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Abdo Filho . Anny Giacomin . Dayane Freitas Elaine Dal Gobbo . Elaine Vieira . Fábio Botacin Jackeline Gama . Katarine Rosalem . Leandro Tedesco
Leonardo Lopes . Leticia Orlandi . Luana Laux Marcele Falqueto . Marianna Aguiar . Marília Marques
Roberta Soares . Rodrigo Melo . Roger Santana José Antonio Martinuzzo
(Organizador)
A televisão capixaba em panorâmica
Universidade Federal do Espírito Santo Centro de Artes
Departamento de Comunicação Social
Projeto Comunicação Capixaba – CoCa
Editor e organizador – Professor José Antonio Martinuzzo Revisão histórica e técnica – Glecy Coutinho
Revisão – Vitor Graize
Capa e editoração – Ceciana França e Guido Nunes Fotos – Arquivos pessoais dos entrevistados
Impressão – Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo Edições anteriores: Rádio Club Espírito Santo – Memórias da Voz de Canaã; Balzaquiano – Trinta anos do Curso de Comunicação Social da Ufes; Diário Capixaba – 115 anos da Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo; Impressões Capixabas – 165 anos de jornalismo no Espírito Santo.
Catalogação-na-fonte
Biblioteca Pública do Estado do Espírito Santo R693 Roda VT! A televisão capixaba em panorâmica / organizado por José Antonio Martinuzzo. Vitória : DIO, 2006.
222p. : il. p&b : 15cmx22cm.
1. Televisão - Espírito Santo (Estado) . 2. Jornalismo - Espírito Santo (Estado) 3. Comunicação – História - Espírito Santo (Estado). I. Título. II. Martinuzzo, José Antonio.
CDD 302.98152
Sumário
Prefácio Apresentação Introdução
A televisão no Brasil e os primórdios capixabas ... E a TV chega ao Espírito Santo
TVE – Entre mandos e desmandos
TV Gazeta – Trinta anos de uma longa história Tribuna – O papel do cimento na história da TV
ATV Capixaba em foco A informação via cabo
Universidade e comunidade na TV 7
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televisão é uma mídia com potencial extraordinário para fortalecer vínculos comunitários, promover o debate de questões públicas, difundir práticas cultu- rais e fomentar o desenvolvimento socioeconômico regional.Chegada há 56 anos no Brasil, nas terras capixabas a televi- são registra uma história de 44 anos. Aqui, foi inaugurada pela iniciativa do memorável jornalista e advogado João Calmon, que, não por acaso, seria conhecido mais tarde como o “sena- dor da Educação”.
A trajetória da televisão capixaba tem a marca do movimen- to da recente história do Espírito Santo. Vinda para cá num momento de transformação socioeconômica, ela trouxe a úl- tima novidade em termos de comunicação para um Estado que experimentava profundas mudanças.
Nesta virada de milênio, seguindo o processo de desconcen- tração do desenvolvimento, os olhos da telinha se voltam para o interior do Estado, seja com programação diversificada, am- pliação da cobertura de sinal – no caso da TVE-ES, fizemos um importante investimento para restabelecer sua abrangên- cia –, seja com a instalação de emissoras nas cidades que estão além da Região Metropolitana.
Essa é uma boa notícia. A democratização da programação e do acesso às emissoras de TV ajuda a dar voz a populações inteiras que têm sonegada a possibilidade de expressar suas demandas, sua cultura, seus projetos e potencialidades numa mídia que se transformou num verdadeiro espaço público
Prefácio
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nesta sociedade do conhecimento e da informação.
Que a narrativa desta trajetória nos ajude a construir, daqui para frente, uma história sempre melhor, em que a televisão, ainda mais com as possibilidades do padrão digital, desenvol- va, consolide e aprofunde o seu potencial de integração comu- nitária e cultural e de emancipação socioeconômica de nosso povo.
Paulo Hartung Governador do Estado do Espírito Santo
stamos diante de uma vigorosa pesquisa sobre a história da comunicação no Espírito Santo. Um trabalho que é resultado do instigante dinamismo do projeto Comuni- cação Capixaba (CoCa), coordenado pelo professor José An- tonio Martinuzzo, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes.
Trata-se da quinta edição de um projeto trabalhado na dis- ciplina Técnicas de Administração e Mercadologia em Jorna- lismo, a partir de uma concepção coletiva desenvolvida pelo professor Martinuzzo e seus alunos. Este estudo resgata a tra- jetória da comunicação em nosso Estado, e mais uma vez nos apresenta um excelente resultado. Produções assim, cuidado- sas e criativas, despertam a essencial busca pelo saber, deixam registros históricos valiosos e estimulam novas pesquisas aca- dêmicas.
A presente edição nos traz o percurso da TV no Espírito San- to, um capítulo especialmente rico na comunicação audiovi- sual do nosso Estado. Aqui, neste livro, temos a oportunidade de conhecer o surgimento da TV no Brasil e, particularmen- te, no Espírito Santo. A partir de relatos de personagens que construíram essa história, podemos conhecer a pioneira TV Vitória, as técnicas, as programações e os instrumentais dis- poníveis em meados do século passado, até a atual TV aberta e por assinatura, com suas novas e surpreendentes tecnologias.
O livro do pesquisador Martinuzzo e seus alunos é uma aula de jornalismo qualificado, que resulta em uma obra única
Apresentação
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e fundamental à leitura, à consulta, para quem se propõe a conhecer o tema. É, certamente, um trabalho que orgulha a comunidade acadêmica. Importante registrar a parceria com o Governo do Estado que, por meio do Departamento de Im- prensa Oficial, viabilizou a execução final do projeto. Meus parabéns ao nosso professor e aos nossos alunos.
Rubens Rasseli Reitor
Introdução
Projeto Comunicação Capixaba – CoCa, de constitui- ção de uma memória das atividades comunicacionais no Espírito Santo, chega a sua quinta edição. Depois da Rádio Espírito Santo, dos 30 anos do curso de Comunicação Social da Ufes, dos 115 anos da Imprensa Oficial e dos 165 anos do jornalismo impresso capixaba, o tema deste volume é a trajetória da televisão no Espírito Santo.
Seguindo a metodologia implantada no semestre letivo de 2004/1, da pauta à edição final, tudo é feito pelos alunos da disciplina Técnicas de Administração e Mercadologia em Jor- nalismo, oferecida no sexto período do curso. As aulas alter- nam a discussão do conteúdo teórico da disciplina, qual seja, a inserção e as nuances do negócio midiático na contempora- neidade, com a deliberação coletiva para a produção do livro.
Ressalte-se que os alunos-autores têm autonomia para definir enfoques, entrevistados, estilo de texto, dentre outros elemen- tos de cada capítulo.
Como vem ocorrendo desde a edição inaugural, e como é de se prever a um projeto que avança sobre território pratica- mente inexplorado, como é a memória da comunicação capi- xaba, a base fundamental para a elaboração dos textos foram as entrevistas com os personagens de uma história bastante rica e ainda inédita em livro.
O primeiro capítulo oferece um panorama do surgimento da TV no Brasil e no Espírito Santo. Em seguida, vem a história da pioneira TV Vitória. A televisão educativa, a segunda mais
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antiga, tem sua trajetória narrada logo depois. A caminhada da TV Gazeta é contada no quarto capítulo, seguida dos textos sobre as TVs Tribuna e Capixaba. Os capítulos seguintes são dedicados à TV a cabo, sendo que o oitavo é especialmente devotado às TVs Universitária e Comunitária. Fecha o livro o capítulo sobre a televisão no interior capixaba.
Apresentada a estrutura do livro, é chegado o momento de se reafirmar o que tem espaço cativo nestas páginas introdutó- rias em cada uma de nossas edições: este projeto não pretende nem jamais conseguiria produzir livros completos ou perfei- tos. Como obra humana, executada por estudantes, no tempo de um semestre letivo, ele porta as marcas das condições de sua consecução. É vívido e experimental; é compromisso com a verdade dos fatos e laboratório de exercício jornalístico.
Nessa caminhada, temos encontrado colaboradores admirá- veis, que abrem espaço na suas agendas quase impenetráveis ou fazem um esforço louvável de memória, que vai da emoção à angústia, para trazer à tona vestígios de um passado que tem muito para iluminar o presente e o futuro.
Também temos encontrado muitas barreiras, das negativas à concessão de entrevistas à palavra amarga daqueles que, por algum motivo, ficaram de fora da narrativa de uma história em que se julgaram atores importantes ou daqueles que só têm olhos para eventuais equívocos.
Nem todo mundo que ajudou a fazer a história dos 44 anos de televisão no Espírito Santo está presente nas páginas que seguem. Falar de tudo ou reproduzir fielmente o passado é algo impossível, até porque, voluntária ou involuntariamen- te, memória não é passado, é leitura presente do que passou.
Leitura condicionada pelas mais variáveis questões, da base cognitiva dos autores ao interesse ou não das fontes em fa- lar, passando pela imponderável determinante do tempo – do tempo que nos levou para sempre algumas figuras emblemá-
A televisão capixaba em panorâmica
ticas; do tempo escasso de um projeto acadêmico que prevê a realização de um livro no limite de um semestre; do tempo que falta na agenda de quem tem “mais a fazer, além de ficar pensando no passado”.
A cada edição, o projeto avança, inclusive a partir de suges- tões para melhorá-lo. Nesse sentido, desta edição em diante, passamos a contar com a revisão histórica e técnica do texto produzido pelos alunos. Nessa empreitada, está gentilmente conosco a jornalista, cineasta e professora Glecy Coutinho, uma das referências da comunicação capixaba e um dos es- píritos mais produtivos e generosos que habitam essas para- gens.
A produção de memória é um imperativo da sabedoria co- letiva, é sinal de amadurecimento político e da vontade de um outro futuro, enriquecido com as lições do passado e poten- cializado pelo fundamental ato da reflexão no presente. Nesse sentido é que o Projeto CoCa foi criado e se mantém como um projeto de consecução coletiva pela emancipação coletiva dos capixabas.
Neste momento de nossa história, o Espírito Santo vislum- bra horizontes de positivas expectativas, talvez como nunca antes. E para que o presente do futuro não repita os erros do passado, condicionado que foi pelos desejos de uma elite nem sempre esclarecida, é que a produção da memória não pára, nem arrefece. Por um futuro diferente do passado, memória já!
José Antonio Martinuzzo Professor organizador e editor do Projeto CoCa
A televisão no Brasil e os primórdios capixabas
ntes de chegar ao Espírito Santo, em 1962, a televisão cumpriu uma história de mais de dez anos no país.
Para facilitar o entendimento e contextualizar a traje- tória capixaba, vamos começar apresentando o cenário nacio- nal em que o novo veículo se desenvolveu.
São Paulo, 18 de setembro de 1950. Esta foi a data da primei- ra transmissão televisiva brasileira. Com as imagens geradas em São Paulo pela PFR-3 TV Difusora, o Brasil foi o quarto país a possuir uma emissora de televisão, atrás apenas de Es- tados Unidos, Inglaterra e França. Na América Latina, a trans- missão foi pioneira. A partir dessa data, o brasileiro aprendeu a ver o mundo através desta janela mágica. Da importação de algumas dezenas de aparelhos para a inauguração aos dias de hoje, a televisão se tornou um eletrodoméstico tão imprescin- dível quanto a geladeira. O principal responsável pela implan- tação da TV no país foi o jornalista Assis Chateaubriand, dono da rede de empresas de comunicação Diários Associados. No auge, a empresa contava com 34 jornais, 36 radioemissoras, 18 estações de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis e uma editora.
Para compreender melhor o momento de ascensão de Cha- teaubriand, devemos entender principalmente as transfor- mações políticas que ocorreram no Brasil durante as décadas
Elaine Vieira, Fábio Botacin e Roger Santana
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de 1920 e 1930, período conhecido como República Velha. A classe oligárquica, que até então dominava o cenário político nacional, começou a ter seu poder contestado pelas elites bur- guesas que emergiam da periferia brasileira, como as da região Sul do país.
No meio deste embate estava Chateaubriand, que apoiou o movimento revolucionário de 1930. Com Getúlio Vargas no poder, o dono dos Diários Assossiados estabeleceu o seu impé- rio hegemônico do jornalismo.
A tecnologia da televisão brasileira foi importada dos Es- tados Unidos. Vieram equipamentos de transmissão, câmeras e aparelhos para que a população pudesse assistir à primeira transmissão. Mas para haver programação também deveria existir uma emissora com nome e sobrenome. Foi então que a PFR-3, após dois meses da primeira transmissão, passou a se chamar TV Tupi, com o claro apelo nacionalista comum à época. A emissora também está na origem da televisão no Espírito Santo, como se verá a seguir.
O início das transmissões da televisão no Brasil possui mo- mentos interessantes. Para a inauguração da TV, os idealiza- dores quase se esquecerem do principal: quem iria assistir à programação se ninguém possuía um aparelho de televisão em São Paulo. Imediatamente, Chateaubriand mandou im- portar 50 aparelhos e os distribuiu pela capital paulistana para que a população pudesse acompanhar a estréia da televisão brasileira.
Artistas ainda hoje conhecidos do público estavam na inau- guração da TV Tupi, entre eles Lima Duarte e Hebe Camargo.
Mas nem tudo saiu conforme estava previsto no script. Du- rante o show de inauguração, no Museu de Arte de São Paulo, uma das três câmeras preparadas para a transmissão quebrou.
Mesmo com um equipamento a menos, a programação foi ao ar, com a qualidade que a época permitia.
A televisão capixaba em panorâmica
Ao contrário de toda a tecnologia atualmente empregada, tudo era ao vivo na TV dos anos 1950. Na época, o grande veículo de comunicação do Brasil era o rádio, que unia todo o país em torno de programas como o famoso Repórter Esso e as radionovelas. A televisão ainda não tinha profissionais que possuíssem experiência. Com isso, a saída para as jovens emis- soras foi buscar os redatores de rádio. Mas eles não estavam acostumados ao principal recurso da TV: a imagem. Isto deu à televisão brasileira uma característica de “rádio com ima- gem”.
A partir daí surgiram programas que marcaram época. No formato de teleteatros ao vivo havia o Grande Teatro Tupi e o Teatrinho Trol. Humorísticos e shows também tinham gran- de audiência como o Noite de Gala, com Flávio Cavalcanti, O Mundo é das Mulheres, de Hebe Camargo, e a Família Trapo, com Ronald Golias.
Seguindo o caminho aberto pela pioneira Tupi, em São Pau- lo, outras emissoras entraram no ar país afora, como a TV Tupi do Rio de Janeiro (1951) e a TV Paulista (1952). A TV Record e a TV Excelsior também apareceram na mesma déca- da. A seguir, os detalhes de cada trajetória.
TV Tupi
Os primeiros funcionários da TV Tupi vieram principal- mente do rádio. Ninguém tinha conhecimento específico de como fazer televisão, por isso a Tupi foi a grande escola para quem se aventurou a trabalhar nesse novo veículo de comu- nicação.
Novelas e telejornais, atualmente os carros-chefes da pro- gramação nacional, não existiam no início da TV brasileira.
Modelos de radionovelas e festivais musicais foram adaptados para que a grade de atrações começasse a tomar forma. Os primeiros diretores, atores e atrizes foram revelados no lendá- rio programa TV de Vanguarda. Lendas atravessam o tempo,
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e com alguns programas não foi diferente. A Tupi emplacou 28 anos de programação com o Alô Doçura, o Sítio do Picapau Amarelo, O Céu é o Limite e Clube dos Artistas. Já o telejornal Repórter Esso permaneceu no ar por 18 anos.
Exibidas pela primeira vez na Tupi, com apenas um capí- tulo por semana, hoje as telenovelas são uma unanimidade nacional. Numa sociedade ainda em processo de urbanização, ver um beijo na boca na televisão era impensável, até que, em 1951, Walter Forster e Vida Alves entraram para a história ao encenarem o famoso beijo na novela Sua Vida Me Pertence.
O jornalismo da emissora também foi bem sucedido. Heron Domingues e Gontijo Teodoro estavam à frente do Repórter Esso, que foi adaptado do rádio para a televisão. Os locutores entravam no ar com as notícias nacionais e internacionais ao som de uma das mais famosas trilhas, tanto do rádio como da televisão do Brasil.
A história da Tupi não tem um final feliz. Em 1968, dezoito anos após a fundação da emissora, Assis Chateaubriand mor- re. A data é registrada como o início de uma profunda crise no canal pioneiro. Com as finanças abaladas e uma gestão in- competente, a Tupi perde qualidade técnica e, principalmente, audiência.
A grade de programação tinha espaços vazios, o que deixa- va o caminho aberto para as emissoras concorrentes. No final dos anos 70, com os salários dos funcionários atrasados e dívi- das impagáveis em impostos, a Tupi estava próxima de fechar as portas. As produções da época, como a novela Éramos Seis, registravam os piores índices de audiência e a publicidade de- saparecia. Em 1977, os funcionários deflagraram uma greve pelo pagamento dos salários. O protesto terminou com o pa- gamento parcelado do débito pela empresa. Dois anos depois, os trabalhadores voltaram a cruzar os braços.
Como se não bastasse, um incêndio atingiu o prédio da
A televisão capixaba em panorâmica
emissora em outubro de 1978 e a Tupi saiu do ar por alguns minutos. Já em 1980, até o mês de fevereiro, a última greve não havia se resolvido. Logo foi fechado o departamento de telete- atro, tendo sido demitidos 250 funcionários. Duas novelas que estavam em exibição foram interrompidas.
Com dívidas e problemas administrativos, a emissora teve a concessão cassada pelo Governo Federal em 16 de julho de 1980, dois meses antes de completar 30 anos de fundação.
Com a antena de São Paulo lacrada pelo Departamento Na- cional de Telecomunicações (Dentel), também saíram do ar a TV Tupi do Rio de Janeiro, a TV Itacolomi, de Belo Horizonte, a TV Marajoara, de Belém, a TV Piratini, com sede em Porto Alegre, a TV Ceará, de Fortaleza, e a TV Rádio Clube, do Re- cife.
Era o fim da Tupi, PFR-3 TV Difusora. O legado da primei- ra emissora de televisão brasileira se resume a um acervo de duzentos mil rolos de filmes, 6.100 fitas de videoteipe e textos de telejornais que contam 30 anos de acontecimentos no país e no mundo.
TV Paulista
O sinal da TV Paulista abrangia basicamente o estado de São Paulo. A emissora perteceu inicialmente ao grupo que mais tarde fundaria a TV Excelsior. Vendida para o conglomerado de empresas do jornalista Roberto Marinho, do Rio de Janei- ro, a TV Paulista foi a antecessora da TV Globo na região.
Para formar uma rede de televisão, Roberto Marinho, que já tinha o canal quatro do Rio de Janeiro, precisava de uma con- cessão em São Paulo. A TV Paulista foi adquirida na década de 1960 e o nome foi substituído posteriormente pelo da matriz carioca. O canal Paulista deixou sua herança para a história da televisão brasileira. A Rede Globo incorporou a chamada
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Sessão Coruja e, atualmente, mantém o Corujão.
TV Record
A TV Record é uma das primeiras emissoras fundadas no Brasil. Sua inauguração aconteceu em 27 de setembro de 1953.
Concorrendo com a forte TV Tupi, a Record inovou e preen- cheu a grade de programação com atrações musicais, esporti- vas, teatrais e de humor.
São da emissora programas que lançaram ídolos nacionais como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, apresenta- dores do Jovem Guarda, entre 1965 e 1969. Já o programa O Fino da Bossa tinha à frente Jair Rodrigues e Elis Regina.
Pioneira da cobertura esportiva, a área de jornalismo tam- bém inovou, incluindo debates de temas da época e participa- ção de especialistas.
No final da década de 1980, o canal foi vendido pela famí- lia Machado de Carvalho e Silvio Santos à Igreja Universal do Reino de Deus. Com a venda, parte da programação da Record ganha teor religioso. Nesta mesma época, a empresa adquire pequenas emissoras pelo país e dá início a uma rede de alcance nacional. Em Vitória, a programação da Record chega através da TV Vitória, canal 6.
Rede Excelsior
Em 1959, as Organizações Victor Costa tinham a concessão da TV Paulista, canal 5, e receberam a permissão para operar mais um canal na cidade. A Rádio Excelsior também era uma empresa componente do grupo e a nova emissora, o canal 9, foi batizado com o mesmo nome.
Mas antes que o canal pudesse ter “uma cara”, ele foi com- prado por um grupo de investidores que tinha à frente a famí- lia Simonsen, proprietária da Panair, uma das maiores empre-
A televisão capixaba em panorâmica
sas de aviação do país. O valor pago pela concessão foi de 80 milhões de cruzeiros, montante muito elevado para a época.
A TV Excelsior de São Paulo entrou no ar em 9 de julho de 1960. A grade concentrava programas jornalísticos e filmes in- ternacionais. Na mesma época, ela concorria com a Tupi, a TV Paulista, a Record e a TV Cultura.
A Excelsior se tornou uma referência por ser a primeira emis- sora brasileira a combinar programação horizontal, na qual a mesma atração é exibida em horário fixo todos os dias, e pro- gramação vertical, aquela com a atração que sucede a anterior visando manter o público por afinidade de conteúdo. Com esta fórmula, o canal, em seis meses, conquistou a liderança da audiência na cidade de São Paulo.
A Excelsior foi de fato a primeira rede de televisão do Brasil com uma concessão adquirida no Rio de Janeiro, em 1963.
Apesar de a pioneira TV Tupi ter filiais nas duas cidades, estas possuíam um grau de autonomia que impedia a formação de uma “rede”. Com o avanço do videoteipe, que revolucionou o modo de se fazer televisão, a Excelsior usava a tecnologia para distribuir programas e exibi-los no mesmo horário em todas a afiliadas. Depois de aportar no Rio de Janeiro, a Excelsior também atingiu Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília.
A emissora paulista também inovou na identidade visual.
Ela foi a primeira do país a ter logotipo: um casal de crian- ças, chamadas de Ritinha e Paulinho, protagonizava diversas vinhetas.
A decadência da Excelsior começou com um golpe, literal- mente. Em 1964, com a tomada do poder pelos militares, os proprietários da emissora começaram a sofrer perseguição por terem ligações com os opositores do regime. Mesmo a Panair entrou em crise e faliu. Dois anos depois, a Excelsior foi com- prada pelo grupo Folha da Manhã, mas em 1967 foi vendida para os primeiros proprietários. Como as dívidas cresceram
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muito e os compromissos não podiam mais ser honrados, a emissora fechou as portas definitivamente em 30 de setembro de 1970.
SBT
Inaugurado em 1976 no Rio de Janeiro, o canal 11, de pro- priedade do empresário e apresentador Silvio Santos, tinha o nome de TV Studios. A principal atração da emissora era o programa dominical que levava o nome do proprietário.
No início da década de 1980, a TV Tupi está com vários pro- blemas financeiros e a sua falência é decretada. Silvio Santos então recebe do Estado o direito de explorar os quatro canais da primeira televisão brasileira nas cidades de São Paulo, Por- to Alegre, Belém e Rio de Janeiro. Com a expansão, é formado o Sistema Brasileiro de Televisão, SBT, com sede em São Paulo.
Com uma programação de apelo popular, voltada para o público com menor poder aquisitivo, a marca SBT tem boas atrações mas pouco retorno financeiro. Uma das medidas im- plantadas para reverter este quadro é a substituição completa do nome TVS por SBT, em 1987. A partir de 1988, a empresa de Silvio Santos intensifica os investimentos na programação, com a contratação de artistas e a exibição de filmes de grande bilheteria.
Atualmente o SBT é composto por 107 emissoras espalha- das por todo o território nacional. Isto lhe dá o título de se- gunda maior rede de televisão do país. No Espírito Santo, a retransmissão do sinal é feita pela TV Tribuna, do grupo João Santos.
Rede Globo
A história da Rede Globo começa às 10h45 do dia 26 de abril de 1965, com a inauguração do canal 4 do Rio de Janeiro. A concessão de televisão foi dada pelo presidente da Repúbli-
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ca Juscelino Kubitschek, ainda no ano de 1957. No livro A História secreta da Rede Globo, Daniel Herz garante que o ca- nal entrou no ar graças a um acordo com o grupo americano Time-Life, numa época em que era proibido qualquer capital estrangeiro nas comunicações brasileiras. Com essa parceria, a emissora sai na frente em termos de tecnologia e qualidade, e em pouco tempo torna-se líder de audiência. Auxiliado por fundos oriundos dos lucros dos outros veículos do grupo de Marinho, a Globo trabalhava para expandir a rede por todo o Brasil, e em breve chegaria ao Espírito Santo.
Com dinheiro em caixa, a emissora investiu em tecnologia e qualidade, o chamado “padrão Globo”, e seus programas dis- pararam na liderança de audiência e faturamento.
Em um ano de funcionamento na cidade carioca, a TV Glo- bo aportou em São Paulo após adquirir o canal 5, que trans- mitia o sinal da TV Paulista. Já em 1968, a terceira emissora da organização foi instalada em Belo Horizonte. A expansão da Globo foi rápida. A idéia de uma rede nacional de televisão estava lançada, justamente no momento em que a ditadura militar estava no poder e a grandeza do território brasileiro era enaltecida, principalmente com a construção dos grandes projetos como a Rodovia Transamazônica e a Usina Hidrelé- trica de Itaipu.
Em 1968 também foi inaugurado um link com sinal em mi- croondas, que ligou as emissoras da Globo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Estava formada a Rede Globo de Televisão. Um dos marcos da integração foi o lançamento do Jornal Nacio- nal, em 1969.
A década de 1970 chega com a expansão da emissora para além do Sudeste. Em abril de 1971 é inaugurada a TV Globo Brasília, que atingia ainda a cidade de Goiânia e outras locali- dades do estado de Goiás.
No ano seguinte a emissora carioca inicia os trabalhos em
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Recife. Nesta mesma época, a Rede Globo realiza a primeira transmissão em rede nacional em cores, exibindo a Festa da Uva de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, em 31 de março de 1972.
Apesar do avanço tecnológico das transmissões coloridas, somente em 1977 toda a programação da TV Globo passou a ir ao ar em cores. A implantação da transmissão via satélite começou em 1982.
Bitti e Anderson (2000) relatam que a grade de programa- ção da Rede Globo sempre teve a presença das telenovelas. O formato de sucesso criado ainda na época da inauguração da TV Tupi foi aperfeiçoado e, aliado aos avanços tecnológicos, tornou-se uma marca da emissora de Roberto Marinho.
A história da capixaba TV Gazeta está, desde sua fundação, vinculada à Rede Globo.
As TVs no Espírito Santo
Se, como dissemos, a televisão foi trazida para o Brasil por interesses políticos de Assis Chateaubriand, no Espírito Santo não seria diferente. É num contexto de transformação e dispu- ta pelo poder que a TV é implantada no Espírito Santo, pouco mais de uma década após a primeira transmissão, em 1950.
A historiadora Leonor Corrêa lembra, em entrevista, que
“os veículos de comunicação eram ótimas armas para o popu- lismo, em alta durante essa época. A exposição pública, feita nos palanques, nos carros de som e nos artigos de jornal, ago- ra contava com mais uma aliada: a televisão, que mais do que nunca serviria como instrumento para deixar os populistas mais próximos da população”.
A televisão capixaba em panorâmica
O então deputado federal João Calmon já havia percebido esse detalhe. Amigo de Assis Chateaubriand, Calmon, que nasceu em Colatina, foi cedo para o Rio de Janeiro, onde tra- balhou como repórter, e entrou para a rede Diários e Emissoras Associados, que dominava o ramo das comunicações no país.
A Rede pertencia a Chateaubriand e era formada por emis- soras de rádio e jornais, como a Rádio Nacional do Rio e de Janeiro e os jornais Diário Carioca e Diário de Notícias, entre outros. João Calmon estava fazendo a sua carreira política e sabia o quanto investir em comunicação era importante.
Calmon pretendia fundar no Espírito Santo um canal de televisão que fosse afiliado à TV Tupi, pertencente à Rede de Diários Associados. Para concretizar esse projeto, era necessá- rio juntar fundos para a compra dos equipamentos. Calmon decide lançar mãos da venda de ações: quem comprasse seria um dos donos da primeira emissora de televisão capixaba, que se chamaria TV Vitória. Era um negócio arriscado, pois a TV ainda engatinhava no Brasil e poucos se arriscariam a investir nessa área. Porém, a busca pelo prestígio e a possibilidade de ascensão política fez com que muitos empresários confiassem no projeto de Calmon e entrassem para a sociedade.
Dinheiro em mãos, era hora de transformar o sonho em realidade. Só mesmo o sonho e a busca pelo prestígio para conseguir instalar a televisão no Estado em meio a tantas di- ficuldades.
Com técnicos vindos da Tupi, a antena da TV Vitória foi ins- talada em meio à mata do Morro da Fonte Grande, uma das partes mais altas da capital, com difícil acesso. Foram neces- sários 15 dias para montar a aparelhagem e, depois de muitos testes, a primeira emissora de televisão do Espírito Santo foi inaugurada, com sede na Praça Costa Pereira.
Depois da instalação, a primeira dificuldade encontrada foi a captação do sinal. O sinal da Tupi chegava a Cachoeiro atra-
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vés de uma antena, e de lá seguia até Vargem Alta e Iconha, para depois chegar ao Morro da Fonte Grande e só então al- cançar os aparelhos na capital, que sintonizavam no canal 4.
A qualidade da imagem era ruim.
Outra dificuldade era o alto preço da aparelhagem. A maior parte dos equipamentos utilizados pela TV Vitória era refugo enviado pela matriz, como as câmeras, focos de iluminação, entre outros.
Mesmo assim, João Calmon não desistiu e tratou logo de dar o segundo passo. Abriu uma loja de aparelhos de televisão no Centro de Vitória, ao lado do Theatro Carlos Gomes. Era necessário público para prestigiar a primeira emissora de te- levisão capixaba. Como os aparelhos eram caros, os primeiros televisores foram instalados nas Praças Oito e Costa Pereira.
Aos poucos, a televisão começava a fazer parte da vida da po- pulação capixaba.
“Com pouco mais de 100 mil habitantes, Vitória era um ci- dade provinciana, de poucas opções de lazer divididas entre as praças e os cinemas. Várias capitais já tinham recebido os pri- meiros sinais de TV, e Vitória estava de certa forma ‘atrasada’
nesse sentido. Quando chegou ao Espírito Santo, a televisão acabou se tornando uma grande opção de entretenimento, que aos poucos foi se inserindo no dia-a-dia da população, até chegar às classes de menor renda”, afirma a historiadora Leonor Corrêa.
A emissora de Calmon logo começou a investir na progra- mação local. Os programas eram todos ao vivo, feitos à base de improviso e com poucos aparelhos que pifavam com fre- qüência. Élcio Álvares, Esdras Leonor, Marília Antunes Coser, Paulo de Paula e Milson Henriques foram os primeiros apre- sentadores e vivenciaram a arte de fazer televisão de uma for- ma totalmente amadora.
“Na TV Vitória era tudo artesanal, ao vivo. Era muita adre-
A televisão capixaba em panorâmica
nalina. Apresentei um programa chamado Bazar. Éramos três apresentadores. Muitas vezes os dois faltavam e eu animava sozinho. Não tinha entrevistado e eu arrumava uma pessoa na rua, na hora. Uma vez entrevistei Otinho, um poeta louco que rodava pelas ruas de Vitória e levei bronca do diretor depois, que era o Duarte Jr.”, conta Milson Henriques.
Henriques também fala da confusão que a TV causou na ca- beça das pessoas. “Havia televisores pela rua, as pessoas apon- tavam para gente e falavam: olha, aquele cara tava na televi- são! Pediam autógrafo. Na época, o povo fazia muita confusão entre Rio e Vitória, perguntavam porque eu não entrevistava Renato Aragão, por exemplo. Eles não faziam diferença entre TV Vitória e TV Tupi. Achavam que era tudo uma coisa só.”
Em 1964, ocorre o golpe militar e instala-se a censura nos meios de comunicação. Alguns apresentadores começam a ser perseguidos. Milson Henriques, por exemplo, foi preso 13 ve- zes.
Na verdade, os militares perceberam o poder da televisão e o alcance que ela havia atingido em 14 anos de existência no Brasil. As idéias veiculadas pela TV poderiam tanto reforçar o prestígio dos militares e mantê-los no poder, como incitar a revolta da população. A censura era uma forma de manter o poder da TV em suas mãos. Portanto, seria necessário não apenas controlar o que as emissoras estavam oferecendo aos seus telespectadores, mas transmitir uma programação que caminhasse de acordo com os interesses da ordem vigente.
Mambembe versus profissionalização
Na TV Vitória o amadorismo era causador de erros constan- tes. Além disso, no interior as antenas do canal eram usadas para captar sinais de outras emissoras de fora do Estado, o que acabou gerando concorrência. Bitti e Anderson (2000) re- latam que em 1966 outros empresários também interessados na carreira política, entre eles Teodorico Ferraço, aproveitam
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a fragilidade e o mau funcionamento da emissora de Calmon para instalar no Espírito Santo uma retransmissora do canal de maior audiência no país.
Entrava no ar a TV Clube Intermunicipal que era, na verda- de, apenas uma antena, instalada no Morro do Moreno, para retransmitir o sinal da Globo. O grupo não tinha nenhuma concessão e nem mesmo dinheiro suficiente para manter a re- petidora. Não havia estúdio, nem programação local. Isso deu um caráter de ilegalidade ao projeto de Ferraço. De fato, a Glo- bo conquistou a audiência do público capixaba com a qualida- de da sua programação. Ela acabou servindo de teste para os futuros donos da afiliada da Globo em Vitória. Com a TV Clu- be, foram tiradas as dúvidas sobre a audiência e a influência da programação da Globo, ficando claro que era um negócio no qual valia a pena investir. O projeto de Ferraço não foi à frente devido à falta de dinheiro. O grupo tentou repetir o mesmo feito de Calmon quando fundou a TV Vitória, lançando mão de rifas e doações públicas, mas de nada adiantou.
Apesar do fracasso, a iniciativa de Ferraço serviu para dire- cionar a família Monteiro Lindenberg. Tanto é que, antes mes- mo de conseguir uma concessão do governo para ter um canal de televisão, Carlos Lindenberg já tentava fazer contratos com a TV de Roberto Marinho. Antes da TV Gazeta, porém, uma outra emissora de televisão chegou ao Espírito Santo. Trata-se da TV Educativa, de posse do governo do Estado.
Logo no começo da década de 70, as televisões públicas co- meçam a crescer e cada estado brasileiro tem direito a uma concessão. As primeiras a entrarem em funcionamento foram a TVE do Rio e de São Paulo. No Espírito Santo, o governador Cristiano Dias Lopes havia criado, no início de 1969, a Fun- dação Cultural do Espírito Santo. Eram de responsabilidade da Fundação o Theatro Carlos Gomes, o Museu do Colono, a Biblioteca Pública Estadual, a Rádio Espírito Santo e serviços de Cinema e Televisão. A televisão, porém, só saiu do papel
A televisão capixaba em panorâmica
em 1974, no governo de Artur Carlos Gerhardt. Era a TVE Espírito Santo, que retransmitia a programação da TVE de São Paulo, pertencente à Fundação Padre Anchieta, com uma pro- gramação de conteúdo educativo e cultural.
Marien Calixte lembra que “a TVE foi a primeira a operar em cores, e no mesmo ano em que foi inaugurada permitiu aos capixabas assistir às imagens coloridas da Copa do Mundo da Alemanha. Por outro lado, a TVE pertencia ao Estado, por isso não tinha retorno com publicidade. Dependia da verba do governo, que também tinha outras obrigações a cumprir.
Nem todos os governadores deram importância e investiram na TV, que mudava de administração toda vez que havia tro- ca de governo. A emissora começou a passar por dificuldades financeiras e até por greves, que deixavam o canal fora do ar.
Mesmo com as dificuldades, a TVE do Espírito Santo começou a implementar, a partir de 1976, uma programação local”. É neste ano que entra no ar a TV Gazeta.
A seguir, confira a trajetória das emissoras capixabas em de- talhes.
Referências bibliográficas
BITTI, George; ANDERSON, Priscila. A Festa da TV – livro- reportagem sobre a história da TV no Espírito Santo. Faesa: Vi- tória, 2000. (mimeo)
HERZ, Daniel. A História secreta da Rede Globo. Porto Alegre:
Tche. 1987.
ZAGANELLI, Bárbara. “Se a mudinha falasse...”. Monografia de conclusão de curso. Jornalismo. Faesa: Vitória, 2002.
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Leonor Corrêa, historiadora e professora da Ufes. Em 23 de janeiro de 2006.
Marien Calixte, jornalista, escritor, poeta. Em 09 de janeiro de 2006.
Marta Zorzal, cientista social e professora da Ufes. Em 15 de fevereiro de 2006.
Milson Henriques, escritor, jornalista e cartunista. Em 17 de janeiro de 2006.
... E a TV chega ao Espírito Santo
Marília Marques, Sabrina Rodrigues e Wagner Carvalho Júnior
F
alar sobre a TV Vitória é, antes de tudo, falar sobre a história da TV no Espírito Santo, pois, como pioneira, sua trajetória se confunde e se entrelaça com a vinda, para o Estado, desse meio de comunicação que hoje alcança o posto de maior influência na cultura e na opinião pública nacional.De acordo com Azevedo (2001), a inauguração da TV Vitó- ria estava prevista para 9 de maio de 1962, mas, devido a um terrível acidente com um avião da Cruzeiro do Sul, a data teve de ser adiada. “Apenas dois salvaram-se: o Sr. Joaquim, um re- presentante comercial, e o engenheiro da TV Tupi, que uma semana antes estivera comigo, José Luzardo, Élcio Álvares e Manoel da Silva Nunes, a fim de localizar o ponto de antena para sua instalação no morro da Fonte Grande, que iria servir para o funcionamento da TV Vitória, uma dádiva do Sr. João Calmon ao povo capixaba e que entrou no ar no dia 8 de se- tembro como um presente dos Diários Associados”.
Superada a tragédia, a emissora começou a funcionar num espaço de dois andares no Edifício Moisés, no centro de Vitó- ria, mais de uma década após a inauguração da televisão no Brasil (1950). No início, apenas repetia a programação nacio- nal da TV Tupi.
Quando o canal foi ao ar pela primeira vez houve uma ceri-
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mônia no estúdio e uma transmissão ao vivo, direto da Praça Costa Pereira. “Naquele tempo não existiam muitos aparelhos de televisão, mas, com a vinda da TV aqui para o Estado, hou- ve um investimento e começaram a vender aparelhos”, recorda Licério Duarte Júnior, um dos fundadores da TV Vitória e di- retor superintendente na época.
Segundo Bitti e Anderson (2000, p.21), “foi um espanto, por- que ninguém conhecia e todo mundo duvidava. Todo mundo achava que era loucura. A maioria do pessoal de Vitória só en- tendia de Rádio. O pessoal tinha até medo de chegar na beira, aquela chiadeira, o brilho era muito e a imagem ruim, ruim.
Então eles ficavam meio afastados, tudo olhando de lado”.
A instalação da emissora na capital capixaba foi possível graças aos equipamentos trazidos da TV Tupi do Rio de Janei- ro. O transmissor foi colocado no Morro da Fonte Grande e não se podia falar em mau tempo que a programação saía do ar. Além disso, a TV só funcionava por um curto período, das 17 às 22 horas, aproximadamente.
Por quase duas décadas a emissora funcionou clandestina- mente, pois não era registrada no Ministério das Comunica- ções. Sua situação foi regularizada em 1979, quando Haroldo Corrêa de Matos, então ministro das Comunicações, conce- deu o alvará de funcionamento.
Assim como sua matriz, a TV Vitória pertencia aos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. Mas a iniciativa de implantação de uma emissora no Espírito Santo não partiu de Chateaubriand e sim de João Calmon. Capixaba nascido em Baunilha, distrito de Colatina, e criado no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, Calmon foi contratado como jor- nalista pelos Diários Associados para trabalhar em O Jornal.
Por um desses fenômenos absolutamente imprevisíveis, João Calmon caiu na simpatia de Chateaubriand, que o fez sócio do condomínio dos Diários Associados. Na época, As-
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sis Chateaubriand quis ampliar os domínios de seu império das comunicações, mas o Espírito Santo não estava em seus planos, pois já existia aqui a Rádio Vitória, que pertencia ao grupo.
Entretanto, como João Calmon decidiu lançar-se candidato a deputado federal e seu nome não tinha expressão no Estado, foi criada a TV Vitória para dar sustentação à sua campanha.
A estratégia deu tão certo que Calmon foi eleito com um nú- mero expressivo de votos.
“Inventa um negócio aí!”
Em sua fase inicial, a programação transmitida ao telespec- tador capixaba consistia em novelas mexicanas e alguns fil- mes. Com o tempo, foram criados programas locais que, por não contarem com a tecnologia do videoteipe, eram exibidos ao vivo.
A emissora foi uma das primeiras no Brasil a produzir pro- gramas infantis, quase que prevendo uma tendência que se firmaria nas décadas seguintes. O primeiro deles foi Encontro com Tia Priminha, apresentado por Marília Coser.
Outras atrações locais de sucesso eram um programa de calouros dirigido por Jonas Porfírio e o programa de entre- vistas Variedades Capixabas, de Marien Calixte, que estreou com Carlos Lindenberg Filho, o Cariê, sendo entrevistado.
“Ele levou o violão, tocou e cantou e isso foi um fato curioso, porque as pessoas o conheciam apenas por ser filho do então governador Carlos Lindenberg e ser secretário de Estado”, re- lata Calixte.
Também havia o Bazar, programa apresentado por Eleisson de Almeida, Mauro Pitanga e Milson Henriques. “Dentro do
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programa eu comecei a fazer o Fotos em Foco, um quadro em que eram alternadas fotos e narrativas, porém as fotos não correspondiam aos fatos narrados. Essa era uma forma de dri- blar a censura imposta pela ditadura militar iniciada na déca- da de 60”, conta Milson Henriques.
Como exemplo segue um trecho do roteiro de seu quadro do dia 30 de maio de 1969: “[...] E algum dia, eu farei um pro- grama mostrando só crianças alegres e saudáveis, vitaminadas, felizes com suas roupas novas, caminhas macias, brinquedos e amor materno. Farei um programa onde criança rimará com esperança. Será um programa lindo! Pena que algumas crian- ças abandonadas que perambulam pela Praça Oito podem ver o programa pela televisão, e ficarão chocadas. Mas isso não é problema! Eu tenho de falar de coisas alegres!”. Esse texto era narrado enquanto se exibiam fotos de crianças pobres da periferia.
Devido à censura, Henriques deixou de apresentar o Fotos em Foco para fazer um quadro de entrevistas, atração que não durou muito por causa de sua irreverência. “Eu levei muita bronca por fazer perguntas que não deviam ser feitas e, quan- do eu comecei a incomodar, me deram um quadro infantil para ensinar as crianças a desenhar. Era tudo bem improvisa- do e a gente brincava muito”, recorda.
Para quem se interessava pelos acontecimentos da sociedade capixaba, havia um programa comandado por Esdras Leonor, que levava damas da sociedade para falar de beleza, bailes e concursos de miss. Algo próximo ao programa apresentado na emissora por Wesley Sathler na década de 1990.
Em relação ao jornalismo, fazia sucesso o programa Diário da Cidade, de Duarte Júnior, que falava sobre os problemas da capital, política e tinha espaço para entrevistas. “O jorna- lismo era bem crítico. Quando um programa como o Diário da Cidade fazia uma reclamação, o Governo tomava logo uma
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providência”, afirma.
Mais tarde, Gerson Camata, um dos poucos repórteres con- tratados na época, também ganhou destaque com o programa jornalístico Ronda Policial, criado para concorrer com o Na Polícia e Nas Ruas, da Rádio Espírito Santo, primeiro progra- ma policial, que foi ao ar por volta de 1954.
Mas quem está acostumado com a qualidade atual pode não imaginar os desafios enfrentados pelos desbravadores da TV no Espírito Santo. As dificuldades iam desde problemas mais graves, como a perda de sinal interrompendo um programa no ar, até casos engraçados, como lembra Calixte: “O Edifício Moisés é bem estreito, o cenário estava colado na parede e o apresentador ficava na frente com o microfone no pedestal, chamando os calouros. Então, lá pelas tantas, houve um pro- blema e o cenário começou a desabar nas costas do apresenta- dor”. Isso tudo ao vivo.
Calixte lembra ainda que esse período inicial de implantação da TV aqui no Estado foi marcado pelo amadorismo. “Quan- do eles chamavam a gente pra fazer um programa diziam: ‘O que você vai fazer? Inventa um negócio aí!’ Então eu disse: vou fazer um programa de entrevistas”. Assim nasceu o Variedades Capixabas e tantas outras atrações.
Inclusive a publicidade era feita dessa maneira. Marien Ca- lixte cita o caso de Walter Lopes Carzente, mais conhecido como Moreno, um profissional que fazia publicidade para o rádio e também para a TV. “Aparecia de repente, ao vivo – como já foi dito, toda programação era ao vivo – e se tinha uma pilha de sapatos, ele os pegava e jogava na parede, dizen- do: ‘Compre esse sapato que é ótimo’”.
Moreno não foi o único a atuar nos dois veículos de comu- nicação. Grande parte dos profissionais era chamada para a emissora por já terem o hábito de usar o microfone, porém não tinham intimidade com as câmeras. Mas era do que a TV
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Alguns anos depois, visando a uma estrutura maior, plane- jou-se construir um prédio que abrigasse tanto a rádio quanto a TV Vitória, na Avenida Vitória, onde hoje funciona o Ins- tituto de Previdência e Assistência Jerônimo Monteiro. Mas, diante da crise instalada nos Diários Associados, isso não foi possível e o terreno foi vendido.
Essa crise começou com a doença de Chateaubriand e se agravou após sua morte. Iniciava-se assim a decadência de um dos maiores impérios de comunicação que o país já teve. “Os Diários e Emissoras Associados eram um oligopólio da indús- tria da informação com uma precária estrutura administrati- va, longe das normas modernas de gerenciamento”, conside- ram Capparelli e Lima (2004, p.65).
Em julho de 1980, com a suspensão, pelo Governo, da con- cessão da TV Tupi, a TV Vitória passou a retransmitir a TVS, hoje Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). No ano de 1984, ela foi comprada pelo Grupo Buaiz Alimentos Indústria S/A, atu- almente dirigido por Américo Buaiz Filho. Em 17 de outubro do mesmo ano passou a retransmitir a TV Manchete, da famí- lia Bloch, que tinha como proposta não ser tão popular como a TVS, e tinha como slogan “Televisão de primeira classe”.
Ruim de imagem, ruim de som
“A Manchete teve momentos importantes, com a novela Pantanal e com séries brasileiras. Foi uma televisão que se em- penhou muito, mas a falta de estrutura fez com que ela decli- nasse e nós, com isso, fomos obrigados a ampliar a grade re- gional assumindo o slogan ‘TV Vitória: a cara da gente’”, relata Fernando Machado, atual diretor comercial e de operações da emissora.
A televisão capixaba em panorâmica
Apesar dessa regionalização, grande parte dos programas era terceirizada, ou seja, não era produzida pela emissora. E, mes- mo com todas essas transformações, a baixa qualidade técnica ainda permanecia como um dos problemas, como conta Ma- chado: “Quando eu cheguei à emissora, ela era considerada a televisão Berredo de Menezes, quer dizer, era ruim de imagem e ruim de som. Berredo era um candidato a senador que não era muito bonito e falava arrastado. Os equipamentos não funcionavam”.
Mas, além de ser ruim de imagem e ruim de som, a TV Vi- tória também era o lugar de alguns improvisos. Em meados da década de 80, havia um programa diário, Jornal do Povo, apresentado por Osvaldo Oleari. Era um programa líder em audiência, conta Adriano Trigo, que foi chamado para traba- lhar na produção. “Na época estava na moda Madonna e con- cursos do tipo ‘Garota da Praia’ e o Edmar de Almeida, que trabalhava no programa, chamou várias garotas para desfilar de biquíni ao som da cantora e o Oleari trouxe de Colatina uma dupla de sanfoneiros. Alguém já havia marcado com a turma do Balão Mágico da Ufes, que tinha criado um gru- po de teatro de bonecos de papel machê. Ficou estabelecido que no antepenúltimo bloco entraria o pessoal do teatro, no penúltimo os sanfoneiros e no último as meninas. Entrou o pessoal do Balão Mágico, e nesse meio tempo, gritaram que não teria comercial e eles não conseguiram sair; aí entrou a dupla de sanfoneiros e os balonetes sentaram todos no chão esperando uma brecha pra sair do estúdio e os sanfoneiros to- cando... Nisso veio uma ordem da direção dizendo para entrar com as meninas do concurso porque caíra o último intervalo.
E o Oleari não esperou o Jocimar colocar a música da Ma- donna e apresentou as meninas. Para piorar, os sanfoneiros começaram a tocar. Foi uma loucura: tinha um monte de me- ninas de biquíni desfilando, sanfoneiros tocando e no meio do caminho a música da Madonna começou a tocar e ficou uma bagunça! Mas a confusão não parou por aí, o pessoal do teatro que estava sentado resolveu fazer uma performance e
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começou a dançar no meio das meninas. Quando vi aquilo, saí correndo e fui para redação. Chegando lá, estava a Sueli Lievore chorando e o Edmar de Almeida boquiaberto: ‘Cara, o programa tá meio surreal!’. Depois desse acontecimento que entrou para a história, toda a equipe pediu demissão”, conta, às gargalhadas, Trigo.
Mesmo com essas dificuldades técnicas, no fim dos anos 80 a emissora lançou um dos programas de maior sucesso da te- levisão capixaba: o Espaço Local.
Sucesso local
A estréia do Espaço Local foi em julho de 1988. O programa era apresentado inicialmente por Jeanne Billich, Milson Hen- riques, Marien Calixte e Luís Eduardo Nascimento.
O Espaço Local nasceu da proposta de se fazer um programa que retratasse assuntos variados da vida do telespectador, com o formato de revista. O programa fazia uso do jornalismo, mas esse não era o seu forte. Ele valorizava mais as entrevistas de estúdio, abordava assuntos econômicos, comentários políticos e temas que estivessem em evidência.
“Segundo Américo Buaiz, o Espaço Local era a sala de visitas da TV Vitória. Ele havia idealizado e cuidava pessoalmente das pautas enquanto o mesmo não se consolidava. Américo tinha um carinho especial pelo programa”, conta Jeanne Billich.
Durante os anos em que foi apresentado, o programa teve diversas formações. A primeira mudança ocorreu com a con- tratação de César Herkenhoff, após a morte de Luís Eduardo Nascimento. Posteriormente, Calixte e Herkenhoff se afasta- ram e Milson Henriques foi substituído por Chico Netto. De- pois, outras pessoas passaram pelo lugar de Chico Netto, mas
A televisão capixaba em panorâmica
ficaram por pouco tempo. Em 1990, Adriano Trigo, de volta à emissora, estréia, dividindo o Espaço Local com Billich. A sintonia entre os dois era muito grande, o que contribuiu para o êxito do programa.
O formato fez tanto sucesso que outras afiliadas da Rede Manchete, como as do Piauí e Amazonas, passaram a produzir um programa local que era exibido, inclusive, com o mesmo nome. O horário do meio-dia também serviu de inspiração para a rede. Visando a padronizar as veiculações locais, a Man- chete fez pesquisa junto a todas as repetidoras do país para o estabelecimento de um horário padrão compatível com a programação nacional, tendo sido escolhida a opção da TV Vitória.
Em 1991, o programa lança a participação ao vivo do te- lespectador por telefone, dando dicas, mandando recados, fa- zendo denúncias. Essa idéia foi tão inovadora que em junho de 1993, quando o programa completou seis anos, cerca de 30 ligações eram recebidas diariamente e quase todos os proble- mas acabaram sendo solucionados. Era comum órgãos públi- cos terem um aparelho de TV ligado no Espaço Local, por isso o feedback era imediato.
Diversas personalidades passaram pelo programa, como Darcy Ribeiro, Tônia Carreiro, Paulo Autran, Nélson Gonçal- ves, e todos os candidatos a governador do Estado e à pre- sidência da República das eleições de 1989, exceto Fernando Collor.
Em 1998, a jornalista Jeanne Billich deixa o programa. “Saí do Espaço Local porque queria fazer algo novo. Foi quando eu fiz um estágio com Boris Casoy e ancorei o Jornal da TV Vitória no estilo do apresentador. Isso já na época da Record”, lembra Billich.
Em 2002, a apresentação do programa ficou por conta de Adriano Trigo que, após um período fora da emissora, voltou
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para substituir Cláudio Figueiredo, o Cauby.
O programa durou até o final de 2004, período em que não contava mais com a presença de Jeanne Billich e Adriano Tri- go. “Pela primeira vez se viu na televisão capixaba a associação da imagem dos apresentadores com a de um programa, o que ocasionou o seu fim”, afirma Trigo.
As notícias chegam, mas o sinal...
Para promover uma reformulação na programação da TV Vitória, ainda como retransmissora da TV Manchete, em maio de 1994, foi contratada a jornalista Carminha Corrêa. No car- go de gerente de Jornalismo, ela ficou responsável por toda programação local da emissora, assim como pela criação de novas atrações.
Já existiam atrações locais como o recém-citado Espaço Lo- cal, o Jornal do Estado, Questões a Domicílio e Gente que é Man- chete. “Começamos a implantar novos programas e quadros, a empresa investiu em equipamentos e melhorou sua produto- ra. Criamos também a Rede Vitória de Notícias, uma parceria da TV Vitória com jornais impressos do interior do Estado.
Eles entravam no ar, por telefone, com alguma notícia dessas cidades e a gente dava os créditos dos jornais impressos. Isso foi muito legal porque até então era difícil e muito custoso sair daqui para cobrir pautas no Interior. Nós fizemos essa ponte que deu certo”, conta Corrêa.
E as inovações não pararam por aí. Segundo a jornalista, du- rante as eleições de 1994, foi criado o Vota Espírito Santo, um programa desenvolvido especialmente para os períodos elei- torais, com cobertura durante todo o dia. Houve uma grande audiência porque só a emissora cobria as eleições em tempo integral. Para isso, contava com a equipe local e com a equi-
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pe da Rede Vitória de Notícias, sociedade que durou cerca de dois anos. A emissora também foi a primeira do Estado a fazer flashes jornalísticos ao vivo durante a programação, algo se- melhante aos plantões que as emissoras nacionais fazem atu- almente, só que com mais freqüência. Outra novidade foram as séries de reportagens, pouco comuns à época.
Mas a falta de um sinal que cobrisse todo o Estado ainda era um problema para a emissora. A história da transmissão de jogos do campeonato capixaba ilustra bem a situação. “A TV Vitória fez um acordo com a Federação Capixaba de Fute- bol para transmitir, ao vivo, uma vez por semana, os jogos do campeonato capixaba. Enquanto os jogos aconteciam na Re- gião Metropolitana, estava tudo bem. Mas o acordo previa que durante o campeonato a emissora transmitiria apenas os jogos que acontecessem na Grande Vitória, porém a final deveria ser transmitida de qualquer lugar que fosse. Foi um compromis- so complicado por causa da falta de equipamento e por ser em Linhares a final do campeonato. Como não tínhamos um único sinal, foi uma coisa de doido: os técnicos foram de Vi- tória a Linhares fazendo links aos pedaços. Pelo compromisso, teríamos que entrar ao vivo no sábado de manhã com flashes, mas só conseguimos depois do início do jogo. Assim mesmo, porque segurei o juiz pelo braço uns quinze minutos, dizendo:
‘Espera que vai entrar no ar’. Ele chegou até a ameaçar man- dar me prender pois a torcida já estava enfurecida, querendo invadir o campo. Quando eu vi que não dava mais pra segurar o jogo, pensei: ‘Seja o que Deus quiser’. Mas para minha sorte o sinal logo apareceu e conseguimos fazer a transmissão”, lem- bra Corrêa.
De acordo com ela, nos anos 90, o sinal em Linhares, assim como em outras localidades do interior do Espírito Santo, era muito ruim. Esse foi um dos motivos para que a então gerente de programação sugerisse a mudança do nome do noticiário de Jornal do Estado para Jornal da TV Vitória, pois a abran- gência do jornal se restringia à capital e aos municípios mais
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próximos. Além disso, o próprio público se referia ao jornal como Jornal da TV Vitória.
Devido aos constantes problemas financeiros e de progra- mação da TV Manchete, no dia primeiro de outubro de 1998 a TV Vitória passou a ser afiliada da Rede Record. Com isso, a emissora começou a investir em equipamentos e adquiriu uma estação móvel para transmissões ao vivo.
Empresa tem que dar lucro
Mesmo com a mudança para Record, as particularidades da TV Vitória foram mantidas, assim como o espaço destinado à programação local.
O jornalismo continua focado na Grande Vitória, mas exis- tem dois programas que cobrem pautas em outros lugares do Espírito Santo, que são o Mundo do Campo e o Repórter do Estado. Quando acontece algo relevante no interior do Estado é utilizado o mesmo recurso que na época da Rede Vitória de Notícias, ou seja, o fato é transmitido por telefone durante a programação.
Atualmente, a emissora não possui programas terceirizados, porém algumas características permanecem, como o mer- chandising escancarado. Em muitos programas as matérias misturam informação e publicidade, fazendo com que eventos ou acontecimentos que são notícia transformem-se em palcos para promoção de determinados produtos ou marcas.
Desde sua criação, a televisão sempre foi um meio com vo- cação comercial, o que a mantém viva até hoje. Apesar disso, a separação entre informação, educação e entretenimento deve ser visível em relação aos objetivos publicitários. O telespecta- dor precisa compreender essa distinção para não ser manipu-
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lado por um mecanismo meramente comercial.
Questionado acerca disso, Fernando Machado defende a emissora: “Nós não temos nenhuma vergonha em assumir o nosso compromisso com os resultados. Um programa para ser implantado precisa atender quatro bases: o telespectador; o apresentador e a equipe; anunciantes, que precisam de respos- ta; e a empresa, que tem que dar lucro. Isso não interfere em nada na credibilidade junto ao público, porque o que a expe- riência nos mostra é que por meio desses produtos (progra- mas) vamos dando vida à cidade, seja na moda ou no mundo empresarial, por exemplo.”
A TV que é a cara da gente
Apesar do apelo comercial, o diferencial da emissora hoje é sua qualidade técnica, o que a faz a única no Brasil detentora da certificação ISO 9002/2000. A emissora anuncia que cobre todo o Espírito Santo com um único sinal, no que seria um mérito exclusivo da TV Vitória.
“Além de termos a maior programação local, somos também os maiores produtores e exibidores de programas regionais do Brasil. Não existe nenhuma emissora no país que produza e exiba 13 programas. E o destaque não é só regional. No ano passado, geramos 648 matérias para o jornalismo da Record, somos o maior fornecedor de matérias jornalísticas fora do eixo Rio – São Paulo”, diz Machado.
Outro destaque da emissora é o reconhecimento que obte- ve por meio de dois prêmios Colibri de Ouro, o prêmio mais importante do Espírito Santo na área de publicidade, e dois prêmios Aberje de Jornalismo. Também foi eleita empresa se- torial do Brasil pelos leitores da Gazeta Mercantil.
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Atualmente, a Rede Vitória de Comunicação é composta pela TV Vitória – canal 6, Rádio Jovem Pan, Rádio Vitória AM, Rá- dio Shopping e pela produtora Vitória Vídeo & Áudio.
Ao longo de todos esses anos, desafios não faltaram para essa que foi a pioneira das TVs no Espírito Santo. Muitos foram os profissionais que passaram pela TV Vitória – seria impossível destacar todos aqui – e que contribuíram de alguma maneira para que a emissora deixasse sua marca na história. Mas essa história não acaba aqui. Continua a ser escrita pelos diversos profissionais que, cotidianamente, dão vida a essa “TV que é a cara da gente”.
Referências bibliográficas
BITTI, George; ANDERSON, Priscila. A Festa da TV: livro-re- portagem sobre a História da TV no Espírito Santo. Faesa: Vitó- ria, 2000. (mimeo)
AZEVEDO, Délio Grijó de. A Ilha de Vitória que conheci e com que convivi. Vitória: Prefeitura Municipal de Vitória, 2001.
CAPARELLI, Sérgio; LIMA, Venício A. de. Comunicação e Te- levisão: desafios da pós-globalização. São Paulo: Hacker, 2004.
CARVALHO, Marcelle de Almeida. A evolução do telejorna- lismo no Espírito Santo: a busca por uma identidade regional.
1999. Monografia – Curso de Comunicação Social, Faesa, Vi- tória, 1999.
MARTINUZZO, José Antônio (Org.). Rádio Clube do Espírito Santo: Memórias da Voz de Canaã. Vitória: Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo, 2004.
PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa (Org.). A vida com a TV: o po-
A televisão capixaba em panorâmica der da televisão no cotidiano. São Paulo: Senac, 2002.
Entrevistas
Adriano Trigo, jornalista. Em 20 de abril de 2006.
Carminha Corrêa, jornalista. Em 22 de março de 2006.
Fernando Machado Ferreira, jornalista e diretor comercial e de operações da TV Vitória. Em 27 de março de 2006.
Jeanne Billich, jornalista. Em 18 de abril de 2006.
Licério Duarte Júnior, um dos fundadores da TV Vitória. Em 20 de março de 2006.
Marien Calixte, jornalista, escritor, poeta. Em 23 de março de 2006.
Milson Henriques, escritor, jornalista e cartunista. Em 20 de abril de 2006.
Anexo
Atualmente, a grade de programação local da TV Vitória é composta por 13 programas locais. É a maior grade dentre todas as emissoras do Estado e de todas as afiliadas da Rede Record; com telejornais, programas de moda, saúde, negócios, culinária, variedades, decoração e entretenimento. Confira abaixo a programação:
• Vitória Fashion – domingo às 22h15 e terça-feira às 12h45. Comandado por Vanessa Endringer, o programa traz informações sobre moda, mostrando as novas coleções, pro-
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fissionais que se destacam no segmento, além dos eventos re- lacionados à moda.
• Vivendo e Aprendendo – quarta-feira às 12h45 e sába- do às 9h30. O programa, que é apresentado por Luiza Ribeiro, discute temas como saúde, ecologia, educação e turismo.
• Gourmet Vip – quinta-feira às 12h45 e domingo às 11h30. Apresentado por Fabrício Fabre, o Gourmet Vip divulga os acontecimentos que envolvem a gastronomia, mostrando as novidades para os amantes da arte de cozinhar e degustar.
• Mundo do Campo – domingo às 9h. Programa voltado para um dos principais segmentos econômicos do estado, a agropecuária. Assuntos como novas tecnologias, culturas al- ternativas, sistemas de produção e controle de pragas e doenças são abordados no programa, que é apresentado por Patrícia Vallim.
• Repórter Estado – sábado às 11h e domingo às 10h30.
Apresentado por Jacqueline Franklin, o programa fala sobre economia, política e cultura, principalmente dos municípios do interior do Espírito Santo.
• Arte et Décor – segunda às 12h45 e domingo às 10h.
Tem como objetivo dar maior visibilidade ao segmento de de- coração do Espírito Santo. Apresentado por Doriene Moraes.
• Jornal da TV Vitória - de segunda a sábado às 18h30.
Mais antigo telejornal da emissora, antes chamado de Jornal do Estado. É apresentado por Ana Katia.
• Jornal Local - de segunda a sábado às 12h. Telejornal apresentado por Priscila Santos.
• Negócios de Sucesso – domingo às 22h45 e quarta-fei- ra: à meia-noite. O mundo dos negócios é o foco do programa apresentado por Vladimir Godoy, que discute temas empresa-
A televisão capixaba em panorâmica
riais e econômicos, mostrando tendências de mercado, gran- des oportunidades e destacando empresas e empresários.
• Fala Espírito Santo - de segunda a sexta às 13h15. Pro- grama com entrevistas ao vivo sobre cultura, entretenimento, saúde e comportamento, apresentado por Isabela Castro.
• TV Motor Show – sábado às 10h30 e domingo às 11h.
Aborda assuntos relacionados ao setor automobilístico, como novidades, lançamentos, classificados e as principais notícias que movimentam o segmento. Com apresentação de Thiago Pinhati.
• Sociedade em Ação - sábado às 10h e domingo às 11h30. Responsabilidade social e desenvolvimento sustentá- vel são os objetivos desse programa de cunho jornalístico do terceiro setor. É apresentado por Talita Guimarães.
• Black Tie – sábado às 12h30 e sexta-feira às 12h45.
Programa apresentado por Fabrício Toscano que destaca as notícias que circulam na sociedade capixaba: personalidades, música, cinema e literatura.
Roda VT!
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Uma das primeiras transmissões de rua da TV Vitória, comandada por Duarte Jr. (terceiro da esquerda para direita)
Milson Henriques apresenta quadro infantil no programa Bazar