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Falando com as coisas (Autismo)

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Academic year: 2021

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Da Clínica à Reabilitação Psicossocial - Manual de Saúde Mental de crianças e Adolescentes 43

A mãe de Fred, 14 anos, diz que nunca per-cebeu problemas em seu filho quando bebê. Conta que ele balbuciou as primeiras palavras com um ano e meio. Ao entrar para a escola, com dois anos e meio, a professora começou a perceber que Fred não se entrosava com as outras crianças, ficava andando em círculos e batendo as mãos. Diante deste comportamento, que se repetia também em casa, a mãe procurou atendimento psicológico. Após um percurso por vários profissionais, foi en-caminhado ao CARIM, Instituto de Psiquiatria da UFRJ, onde ficou em atendimento ambulatorial por cerca de dois anos. Fred conseguiu frequentar a escola e terminou a 5ª série.

Seu comportamento evoluiu com muitos mo-vimentos estranhos e repetitivos (girar objetos, an-dar aos pulos), com uma linguagem bem articula-da, mas marcada por uma entonação peculiar e por um padrão repetitivo de fala, além das dificuldades de interação interpessoal. Fred, na adolescência, continuou necessitando de cuidados especializa-dos, pois continuava muito isolado, sem amigos e com sérias dificuldades escolares, tanto no aspec-to de aprendizado quanaspec-to no disciplinar.

A mãe relata que o pai de Fred era muito agressivo e que se separaram quando o filho era muito pequeno. Desde então Fred e a mãe

pas-Falando com as coisas

(Autismo)

Edson Saggese

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Psiquiatria.

Doutor em Ciências da Saúde pelo IPUB/UFRJ, psiquiatra, psicanalista, professor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

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saram a viver sozinhos, sendo seus principais contatos externos os pa-rentes da mãe, e tendo pouco contato com o pai. As dificuldades escolares culminam no afastamento da escola o que diminui ainda mais as possibi-lidades de interação interpessoal da criança.

Percurso

Optou-se por inserir Fred nas atividades do Centro de Atenção Psi-cossocial (CARIM), privilegiando a necessidade de que o adolescente estabelecesse algum tipo de vínculo social extrafamiliar. Fred foi, inicial-mente, conhecendo estas atividades, mas mostrava grande dificuldade de ficar nos grupos. Circulava pelo espa-ço externo às salas de atendimento, por vezes entrava, sentando-se por alguns minutos, mas logo saía. Nos primeiros dias, passava algumas ve-zes, direto pelas pessoas parecendo não vê-las. Certa ocasião, ao entrar numa das salas, dirigiu-se diretamen-te a uma pradiretamen-teleira onde estavam di-versos objetos como cafeteira, vidros etc.; permaneceu junto aos objetos por alguns minutos e começou a se retirar passando novamente pelas pessoas sem parecer prestar aten-ção a elas. Um dos presentes per-guntou por que ele foi e voltou do fundo da sala e Fred respondeu que falava com as coisas. Posteriormen-te, começou a buscar se comunicar com os demais, fazendo-lhes sempre

as mesmas perguntas, para as quais sempre sabia as respostas. Mostrou-se inteligente e com bom humor gos-tando, entretanto, de contar as mes-mas piadas, repetidas vezes.

Sua chegada ao CARIM era sempre um momento bem difícil, já que ficava agitado, aumentando seus maneirismos motores, chegando, por vezes à autoagressão. Relacionamos este comportamento ao fato de sepa-rar-se de sua mãe, que o deixa pela manhã, só voltando à tarde para bus-cá-lo. Muitas vezes essa angústia era verbalizada por ele com um “eu vou desmaiar” e a seguir sentava-se ao chão, balançando o corpo, com seus movimentos estereotipados. Porém, ao longo do dia, Fred ia melhorando e conseguia ficar no Centro.

À medida que sua interação grupal foi sendo mais solicitada, tanto pelos técnicos como pelos outros ado-lescentes, vimos em Fred algumas surpreendentes mudanças compor-tamentais. Percebemos que come-çou a ter várias atitudes provocativas e agressivas com os demais. Sujava-os com tintas usadas nas oficinas, jogava sujeira nos copos de refresco durante o lanche coletivo, provocava alguns outros até que o ameaçassem de agressão. Tamanho foi o incômodo dos demais adolescentes que, numa dinâmica de grupo realizada durante uma das oficinas terapêuticas, Fred foi escolhido por vários colegas para ser deixado numa ilha deserta.

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Pos-Da Clínica à Reabilitação Psicossocial - Manual de Saúde Mental de crianças e Adolescentes 45

teriormente, durante sua permanên-cia no Centro, começou a se utilizar da fantasia de uma personagem de um programa de televisão - a feiticei-ra. Solicitava que o ajudássemos a confeccionar a fantasia e não aceita-va ficar no CARIM sem ela. Recebia a zombaria dos demais com aparente indiferença e não retirava a fantasia. Paulatinamente, Fred foi necessitan-do menos necessitan-do recurso da personagem até abandoná-lo. Atualmente conse-gue ficar mais tempo nas atividades e tem melhorado sua interação com o grupo, embora ainda mantenha seus comportamentos em menor intensi-dade.

Inicialmente, vimos em seu comportamento a confusão entre seres inanimados e seres de lin-guagem, como no episódio em que falava com as coisas. No decorrer do processo, Fred passou a perce-ber mais as pessoas e aceitou estar com o grupo, embora este contato se mantivesse para ele como situa-ção de angústia. Mostrava querer es-tar com o grupo, mas não conseguia relacionar-se bem com ele. Por seus comportamentos antissociais sua mãe achava que ele estava pioran-do e se preocupava com a fantasia de feiticeira que Fred usava. Porém, pudemos verificar que Fred mostrava estar reagindo aos efeitos da rela-ção com o Outro. As crianças autis-tas às vezes agem como se fossem perseguidas pela presença do Outro

e esta perseguição está relacionada ao imprevisível do desejo manifesta-do pelos outros. Elas necessitam que nada se mova, a presença de um es-tranho pode ser sentida como intru-siva ou imprevisível. Numa tentativa de garantia de previsibilidade, Fred fazia perguntas para as quais já tinha as respostas e, desta forma, tentava deixar o outro numa posição fixa, es-tável, sem surpresas. Acontece que o outro escapa a previsibilidade, pode zombar de suas perguntas, não que-rer respondê-las ou não lhe dar as respostas esperadas. Isto desestabi-liza sua rigidez e as necessidades de controle. Seus comportamentos pro-vocativos evocam a atitude perversa e o que está em jogo é uma reação de controle à presença perturbadora do Outro. A “piora” de Fred pode ser uma reação às mudanças a qual ele respondia com as atitudes agressivas e antissociais. Tudo que multiplica as demandas sobre ele, tudo que se mostra mutável tem sobre Fred uma forte incidência, como se sua própria estabilidade dependesse de que o Outro- representado por qualquer pessoa com quem interaja- permane-ça imóvel, previsível. Porém, mesmo reagindo à presença do Outro, por toda a característica de invasão que essa presença tem para ele, Fred não recusou, terminantemente, essa presença, vindo ao CARIM todos os dias por vontade própria.

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de Fred, sua mãe também foi acolhi-da pelo Serviço. Frequenta o grupo de familiares e participa de entrevis-tas conjunentrevis-tas, periódicas com o filho. Trabalha-se a dificuldade de sepa-ração entre eles o que leva a alguns impasses: situações de agressivida-de do adolescente; boicote da mãe ao trabalho de reinserção escolar do filho; interferência da mãe nas ativi-dades durante a estadia de Fred no CARIM. O trabalho terapêutico inclui a necessidade de auxiliar os pais a lidar com a ansiedade de ter um filho autista, os possíveis sentimentos de culpa e a insegurança sobre o desen-volvimento da criança. Saber que po-dem contar com pessoas para ajudá-los é essencial. Devem-se aproveitar todas as potencialidades da criança; evitar que viva isolada, sem, contudo, forçar uma aproximação que ela não suporte; verificar se pode participar de alguma forma de escolarização; avaliar se necessita de alguma medi-cação- que apesar de não modificar fundamentalmente o quadro autista, pode, por exemplo, diminuir a agita-ção ou a autoagressão. No caso, o adolescente foi medicado com rispe-ridona, entre 2 e 4 mg/dia.

Diagnóstico

Fred recebeu o diagnóstico de Autismo. A denominação Autismo foi criada por Leo Kanner, em 1943 e serve para definir a forma clássica do problema. Como existem várias

for-mas interligadas de autismo denomi-na-se o conjunto Transtornos Globais do Desenvolvimento. Eles aparecem em cerca de 4 a 5 crianças em cada 10 mil (prevalência) e são mais co-muns em meninos que em meninas numa proporção de 4:1. No caso de Fred é possível discutir se seu diag-nóstico não seria mais provavelmen-te a chamada Síndrome de Asperger, um subtipo de Transtorno Global do Desenvolvimento considerado como um autismo de melhor funcionamen-to, com preservação da linguagem e evolução mais favorável.

O autismo surge, em geral, no primeiro ou segundo ano de vida, mas só costuma ser diagnosticado e tratado muito mais tarde. A falta de atendimento mais precoce acentua os prejuízos ao desenvolvimento da comunicação, do comportamento e da aprendizagem.

Os principais sintomas são: a criança pode demonstrar indiferença aos cuidados maternos, falta de con-tato visual com a mãe, resistência a qualquer mudança no seu ambiente, não brincar com outras crianças, fazer movimentos repetidos e estereotipa-dos- balançar as mãos, girar objetos, balançar o corpo etc. A fala pode não surgir ou aparecer apenas de forma estranha- repetição de palavras, não usar o pronome pessoal na primeira pessoa: responder, por exemplo,Fred quer comer, quando alguém pergunta Fred quer comer?

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Apesar de não estar clara a sua origem, há uma tendência para iden-tificar o autismo com causas neuro-biológicas. Qualquer que sejam as causas, a dificuldade de interação so-cial da criança pode agravar-se com o rechaço social e a falta de cuidados apropriados.

Algumas poucas crianças autis-tas apresentam talentos extraordiná-rios – grande capacidade de memo-rização, habilidade musical precoce etc. – a maioria, no entanto, tem di-ficuldades cognitivas, sendo algumas francamente retardadas.

De qualquer modo, mesmo que se possa demonstrar uma base orgâ-nica para o autismo, continua em jogo a questão de que resposta dará o su-jeito para o problema que lhe é im-posto pela alteração orgânica. Nesse sentido vale a pena explorar algumas questões apresentadas por Fred com sua maneira peculiar de colocar-se como sujeito. Sua história de relação extrema com a mãe e de dificuldades de outros vínculos interpessoais jus-tificava sua angústia em ficar só, sem a mãe: a separação é vivida como desespero ativo, como se o corpo literalmente caísse, privado de

ener-gia, visto que a separação da mãe é vivida como a perda de parte de si mesmo. Talvez, por isto Fred quase desmaie quando do afastamento da mãe.

Diagnósticos diferenciais

a considerar

Surdez

Crianças surdas de nascença não falam e têm outras dificuldades de contato que podem ser confundi-das com autismo. Muitas vezes um exame especializado deve ser feito. Mutismo eletivo (ou seletivo)

Certas crianças apresentam ca-pacidade de falar normalmente, mas não falam em ambientes fora de casa - escolas, por exemplo- são muito tí-midas na presença de estranhos. Abandono

Crianças que sofreram grave negligência podem apresentar um grau de retraimento e desinteresse que chega a ser confundido com au-tismo.

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Para saber mais

Lewis, M. - Tratado de psiquiatria da infância e adolescência. Artes Médi-cas, Porto Alegre, 1995. (Informações sobre etiologia, epidemiologia, clínica e tratamento do autismo.)

Ansermet, F. - Autismo e a resposta do sujeito. In: Clínica da Origem- a criança entre a medicina e a psica-nálise. Contra Capa, Rio de Janeiro, 2003.

Mannoni, M.- A criança retardada e a mãe. Martins Fontes, São Paulo, 1999.

Alberti, S. (org.) Autismo e esquizo-frenia na clínica da esquize. Marca d’Água, Rio de Janeiro, 1999. (artigos sobre psicose e sobre o autismo do ponto de vista da psicanálise lacania-na)

Referências

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