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Rev. adm. empres. vol.56 número3

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Academic year: 2018

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© RAE | São Paulo | V. 56 | n. 3 | maio-jun 2016 ISSN 0034-7590

RAE| Revista de Administração de Empresas | FGV/EAESP 265

EDITORIAL

NOVAMENTE A QUESTÃO DO LUGAR: LOCAL, GLOBAL OU GLOCAL?

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020160301

O

s periódicos nacionais estão diante de alguns dilemas: publicar temas de interesse local versus produzir conhecimento para uma ciência universal; atender à crescente pressão para publicação em língua inglesa versus o ainda necessário aprimoramento das pes-quisas e artigos em português; e atrair os artigos de pesquisadores bra-sileiros talentosos quando estes, por pressão de suas instituições, pre-cisam publicar em periódicos internacionais.

O objetivo de todo periódico científico é disseminar a produção de conhecimento e, como consequência da qualidade desse conheci-mento, aumentar a sua visibilidade, mas as revistas não são responsá-veis por todos os problemas citados, que resultam de uma complexida-de complexida-de fatores. Por exemplo, da relação dos programas complexida-de pós-graduação com os órgãos que regulamentam as métricas de avaliação da qualida-de, e da articulação entre vários atores sociais: professores, alunos, editores, coordenadores de programa, congressos acadêmicos. A co-munidade acadêmica em Administração precisa dialogar constante-mente para a construção das respostas que atendam ao rigor científico, às boas práticas de pesquisa, aos interesses locais e à produção de co-nhecimento universal, em benefício do bem comum. Afinal, como sabe-mos, a realidade é socialmente construída, e o sistema decorre de to-dos os stakeholders que o sustentam. A Administração encontra-se na área das Ciências Sociais Aplicadas e, como tal, deveria contribuir para melhores condições de vida, cabe lembrar. O artigo é um dos possíveis resultados de uma pesquisa. E, para o artigo chegar à publicação, são necessários vários passos.

Além dos debates nos programas de pós-graduação, algumas iniciativas poderiam reforçar esses passos: os congressos acadêmicos da área poderiam oferecer workshops para estimular competências de escrita e publicação entre estudantes de mestrado e doutorado, e re-forçar, perante as novas gerações, a necessidade de rigor científico e relevância da pesquisa para o País. Por sua vez, os periódicos científi-cos poderiam estimular ainda mais os autores brasileiros a contribuí-rem com soluções criativas de questões locais, mas também fóruns te-máticos que incentivem a colaboração entre pesquisadores nacionais e do exterior. Além disso, poderiam providenciar pareceres que sejam realmente úteis para o aperfeiçoamento dos artigos e também convidar professores pesquisadores seniores a contribuírem com suas pensatas e debates acadêmicos.

Coincidentemente, dois artigos neste número trazem, com pers-pectivas diferentes, o debate sobre essas questões. Sergio Olavarrieta avalia a qualidade das revistas científicas latino-americanas e mostra, entre outros critérios, que publicar trabalhos relevantes, com metodo-logias sofisticadas, sobre tendências, é ainda a melhor alternativa para os periódicos científicos, em vez de caminhos aventureiros e tortuosos para aumentar o fator de impacto. Outra conclusão do artigo é que pe-riódicos com nome em inglês são mais lembrados (!). A marca da insti-tuição da publicação também é fator relevante. O autor recomenda que os editores aumentem a percepção de qualidade dos periódicos por meio de um conjunto de ações, entre elas, benefícios reais para os au-tores, como tempo de resposta, e, especialmente, pela qualidade da revisão dos artigos. Não há dúvidas de que essas recomendações são válidas para nossa academia local. Mas a questão do idioma não é tri-vial: nosso complexo de vira-lata, o gosto pelo estrangeiro, a reprodu-ção sem criatividade e a falta de valorizareprodu-ção das referências nacionais têm sido apontados há décadas por diversos pesquisadores brasilei-ros: Machado-Da-Silva, Cunha e Amboni (1990), Bertero, Caldas e Wood Jr. (1999), Rodrigues e Carrieri (2001), Vergara e Pinto (2001), entre

ou-tros. Precisamos “decolonize the mind” e, ao mesmo tempo, contribuir para a construção de conhecimento universal. Bem, os artigos desta edição estão em inglês e espanhol, mas essa não é a questão essen-cial. Poetas extraordinários tiveram seus poemas traduzidos do polo-nês, do português ou do russo para diferentes idiomas. Mas isso sig-nifica que eles tinham algo a dizer. Podemos publicar em português, espanhol ou inglês: fundamental é podermos contribuir com a produ-ção de conhecimento que seja local e globalmente importante. E esse é o tema da pensata de Letícia Moreira Casotti e Maribel Carvalho Suarez na área de Consumer Culture Theory. O debate das autoras se estende para além desse campo específico: como estimular o interesse de mes-trandos em Administração para a leitura de artigos conceituais? Como apontar a importância das abstrações teóricas para a compreensão da realidade social? Casotti e Suarez apontam, com exemplos na área de Consumer Culture Theory, como ter reconhecimento universal falando da própria aldeia.

Nessa direção, os demais artigos que compõem esta edição tra-tam de temas importantes para a realidade local: Renê Birochi e Marlei Pozzebon, em “Improving financial inclusion: Towards a critical educa-tion framework”, com base num estudo na Amazônia brasileira, pro-põem como a educação financeira, baseada em tecnologias de infor-mação, pode ter impacto para empreendedores de baixa renda e levar à emancipação social. O artigo de Thadeu Gasparetto e Angel Barajas trata da economia do esporte, fundamentado num estudo comparati-vo de campeonatos de futebol. Antonio Benedito de Oliveira Jr., Feli-pe Mendes Borini, Roberto Carlos Bernardes e Mauro José de Oliveira, a partir de pesquisa com 101 empresas brasileiras, argumentam que a orientação empreendedora e alianças estratégicas devem ser utilizadas para melhorar o desempenho da firma, especialmente quando se trata de pequenas e médias empresas. Nesses estudos, os autores partem de experiências locais, mas avançam na proposição de modelos que ultrapassam a descrição empírica. Finalmente, a pesquisa de Eduardo Acuña e Matias Sanfuentes trata de um tema clássico, mas sempre rele-vante, que é a questão da identidade organizacional.

Completam esta edição a resenha sobre o livro Key concepts in creative industries, de John Hartley, Jason Potts e Stuart Cunningham, e as indicações bibliográficas sobre remuneração dos executivos e em-preendedorismo nas indústrias criativas.

Boa leitura!

MARIA JOSÉ TONELLI | Editora-chefe Professora da Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo – São Paulo – SP, Brasil

REFERÊNCIAS

Bertero, C. O., Caldas, M. P., & Wood Jr., T., (1999). Produção científica em administração de empresas: Provocações, insinuações e contribuições para um debate local. Revista de Administração Contemporânea, 3(1), 147-178.

Machado-Da-Silva, C. L., Cunha, V. C., & Amboni, N. (1990). Organizações: O estado da arte da produção acadêmica no Brasil. Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Administração, Florianópolis, SC.

Rodrigues, S. B., & Carrieri, A. D. P. (2001). A tradição anglo-saxônica nos estudos organizacionais brasileiros. Revista de Administração Contemporânea, 5(SPE), 81-102. Vergara, S. C., & Pinto, M. C. S. (2001). Referências teóricas em análise organizacional: Um

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