EXCELENTÍSSIMO SR. DR. JUÍZ DE DIREITO DA 1ª VARA CÍVEL DO FORO REGIONAL DE PINHEIROS - SÃO PAULO
Autos nº 1011839-79.2017.8.26.0011
Marilene Morelli Serna, brasileira, casada, física, inscrita no cadastro de pessoa física sob o nº 025.585.338-60 e portadora da cédula de identidade RG nº 13.155.535- 2 residente e domiciliada à Rua Marcilio de Sá, nº 172, Jardim das Vertentes, São Paulo - SP, representada por sua advogada que esta subscreve (procuração anexa) vem, a presença de V. Excelência, apresentar a presente CONTESTAÇÃO à ação de reparação por danos morais proposta por Alberto Thiago dos Santos, já qualificado, com base nos fatos e fundamentos a seguir apresentados.
I - DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA
A requerida informa ser assalariada e que colabora para o sustento de sua família, bem como o de sua mãe, idosa de 79 (setenta e nove) anos por quem se responsabiliza, efetua pagamento de convênio médico, arcando atualmente, inclusive, com custos de exames e consultas médicas em virtude de procedimento cirúrgico ao qual foi submetida recentemente, e que não apresenta condições de solver as custas do processo sem prejuízo próprio ou de sua família e sua mãe, de modo que requer, nos termos do artigo 98 e ss. do Código de Processo Civil e da Lei 1060/50, sejam-lhe concedidos os benefícios da gratuidade da justiça.
II - DA IMPUGNAÇÃO DA JUSTIÇA GRATUITA
Alega o requerente colaborar com o sustento de sua mãe, motivo pelo qual não é capaz de arcar com as custas do processo sem que haja algum prejuízo para sua pessoa. Contudo, conforme documento anexo a folhas 20, pode-se perceber que o requerente percebe remuneração mensal no valor de R$ 5.062,38.
Ora, o valor de um salário mínimo, montante considerado suficiente para que uma pessoa sozinha possa se sustentar e viver com dignidade, é R$ 954,00 atualmente.
Assim, temos que o requerente percebe valor aproximado à 05 (cinco) salários
mínimos, o que se mostra suficiente para sustento de duas pessoas e ainda lhes garantir mais do que o necessário, de modo que pode este, muito bem, arcar com as custas deste processo sem que seja, de alguma forma, prejudicado.
Dessa forma, a luz do artigo 321 do Código de Processo Civil, requer a juntada do Imposto de Renda do requerente a fim de que seja comprovada a hipossuficiência deste.
III - DA SUSPENSÃO DO PROCESSO
Informa a requerida que é ré em processo penal ajuizado pelo requerente, sob número 1000921-93.2017.8.26.00500 - controle 2065/2017, na data de 26 de setembro de 2017 e que corre no Foro Regional XI - Pinheiros, 1ª Vara Criminal.
Dessa forma, com fulcro no artigo 315 do Código de Processo Civil, postula a requerida pela suspensão deste processo nos termos do artigo acima mencionado.
IV - DA SÍNTESE DA INICIAL
Trata-se de ação de indenização por danos morais proposta por Alberto Thiago dos Santos em face da contestante Marilene Morelli Serna. Em sua inicial, alega o requerente ser funcionário do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN, órgão público gerido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN, assim como a requerida.
Dentre as atribuições do requerente estão a análise de documentos e a tomada de preços, bem como a emissão de pareceres. Assim, no desenvolvimento de seu trabalho, chegaram-lhe as mãos dois processos de contratação de serviços, os quais também foram encaminhados para a requerida.
Afirma o requerente que, ao analisar parecer emitido por este, a requerida enviou-lhe e-mail considerado fora dos padrões normais - com cópia para terceiros - ofendendo-o em sua honra e extrapolando os limites de uma eventual crítica construtiva, gerando mal-estar em desfavor do requerente.
Face o ocorrido, postula pela condenação da requerida ao pagamento de indenização por danos morais no valor de R$ 74.960,00 (setenta e quatro mil novecentos e sessenta reais).
V - DOS FATOS
A requerida é funcionária do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN, atuando de forma exemplar durante os seus 30 (trinta) anos de serviço no órgão, inexistindo durante esse período qualquer desavença com seus pares, superiores
ou prestadores de serviços, que possa desaboná-la ou que macule sua biografia profissional.
Diferentemente do que insinua o requerente, em sua inicial, a requerida, enquanto técnica pesquisadora, possui atribuições de caráter técnico-científicas, exercendo atividade em área distinta da do requerente. Dessa forma, mente o requerente ao dizer que a requerida possui cargo superior a ele, bem como percebe maiores proventos, quando, em realidade, percebem remuneração equivalente.
A requisição dos serviços mencionados na petição inicial trata de atividade derivada das atribuições da requerida, decorrendo de sua qualificação para a redação de especificações técnicas acerca do bem ou serviço requisitado, conforme procedimento padrão utilizado pelo órgão. Dessa forma, os mencionados processos de compra nunca chegaram as mãos da requerida, nem mesmo tendo esta feito vista de qualquer um deles. A interação feita entre a requerida e o requerente sempre ocorreu por meio de mensagens eletrônicas, contato telefônico e folhas de despacho.
Dessa forma, a requerida, na qualidade de requisitante dos serviços, esteve sempre a disposição para a explanação de quaisquer dúvidas que o requerente pudesse ter.
Contudo, tais dúvidas foram enviadas diretamente ao fornecedor do serviço, tornando-se de conhecimento da requerida somente porque esta fora copiada nos e- mails dirigidos ao fornecedor.
Esclarece a requerida que a orientação para emissão de requisição de serviços, bem como sua aprovação, são de competência do Gerente do Centro de Ciência e Tecnologia dos Materiais - CCTM, de modo que a orientação para requisição dos serviços partiram de sua chefia imediata, não tendo esta qualquer participação na tomada da decisão.
O requerente afirma em sua inicial que o fato ensejador do e-mail fora seu questionamento a respeito da contratação de serviços que poderiam ser prejudiciais a sua empregadora, bem como sentimentos íntimos da requerida que se incomodara com seu zelo.
Contudo, em nenhum momento o requerente questionou à Gerência do CCTM sobre a necessidade de tais serviços, bem como passou a negociar com os representantes dos fornecedores (Acil & Weber e Shimadzu) valores e condições que não atendiam as especificações técnicas requisitadas, não respondendo aos questionamentos da requerente quanto ao andamento dos processos e as especificações técnicas que estavam sendo negociadas.
Diante deste cenário, a requerente passou a se sentir temerosa pela situação em que estava envolvida, uma vez que era requisitante dos serviços, e, no intuito de se desligar dos processos de compra, enviou e-mail ao requerente, superiores e envolvidos nos processos a fim de informar sua decisão e os motivos que a levaram a
tal. Mente, portanto, o requerente, ao afirmar que a requerida “não teve escrúpulos em divulgar sua verborrágica e desairosa missiva”, sendo que esta sequer comentou com seu marido, com quem trabalha. Entende-se, assim, que o requerente utiliza-se de má-fé de fatos corriqueiros de um ambiente de trabalho, e que por vezes não são manifestados expressamente, a fim de se locupletar financeiramente com enriquecimento sem causa.
Vale ressaltar que tal situação tem causado grande estresse e transtornos emocionais à requerida, que sente-se perseguida no ambiente em que trabalha há 30 anos com conduta exemplar e reputação ilibada, em virtude de processo administrativo disciplinar instaurado a pedido do requerente, o qual, em virtude de falhas encontradas teve seus atos anulados e agora corre novamente do início. Cabe ainda salientar que na data de 24/11/2017, em função dos fatos acima mencionados, ocorreu a hospitalização da requerida por graves transtornos emocionais, sendo a mesma afastada por 15 dias de suas atividades, mediante prescrição médico-psiquiátrica.
O requerente requisitou a ré Marilene que lhe enviasse o número de patrimônio dos bens que faziam parte dos processos de compra de serviços dos quais tratava. Como não existe tal número a requerida, de imediato, o comunicou por telefone e explicou o motivo.
Ou seja, o Ministério ao qual está atrelada a CNEN diminuiu as verbas de compras de equipamentos e manteve a de prestação de serviços, obrigando os funcionários a adquirirem bens como se prestação de serviços fossem. Deixa-se claro, para que não paire dúvidas, que não há nenhum prejuízo a instituição, tendo em vista que os equipamentos adquiridos permanecem no IPEN. Nenhum funcionário, inclusive a requerida, em momento algum, obteve vantagem neste procedimento.
Teve a requerida dúvidas no procedimento do requerente em relação aos processos de compras que se desenvolviam, ocasionados por incompetência ou outro motivo, muito embora os preços fossem muito baixos para qualquer ganho “não republicano”, e até porque a empresa que prestaria o serviço foi a que vendeu o equipamento, sendo a única que pode fazê-lo.
VI - DO DIREITO a) Da indenização
Entende-se o dano como prejuízo resultante de lesão a bem ou direito, ou seja, é a perda de patrimônio material ou a lesão à imagem em decorrência de conduta ilícita praticada pelo agente, de modo a gerar ao lesado o direito de ser ressarcido.
Conforme definição do art. 186 do Código Civil, comete ato ilícito “aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem”.
Nesse sentido, a conduta do agente deve comprovadamente causar dano, seja moral ou material, para que se possa imputar a responsabilidade civil, tendo em vista que esta tem como pressuposto o ato ilícito, e haja a obrigação de indenização. O requerente, contudo, em nenhum momento comprova o dano moral alegado.
Postula o requerente indenização por danos morais causados pela requerida por uso dos vocábulos “negociata” e “achacam”, bem como do termo “valores negociados a mais”, alegando que o uso de tais lhe ofendem a honra, acusando-a de cometer injúria e difamação.
Contudo, da leitura do e-mail juntado a este processo, pode-se perceber que em nenhum momento a requerida teve a intenção de ofender ao requerente de qualquer forma, tendo tão somente a intenção de lhe comunicar sua vontade de cessar o contato com o mesmo, bem como a intenção de por fim a sua relação com os processos de compra.
Conforme ensinamento de Guilherme de Souza Nucci, em sua obra “Manual de Direito Penal”, às páginas 692 e 694, predomina na doutrina e jurisprudência o entendimento de que não se configura crime contra a honra quando o fato ofensivo ou o insulto sejam proferidos fora do contexto da vontade de ferir a reputação ou o amor próprio de alguém.
Ora, como já mencionado, a requerida buscava, tão somente, com o referido e-mail, esclarecer fatos que lhe incomodavam e preocupavam, bem como a sua intenção de não mais participar de tais processos, ante sua preocupação. Da mesma forma se trata a cópia para terceiros, que são tão somente partes envolvidas nos processos e aos quais desejava comunicar suas intenções.
Trata-se, portanto, de e-mail enviado puramente com ânimo informativo, como pode- se inferir da leitura do próprio, que se inicia com breve explicação de ambos os processos de compra da qual era requisitante e os motivos para sua inquietação.
Inclusive, a requerida, no processo administrativo que corre internamente no IPEN já se desculpou pelas frases que usou no referido e-mail.
Nesse sentido, segue o entendimento do respeitável Relator Des. Lauro Mens de Melo nos autos da apelação de nº 00002047-89.2015.8.26.0011:
“A queixa foi rejeitada na decisão por ausência de comprovação do ‘animus’ de difamação, afirmando que o material trazido aos autos mostra que as comunicações tiveram como finalidade despertar a atenção dos consumidores para problemas com produtos e atendimento oferecidos pela querelante. É um alerta e tem ânimo informativo, não denotando finalidade de conspurcar a honra da empresa em questão.”
b) Do montante da indenização
Em se tratando do valor de indenização sugerido pelo requerente ao M.M. Juíz, no montante de R$ 74.960,00 (setenta e quatro mil novecentos e sessenta reais), traz a requerida a redação do artigo 953 do Código Civil, que determina:
“Art. 953. A indenização por injúria, difamação ou calúnia consistirá na reparação do dano que delas resulte ao ofendido.
Parágrafo único. Se o ofendido não puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenização, na conformidade das circunstâncias do caso.”
Como se pode inferir da petição inicial, bem como dos documentos juntados até o presente momento, não houve ao requerente nenhum tipo de dano material, continuando este a exercer suas atividades normalmente, e não tendo sofrido nenhum tipo de “represália” em virtude do e-mail que lhe foi enviado.
Conforme documentos juntados pelo requerente, percebe-se que o valor sugerido equivale a mais de 10 (dez) vezes a sua remuneração mensal, assim como a remuneração mensal da requerida, ou seja, para que fosse pago o valor integral a vista sugerido pelo requerente, seria necessário mais de um ano de trabalho da requerida - empregando todo o seu salário no pagamento - de modo que seria esta fortemente prejudicada, pois contribui com o sustento de sua família e sua mãe, de quem paga o convênio médico.
Nesse sentido, tem-se o disposto pelo artigo 944 do Código Civil, que traz a seguinte redação:
“Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano.
Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização.”
Chama a requerida a atenção para os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, os quais não foram considerados pelo requerente ao propor tão alto valor para a indenização. Ademais, com tal montante, estará o requerente enriquecendo-se indevidamente às custas da requerida.
Nesse sentido, tem-se o entendimento da respeitável Relatora Des. Viviani Nicolau, nos autos da apelação de nº 1010616-21.2015.8.26.0348, que profere o seguinte:
“É certo que o ‘quantum’ indenizatório deve refletir justa reparação, atendendo-se ao prudente arbítrio do julgador, em patamar razoável, considerando especialmente à gravidade da conduta lesiva e de suas consequências, e, bem assim, à capacidade econômico-financeira do agressor, sem, contudo, implicar vedado enriquecimento sem causa por parte da vítima da ofensa.”
Dessa forma, entende-se que o requerente, ao pedir enorme montante como indenização, visa enriquecer-se as custas da requerente, uma vez que este não sofreu prejuízos materiais e nem mesmo em suas relações de trabalhos, tendo em vista que a requerida comunicou de sua decisão tão somente àqueles envolvidos nos processos de compra.
Ainda, ignora o requerente os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, tendo em vista que, como mencionado anteriormente, ambos servidores percebem remuneração equivalente, recebendo o requerente até mesmo um pouco acima da requerida, e ainda assim, este reclama alto valor indenizatório.
VII - DA CONCLUSÃO
Ante o exposto, postula a requerida:
a) seja-lhe concedida a gratuidade da justiça;
b) seja indeferido o benefício da justiça gratuita ao autor;
c) seja deferida a juntada do Imposto de Renda do autor;
d) seja suspenso o andamento deste processo, nos termos do artigo 315 do CPC;
e) seja julgado improcedente o pedido do requerente por não restar provado o dano moral alegado;
f) seja o requerente condenado ao ônus da sucumbência e honorários advocatícios da parte contrária;
g) seja a requerida citada na pessoa de sua advogada, no endereço constante da procuração anexa;
h) informa a requerida que possui interesse em audiência de conciliação;
i) por fim, protesta provar o alegado por todos os meios admitidos em direito, especialmente pela juntada de documentos, depoimento de testemunhas, prova pericial e etc. formalmente requeridas desde já, e requer de imediato que seja oficiado a Comissão Nacional de Energia Nuclear-IPEN, com endereço na Cidade Universitária, em Pinheiros, à Av. Professor Lineu Prestes, 2242, Butantã, São Paulo - SP, CEP nº 05508-000, para que envie a este juízo:
1. Cópia integral dos processos de compras que originaram este processo;
2. Cópia dos números de patrimônio dos equipamentos objetos destes processos;
3. Cópia do prontuário, onde conste o salário do autor;
4. Cópia do arquivo de e-mail corporativo da requerida.
Termos em que
pede e espera deferimento.
São Paulo, 23 de janeiro de 2017.
Monique Morelli Serna Alves OAB/SP 386.014