PARLAMENTO EUROPEU
1999
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2004
Documento de sessão
FINAL A5-0396/2001 13 de Novembro de 2001
RELATÓRIO
sobre uma recomendação ao Conselho relativa a um espaço de liberdade, segurança e justiça: segurança nas reuniões do Conselho Europeu e outros eventos comparáveis
(2001/2167(INI))
Comissão das Liberdades e dos Direitos dos Cidadãos, da Justiça e dos Assuntos Internos
Relator: Graham R. Watson
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ÍNDICE
Página PÁGINA REGULAMENTAR... 4 PROPOSTA DE RECOMENDAÇÃO ... 5 EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS... 10
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PÁGINA REGULAMENTAR
Na sua sessão de 16 de Setembro de 2001, a Presidente do Parlamento comunicou que a Comissão das Liberdades e dos Direitos dos Cidadãos, da Justiça e dos Assuntos Internos fora autorizada a elaborar uma recomendação ao Conselho, nos termos do nº 3 do artigo 39º do Tratado UE e do artigo 107º do Regimento, relativa a um espaço de liberdade, segurança e justiça: segurança nas reuniões do Conselho Europeu e outros eventos comparáveis.
Na sua reunião de 3 de Setembro de 2001, a Comissão das Liberdades e dos Direitos dos Cidadãos, da Justiça e dos Assuntos Internos designara relator Graham R. Watson.
Na suas reuniões de 16 de Outubro e 12 de Novembro de 2001, a comissão procedeu à apreciação do projecto de relatório.
Na última reunião, a comissão aprovou a proposta de resolução por 22 votos a favor, 1 voto contra e 15 abstenções.
Encontravam-se presentes no momento da votação Robert J.E. Evans (presidente em exercício), Bernd Posselt (vice-presidente), Graham R. Watson (relator), Roberta Angelilli, Alima Boumediene-Thiery, Mogens N.J. Camre, Marco Cappato, Charlotte Cederschiöld, Carlos Coelho, Thierry Cornillet, Gérard M.J. Deprez, Giuseppe Di Lello Finuoli, Francesco Fiori ( em substituição de Marcello Dell'Utri, nos termos do nº 2 do artigo 153º do
Regimento), Evelyne Gebhardt (em substituição de Michael Cashman), Adeline Hazan, Anna Karamanou, Margot Keßler, Ole Krarup, Rodi Kratsa-Tsagaropoulou (em substituição de Mary Elizabeth Banotti), Alain Krivine (em substituição de Pernille Frahm), Baroness Sarah Ludford, Lucio Manisco (em substituição de Fodé Sylla), Arie M. Oostlander (em
substituição de Hartmut Nassauer), Elena Ornella Paciotti, Neil Parish (em substituição de Daniel J. Hannan, nos termos do nº 2 do artigo 153º do Regimento), Paolo Pastorelli, Hubert Pirker, Martine Roure (em substituição de Ozan Ceyhun), Giacomo Santini (em substituição de Eva Klamt, nos termos do nº 2 do artigo 153º do Regimento), Martin Schulz, Patsy Sörensen, Sérgio Sousa Pinto, Joke Swiebel, Anna Terrón i Cusí, Maurizio Turco (em substituição de Frank Vanhecke), Anne E.M. Van Lancker (em substituição de Gerhard Schmid), Gianni Vattimo e Christian Ulrik von Boetticher.
O relatório foi entregue em 13 de Novembro.
O prazo para a entrega de alterações ao presente relatório constará do projecto de ordem do dia do período de sessões em que for apreciado.
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PROPOSTA DE RECOMENDAÇÃO
Recomendação do Parlamento Europeu ao Conselho relativa a um espaço de liberdade, segurança e justiça: segurança nas reuniões do Conselho Europeu e outros eventos comparáveis (2001/2167(INI))
O Parlamento Europeu,
– Tendo em conta o nº 3 do artigo 39º do Tratado UE,
– Tendo em conta os artigos 6º e 7º do Tratado UE, com a redacção que lhes foi dada pelo Tratado de Nice, relativos à protecção dos direitos fundamentais na União Europeia, – Tendo em conta a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia ,
– Tendo em conta o artigo 107º do seu Regimento,
– Tendo em conta a recomendação da Comissão das Liberdades e dos Direitos dos Cidadãos, da Justiça e dos Assuntos Internos (A5-0396/2001),
A. Consciente das crescentes preocupações dos cidadãos europeus relativamente ao impacto da globalização, preocupações essas expressas nas manifestações que tiveram lugar durante os Conselhos Europeus de Nice, Gotemburgo e os encontros de Salzburg, Davos, Praga e Génova,
B. Chocado com a violência das manifestações que tiveram lugar aquando destas reuniões internacionais e que provocaram não apenas graves danos em bens públicos e privados, mas sobretudo diversos feridos entre as forças policiais e os manifestantes, tendo como consequência a morte de um destes últimos,
C. Convencido da necessidade de garantir um alto nível de confiança recíproca entre os cidadãos e as suas instituições,
D. Tendo tomado nota
- das conclusões adoptadas pelo Conselho “Justiça e Assuntos Internos” (de 13 de Julho, doc. 10916/01, e 27 de Setembro), que dizem respeito a questões de segurança, assim como pelo Conselho “Assuntos Gerais” (de 16 de Julho),
- da carta aberta do Presidente do Conselho Europeu, Guy Verhofstadt, intitulada “ Uma mensagem aos manifestantes antiglobalização”,
- dos debates com a Presidência do Conselho na comissão parlamentar e em sessão plenária,
- dos debates sobre a matéria realizados nos parlamentos nacionais e das contribuições de cidadãos e ONG,
- das frequentes e inequívocas declarações dos líderes dos movimentos
antiglobalização, em particular em Génova, de que a violência é contrária ao espírito e aos objectivos dos seus movimentos;
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No que se refere ao diálogo político
1. Partilha a opinião do Conselho segundo a qual as manifestações de Nice, Gotemburgo e Génova são expressão de uma reivindicação política cada vez mais premente endereçada à União Europeia no sentido de envidar todos os esforços possíveis para interpretar a
dimensão política da mundialização e “abordar as legítimas preocupações que a
mundialização suscita nas nossas sociedades, activando os instrumentos adequados para gerir convenientemente as mudanças estruturais em curso, com o objectivo de contribuir para o progresso político, social e económico da comunidade internacional”,
- Partilha igualmente da opinião de que se trata de “uma tarefa que a União Europeia é chamada a realizar nos anos vindouros, tendo em vista controlar os seus efeitos e tirar plenamente proveito dos seus benefícios”;
2. Salienta que o debate político sobre o impacto interno e externo da globalização e o diálogo com a sociedade civil europeia tem que ser estruturado (tal como sucedeu no caso do euro ou do alargamento) e que estes se devem fundar numa abordagem multi-sectorial que vá para além das políticas tradicionais. Solicita, por esse motivo, à Comissão:
- que institua um grupo de trabalho entre os comissários mais envolvidos (comércio, desenvolvimento, assuntos externos, ambiente, assuntos sociais, agricultura), que terá por missão preparar um Livro Branco sobre esta matéria, na perspectiva das futuras
negociações sobre a Ronda do Milénio em Doha e em Setembro de 2002, em Joanesburgo, no âmbito da próxima Cimeira Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável;
- que institua um fórum permanente sobre a globalização que integre representantes do Parlamento Europeu e dos parlamentos nacionais;
- que reconheça a estratégia de globalização como sendo o assunto principal a tratar no âmbito do debate sobre a governança e como uma prioridade da estratégia de informação interinstitucional;
Recomendações gerais destinadas a melhorar o diálogo político, a protecção dos direitos fundamentais e a eficácia da cooperação entre os Estados-Membros
3. Assinala que o direito universal à dissidência decorre da liberdade de pensamento, religião, expressão, informação, reunião e associação, como estabelecido nos artigos 10º, 11º e 12º da Carta dos Direitos Fundamentais da UE,
4. Considera que, numa União Europeia destinada a tornar-se um espaço de liberdade, segurança e justiça, o recurso à violência para exprimir opiniões políticas ou outras é condenável e que o diálogo com a sociedade civil deve ser preservado e melhorado, respeitando os diversos actores e baseando-se nos seguintes requisitos:
No que se refere aos representantes da sociedade civil
- os cidadãos devem gozar do direito de expressar livremente as suas opiniões e de se reunir pacificamente; numa União Europeia fundada no primado do direito e em princípios democráticos, as manifestações devem visar influenciar por via pacífica o processo normal
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de tomada de decisão das instituições;
- as manifestações devem ter lugar em condições que não constituam uma ameaça para a segurança ou propriedade de outros cidadãos, respeitando as medidas preventivas instituídas pelos Estados–Membros, nos termos do artigo 33º do Tratado UE, a fim de assegurar o direito dos cidadãos à segurança, consignado no artigo 29º do mesmo Tratado;
- os responsáveis por actos de violência devem ser isolados e condenados e os organizadores devem evitar a cooperação com quantos violem os direitos democráticos concebendo, planeando e perpetrando actos de violência que coincidem com manifestações públicas;
No que se refere aos Estados-Membros
- os cidadãos devem gozar do direito à protecção de dados pessoais de acordo com o artigo 8º da Carta Europeia dos Direitos Fundamentais,
- necessidade de encetar um diálogo com os organizadores de manifestações públicas e adopção de toda a iniciativa útil para evitar toda e qualquer discriminação entre nacionais e cidadãos de outros Estados-membros antes, durante e após as manifestações,
- as medidas adoptadas para assegurar a ordem pública devem ser eficazes e proporcionais e respeitar os direitos fundamentais consignados na Carta Europeia dos Direitos
Fundamentais e as normas europeias comuns para os serviços de polícia (ver a recente recomendação do Conselho da Europa relativa aos serviços de polícia), bem como a legislação comunitária pertinente, especialmente no domínio da ordem pública (Directiva 64/221/CE) e da protecção de dados (Directiva 95/46/CE),
- necessidade de promover e aperfeiçoar a cooperação com outros Estados-Membros, a fim de prevenir actos e comportamentos violentos por parte dos manifestantes recorrendo, tanto quanto possível, ao acervo existente da União, tanto a nível comunitário como em matéria de cooperação judiciária e policial;
No que se refere às instituições europeias
- necessidade de gerir os fluxos substanciais, através das fronteiras internas, de pessoas que desejam participar em manifestações públicas, uma vez que as actuais disposições foram concebidas numa base pessoa a pessoa, a fim de garantir a livre circulação e assegurar elevados níveis de segurança; além disso, necessidade de a Comissão garantir, no âmbito da livre circulação de cidadãos europeus, pelo menos a mesma protecção que é concedida à livre circulação de mercadorias (ver o regulamento "morangos” que institui um sistema de alerta rápido entre os Estados-Membros em caso de bloqueio da livre circulação de
mercadorias por parte de um Estado-Membro);
- necessidade de estabelecer um conceito europeu de “ordem pública” a fim de assegurar que, para a definição de ordem pública, sejam tidos em conta critérios comuns baseados na jurisprudência do Tribunal de Justiça, de molde a evitar incoerências ou sobreposições entre as instituições europeias e as instituições nacionais, entre as Convenções de
Schengen e Europol e entre as medidas que regem a cooperação entre os serviços
responsáveis pela aplicação da lei e os serviços de polícia dos Estados-Membros (Acções Comuns de 26 de Maio de 1997);
- necessidade de uma reforma global dos instrumentos europeus de cooperação judiciária e policial que se inspire nas melhores normas e métodos de controlo democrático dos
serviços de polícia nos Estados-Membros e conduza à revisão da Convenção Europol e das
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disposições pertinentes da Convenção de Schengen. Esta reforma deve ser apresentada por iniciativa da Comissão até ao final de 2002 e deve visar a comunitarização progressiva destes instrumentos, o reforço do controlo jurisdicional do Tribunal de Justiça e o financiamento destes instrumentos através do orçamento comunitário;
- necessidade de um enquadramento jurídico comum entre os Estados-Membros que
assegure a protecção de dados no domínio da justiça e assuntos internos, em conformidade com o artigo 8º da Carta Europeia dos Direitos Fundamentais, e necessidade de criação de uma autoridade única europeia para a protecção de dados;
Recomendações específicas a aplicar para assegurar uma melhor protecção dos direitos fundamentais
5. Considera que as manifestações de Nice, Gotemburgo e Génova revelaram diversas
insuficiências nas reacções dos Estados-Membros; por esse motivo, o Parlamento Europeu formula as seguintes recomendações com vista a melhorar a protecção dos direitos
fundamentais dos cidadãos europeus:
5.1. Evitar o bloqueio de fronteiras ou que seja negado o direito de passagem de fronteiras a indivíduos ou grupos de pessoas que procuram participar pacificamente em manifestações legítimas. O restabelecimento, cada vez mais frequente, de controlos nas fronteiras internas por parte dos Estados-Membros deixou de ser uma situação de excepção para se tornar a regra, mesmo no caso de eventos internacionais de importância menor. O nº 2 do artigo 2º da Convenção de Schengen apenas prevê a possibilidade de os Estados-Membros reintroduzirem controlos fronteiriços se a ordem pública ou a segurança nacional o exigirem. Trata-se, por conseguinte, de uma excepção à regra geral, segundo a qual as fronteiras internas podem ser transpostas em qualquer local sem que sejam efectuados quaisquer controlos de pessoas. Todavia, a reintrodução dos controlos fronteiriços não afecta a legislação comunitária existente no domínio da livre circulação. O bloqueio nas fronteiras de milhares de pessoas que se deslocam de comboio ou de barco, sem verificar se constituem uma ameaça grave susceptível de afectar um dos direitos fundamentais da sociedade (em conformidade com a jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias) constitui uma medida desproporcionada e contrária aos artigos 11º, 12º e 45º da CEDF e aos requisitos previstos na Directiva 64/221/CE;
5.2. Acordar uma definição comum de “pessoa perigosa” e comportamentos
perigosos susceptíveis de justificar a adopção de medidas preventivas por parte dos serviços de polícia de outro Estado-Membro, tal como previsto nos artigos 46º e 96º da Convenção de Schengen. Muitas pessoas detidas nas fronteiras (designadamente aquando da Cimeira de Génova) tinham sido registadas no SIS por parte de
Estados-Membros por comportamentos (por exemplo, participação em manifestações antinucleares) que são legítimos em outros Estados-Membros. Em todo o caso, há que declarar claramente que os cidadãos europeus não podem ser afastados ou expulsos de nenhuma parte do território da União Europeia sem uma decisão judicial;
5.3. Evitar qualquer novo tipo de “lista negra” ou de nova base de dados
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especializada entre Estados-Membros fora do SIS e da base de dados SIRENE e assegurar o direito efectivo de as pessoas em causa obterem a rectificação de informações (reconhecido pelo artigo 8º da CEDF), assim como o direito de obterem controlo judicial em caso de abuso, nomeadamente, no que se refere a dados pessoais que revelam opiniões políticas (em violação do disposto nos artigos 11º e 12º da Carta Europeia dos Direitos Fundamentais);
5.4. Reforçar os direitos dos cidadãos consagrados no artigo 29º do Tratado da UE, combatendo de forma eficaz a nível europeu grupos violentos (como o
denominado “black bloc”) ou organizações criminosas que praticam actos de violência urbana no território da UE. Este tipo de investigação deve ser lançada com a maior brevidade possível para evitar novas infiltrações em futuras
manifestações pacíficas;
5.5. Evitar o uso desproporcionado da força e dar às forças policiais nacionais instruções no sentido de controlar a violência e salvaguardar os direitos
individuais, mesmo em cenários confusos de massas, em que infractores violentos se misturam com cidadãos pacíficos e respeitadores da lei. Afigura-se imperativo evitar o uso de armas e respeitar a recomendação das Nações Unidas sobre o uso
proporcionado da força e o código ético do Conselho da Europa para as forças policiais. Apoiar o pedido formulado pelo Conselho no sentido da elaboração de um manual europeu comum para a polícia envolvida em manifestações públicas. Convém salientar que, na sequência dos distúrbios de Génova, foram iniciados, em Itália, diversos inquéritos administrativos, judiciais e parlamentares para verificar se houve tratos ou penas desumanos ou degradantes (artigo 4º da CEDF). O Parlamento Europeu dará uma atenção particular ao seguimento destes inquéritos, na perspectiva do seu relatório anual 2001 sobre a protecção dos direitos fundamentais na União Europeia;
5.6. Evitar todo e qualquer tipo de discriminação entre cidadãos nacionais e europeus em caso de detenção ou julgamento e assegurar o direito de a pessoa utilizar a sua própria língua e de ter acesso imediato a um advogado, a protecção consular, tal como previsto no artigo 36º da Convenção de Viena, e assegurar, mesmo no caso de um processo judicial acelerado, o direito de a pessoa ser defendida por um advogado da sua escolha, em conformidade com o direito fundamental de acesso à justiça;
6. Encarrega a sua Presidente de transmitir a presente resolução ao Conselho e, para
informação, à Comissão, bem como aos Governos e Parlamentos dos Estados-Membros.
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EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS Introdução
1. Após as manifestações que tiveram lugar durante o Conselho Europeu de Nice (Dezembro de 2000), Gotemburgo (Junho de 2000) e, por fim, em Génova (Julho de 2001), e os actos deploráveis de violência que marcaram tais manifestações, seria conveniente que as Instituições europeias e, nomeadamente, o Parlamento Europeu, entendessem as suas causas a fim de prevenir a ocorrência deste tipo de incidentes no futuro.
Como melhorar o diálogo político, a protecção dos direitos fundamentais e a eficácia da cooperação entre os Estados-Membros…
2. Do ponto de vista do relator, o que aconteceu em Nice, Gotemburgo e Génova deve ser avaliado tendo presente duas necessidades essenciais:
a) como melhorar o diálogo político garantindo a protecção dos direitos fundamentais dos cidadãos europeus de se manifestarem e até de protestarem pacificamente,
b) como prevenir ou punir comportamentos criminosos de manifestantes e assegurar que a reacção dos serviços policiais e dos serviços responsáveis pela aplicação da lei não seja desproporcionada.
Estes dois aspectos estão profundamente interligados. Estas mesmas questões estão a ser alvo de intenso debate a nível nacional por parte da imprensa, das ONG e, em particular, no âmbito de numerosos inquéritos administrativos, institucionais e parlamentares. Em casos idênticos, sobretudo na Suécia e em Itália, foram activados processos judiciais.
3. Estas iniciativas nacionais não impedem, de forma alguma, que as Instituições europeias verifiquem, do seu ponto de vista, se os direitos fundamentais e outros princípios
estabelecidos no nº 1 do artigo 6º do TUE foram respeitados. Importa recordar que o artigo 7º do Tratado da UE foi recentemente reforçado pelo Tratado de Nice, o qual incumbiu as Instituições europeias de controlar a protecção dos direitos fundamentais mesmo em caso de “risco” de violação. Esse dever de “controlo” deve ser cumprido não obstante o Tratado de Nice ainda não tenha sido ratificado; com efeito, de acordo com a Convenção de Viena sobre os tratados internacionais, os signatários (e as instituições pertinentes) devem agir de boa fé e preparar-se para as suas novas tarefas tanto quanto a situação legal vigente o permitir. Esse “controlo” por parte das Instituições deve ser exercido com base na Carta Europeia dos Direitos Fundamentais e que as mesmas proclamaram recentemente, tendo especialmente em conta os artigos citados nos parágrafos seguintes.
Em segundo lugar, convém salientar que o Tratado atribui uma importância especial à necessidade de facultar aos cidadãos europeus um elevado nível de protecção e que, para o efeito, é necessário assegurar a cooperação policial e judiciária no quadro da UE.
Aparentemente, tal cooperação foi insuficiente aquando das Cimeiras de Nice,
Gotemburgo e Génova a avaliar pelas declarações públicas a nível ministerial, e até, pelas conclusões do Conselho JAI de 13 de Julho, onde se refere a necessidade de introduzir melhorias significativas a nível europeu.
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Manifestantes antiglobalização: necessidade de uma resposta política a uma exigência política ….
4. Numa perspectiva europeia, o movimento antiglobalização é antes do mais um fenómeno político recente e crescente sendo os seus protestos a expressão da exigência crescente de uma estratégia política ambiciosa. Quando centenas de milhar de pessoas representando as ONG e até grupos religiosos se juntam em público para expressar as suas preocupações e decidem fazê-lo durante reuniões internacionais, tal não poderá ser visto como uma mera coincidência antes exigindo uma resposta adequada das Instituições para evitar um sentimento de frustração nos cidadãos europeus e dar corpo à liberdade de expressão e de informação (artigo 11º da CEDF) e à liberdade de reunião e de associação (artigo 12º da CEDF) consagrados na Carta dos Direitos Fundamentais.
Há que evitar o círculo vicioso em que uma exigência apresentada fica sem resposta, o que gera frustração, a frustração gera a repressão até, por fim, se quebrar a confiança mútua entre as instituições e os cidadãos. Uma sociedade em que os cidadãos temem as suas instituições e estas temem os seus cidadãos revela ser uma democracia muito frágil;
tal é verdadeiro não só a nível da União Europeia, a qual assenta em princípios democráticos (nº 1 do artigo 6º do Tratado), mas obviamente também dos Estados- Membros.
5. Evidentemente que o reforço do diálogo democrático compete fundamentalmente aos partidos políticos, a nível local, nacional ou europeu, mas as suas iniciativas devem ser apoiadas pelas instituições a quem cabe, em última análise, a adopção das decisões legais.
Para citar Jean Monnet, “nada é possível sem os povos mas nada é duradouro sem as instituições”. O recente Livro Branco sobre a Governança, bem como a carta aberta aos cidadãos de Guy Verhofstadt, Presidente do Conselho Europeu, em que se solicitam contributos e comentários com vista ao futuro Conselho Europeu de Laeken, são úteis mas precisam de ser completados por um Livro Branco que aborde a questão da globalização (conforme proposto na recente Comunicação sobre a melhoria da governação social no contexto da globalização (COM(2001)416). Durante o debate sobre esta matéria, levado a cabo recentemente em sessão plenária, a presidência do Conselho salientou a necessidade de se lançar uma campanha de informação em conjunto com o Conselho e a Comissão.
Seria certamente oportuno que essa campanha fosse reforçada pela estratégia
interinstitucional de informação actualmente em debate na Comissão e no Parlamento.
…a União não pode recusar o diálogo sobre políticas pelas quais é directamente responsável…
6. Mesmo que as mensagens sobre a globalização, transmitidas recentemente pelos
representantes da sociedade civil, pareçam por vezes vagas ou contraditórias, dificilmente se poderá negar que essas questões se inscrevem, directa e por vezes exclusivamente no âmbito de competências da União e da Comunidade. É o caso, nomeadamente, das políticas comerciais e de desenvolvimento, que serão debatidas durante a ronda do milénio, mas é também o caso de questões específicas relacionadas com os direitos fundamentais, como a protecção da vida privada, a propriedade intelectual, as cláusulas humanitárias nos acordos internacionais ou mesmo a ratificação de convenções mundiais
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sobre a prevenção da criminalidade ou o Tribunal Penal Internacional. Não se andará longe da verdade se se disser que a União Europeia, para além de ser o maior actor comercial do mundo, é igualmente o único interlocutor transparente e democraticamente responsável entre os outros principais actores mundiais, como os EUA, a Rússia ou a China, quando se trata de debater uma política de globalização “sustentável”. A prática seguida até à data de encontrar os representantes desses países durante as reuniões do Conselho Europeu (como aconteceu em Gotemburgo com os Presidentes Putin e Bush), em que todos os membros da família da União Europeia estão presentes, afigura-se preferível a um encontro noutros fora, como o G7 ou G8, em que a União Europeia enquanto tal se encontra numa posição menos forte.
7. Não compete à nossa comissão esboçar uma possível estratégia de política de globalização
“sustentável” no que se refere às políticas específicas que as Instituições da UE deverão desenvolver nos próximos meses e anos. Seria preferível que a Comissão delineasse já uma tal estratégia em Novembro, em Doha, na ronda do milénio, ou mais tarde, em Laeken, ou até, no próximo ano, aquando da cimeira mundial sobre desenvolvimento sustentável (que deverá ter lugar, em Setembro de 2002, em Joanesburgo, dez anos após a Conferência do Rio). Uma estratégia global que integrasse os contributos dos diferentes comissários (Lamy, Nielson, Patten, Diamantopoulou, Vitorino, …..) poderia constituir um exercício particularmente interessante, não só para os cidadãos mas até para a UE, a qual, nos últimos cinquenta anos, tem sido um exemplo de sucesso no que se refere à forma como responder democraticamente aos desafios globais.
…o diálogo civil não poderá justificar abusos em matéria de direitos democráticos nem actos de violência…
8. Reconhecer o contributo dos representantes da sociedade civil, que apresentam propostas relativas a políticas públicas, não poderá de modo algum minar o funcionamento efectivo de uma democracia representativa como a União Europeia. Por conseguinte, nenhum dos chamados “representantes da sociedade civil” ou fórum poderá ter a pretensão de impor os seus próprios pontos de vista às Instituições da UE, sobretudo através de actos de
violência ou a coberto de anonimato. Tal seria contrário a qualquer princípio democrático e depararia com a forte oposição das instituições. Assim, as verdadeiras questões que se colocaram em Nice, Gotemburgo e Génova, são as seguintes:
- como poderão as instituições garantir de forma eficaz a aplicação da lei e a manutenção da ordem pública?
- que normas será necessário respeitar para prevenir e lutar contra actos de violência numa sociedade democrática?
- que disposições deverão ser melhoradas a nível europeu?
…os Estados-Membros devem fazer face à violência no âmbito da UE…
9. Em conformidade com o artigo 33º do Tratado da UE, incumbe aos Estados-Membros assegurar a aplicação da lei e a manutenção da ordem pública, mesmo que a reunião ou a política que esteja a ser debatida e questionada tenham um cariz mais internacional do que nacional. Esta manutenção intransigente da soberania interna parece todavia ultrapassada quando se verifica que são os próprios Estados-Membros interessados a solicitar uma
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cooperação crescente por parte de outros membros da UE. Infelizmente, em Nice, Gotemburgo e Génova, foi possível constatar até que ponto essas formas de cooperação são frágeis e complexas ainda que a União declare ser um “espaço de liberdade, justiça e segurança”.
De acordo com dados revelados aquando de debates parlamentares realizados a nível nacional, mesmo a cooperação no âmbito de Schengen parece longe de ser eficaz e
homogénea, já que o quadro legal, que rege actualmente a cooperação entre as autoridades políticas dos Estados-Membros, parece simplesmente inútil.
…a União deve oferecer aos cidadãos um elevado nível de segurança mas existe falta de cooperação…
10. Estas fraquezas que caracterizam a cooperação entre os serviços policiais e os serviços responsáveis pela aplicação da lei nos Estados-Membros constituem um sinal muito alarmante; não deixa de ser bastante surpreendente que, para resolver estes problemas, que aparentemente afectaram as Cimeiras de Nice, Gotemburgo e Génova, o Conselho JAI, nas suas conclusões de 13 de Julho, tenha simplesmente invocado um reforço de
instrumentos sem aparentemente se preocupar com as razões da sua fraqueza. Dado que o artigo 29º do Tratado estabelece que “…. será objectivo da União facultar aos cidadãos um elevado nível de … segurança ….”, poder-se-ia argumentar que as medidas devem ser objecto de uma efectiva e correcta aplicação.
Para quê criar novas bases de dados (… Schengen, Europol, Interpol…), novos grupos de trabalho e novos instrumentos de informação sem avaliar as razões da ineficácia dos instrumentos e procedimentos existentes? Sem uma tal avaliação, apenas poderemos atribuir a insuficiência desses resultados à falta de confiança mútua, às diferentes
estruturas policiais dos Estados-Membros, aos seus métodos de trabalho, à sua cultura, a insuficientes conhecimentos linguísticos ou até à falta de entendimento entre os serviços policiais e os serviços responsáveis pela aplicação da lei no interior do próprio Estado- Membro. Por conseguinte, os Estados-Membros deveriam estar dispostos a aplicar o mesmo “teste de comparabilidade” que exigem aos países candidatos e promover uma formação de alto nível, conforme proposto pela JAI. Naturalmente que ninguém
defenderá um modelo de polícia como “norma da UE” , mas uma tal falta de análise ou, pelo menos, de transparência é prejudicial não só ao bom funcionamento dos serviços policiais e dos serviços responsáveis pela aplicação da lei no futuro, mas sobretudo para os cidadãos europeus, visto que a persistência de diferenças significativas entre os Estados-Membros pode, na prática, criar discriminações entre os cidadãos europeus nacionais ou não nacionais de um país.
11. Muitos cidadãos europeus têm sido confrontados com esta falta de um entendimento comum sobre “ordem pública” a nível europeu, o que originou uma série de queixas apresentadas a Instituições europeias sobre o comportamento de alguns Estados-Membros.
Essas queixas, foram também apresentadas por ONG e partidos políticos em sessões parlamentares a nível nacional e europeu.
A debilidade da situação actual do ponto de vista de um cidadão europeu
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12. Do ponto de vista do cidadão europeu (independentemente de ter participado numa manifestação ou de ter sido “vítima” de violência), torna-se também difícil entender que o mesmo comportamento em manifestações públicas possa ser tratado de forma
substancialmente diferente se ocorrer em Itália, no RU, em França ou na Suécia. A noção de “agitador” pode não ser coincidente nos diversos Estados-Membros e certas formas de resistência ou de contestação (por exemplo, bloqueio de auto-estradas e de fronteiras terrestres ou a resistência passiva às autoridades públicas…) poderão ser admissíveis em certas situações (durante uma greve, jogos de futebol, manifestações antinucleares …) ou em certas partes do território da União, mas serem interditas noutras.
Mas, o que é difícil de aceitar é que nem o facto de se ser um cidadão europeu poderá obstar a que se seja tratado do mesmo modo que um cidadãos extra-comunitário e a ver negado o acesso à justiça na sua própria língua ou a correr o risco de afastamento ou expulsão, sem decisão judicial, de uma parte significativa do território da União Europeia.
Além disso, é difícil aceitar que alguém possa ser fichado como “agitador” pela polícia de um Estado-Membro sem qualquer informação ou direito de recurso e, nessa base, ser-lhe recusada a entrada numa parte do território da União por outros Estados-Membros. Algo que também suscita grande apreensão é a falta de um entendimento comum entre os Estados-Membros acerca de questões fundamentais como os princípios de protecção de dados no âmbito da cooperação judiciária e policial, o que impede qualquer reacção eficaz da parte dos próprios Estados-Membros.
13. Cumpre assinalar que, contrariamente ao previsto na Convenção do Conselho da Europa, o Tratado da União Europeia não contempla a excepção “da ordem pública” ao exercício dos direitos fundamentais, de modo que os Estados-Membros dispõem de uma ampla margem de manobra para invocar tal excepção. Uma situação como esta poderá ser considerada como não equilibrada visto que a União Europeia declara fundar-se nos direitos fundamentais (artigo 6º TUE), mas, ao mesmo tempo, é incapaz de verificar se a excepção ao seu exercício é correctamente aplicada pelos seus Estados-Membros.
Esta situação é apenas morigerada pela jurisprudência do Tribunal de Justiça, ao qual se refere o artigo 52º da Carta dos Direitos Fundamentais.
14. O papel do Tribunal de Justiça é particularmente importante quando é questionado o direito à livre circulação - um direito fundamental e pessoal conferido a todos os cidadãos da União pelo próprio Tratado (artigo 18º do Tratado CE). De acordos com os Juízes do Luxemburgo, mesmo que tal direito pudesse estar sujeito a determinadas limitações e condições por razões de ordem, segurança ou saúde públicas, tais restrições só poderão ser invocadas em conformidade com a Directiva do Conselho 64/221, a qual que prevê
algumas salvaguardas e garantias a fim de limitar os poderes discricionários dos
Estados-Membros nesta matéria. De acordo com a jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, as restrições por razões de segurança pública deverão basear-se exclusivamente na conduta pessoal do indivíduo implicado e ser motivadas por uma ameaça actual e suficientemente grave que afecte um dos interesses fundamentais da sociedade, devendo ser aplicadas de acordo com o princípio da proporcionalidade. A proporcionalidade exige que uma medida tenha motivos fundados, que exista um equilíbrio justificado entre a medida e o objectivo, bem como um equilíbrio justificado entre os interesses do indivíduo e os interesses do Estado-Membro em questão.
RR\454420PT.doc 15/15 PE 302.299
PT
Assim, considerando alguns dos acontecimentos que marcaram as reuniões em Nice, Gotemburgo e Génova, a confiscação dos documentos de viagem de todas as pessoas, sobre quem recaiam fortes suspeitas de representarem uma ameaça à ordem pública por ocasião de um evento organizado, poderá ser uma medida desproporcionada se o mesmo objectivo puder ser alcançado com instrumentos menos restritivos. Além disso, uma medida de interdição de entrada no território de um Estado-Membro (ou uma ordem de expulsão) não pode manter-se em vigor por tempo indeterminado, devendo ser
reexaminada após um certo tempo, tomando em consideração novos factores,
nomeadamente qualquer modificação material das circunstâncias que justificaram as medidas. Caso seja, por exemplo, elaborada uma lista de pessoas “não admissíveis”, essa lista deverá ser revista regularmente para se poder avaliar se tais pessoas ainda
representam uma ameaça para a ordem pública.