr u c to d e s e u s a g e n te s ,

s u a s fr o n te ir a s d e lim ita tiv a s s ã o flu id a s e v a r ia m e m fu n ç ã o d a s

c ir c u n s tâ n c ia s e m q u e s ã o d e lin e a d a s . P o r ta n to , c a b e ao h is to r ia d o r ,

n a d e fin iç ã o d o s lim ite s d o s e u r e c o r te r e g io n a l s e a p r o p r ia r d e u m a

r e g iã o s im b o lic a m e n te c o n s titu íd a n o p e r ío d o e s tu d a d o , le v a n d o e m

c o n ta c r ité r io s d e d e lin e a m e n toe x is te n te s , m a s e s c o lh e n d o e n tr e e le s

o

q u e m e lh o r s e a d e q u a r a o s s e u s o b je tiv o s d e p e s q u is a ( 1 9 9 5 , p.39).

Passamos a analisar os aspectos concretos que nos possibilitam traçar uma região de resistência desse segmento social - o gaúcho. Reiteramos que a periodização de nosso recorte está centrada, principalmente, na primeira metade do séc. XIX.

Nas obras que analisamos, a maioria dos autores mencionam, ao menos tangencialmente, as atitudes de resistência dos gaúchOS

3

o

conceito de resistência está utilizado aqui em sentido abrangente, acompanhando

as reflexões de Marilena Chaui, em sua obra C o n fo r m is m o er e s is tê n c ia . Para a autora, a "( ...)

resistência pode ( ... ) ser difusa - na irreverência do humor anônimo que percorre as ruas,

muros das cidades -, quanto localizada em ações coletivas e grupais" (Chaui, 1986, p. 63). A

obra de Chaui ainda nos permite afirmar tanto que pode ser deliberada como espontânea.

60

BIBLOS. Rio Grande. 10:53-62.1996.

despossuídos, sem, contudo, abordar esse aspecto em conjunto nos dois lados da fronteira.

No período por nós enfocado, gaúchos platinos e rio-grandenses habitavam a "mesma .campanha", e, como peões, trabalhavam para estancieiros tanto de origem lusa como castelhana, assim compartilhando um "mesmo mundo", onde a fronteira político-administrativa não possuía uma grande importância.

O gaúcho era um despossuído, com um padrão de vida extremamente modesto. Levava uma vida quase nômade, constantemente afastado de sua família, tendo como alimentação basicamente o gado errante e o chimarrão. Seu meio de sustento era o trabalho temporário. Esse segmento social prezava acima de tudo a liberdade de locomoção, seus momentos de lazer nas "pulperias", as brigas de galo e corridas de cavalo. Apreciavam também campeonatos e duelo, cultuando o valor físico, a habilidade com a faca e a destreza no manejo do cavalõ. Essa forma de vida com o tempo passou a ser prejudicial para a classe dominante, visto que esta, com o declínio das vacarias, necessitava de uma mão-de-obra disciplinada.

Segundo Heloísa Reichel,

A e x p a n s ã o d a p e c u á r ia e x p o r ta d o r a a lte r o u

o

m o d o d e v id a d a s

p e s s o a s q u e v iv ia m n a c a m p a n h a ,q u e , ao p r iv a tiz a r a te r r a e os a n im a is , s u p r im iu d o g a ú c h o

a

lib e r d a d e d e c a v a lg a r liv r e m e n te p e lo s

c a m p o s e d e r e tir a r d o m e io s u a s u b s is tê n c ia . A p r o d u ç ã o p a s to r il

c e n tr a d a n u m a u n id a d e d e p r o d u ç ã o b á s ic a , p o r s u a v e z ,

p r o p o r c io n o u q u e

o

p e ã o fo s s e in te g r a n d o - s e n o p r o c e s s o p r o d u tiv o c o m o m ã o - d e - o b r a a s s a la r ia d a , fo r ç a d e tr a b a lh o g e r a d o r a d e m a is

-v a lia , o u s e ja , c o m o p e ç a fu n d a m e n ta l n o p r o c e s s o d e a c u m u la ç ã o (1993, p. 25).

Neste contexto, a classe dominante, em ambos os lados das fronteiras político-administrativas4, tomou inúmeras medidas para coibir o

rnoco de vida do gaúcho Assim, é possível questionar concretamente que os gaúchos frente a problemas semelhantes, reagissem de forma similar, o que de fato ocorreu, mesmo sendo mascarado pela literatura e historiografia tradicional. O gaúcho tentou manter sua maneira de viver, sua liberdade, e para esse fim resistiu o quanto pôde. Reichel destaca que:

(... ) os g a ú c h o s r e s is tir a m às m u d a n ç a s q u e se o p e r a v a m n a r e a lid a d e e c o n ô m ic a

e

s o c ia l d a c a m p a n h a p o r q u e n ã o q u e r ia m p e r d e r a q u ilo q u e , p a r a e le s , e r a s in ô n im o d e lib e r d a d e : c a v a lg a r

. . • Destacamos que era a classe dominante, devido a suas ligações com os poderes

Inslltucionais, que vivenciava, mesmo com ressalvas, as limitações das fronteiras políticas.

BIBLOS. Rio Grande, 10:53-62.1998.

(6)

liv r e m e n te p e lo s c a m p o s , u s a r

o

a n im a l p a r a s u a s u b s is tê n c ia

im e d ia ta , tr a b a lh a r q u a n d o e o n d e Ih e s a p r o u v e s s e , e

vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

te. P a r a e le s , os

b e n e fíc io s q u e p a s s a r a m

a

te r c o m

o

tr a b a lh o n a s e s tâ n c ia s , c o m o

m o r a d ia , a lim e n ta ç ã o , s a lá r io , n ã o r e s u lta r a m e m a lte r a ç õ e s n a

q u a lid a d e d e s u a s v id a s c a p a z e s d e s u p e r a r as v a n ta g e n s q u e

a c r e d ita v a m te r n o m o d o d e v id a a n te r io r (1993, p. 43).

Essa resistência, descrita por Reichel,

é

o elo de construção do nosso recorte, visto ser o enfrentamento do subalterno, a defesa intransigente de sua liberdade, uma categoria social que permeava toda a Região Platina, dando "unidade" a esse despossuído e criando laços e a consciência de pertencer a uma mesma realidade. Construindo assim, uma região.

Por fim, salientamos que o recorte por nós apresentado consiste em apenas um esboço, e que o estudo sobre a região platina, sob o prisma da integração, com raras exceções, ainda está nos seus momentos iniciais.

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Referências

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