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O MITO DO HERÓI SALVADOR

No documento Mito do herói salvador (páginas 25-33)

1. UNIVERSO DOS QUADRINHOS

1.2 O MITO DO HERÓI SALVADOR

Carl Gustav Jung afirma que o inconsciente é “um fenômeno natural que produz símbolos provadamente relevantes” (JUNG, 2008, p.129, grifo nosso).

Carl Gustav Jung foi médico psiquiatra e dedicou sua vida a conhecer os caminhos da mente humana. Jung manteve o diálogo científico com pensadores de sua época e com os anteriores, isto é exemplificado em seu livro „Tipos Psicológicos‟, onde ele cita desde os primeiros teólogos da Igreja Cristã primitiva, até pensadores como Schiller, Goethe e Kant.

Faz-se necessário esclarecer que Deus é assumido como existente para Jung, como fenômeno psicológico (JUNG, 1978, p.10), individual, social presente na cultura, verdade para pessoas, sendo assim, deve haver esta sensibilidade do terapeuta, do ouvinte, do interlocutor, pois, se uma pessoa de fato acredita que Deus existe, então, Ele de fato existe mentalmente para aquela pessoa. Ele explica:

Incorreria em erro lamentável quem considerasse minhas observações como uma espécie de demonstração da existência de Deus. Elas

demonstram apenas a existência de [Deus como] uma imagem arquetípica ... isso é tudo o que se pode dizer, psicologicamente, acerca de Deus. Mas como se trata de um arquétipo de grande significado, e de poderosa influência, seu aparecimento, relativamente frequente, parece-me um dado digno de nota para a Theologia naturalis. Como a vivência deste arquétipo tem muitas vezes, e inclusive, em alto grau, a qualidade do

numinoso, cabe-lhe a categoria de experiência religiosa. (JUNG, 1978, p.

64, grifo nosso).

Sanada esta questão, com propriedade, pode-se estudar e afirmar a importância do divino entre a humanidade como fenômeno cultural-psicológico, o inconsciente se manifestando na cultura. Mas precisa ser definido primeiramente o inconsciente pessoal, que “são aquisições da existência pessoal: o esquisito, o reprimido, o subliminarmente percebido, pensado e sentido” (JUNG, 2013, p.466). O inconsciente coletivo advém:

... não das aquisições pessoais, mas da possibilidade hereditária do funcionamento psíquico em geral, ou seja, da estrutura cerebral herdada. São as conexões mitológicas, os motivos e imagens que podem nascer de novo, a qualquer tempo e lugar, sem tradição ou migrações históricas (JUNG, 2013, p. 467).

Carl Gustav Jung buscava compreender as mazelas do ser humano, ele e aqueles que o acompanharam nesta linha de pesquisa, entenderam que os sonhos de seus pacientes possuíam imagens do inconsciente, semelhantes às antigas histórias da humanidade. Ele entendia que quando ignoramos conscientemente algumas informações, ou estas passam desapercebidas, ignorando “sua importância emocional e vital, estas mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento. Este segundo pensamento pode aparecer, por exemplo, na forma de um sonho” (JUNG, 2008, p. 22).

O uso de imagens em diversas religiões, explica Jung, são utilizadas como símbolos, como “representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente... todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e [que] se exprimem através de imagens” (JUNG, 2008, p. 19). Ele também reconhece que sua exposição acerca do inconsciente “não passa de um esboço superficial da natureza e do seu funcionamento dessa complexa parte da psique humana”. (JUNG, 2008, p.41).

A psicoterapeuta Marie Louise von Franz entendia a recente convergência e mútua contribuição entre as pesquisas dos pensadores analíticos, herdeiros de Jung, e a microfísica conforme as pesquisas do físico Wolfgang Pauli. Pode-se sintetizar comparativamente que:

... aquilo que Jung chama de arquétipos (ou esquemas do comportamento

emocional e mental do homem) também poderia chamar-se,

empregando-se os termos de Pauli, „probabilidades dominantes‟ das reações psíquicas

... não existem leis que governem a forma específica em que o arquétipo vai emergir do inconsciente. [Contudo] existem tendências ... permitem-nos apenas dizer que é provável acontecer certo fenômeno em determinadas

situações psicológicas. (JUNG, 2008, p. 425). [grifo do autor]

Isto foi colocado para demonstrar que Jung tinha clareza de que sua pesquisa poderia caminhar não para autenticar-se em outras áreas, mas para comprovações em outros campos da ciência, e isto fora abordado primeiramente e antecipadamente pelas suas pesquisas no campo da psicologia.

Mesmo diante desta abertura ao diálogo interdisciplinar, Marie Louise von Franz reconhece que: “A fecundidade das ideias de Jung é mais fácil de entender na área das atividades culturais do homem” (JUNG, 2008, p. 421). Por isto, o estudo da história da cultura, foi alvo de constante investigação, incluindo as histórias dos mitos e sua associação com os arquétipos. Este diálogo e as possibilidades que traz com a microfísica e a psicologia, poderá incentivar outras pesquisas em buscar caminhos de encontro entre elas, para apresentar novas respostas.

Afinal, o que são arquétipos? Dentre as definições colocadas por Jung, selecionamos esta que ele compara os arquétipos a impulsos. Os arquétipos são semelhantes a impulsos. Jung explica:

É preciso que eu esclareça aqui a relação entre instinto e arquétipo. Chamamos de instinto os impulsos fisiológicos percebidos pelos sentidos. Mas, ao mesmo tempo, esses instintos podem também se manifestar como fantasias e revelar, muitas vezes, a sua presença apenas por meio de imagens simbólicas. São essas manifestações que chamo de arquétipos. (JUNG, 2008, p. 83).

Franz explica ainda que: “As poderosas forças do inconsciente manifestam-se não apenas no material clínico, [ou seja, nos sonhos], mas também no mitológico, no religioso, no artístico e em outras atividades culturais por meio do qual o homem se

expressa” (JUNG, 2008, p. 420). Um expositor e pesquisador da relação entre mito e homem é o médico Joseph Lewis Henderson, ele escreve que o “mito do herói salvador é o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo” (JUNG, 2008, p. 142). É diante disto que se pode afirmar a ligação entre arquétipos e mitos, e que o mito do herói salvador se manifesta recorrentemente nas diversas culturas das sociedades.

Mas afinal, o que são mitos? Para o pensador Joseph Campbell, mitos são: “pistas para as potencialidades espirituais da vida humana”. Campbell explica que não há sentido para experiências, mas a própria “experiência e vida”. Campbell acrescenta: “Qual é o sentido do universo? Qual é o sentido de uma pulga? Está exatamente ali. É isso. E o seu próprio sentido é que você está aí.” (FLOWERS, 1990, p.6). Campbell sublinha que os seres humanos esquecem-se do mais importante, que é estarem vivos, e vivem buscando objetivos de outro valor. Diante disto, Campbell destaca os valores espirituais da vida, que são encontrados nos mitos, contudo, os valores espirituais aqui não significam a religiosidade, mas o compromisso de viver intensamente cada escolha e momento, é neste sentido que o mito serve à raça humana, dando pistas.

Há uma sociedade que estuda os mitos há muito tempo de forma interdisciplinar, a Eranos8. Pesquisadores de diversas áreas estavam em seu início: na teologia e filosofia da religião: Paul Tillich; em literatura e mitologia comparada: Joseph Campbell; na psicologia analítica: Carl Gustav Jung; na física: Wolfgang Pauli. Havia outros pensadores, contudo cito estes aqui para demonstrar como a psicologia analítica, desde cedo - em 1933 - construiu uma visão interdisciplinar, se não, multidisciplinar, buscando compreender os mitos e arquétipos no decorrer da experiência humana. Nesta confraria acadêmica, as imagens mentais, dos sonhos, das fantasias, imagens da arte, da religião, eram temas para investigações, e sua correlação com as práticas humanas.

Diante do exposto, chegamos ao mito do herói salvador. Por que é tão presente em tantas culturas e em todo decorrer da história humana? Campbell questionado sobre: “Por que há tantas histórias de herói na mitologia?” Respondeu: “Porque é sobre isso que vale a pena escrever”. (FLOWERS, 1990, p. 131). Pode-se afirmar que a indústria dos quadrinhos entendeu isto, e não perdeu tempo, recontou

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o mito do herói salvador em sua linguagem, invocando novos personagens, com protótipos presentes no inconsciente coletivo.

O mito do herói salvador aparece com certa frequência nas histórias em quadrinhos: Super-Homem, Batman, Homem Aranha, é um tema recorrente. O mito do herói salvador aparece também nas manifestações culturais, nas lendas, nas histórias ditas reais, na imaginação popular, e também nas manifestações religiosas.

Os arquétipos e os mitos possuem uma relação intrínseca. Diante de arquétipos, mitos e inconsciente coletivo, como apresentados até aqui, pode-se afirmar que a partir da matriz mental herdada, repetimos práticas coletivas e do passado, em especial imagens, e tais imagens estratificam-se em mitos, e tais mitos contam por si só a saga humana, variando nas apresentações, a partir da mente criativa, contudo permanecendo a essência da mensagem e do significado original, o exemplo pertinente aqui, é o próprio mito do herói salvador, que se pretende expor.

O mito do herói salvador sempre possui um valor singular e especial, ele possui fases identificáveis, um ciclo que, em todas as histórias de heróis, faz-se presente. “Todos os povos chamados primitivos têm em seus mitos e em seus ritos e cultos a presença de vários indivíduos destacados, superdotados, valentes, diferentes da média dos homens, que nós chamamos de heróis” (FEIJÓ, 1984, p.12). Demonstram-se abaixo as fases do mito do herói salvador.

A médica psiquiatra brasileira, Nise da Silveira, desenvolveu técnica para anamnese de seus pacientes e também terapêutica, a partir das imagens das pinturas produzidas por eles, a imagem ali revela além do posto. Ela demonstra a importância de olhar a imagem além da linguagem artística. A partir dos diagnósticos e considerações em pesquisas de Nise da Silveira, pode-se concluir que imagens produzidas pelos seres humanos, inclusive pinturas e as ilustrações para quadrinhos, podem ser abarcados, analisados e pesquisados, além da linguagem artística, as imagens que produzimos possuem múltiplas linguagens, a linguagem da técnica artística, e a linguagem do inconsciente, e sem um cuidado interdisciplinar, informações podem ser colocadas de lado, e não serem apreciadas ou abordadas.

Jung descreve o recurso que utilizou para apreender essas imagens-instinto. Tomando como ponto de partida uma imagem de sonho ou fantasia, solicitava seu analisando a desenvolver livremente o tema trazido pela imagem. Isso poderia ser feito de maneiras diversas, pela

dramatização, diálogo, escrita, visualização, dança, pintura, desenho, modelagem. (SILVEIRA, 2015, p.110).

A pesquisa de Nise da Silveira possui um enfoque nas patologias psiquiátricas. Mas fica evidente sua contribuição em demonstrar que a pintura está além da linguagem artística. É justo afirmar que a pesquisa terapêutica de Nise da Silveira era também acompanhada dos diálogos com os pacientes, isto é presente em toda sua obra, Imagens do Inconsciente. “Mas eu não examinava as pinturas dos doentes que frequentavam nosso atelier sentada no meu gabinete. Eu os via pintar. Via suas faces crispadas, via o ímpeto que movia suas mãos” (SILVEIRA, 2015, p.19).

A imagem revelava algo, mas os diálogos e presença no atelier eram necessários na compreensão daquela linguagem que imergia do inconsciente. Incialmente ela fora ajudada, tendo como seu colaborador, o pintor brasileiro Almir Mavignier, isto em 1946. (SILVEIRA, 2015, p.16). Isso demonstra que os terapeutas que aderiram às contribuições de Carl Gustav Jung respeitaram desde o início as linguagens próprias da arte. A ideia não era desmentir o valor da linguagem artística, mas encontrar nela outra linguagem, que brotava do inconsciente. Nise da Silveira não encontrou o desafio entre os artistas, mas entre seus colegas psiquiatras, pois era difícil livrar-se do tradicional modelo de entrevistas, médico paciente. (SILVEIRA, 2015, p.34).

Diante disto, não seria estranho o terapeuta optar em analisar os quadrinhos de seus pacientes, observado o processo de criação de seus pacientes, sua atitude, as cores escolhidas, e a história ali presente. Logo, deduz-se que é possível sim analisar uma história em quadrinhos buscando compreender o inconsciente. É a partir da compreensão do inconsciente e das imagens produzidas neste campo, que se podem buscar as imagens mitológicas e dos arquétipos que apontam para o mito do herói salvador.

Necessário também destacar a opção de Jung em olhar para a história da cultura, para o coletivo, para os mitos humanos em busca dos arquétipos comuns à raça humana, ao invés de deter-se no indivíduo.

A psique humana não pode funcionar sem a cultura e o indivíduo não é possível sem a sociedade. Partindo dessa afirmação básica, Jung, livra-se das principais ciladas tão frequentes quando a sociedade é encarada de um

ponto de vista psicológico. Ele não traz para o estudo da sociedade interpretações baseadas na análise do homem como um ser individual. Ao contrário, toma como princípio fundamental que toda análise deve partir do fato primário da natureza social do homem. (SILVEIRA, 2015, p. 115).

A explicação das fases do mito do herói salvador ficou a encargo de Joseph L. Henderson. Henderson foi um dos colaboradores de Jung. Ele explica, baseado nas pesquisas de Paul Radin, acerca do mito do herói salvador e seus ciclos mitológicos encontrados na tribo indígena norte-americana do winnebagos, que as fases, ou os ciclos são: “ciclo Trickster, ciclo Hare, ciclo Red Horn e ciclo Twin” (JUNG, 2008, p.145).

No primeiro ciclo, ou história, temos o personagem Trickster, “um personagem dominado por seus desejos; tem a mentalidade de uma criança. Sem outro propósito senão o de satisfazer suas necessidades mais elementares, é cruel, cínico e insensível” (JUNG, 2008, p.145).

No segundo ciclo, vemos o personagem Hare (Lebre). Aparece inicialmente como um animal, geralmente é representado como um coiote pelos índios norte-americanos, em suma, é um animal que não “tendo ainda alcançado a plenitude da estatura humana, surge, no entanto, como fundador da cultura – o transformador” (JUNG, 2008, p.146). Este personagem é a continuidade do primeiro, mas mais amadurecido, e ele estava ligado ao rito medicinal, por isto mesmo sua imagem arquetípica estava ligada a do salvador. Quando a tribo dos winnebagos teve contato com o cristianismo, logo dispensaram conhecer Jesus, afinal eles já tinham Jesus, para eles era Hare, com a vívida imagem arquetípica de herói, salvador, que trazia consigo. (JUNG, 2008, p.146).

O outro personagem identificado na tribo dos winnebagos é Red Horn, que explícita o terceiro ciclo do mito do herói salvador. Este personagem cumpre provas e desafios sendo vencedor, as vezes com poderes sobre-humano, e também possui um animal mascote que o acompanha e o ajuda em suas batalhas, o “Storms as he walks (há tempestade quando ele passa)”. No final da história deste herói, ele vence e vai embora da terra, deixando seus filhos. (JUNG, 2008, p.146).

Por último, o ciclo dos Twins (gêmeos). Os gêmeos são humanos, mas são filhos do sol, juntos no ventre materno, separam-se ao nascer, sendo que os dois representam dois lados da natureza humana. Flesh é o brando e conciliador, e

Stump, dinâmico e rebelde. Após derrotarem tudo, inclusive um dos quatro animais que sustentavam nosso planeta, eles recebem a morte (JUNG, 2008, p.146).

Tanto na terceira como na quarta história, o tema de morte aparecem, e aparecem, segundo seus pesquisadores, ligados a ideia de expiação, o que simbolicamente possui um grande valor. Ressalta-se aqui a imagem da terceira história ou ciclo, a do Red Horn, quando ele vai embora, também gera a imagem de ressurgimento a vida. Esta figura, para fechar o ciclo de sacrifício expiatório e de vencer a morte, é de grande importância tal detalhe, pois demonstra o paralelismo com a história de Jesus, enquanto salvador.

Também é possível observar nas fases do mito, as fases presentes no ciclo de vida dos seres humanos. Contudo, alguns indivíduos invocaram o arquétipo do herói com maior precisão e frequência do que outros, e outros o anularam quase que completamente, dando espaço para outras manifestações arquetípicas, também expostas na história da cultura, através de outros mitos.

Jesus Cristo de Nazaré, o filho de um carpinteiro e de uma mulher pobre, isto deduzimos a partir da própria narrativa dos evangelhos canônicos: Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatro primeiro livros do segundo testamento, ou o novo testamento. Jesus Cristo, sem entrarmos nos méritos teológicos, cumpre perfeitamente o ciclo do herói. No próximo capítulo, a partir dos quadrinhos de Sérgio Cariello, que buscaremos expor isto.

2 ANÁLISE DAS IMAGENS SELECIONADAS

No documento Mito do herói salvador (páginas 25-33)

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