Sociedade, Estado e Mercado
Aula 11 – Teoria da Dependência Prof.: Rodrigo Cantu
• Mini-sistemas /
Sistemas mundo
• Impérios mundo • Economias mundo • Centro / semi-periferia / periferia • Vantagem econômica do centro: fronteira tecnológica • Vantagem político-militar • TSM vs MarxGiovanni Arrighi
Gráfico 1 – PIB como proporção do PIB mundial
A descoberta da América e a de uma passagem para as Índias
Orientais pelo cabo da Boa Esperança são os dois maiores e mais importantes eventos registrados na história da humanidade. [...] Por unirem, até certo ponto, as regiões mais distantes do mundo, por
possibilitar-lhes aliviar mutuamente as
necessidades
, aumentar suas satisfações e estimular sua atividade, sua tendência geral pareceria ser benéfica. Para os nativos, porém, tanto os das Índias Orientais como os das Índias Ocidentais, todos os benefícios
comerciais que possam ter advindo desses eventosnaufragaram e se perderam nos
infortúnios horríveis
que provocaram. Contudo, esses infortúnios parecem ter derivado mais de acidentes do que da própria natureza desses eventos.Na época específica em que se realizaram tais descobertas, aconteceu que a
superioridade de forças
estava a talponto
do lado dos europeus
, que estes puderam cometer impunemente toda sorte de injustiças naquelas regiõeslongínquas. Futuramente, porém, é possível que os nativos desses países se tornem mais fortes, ou os da Europa mais fracos, e os habitantes de todas as diversas regiões do mundo possam chegar àquela
igualdade de coragem e força
que, inspirando temor mútuo, constitui o único fator suscetível de intimidar a injustiça de nações independentes etransformá-la em certa espécie de
respeito pelos direitos
recíprocos
. Contudo, nada parece ter mais probabilidade de criar tal igualdade de força do que o intercâmbio mútuo de conhecimentos e de todos os tipos de aprimoramentos que natural, ou melhor, necessariamente, traz consigo um amplo comércio entre todos os países.Teoria crítica latino-americana
Aníbal Quijano (1928 -) Fernando H. Cardoso (1931 – ) Enzo Faletto (1935 – 2003) Walter Mignolo (1941 -) Enrique Dussel (1934 -)Teoria da Dependência
Antecedentes: • Desenvolvimento desigual e combinado (Trostsky) • Teorias do imperialismo (Lenin) • Ausência de feudalismo na América Latina (C. Prado Jr.) • Desenvolvimento para fora vs para dentro (Cepal)Teoria da Dependência
Correntes: • Estruturalistas: R. Prebisch, C. Furtado, O. Sunkel, A. Pinto, H. Jaguaribe, M. C. Tavares, A. Ferrer • Não-marxistas: F. H. Cardoso e E. Faletto • Marxistas: R. M. Marini, T. dos Santos, V. BambirraTeoria da Dependência
Teses centrais:
A dinâmica econômica de certos países é condicionada pela dinâmica (expansão e retração)
de outra economia
à qual está subordinadaAmérica Latina sempre foi capitalista – colonização europeia como expansão do capitalismo mercantil
Divisão internacional do trabalho – centro (atividades na fronteira tecnológica) e periferia (atividades de baixo valor agregado)
Multi-dimensionalidade da dependência – condição dependente possui consequências não só econômicas, mas também políticas, sociais
Teoria da Dependência
Etapas da dependência na América Latina:
Séc. XVI-XIX– Exportação de produtos primários via monopólios comerciais concedidos pelo Estado colonizador, mão de obra servil ou escrava
Séc XIX – meados do séc XX – Incentivos e investimento do mercado do centro para a produção e exportação de produtos primários, trabalho servil ou assalariado
Meados do séc XX-1990 – Investimentos diretos de empresas multinacionais, indústria do fim do ciclo do produto
1990-Hoje– Abertura do mercado de capitais e dependência de fluxos financeiros internacionais, re-especialização produtiva
Teoria da Dependência
Impactos políticos da dependência:
Centro • Economias integradas • Tecnologia se difunde homogeneamente • Vantagens no comércio internacional • Aumento do salário real • Incorporação política de classes subalternas Periferia • Economias não integradas • Tecnologia concentrada no setor exportador / heterogeneidade produtiva • Desvantagens no comércio internacional • Baixos salários • Exclusão política e social
Impactos políticos da dependência (Cardoso e Faletto):
Economias com controle interno do sistema produtivo
• Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia
• Oligarquia doméstica domina Estado e atividades exportadoras
• Choque adverso: burguesia doméstica se volta à
industrialização (como atividade acessória)
• ↑ Urbanização, ↑ assalariamento • ↑ Mercado interno
Impactos políticos da dependência (Cardoso e Faletto): Economias de enclave • México, Bolívia, Venezuela / Chile, Peru /América Central • Oligarquia doméstica domina Estado, não domina atividades exportadoras • Choque adverso: burguesia internacional não se volta à industrialização • Estado como ator da mudança e incorporação sócio-política de classes médias
Aníbal Quijano (1928 -)
• Nasce em Yanama, Yungay, Peru • Formação: final da década de 1940 – 1964, Peru e Chile • Influência de José Carlos Mariátegui • Década de 1970: Professor em vários países latino-americanos • Década de 1980: Professor nos EUA e na Europa • Universidad Ricardo Palma + Binghamton University, NYQuijano, A. 2005. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, p.117.
A América constitui-se como o primeiro espaço/tempo de um padrão de poder de vocação mundial e, desse modo e por isso, como a primeira id-entidade da modernidade. Dois processos históricos convergiram e se associaram na produção do referido espaço/tempo e estabeleceram-se como os dois eixos fundamentais do novo padrão de poder. Por um lado, a codificação das diferenças entre conquistadores e conquistados na ideia de raça, ou seja, uma supostamente distinta estrutura biológica que situava a uns em situação natural de inferioridade em relação a outros. Essa ideia foi assumida pelos conquistadores como o principal elemento constitutivo, fundacional, das relações de dominação que a conquista exigia. Nessas bases, consequentemente, foi classificada a população da América, e mais tarde do mundo, nesse novo padrão de poder. Por outro lado, a articulação de todas as formas históricas de controle do trabalho, de seus recursos e de seus produtos, em torno do capital e do mercado mundial.
Quijano, A. 2005. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, p.121.
[...] os colonizadores exerceram diversas operações que dão conta das condições que levaram à configuração de um novo universo de relações intersubjetivas de dominação entre a Europa e o europeu e as demais regiões e populações do mundo, às quais estavam sendo atribuídas, no mesmo processo, novas identidades geoculturais. Em primeiro lugar, expropriaram as populações colonizadas – entre seus descobrimentos culturais – daqueles que resultavam mais aptos para o desenvolvimento do capitalismo e em benefício do centro europeu. Em segundo lugar, reprimiram tanto como puderam, ou seja, em variáveis medidas de acordo com os casos, as formas de produção de conhecimento dos colonizados, seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade. [...] Em terceiro lugar, forçaram – também em medidas variáveis em cada caso– os colonizados a aprender parcialmente a cultura dos dominadores em tudo que fosse útil para a reprodução da dominação, seja no campo da atividade material, tecnológica, como da subjetiva, especialmente religiosa. É este o caso da religiosidade judaico-cristã. Todo esse
acidentado processo implicou no longo prazo uma colonização das
perspectivas cognitivas, dos modos de produzir ou outorgar sentido aos resultados da experiência material ou intersubjetiva, do imaginário, do universo de relações intersubjetivas do mundo; em suma, da
cultura
.Quijano, A. 2005. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, p.122.
Conceito de modernidade
“O fato de que os europeus ocidentais imaginaram ser a culminação de uma trajetória civilizatória desde um estado de natureza, levou-os também a pensar-se como os modernos da humanidade e de sua história, isto é, como o novo e ao mesmo tempo o mais avançado da espécie. Mas já que ao mesmo tempo atribuíam ao restante da espécie o pertencimento a uma categoria, por natureza, inferior e por isso anterior, isto é, o passado no processo da espécie, os europeus imaginaram também serem não apenas os portadores exclusivos de tal modernidade, mas igualmente seus exclusivos criadores e protagonistas. O notável disso não é que os europeus se imaginaram e pensaram a si mesmos e ao restante da espécie desse modo –isso não é um privilégio dos europeus– mas o fato de que foram capazes de difundir e de estabelecer essa perspectiva histórica como hegemônica dentro do novo universo intersubjetivo do padrão mundial do poder”.
Quijano, A. 2005. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, p.121.
Nesse sentido, a pretensão eurocêntrica de ser a exclusiva produtora e
protagonista da modernidade, e de que toda modernização de populações
não-européias é, portanto, uma europeização, é uma pretensão etnocentrista e além de tudo provinciana. Porém, por outro lado, se se admite que o conceito de modernidade se refere somente à racionalidade, à ciência, à tecnologia, etc., a questão que estaríamos colocando à experiência histórica não seria diferente da proposta pelo etnocentrismo europeu, o debate consistiria apenas na disputa pela originalidade e pela exclusividade da propriedade do fenômeno assim chamado modernidade, e, em consequência, movendo-se no mesmo terreno e com a mesma perspectiva do eurocentrismo. Há, contudo, um conjunto de elementos demonstráveis que apontam para um
conceito de
modernidade diferente
, que dá conta de um processo histórico específico ao atual sistema-mundo. Nesse conceito não estão, obviamente, ausentes suas referências e seus traços anteriores. Porém, define-se enquanto parte de um universo de relações sociais, materiais e intersubjetivas, cuja questão central é a libertação humana como interesse histórico da sociedade e também, em consequência, seu campo central de conflito.Quijano, A. 2005. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, p.121.
Em primeiro lugar, o atual padrão de poder mundial é o primeiro efetivamente
global da história conhecida. Em vários sentidos específicos. Um, é o primeiro em que cada um dos âmbitos da existência social está articulado a todas as formas historicamente conhecidas de controle das relações sociais correspondentes, configurando em cada área um única estrutura com relações sistemáticas entre seus componentes e do mesmo modo em seu conjunto. Dois, é o primeiro em que cada uma dessas estruturas de cada âmbito de existência social, está sob a hegemonia de uma instituição produzida dentro do processo de formação e desenvolvimento deste mesmo padrão de poder. Assim, no controle do trabalho, de seus recursos e de seus produtos, está a empresa capitalista; no controle do sexo, de seus recursos e produtos, a família burguesa; no controle da autoridade, seus recursos e produtos, o Estado-nação; no controle da intersubjetividade, o eurocentrismo. Três, cada uma dessas instituições existe em relações de interdependência com cada uma das outras. Por isso o padrão de poder está configurado como um sistema. Quatro, finalmente, este padrão de poder mundial é o primeiro que cobre a totalidade
A. Quijano
•
Colonialidade do poder
•
Capitalismo
(economia)•
Eurocentrismo
(simbólico)José Maurício Domingues (1960 -)
• Formação entre 1985-1993, Rio de Janeiro, LSE Londres • Modernidade global e subjetividades coletivas • Incorpora pensadores de outros pontos do sul global: oriente médio, Índia, África do Sul e China.José Maurício Domingues (1960 -)
Críticas ao programa da Colonialidade
Visão reducionista da modernidade
Concentra-se apenas em seus aspectos opressivos
Insuficientes instrumentos para a análise social
Importante perspectiva de denúncia da opressão
Mas permanece como retórica especulativa, fornece poucos conceitos e questões para a investigação empírica
José Maurício Domingues (1960 -)
Alternativas para a teoria social na América Latina Investigação empírica sobre movimentos sociais
reivindicatórios
Crítica imanente diante da teorização crítica Giros modernizadores
Momentos de incorporação institucional de reinvindicações populares
Análise das tendências da modernidade global
Incorporar teorizações do centro e da periferia para a análise da direções da dinâmica opressão-emancipação
Ponto de partida: multidimensionalidade de uma modernidade híbrida