UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
CRISTIANO FERREIRA
JESUS CRISTO, O MITO DO HERÓI SALVADOR NA OBRA BÍBLIA EM AÇÃO, DE SERGIO CARIELLO
São Paulo 2017
CRISTIANO FERREIRA
JESUS CRISTO, O MITO DO HERÓI SALVADOR NA OBRA BÍBLIA EM AÇÃO, DE SERGIO CARIELLO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito para obtenção de título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura.
ORIENTADORA: Profa. Dra. Regina Célia Faria Amaro Giora
São Paulo 2017
F383j Ferreira, Cristiano.
Jesus Cristo, o mito do herói salvador na obra Bíblia em Ação, de Sergio Cariello / Cristiano Ferreira.
62 f. : il. ; 30 cm
Dissertação (mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2017.
Orientadora: Regina Célia Faria Amaro Giora.
Bibliografia: f. 51-52.
1. Mito do herói salvador. 2. Quadrinhos. 3. Psicologia analítica. I. Giora, Regina Célia Faria Amaro. I. Título.
CDD 232.901
CamScanner
Dedico este trabalho à minha esposa Ângela.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a DEUS, que soberanamente nos dirige para sua própria glória, a Ele todo louvor.
À Igreja Presbiteriana do Brasil, que me ofereceu a oportunidade de crescimento através do conhecimento.
Ao Instituto Presbiteriano Mackenzie, por ter me acolhido e ofertado a bolsa de estudos, estendendo o prazo, entendendo minha prioridade junto à igreja local.
À minha igreja, Igreja Presbiteriana de Pindamonhangaba, em especial ao seu conselho e à liderança da igreja local, que me liberaram e sempre me apoiaram.
À Universidade Presbiteriana Mackenzie, a cada funcionário, desde o profissional de limpeza, portaria, secretarias, pois todos sempre me receberam de forma muito prestativa e atenciosa. Em especial, à Coordenadoria do Programa, Educação, Arte e História da Cultura, e seus professores, que além de serem grandes eruditos, possuem sensibilidade singular, sempre me ajudando pacientemente na construção do saber.
À minha família em geral, em particular, à minha esposa Ângela de Melo Alvarenga Ferreira, a minha filha Amanda de Melo Alvarenga Ferreira, a minha filha do coração Ariana, por sempre me apoiarem.
À amiga jornalista Lia Silva que formatou, corrigiu o manuscrito original e traduziu para o inglês.
E finalmente, mas não menos especial, quero agradecer à minha orientadora, Doutora Regina Giora, por me oferecer sua cosmovisão, aspergindo-me sua criatividade.
RESUMO
Esta é uma pesquisa sobre as convergências de quadrinhos, imagens e mitos que aparecem na narrativa bíblica em quadrinhos na obra do artista Sérgio Cariello. A pergunta que se pretende responder é: como Jesus Cristo, na obra deste autor, cumpre as fases do mito do herói salvador no transcorrer dos quadrinhos? Segundo Carl Gustav Jung e Joseph Campbell, o mito é apresentado como presença contínua na história da cultura da humanidade. Ao estudar o mito, não se pretende desmerecer e nem defender o credo religioso, pois a explicação mitológica, a partir da psicologia analítica mostra o significado na continuidade do comportamento coletivo tendo como força matriz o inconsciente coletivo. Jesus Cristo, como homem e como mito herdado na mentalidade social, deve ser encarado também em sua humanidade, e aqui na sua influência e importância na cultura da humanidade. Por fim, tenta-se estabelecer uma aplicação e aferir o espaço que o uso dos quadrinhos vem ocupando na educação e na influência da cultura religiosa. Verifica-se que os personagens heroicos dos quadrinhos estão presentes nas igrejas cristãs nas apresentações de seus pastores. Em contrapartida, a obra de Sérgio Cariello demonstra o quão suficiente é a imagem singular de Cristo Jesus como Salvador e isto, na teologia, cabe dentro da revelação geral.
Palavras-chaves: mito do herói salvador; quadrinhos; psicologia analítica.
ABSTRACT
This is a research on the convergences of comics, images and myths that appear in the biblical comic narrative in the work of the artist Sérgio Cariello. The question to be answered is: how does Jesus Christ, in the work of this author, fulfill the phases of the myth of the Hero-Savior in the comics? According to Carl Gustav Jung and Joseph Campbell, the myth is presented as a continuous presence in the history of the culture of humanity. When studying the myth, it is not intended to demean and defend the religious creed, since the mythological explanation, from analytical psychology, shows the meaning in the continuity of collective behavior having as its driving force the collective unconscious. Jesus Christ, as a man and as a myth inherited in the social mentality, must be seen also in his humanity, and here in his influence and importance in the culture of humanity. Finally, an attempt is made to establish an application and gauge the space that the use of comics has been occupying in the education and in the influence of the religious culture. It turns out that the heroic characters of comics are present in the Christian churches in their pastors' performance. On the other hand, the work of Sérgio Cariello demonstrates how sufficient is the unique image of Jesus Christ as Savior, and this, in theology, falls within the general revelation.
Keywords: Savior hero myth; Comic books; Analytical psychology.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 – O Menino Amarelo.
FIGURA 2 – Pintura rupestre, na caverna de Altamira, Espanha.
FIGURA 3 – Muro no templo de Karnak no Egito.
FIGURA 4 – Capa da obra de Art Spiegelman.
FIGURA 5 – Capa da Bíblia em quadrinhos, de 1953.
FIGURA 6 – Capa e contra capa da Bíblia em Ação.
FIGURA 7 – Anunciação dos anjos aos pastores nos campos.
FIGURA 8 – O nascimento de Jesus, a visita dos pastores.
FIGURA 9 – Jesus repreendendo o comércio no templo.
FIGURA 10 – O batismo de Jesus.
FIGURA 11 – Jesus na ceia.
FIGURA 12 – Jesus acorrentado.
FIGURA 13 – Jesus humilhado pelos soldados romanos.
FIGURA 14 – Jesus carregando a cruz.
FIGURA 15 – Jesus crucificado.
FIGURA 16 – Jesus ressurreto.
FIGURA 17 – Assunção de Jesus e o povo. Posteriormente ampliada.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
1. UNIVERSO DOS QUADRINHOS ... 17
1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS ... 17
1.2 O MITO DO HERÓI SALVADOR ... 27
2 ANÁLISE DAS IMAGENS SELECIONADAS ... 35
2.1 O HERÓI E SUAS FASES ... 35
2.1 O MITO DO HERÓI SALVADOR– SEU PROPÓSITO ... 38
3 REFLEXÃO INTERDISCIPLINAR... 42
3.1 APLICAÇÕES PEDAGÓGICAS ... 42
3.2 APLICAÇÕES CULTURAIS ... 44
CONCLUSÃO ... 49
REFERÊNCIAS ... 51
ANEXO 1 ... 53
INTRODUÇÃO
A dissertação pretende pesquisar o mito do herói salvador apresentado através de algumas imagens da narrativa bíblica, na linguagem dos quadrinhos na obra Bíblia em Ação, de Sérgio Cariello.
Inicialmente, as contribuições de Helmut Renders chamaram a atenção, pois ele trabalha pesquisando o uso da imagem no meio religioso, e que, apesar de atuar na área das ciências da religião, busca uma abordagem interdisciplinar:
A teoria da imagem pode partir de abordagens mais restritas ou amplas ...
Em geral, a teoria da imagem distingue e relaciona seus elementos ao mesmo tempo. Unindo diversas abordagens, inclusive as leituras de sistemas sociopolíticos e econômicos. (RENDERS, p.97, 2016).
As narrativas bíblicas em quadrinhos se encaixam sob o campo de investigação de Renders, contudo, os quadrinhos não fazem parte de seu campo de pesquisa. Ele se concentra em explicar como a imagem é compreendida pelos religiosos e cristãos de todas as confissões.
Os quadrinhos, e em especial as narrativas bíblicas em quadrinhos, com suas imagens, foram a escolha em compreender como tais imagens são criativamente geradas e produzidas artisticamente, e como elas são recebidas. Logo, não se pode ficar detidos em Renders, há a necessidade de buscar outros olhares, como citado acima e reconhecido por ele mesmo.
A investigação das imagens, quer religiosas ou não, pode ser abordada por outras propostas acadêmicas, e não apenas pelo campo das ciências da religião, ou da história das religiões, os próprios pesquisadores dos quadrinhos possuem um modo adequado para explicar de forma clara as funções de cada sinal presente na linguagem dos quadrinhos.
Entretanto, outro autor e pesquisador chama a atenção: Joseph Campbell. Ele contribui com grandes pesquisadores que deram continuidade à psicologia analítica, alicerçada por Carl Gustav Jung. A possível contribuição deste segmento nas pesquisas acadêmicas exige o cuidado disciplinar no diálogo, ainda que limitado, com as demais matérias, no aprofundamento do conhecimento sobre estes temas, que envolvem a construção das imagens pelo ser humano.
A construção de imagens pode adquirir valor cultural e estético. Tais imagens podem surgir, por exemplo, através dos sonhos, da criatividade, da imaginação.
Contudo, na exteriorização da imagem pelo homem, ocorre uma exposição do inconsciente coletivo, o que tentaremos explicar durante este trabalho a partir das contribuições de Carl Gustav Jung e Joseph Campbell.
Dentro desta perspectiva, entendendo o desafio de uma compreensão interdisciplinar para poder desenvolver uma leitura cuidadosa e respeitosa às diversas contribuições, tendo como ponto de partida a psicologia analítica, e a busca da correlação entre o inconsciente coletivo e as produções culturais imagéticas na arte dos quadrinhos, opta-se pela observância da análise do discurso, trazendo a lume a ligação entre o mito do herói salvador e a expressão artística de Jesus Cristo nos quadrinhos de Sérgio Cariello.
Observam-se editoras explorando e competindo com suas histórias bíblicas em quadrinhos, por exemplo, O Grande Livro dos Heróis da Bíblia1, Bíblia em HQ2, Yeshua – Onde Tudo Está3, e outra obras, com narrativas bíblicas em quadrinhos. E então surge a pergunta: „Por que e como ocorre a expressão artística e cultural dos quadrinhos no meio religioso?‟ As respostas foram encontradas e apreciadas a partir do pensamento dos pesquisadores: Joseph Campebell, Carl Gustav Jung e na pensadora brasileira Nise da Silveira.
Nossa intenção é compreender as imagens das narrativas bíblicas em quadrinhos através de uma abordagem interdisciplinar, e compreendê-las culturalmente, debruçando-nos nas descobertas dos autores já citados - Joseph Campbell, Nise da Silveira e Carl Gustav Jung - procurando entender os desdobramentos do inconsciente coletivo, dos arquétipos na sociedade, e como isto se comporta, se relaciona e interage. Todavia, apesar do desafio interdisciplinar, estes autores aos quais nos debruçaremos, eles próprios eram interdisciplinares e, apesar de campos e disciplinas diferentes, convergem para a construção de conclusões proximais e de grande verossimilhança.
1 Da Sociedade Bíblica do Brasil: < http://www.sbb.com.br/o-grande-livro-dos-herois-da-biblia.html>.
2 De Michael Peral:
https://www.amazon.com.br/dp/8567002206/ref=asc_df_85670022064926303?smid=A1ZZFT5FULY4 LN&tag=goog0ef-20&linkCode=asn&creative=380341&creativeASIN=8567002206.
3 De Laudo Ferreira: http://www.saraiva.com.br/yeshuah-onde-tudo-esta- 7459610.html?mi=VITRINECHAORDIC_ultimatebuy_product_7459610.
A amplitude da produção deste campo é vasta, por isso selecionamos a obra de Sergio Cariello: „Bíblia em Ação‟. A partir dela, estreita-se a investigação para a análise do mito do herói salvador. Dentre os vários personagens na narrativa que apresentam as características do mito do herói salvador, seleciona-se Jesus, apresentado por Cariello. Intenciona-se demonstrar a apresentação do mito do herói salvador nas histórias dos quadrinhos e sua relação e presença na obra de Sérgio Cariello, e sua recorrente presença na história cultural.
O interesse com a linguagem dos quadrinhos, que sintetiza no papel através de imagens e com uso de textos, um reflexo que ficou conhecido por apresentar à cultura contemporânea os diversos heróis tão comuns a esta geração, e sempre reapresentados no cinema, inspirados nos quadrinhos, por exemplo: Homem de Ferro, Batman e Super-Homem. O mito do herói salvador também se apresenta no Jesus de Sérgio Cariello. 4
Desta imersão que nossa sociedade vive na cultura da imagem, e com a linguagem dos quadrinhos, descobrimos com Campbell e os demais pesquisadores, que este desejo pelas imagens não são simples predileções, e que há uma explicação para o funcionamento de nossa mente e comportamento diante das escolhas por imagens, expressões a partir da imagem e reações diante da imagem.
Mas é algo surpreendente, pois este sinergismo em torno das imagens revela que nós humanos, possuímos uma matriz mental comum, variada, mas comum, que se explica pelos arquétipos. Isto Nise da Silveira também demonstra através de suas pesquisas com pacientes psiquiátricos que, ao pintarem seus quadros, revelam o seu próprio modo de ver o mundo, o seu próprio mundo, e as características claras de sua condição patológica.
Pesquisar um tema tão rico, tendo o desafio de dialogar com as culturas e artes da contemporaneidade, e ainda contribuir de algum modo para a formação interdisciplinar a partir desta dissertação é, sem dúvida, um desafio atroz.
Ser interdisciplinar requer o esforço contínuo de entender o olhar do outro, a linguagem do outro, pela formação do outro e pela vivencia do outro.
Esperamos deixar nossa contribuição através desta dissertação a partir dos diversos diálogos com a cultura contemporânea, cultura esta plural e heterogênea. O
4 Quando se coloca o Jesus de Cariello, faz-se uma distinção com o Jesus da fé. Não há interesse em abordar “teologicamente” neste trabalho o Jesus da fé. Há uma relação e apontamentos no anexo desta pesquisa.
professor ao ter contato com nossa dissertação, poderá encontrar uma proposta de compreender e trabalhar com os quadrinhos junto com seus alunos, abordando e utilizando os quadrinhos não apenas de forma lúdica, ou para a construção de quadrinhos informativos de campanhas, mas utilizá-los para identificar as características arquetípicas com os alunos. Acredita-se que as caraterísticas arquetípicas possam ser encontradas nos livros, contudo, nos quadrinhos elas são sublinhadas e amplificadas, ganhando as ricas expressões desta arte. Os quadrinhos são didáticos e pedagógicos, facilitam a comunicação e o aprendizado, por sublinhar e amplificar dados da narrativa de forma singular e especial.
Há uma rendição à linguagem dos quadrinhos, estritamente falando das narrativas bíblicas em quadrinhos, por transformações culturais, mas especialmente pela facilidade em ensinar a mensagem que se propõe, aqui religiosa, mas que pode ser aplicada a qualquer conteúdo. Os quadrinhos estabelecem um marco definitivo na sociedade ocupando o seu lugar no ensino, na religião e no entretenimento, por ser único, e por expressar em linguagem única, aquilo que parece ser a linguagem que mais agrada e que comunica com maior facilidade. E também por tocar, sublinhar e amplificar não apenas verdades conscientes, mas também as verdades do inconsciente.
Nesta pesquisa utiliza-se o método de revisão bibliográfica. Há uma apresentação do contexto no primeiro capítulo, seguida da análise dos textos e das imagens selecionadas da narrativa em quadrinhos da obra „Bíblia em Ação‟, de Sergio Cariello. No terceiro e último capítulo ocorre um diálogo interdisciplinar5. Este diálogo interdisciplinar permite a correlação entre a obra em quadrinhos, mitologia6, e arquétipos, considerando que a história cultural traz traços do inconsciente coletivo.
5 Além disto, segue em anexo uma reflexão para estudiosos da teologia, que talvez também sirva aos estudiosos das ciências da religião.
6 Na teologia, deve-se fazer a correlação com revelação geral.
1. UNIVERSO DOS QUADRINHOS
1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS
Neste primeiro instante é oportuno apresentar de forma panorâmica e geral o universo dos quadrinhos. Os autores aqui citados fazem uma exposição histórica das histórias em quadrinhos de forma detalhada. Faz-se necessário uma exposição a fim de apresentar este universo dos quadrinhos de forma introdutória. Também se apresenta a relação do uso das imagens nos primórdios da humanidade em contraste com o atual uso dos quadrinhos.
A história em quadrinhos como a conhecemos possui como marco simbólico recente com as histórias do personagem Yellow Kid, o Menino Amarelo. “Foi em 5 de maio de 1895 nesse dia, o World publicou dois painéis (um em cores e outro em preto e branco) de Down Hogan's Alley - que surgiu o Menino Amarelo”. Contudo, foi apenas em 16 de fevereiro de 1896 que o personagem Yellow Kid foi impresso amarelo no New York World (LUCCHETTI, 2001, p.1, 2). A origem das histórias em quadrinhos deu-se com a disputa da indústria jornalística durante o Século XIX nos Estados Unidos, em particular entre o jornal New York World, pertencente Joseph Pulitzer, e o jornal New York Journal, pertencente a William Randolph Hearst. O ilustrador Richard Felton Outcaul, foi o criador do personagem Yellow Kid, quando atuava New York World, jornal de Pulitzer. A indústria precisava entreter as massas, e evidente, manter suas vendas altas, então foi neste contexto que surge como o personagem Yellow Kid. (ACEZEDO, 1990, p. 137).
Figura 1: O Menino Amarelo.
Fonte: https://www.etsy.com/listing/224536104/yellow-kid-r-f-outcault-kid-who-started.
George Benjamin Luks substituiu Richard Felton Outcault no jornal New York World, pois Oultcault foi trabalhar no concorrente, New York Journal. Assim, o personagem aparecia em dois jornais, “após Outcault começar a trabalhar para o suplemento cômico em cores do New York Journal, Down Hogan's Alley continuou aparecendo no World, com desenhos de Luks” (LUCCHETTI, 2001, p.3).
Lucchetti adapta as palavras dos personagens da primeira história em quadrinhos de Outcault, lançada em 25 de Outubro de 1896, e diz:
História em Quadrinhos da forma que a conhecemos nos dias de hoje, ou seja, uma arte que narra histórias (histórias essas fictícias ou não, com palavras ou não) por meio de uma sucessão de imagens fixas (imagens essas organizadas em sequência e colocadas dentro de pequenos retângulos nos quais estão também as palavras das histórias).
(LUCCHETTI, 2001, p. 4).
A origem também pode ser apontada para os precursores das histórias em quadrinhos da Europa, também no Século XIX, começando na França, tendo as contribuições de artistas alemães, suíços, e italianos. No Brasil teve como representante Ângelo Agostini. Contudo, observa-se que os rumos foram diferentes entre europeus e estadunidenses. Nos Estados Unidos a massificação era o meio do lucro, enquanto que na Europa chegou a ter um status de arte, entretanto não atingia as massas. (SANTOS, 2002, p.52-53).
Cagnin (2014) aponta para antecedentes mais distantes das histórias em quadrinhos, referindo-se ao uso da imagem na história humana:
Hoje, as imagens ... celebram o feliz casamento, como dizem, da imagem e do texto em mais de 90% das histórias em quadrinhos, sacramentado por Topffer ao apresentar o seu Monsieur Vieux Bois, em 1837, quando definiu o que seria, no seu livro, uma história em quadrinhos: “Ela se compõem de série de desenhos autografados em traço. Cada um destes desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto.”. (CAGNIN, 2014, p. 28).
Para McCloud as histórias em quadrinhos podem ser definidas com arte sequencial, ou “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada [e]
destinadas a transmitir informações e/ou a produzir uma resposta no espectador [leitor]” (McCLOUD, 2005, p. 9). Também para ele, deve-se ir além da metade do século XIX na procura de histórias em quadrinhos. Ele exemplifica isso citando uma
peça da “história épica contida num manuscrito com imagem pré-colombiano,
“descoberto” por Cortés em Torno em 1519”, tendo palavras e imagens coloridas, contando uma história que, para McCloud, é história em quadrinhos. (McCLOUD, 2005, p.10).
Acevedo define as histórias em quadrinhos como:
A história em quadrinhos é um meio de comunicação que atinge a um número enorme de pessoas. A história em quadrinhos é muito atraente, pois é feito com desenhos e isto torna sua leitura muito amena. Às vezes, as aventuras são contadas com simples desenhos e às vezes, também, com palavras escritas junto aos desenhos. Isso é história em quadrinhos.
(1990, p. 19, grifo nosso).
Santos destaca que história em quadrinhos é:
uma forma de comunicação visual impressa [...] trata-se de um produto cultural e comercial [...]. Esta distinção industrial já diferencia a História em Quadrinhos de outras narrativas iconográficas não impressas. (2002, p.
20,21, grifo do autor).
Ambos, Acevedo e Santos, chamam a atenção para o aspecto cultural, industrial e de massa que são as histórias em quadrinhos. Ou seja, as histórias em quadrinhos são, além de arte, um produto. Percebe-se que ainda que aja a presença de histórias com o uso de imagens e palavras estruturadas para apresentar uma narrativa, fictícia ou não, o ganho também está envolvido no diálogo.
Cagnin (2014) destaca de forma semiótica que de fato é uma arte sequencial onde, em algum momento, as palavras são valorizadas, e em outros momentos, as imagens são valorizadas, e não há nele intenção de definir história em quadrinhos apenas impressa, ele as entende de forma aberta, histórias em vitrais, e em tudo na vida, esta ânsia pela imagem, estes arranjos palavra e imagem, até culminar nesta que ele aceita como nona arte, na qual as palavras não são essenciais, são apenas apoio. A impressão das histórias em quadrinhos permitiu um consumo em massa.
As definições variam, porém todos têm a consciência de que a arte e as histórias sequenciais variaram, transformando-se no decorrer dos tempos. Todos parecem concordar com a sede do ser humano pela imagem, em projetar a si mesmo, a raça, as imagens da mente nas paredes, tapeçarias, vitrais, impressos, esta sede por imagens é capaz de mover, inclusive, uma poderosa indústria que se
esforça em manter-se no negócio lucrativo o de produzir a cada dia mais imagens para satisfazer a mente faminta.
Ao elaborar uma sintaxe dos quadrinhos, encontra-se alguns elementos que têm uma função expressiva na narrativa quadrinho gráfica e que, por sua utilização constante, converteram-se, aos olhos dos quadrinhistas e leitores, em códigos facilmente reconhecíveis e necessários para a integração dos signos gráficos (a imagem e a linguagem escrita) característicos dos quadrinhos e para o desenvolvimento da narrativa. Essa gama de elementos, entendidos universalmente, é formada por requadros, balão, recordatório, onomatopeia, metáforas visuais e linhas cinéticas.
(SANTOS, 2002, p.22, grifo do autor).
Sendo a definição mais abrangente ou restrita, não importa, a história em quadrinhos é uma linguagem, uma arte, que pode revelar a cada momento, uma possibilidade de ampliação de relacionamento com outras linguagens, influenciando e sendo influenciada pelas diversas culturas.
Estudar os textos não significa apenas ocupar-se das formas que estes adotam para aparecer nos quadrinhos, mas também do conjunto de ideias que transmitem. Estas não se comunicam unicamente através dos textos. São passadas também por meio de cada desenho ou de cada ação mostrada. As ideias, porém, talvez sejam oferecidas de maneira mais explicitas nos textos. (ACEVEDO, 1990, p.135. grifo do autor).
Pilar importante na compreensão da história em quadrinhos e de como ela se compõe, é entender sob o que ela se constrói: o chão da realidade ou o céu da imaginação.
Em todo caso, para os textos e argumentos de nossas histórias em quadrinhos será preciso ter os olhos postos na realidade. Olhos postos na realidade em que vivemos ... Com a história em quadrinhos tradicional ocorre o inverso. Ela não parte de uma visão da realidade, mas alude a ela, deformando-a ... e recusa-se a abordar alguns temas como o trabalho, a política, as contradições sociais etc. (ACEVEDO, 1990, p.136).
A relação dos quadrinhos com a cultura contemporânea é espontânea, pode- se dizer que é natural, tendo em vista o uso antigo de imagens pelo homem, o que exige um parêntese explicativo. A humanidade teve a necessidade de registrar acontecimentos de sua realidade e de sua imaginação, por exemplo, o caso de Altamira: “Bisões, cavalos, veados, mãos e sinais misteriosos foram pintados
ou gravados ao longo dos milênios em que a caverna de Altamira foi habitada, entre 35.000 e 13.000 anos atrás”.
Figura 2: Pintura rupestre, na caverna de Altamira, Espanha.
Fonte: http://museodealtamira.mcu.es/Prehistoria_y_Arte/arte_Altamira.html.
Com base nesta coleção do acervo de Altamira, na Espanha, pode-se afirmar que existe uma antiga afeição da humanidade pela construção de imagens.
O homem sempre se maravilhou de sua própria mão. Imprimiu-a nas paredes das cavernas pré-históricas em vários lugares do mundo e decerto o homem arcaico atribuía poderes mágicos a este prodígio instrumento de ação que ele possuía e lhe permitia realizar coisas inacessíveis aos mais fortes e temidos animais. (SILVEIRA, 2015, p.29).
Mas em Altamira as imagens não contam histórias, não se pode afirmar que sim: elas contam histórias, sem deixar brecha para contestação. Contudo, no Egito antigo temos exemplos de histórias contadas com imagens, e onde as imagens serviram para comunicação clara aos seus leitores:
Figura 3: Muro no templo de Karnak no Egito.
Fonte: https://global.britannica.com/topic/hieroglyphic-writing.
Este é o muro do templo Karnak, um centro religioso do Egito que demorou cerca de dois mil anos para ser construído, e teve a contribuição de quarenta faraós7. Isso corrobora com a ideia de que as imagens sempre estiveram presentes na história da humanidade, e a imagem foi utilizada desde os tempos remotos para contar histórias. Algumas vezes usando o texto e outras não, porém, inicialmente, sempre com imagens, e com diversos usos, não apenas religioso ou político, mas também didático.
O uso didático, ou seja, o ensinar como transmissão de conhecimento, inicialmente esteve ligado à religião primitiva, pois os primeiros grupos entendiam, se descobriam e possuíam uma relação diferente com o ambiente em que viviam.
Reforçam este entendimento as pesquisas de John BRIGTH (2003, p. 47, 48), Ele identificou e relata o desenvolvimento cultural na Mesopotâmia desde a Idade da Pedra. Ele apresenta a cultura Hassuna que tinha desenvolvido cerâmicas e pinturas em cerâmicas e, posteriormente em porcelana. Brigth também fala de esculturas ligadas à posição de parto nas mulheres, assim, podemos aferir que era deste modo que o povo transmitia o conhecimento de como realizar o parto natural. É neste sentido, que se afirma que as imagens eram usadas de forma pedagógica, ensinando e transmitindo um conhecimento às próximas gerações.
Assim, os quadrinhos são uma reinvenção sofisticada e criativa do que a humanidade já fizera no passado: contar histórias a partir de imagens. Agora com
7 http://anba.com.br/noticia_impressao.kmf?cod=7431291&pdf=1
um novo contexto, com uma nova linguagem, próprias dos quadrinhos, e, a partir do Yellow Kid, com a proposta de entretenimento e lucro das grandes companhias.
Diante disto, pode-se afirmar que a relação industrial também afeta os quadrinhos. A Cultura Pop designa os produtos culturais industrializados e veiculados pelos meios de comunicação, não esconde sua natureza comercial e sua orientação voltada para o entretenimento, mas também é flexível o suficiente para possibilitar a compreensão desse fenômeno cultural que catalisa manifestações culturais diferentes e os torna bens culturais contemporâneos, ícones reconhecidos universalmente. (SANTOS, 2002, p. 45).
A dificuldade é apresentar o trabalho artístico das histórias em quadrinhos sem ser refém da indústria cultural, esta tensão do como fazer a história chegar ao leitor certo, talvez fora o grande dilema e seja o de muitos quadrinistas (McCLOUD, 2006, p. 26-71). Mas percebe-se que em suas origens, os primeiros cartunistas possuíam apenas o desejo de produzir e compartilhar, o que se tornou um problema diante de gigantes da indústria cultural, e nem sempre a verdadeira obra conseguiu chegar ao leitor que está a procura de uma temática especifica na linguagem da história em quadrinhos. Talvez, pois, durante anos a indústria cultural conseguiu produzir um ambiente de ficção e entretenimento, descartando histórias de crítica social ou de reflexão crítica sobre temas que alcançam justamente estas massas consumidoras e reféns da indústria cultural.
Como empreendimento comercial, os distribuidores de quadrinhos encontraram nas revistas (comic-books) o formato ideal para satisfazer o interesse das editoras e do leitor. Embora já existissem publicações deste tipo desde o século XIX na Europa, as revistas de quadrinhos só fizeram sucesso nos Estados Unidos a partir de 1930, com os títulos “Funnies on Parade” e “Famous Funnies”, criados por Max Gaines. Inicialmente, estas revistas imprimiam tiras já publicadas em jornais, mas, depois, passaram a publicar material inédito, sendo “New Fun”, editada em 1935 pela National Periodical (atual DC Comics), a primeira delas. (SANTOS, 2002, p.73).
O mercado estabelecido pela massificação das histórias em quadrinhos nos Estados Unidos é um forte argumento em favor disto. Ali floresceu uma grande produção de quadrinhos para satisfazer as massas com a construção de heróis mascarados a fim de entreter e lucrar com o entretenimento fantasioso. Contudo, vale ressaltar que:
Os funny-animals também se prestam à critica social e à sátira politica, como no caso do Pogo (imaginado por Walt Kelly em 1948), que retrata a sociedade americana em um pântano povoado por animais falantes; de Fritz the Cat (idealizado por Robert Crumb para a revista “Help” em 1965, no auge do comix underground), um gato que se diz estudante, mas que só quer saber de orgias; “Maus”, de Art Spiegelman, que mostra os horrores do holocausto e sua relação com o pai, sobrevivente do campo de concentração, onde os ratos são judeus e os gatos, nazistas; e, mais recentemente, “Omaha the Cat Dancer”, elaborada por Reed Waller, que denuncia o moralismo e a intolerância americanas. (SANTOS, 2002, p. 79).
Os quadrinhos se acomodam à cultura capitalista dos Estados Unidos na década de sessenta, e através da apropriação desta linguagem, comunicam suas ideias, inclusive em países socialistas. Isto corrobora para a afirmação de que as histórias em quadrinhos são uma linguagem e, como linguagem, poderiam transmitir ideias das mais diversas possíveis (ACEVEDO, 1990, p.140, 141). Pode-se dizer, a partir disto, que nem sempre estas ideias propagandistas eram explícitas, pois objetivavam levar o modo norte-americano de ser aos outros países. Neste momento da história, os quadrinhos passam a ser usados com uma nova finalidade:
a política.
Mas, este forte desejo de projetar vilões e heróis na cultura estadunidense possui um antecedente histórico, que antecede os desejos de lucro, e que exige uma reflexão interdisciplinar. Neste quesito, deve-se observar o funcionamento da mente humana diante das imagens oníricas e como expomos estas imagens, e se estas imagens são sempre conscientes. A mente humana é complexa, e é através dela que captamos e geramos imagens, e assim constrói-se um arsenal mental imagético, com diversas combinações, que se manifestam espontaneamente ou não, e se projetam em nossa arte, em nossas linguagens, em nossas realizações.
Contudo, tem-se que mencionar que as histórias em quadrinhos ganharam também uma nova dimensão, ou pelo menos, recriou uma nova possibilidade em sua linguagem, de contar uma história baseada no real, com acréscimos fantasiosos. Quando se afirma „fantasiosos‟, deseja-se expressar o caráter inovador e artístico da arte dos quadrinhos. Isso pode ser explicado com a obra de Art Spiegelman, com o título Maus.
Figura 4: Capa da obra de Art Spiegelman.
Fonte: https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/51jq-ZU9yHL._SX345_BO1,204,203,200_.
Historicamente os quadrinhos foram ganhando novas frentes, em especial o da educação, sempre procurando refletir o real, com aspectos imagéticos, convidando o leitor a invocar as imagens oníricas e da fantasia para atentar e apreender a mensagem ali apresentada.
A data de 1996 é um marco importante para a trajetória de aceitação das histórias em quadrinhos como ferramenta pedagógica no Brasil. Nesse ano ocorreu a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) que, de certa forma, propunha um pacto entre este produto cultural midiático e a educação formal. (SANTOS, 2015, p.82).
Logo se observa que os quadrinhos tiveram um reconhecimento como linguagem tardia no Brasil. Contudo, é necessário encarar as possibilidades que se abriram a partir deste fato. Como linguagem, pode-se definir que a mudança ocorreu na década de 1960, “ápice da Pop Art (movimento artístico que se apropriou dos signos da publicidade, do cinema e dos quadrinhos para criação de pinturas e colagens)”. A Pop Art influenciou a linguagem dos quadrinhos. Contudo, “pode-se dizer que o ambiente da linguagem dos quadrinhos gera uma forma de comunicação especifica com o leitor, mas, ao mesmo tempo, essa linguagem não deixa de pontos em comum com outras linguagens”. (SANTOS, 2015, p. 24-27).
No Brasil, a história de bíblias em quadrinhos foi assunto abordado na dissertação de Roselara Zimmer Soares, com o título: „A História da Bíblia para Crianças – Nas bordas do teológico e do lúdico‟, no programa de pós-graduação em literatura, na Universidade Federal de Santa Catarina. Ela nos diz que a primeira bíblia em quadrinhos foi publicada no Brasil em 1953, com o título: „A Bíblia em Quadrinhos‟, com capa colorida, e com quadros internos em preto e branco, reeditada em 1978. Esta obra possuía apenas as histórias do Antigo Testamento.
Ela também chama a atenção para o fato de que na primeira edição os quadrinhos são mencionados como sendo vulgar. Apesar de empreender o trabalho de trazer uma bíblia em quadrinhos para o Brasil, o texto introdutório o apresenta como vulgar, e isto chama a atenção dela sobre como os quadrinhos eram encarados, mesmo aos editores que o julgavam interessante. Fica claro que a primeira bíblia em quadrinhos tinha uma função catequética e era direcionada às crianças (SOARES, 2006, p.57). Esta era capa da primeira obra trazendo narrativas bíblicas:
Figura 5: Capa da Bíblia em quadrinhos, de 1953.
Fonte: https://skoob.s3.amazonaws.com/livros/160642/A_BIBLIA_EM_QUADRINHOS_1402334678B.
Em meio às considerações feitas sobre a história dos quadrinhos, suas origens, e seu uso atuais como arte e linguagem, destacam-se, em síntese, quatro pilares básicos e centrais:
Primeiro, a história em quadrinhos como arte sequencial em imagem, pode utilizar textos, e usar o formato impresso, ou seja, história contada com o uso de imagens, quadro a quadro, contendo palavras se necessário, também aplicando esta proposta aos meios digitais.
Segundo, que a massificação teve início nos Estados Unidos pelos jornais, no uso de quadrinhos, para atrair e entreter leitores, visando o lucro de suas empresas.
Terceiro, a remota utilização de imagens por parte da humanidade para contar suas histórias, e que as histórias em quadrinhos contam narrativas reais e fictícias, como as histórias do passado, isto estabelece um ponto de relação convergente, histórica, cultural e comportamental da humanidade.
Acrescenta-se ainda que as histórias em quadrinhos, como as produções imagéticas através de outras linguagens e artes, expõem algo além no campo do consciente da mente humana, e que isto merece atenção e investigação.
1.2 O MITO DO HERÓI SALVADOR
Carl Gustav Jung afirma que o inconsciente é “um fenômeno natural que produz símbolos provadamente relevantes” (JUNG, 2008, p.129, grifo nosso).
Carl Gustav Jung foi médico psiquiatra e dedicou sua vida a conhecer os caminhos da mente humana. Jung manteve o diálogo científico com pensadores de sua época e com os anteriores, isto é exemplificado em seu livro „Tipos Psicológicos‟, onde ele cita desde os primeiros teólogos da Igreja Cristã primitiva, até pensadores como Schiller, Goethe e Kant.
Faz-se necessário esclarecer que Deus é assumido como existente para Jung, como fenômeno psicológico (JUNG, 1978, p.10), individual, social presente na cultura, verdade para pessoas, sendo assim, deve haver esta sensibilidade do terapeuta, do ouvinte, do interlocutor, pois, se uma pessoa de fato acredita que Deus existe, então, Ele de fato existe mentalmente para aquela pessoa. Ele explica:
Incorreria em erro lamentável quem considerasse minhas observações como uma espécie de demonstração da existência de Deus. Elas
demonstram apenas a existência de [Deus como] uma imagem arquetípica ... isso é tudo o que se pode dizer, psicologicamente, acerca de Deus. Mas como se trata de um arquétipo de grande significado, e de poderosa influência, seu aparecimento, relativamente frequente, parece-me um dado digno de nota para a Theologia naturalis. Como a vivência deste arquétipo tem muitas vezes, e inclusive, em alto grau, a qualidade do numinoso, cabe-lhe a categoria de experiência religiosa. (JUNG, 1978, p.
64, grifo nosso).
Sanada esta questão, com propriedade, pode-se estudar e afirmar a importância do divino entre a humanidade como fenômeno cultural-psicológico, o inconsciente se manifestando na cultura. Mas precisa ser definido primeiramente o inconsciente pessoal, que “são aquisições da existência pessoal: o esquisito, o reprimido, o subliminarmente percebido, pensado e sentido” (JUNG, 2013, p.466). O inconsciente coletivo advém:
... não das aquisições pessoais, mas da possibilidade hereditária do funcionamento psíquico em geral, ou seja, da estrutura cerebral herdada.
São as conexões mitológicas, os motivos e imagens que podem nascer de novo, a qualquer tempo e lugar, sem tradição ou migrações históricas (JUNG, 2013, p. 467).
Carl Gustav Jung buscava compreender as mazelas do ser humano, ele e aqueles que o acompanharam nesta linha de pesquisa, entenderam que os sonhos de seus pacientes possuíam imagens do inconsciente, semelhantes às antigas histórias da humanidade. Ele entendia que quando ignoramos conscientemente algumas informações, ou estas passam desapercebidas, ignorando “sua importância emocional e vital, estas mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento. Este segundo pensamento pode aparecer, por exemplo, na forma de um sonho” (JUNG, 2008, p. 22).
O uso de imagens em diversas religiões, explica Jung, são utilizadas como símbolos, como “representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente... todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e [que] se exprimem através de imagens” (JUNG, 2008, p. 19). Ele também reconhece que sua exposição acerca do inconsciente “não passa de um esboço superficial da natureza e do seu funcionamento dessa complexa parte da psique humana”. (JUNG, 2008, p.41).
A psicoterapeuta Marie Louise von Franz entendia a recente convergência e mútua contribuição entre as pesquisas dos pensadores analíticos, herdeiros de Jung, e a microfísica conforme as pesquisas do físico Wolfgang Pauli. Pode-se sintetizar comparativamente que:
... aquilo que Jung chama de arquétipos (ou esquemas do comportamento emocional e mental do homem) também poderia chamar-se, empregando- se os termos de Pauli, „probabilidades dominantes‟ das reações psíquicas ... não existem leis que governem a forma específica em que o arquétipo vai emergir do inconsciente. [Contudo] existem tendências ... permitem-nos apenas dizer que é provável acontecer certo fenômeno em determinadas situações psicológicas. (JUNG, 2008, p. 425). [grifo do autor]
Isto foi colocado para demonstrar que Jung tinha clareza de que sua pesquisa poderia caminhar não para autenticar-se em outras áreas, mas para comprovações em outros campos da ciência, e isto fora abordado primeiramente e antecipadamente pelas suas pesquisas no campo da psicologia.
Mesmo diante desta abertura ao diálogo interdisciplinar, Marie Louise von Franz reconhece que: “A fecundidade das ideias de Jung é mais fácil de entender na área das atividades culturais do homem” (JUNG, 2008, p. 421). Por isto, o estudo da história da cultura, foi alvo de constante investigação, incluindo as histórias dos mitos e sua associação com os arquétipos. Este diálogo e as possibilidades que traz com a microfísica e a psicologia, poderá incentivar outras pesquisas em buscar caminhos de encontro entre elas, para apresentar novas respostas.
Afinal, o que são arquétipos? Dentre as definições colocadas por Jung, selecionamos esta que ele compara os arquétipos a impulsos. Os arquétipos são semelhantes a impulsos. Jung explica:
É preciso que eu esclareça aqui a relação entre instinto e arquétipo.
Chamamos de instinto os impulsos fisiológicos percebidos pelos sentidos.
Mas, ao mesmo tempo, esses instintos podem também se manifestar como fantasias e revelar, muitas vezes, a sua presença apenas por meio de imagens simbólicas. São essas manifestações que chamo de arquétipos.
(JUNG, 2008, p. 83).
Franz explica ainda que: “As poderosas forças do inconsciente manifestam-se não apenas no material clínico, [ou seja, nos sonhos], mas também no mitológico, no religioso, no artístico e em outras atividades culturais por meio do qual o homem se
expressa” (JUNG, 2008, p. 420). Um expositor e pesquisador da relação entre mito e homem é o médico Joseph Lewis Henderson, ele escreve que o “mito do herói salvador é o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo” (JUNG, 2008, p.
142). É diante disto que se pode afirmar a ligação entre arquétipos e mitos, e que o mito do herói salvador se manifesta recorrentemente nas diversas culturas das sociedades.
Mas afinal, o que são mitos? Para o pensador Joseph Campbell, mitos são:
“pistas para as potencialidades espirituais da vida humana”. Campbell explica que não há sentido para experiências, mas a própria “experiência e vida”. Campbell acrescenta: “Qual é o sentido do universo? Qual é o sentido de uma pulga? Está exatamente ali. É isso. E o seu próprio sentido é que você está aí.” (FLOWERS, 1990, p.6). Campbell sublinha que os seres humanos esquecem-se do mais importante, que é estarem vivos, e vivem buscando objetivos de outro valor. Diante disto, Campbell destaca os valores espirituais da vida, que são encontrados nos mitos, contudo, os valores espirituais aqui não significam a religiosidade, mas o compromisso de viver intensamente cada escolha e momento, é neste sentido que o mito serve à raça humana, dando pistas.
Há uma sociedade que estuda os mitos há muito tempo de forma interdisciplinar, a Eranos8. Pesquisadores de diversas áreas estavam em seu início:
na teologia e filosofia da religião: Paul Tillich; em literatura e mitologia comparada:
Joseph Campbell; na psicologia analítica: Carl Gustav Jung; na física: Wolfgang Pauli. Havia outros pensadores, contudo cito estes aqui para demonstrar como a psicologia analítica, desde cedo - em 1933 - construiu uma visão interdisciplinar, se não, multidisciplinar, buscando compreender os mitos e arquétipos no decorrer da experiência humana. Nesta confraria acadêmica, as imagens mentais, dos sonhos, das fantasias, imagens da arte, da religião, eram temas para investigações, e sua correlação com as práticas humanas.
Diante do exposto, chegamos ao mito do herói salvador. Por que é tão presente em tantas culturas e em todo decorrer da história humana? Campbell questionado sobre: “Por que há tantas histórias de herói na mitologia?” Respondeu:
“Porque é sobre isso que vale a pena escrever”. (FLOWERS, 1990, p. 131). Pode-se afirmar que a indústria dos quadrinhos entendeu isto, e não perdeu tempo, recontou
8 Para maiores detalhes sobre este assunto consultar: http://www.eranosfoundation.org.
o mito do herói salvador em sua linguagem, invocando novos personagens, com protótipos presentes no inconsciente coletivo.
O mito do herói salvador aparece com certa frequência nas histórias em quadrinhos: Super-Homem, Batman, Homem Aranha, é um tema recorrente. O mito do herói salvador aparece também nas manifestações culturais, nas lendas, nas histórias ditas reais, na imaginação popular, e também nas manifestações religiosas.
Os arquétipos e os mitos possuem uma relação intrínseca. Diante de arquétipos, mitos e inconsciente coletivo, como apresentados até aqui, pode-se afirmar que a partir da matriz mental herdada, repetimos práticas coletivas e do passado, em especial imagens, e tais imagens estratificam-se em mitos, e tais mitos contam por si só a saga humana, variando nas apresentações, a partir da mente criativa, contudo permanecendo a essência da mensagem e do significado original, o exemplo pertinente aqui, é o próprio mito do herói salvador, que se pretende expor.
O mito do herói salvador sempre possui um valor singular e especial, ele possui fases identificáveis, um ciclo que, em todas as histórias de heróis, faz-se presente. “Todos os povos chamados primitivos têm em seus mitos e em seus ritos e cultos a presença de vários indivíduos destacados, superdotados, valentes, diferentes da média dos homens, que nós chamamos de heróis” (FEIJÓ, 1984, p.12). Demonstram-se abaixo as fases do mito do herói salvador.
A médica psiquiatra brasileira, Nise da Silveira, desenvolveu técnica para anamnese de seus pacientes e também terapêutica, a partir das imagens das pinturas produzidas por eles, a imagem ali revela além do posto. Ela demonstra a importância de olhar a imagem além da linguagem artística. A partir dos diagnósticos e considerações em pesquisas de Nise da Silveira, pode-se concluir que imagens produzidas pelos seres humanos, inclusive pinturas e as ilustrações para quadrinhos, podem ser abarcados, analisados e pesquisados, além da linguagem artística, as imagens que produzimos possuem múltiplas linguagens, a linguagem da técnica artística, e a linguagem do inconsciente, e sem um cuidado interdisciplinar, informações podem ser colocadas de lado, e não serem apreciadas ou abordadas.
Jung descreve o recurso que utilizou para apreender essas imagens- instinto. Tomando como ponto de partida uma imagem de sonho ou fantasia, solicitava seu analisando a desenvolver livremente o tema trazido pela imagem. Isso poderia ser feito de maneiras diversas, pela
dramatização, diálogo, escrita, visualização, dança, pintura, desenho, modelagem. (SILVEIRA, 2015, p.110).
A pesquisa de Nise da Silveira possui um enfoque nas patologias psiquiátricas. Mas fica evidente sua contribuição em demonstrar que a pintura está além da linguagem artística. É justo afirmar que a pesquisa terapêutica de Nise da Silveira era também acompanhada dos diálogos com os pacientes, isto é presente em toda sua obra, Imagens do Inconsciente. “Mas eu não examinava as pinturas dos doentes que frequentavam nosso atelier sentada no meu gabinete. Eu os via pintar.
Via suas faces crispadas, via o ímpeto que movia suas mãos” (SILVEIRA, 2015, p.19).
A imagem revelava algo, mas os diálogos e presença no atelier eram necessários na compreensão daquela linguagem que imergia do inconsciente.
Incialmente ela fora ajudada, tendo como seu colaborador, o pintor brasileiro Almir Mavignier, isto em 1946. (SILVEIRA, 2015, p.16). Isso demonstra que os terapeutas que aderiram às contribuições de Carl Gustav Jung respeitaram desde o início as linguagens próprias da arte. A ideia não era desmentir o valor da linguagem artística, mas encontrar nela outra linguagem, que brotava do inconsciente. Nise da Silveira não encontrou o desafio entre os artistas, mas entre seus colegas psiquiatras, pois era difícil livrar-se do tradicional modelo de entrevistas, médico paciente. (SILVEIRA, 2015, p.34).
Diante disto, não seria estranho o terapeuta optar em analisar os quadrinhos de seus pacientes, observado o processo de criação de seus pacientes, sua atitude, as cores escolhidas, e a história ali presente. Logo, deduz-se que é possível sim analisar uma história em quadrinhos buscando compreender o inconsciente. É a partir da compreensão do inconsciente e das imagens produzidas neste campo, que se podem buscar as imagens mitológicas e dos arquétipos que apontam para o mito do herói salvador.
Necessário também destacar a opção de Jung em olhar para a história da cultura, para o coletivo, para os mitos humanos em busca dos arquétipos comuns à raça humana, ao invés de deter-se no indivíduo.
A psique humana não pode funcionar sem a cultura e o indivíduo não é possível sem a sociedade. Partindo dessa afirmação básica, Jung, livra-se das principais ciladas tão frequentes quando a sociedade é encarada de um
ponto de vista psicológico. Ele não traz para o estudo da sociedade interpretações baseadas na análise do homem como um ser individual. Ao contrário, toma como princípio fundamental que toda análise deve partir do fato primário da natureza social do homem. (SILVEIRA, 2015, p. 115).
A explicação das fases do mito do herói salvador ficou a encargo de Joseph L. Henderson. Henderson foi um dos colaboradores de Jung. Ele explica, baseado nas pesquisas de Paul Radin, acerca do mito do herói salvador e seus ciclos mitológicos encontrados na tribo indígena norte-americana do winnebagos, que as fases, ou os ciclos são: “ciclo Trickster, ciclo Hare, ciclo Red Horn e ciclo Twin”
(JUNG, 2008, p.145).
No primeiro ciclo, ou história, temos o personagem Trickster, “um personagem dominado por seus desejos; tem a mentalidade de uma criança. Sem outro propósito senão o de satisfazer suas necessidades mais elementares, é cruel, cínico e insensível” (JUNG, 2008, p.145).
No segundo ciclo, vemos o personagem Hare (Lebre). Aparece inicialmente como um animal, geralmente é representado como um coiote pelos índios norte- americanos, em suma, é um animal que não “tendo ainda alcançado a plenitude da estatura humana, surge, no entanto, como fundador da cultura – o transformador”
(JUNG, 2008, p.146). Este personagem é a continuidade do primeiro, mas mais amadurecido, e ele estava ligado ao rito medicinal, por isto mesmo sua imagem arquetípica estava ligada a do salvador. Quando a tribo dos winnebagos teve contato com o cristianismo, logo dispensaram conhecer Jesus, afinal eles já tinham Jesus, para eles era Hare, com a vívida imagem arquetípica de herói, salvador, que trazia consigo. (JUNG, 2008, p.146).
O outro personagem identificado na tribo dos winnebagos é Red Horn, que explícita o terceiro ciclo do mito do herói salvador. Este personagem cumpre provas e desafios sendo vencedor, as vezes com poderes sobre-humano, e também possui um animal mascote que o acompanha e o ajuda em suas batalhas, o “Storms as he walks (há tempestade quando ele passa)”. No final da história deste herói, ele vence e vai embora da terra, deixando seus filhos. (JUNG, 2008, p.146).
Por último, o ciclo dos Twins (gêmeos). Os gêmeos são humanos, mas são filhos do sol, juntos no ventre materno, separam-se ao nascer, sendo que os dois representam dois lados da natureza humana. Flesh é o brando e conciliador, e
Stump, dinâmico e rebelde. Após derrotarem tudo, inclusive um dos quatro animais que sustentavam nosso planeta, eles recebem a morte (JUNG, 2008, p.146).
Tanto na terceira como na quarta história, o tema de morte aparecem, e aparecem, segundo seus pesquisadores, ligados a ideia de expiação, o que simbolicamente possui um grande valor. Ressalta-se aqui a imagem da terceira história ou ciclo, a do Red Horn, quando ele vai embora, também gera a imagem de ressurgimento a vida. Esta figura, para fechar o ciclo de sacrifício expiatório e de vencer a morte, é de grande importância tal detalhe, pois demonstra o paralelismo com a história de Jesus, enquanto salvador.
Também é possível observar nas fases do mito, as fases presentes no ciclo de vida dos seres humanos. Contudo, alguns indivíduos invocaram o arquétipo do herói com maior precisão e frequência do que outros, e outros o anularam quase que completamente, dando espaço para outras manifestações arquetípicas, também expostas na história da cultura, através de outros mitos.
Jesus Cristo de Nazaré, o filho de um carpinteiro e de uma mulher pobre, isto deduzimos a partir da própria narrativa dos evangelhos canônicos: Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatro primeiro livros do segundo testamento, ou o novo testamento. Jesus Cristo, sem entrarmos nos méritos teológicos, cumpre perfeitamente o ciclo do herói. No próximo capítulo, a partir dos quadrinhos de Sérgio Cariello, que buscaremos expor isto.
2 ANÁLISE DAS IMAGENS SELECIONADAS
2.1 O HERÓI E SUAS FASES
Diante do grande universo de possibilidades nas narrativas bíblicas em busca dos mitos, e também expresso na obra aqui analisada, optamos pela figura e personagem central da bíblia e do mito que traz consigo: Jesus. Entretanto, necessário antes apresentar nossa fonte de análise, a Bíblia em Ação. A Bíblia em Ação, é composta da seleção de algumas histórias da Bíblia, como conhecemos, um livro de fé e também uma coleção de livros, contendo histórias, narrativas, e estilos diversos, cobrindo um longo período de séculos e também geográfico.
A Bíblia em Ação – A História de Salvação do Mundo é obra do quadrinista Sergio Cariello. A Bíblia em Ação possui 752 páginas, e é muito colorida, com desenhos e gráficos fortíssimos, de surpreender até mesmo os apaixonados por bíblias ou quadrinhos. Sergio Cariello atuou na Marvel e na DC Comics, empresas de referência dos quadrinhos.
Figura 6: Capa e Contracapa da Bíblia em Ação