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IDENTIDADE CULTURAL DE ANASTÁCIO-MS: UMA
PERSPECTIVA DE ANÁLISE
Fernanda Kiyome Fatori Trevizan1
Leonel Brizolla Monastirsky2
Ingrid Aparecida Gomes3
RESUMO:
O município de Anastácio (MS) teve o inicio de sua formação tal como outros no Brasil, recebendo inúmeros migrantes e imigrantes, que continuam compondo sua população; dessa forma, constituindo uma cultura local heterogênea que representa cada um desses (i)migrantes, através da observação de diferentes manifestações culturais. O estudo propõe uma forma de análise da identidade cultural de Anastácio, a partir da compreensão das culturas que constroem a identidade cultural e também dos processos dialéticos entre o local e o global e, da dinâmica entre territórios e as transformações que as culturas apresentam na localidade.
Palavras-chave: Cultura, Identidade e Território.
INTRODUÇÃO
No início da colonização da região sudoeste do então Estado de Mato Grosso, os rios – entre eles o Aquidauana - se constituíam nas principais vias de transporte. Por volta de 1870 iniciou-se a ocupação das terras e povoamento da região. Em 1872, um italiano, Vicente Anastácio estabeleceu-se na região ao comprar uma propriedade, a Fazenda Santa Maria (CABRAL et al, 2003).
1
Discente na Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR (UEPG) no Programa de Pós-Graduação em Geografia – Mestrado em Gestão do Território. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
2 Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atualmente docente na
Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR (UEPG).
3 Discente na Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR (UEPG) no Programa de Pós-Graduação em
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, Posteriormente, nesta mesma propriedade foi onde se estabeleceram as construções que são consideradas como os primeiros estabelecimentos comerciais, sendo que alguns resistem até hoje como a Casa Cândia4. No entanto, com o advento da
estrada de ferro, mais precisamente em função dos trilhos que foram instalados na outra margem, o centro administrativo e populacional foi transferido para o outro lado do rio, originando assim o município de Aquidauana.
A partir do momento em que o núcleo populacional de Aquidauana passou a se desenvolver iniciou-se o movimento para a emancipação de Anastácio, que a principio era um bairro de Aquidauana e depois havia se tornado distrito, em 20 de novembro de 1958, pela Lei n°1.164 e, em seguida, passou a ser considerado município, pela Lei n°2.143, de 18 de março de 1964, da Assembléia Legislativa de Mato Grosso. Entretanto, comemora-se o seu aniversário no dia 8 de maio (S/A, 2009).
O município de Anastácio possui área de 2 954 60 km2, sendo que a maior parte é ocupada por propriedades rurais, e possui uma população aproximada de 23.012 habitantes de acordo com o censo IBGE 2008 (S/A, 2009). Sua área rural é constituída por propriedades particulares (sítios e fazendas) e três assentamentos (Monjolinho, Marcos Freire e São Manoel). Com relação à economia, a pecuária destaca-se principalmente na criação bovina de corte, em razão da existência de um frigorífico na cidade. A produção agrícola do município se restringe na maioria dos casos em produções de subsistência (principalmente nas áreas dos assentamentos), mas alguns produtos são vendidos no comércio local. Dentre os produtos cultivados, estão o milho, arroz de sequeiro, banana, laranja e mandioca, que possui grande expressividade no comércio local através da venda do produto in natura e/ou seus derivados, como a
farinha de mandioca e o polvilho (SILVA et al, 2005/2006).
4 A Casa Cândia faz parte do conjunto de dez casarios de estilo eclético que foram tombados pelo
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Figura 01: Localização do município de Anastácio-MS. Organização: GOMES e TREVIZAN, 2009.
A população do município é formada por uma miscigenação de povos, dentre os quais os imigrantes italianos, japoneses, paraguaios, bolivianos, alemães; e os migrantes de diversas regiões do Brasil – gaúchos, paulistas, mineiros e, principalmente, os nordestinos. Considerando que cada povo (i) migrante possui características próprias de suas regiões de origem, o município recebe diversas influências, que contribuem para a formação da identidade cultural, acrescentando a tal, a dialética entre os territórios de origem dos fluxos migratórios e do município, onde se estabeleceram.
RELAÇÕES ENTRE CULTURA, IDENTIDADE E TERRITÓRIO
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, Os municípios brasileiros apresentam diversas influências que tem origem em diferentes regiões do país como também do mundo. O município de Anastácio-MS não foge a essa lógica, pois apresenta em sua população migrantes e imigrantes de diversas localidades e também compõe a relação dialética entre o local e o global.
A cultura pode ser caracterizada como o “[...] conjunto de valores, materiais e espirituais criados pela humanidade, no curso de sua história” (SODRÉ, 1996, p. 03) e, por estar inserido na história de cada local considera-se que definir a cultura em um conceito universal é uma tarefa árdua, em razão de sua complexidade e de sua abrangência. Apesar da cultura se apresentar de maneira significativa nas sociedades atuais, porque através dela são transmitidos e difundidos os conhecimentos, crenças, costumes e tradições de uma comunidade, pois a cultura está intrínseca aos seres humanos que vivem em sociedade, Tinhorão (2001) afirma que suas manifestações na coletividade não têm recebido a devida atenção que é necessária, visto que a cultura muitas vezes é encarada apenas como um produto de utilização e consumo econômico de algumas atividades tal como o turismo.
Cuche (2002) caracteriza a cultura como um fator de diferenciação das populações, que nos remete aos modos de vida e de pensamento que “[...] oferece a possibilidade de conceber a unidade do homem na diversidade de seus modos de vida e crenças [...]” (p. 13). A proposta do autor mostra que a cultura é encarada de acordo com a sociedade e o período em que se manifesta. Por essas e outras motivações, a definição de cultura em conceito único enfrenta os mesmos desafios encontrados pelo turismo, em razão de sua complexidade e sua abrangência.
Já Certeau (1899, p. 195) define a cultura como sendo “[...] um funcionamento social, uma topografia de questões ou tópicas, um campo de possibilidades estratégicas e das implicações políticas”, ou seja, onde cultura atua como agente social de mudanças. Cuche (2002) também referência a cultura partindo da idéia de que o homem atua como agente de transformação, no entanto, para o autor, a cultura é o que permite a transformação do homem em agente, pois “[...] a cultura permite ao homem adaptar-se a seu meio, mas também adaptar este meio ao próprio homem, a suas necessidades e seus projetos” (p. 10), dessa forma, a cultura torna possível não somente a transformação tanto da natureza quanto do homem.
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, por um modo especifico de subjetividade”. Também é encarada como um sistema de significações que é produzido pelas representações que, por sua vez, a ênfase nestas “[...] e o papel-chave da cultura na produção dos significados permeia todas as relações sociais; levam, assim, a uma preocupação com a identificação” com o que vem a ser considerado como a identidade cultural (WOODWARD, 2000, pp. 18-19); sendo que a identidade pode ser compreendida como “[...] um significado – cultural e socialmente atribuído” aos indivíduos que vivem em uma determinada sociedade (SILVA, 2000, p. 89).
Considerando que a identidade cultural está diretamente relacionada com a sociedade que representa e também com a formação desta, nota-se que um fator de grande importância e influência para a identidade, são as culturas que estão inseridas na localidade, como as culturas dos autóctones, dos imigrantes e migrantes. O município de Anastácio (MS) possui a sua população diversificada devido aos fluxos de deslocamento, migrantes e imigrantes, que recebeu durante sua formação e, consequentemente, contribuíram não somente com sua formação populacional, mas também com a formação de sua cultura e identidade.
A identidade pode ser compreendida como “[...] um significado – cultural e socialmente atribuído” aos indivíduos que vivem em uma determinada sociedade (SILVA, 2000, p. 89). Segundo Silva (2000), “o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar; de outro, os processos que tendem a subvertê-la e desestabilizá-la” (p. 84). Partindo dessa premissa, nota-se que a construção da identidade cultural de uma localidade se trata de um processo que, muitas vezes, pode vir a ser arbitrário, visto que ocorreriam para corresponder as necessidades e vontades de apenas um grupo ou parcela hegemônica das populações, o que pode não ser a verdadeira identidade da localidade.
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, superação e diferenciação “implica também em construir representações e promover identificações”.
Oliveira (2006) caracteriza a identidade cultural como “[...] um sistema de representações das relações entre indivíduos e grupos, que envolve o compartilhamento de patrimônios comuns [...]”, sendo que a autora também a considera como sendo um “[...] processo dinâmico, de construção continuada que se alimenta de várias fontes no tempo e no espaço”. Uma vez que a identidade cultural é caracterizada primeiramente em função das relações culturais que irão estabelecer-se nas localidades, torna-se primordial a compreensão das dinâmicas territoriais que irão se estabelecer, para tal, faz-se necessária à discussão de territórios e suas territorialidades.
Desta forma, é necessário explicitar de forma clara as noções de território e territorialidade a serem trabalhadas nesta investigação, buscando facilitar o entendimento da pesquisa proposta. É possível evidenciar várias formas de se trabalhar essas temáticas de acordo com o referencial teórico e ideológico adotado pelo pesquisador. Este carrega consigo sua própria carga ideológica e sua ótica predominante de entendimento.
Para essa pesquisa, todavia, procurou-se abordar o território de forma mais ampla, não apenas como espaço fisicamente delimitado, mas também enquanto um ambiente que pode ser fluído, assumindo variadas dimensões de acordo com os temas a ele associados, inclusive com a relação sociedade – natureza, bastante presente. É importante salientar que a abordagem utilizada de território, parte do princípio de que ele se apresenta como objeto por compreender em si as relações sociais da comunidade, configurando, portanto, uma análise social.
A noção de território está relacionada aos fundamentos materiais do Estado,
conforme propôs Ratzel (1988 apud HAESBAERT, 2004), trata-se de uma associação
entre a dimensão social-política do espaço e o meio físico. O resultado desta associação configura a condição favorável para se construir o “espaço vital” proposto pelo autor, no qual este espaço seria ideal para o desenvolvimento e reprodução de um grupo social ou uma civilização relacionada aos recursos naturais disponíveis.
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, habitado por elas, visto que o território muitas vezes é relacionado com a gestão ou o poder de uma determinada área. A Antropologia evidência o território como uma dimensão simbólica; a Sociologia caracteriza-o a partir das relações sociais; a Ciência Política defende que a formação do território se dá a partir das relações de poder, geralmente vinculado ao poder estatal; a Economia vê como a principal base e fonte para a produção; a Psicologia trabalha o território enquanto elemento de construção da identidade pessoal, partindo de uma escala macro (coletiva) até a escala do individuo; a Etologia associa o território com o comportamento instintivo animal e por fim a Geografia que remete o território a espacialidade humana, onde existe uma tendência de enfatizar o mesmo em suas variadas representações.
Para Haesbaert (2004) o território pode ser considerado um termo geral, utilizado por várias áreas do conhecimento para descrever um espaço ocupado por um indivíduo, grupo ou o Estado. A noção de território carrega em si, uma representação marcante; trata-se da representação de um espaço apropriado política e simbolicamente, a qual se relaciona diretamente com a delimitação, a utilização, a distribuição e, sobretudo, a identificação do território.
Há pelo menos três vertentes básicas para as noções de território: uma política, que está atrelada à relação espaço e poder, onde o espaço é delimitado e controlado por certo poder exercido; uma cultural, onde o território é visto como o produto da apropriação e/ou valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço ocupado; e econômica (ou economicista), na qual o território equivale a uma fonte de recursos, onde há também embate entre classes sociais na relação capital – trabalho (HAESBAERT, 2004). Essas vertentes representam uma “visão” parcial de território quando se enfatiza apenas uma dimensão natural, cultural, econômica ou política. Há ainda possibilidade de existir uma quarta vertente, a chamada Naturalista. Esta estabelece a noção de território com base no comportamento natural dos homens em relação ao ambiente físico no qual está inserido, contudo nas relações homem-natureza.
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, METODOLOGIA DE TRABALHO E RESULTADOS ESPERADOS
Através do desenvolvimento da pesquisa, busca-se analisar a identidade cultural do município de Anastácio-MS, partindo do contexto social e cultural da localidade, considerando as influências exógenas; dessa forma, diagnosticar as culturas que se destaquem na localidade, avaliando as transformações que estas irão acarretar na sociedade local; e, legitimação das manifestações culturais encontradas no município de Anastácio, através do comparativo entre os territórios de Anastácio e os das origens dos fluxos (i) migratórios.
Para tal, a proposta de metodologia de pesquisa baseia-se na pesquisa qualitativa, onde três etapas serão de suma importância:
1ª. Trabalho de campo: onde será feita pesquisa qualitativa de levantamento de informações sobre as culturas presentes no município através de entrevistas junto à população local.
2ª. Levantamento de dados: após identificar quais as culturas presentes no município, pesquisar as mesmas e suas manifestações na origem, através do levantamento de dados em referências, com uma análise comparativa da forma que se manifestam em ambas as localidades; de modo a estabelecer se houve ou não modificações na maneira que se demonstram.
3ª. Análise da identidade cultural: por meio da comparação entre os resultados obtidos nos dois procedimentos anteriores, estabelecer como ocorre a relação da identidade cultural do município de Anastácio (MS) com o contexto social e cultural, através da dialética entre os territórios (na qual, está presente os movimentos de territorialização, desterritorialização e multiterritorialização das culturas) - do município e das origens das influências exógenas; e a dialética entre o local e o global, a que Anastácio está sujeito.
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, se esperam encontrar, devem caracterizar as diferentes territorialidades que venham a estarem presentes no município e, estabelecer relações com as características encontradas em Anastácio (para que possam ser considerados integrantes culturais do território), a fim de identificar a cultura hegemônica na localidade.
REFERÊNCIAS
CABRAL, Silas et.al Anastácio 38 anos. Campo Grande-MS: Gráfica e Editora
Alvorada, 2003;
CERTEAU, Michel de. A Cultura no Plural. – São Paulo: Papirus, 1899;
CUCHE, Denys. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. – Bauru-SP: EDUSC, 2002;
HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: Do “Fim dos Territórios”
à Multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004;
OLIVEIRA, Lúcia Maciel Barbosa de. Identidade Cultural. Disponível em:
http://www.esmpu.gov.br/dicionario/tiki-index.php?page=Identidade+cultural (acesso em: 14 de Outubro de 2008);
S/A. Anastácio. Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anast%C3%A1cio_(Mato_Grosso_do_Sul). (acesso em: 18 de julho de 2009);
SCHLLE, Aldyr Garcia. Testemunhos de identidade. IN: SCHÜLLER, Fernando Luis e BORDINI, Maria da Glória. Cultura e Identidade Regional. – Porto Alegre-RS: EDIPUCRS, 2004;
SILVA, Samira Gama et al. Anastácio/MS: Análise Institucional e Qualidade de Vida.
In: GABRIEL, Maria Lúcia Atique et.al. (orgs). Revista ECETUR – Encontro
Cientifico de Estudantes de Turismo. – Três Lagoas-MS: AEMS, 2005/2006.
SILVA, Tomaz Tadeu. A Produção Social da Identidade e da Diferença. IN: SILVA, Tomaz Tadeu. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estados culturais. – Petrópolis-RJ: Vozes, 2000;
SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese da História da Cultura Brasileira. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
TINHORÃO, José Ramos. Cultura Popular: temas e questões. – São Paulo: Editora 34, 2001.
WOODWARD, Katryn. Identidade e Diferença: uma introdução teórica e conceitual.
IN: SILVA, Tomaz Tadeu. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estados