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Petróleo e Guerra Civil no Sudão

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Academic year: 2019

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Petróleo e Guerra Civil no Sudão

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Marco Cepik e Lucas Oliveira**

Neste artigo, procuramos complementar um aspecto já levantado pela análise da crise em Darfur que o professor Nizar Messari1 preparou para o Radar do Sistema Internacional em dezembro de 20062. Trata-se do papel do petróleo na resolução da longa guerra civil no sul do Sudão e os impactos potenciais que o aumento de recursos econômicos controlados pelo governo central em Cartum poderá ter no desenrolar dos conflitos no oeste (Darfur) e no leste do país (na fronteira com a Eritréia).

O Sudão tem o maior território do continente africano, com cerca de 2,5 milhões de Km2 (quase a mesma área da Argentina), e uma população de cerca de 37 milhões de pessoas (também quase a mesma da Argentina), das quais cerca de 22 milhões são árabes e o restante é formado por populações negras de diversas etnias e grupos lingüísticos. Este imenso território é governado por um Estado relativamente bastante reduzido que, segundo cálculos do Banco Mundial, em 1995 tinha rendimentos equivalentes a apenas 7% do PIB nacional. Com o crescimento da produção petrolífera, a porcentagem do PIB sudanês controlado pelo Estado dobrou em apenas dez anos. Além da renda advinda do petróleo ser responsável por 80% dos rendimentos do governo central do Sudão (Cartum), ela representa 99% dos ingressos da região autônoma do sul do Sudão.

A produção de petróleo sudanesa ultrapassou os 520 mil barris/dia em 2007. Isto significa uma rápida expansão, considerando que o país só começou a produzir em 1993 e passou a exportar petróleo somente em 1998, ultrapassando pela primeira vez a barreira dos 100 mil b/d no ano 2000. Este crescimento acelerado criou condições para a reativação de uma indústria ligeira e zonas de exportação que ajudaram a manter taxas de crescimento do PIB entre 6% e 7% desde 2003, fazendo do Sudão uma das economias de mais rápido crescimento na África contemporânea. Os dados

* Artigo produzido em maio de 2007.

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macroeconômicos e o boom imobiliário no distrito empresarial de Cartum (cuja área

metropolitana tem hoje mais de seis milhões de pessoas) contrastam com a tragédia em Darfur (dezenas ou centenas de milhares de mortes segundo diferentes estimativas e milhões de deslocados) e as imagens da pobreza neste país que ostenta hoje o título de maior tragédia humanitária da África.

Embora o país seja rico em recursos minerais que incluem petróleo, gás natural, ouro, prata, cromo, manganês, zinco, ferro, urânio e cobre, a agricultura continua sendo o setor mais importante da economia sudanesa, empregando 80% da força de trabalho e respondendo por 39% do PIB. A instabilidade política crônica, as secas e os preços declinantes dos produtos agrícolas tendem a fazer com que a maior parte da população sudanesa permaneça vivendo abaixo da linha de pobreza ainda por muitos anos.

O governo do general Omar Hassan Ahmad al-Bashir, no poder desde 1989, não tem dado mostras de conseguir ou querer efetivamente implementar os acordos de paz assinados desde 2005 nas três áreas de conflito do país. No sul, o acordo assinado em 2005 com o Movimento de Libertação do Povo Sudanês (em inglês, Sudan People Liberation Movement (SPLM)) foi mantido no plano militar, mas as condições políticas ainda são tensas e instáveis. No leste, um acordo foi feito em 2006 com os rebeldes das milícias conhecidas como Free Lions e Beja Congress, apoiados pela Eritréia, mas os investimentos prometidos por Cartum para a região não se concretizaram ainda e a tensão permanece. Certamente, o caso mais grave segue sendo a região do Darfur, onde os novos combates entre o exército e as milícias Janjaweed contra os rebeldes reagrupados sob a Frente de Redenção Nacional (em inglês, National Redemption Front (NRF)) neutralizaram qualquer expectativa de paz que tivesse sido gerada pelos acordos parciais de 2006. Os combates renovados têm agravado dramaticamente as condições humanitárias na região.

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crise. Um exemplo de quanto os vários conflitos estão relacionados no Sudão foi o recente ataque do NRF fora da região de Darfur contra o poço petrolífero Abu Jabra, que produz 10 mil barris de petróleo por dia, localizado na região de Kurdofan, no centro-sul do Sudão. O grupo rebelde darfuriano realizou um ataque fora da área de Darfur, em uma região controlada pelo governo do vice-presidente Salva Kiir Mayardit desde os acordos de paz de 2005 (Kiir é o atual líder do SPLM após a morte de John Garang).

O novo governo do SPLM não consegue estabilizar a região sul do Sudão, passando a enfrentar inclusive a oposição armada de antigos aliados menores. Alguns destes grupos rebeldes, contrários ao acordo de paz com o governo do norte, continuam a lutar utilizando táticas de guerrilha, ou até o terrorismo. Além disso, continuam as incursões do Exército de Resistência do Senhor (em inglês, Lord’s Resistance Army (LRA)), um grupo fundamentalista cristão ugandense que atua no norte de Uganda e no sul do Sudão e vem lançando ataques contra as forças do SPLM, seu antigo aliado.

Assim, por um lado, os principais confrontos entre as tropas governamentais e os vários grupos rebeldes que ficaram de fora dos acordos de paz assinados nos últimos três anos passaram a ocorrer também nas proximidades das zonas petrolíferas, ou passaram a ameaçar diretamente as instalações da indústria petrolífera. Por outro lado, desde que a repartição das rendas do petróleo passou a ser uma das reivindicações explícitas do SPLM a partir de 2003-2004, a questão do petróleo tornou-se um fator-chave na política sudanesa.

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a explorar petróleo no Sudão, mesmo recebendo duras críticas de políticos e grupos religiosos estadunidenses.

A descoberta recente de novas reservas, calculadas em algo entre 5 e 6 bilhões de barris, na região centro-sul do Sudão, foi o motivo para esta empresa ter se arriscado a romper com o embargo estadunidense, mesmo em uma área então dividida entre o governo de Cartum e o SPLM. As concessões da Chevron foram vendidas para empresas asiáticas, que vêm adquirindo as demais concessões de blocos feitas desde então. Hoje, a CNPC chinesa, a Petronas da Malásia, a ONGC indiana e a Total francesa são as maiores empresas de petróleo operando no país. Juntas, elas formam a Greater Nile Petroleum Operating Company (GNPOC), atualmente a maior empresa de exploração, refino e distribuição de petróleo do Sudão. A GNPOC é controlada com base na seguinte divisão: CNPC da China (40%), Petronas da Malásia (30%), ONGC da Índia (25%) e a estatal sudanesa Sudapet (5%). Em 2006, a produção da GNPOC excedeu os 300 mil barris/dia.

No Sudão, a empresa estatal de petróleo (Sudapet) não é a responsável pela distribuição das concessões, que fica a cargo da uma agência reguladora controlada pelo governo, a Sudanese Petroleum Corporation (SPC). Além das já citadas grandes empresas, estão presentes no Sudão a KFPC (Kuwait), a Thani (Emirados Árabes Unidos) e as independentes IPC e Hi Tech.

Apesar desta relativa diversidade de empresas, a Organização Mundial do Comércio calcula que, em 2004, mais de 64% do total das exportações sudanesas de petróleo tiveram como destino a China, situação que não se modificou até o presente.

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governo de Pequim tem dado ao governo de Cartum devem ser considerados quando se analisa o quadro internacional da região.

Obviamente não se está dizendo que a guerra civil entre o norte árabe e muçulmano e o sul negro e animista/cristão foi causada pelo petróleo, até porque aquela guerra civil começou em 1955 e recrudesceu nos anos 1990, antes mesmo que o petróleo sudanês começasse a ser exportado. Mas os recursos advindos do petróleo (80% dos rendimentos do governo central e 99% dos ingressos da região autônoma do sul do Sudão), as obras de infra-estrutura (sobretudo para o escoamento da produção do centro-sul por Port Sudan e pelo Mar Vermelho) e a geografia das possibilidades de novos campos de petróleo na região sul de Darfur indicam que o petróleo está se tornando um fator de crescente importância para se entender a dinâmica do conflito e as possibilidades de paz naquele país.

A questão reside em saber por quanto tempo o governo central conseguirá evitar um acordo de redistribuição mais eqüitativa dos recursos do petróleo e de compartilhamento do poder entre os 26 estados que formam o país. Isto é algo que tampouco o SLPM parece interessado em fazer, pois implicaria expandir o modelo de incorporação mais autônoma do sul para as três províncias de Darfur, os estados do leste e do norte do país (onde há severos descontentamentos nos estados compreendidos pelos desertos da Líbia e da Núbia). Sendo que isso limita as opções separatistas do SPLM, ainda abertas para o grupo em virtude dos acordos de 2004-2005.

Por outro lado, a ênfase recente dos Estados Unidos em sanções econômicas unilaterais contra Cartum tende a agravar ainda mais as condições de operação da União Africana e das Nações Unidas na região. Principalmente porque reforça a resistência de Cartum e Pequim em aceitarem acordos que criminalizem internacionalmente o governo do Sudão ou responsabilizem exclusivamente as milícias Janjaweed e não incluam os grupos do NRF darfuriano como parte do problema.

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de evitar o colapso das operações de ajuda humanitária no Sudão e no Chade nos próximos meses seria implementar as forças de paz indicadas na resolução 1.706 do Conselho de Segurança da ONU prioritariamente com contingentes da União Africana, reforçando-as com investimentos massivos de recursos internacionais canalizados para sustentar a vida dos milhões de refugiados dessa guerra civil que já dura quatro anos.

Infelizmente, nem a pressão dos Estados Unidos, nem o agravamento humanitário da região serão suficientes para forçar o governo do general al-Bashir a ceder na direção de um novo pacto constitucional. Para isso, a China e a Liga Árabe precisariam intervir diplomática e financeiramente dando garantias aos principais atores sudaneses de que as concessões mútuas não ameaçarão os prospectos de desenvolvimento econômico que se abriram com o crescimento da produção de petróleo no país.

Notas

1 Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

(IRI/PUC-Rio).

2 “Darfur – Um Genocídio diante dos nossos Olhos”. Disponível em:

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